Resumo
Resumo Pensar a partir das vidas dissidentes e suas práticas de cuidado – como a amamentação compartilhada – abre espaço para discutir o que emerge nas fronteiras da cisheteronorma. Este estudo qualitativo tem por objetivo analisar os atravessamentos que antecedem o parto de casais de mulheres cis em dupla amamentação, por meio de entrevistas semiestruturadas e análise temática indutiva. Três temas foram mobilizados: motivações para a dupla amamentação; desejo pela maternidade; e planejamento de quem/como/quando gestar. Os achados revelam negociações cotidianas que partem de lógicas próprias de cuidado, nas quais gênero, trabalho e desejo pela maternidade se entrelaçam. As motivações relatadas apontam para arranjos plurais de cuidado que, nas brechas da colonialidade, subvertem a lógica capitalista e potencializam outras formas de produzir vida.
Palavras-chave:
amamentação compartilhada; sexualidade; maternidade; lésbicas; bissexuais
Abstract
Abstract Thinking from the perspective of the dissident ones and their care practices—such as shared breastfeeding—opens space to discuss what emerges at the margins of cisheteronormativity. This qualitative study aims to analyze the dynamics that precede childbirth in cisgender female couples engaged in co-breastfeeding, through semi-structured interviews and inductive thematic analysis. Four themes were explored: motivations for co-breastfeeding, desire for motherhood and planning stages of who/how/when to conceive. The findings reveal everyday negotiations grounded in unique care logics, in which gender, labor, and the desire for motherhood are deeply intertwined. The reported motivations point to plural arrangements of care that, in the cracks of coloniality, subvert capitalist logic and foster alternative ways of producing life.
Keywords:
shared breastfeeding; sexuality; motherhood; lesbians; bisexuals
Resumen
Resumen Pensar desde las vidas disidentes y sus prácticas de cuidado – como la lactancia compartida – abre espacio para discutir lo que emerge en las fronteras de la cisheteronorma. Este estudio cualitativo tiene como objetivo analizar los cruces que anteceden el parto en parejas de mujeres cis en lactancia doble, a través de entrevistas semiestructuradas y análisis temático inductivo. Se movilizaron tres temas: motivaciones para la lactancia doble; deseo de maternidad; y planificación sobre quién/cómo/cuándo gestar. Los hallazgos revelan negociaciones cotidianas que parten de lógicas propias de cuidado, en las que género, trabajo y deseo de maternidad se entrelazan. Las motivaciones relatadas apuntan a arreglos plurales de cuidado que, en las fisuras de la colonialidad, subvierten la lógica capitalista y potencian otras formas de producir vida.
Palabras clave:
lactancia compartida; sexualidad; maternidad; lesbianas; bisexuales
Introdução
A maternidade e as parentalidades são temas vastamente estudados dada sua centralidade no debate sobre divisão sexual do trabalho. Se por um lado a maternidade é pensada para mulheres cisgêneras enquanto uma inclinação natural, afim de normalizar e normatizar a centralidade das tarefas de cuidado nas mulheres e a manutenção da hegemonia masculina de poder (Federici 2023; Rich 2010), por outro lado, a cisheteronormatividade age na manutenção de uma hierarquia que define aquela que é a “boa maternidade” - heterossexual, entre pessoas cisgêneras, monogâmica, branca, relacional -, a fim de também garantir que reproduzir a espécie seja, portanto, reproduzir a heterossexualidade1 (Wittig 2022; Mattar e Diniz 2012). Logo, a tarefa de delimitar aquilo que é a norma acaba por criar também uma periferia para aqueles e aquelas que não se adequam a ela, a exemplo das parentalidades LGBTQIA+ - aqui, mais especificamente, aquelas que acontecem entre mulheres - que seguem estigmatizadas socialmente e inviabilizadas pelo aparato jurídico (Corrêa 2012).
Se articularmos a necessidade, para o sistema capitalista colonial, de que a reprodução aconteça a seus moldes, reproduzindo seus pressupostos ontológicos com a resistência cotidiana produzida por pessoas LGBTQIA+ no fazer de suas próprias vidas, é possível olhar para as parentalidades como um espaço de disputas e resistências (Wittig 2022; Trupa 2017). O que aponta para dois pontos: 1) se é a partir da prática da parentalidade que acontece a primeira socialização, é possível também usar dessa permeabilidade na transmissão de saberes outros que contribuam para desarmar os pressupostos que dão corpo à colonialidade capitalista e cisheteronormativa; e 2) construir um certo tipo de visibilidade, em um esforço de também produzir registros sobre narrativas dissidentes de parentalidades, torna-se uma das tarefas necessárias na produção de uma memória LGBTQIA+. Isso poderia acarretar a desconstrução de uma narrativa biologizante dos corpos em um projeto de felicidade que centralize a experiência das dissidências sexuais e de gênero, abrindo espaço para que sejam discutidas as práticas de cuidado que surgem em ato, cuja gênese é a multiplicidade de possibilidades que emergem nos espaços de fronteira construídos pela cisheteronorma.
