Open-access Agrotóxicos e saúde: limites e possibilidades metodológicas na pesquisa científica

Pesticides and health: Limits and methodological possibilities in scientific research

Plaguicidas y salud: límites y posibilidades metodológicas en la investigación científica

RESUMO

Este estudo teve como objetivo identificar os desafios metodológicos enfrentados por pesquisadores e as estratégias adotadas para superá-los em projetos de pesquisa e extensão envolvendo populações rurais expostas a agrotóxicos. Trata-se de uma pesquisa metodológica, qualitativa, de caráter descritivo e exploratório. A metodologia incluiu reuniões de reflexão e discussão entre os pesquisadores/autores, revisão narrativa de literatura e síntese de recomendações. Os resultados destacaram dificuldades na comunicação com as comunidades, na execução de atividades de campo e na divulgação científica, especialmente diante de barreiras culturais e logísticas, além da escassez de financiamento. As estratégias de superação envolveram a produção de materiais adaptados ao contexto cultural e linguístico das comunidades, o fortalecimento do diálogo com lideranças comunitárias, parcerias interinstitucionais e a adoção de estratégias alternativas para captação de recursos. Conclui-se que a efetividade de projetos de pesquisa e extensão, nesse contexto, depende da adoção de abordagens participativas e colaborativas, bem como do planejamento criterioso das etapas previstas.

PALAVRAS-CHAVES
Métodos; Saúde ocupacional; População rural; Agroquímicos; Exposição a praguicidas

ABSTRACT

This study aimed to identify the methodological challenges faced by researchers and the strategies adopted to overcome them in research and outreach projects involving rural populations exposed to pesticides. It is a methodological, qualitative study with a descriptive and exploratory approach. The methodology included reflection and discussion meetings among the researchers/ authors, a narrative literature review, and a synthesis of recommendations. The results highlighted difficulties in communicating with communities, conducting field activities, and disseminating scientific findings, especially in the face of cultural and logistical barriers, as well as funding shortages. The strategies to overcome these challenges involved the production of materials adapted to the cultural and linguistic context of the communities, strengthening dialogue with community leaders, interinstitutional partnerships, and the adoption of alternative fundraising strategies. It is concluded that the effectiveness of research and outreach projects in this context depends on the adoption of participatory and collaborative approaches, as well as careful planning of the proposed stages.

KEYWORDS
Methods; Occupational health; Rural population; Agrochemicals; Pesticide exposure

RESUMEN

Este estudio tuvo como objetivo identificar los desafíos metodológicos enfrentados por los investigadores y las estrategias adoptadas para superarlos en proyectos de investigación y extensión que involucran a poblaciones rurales expuestas a plaguicidas. Se trata de un estudio metodológico, cualitativo, de carácter descriptivo y exploratorio. La metodología incluyó reuniones de reflexión y discusión entre los investigadores/autores, revisión narrativa de la literatura y síntesis de recomendaciones. Los resultados destacaron dificultades en la comunicación con las comunidades, en la realización de actividades de campo y en la divulgación científica, especialmente ante barreras culturales y logísticas, además de la escasez de financiación. Las estrategias para superar estos desafíos incluyeron la producción de materiales adaptados al contexto cultural y lingüístico de las comunidades, el fortalecimiento del diálogo con los líderes comunitarios, asociaciones interinstitucionales y la adopción de estrategias alternativas para la captación de recursos. Se concluye que la efectividad de los proyectos de investigación y extensión, en este contexto, depende de la adopción de enfoques participativos y colaborativos, así como de una planificación cuidadosa de las etapas previstas.

PALABRAS CLAVE
Método; Salud laboral; Población rural; Agroquímicos; Exposición a plaguicidas

Introdução

A agropecuária é um setor de grande importância econômica no Brasil, com forte impacto no Produto Interno Bruto (PIB) e nas exportações1. No entanto, a predominância de um modelo rentista-neoextrativista, herdado do período colonial, tem gerado práticas nocivas à saúde e ao meio ambiente1–3. O modelo agroindustrial brasileiro, baseado no monocultivo, contribui para o desmatamento, degradação ambiental, perda de biodiversidade e agravamento do aquecimento global1–3. Esse sistema depende do uso intensivo de agrotóxicos em todas as etapas produtivas4. Em 2022, foram comercializadas 800.652 toneladas desses produtos no País5, e, em 2023, 555 novos agrotóxicos foram aprovados, consolidando o Brasil como um dos maiores consumidores mundiais por hectare plantado6,7.

