Open-access Masculinidades e saúde mental: um olhar sobre a gestão de cuidado em saúde ofertado a homens em um município do Sertão Nordestino

Resumo

Este artigo analisa as relações entre masculinidades e saúde mental a partir do cuidado ofertado a homens que acessem o Sistema Único de Saúde (SUS) no Sertão pernambucano. Ancorado nos estudos de gênero e nas contribuições do campo das masculinidades, compreende o sofrimento psíquico como uma experiência socialmente situada, atravessada por normas de gênero, relações de poder e desigualdades estruturais. A pesquisa adota uma abordagem teórico-metodológica construcionista e foi realizada em um Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) III, utilizando entrevistas/conversas com profissionais da saúde mental. A análise das práticas discursivas examinou repertórios sobre gênero, masculinidades e saúde que informam a gestão do cuidado ofertado aos homens. Os resultados indicam que, embora os profissionais reconheçam a influência das normas de gênero na experiência do sofrimento masculino, essas compreensões nem sempre se traduzem em práticas de cuidado. Observa-se a persistência de uma lógica biomédica marcada pela centralidade dos sintomas e por encaminhamentos para internação psiquiátrica. O estudo também identifica estratégias profissionais voltadas à construção de vínculo e à adesão ao tratamento, problematizando os riscos de reforço de estereótipos de gênero. Conclui-se que a incorporação crítica das discussões sobre masculinidades nas práticas de saúde mental é fundamental para qualificar o cuidado e promover uma atenção mais integral e equitativa aos homens.

Palavras-chave:
Saúde Mental; Masculinidades; Cuidado em Saúde

Abstract

This article analyzes the relationships between masculinities and mental health based on the care provided to men who access the SUS in the Pernambuco hinterland. Anchored in gender studies and contributions from the field of masculinities, it understands psychic suffering as a socially situated experience, crossed by gender norms, power relations, and structural inequalities. The research adopts a constructionist theoretical-methodological approach and was conducted in a CAPS III, using interviews/conversations with mental health professionals. The analysis of discursive practices examined repertoires about gender, masculinities, and health that inform the management of care provided to men. The results indicate that, although professionals recognize the influence of gender norms on the experience of male suffering, these understandings do not always translate into care practices. There is a persistence of a biomedical logic marked by the centrality of symptoms and by referrals for psychiatric hospitalization. The study also identifies professional strategies aimed at building a bond and adherence to treatment, problematizing the risks of reinforcing gender stereotypes. It is concluded that the critical incorporation of discussions about masculinities in mental health practices is essential to improve care and promote more comprehensive and equitable attention to men.

Keywords:
Mental Health; Masculinities; Health Care

Gênero e saúde mental: uma breve discussão

Este artigo propõe um diálogo sobre gênero e masculinidade no campo-tema da saúde mental. Discutir a intersecção entre gênero e saúde mental requer um olhar crítico sobre as categorizações, pois elas tendem a reduzir a complexidade da experiência humana e a limitar as múltiplas formas de existir.

A saúde mental pode ser compreendida como produto de processos sócio-históricos que moldam subjetivações, conhecimentos e práticas. Nessa chave, a literatura recente sobre medicalização, biomedicalização e farmacologização mostra que questões não médicas são recorrentemente convertidas em “transtornos”, e que a dimensão de gênero precisa ser tratada de forma interseccional, especialmente no contexto latino-americano (Caponi; Mazon; Bianchi, 2023). Tal abordagem destaca a complexidade transdisciplinar do campo e evidencia como desigualdades sociais, dispositivos e moralidades atravessam o sofrimento psíquico e sua gestão, inclusive com padrões de excesso de psicofármacos entre setores favorecidos e, simultaneamente, barreiras de acesso em populações vulnerabilizadas.

Importa destacar que tais formas de sofrimento decorrem de assimetrias de poder presentes nas relações sociais e da persistência de papéis e identidades de gênero rigidamente definidos ao longo da história. Nesse sentido, o sofrimento não é considerado uma categoria psicopatológica; ao contrário, é visto também como uma experiência intersubjetiva que intermedia as interações cotidianas (Andrade, 2010).

Ana Paula Andrade (2010) sustenta que saúde mental e gênero são dimensões importantes para o processo de subjetivação, influenciando tanto as políticas públicas quanto as abordagens de cuidado nos serviços de saúde mental. Pontuo aqui que entendemos os processos de subjetivação como sendo a forma através da qual o indivíduo se constitui como sujeito a partir das relações de poder, saber e das relações reflexivas e intencionais pelas quais busca se compreender, regular e transformar.

Nessa mesma direção, Benedito Medrado e Jorge Lyra (2008) assinalam a importância da análise do gênero sob uma perspectiva relacional, interpretando as dinâmicas sociais através da lente das desigualdades produzidas a partir do binarismo masculino/feminino. Para os autores, gênero opera como um modo de subjetivação que atravessa a experiência do sofrimento psíquico; desconsiderar suas marcas fragiliza a leitura em saúde mental (Medrado; Lyra, 2008).