Uma dessas práticas de cuidado que surgem das dissidências é a dupla amamentação - ou colactação ou amamentação compartilhada - definida como o ato de mais de um responsável amamentar uma mesma criança (Ferri et al. 2020). Apesar de diferenciar-se por definição da “amamentação cruzada”, ambas as práticas se fundamentam na lógica de amamentar uma criança sem tê-la gestado. Mesmo que proibida nas maternidades e alojamentos conjuntos e contraindicada em outros contextos pelo Ministério da Saúde, nas portarias n°1016 de 1993 e n° 2415 de 1996, o compartilhamento de leite segue como importante ferramenta de organização da vida em certos territórios (Brasil 1993, 1996; Hirsch 2024).
Partindo então dessas elaborações iniciais, propomos nesse artigo, que compõe um estudo que buscou narrar e interpretar os sentidos dados por casais de mulheres às suas experiências com a dupla amamentação, a discussão sobre aspectos das negociações e questões que surgem antes do parto, compreendendo esse momento como fundamental na construção da experiência dessas mulheres com a maternidade e a amamentação.
Sendo assim, essa pesquisa se ocupa em olhar para essas experiências a partir de um olhar que centraliza os modos de organização de vida e de cuidado no Sul Global, compreendendo os impactos coloniais no Brasil, mas também a partir da centralização da experiência das dissidências enquanto potencializadoras na produção de realidades outras, que estejam eticamente implicadas com projetos de vida, em detrimento do projeto de morte posto pela colonialidade àqueles e àquelas que ousam construir felicidade fora de suas normas.
Percurso metodológico
Esse artigo é fruto de uma pesquisa qualitativa, que se debruçou sobre a tarefa de investigar de que maneira casais de mulheres cisgêneras dão sentido à experiência da dupla amamentação a partir de uma análise ancorada em perspectivas feministas e decoloniais do Sul Global (Federici 2023; Lugones 2014). Dessa forma, em busca de maior compreensão das construções intersubjetivas que constituem então os sentidos que essas mulheres atribuem às suas experiências, foram realizadas entrevistas semiestruturadas, que ocorreram remotamente por meio de videochamadas. A escolha pelo formato virtual para a realização das entrevistas se deu por preferência das participantes por diferentes razões, como disponibilidade de tempo, conforto no momento do puerpério e a possibilidade de mobilização de rede de apoio para o momento das conversas.
As participantes foram convidadas, enquanto casal, a integrar a amostra após pesquisa em redes sociais, nas quais também foi realizado o contato inicial, com a apresentação da pesquisa e verificação da adequação das participantes aos critérios de inclusão - para isso, uma das mulheres do casal deveria ter passado pela gestação e a outra, pela indução da lactação2. Além disso, contatos-chave, construídos a partir de pesquisas anteriores, foram acionados na intenção de divulgação do estudo. Após a aproximação inicial com as primeiras participantes, foi adotado o método de bola de neve para ampliação da amostra (Vinuto 2014).
Após aceitarem o contato inicial, as entrevistas foram agendadas e, no primeiro momento, foi lido o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). Foram realizadas 6 entrevistas - sendo 1 delas com o casal e as outras 5 individualmente com cada uma das participantes. Portanto, foram entrevistados 3 casais e uma participante não gestante, cuja ex-companheira não quis integrar a amostra. As entrevistas aconteceram entre junho e outubro de 2024, duraram, em média, 50 minutos e foram gravadas com o consentimento das entrevistadas para posterior transcrição e análise.
Para a análise dos dados foi realizada análise de conteúdo temática, segundo Burnard (1991) e Burnard et al. (2008), a partir das seguintes etapas: as entrevistas foram transcritas integralmente e sistematizadas, disparando um segundo momento de imersão no material a fim de uma familiarização profunda com as transcrições produzidas. Nesse momento também se iniciou uma etapa densa de codificação aberta dos dados, no intuito de produzir uma aproximação dos trechos em temas gerados livremente e a partir dos principais aspectos emergentes. Após a codificação aberta, foi realizada a etapa de agrupamento de categorias similares em categorias mais abrangentes, buscando aproximações entre elas. Após essa etapa, as categorias foram validadas com outras pesquisadoras e, por fim, com os dados agrupados, foi realizada uma etapa de maior reflexão sobre o material produzido, em articulação com o referencial teórico, para elaboração da discussão (Burnard 1991; Burnard et al. 2008).
