“Eu sou sempre pela aventura e por isso mesmo gosto tanto do Brasil”
(Jorge Dias, 1965 [2021]: 208)
Esta resenha analisa a edição em formato de livro das cartas recebidas entre 1949 e 1972 por Jorge Dias (1907-1973) – autor central na história da antropologia portuguesa – de pesquisadores das áreas da antropologia, sociologia e estudos de folclore que viviam no Brasil. Nesse sentido, o volume é um importante aporte para a biografia intelectual de Dias e dos seus interlocutores, assim como para a história das ciências sociais em Portugal e no Brasil. Além disso, a publicação permite dar corpo e alma a tantos autores que frequentemente só conhecemos por meio da sua escrita científica, constituindo, assim, uma aprazível leitura e uma demonstração de como o trabalho intelectual também assenta numa rede de (des)afetos
A correspondência é constituída por 149 cartas de 25 pesquisadores, mas, infelizmente, só inclui duas respostas de Dias. Quase metade das cartas está datada entre 1952 e 1956. Após esse período, registou-se um abrandamento da comunicação (por vezes, assinalado com mágoa pelos interlocutores), que estará relacionado com a reorientação do trabalho de Dias para as colónias portuguesas. Os correspondentes incluem quase todos os cientistas sociais e folcloristas relevantes à época no Brasil, nomeadamente Eduardo Galvão, Egon Schaden, Herbert Baldus, Manuel Diegues Júnior, René Ribeiro e Thales de Azevedo. Apesar de no passado já ter havido colaboração entre Brasil e Portugal nos domínios científicos em apreço, o intercâmbio com Dias parece ter sido o mais intenso. Por consequência, a pesquisa das respostas do antropólogo português nos acervos brasileiros é um projeto que, apesar de ambicioso, o livro aqui resenhado demonstra ser importante realizar.
A publicação também inclui dois ensaios de enquadramento histórico-científico de Ana Teles da Silva (Museu Nacional de Belas-Artes/Instituto Brasileiro de Museus), organizadora do volume e responsável pelo estudo inicial da correspondência, e de João Leal, professor na Universidade Nova de Lisboa e autor de referência no estudo da história da antropologia em Portugal, em particular na sua articulação com o conceito de cultura popular.
O capítulo de Leal sintetiza o percurso profissional do antropólogo português. Após a conclusão do seu doutorado na Alemanha, em 1944, com uma tese sobre comunitarismo em Vilarinho da Furna, Dias regressou a Portugal, onde, em 1947, assumiu a direção da Secção de Etnografia do Centro de Estudos de Etnologia Peninsular. Os anos seguintes foram de intensa atividade e de afirmação intelectual a nível nacional e internacional. Nessa altura, publica alguns dos seus trabalhos mais importantes e assume a regência das cadeiras de antropologia em universidades portuguesas, contribuindo para a institucionalização dessa disciplina. Paralelamente, expande a sua ação e visibilidade internacional na Europa e nos Estados Unidos.
A relação de Dias com o Brasil atravessou esses vários vetores. No início da década de 1950, o antropólogo deslocou-se àquele país durante temporadas extensas, visitando diversos estados brasileiros, lecionando cursos e participando de encontros científicos com repercussão relevante, sendo nomeado, em 1958, sócio correspondente da Associação Brasileira de Antropologia. Houve, inclusive, uma tentativa não consubstanciada de desenvolver uma pesquisa com uma comunidade suábia de origem alemã que tinha se refugiado no estado do Paraná após a 2ª Guerra Mundial. Segundo Loureiro Fernandes (1955 [2021]: 170), o trabalho tinha como objetivo “surpreender os incipientes fenômenos de assimilação e aculturação resultante do contato das duas populações”.