Políticas neoliberais adotadas desde a década de 1990, com isenções fiscais e flexibilizações ambientais, favoreceram a expansão do uso de agrotóxicos. Esse cenário se agravou com a aprovação da Lei nº 14.785/2023, o ‘Pacote do Veneno’, que flexibiliza ainda mais o registro e uso desses produtos4,8,9. Tal dinâmica perpetua práticas ambientalmente degradantes e intensifica os impactos sobre a saúde humana e o meio ambiente7.

As desigualdades estruturais nos territórios rurais também agravam os riscos à saúde dos trabalhadores agrícolas, que apresentam maior mortalidade em comparação a outros setores10. A situação é especialmente crítica para as mulheres, que representam mais de 40% da força de trabalho rural e enfrentam precarização decorrente da divisão sexual do trabalho11.

Embora os impactos dos agrotóxicos sejam amplamente reconhecidos, pesquisas com populações rurais ainda enfrentam obstáculos metodológicos e logísticos significativos, como delineamentos complexos e baixa comparabilidade entre dados12,13. Além disso, o discurso institucional frequentemente responsabiliza individualmente os agricultores, desviando o foco de políticas públicas essenciais para a mitigação dos danos14. Nesse cenário, é essencial manter rigor metodológico, com delineamentos que reduzam vieses e uso claro de conceitos e métodos, a fim de subsidiar intervenções eficazes13,15.

Assim, estudos metodológicos tornam-se valiosos ao abordar dificuldades enfrentadas por pesquisadores, estratégias de superação e novas abordagens ainda pouco exploradas15. Neste contexto, o presente estudo teve como objetivo descrever os desafios metodológicos e as estratégias adotadas em projetos de pesquisa e extensão com populações rurais expostas a agrotóxicos.

Material e métodos

Trata-se de um estudo metodológico, de abordagem qualitativa, descritiva e exploratória, cujo objetivo foi identificar, analisar e discutir os desafios e as estratégias adotadas por pesquisadores envolvidos em projetos com populações rurais expostas a agrotóxicos. A metodologia envolveu três etapas: reuniões de reflexão e discussão entre os pesquisadores/autores, revisão narrativa da literatura e síntese de recomendações. As reuniões de reflexão e discussão entre os pesquisadores/autores ocorreram entre maio e outubro de 2024 e reuniram os membros do grupo de pesquisa (alunos de iniciação científica, pós-graduandos e professores-pesquisadores) sob a mediação da coordenadora. As discussões foram conduzidas de forma aberta, a partir das experiências acumuladas pelos pesquisadores em oito projetos de pesquisa e extensão distintos (quadros 1 e 2).

Quadro 1.
Delineamento dos projetos de extensão
Quadro 2.
Delineamento dos projetos de pesquisa

Durante os encontros, os pesquisadores relataram desafios e estratégias vivenciados nas diferentes etapas dos projetos. Os conteúdos discutidos foram registrados e analisados por meio de análise temática reflexiva de orientação dedutiva (quadro 3)16,17, orientada por temas previamente definidos com base nas etapas do ciclo de pesquisa (concepção, planejamento, execução, análise e divulgação). Ao longo de toda a análise, os temas e subtemas foram continuamente confrontados com o conjunto completo dos registros, em um processo coletivo de reflexão que subsidiou diretamente a construção deste artigo.

