Open-access Excesso de peso e obesidade: tendência na população residente no município do Rio de Janeiro

Sobrepeso y obesidad: una tendencia en la población residente en el municipio de Río de Janeiro

RESUMO

Estudo ecológico de série temporal, realizado entre 2006 e 2021, com dados do Sistema de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico. O objetivo foi analisar a tendência de excesso de peso e obesidade entre adultos (≥ 18 anos) residentes no município do Rio de Janeiro. Para a análise temporal, aplicou-se o modelo de Prais-Winsten, utilizando o software Stata versão 13. Observou-se tendência crescente da prevalência de excesso de peso em diversos grupos, sobretudo entre pessoas com 65 anos ou mais (APC: 1,18%; IC 95%: 0,78-1,59), pretos e pardos (APC: 14,12%; IC 95%: 4,73-24,35) e com maior escolaridade (APC: 2,87%; IC 95%: 2,18-3,57). Quanto à obesidade, houve tendência decrescente na faixa etária de 65 anos ou mais (APC: -1,7%; IC 95%: -2,59-0,81) e crescente entre indivíduos com 12 anos ou mais de estudo (APC: 3,25%; IC 95%: 1,77-4,75), pretos e pardos (APC: 11,29%; IC 95%: 2,08-21,34) e solteiros (APC: 2,60%; IC 95%: 1,36-3,86). Os resultados indicam que o excesso de peso e a obesidade continuam sendo desafios relevantes para a saúde pública, exigindo estratégias amplas de promoção da saúde e redução da prevalência dessas condições.

PALAVRAS-CHAVE
Obesidade; Inquérito epidemiológico; Promoção da saúde; Vigilância em saúde pública.

ABSTRACT

This is an ecological time-series study conducted between 2006 and 2021 using data from VIGITEL (Surveillance System of Risk and Protective Factors for Chronic Diseases by Telephone Survey). The objective was to analyze trends in overweight and obesity among adults (≥ 18 years) living in the city of Rio de Janeiro. For temporal analysis, the Prais-Winsten regression model was applied using STATA software, version 13. An increasing trend in the prevalence of overweight was observed across several groups, particularly among individuals aged 65 years or older (APC: 1.18%; 95%CI: 0.78-1.59), Black and Brown individuals (APC: 14.12%; 95%CI: 4.73-24.35), and those with higher education (APC: 2.87%; 95%CI: 2.18-3.57). Regarding obesity, a decreasing trend was observed in the 65 years or older age group (APC: -1.7%; 95%CI: -2.59-0.81) and an increasing trend among those with 12 years or more of education (APC: 3.25%; 95%CI: 1.77-4.75), Black and Brown individuals (APC: 11.29%; 95%CI: 2.08-21.34), and single participants (APC: 2.60%; 95%CI: 1.36-3.86). The findings indicate that overweight and obesity remain significant public health challenges, highlighting the need for comprehensive health promotion strategies to reduce their prevalence and associated impacts.

KEYWORDS
Obesity; Health surveys; Health promotion; Public health surveillance.

RESUMEN

Este estudio ecológico de series temporales, realizado entre 2006 y 2021, utilizó datos del Sistema de Vigilancia de Factores de Riesgo y Protección para Enfermedades Crónicas mediante Encuestas Telefónicas. El objetivo fue analizar la tendencia del sobrepeso y la obesidad en adultos (≥ 18 años) residentes en el municipio de Río de Janeiro. Para el análisis temporal, se aplicó el modelo de Prais-Winsten utilizando el software Stata versión 13. Se observó una tendencia creciente en la prevalencia del sobrepeso en varios grupos, especialmente entre personas de 65 años o más (APC: 1,18%; IC del 95%: 0,78-1,59), personas negras y mestizas (APC: 14,12%; IC del 95%: 4,73-24,35) y personas con mayores niveles de educación (APC: 2,87%; IC del 95%: 2,18-3,57). En cuanto a la obesidad, se observó una tendencia decreciente en el grupo de edad de 65 años o más (APC: -1,7%; IC del 95%: -2,59-0,81) y una tendencia creciente entre las personas con 12 o más años de escolaridad (APC: 3,25%; IC del 95%: 1,77-4,75), las personas negras y mestizas (APC: 11,29%; IC del 95%: 2,08-21,34) y las personas solteras (APC: 2,60%; IC del 95%: 1,36-3,86). Los resultados indican que el sobrepeso y la obesidad siguen siendo importantes desafíos para la salud pública, lo que exige estrategias integrales para la promoción de la salud y la reducción de su prevalencia.