Ao adotar gênero como categoria analítica, ficam explícitas as assimetrias na constituição, configurações e relações entre as pessoas nos processos de subjetivação e interpretações desse sofrimento. Desse modo, os mal-estares subjetivos assumem a forma de uma determinada configuração social, o que exige análise situada e sensível às hierarquias que a produzem (Santos, 2009).

Assim, entende-se que o gênero, enquanto regime de subjetivação, orienta modos de pensar e intervir em saúde mental, em diálogo com a proposta de Judith Butler de gênero como norma histórico-discursiva (Butler, 2008). Essa chave interpretativa aparece também na literatura sobre políticas públicas, em que se evidenciam dinâmicas de medicalização que incidem de maneira particular sobre mulheres usuárias do serviço público. Observa-se também que normas de masculinidade seguem modulando o acesso, a vinculação e os modos de autocuidado em saúde mental: homens tendem a retardar a procura por serviços, negociam sentidos de “força” e “autossuficiência” no adoecimento e relatam itinerários marcados por barreiras institucionais e relacionais (Rocha; Zucchi, 2025).

Análises da implementação e da gestão da Política Nacional de Atenção Integral à Saúde do Homem (PNAISH) indicam descontinuidades e fragilidades de coordenação federal, o que repercute na baixa capilaridade de ações específicas para homens e na dificuldade de transformar diretrizes em rotinas de cuidado (Brandão, 2024; Medrado et al., 2024). Em cenários de Atenção Primária, estratégias participativas e arranjos organizacionais desenhados com usuários homens e equipes mostram potencial para ampliar acolhimento e acesso, desde que enfrentem a cultura do “homem que não adoece” e reorganizem fluxos e práticas (Rodrigues et al., 2023). Além disso, as experiências de cuidado são atravessadas por marcadores de trabalho e classe, produzindo assimetrias no reconhecimento do sofrimento e na oferta de suporte (Albuquerque; Assis; Campos, 2024), e por marcadores de gênero no plural, com homens trans e pessoas transmasculinas enfrentando barreiras adicionais de acesso e acolhimento (Pinho et al., 2025). Em suma, a literatura recente converge para a necessidade de políticas e práticas orientadas por masculinidades — sensíveis a normas de gênero, classe e interseccionalidades — para reduzir a subutilização, fortalecer o vínculo e qualificar o cuidado público ofertado aos homens.

Diante desse quadro, a clínica ampliada se afirma como estratégia pertinente no SUS ao operacionalizar projetos terapêuticos singulares coproduzidos com usuários e equipes (centrados em vínculo, continuidade e corresponsabilização) e ao acionar o apoio matricial para articular Atenção Primária e Centro de Atenção Psicossocial (CAPS), qualificar o trabalho interprofissional e reorientar fluxos de acesso; revisões e estudos em serviço descrevem o Projeto Terapêutico Singular (PTS) como uma das principais estratégias de cuidado em saúde mental e evidenciam a atualização do apoio matricial no pós-pandemia para sustentar planos compartilhados e integrar níveis de atenção (Mattos; Gutiérrez, 2023).

Nessa abordagem, torna-se indispensável considerar os valores e ideais de gênero que circulam no próprio campo profissional. Em muitas situações, avaliações pouco problematizadas de afetos e comportamentos (tomados como “adequados” ou “inadequados” a homens e mulheres) podem distorcer interpretações diagnósticas e o planejamento do cuidado. O objetivo, aqui, não é localizar culpados, mas identificar como relações de gênero se institucionalizam e se atualizam nas rotinas dos serviços, produzindo efeitos assimétricos e pedindo revisão de práticas (Medrado; Lyra, 2008).

Diante disso, pergunta-se: se as verdades socialmente construídas sobre gênero produzem sofrimento psíquico ao regimentar subjetividades, como elas direcionam (ou não) o cuidado nos serviços de saúde mental? Este artigo, portanto, propõe como objetivo geral refletir sobre o cuidado ofertado pelo Sistema Único de Saúde (SUS) a homens no sertão pernambucano e, especificamente, examinar os repertórios discursivos, ou seja, a forma de falar, argumentar e descrever o mundo nas interações para construção de sentidos, sobre gênero, masculinidades e saúde produzidos por profissionais da saúde mental nesse território, problematizando se e como tais concepções informam suas práticas. Para tanto, considera-se o contraste entre a baixa visibilidade das masculinidades nas políticas e a existência de marcos como a PNAISH, interrogando a distância entre o texto normativo e as rotinas de cuidado.

Masculinidades como construção social de gênero

Michael Kimmel (1992) e Mara Viveros Vigoya (2018) nos oferecem reflexões fundamentais sobre masculinidades que são centrais para este trabalho. Para Kimmel (1992), a masculinidade não se inscreve geneticamente e nem se encontra fixada em uma “corrente do inconsciente coletivo, esperando ser atualizada por um homem em particular, ou simultaneamente por todos os homens” (Kimmel, 1992, p. 135). A masculinidade é uma construção social que acontece em níveis relacional, contextual e histórico. Dito isso, uma das principais correntes de análise foca nas masculinidades enquanto produção política e é esta corrente que adotamos aqui. Estamos alinhados com os estudos sobre a política da masculinidade contemporânea, a qual aborda o gênero a partir de sua construção histórica, tomando como referência a perspectiva feminista.