Quadro 3.
Percurso metodológico

Paralelamente, foi realizada uma revisão narrativa nas bases Scopus, PubMed e SciELO, utilizando descritores como “saúde do trabalhador” e “agrotóxicos”, com o objetivo de articular as experiências sistematizadas na etapa anterior com a literatura existente. A partir das análises, elaborou-se uma síntese dos principais desafios metodológicos e das estratégias de superação, organizadas em recomendações categorizadas segundo o ciclo de pesquisa (concepção, execução, análise e divulgação).

Todas as etapas do estudo foram conduzidas conforme os princípios éticos estabelecidos na Resolução nº 510/2016 do Conselho Nacional de Saúde (CNS)18. Em conformidade com a Portaria CNPq nº 2.664/2026, declara-se o uso de inteligência artificial generativa na primeira versão do manuscrito, com auxílio do software ChatGPT, com a finalidade de aprimorar a fluidez da língua, a legibilidade, a gramática e a pontuação19. As pesquisas que subsidiaram a discussão foram aprovadas pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) da Universidade Estadual de Maringá, e os respectivos pareceres são apresentados nos quadros 1 e 2.

Resultados e discussão

A sistematização das reflexões e discussões entre os pesquisadores/autores permitiu identificar os principais obstáculos enfrentados pela equipe e as estratégias adotadas para superá-los. Os resultados foram organizados em quatro categorias, correspondentes às etapas do ciclo de pesquisa, e discutidos à luz das evidências disponíveis na literatura.

Concepção do projeto

Investigações sobre agrotóxicos em zonas agrícolas demandam uma abordagem interdisciplinar e participativa, que valorize os saberes das populações diretamente afetadas20. A definição da população-alvo e do local de estudo é etapa essencial, assim como a escolha do referencial teórico. No Brasil, essa delimitação é desafiadora, pois, desde o Decreto-Lei nº 311/1938, considera-se rural toda área fora das sedes municipais e distritais, desconsiderando aspectos geográficos, demográficos e econômicos21–23. Em 2023, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) propôs uma nova metodologia de classificação dos espaços rural, urbano e de natureza, baseada na continuidade territorial e nas formas de organização social24. Contudo, as definições atuais ainda ignoram a diversidade funcional dos territórios, reforçando o mito da urbanização. Já referenciais internacionais, como o da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), utilizam a densidade demográfica como critério central, permitindo análises mais funcionais21–23. Assim, é fundamental que a equipe de pesquisa esteja alinhada ao referencial teórico adotado, evitando divergências analíticas.

Nos estudos com indivíduos expostos a agrotóxicos, definir a população-alvo representa um desafio metodológico adicional, especialmente em análises laboratoriais que requerem grupo controle, já que qualquer pessoa pode estar exposta. O consumo médio de 7,5 L de agrotóxicos por brasileiro ao ano torna o País líder mundial em exposição per capita. A exposição pode ser direta (contato, ingestão, inalação) ou indireta (via alimentos e água contaminados)25. Por isso, é essencial explicitar o tipo de exposição investigada para garantir a robustez do estudo. Além disso, a escolha dos locais de estudo exigiu atenção às dificuldades de acesso, muitas vezes agravadas pela precariedade da infraestrutura. Ferramentas como Google Maps mostraram-se insuficientes12, sendo necessária a articulação com lideranças comunitárias e associações locais para facilitar o acesso e compreender as dinâmicas socioterritoriais.

A concepção de projetos também exige planejamento financeiro rigoroso. A falta de sustentabilidade econômica pode comprometer etapas fundamentais. A crise no financiamento da ciência no Brasil, agravada por cortes em agências de fomento26, ampliou as exigências burocráticas dos editais. Um exemplo é o Programa Universidade Sem Fronteiras (USF), que prioriza municípios com baixo Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM)27,28. Contudo, desde 2010, a maioria desses municípios passou a apresentar IDH médio ou alto29,30, o que não significa ausência de populações vulneráveis. O uso do IDH como critério de seleção, embora útil para sensibilização, reduz o conceito de desenvolvimento humano a três dimensões — renda, educação e longevidade —, podendo ocultar disparidades locais31,32. Assim, a priorização desse indicador evidencia desafios impostos por critérios que, muitas vezes, não refletem a complexidade dos territórios, restringindo o acesso a recursos para iniciativas que poderiam beneficiar grupos vulneráveis em contextos não contemplados pelos parâmetros estabelecidos. Este cenário requer uma postura crítica dos pesquisadores.