PALABRAS CLAVE
Obesidad; Encuesta epidemiológica; Promoción de la salud; Vigilancia en salud pública.

Introdução

O aumento da prevalência de excesso de peso e obesidade é motivo de grande preocupa-ção, tanto em países desenvolvidos como em desenvolvimento, uma vez que são fatores de risco para uma série de Doenças Crônicas Não Transmissíveis (DCNT), impactando no aumento do risco de morte prematura e incapacidade na idade adulta1,2. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a prevalência mundial de obesidade triplicou entre 1975 e 2016; e, como resultado desse cenário, cerca de 1,9 bilhão de adultos em todo o mundo estavam acima do peso em 2016, sendo 650 milhões clinicamente obesos, o que correspondia a 13% da população mundial3. Em 2023, o Atlas Mundial da Obesidade des-tacou que o impacto dessa problemática no Produto Interno Bruto será de 3% em 2035, podendo custar à economia global mais de US$ 4 trilhões4.

O tratamento de doenças relacionadas ao excesso de peso e à obesidade, além de gerar custos elevados para os sistemas de saúde, incluindo despesas com medicamentos, hospi-talizações e tratamentos a longo prazo, impacta a qualidade de vida e a economia de maneira mais ampla, com perda de rendimentos no mercado de trabalho3. Nos Estados Unidos da América (EUA), os custos per capita de uma pessoa que vive com excesso de peso e obesidade são, respectivamente, 9,9% e 42,7% superiores aos de indivíduos com peso corpo-ral saudável5.

Na Europa, o excesso de peso é um dos principais determinantes de incapacidade e morte, afetando quase 60% dos adultos e cerca de 7,9% das crianças com menos de 5 anos de idade, o que representa 4,4 milhões de indivíduos nessa faixa etária6. Uma pesquisa Nacional de Saúde e Nutrição (National Health and Nutrition Examination Survey - Nhanes) nos EUA, reali-zada entre 2017 e 2018, indicou que 32,7% dos adultos com 20 anos ou mais estavam acima do peso, 37,9% eram obesos e 7,7% eram extrema-mente obesos7. A América Latina possui uma das mais altas prevalências do Índice de Massa Corporal (IMC) do mundo8, e o Brasil segue a tendência dos demais países da região, porém com diferenças importantes por estrato de renda, nível de escolaridade, sexo e raça/cor9.

O Atlas Mundial da Obesidade projetou, para os próximos 12 anos, na população adulta brasileira, uma prevalência de obesidade de 41%, o que gera sérias implicações tanto para os indivíduos quanto para a sociedade4. Considerando que uma abordagem preventiva é essencial para mitigar os custos e promover uma população mais saudável, o objetivo deste estudo é descrever a tendência temporal de prevalência do excesso de peso e da obesidade na população com 18 anos ou mais residente no município do Rio de Janeiro.

Material e métodos

Desenho de estudo

Estudo ecológico de série temporal, conduzido com base nos dados do Sistema de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel), implementado pelo Ministério da Saúde (MS) em 2006. Trata-se de um inquérito telefônico cujo objetivo é monitorar o quadro de DCNT no País por meio de amostras probabilísticas de indivíduos com 18 anos ou mais, sendo selecionada para essa análise a população do município do Rio de Janeiro, no período de 2006 a 2021, com uma média amostral de 2013 entrevistas/ano. De acordo com a metodolo-gia estabelecida em cada linha residencial e ativa, há contato com um morador adulto que, ao concordar em participar do estudo, então é realizada a seleção aleatória do indivíduo entrevistado10.