A antropóloga e pesquisadora colombiana Mara Viveros Vigoya (2018) apresenta importantes contribuições para este debate a partir de suas análises sobre masculinidades que articulam gênero, poder e interseccionalidade num contexto latino-americano. Ela também problematiza a masculinidade não como um traço universal ou fixo, mas como um conjunto de categorias e experiências historicamente situadas e atravessadas por relações sociais de poder, incluindo raça, classe e território. Essa perspectiva contrasta com leituras essencialistas que tratam “o masculino” como algo natural ou homogêneo.

Em sua obra “As cores da masculinidade: experiências interseccionais e práticas de poder na Nossa América”, Viveros (2018) argumenta que masculinidades se manifestam de maneiras diversas nas sociedades latino-americanas e que elas são moldadas por dinâmicas sociais, culturais e históricas específicas da região. Ela enfatiza que essas masculinidades estão imbricadas em relações de poder que operam de forma interseccional com categorias como raça e classe, o que implica olhar para as múltiplas “cores” ou faces dos modos de ser homem em contextos concretos.

Viveros também dialoga com os estudos feministas e se posiciona criticamente em relação à tradição que marginaliza análises sobre homens dentro da teoria de gênero. Para ela, compreender masculinidades exige deslocar a atenção das posições hegemônicas e universais e considerar experiências particulares de homens em contextos sociais marcados por desigualdades estruturais, como as que caracterizam muitos países latino-americanos.

Resumindo, a abordagem de Viveros sobre masculinidades destaca: 1) que masculinidade é construída social e historicamente, não é natural nem homogênea; 2) que é necessário analisar como gênero se cruza com outras formas de desigualdade como raça e classe; 3) que o estudo de masculinidades em contextos latino-americanos deve considerar práticas de poder específicas de cada lugar e momento histórico.

Compreender esse aspecto histórico e situado exige que se leve em consideração a disputa por domínio, tomando como referência a definição central de masculinidade, a qual invariavelmente se constitui a partir dos padrões normativos de gênero. Essa definição dominante goza de vantagens tanto materiais quanto psicológicas, mas, ao mesmo tempo, permite contestação ou modificação ao longo do tempo, visto que é uma construção histórica (Connell1, 1995).

Por meio da crítica a uma verdade que foi instituída, ancora-se a leitura feminista de gênero. Para esta, o reconhecimento da dimensão relacional de gênero se torna fundamental. O gênero é, assim, abordado como sendo efeito das relações entre homens, entre mulheres (considerando aqui as desigualdades decorrentes de classe, gênero, sexualidade, faixa etária) e entre homens e mulheres (desigualdades de gênero) em um determinado contexto social. Essas relações têm por base a assimetria de poder. O conceito de gênero é, dessa forma, em uma perspectiva feminista, uma estratégia política para problematizar as desigualdades resultantes das diferenças sexuais (Medrado; Corrêa; Lyra, 2016).

Impõe-se, portanto, recusar a oposição binária que pretende permanência e fixidez, adotando uma compreensão histórica e analítica voltada à desconstrução dos termos que naturalizam a diferença sexual (Scott, 1995).

Na cultura do patriarcado, essa diferença se mostra hierarquicamente, visto que o masculino se fixa no polo de autoridade. Contudo, apesar de o patriarcado ser uma organização histórica dicotômica, onde predominam a dominância masculina e a subordinação feminina, nem todos os homens se beneficiam igualmente dessa configuração (Connell, 1995). Pois, as masculinidades se constituem simultaneamente nas relações entre homens e mulheres, por meio da desigualdade de gênero, e entre homens, por meio das desigualdades baseadas na sexualidade, raça, entre outras (Kimmel, 1998).

Nessa organização relacional entre homens, de acordo com Djalma Thürler e Benedito Medrado (2020), há um modelo de masculinidade central que toma como referência um homem branco, de classe média, no começo da meia-idade, heterossexual e cisgênero. Esse modelo se torna padrão para os demais homens e acaba por definir a insuficiência dos que a ele não se adequam (Kimmel 2016). No caso particular da saúde do homem, é importante reconhecer que a masculinidade hegemônica aponta o modelo ideal de ser homem (Connell; Messerschmidt, 2013), que se situa a partir da positividade do risco (Spink, 2001) e no afastamento do cuidado (seja oferecendo-o ou demandando-o) por ser codificado como feminino e, portanto, abjeto.

As desigualdades decorrentes desse modelo ideal geram sofrimento psíquico e têm consequências perversas sobre as masculinidades tidas como inadequadas, visto que os que não reproduzem ou performam essas características valorizadas são excluídos da condição de sujeito. Isso se confirma ao longo da história, pois, ao fazermos um resgate dos homens que foram os primeiros pacientes em manicômios, estes eram homens que não cumpriam os papéis sociais de provedor e trabalhador, por não desejarem ou por não conseguirem, ou que apresentavam um desempenho tido como sendo insuficiente. Desse grupo, faziam parte homens que tinham orientação sexual e afetiva por outros homens ou que apresentavam uma inclinação ao celibato. Que envolvia não somente a recusa de contato com mulher, como também a recusa à ideia do casamento (Engel, 2008).