Ainda no que se refere ao aporte financeiro, a formulação de políticas públicas voltadas à temática dos agrotóxicos também sofre forte influência de interesses políticos e econômicos, especialmente devido ao lobby do agronegócio e da bancada ruralista, que impactam decisões orçamentárias e dificultam o financiamento de estudos críticos33–36. Nesse contexto, torna-se ainda mais urgente que os projetos estejam integralmente alinhados aos princípios éticos da pesquisa37,38. No Brasil, prevalece um ‘biocentrismo’ que impõe a lógica biomédica como padrão39, o que exige preparo dos pesquisadores para lidar com a complexa trama burocrática que envolve o processo de avaliação dos projetos.

Execução do projeto

A execução eficiente de um projeto exige uma equipe de pesquisa bem estruturada. No entanto, a ausência de políticas sólidas de incentivo à ciência no Brasil impõe desafios significativos, como a escassez de profissionais especializados em captação de recursos e gestão, além da sobrecarga dos pesquisadores, que acumulam múltiplas funções sem apoio institucional40. Esses obstáculos são ainda mais intensos para grupos emergentes, que enfrentam elevados custos operacionais41. Como alternativa, a formação de redes interinstitucionais de apoio tem se mostrado estratégica para atender aos requisitos de execução dos projetos.

Nesta etapa, desafios logísticos e de comunicação foram recorrentes. Para superá-los, lançou-se mão de rádios locais, redes sociais e parcerias com gestores e instituições comunitárias. Contudo, mais do que informar, foi essencial construir vínculos com os participantes, o que exigiu tempo, planejamento e sensibilidade42. O diálogo se mostrou uma ferramenta eficaz43, com convites personalizados e linguagem acessível, fortalecendo o engajamento44,45. A manutenção desses vínculos também foi crucial: visitas regulares, comunicação sensível e atualizações sobre a pesquisa reforçaram o reconhecimento dos participantes como protagonistas do processo.

A infraestrutura precária dos territórios rurais impôs desafios logísticos relevantes, como deslocamentos dificultosos e transporte de equipamentos e materiais. Nos projetos que envolveram análises laboratoriais, foi necessário garantir locais adequados para coleta e o transporte seguro das amostras até os laboratórios parceiros, o que exigiu planejamento minucioso e adaptações metodológicas. Situação semelhante ocorreu nas coletas com exigência de jejum, pois, apesar da obrigação ética de oferecer alimentação após o procedimento, os editais geralmente não permitem a alocação de recursos para esse fim, obrigando a equipe a buscar soluções alternativas.

Projetos com entrevistas em profundidade enfrentaram dificuldades para garantir privacidade e conforto dos participantes. A coleta foi realizada nos locais de inserção dos sujeitos como estratégia para ampliar a adesão, reduzir custos e compreender melhor o contexto. Embora a Resolução nº 510/16 do CNS determine o ressarcimento por deslocamentos e alimentação, muitos editais não preveem esses recursos. Nessas situações, o pesquisador assumiu os deslocamentos, recorrendo à busca por fontes alternativas de suporte financeiro.

Por fim, a capacitação da equipe, majoritariamente composta por acadêmicos em formação, exigiu atenção contínua. Apesar dos benefícios pedagógicos proporcionados46,47, limitações como inexperiência, horários restritos e escassez de recursos afetaram o processo formativo48. O balizamento da equipe sobre os objetivos e metodologias49 e a padronização na coleta de dados50 foram essenciais para assegurar a qualidade e comparabilidade dos resultados. Assim, o investimento em capacitação foi incorporado ao cronograma como etapa indispensável à execução do projeto.

Análise de dados

A análise de dados em contextos rurais exige uma abordagem sensível às especificidades culturais e socioeconômicas dessas áreas. As chamadas ‘novas ruralidades’ refletem a convivência entre agricultores tradicionais e novos moradores, conferindo ao espaço rural múltiplas funções além da produção econômica51. Essa complexidade requer metodologias de análise que captem adequadamente as dinâmicas locais.