Cenário do estudo

Este estudo analisou os dados do Vigitel para o município do Rio de Janeiro, segunda maior cidade do País, com cerca de 6,6 milhões de habitantes, cujo Índice de Desenvolvimento Humano em 2010 era de 0,799, ocupando o 45º lugar no ranking brasileiro11. Além de possuir a maior concentração populacional do estado urbano, o município apresenta inúmeras áreas com alta vulnerabilidade social. O modelo de atenção adotado baseia-se na Estratégia Saúde da Família, com cobertura de 70% da popu-lação. A escolha dessa localidade se deu pela escassez de evidências geradas pelo Sistema Vigitel, fundamental para nortear a formula-ção de políticas públicas mais efetivas, com enfoque nos determinantes de saúde relacio-nados às DCNT.

Desfechos do estudo

Utilizaram-se, como desfechos, o excesso de peso e a obesidade, construídos a partir do cálculo do IMC. Seguindo as recomendações da OMS, considerou-se o indivíduo com excesso de peso quando apresentava IMC igual ou superior a 25 kg/m2 e menor que 30 kg/m2 e com obesidade quando o IMC era igual ou superior a 30 kg/m212.

As prevalências de excesso de peso e obe-sidade em cada ano foram estimadas por: número de indivíduos com excesso de peso/ número de indivíduos entrevistados multi-plicado por 100 e número de indivíduos com obesidade/número de indivíduos entrevista-dos multiplicado por 100.

Análise estatística

Para as análises de tendência, foi empregado o modelo de regressão linear de Prais-Winsten13, considerando como variáveis dependentes as prevalências de excesso de peso e obesidade e como variável explanatória o ano da pesquisa. Foi aplicado o comando svy, que considera os pesos amostrais.

Inicialmente, com o objetivo de reduzir a heterogeneidade da variância dos resídu-os, realizou-se a transformação logarítmica dos valores de prevalência de cada desfecho, seguida da aplicação do modelo autorregres-sivo de Prais-Winsten.

Foram estimados os valores dos coeficien-tes do modelo (b1) e, posteriormente, calcu-lada a Variação Percentual Anual (do inglês Annual Percentage Change - APC); por fim, calcularam-se os Intervalos de Confiança de 95% (IC 95%)14.

APC = [ - 1 + 10 b 1 ] ∗ 100 % IC 95 % = [ - 1 + 10 b _ mínimo ] ∗ 100 % ; [ - 1 + 10 b _ máximo ] ∗ 100 %

Os valores de b mínimo e b máximo cor-respondem, respectivamente, aos valores mínimo e máximo do intervalo de confiança do Prais-Winsten. Para a interpretação das estimativas da variação percentual anual, utilizaram-se os seguintes critérios: IC 95% não contendo o valor zero aponta tendência crescente quando a APC é positiva e tendência decrescente quando a APC é negativa. Se o valor zero estiver contido no IC 95%, a série será considerada estacionária. As variáveis foram estratificadas por sexo (masculino e feminino), grupos etários (18-24; 25-34, 35-44, 45-54, 55-64; 65 anos e mais), escolaridade em anos completos (0-8, 9-11, 12 e mais anos), raça/ cor (branca, parda, preta, amarela e indígena) e estado civil (solteiro(a), casado(a)/união estável, viúvo(a) e divorciado(a)). As análises foram realizadas utilizando o software Stata versão 13.

Como se trata de uma pesquisa que utiliza dados de uso e de acesso público (Vigitel), esta pesquisa dispensou o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) e a aprecia-ção ética, nos termos da Resolução CNS nº 466/2012.