Ademais, em relação às práticas sexuais, a dada configuração social emergente determinava que os homens desempenhassem o papel de “macho”, que, de acordo com os padrões morais masculinos da época, exigia que eles fossem reprodutores, sendo taxados como doentes mentais ou anormais se assim não o fossem (Engel, 2008). Parte-se, assim, do entendimento de que as masculinidades são construções históricas que variam entre culturas e ao longo do tempo dentro de uma mesma cultura. Elas também diferem dentro de uma mesma cultura devido a especificidades locais e se transformam ao longo da vida de cada homem (Kimmel, 1998).

A noção de masculinidade hegemônica designa um arranjo normativo, historicamente situado no Ocidente, que estabelece “verdades” socialmente construídas sobre o que conta como ser homem. Não se trata de uma essência, mas de um padrão que varia no tempo e entre culturas, e também se diferencia dentro de uma mesma cultura em função de marcas regionais e territoriais, entre outras clivagens (classe, raça, sexualidade). Além disso, as trajetórias individuais reconfiguram essas normas ao longo do curso de vida (Connell, 1995; Kimmel, 1998).

Nesse quadro, o “macho” não se constitui uma criação específica de uma determinada região, apesar de o padrão hegemônico ocidental ser atravessado/reformulado pela cultura territorial. Portanto, compreende-se que se trata de uma posição que articula gênero e pertença regional, historicamente construída, na qual se valorizam atributos culturalmente associados ao masculino, como virilidade, coragem, força e resistência diante das condições materiais do território (Connell, 1995). Reconhecer essa tradição local permite legitimar suas características para, então, desestabilizá-la quando necessário e ampliar a visibilidade de outras formas de ser homem que coexistem na região.

Procedimentos metodológicos

Esta pesquisa foi realizada a partir de uma orientação do Construcionismo Social, o que implica a desconstrução das noções culturalmente enraizadas, questionando regimes de verdade inscritos em construções conceituais. Ao adotar um viés construcionista, convida-se à revisão das convenções, compreendendo que elas são regras construídas em uma sociedade específica, em um momento histórico particular (Spink; Frezza, 1999). Ademais, foi desenvolvido com enfoque qualitativo, já que este, segundo Maria Cecília Minayo (2017), aborda o fenômeno humano dando ênfase à sua realidade social.

Nessa lógica, o estudo foi realizado em um CAPS III no Sertão pernambucano. A produção de informações se deu por meio de entrevistas/conversas no cotidiano do serviço, e aconteceu na sala de reunião dos profissionais em horário definido por eles, considerando o baixo fluxo de profissionais presentes no serviço e a possibilidade de reservar a sala exclusivamente para essa finalidade, prezando assim pelo sigilo e confidencialidade das entrevistas/conversas. Segundo Vera Menegon (2013), a entrevista a partir de um viés crítico quanto à sua legitimação e entendendo a conversa como prática social disponível para promoção de informações em campo.

A partir dessa concepção de entrevista como conversa situada no cotidiano do serviço, as entrevistas foram conduzidas com base em um roteiro predefinido, contemplando temas considerados centrais para os objetivos da pesquisa. Ainda assim, o roteiro não operou como limite rígido, pois novas perguntas eram formuladas sempre que se julgava pertinente, o que conferiu maior fluidez às interações. Com a anuência dos participantes, todas as entrevistas foram áudio-gravadas e, posteriormente, transcritas. Ao todo, participaram cinco profissionais da equipe de Saúde Mental do CAPS III. Desse grupo, quatro são de nível superior e um de nível médio. Três são homens e duas são mulheres, com tempo mínimo de atuação de um ano no serviço. Frisamos que optamos por não detalhar ainda mais a categorização dos participantes devido à pesquisa ter sido realizada em uma cidade de médio porte, onde as relações são de maior proximidade, e o serviço pesquisado ter uma equipe de profissionais pequena. Assim, maiores descrições poderiam colocar em risco o sigilo/anonimato dos/as participantes.

Este estudo integra uma pesquisa mais ampla que foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) em Seres Humanos, seguindo, portanto, todos os requisitos éticos exigidos. As entrevistas/conversas foram realizadas com a anuência da Secretaria Municipal de Saúde do município em questão e com o Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) dos interlocutores que aceitaram participar.

Foi utilizada a análise de práticas discursivas sob orientação construcionista, com o objetivo de identificar regularidades e contradições nos repertórios dos participantes (Spink; Frezza, 1999). Esse método compreende o uso ativo da linguagem, abrangendo tanto suas regularidades quanto diferentes formas de repertorização (Spink; Medrado, 2004). Portanto, em consonância com Mary Jane Spink e Benedito Medrado (2004), buscou-se analisar os fenômenos sociais tensionando suas dimensões particulares e gerais, com o anseio de transformar a ordem social por meio da construção de instrumentos que deem sustentação a essa mudança.