A correspondência também contribui para refletir sobre a articulação, porosidade e competição no Brasil dos anos 1950 entre uma antropologia em fase de crescente afirmação disciplinar e institucionalização universitária e os estudos de folclore, que se encontravam em expansão em institutos federais e estaduais. Silva ( 2016 ) argumenta, num artigo relevante como complemento a este livro, que, apesar de Dias ter se correspondido com aqueles dois campos (plurais e não estanques), nomeadamente devido ao seu extenso trabalho em Portugal na área da cultura popular – um conceito que, porém, se desenvolveu de maneiras diferentes nos dois países (Leal, 2016 ) –, nota-se, na correspondência, uma preferência implícita daquele antropólogo pelos pesquisadores que estavam a explorar uma sistematização mais científica. Contudo, curiosamente, foram Renato Almeida e Câmara Cascudo que revelaram reflexões epistemológicas mais explícitas sobre esses temas. O primeiro, fundador da Comissão Nacional de Folclore, advogou, em carta de 1954, que o folclore fazia parte da antropologia cultural e que o seu campo se sobrepunha parcialmente ao da etnografia. O folclore distinguia-se das outras áreas por ser “o estudo da cultura espiritual dos povos primitivos e do povo nas sociedades civilizadas e da cultura material em tudo quando se relaciona com a espiritual” (Almeida, 1954 [2021]: 242). Cascudo (1956 [2021]: 82), em carta de 1956, enfatizou a importância de os técnicos brasileiros compreenderem a diferença entre “folklore e etnografia”. Porém, apesar de ser atualmente mais conhecido enquanto folclorista, apresentou-se em carta de 1960 como um “etnógrafo-de-campo” que tinha uma “atitude simplista e natural” (Cascudo, 1960 [2021]: 84) em relação à divisão disciplinar que tenderia a convergir no estudo do homem. Mesmo assim, continuava a colocar “um objeto na classe folclórica quando ele passa as dimensões de sua imediata objetivação utilitária e possui superstição, etiologia mítica, projeção lúdica” (Cascudo, 1960 [2021]: 84). Apesar dessas propostas de sistematização, Pedro Agostinho ainda confidenciava numa missiva de 1969 que, “por cá, folcloristas e etnólogos olham uns para os outros não muito amistosamente. Isto, apesar do folclore estar até institucionalizado oficialmente, numa Comissão Nacional de Folclore. Disse apesar, mas na verdade não sei se deveria ter dito por causa de […]”. (240).
Em todo o caso, como Silva ( 2016: 33) sublinha, o antropólogo português era tido como um “pesquisador admirado” por esses diversos autores porque “a visão da forma de ser e de trabalhar de Dias aparece como autêntica, orgânica e vivaz”. Por exemplo, Florestan Fernandes (1956 [2021]: 114), um sociólogo crítico da alegada falta de cientificidade dos estudos de folclore e, a par de Gioconda Mussolini, um dos autores mais afetuosos nas cartas, advogava que Dias “pertence à categoria dos que não podem estudar as aves nos viveiros ou em gaiolas. Precisa tomar contato com elas no cenário imenso em que a vida é um processo biológico, não uma representação do espírito”. De um modo semelhante, Câmara Cascudo (1954 [2021]: 81) afirmava que, na obra de Dias, “não se sente a distância de um técnico, superior, empoleirado numa torre, olhando o mecanismo da população examinada, mas um depoimento palpitante de interesse e de compreensão sem que abandone os limites do lealismo científico”.