Resultados

A amostra estudada foi composta por 53,5% de mulheres; a maior proporção de respon-dentes estava na faixa de escolaridade de 9 a 11 anos (38,3%); 44% se declararam de cor branca; cerca de 50,5% viviam em união estável ou eram casados; e 22,6% dos participantes tinham idade entre 25 e 34 anos.

O gráfico 1 mostra a tendência temporal da prevalência das 4 categorias de IMC (baixo peso, eutrofia, excesso de peso e obesidade) em adultos. Como se pode observar, a variação percentual anual da prevalência de obesidade foi de 4,16% (IC 95%: 3,45; 4,87), indicando tendência de aumento entre 2006 e 2021. Para o excesso de peso, apesar da APC positiva, a tendência foi considerada estacionária para o período avaliado (APC = 0,61%; IC 95%: -0,12; 1,34). Por sua vez, o cenário de baixo peso vem desacelerando a cada ano em -1,14% (IC 95%: -5,91; -3,73), assim como a eutrofia em -2,05% (IC 95%: -2,45; -1,66).

Gráfico 1
Tendência temporal da prevalência das quatro categorias de IMC em adultos residentes no município do Rio de Janeiro - Vigitel, 2006 a 2021

A tabela 1 apresenta fatores relacionados à prevalência de excesso de peso em adultos do município do Rio de Janeiro entre 2006 e 2021, onde se observam os seguintes padrões: ambos os sexos mantiveram percentuais elevados ao longo do período, com os homens exibindo valores mais altos que os das mulheres na maioria dos anos. Os adultos jovens, de 18 a 24 anos, registraram as menores prevalências ao longo de toda a série histórica. No que se refere à escolaridade, indivíduos com menor tempo de estudo (0 a 8 anos) apresentaram redução progressiva em seus percentuais. A partir de 2011, destaca-se uma mudança no perfil racial, com crescimento acentuado da prevalência entre pessoas pretas e pardas. Por fim, verifica-se a manutenção de padrões rela-tivamente estáveis para o estado civil ao longo de todo o período analisado.

Tabela 1
Prevalência de excesso de peso segundo características sociodemográficas na população residente no município do Rio de Janeiro - Vigitel, 2006 a 2021

Ao analisar a tendência temporal do excesso de peso segundo características sociodemo-gráficas (tabela 2), foram encontrados padrões significativamente distintos por idade e escola-ridade. Entre os adultos jovens, de 18 a 24 anos, observou-se um declínio significativo (APC: -2,82%; IC 95%: -5,35%; 0,27%), enquanto na faixa etária de 65 anos ou mais a prevalência apresentou tendência de crescimento (APC: 1,18%; IC 95%: 0,78; 1,59).

Tabela 2
Variação Percentual Anual (APC) do excesso de peso segundo características sociodemográficas na população resi-dente no municípip do Rio de Janeiro - Vigitel, 2006 a 2021

Padrão semelhante foi verificado para esco-laridade: indivíduos com até 8 anos de estudo mostraram redução significativa (APC: -3,67%; IC 95%: -4,57; -2,76), e à medida que aumenta-vam os anos de estudo, a tendência se elevava na população (APC: 2,87%; IC 95%: 2,18; 3,57). Para a variável raça/cor, houve crescimento significativo entre os pretos e pardos (APC: 14,12%; IC 95%: 4,73; 24,35), seguido pelos indígenas (APC:10,91%; IC 95%: 0,63; 2,23). Com relação ao estado civil, o grupo dos viúvos foi o único a apresentar tendência decrescente estatisticamente significativa para o excesso de peso (APC: -3,12%; IC 95%: -4,37; -1,85), enquanto todos os demais mantiveram-se na faixa de estacionariedade.