A partir desta orientação, na qual a linguagem é compreendida como prática social e a produção de sentidos é situada e relacional, as entrevistas desta pesquisa foram analisadas por meio do mapa de associação de ideias (Spink, 2010). Trata-se de um recurso analítico que organiza, em forma de tabela, os trechos transcritos das conversas de modo a preservar a sequência das interações e dar visibilidade ao modo como perguntas, comentários e respostas se articulam no fluxo dialógico, permitindo acompanhar o processo de interpretação sem separar o enunciado das condições em que foi produzido. Nessa lógica, o mapa funciona como um instrumento de visualização da interanimação das falas, favorecendo a identificação de sentidos que se estabilizam, deslocam-se ou entram em disputa ao longo do encontro, bem como o acompanhamento das conexões entre repertórios, temas e posicionamentos que emergem na relação pesquisadora-participante.

Resultados em diálogo

No campo da saúde mental, o ato de escutar, desde o primeiro contato, implica acolher integralmente a narrativa do usuário e, para além da escuta orientada ao diagnóstico, criar condições para coanalisar o sofrimento em relação à sua história e ao contexto de vida, evitando reduções protocolarizadas e subsidiando a construção de projetos terapêuticos singulares (Pedigone; Signorini, 2023).

Entretanto, a escuta nos serviços ainda tende a ter seu enfoque de forma excessiva nos sintomas, o que pode dificultar a identificação de situações de sofrimento ou que exacerbem o adoecimento, especialmente aquelas decorrentes da desigualdade de gênero e das dificuldades específicas enfrentadas pelos homens. Corroborando isso, um de nossos interlocutores, a saber, Carlos, destacou que, infelizmente, ainda se tende a medicalizar o sofrimento, em vez de escutá-lo verdadeiramente. Ou seja, faz-se uso do remédio a fim de gerar um apagamento do sofrimento, e não a fim de minimizar os sintomas para cuidar desse sofrimento de outras formas. Ressaltou que essa prática é ainda mais evidente no atendimento ao público masculino, tanto pelas barreiras culturais quanto pelas limitações estruturais, como os horários de funcionamento dos serviços, que não são favoráveis à participação dos homens.

Segundo Carlos, o sofrimento psíquico é frequentemente silenciado ou tratado exclusivamente com medicamentos, o que compromete a escuta qualificada. No caso dos homens, esse cenário se agrava devido a fatores culturais que dificultam a expressão de vulnerabilidade.

Observa-se que, particularmente no caso dos homens, há um padrão de atendimento que favorece a medicalização do sofrimento. Essa abordagem reduz a prática da escuta e, consequentemente, as possibilidades de elaboração subjetiva, o que pode agravar o sofrimento e dificultar o cuidado.

Esse modelo de atenção, centrado na lógica biomédica e curativa, é frequentemente adotado pelos profissionais de saúde no atendimento a homens, reproduzindo o que Schraiber et al. (2010) criticam como um cuidado generalista, distanciado das questões de gênero e voltando-se apenas para sinais e sintomas. O modelo hegemônico de masculinidade, alicerçado na negação da vulnerabilidade, dificulta o reconhecimento do sofrimento psíquico, por invisibilizar as desigualdades de gênero e os aspectos relacionais entre masculinidades e sofrimento ou adoecimento. E os próprios homens, influenciados por normas culturais, muitas vezes resistem em admitir esses estados, por tentarem reafirmar sua força e diferenciação em relação ao feminino (Machin et al., 2011).

No entanto, conforme observado por nosso interlocutor José, quando se consegue estabelecer um vínculo com o homem usuário, a adesão ao tratamento tende a ser mais fluida. O profissional aponta ainda que, diferentemente das mulheres, que costumam se abrir com mais facilidade, os homens demonstram resistência inicial, mas se engajam no processo terapêutico a partir da construção de uma relação de confiança.

Assim, quando o vínculo terapêutico é estabelecido, observa-se uma mudança significativa quanto à adesão e manutenção do tratamento. A relação de confiança entre profissional e usuário torna-se fundamental para a continuidade do cuidado. José também destacou que o gênero do profissional de saúde pode facilitar o vínculo com os usuários do sexo masculino. De acordo com ele, os homens tendem a se sentir mais à vontade ao serem atendidos por outros homens, demonstrando resistência quando o atendimento é realizado por mulheres. Para o profissional, essa preferência parece estar relacionada a aspectos culturais, uma vez que os homens, ao buscarem ajuda, acreditam que um profissional do mesmo sexo teria maior capacidade de compreendê-los, por supostamente partilhar das mesmas experiências e dificuldades. Em seu local de trabalho, a presença de três enfermeiros do sexo masculino tem favorecido esse processo, já que muitos usuários homens se identificam com eles e os escolhem como referência para relatar seus problemas.

Portanto, um elemento que se destaca nas práticas observadas é a influência do gênero do profissional na criação desse vínculo. Muitos homens demonstram maior abertura para se expressarem diante de profissionais do mesmo gênero, o que pode estar relacionado à identificação e à percepção de que o outro compartilha referências culturais e experiências semelhantes. A presença de profissionais homens, portanto, tem sido uma estratégia utilizada para facilitar a abordagem terapêutica junto aos usuários, atuando como facilitadores do processo de cuidado. Essa estratégia da identificação a partir do gênero é o que tem possibilitado fazer contorno aos fatores culturais que dificultam a exposição dos sentimentos do referido público e, assim, dirimir sua interferência no tratamento.