Vale dizer que o esforço de se debruçar sobre uma produção científica implicada com a busca por justiça social passa necessariamente pela tarefa de assumir que a Ciência nunca esteve comprometida com a equidade, defendendo, ao longo do tempo, um projeto político implicado na manutenção da hegemonia de poder da colonialidade e do capital. Logo, produzir a partir desse lugar outro é também buscar redesenhar não apenas o processo de pesquisa, mas também a relação pesquisadora-participante a partir de outros compromissos éticos, o que significa empenhar esforços em um processo contínuo de reflexividade e posicionalidade. Nesse sentido, faz-se fundamental colocar em cena a figura da pesquisadora principal enquanto uma pessoa que não passou por gestações ou amamentou, mas que também é militante pelos direitos da população LGBTQIA+ e cujo corpo é frequentemente marcado pelas políticas de exclusão de corpos dissidentes de gênero, impactando não apenas na escolha do objeto de pesquisa, mas também trazendo diferentes elementos de negociação com as participantes - o que por vezes é capaz de contribuir para a construção de diferentes políticas de aliança (Zibechi 2015; Detamore 2016) - e refletindo também nas formas a partir das quais a presente pesquisa foi construída, desde sua concepção até a análise dos dados produzidos.
Resultados e discussão
Participaram da pesquisa 7 mulheres, todas autodeclaradas cisgêneras e brancas. Quanto às suas sexualidades, 2 participantes informaram ser lésbicas, 1 informou nunca ter se relacionado com homens e as outras não informaram sua orientação sexual, tendo demonstrado certa confusão ao serem perguntadas sobre suas sexualidades, escolhendo não responder. Dentre as participantes, 4 foram mães não gestantes - e 3 mães gestantes na cena de dupla amamentação à qual se refere esta pesquisa. Os termos aqui utilizados emergiram das próprias entrevistas junto de variações como “mãe sem engravidar” e “mãe que gestou”.
As participantes deste estudo, identificadas por pseudônimos para preservar sua identidade, apresentam perfis socioeconômicos e profissionais diversos. Julia (35 anos) e Gabriela (34 anos), ambas fisioterapeutas, residem na cidade de São Paulo e reportaram renda mensal aproximada de cinco salários-mínimos. Também residentes em São Paulo, Lucia (52 anos), musicista que atua como cantora na noite, e Suzana (39 anos), atriz e tradutora, estavam vivenciando processos de separação conjugal no momento da entrevista; Suzana informou renda mensal média de quatro salários-mínimos. Fabiana (29 anos) e Marcia (30 anos), residentes em Marília, trabalham em cozinhas hospitalares e relataram rendimento mensal em torno de 3,5 salários-mínimos. Por fim, Bruna (37 anos), moradora de Niterói, no estado do Rio de Janeiro, declarou renda mensal de sete salários-mínimos.
Os resultados são apresentados, descritos e discutidos a partir das 3 categorias construídas, de forma indutiva, para a compreensão dos atravessamentos que antecedem o parto na realidade de casais dessas mulheres cisgêneras em dupla amamentação. Citações das próprias participantes foram incluídas nas descrições, abarcando nuances e abrangências de tais temas.
Motivações para a dupla amamentação
Essa categoria foi construída a partir do compartilhamento das participantes acerca da motivação na busca pela dupla amamentação, bem como os sentidos atribuídos por elas a essa prática. A possibilidade de criação de um outro tipo de vínculo - menos desigual e mais profundo -, entre a mãe não gestante e a criança aparece como um fator central para que a amamentação compartilhada seja considerada:
Depois eu li, na internet mesmo, [...] que era possível fazer indução com medicamento, mas nunca soube que medicamento era esse, tanto que no processo desses 5 anos tentando engravidar e tudo mais, eu sempre falava pra ela: “cara, seria legal você amamentar também porque você tem uma conexão a mais com o bebê…” O bebê que amamenta, ele fica muito grudado na mãe mesmo que sejam duas mães. Ele vai desenvolver uma relação legal com a outra mãe? Vai, mas quando ele for maior. Quando ele for menorzinho ele vai ser o grude da mãe que amamenta e o fato de… das duas amamentarem dá essa divisão, dá essa igualidade, eu acho… [...] Eu acho que… [...] o lance da amamentação [...] dá uma diferença na relação com a criança. (Bruna, mãe não gestante).
Em busca acerca da produção científica de dados sobre as práticas de cuidado no Sul Global é possível notar que o reconhecimento desse vínculo que é construído a partir da amamentação sempre se fez presente em comunidades periféricas que organizam o cuidado - em especial, das crianças - de maneira coletiva. Além disso, por vezes, esse cuidado envolve a prática da amamentação cruzada como forma de ampliar as possibilidades de vida e circulação na cidade, bem como possibilitar a busca por um trabalho remunerado. Essas relações se dão de forma próxima e são capazes de estabelecer, para além da conexão emocional, laços de parentesco (Hirsch 2024).