A tabela 3 sinaliza importantes transforma-ções no perfil epidemiológico da obesidade na população adulta do município do Rio de Janeiro. Homens e mulheres apresentaram padrões de crescimento similares, com pre-valências que se equipararam ao final do período analisado. A população jovem (18-24 anos) manteve os indicadores mais baixos, em contraste com os adultos de 25 a 44 anos, que registraram as maiores prevalências. Observou-se uma transformação relevante no perfil educacional: enquanto o grupo com baixa escolaridade experimentou declínio consistente, os indivíduos com maior forma-ção apresentaram aumento na prevalência de obesidade.

Tabela 3
Prevalência de obesidade segundo características sociodemográficas na população residente no município do Rio de Janeiro - Vigitel, 2006 a 2021

A tabela 4 apresenta a APC que se mostrou crescente tanto para o sexo feminino (APC: 4,26; IC 95%: 3,53; 5,00) quanto para o masculino (APC: 3,96; IC 95%: 2,56; 5,37). Para a faixa etária, apenas os indivíduos com 65 anos ou mais apresentaram tendência decrescen-te de obesidade (APC: -1,70%; IC 95%: -2,59; -0,81), enquanto, para todas as outras faixas, a tendência mostrou-se estacionária. Com relação à escolaridade, observou-se tendência crescente para os grupos com 9 a 11 anos de estudo (APC: 2,28%; IC 95%: 1,13; 3,44) e 12 anos ou mais (APC: 3,25; IC 95%: 1,77; 4,75).

Tabela 4
Variação Percentual Anual (APC) da obesidade segundo características sociodemográficas na população residente no município do Rio de Janeiro - Vigitel, 2006 a 2021

Para essa mesma tabela, na análise por raça/cor, a população preta e parda apresen-tou aumento expressivo da obesidade (APC: 11,29%; IC 95%: 2,08; - 21,34) ao longo do tempo. Entre os indígenas, embora observada uma APC positiva de 7,02% (IC 95%: -11,82; - 36,74), não foi possível constatar significância estatística, considerando então a tendência es-tacionária. Para os que se declararam brancos, o quadro de obesidade se manteve estacioná-rio, e para os que se referiram como amarelos, houve diminuição ao longo do tempo, com valor de APC: -32,30% (IC 95%: -43,12; -19,41). Ressalta-se que as informações dos partici-pantes de raça/cor amarela e indígena devem ser vistas com cautela, devido ao pequeno tamanho amostral, gerando, consequentemen-te, limitação quanto à representatividade na população. Com relação ao estado civil, os solteiros apareceram com tendência crescente de obesidade com APC de 2,60% (IC 95%: 1,36; 3,86) e, em contrapartida, entre os casados, a tendência foi decrescente, com APC: -1,41% (IC 95%: -2,19; -0,62).

Discussão

Dados do Vigitel mostraram que, embora o excesso de peso tenha apresentado tendência es-tacionária entre 2006 e 2021, para ambos os sexos, a obesidade apresentou importante aumento ao longo dos anos, como provável reflexo das mudanças comportamentais que vêm ocorrendo em nossa sociedade, principalmente em relação ao tipo de alimentação e ao padrão de atividade física. A Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) de 2019 corrobora esses achados, na medida em que a proporção de obesos na população brasi-leira com 20 anos ou mais de idade mais do que dobrou entre 2003 e 2019, passando de 12,2% para 26,8%15. Malta16 encontrou, em capitais do Brasil e no Distrito Federal, que a prevalência de excesso de peso em adultos aumentou de 43,2% em 2006 para 51% em 2012, com incremento anual médio de 1,37%. Outro estudo conduzido entre 2006 e 2017 observou maior prevalência entre mulheres, nos indivíduos na faixa etária de 25 a 44 anos e em todos os níveis de escolaridade17.

Na Índia, considerada um dos países com menor prevalência de obesidade, a frequência em adultos foi estimada em 5,1%; porém, há uma tendência ascendente nas últimas duas décadas4. Por sua vez, a Espanha, considerando a média dos 35 Países-Membros da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), tem uma das prevalências de obesidade em adultos mais altas na região europeia4.