A profissional Roberta também comentou sobre a estratégia de utilizar profissionais do sexo masculino para facilitar a adesão ao tratamento, especialmente em casos de resistência à medicação. Segundo ela, os homens costumam considerar que estão sendo compreendidos quando a orientação vem de outro homem, pois acreditam que este entenderia suas dificuldades de forma mais realista. Tal percepção, segundo a interlocutora, é frequentemente utilizada como estratégia para evitar o abandono do tratamento, especialmente quando se trata de medicamentos que provocam efeitos adversos significativos, como o Haldol.

Apesar de sua aparente eficácia, tal estratégia suscita reflexões sobre o risco de reforçar valores machistas que desqualificam o saber das profissionais mulheres. A atribuição de maior legitimidade à fala do profissional homem pode indicar uma essencialização dos papéis de gênero, reiterando estereótipos que associam o masculino à autoridade e ao entendimento das coisas, em detrimento da competência técnica das mulheres, que acaba não sendo reconhecida. Essa percepção aponta para a necessidade de problematizar as bases culturais que sustentam tais concepções e que atravessam os serviços de saúde, chegando a embasar as práticas de oferta e procura de cuidado.

Contudo, opondo-se a isso, algumas estratégias têm sido desenvolvidas pelos profissionais para contornar os obstáculos culturais impostos pela masculinidade hegemônica. A estratégia destacada por Carlos diz respeito à construção do vínculo com os usuários homens. Ele relatou que, em sua prática, busca respeitar o tempo subjetivo de cada indivíduo, sem pressioná-lo a relatar suas questões de forma imediata. Para ele, é fundamental permitir que o usuário se sinta confortável e seguro para trazer suas demandas quando estiver pronto para isso, mesmo que esse momento ocorra muito tempo após o primeiro contato. Essa abordagem visa a criar um ambiente de confiança, no qual o cuidado possa ser conduzido com mais profundidade e eficácia.

O respeito ao tempo do usuário, sem que haja qualquer tipo de pressão para que ele exponha suas questões de forma rápida, podendo até ser abordadas bem depois do primeiro contato, permite que ele as aborde de maneira mais confortável e constitui práticas que favorecem a construção de um cuidado mais efetivo. Ademais, a utilização de relatos pessoais por parte dos profissionais também aparece como facilitadora na criação de um vínculo horizontal e na humanização da relação terapêutica.

Nesse sentido, Carlos mencionou que, durante esse processo, costuma compartilhar algumas de suas próprias experiências, como forma de promover identificação e facilitar o vínculo. Destacou ainda que, ao respeitar o tempo do usuário, é possível abordar temas mais complexos gradualmente, favorecendo uma escuta mais qualificada. Ele observou que muitas vezes não há uma única causa para o sofrimento, mas sim um conjunto de fatores que precisam ser compreendidos pacientemente. O cuidado em saúde mental prestado aos homens continua sendo atravessado por modelos de gênero normativos. A organização dos serviços, muitas vezes, reforça essa lógica ao direcionar de forma diferenciada os encaminhamentos de homens e mulheres.

Isso é evidenciado por Carlos, o qual observou que, de forma geral, há uma maior incidência de encaminhamentos de mulheres para os equipamentos da assistência social, como Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) e Centro de Referência Especializado de Assistência Social (CREAS), especialmente em contextos de violência e rompimentos de vínculos. Já os homens, quando em situações de sofrimento extremo, são mais frequentemente encaminhados para o hospital psiquiátrico, mesmo que isso nem sempre ocorra por decisão direta do profissional, mas como uma sugestão de conduta dentro do serviço.

Assim, enquanto as mulheres são com maior frequência referenciadas aos serviços da assistência social, como CRAS e CREAS, os homens tendem a ser encaminhados para hospitais psiquiátricos em situações de sofrimento intenso. Essa diferença revela uma tendência à psiquiatrização do sofrimento do homem, enquanto o sofrimento da mulher é compreendido mais amplamente dentro de seus contextos sociais e relacionais, especialmente os marcados por violência de gênero e rompimentos de vínculos afetivos.

Nesse viés, Carlos relatou o caso de um usuário específico do sexo masculino que, em razão de uma grave violação de direitos e sofrimento intenso, foi encaminhado diversas vezes para a rede de assistência social. Contudo, ele reconheceu que essa é uma exceção. Em geral, os homens acabam sendo direcionados para a internação psiquiátrica, como forma de preservar a vida diante de um sofrimento que ultrapassa os limites do suporte oferecido na unidade. Ele ainda acrescentou que, em sua experiência, apenas uma mulher havia recebido esse tipo de encaminhamento, e isso ocorreu em função de um uso problemático de medicação, o qual agravava ainda mais seu sofrimento.

A fala de Marcos corrobora essa percepção. Segundo ele, muitos dos homens que chegam ao serviço de saúde mental o fazem por meio de encaminhamentos vindos diretamente do hospital psiquiátrico. Relatou que uma parte significativa dos usuários do sexo masculino atendidos na unidade já havia passado por internações anteriores ou foi internada após o início do tratamento ambulatorial. Observou também que, proporcionalmente, os homens permanecem internados por períodos mais longos do que as mulheres.