A gestão de dados, que vai da coleta à preservação de longo prazo, incluindo limpeza, curadoria, indexação e transformação52,53, é essencial para garantir qualidade, confiabilidade e validade dos resultados científicos54. Para isso, parâmetros como precisão e exatidão são indispensáveis55. Também é necessário que os dados sigam os princípios Fair (Encontráveis, Acessíveis, Interoperáveis e Reutilizáveis), assegurando transparência e reprodutibilidade das pesquisas56,57.

Contudo, manter esse rigor metodológico é desafiador em equipes grandes e com membros inexperientes. Problemas como controle inadequado de acesso, manipulação e conservação descentralizada dificultam a supervisão e aumentam o risco de inconsistências. A ausência de práticas padronizadas compromete a integridade dos dados e o cumprimento das exigências éticas e legais, especialmente após a promulgação da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), que estabeleceu normas rigorosas sobre coleta, armazenamento e compartilhamento de informações58,59.

Outro obstáculo recorrente foi a falta de infraestrutura para armazenamento e backup, o que elevou o risco de perda de dados em casos de falhas de hardware60. Considerando que os pesquisadores têm a responsabilidade ética de manter os dados arquivados por pelo menos cinco anos após o encerramento dos estudos61, tornou-se essencial realizar análises de vulnerabilidade. Como resposta, foram implementados treinamentos sobre segurança da informação e boas práticas, bem como ferramentas de controle de acesso, assegurando a conformidade legal e a integridade dos bancos de dados62.

Divulgação de resultados

Há uma variedade de termos utilizados para descrever o compartilhamento das atividades científicas, como ‘cultura científica’, ‘alfabetização científica’, ‘popularização da ciência’ e ‘compreensão pública da ciência’, com diferentes níveis de adoção entre professores-pesquisadores62. Neste estudo, optou-se pelo termo ‘divulgação científica’ para englobar o processo completo de compartilhamento do saber, desde o planejamento até a apresentação ao público-alvo. A divulgação científica além dos meios acadêmicos é fundamental no cenário atual, marcado pelo crescente interesse da sociedade por temas científicos63 e pelo avanço de movimentos anticientificistas que disseminam desinformação64. Nesse contexto, ela é essencial para democratizar o conhecimento, fortalecer a confiança pública na ciência e prestar contas à sociedade65, sendo estratégica no combate a narrativas distorcidas.

Apesar da relevância, os pesquisadores enfrentaram dificuldades para comunicar os resultados de forma acessível às populações rurais, especialmente devido ao uso de linguagem técnica. Para superar esse obstáculo, foram elaborados materiais simplificados e adaptados ao contexto cultural, além de vídeos e conteúdo para mídias sociais. Estudos mostram que os vídeos são eficazes para ampliar o alcance da produção científica e engajar públicos não acadêmicos66. Juntamente com os podcasts, essas ferramentas têm se consolidado como recursos versáteis e acessíveis para aproximar a ciência da sociedade67.

No entanto, limitações orçamentárias restringiram a produção de materiais e a realização de eventos presenciais. A ausência de políticas de fomento voltadas à comunicação científica, já apontada por estudos68, compromete a sistematização da divulgação. Soma-se a isso o desinteresse da imprensa e das assessorias universitárias, o que diminui a frequência com que os pesquisadores divulgam suas pesquisas à mídia e estimulam seus orientandos a fazê-lo. Além disso, a publicação de artigos científicos envolve desafios como taxas elevadas de submissão, custos de tradução e publicação, o que exige previsão orçamentária. Para contornar esses entraves, priorizaram-se periódicos de acesso aberto. A ciência aberta contribui para democratizar o conhecimento; todavia, sua efetivação demanda a capacitação de cientistas e jornalistas, além de políticas institucionais que fomentem essa cultura69.