Os principais fatores que podem contribuir para o excesso de peso em adultos são modifica-ções na qualidade e quantidade das refeições, com preferência ao fast-food e a alimentos ultraproces-sados e com excesso de açúcar e gordura, baixo gasto energético, a própria genética, estresse e uso de certos medicamentos, com destaque para antidepressivos, anticoncepcionais e medica-mentos para diabetes que podem contribuir para o ganho de peso em adultos15-18. É importante destacar que, entre os países da América Latina,o Brasil possui um dos menores níveis de atividade física15. Quando se analisa o perfil do excesso de peso e obesidade, segundo a variável faixa etária, observa-se tendência estacionária na maioria dos grupos; exceto para os indivíduos com 65 anos ou mais, em que o excesso de peso apareceu com tendência crescente e a obesidade decrescente.

Segundo a literatura, em muitos países, a pre-valência de excesso de peso e obesidade entre homens tende a aumentar com a idade, até chegar aos 55 anos, e daí em diante diminui; porém, entre as mulheres, a prevalência para ambos continua a aumentar com o avançar da idade18,19. No entanto, os padrões do IMC de adultos para as pessoas idosas não são consensuais, principalmente porque os pontos de corte podem ser inapro-priados diante das modificações fisiológicas que ocorrem no envelhecimento, gerando mudanças da composição corporal. Embora o MS possua uma classificação segundo o Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (Sisvan) - sistema de informação que monitora a situação nutricional da população -, este estudo adotou os parâmetros da OMS baseados em um amplo estudo de base populacional americano abrangendo pessoas de todas as idades, incluindo as pessoas idosas20,21.

De acordo com Souza et al.22, hábitos alimen-tares possuem grande papel na construção de vida do ser humano e podem ser mutáveis ao longo da vida. Uma infância com consumo de alimentos calóricos e com pouco consumo de verduras, frutas e vegetais tende a fazer com que o indivíduo apresente maior propensão, na vida adulta, a manter esse hábito, aumentando, em geral, a quantidade de calorias em relação ao que gasta, gerando acúmulo de gordura22,23. Chama a atenção a elevação do gradiente do excesso de peso e obesidade com o aumento da escolaridade. Esses achados revelaram similaridade com os estudos de Fildes et al.23 e Xia et al.24, contudo, os autores chamaram a atenção para o fato de que pessoas com maior escolaridade tendem a ter maior acesso a medidas de tratamento24,25. Entre os que se declararam pretos, pardos e indígenas, houve tendência crescente de obesidade, e dife-rentes aspectos podem exacerbar esse cenário.

Em um município complexo como o Rio de Janeiro, é preciso ampliar a discussão da vulnerabilidade social e de raça. Sem dúvida, o contexto social no qual os indivíduos pretos, pardos e indígenas estão inseridos pode repercutir na adoção ou não de comportamen-tos mais saudáveis, que venham a favorecer o ganho de peso23.

Estudo publicado em 2023, sobre incremen-to de peso nas populações das etnias branca e preta no Brasil, mostrou, com dados do Vigitel, que há aumento mais acentuado da prevalência de sobrepeso e obesidade em populações da etnia preta26. Os autores também destacaram que as populações da etnia preta possuíam uma alimentação de menor qualidade, quando comparada à população de etnia branca, de-monstrando a necessidade de compreender e problematizar mudanças estruturais em diversos segmentos que podem repercutir em iniquidades em saúde.

Investigação seccional com amostra de pessoas idosas com 65 anos ou mais, residen-tes em comunidades do Brasil, mostrou que a categoria cor/raça preta estava mais associada à obesidade, em comparação à cor/raça parda, mesmo com o ajuste de variáveis socioeconô-micas (escolaridade e renda familiar)27.