Essas falas evidenciam uma distinção de gênero nos encaminhamentos e na forma como o sofrimento é manejado pelos serviços, revelando um padrão não declarado, mas que reflete práticas profundamente enraizadas. A prevalência de encaminhamentos psiquiátricos para homens e o direcionamento das mulheres para serviços da assistência social indicam um olhar diferenciado sobre os sujeitos, possivelmente influenciado por concepções normativas de gênero e pelas expectativas sociais em torno das masculinidades e feminilidades. Essa distinção de encaminhamentos, embora nem sempre explícita, aponta para um padrão institucional que opera de forma diferenciada a partir do gênero dos usuários/as. Nos casos masculinos, a predominância dos encaminhamentos para internação indica a persistência de uma perspectiva que faz relação entre o sofrimento extremo e o risco pessoal, exigindo, portanto, controle institucional. No caso das mulheres, o sofrimento costuma ser mais contextualizado, permitindo abordagens que contemplam outras dimensões da vida social.

Essas práticas reforçam o modelo biomédico no atendimento aos homens, operando com base em sinais e sintomas e negligenciando os aspectos relacionais e subjetivos do adoecimento. Tal constatação exige uma crítica à medicalização sustentada por uma cultura de gênero que invisibiliza a complexidade das masculinidades e suas implicações no processo saúde-doença-cuidado (Schraiber et al., 2010). Ademais, reforça-se a necessidade de repensar as estratégias de cuidado em saúde mental que consigam romper com a invisibilização do sofrimento masculino e, simultaneamente, não reproduzam estereótipos de gênero.

A sensibilidade de alguns profissionais ao reconhecerem que o sofrimento dos homens é atravessado por exigências sociais, como o papel de provedor, revela fissuras na lógica tradicional da escuta centrada apenas em queixas clínicas. As cobranças culturais relacionadas à produtividade, à responsabilidade financeira e à impossibilidade de falhar compõem um quadro de angústia muitas vezes silenciado. A escuta dessas angústias, portanto, torna-se um ato político de resistência ao modelo dominante de cuidado, que ainda insiste em invisibilizar as marcas de gênero no adoecimento.

Em suma, a análise das práticas nos serviços de saúde mental do Sertão pernambucano revela a necessidade urgente de revisitar os modelos de cuidado, especialmente no que se refere à atenção aos homens. É preciso construir estratégias que contemplem as singularidades do sofrimento masculino sem reproduzir as lógicas da masculinidade hegemônica, possibilitando um cuidado mais sensível, integral e politicamente comprometido com a equidade de gênero.

Isso fica evidente quando, ao analisarmos pesquisas recentes que abordam as masculinidades e saúde mental, os resultados demonstram que as lógicas da masculinidade hegemônica ainda direcionam e definem as relações de cuidado. Visto que, em estudo realizado na Paraíba (Sá; Camêlo, 2024), que abordou representações sociais construídas por homens universitários sobre a saúde mental, os resultados mostraram que esses homens têm como foco a força e a coragem, em detrimento da desvalorização da responsabilidade afetiva para consigo e com os outros. Ainda que haja o reconhecimento da importância do cuidado voltado à saúde mental, as expectativas em performar autossuficiência e não demonstrar vulnerabilidade continuam pesando.

Contudo, não é só no Nordeste que essa lógica se sustenta. Em estudo realizado com homens usuários de serviços de saúde mental em Santos/SP (Rocha; Zucchi, 2025), que explorou como construções de masculinidade se entrelaçam com narrativas de sofrimento e como os sujeitos articulam práticas de autocuidado, os resultados apontam que sentimento de fracasso pessoal e profissional (desemprego, incapacidade de exercer trabalho habitual, autoestima abalada com o adoecimento) e relações frustradas, que envolvem perdas afetivas e traições (esperava-se, por exemplo, que mulheres em papéis familiares atendessem expectativas de cuidado que nem sempre se concretizavam, o que gerava dor.) acabam por gerar isolamento, vergonha e culpa, emoções que são centrais no sofrimento masculino e estão frequentemente articuladas com expectativas externas (relacionadas ao trabalho, às relações afetivas). Essas narrativas evidenciam como o modelo de masculinidade hegemônica se entrelaça com o sofrimento dos homens.

Além disso, esse estudo aponta ainda como as estratégias de autocuidado desses homens são ambivalentes. Ao mesmo tempo que há tentativas de conformidade (seguir tratamento, buscar ajuda), há também resistência, modificação do uso medicamentoso, tentativas de lidar com o sofrimento de modo menos institucional — o que pode tanto ajudar quanto representar risco.

Tudo isso reforça a necessidade de se revisitar as práticas de oferta de cuidados voltados aos homens, considerando as questões que envolvem o modelo de masculinidade hegemônica e os sofrimentos decorrentes dessas construções sociais que a sustentam. Ademais, considerar as questões culturais locais que a atravessam e acabam por construir especificidades. Sem perder de vista que estas se embasam na hegemonia de um discurso sobre masculinidade que por definição as sustentam, mas também as ultrapassam.