Por fim, as reflexões e discussões entre os pesquisadores/autores evidenciaram que a devolutiva dos resultados fortalece a confiança e estimula a participação em novos projetos. Mais do que um gesto de respeito, esse retorno valoriza as experiências compartilhadas e reafirma o compromisso com uma ciência ética e comprometida com o coletivo. Nesse sentido, a literatura reforça que a adoção de políticas formais de comunicação tende a promover a integração entre pesquisadores, jornalistas e sociedade, ampliando o alcance dos resultados científicos68.

Considerações finais

Os resultados deste estudo evidenciam que, no Brasil, pesquisas sobre agrotóxicos enfrentam importantes obstáculos políticos, especialmente quando tornam visíveis seus impactos sobre a saúde humana e o meio ambiente. O enfrentamento de interesses econômicos pode resultar em retaliações, como nos casos de Larissa Bombardi, da Universidade de São Paulo, perseguida após a publicação do ‘Atlas Geografia do Uso de Agrotóxicos no Brasil e Conexões com a União Europeia’70, e Mônica Lopes-Ferreira, do Instituto Butantan, alvo de ataques após afirmar que ‘não há dose segura de agrotóxicos’71,72. Essa conjuntura reflete a influência da racionalidade neoliberal e o avanço de movimentos anti-intelectualistas, que desvalorizam a pesquisa científica crítica e priorizam a pesquisa voltada ao lucro imediato, comprometendo a construção de uma ciência crítica e de interesse público73.

Nesse contexto, pensar estratégias metodológicas para a produção científica extrapola dimensões técnicas e operacionais, assumindo caráter ético-político. Ao compreendermos a Reforma Sanitária Brasileira não apenas como uma reforma setorial voltada à reorganização dos serviços de saúde, mas como um projeto democrático de ampliação da cidadania e defesa dos direitos sociais, a produção científica torna-se parte constitutiva desse processo74,75. Em um cenário marcado pelo avanço de agendas neoliberais e pela mercantilização da saúde76,77, fomentar pesquisas críticas significa também fortalecer a capacidade do Sistema Único de Saúde (SUS) e das políticas públicas de responder às determinações sociais do processo saúde-doença.

Os achados deste estudo demonstram que os desafios metodológicos enfrentados ao longo do ciclo de pesquisa podem ser minimizados com estratégias colaborativas, parcerias locais e adaptações metodológicas. Recomenda-se o alinhamento prévio do referencial teórico, a implementação de protocolos éticos claros e o planejamento de estratégias de comunicação culturalmente adaptadas. A devolutiva dos resultados em formatos acessíveis fortalece a confiança dos participantes e contribui para a democratização do conhecimento. Também se destaca a importância de buscar parcerias interinstitucionais e fontes complementares de financiamento para garantir a viabilidade e sustentabilidade dos projetos.

Por fim, os resultados oferecem subsídios para a condução de futuras pesquisas em contextos rurais e sobre temáticas sensíveis como os agrotóxicos. A adoção de práticas metodológicas éticas, eficazes e sustentáveis fortalece a legitimidade dos projetos e sua contribuição para a saúde pública e a justiça socioambiental. No entanto, a escassez de estudos com abordagens semelhantes revela uma lacuna importante na literatura, indicando a necessidade de novas investigações que considerem as especificidades regionais e aprofundem essa perspectiva metodológica.

Suporte financeiro:

não houve

Disponibilidade de dados:

os dados de pesquisa estão contidos no próprio manuscrito

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    » https://doi.org/10.1590/0103-11042020S111

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Orcid (Open Researcher and Contributor ID).

Editora responsável:

Maura Vanessa Silva Sobreira, Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN), Caicó (Rio Grande do Norte/RN), Brasil. Lattes: http://lattes.cnpq.br/4231913524179274 – Orcid: https://orcid.org/0000-0001-6804-4198 – e-mail: maurasobreira@ufrn.br

Conflito de interesses:

inexistente

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    12 Out 2026
  • Data do Fascículo
    Oct-Dec 2026

Histórico

  • Recebido
    22 Nov 2025
  • Aceito
    03 Jul 2026
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