No estudo de coorte Elsa-Brasil, que en-volveu servidores públicos de instituições brasileiras com idade entre 35 e 74 anos, também houve maior incidência de excesso de peso entre mulheres negras e com baixa escolaridade28. Em investigação seccional com amostra de pessoas idosas de 65 anos ou mais, residentes em comunidades do Brasil, a categoria cor/raça preta estava associada, entre as mulheres, à obesidade geral e central, em comparação à cor/raça parda, mesmo com o ajuste de variáveis socioeconômicas (escola-ridade e renda familiar)29.

Embora não haja uma relação clara entre estado civil e excesso de peso ou obesidade, alguns estudos sugerem que as pessoas casadas têm maior probabilidade de ter IMC mais elevado30; neste estudo, por sua vez, a obesi-dade segue uma tendência de aumento entre os solteiros. Para Meller et al.31, o estado civil pode estar associado a diferenças no estilo de vida, em que pessoas com companheiro podem ter maior probabilidade de compartilhar re-feições em família e seguir uma rotina mais regular de alimentação, o que pode influenciar positivamente a saúde e reduzir o risco de obesidade. Por outro lado, pessoas solteiras ou divorciadas tendem a ter mais liberdade em suas escolhas alimentares e menos responsa-bilidades familiares, o que pode resultar em hábitos menos saudáveis32.

Diante da multicausalidade envolvida com o problema, cujas raízes são sistêmi-cas, formuladores de políticas públicas e gestores precisam fortalecer a coordenação do cuidado para alcançar a desaceleração do excesso de peso e da obesidade na popu-lação. Políticas diversas vêm sendo induzi-das pelo governo federal, como o Plano de Ações Estratégicas para o Enfrentamento das DCNT, 2021-2030, alinhadas às metas da Agenda 2030 formulada pela Organização das Nações Unidas33. São medidas que reco-nhecem a necessidade de atuar sobre os de-terminantes sociais a partir de uma adequada coordenação do cuidado entre os serviços. Em âmbito municipal, o enfrentamento do problema marcado por desertos alimenta-res, desigualdades sociais e fragilidade da própria estrutura da rede de atenção passa pelo fortalecimento da Atenção Primária à Saúde (APS) enquanto um espaço singular para prevenir e tratar o excesso de peso na população, prioritariamente pela sua capilaridade nos territórios32,33.

A implantação de Equipes Multiprofissionais - eMulti (antigos Núcleos de Apoio à Saúde da Família - Nasf ) e do Programa Academia Carioca na APS pode contribuir para o en-frentamento da problemática, ajudando a potencializar a integração da promoção da alimentação adequada e saudável com ativi-dades físicas e corporais34,35. Considerando que os hábitos alimentares podem ser mu-táveis ao longo da vida22, uma infância com consumo de alimentos calóricos e redução de verduras, frutas e vegetais tende a fazer com que o adulto apresente maior propensão a manter esse hábito, aumentando, em geral, a quantidade de calorias em relação ao que gasta, gerando acúmulo de gordura22,23.

Ademais, a questão alimentar pode estar inserida em um problema social, diante de famílias que lidam com a escassez de alimentos saudáveis (in natura ou minimamente proces-sados), seja pelo baixo poder aquisitivo, seja pela concentração de estabelecimentos que oferecem comida saudável em áreas mais ricas. Estimular a produção e o acesso a alimentos saudáveis por meio da ampliação da oferta de produtos in natura na alimentação escolar, da criação de mecanismos facilitadores de feiras livres e do desenvolvimento da agricultura urbana pode ajudar na promoção da susten-tabilidade, em prol de hábitos alimentares mais saudáveis, além de contribuir para a sensibilização e o engajamento das pessoas, tornando-as mais protagonistas do processo de mudança. A instalação de hortas comunitá-rias pode ocorrer em espaços públicos, como praças e jardins, ou em locais destinados pela prefeitura, o que fortaleceria não só o acesso a alimentos frescos como também a integração social. Esse movimento pode ajudar a quebrar paradigmas sobre a ideia de complexidade no preparo, além de auxiliar a resgatar a história e a identidade cultural que envolvem as refei-ções e o acesso real aos alimentos36,37.