Considerações finais

É fundamental destacar que o sofrimento psíquico decorre tanto da desigualdade nas relações sociais de gênero quanto da rigidez dos papéis e identidades de gênero estabelecidos. Segundo nossos/as interlocutores/as, esses fatores histórico-sociais contribuem para que os homens tenham maior dificuldade em expressar seus sofrimentos.

Embora os discursos dos/as profissionais sobre gênero, masculinidades e saúde reconheçam a importância dos aspectos histórico-sociais, essas considerações muitas vezes não são refletidas nas práticas cotidianas de cuidado, o que revela uma falta de articulação entre essas discussões e as práticas profissionais. Como resultado, questões decorrentes das desigualdades de gênero e das dificuldades específicas enfrentadas pelos homens tendem a ser invisibilizadas, apesar de alguns/as interlocutores/as relatarem esforços para desenvolver estratégias de aproximação e cuidado para com esses homens.

Nessa direção, a análise das masculinidades no cuidado em saúde mental ganha densidade quando incorporada pela lente da interseccionalidade, pois as experiências de sofrimento, acesso e permanência no serviço não são atravessadas apenas pelo gênero, mas também por marcadores como raça, classe social, território, escolaridade, geração e sexualidade, que operam de forma combinada na produção de vulnerabilidades e privilégios. Assim, a dificuldade de expressar dor e buscar ajuda, atribuída a expectativas de masculinidade, pode assumir sentidos distintos conforme as condições concretas de vida, produzindo barreiras diferenciadas para determinados homens e ampliando desigualdades no cuidado quando as práticas se orientam por um sujeito supostamente universal.

A carência de uma escuta adequada ao sofrimento masculino torna evidente uma tendência à medicalização desses casos, especialmente quando comparados ao sofrimento das pacientes. Apesar dessa tendência, os homens frequentemente não aderem ao tratamento medicamentoso, o que resulta em um maior encaminhamento ao hospital psiquiátrico em comparação com as mulheres. Essa dinâmica, marcada pela medicalização do sofrimento e pela resistência ao tratamento, não apenas afasta esses homens dos serviços psicossociais, mas também agrava seu sofrimento.

Assim, cabe destacar que, embora seja reconhecido que as mulheres, em geral, são socialmente autorizadas a expressar dificuldades e fragilidades com maior liberdade (diante de uma pretensa incompletude e fragilidade), enquanto os homens, pressionados por expectativas de completude e resolutividade, tendem a restringir-se à descrição objetiva dos sintomas, a estratégia de abordagem dirigida a ambos permanece idêntica. Tal homogeneidade sugere que as particularidades de gênero não são devidamente contempladas no processo de cuidado, o que pode limitar a efetividade das práticas adotadas e reforçar desigualdades já presentes no campo social.

Perguntamo-nos se isso não se torna um empecilho ao acesso e permanência dos homens nos serviços de saúde mental, uma vez que a abordagem que os/as profissionais utilizam não considera a dificuldade que os homens têm em expressar seu sofrimento, ainda que os/as profissionais reconheçam essa dificuldade.

Assim, identifica-se uma prática que invisibiliza questões que podem gerar sofrimento ou potencializar o adoecimento, decorrentes das relações sociais e desigualdades de gênero que atravessam as experiências dos homens. Isso ocorre apesar de alguns dos nossos/as interlocutores/as relatarem o uso de estratégias para aproximar e cuidar dos usuários.

Assim, ainda que os/as profissionais de saúde mental percebam as nuances de gênero que transpassam a oferta de cuidado, essas não são consideradas em suas práticas, que acabam sendo voltadas a um sujeito universal, não generificado.

Esperamos que este estudo possa contribuir para a reflexão sobre o tema investigado, mesmo reconhecendo suas limitações. Dentre elas, apontamos o número restrito de interlocutores e a delimitação do campo de análise, uma vez que se trata de uma pesquisa de natureza exploratória. Soma-se a isso o fato de que as narrativas dos/as participantes tomaram como referência um homem cisgênero, heterossexual e branco, o que acabou por limitar a problematização de outras dimensões, como as questões raciais. Destacamos que a não incorporação de uma perspectiva interseccional não foi resultado de uma decisão intencional, mas decorreu da ausência desses marcadores nos discursos dos/as profissionais entrevistados/as.

  • 1
    Connell ainda assinou como Robert esse trabalho, mas, atualmente, alterou seu nome, de Robert William para Raewyn, apresentando-se como mulher transexual.

Declaração de Disponibilidade de Dados:

Os conteúdos estarão disponíveis no momento da publicação do artigo.

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Correspondência:

Jamille Kássia da Silva Cardoso, E-mail: jamille.ccardoso@gmail.com, Av. Gregório Ferraz Nogueira, s/n, José Tomé de Souza Ramos, Serra Talhada, PE, Brasil, CEP: 56909-535.

Editores:

José Miguel Olivar, Jorge Lyra

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    26 Out 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    09 Fev 2026
  • Revisado
    30 Mar 2026
  • Aceito
    26 Abr 2026
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