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Open-access Saúde e Sociedade

Publicación de: Faculdade de Saúde Pública, Universidade de São Paulo. Associação Paulista de Saúde Pública.
Área: Ciências Da Saúde, Ciências Humanas
Versión impresa ISSN: 0104-1290
Versión on-line ISSN: 1984-0470
Creative Common - by 4.0

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Saúde e Sociedade, Volumen: 35, Numero: 3, Publicado: 2026

Saúde e Sociedade, Volumen: 35, Numero: 3, Publicado: 2026

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Artigo Original
Eu sinto medo: a paranoia negra na Revista Médica de S. Paulo (1898-1914) Morales, Raquel Saad de Avila

Resumen en Portugués:

Resumo O artigo examina a articulação entre medo branco e o diagnóstico psiquiátrico de paranoia no Hospício do Juquery, a partir de publicações na Revista Médica de S. Paulo (1898-1914). A análise se desenvolve em quatro eixos centrais: o papel da Revista na consolidação da autoridade científica paulista; a ideologia da branquitude no pós-abolição; a apropriação, por Franco da Rocha, da teoria da degeneração de Kraepelin; e a patologização de conflitos sociais por meio de um caso clínico, descrito por Enjolras Vampré em 1910. Metodologicamente, o estudo articula a historiografia crítica da Saúde Coletiva (Breilh, 2013) à lógica histórica de Thompson (1981). Os resultados indicam que a paranoia operou como categoria subjetiva que converteu desigualdades raciais e sociais em patologia individual, legitimando práticas de vigilância e segregação. O caso de A. T. C. evidencia como violência policial, dissenso político e religiosidade afro-diaspórica foram traduzidos como delírio, reforçando hierarquias raciais. Conclui-se que a psiquiatria paulista da Primeira República funcionou como tecnologia de governo racializada, transformando o medo branco em linguagem médica e contribuindo para a reprodução de um padrão de normalidade e desvio orientado à sustentação dos privilégios políticos, econômicos e simbólicos da branquitude no Brasil pós-abolição.

Resumen en Inglés:

Abstract The article examines the link between white fear and the psychiatric diagnosis of paranoia at the Juquery Asylum, based on publications in the Revista Médica de S. Paulo (1898-1914). The analysis is developed along four central axes: the role of the journal in consolidating scientific authority in São Paulo; the ideology of whiteness in the post-abolition period; Franco da Rocha’s appropriation of Kraepelin’s degeneration theory; and the pathologization of social conflicts through a clinical case described by Enjolras Vampré in 1910. Methodologically, the study articulates the critical historiography of Collective Health (Breilh, 2013) and Thompson’s historical logic (1981). The results indicate that paranoia operated as a subjective category that converted racial and social inequalities into individual pathology, legitimizing practices of surveillance and segregation. The case of A. T. C. demonstrates how police violence, political dissent, and Afro-diasporic religiosity were translated into delusion, reinforcing racial hierarchies. The article concludes that psychiatry in São Paulo during the First Republic functioned as a racialized technology of government, transforming white fear into medical language and contributing to the reproduction of a pattern of normality and deviance designed to sustain the political, economic, and symbolic privileges of whiteness in post-abolition Brazil.
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