Uma das principais áreas técnicas de alimentação e nutrição no município, a Unidade de Nutrição Annes Dias (Unad), tem buscado valorizar esse debate, mas ainda assim, nem sempre os esforços se transformam em ações estratégicas devido ao contexto político-institucional36, em que muitos projetos têm dificuldade de sair do discurso da multidis-ciplinaridade como respostas concretas aos problemas complexos38.

Recentemente, foi instituída, em âmbito na-cional, a Estratégia de Prevenção da Obesidade, cujo propósito é promover a redução da ocor-rência dessas condições, principalmente entre crianças, adolescentes e populações em situ-ação de maior vulnerabilidade e risco social. Espera-se que o município do Rio de Janeiro, ao implementar essa proposta, amplie a arti-culação de políticas públicas com iniciativas de produção, acesso e consumo de alimentos saudáveis, em uma perspectiva de segurança alimentar e nutricional, em conjunto com a promoção da atividade física e o fomento à mobilidade urbana39.

Por fim, vale destacar algumas limitações quanto ao uso do Vigitel, que se restringe a indivíduos com telefone fixo e, atualmente, a maioria das pessoas vem optando por celular, o que pode implicar viés de seleção; porém, a metodologia é amplamente utilizada e re-comendada na área de pesquisas, além de ser validada para o Brasil. Outro ponto importante é que essas diferenças foram identificadas com base em dados antropométricos autor-relatados pelo entrevistado, o que pode gerar imprecisões no cálculo do IMC, limitando a validade desta pesquisa.

Considerações finais

Este estudo buscou contribuir para a compre-ensão do cenário epidemiológico do excesso de peso e da obesidade no município do Rio de Janeiro. A base de evidências mostrou que características sociodemográficas podem ter influência na tendência desses fenômenos, com prevalência da obesidade maior entre os que possuem 9 anos ou mais de escolaridade, pessoas idosas e indivíduos de cor preta. No entanto, é preciso considerar que diferenças ocorrem quando as medidas antropométricas são autorrelatadas pelo entrevistado, o que pode levar a imprecisões no cálculo do IMC e, por conseguinte, limitar a validade desta pesquisa.

Os resultados reforçam a necessidade de investir em ações intersetoriais e interdisci-plinares, para além do setor da saúde, a fim de mudar a perspectiva sobre hábitos e comportamentos de vida.

Investir na arquitetura urbana para ampliar os espaços para a prática de atividade física, assim como avançar na vigilância alimentar e nutricional, com uma abordagem familiar da obesidade que ultrapasse o enfoque da culpa-bilização do indivíduo, ajudará a potencializar a organização da assistência para os pacientes.

São esforços que podem aumentar as chances de reconhecer ambientes obesogê-nicos, auxiliando no fortalecimento de condu-tas que possam prevenir, controlar e tratar o excesso de peso e a obesidade ao longo da vida, de forma a não deixar ninguém para trás em termos dos benefícios que podem ser adqui-ridos com ações promotoras de saúde.

Suporte financeiro:

não houve

Disponibilidade de dados:

os dados de pesquisa estão contidos no próprio manuscrito

Referências

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Conflito de interesses:

inexistente

Editora responsável:

Jamilli Silva Santos, universidade Federal da Bahia (uFBA), Salvador (Bahia/BA), Brasil. Lattes: http://lattes.cnpq.br/5997468854789199 - Orcid: https://orcid.org/0000-0001-8965-0904 - e-mail: jamilli.santos@ufba.br

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    26 Out 2026
  • Data do Fascículo
    Oct-Dec 2026

Histórico

  • Recebido
    13 Mar 2025
  • Aceito
    10 Fev 2026
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