A publicação releva ainda o interesse partilhado por Dias e alguns dos seus interlocutores pela procura de continuidades culturais entre Portugal e Brasil. O capítulo de Leal insere os ensaios de Dias sobre o Brasil na ideia de expansão do seu projeto de caracterização de grandes conjuntos culturais para uma possível área cultural luso-brasileira. Por outro lado, as expectativas dos interlocutores sobre as influências da “matriz lusitana” na cultura brasileira eram diversas. Emilio Willems recebeu com alegria a monografia de Dias sobre Vilarinho da Furna e enviou o seu trabalho relativo à localidade de Cunha, “pois meu atual plano de pesquisa visa o estudo de elementos culturais portugueses que se conservaram, puros ou modificados, na ‘folk cultura’ do Brasil” (Willems, 1949 [2021]: 98). Devido a limitações financeiras e de acesso à bibliografia, o autor propôs noutra carta um início de cooperação em que Dias realizaria um inventário dos elementos culturais de Cunha que ainda existissem nas comunidades rurais em Portugal, enquanto ele faria o exercício simétrico em relação a Vilarinho da Furna. Já Loureiro Fernandes demonstrou um entusiasmo extremamente detalhado, que durou três anos de intercâmbio epistolar, sobre a cultura material de uma determinada prensa de azeite. Em geral, as influências portuguesas eram consideradas positivas, como atesta uma das cartas de René Ribeiro (1952 [2021]: 263): “Terminei agora o relatório da Unesco sobre relações raciais no Nordeste do Brasil e a conclusão naturalmente é definitivamente favorável ao papel aí desempenhado pelo cristianismo luso-brasileiro”.
A correspondência inclui, igualmente, informações sobre a constituição do Museu de Etnologia do Ultramar (hoje, Museu Nacional de Etnologia), que só foi inaugurado após a morte do antropólogo e o fim da ditadura do Estado Novo em Portugal. Enquanto o regime político almejava construir um museu das colónias, Dias procurava erigir uma instituição humanista e universalista, semelhante às congéneres europeias, e que, por isso, também incluía a cultura material das comunidades rurais em Portugal, que ele e a sua equipa tinham estudado, e de outras geografias, como o Brasil. Nesse sentido, o antropólogo contactou Diégues, Eduardo Galvão e Loureiro Fernandes com o objetivo de obter bibliografia e registos visuais e sonoros sobre povos indígenas (não é claro se também pediu elementos de cultura material). O envio desses itens não parece ter se concretizado, mas as cartas incluem recomendações – como a importância de escolher uma área de interesse específico no sentido de organizar uma coleção padrão – que poderão ter sido úteis na expedição de Victor Bandeira ao Brasil em 1964/65, durante a qual recolheu objetos para o Museu, como, entre outros, os Kamayurá e os Karajá. Diégues alegrou-se com a constituição do acervo, e Agostinho (1970 [2021]: 241), que já tinha trabalhado com os Kamayurá antes da sua estadia em Lisboa, escreveu que a “coleção brasileira […] era por sinal excelente”.
Apesar de só existir uma carta de Darcy Ribeiro, ela é reveladora do prestígio do destinatário. Nessa missiva de 1956, o antropólogo e intelectual brasileiro pede o apoio de Dias, enquanto figura consagrada pela sua obra, na candidatura do Marechal Cândido Rondon ao Prémio Nobel da Paz. Ribeiro advoga que essa distinção poderia despertar a opinião pública para os problemas enfrentados pelos coletivos indígenas e “daí a responsabilidade que, a meu ver, sua candidatura representa para nós, etnólogos, interessados no destino dos povos que são objeto de nossos estudos” (Ribeiro, 1956 [2021]: 92).
Em suma, este livro é pertinente para peritos e neófitos. Para os primeiros, as cartas incluem diversas evidências que suplementam a história das ciências sociais e que podem até impulsionar futuras pesquisas. Para os segundos, o livro faculta uma excelente introdução aos temas abordados e proporciona um olhar para o âmago da antropologia: a paixão de estar com as pessoas e de pensar em conjunto.
REFERÊNCIAS
- Leal, João. (2016). A antropologia em Portugal e o englobamento da cultura popular. Sociologia e Antropologia, 6/2, p. 293-319.
- Silva, Ana Teles. (2016). Correspondências de cientistas sociais brasileiros para Jorge Dias: duas margens de uma interlocução transatlântica. Etnográfica, 20/3, p. 607-630.