Entretanto, essas práticas não se refletem nas políticas ou normativas oficiais, que se enraízam no paradigma biológico. Em breve esforço genealógico, é possível observar que, entre as décadas de 70 e 80, as normativas responsáveis por pensar a amamentação se voltavam majoritariamente para a amamentação como fonte de alimentação da criança, com ênfase na melhora dos quadros de morbimortalidade - com marcos como o Programa Nacional Saúde Materno-Infantil (PNSMI), de 1974. Nessa toada, segue-se a construção de políticas públicas que supervalorizavam aspectos biológicos em detrimento dos aspectos biopsicossociais da amamentação (Moreira e Lopes 2007).
É apenas muito recentemente que esse paradigma começa a mudar, com documentos como o Guia Alimentar Para Crianças Brasileiras Menores de 2 Anos, que menciona a amamentação como uma ferramenta criadora de vínculo com a criança (Brasil 2019). Entretanto, vale dizer que essa ainda é uma ideia tímida nos documentos oficiais e pouco ancorada nos debates das ciências humanas de forma a não produzir a visibilidade necessária para a valorização de aspectos psicossociais. Dessa forma, é possível perceber não só uma desconexão entre o conhecimento produzido nos territórios e a construção de políticas, mas também a ignorância das políticas às práticas dos territórios, fato que se conecta com a amamentação compartilhada em cenas de dissidência de gênero refletindo em sua invisibilização e, portanto, eu seu apagamento histórico.
Compreendendo que a amamentação também integra uma teia de tarefas de cuidado não remuneradas, a preocupação com a criação de um vínculo diferenciado por meio da alimentação também passa pelo entendimento de que a proximidade criada entre a criança e aquela que gestou e amamenta pode acarretar em uma divisão de tarefas ainda mais desigual e fonte de sobrecarga. A percepção, que se constitui a partir das negociações do casal, é facilitada pela simetria de poder entre aquelas que configuram essa relação (Carvalho et al. 2020), o que quer dizer que a percepção da desigualdade de carga de trabalho não remunerado dentro de uma gestação é mais passível de ser observada ao ser construída entre duas mulheres cisgêneras - que, portanto, foram marcadas pela construção de uma identidade imbricada na ideia da maternidade como fim. Isso é retrato também de como articulam-se os papeis de gênero na construção da identidade dessas mulheres. Visto que as tarefas de cuidado são designadas a um certo tipo de corpo - mulheres, e em especial as racializadas fora da branquitude - o encontro de duas mulheres em maternagem terá como efeito a produção de perguntas outras que, no limite, podem impulsionar novos modos de pensar e viver a maternidade. Além disso, a amamentação compartilhada também acaba por possibilitar uma organização diferenciada da relação entre as tarefas de cuidado com a criança e o trabalho remunerado. Se por um lado o trabalho remunerado tende a dificultar a prática da amamentação exclusiva e, por consequência, a manutenção da amamentação até os 2 anos de idade (Ferreira et al. 2022), por outro lado, as possibilidades de organização da vida diária se multiplicam com uma maior disponibilidade de pessoas que podem cumprir a tarefa de amamentar. Além disso, uma maior disponibilidade de leite também acaba por ser um aliado para que as fórmulas sejam evitadas. Dessa maneira, a possibilidade de uma subversão das lógicas de cuidado construídas e pensadas a partir das configurações cisheterossexuais de família também surge como motivação na escolha pelo aleitamento compartilhado:
- Eu… eu acho assim que o motivo maior assim foi o vínculo, né?! É… mas também a gente pensava muito no… em ajuda né?! Ela me ajudar na amamentação, é…. a gente dividir as tarefas…. e tudo. É… enquanto uma amamenta a outra vai fazendo alguma outra coisa… E também a gente pensava na volta ao trabalho, né?! É… porque como a gente trabalha 12 por 36, a gente pensava tipo assim, como a gente não pretendia deixar ela com ninguém e nem colocar em creche nem nada. É… a gente iria alternar né, os dias de trabalho. Enquanto uma trabalhava, a outra ficava com ela e…. pra não precisar introduzir a mamadeira, porque a gente sempre é… priorizou a amamentação, a gente pensou na dupla amamentação porque auxiliaria nisso. A gente não precisaria introduzir a mamadeira e cada dia uma poderia amamentar. (Fabiana, mãe gestante).
Se por um lado, então, a amamentação compartilhada pode desafiar - por meio de uma outra organização das tarefas de cuidado - a arquitetura social na qual se constrói o papel da mulher dentro da configuração neoliberal colonial, por outro, ela também coloca em perspectiva os pressupostos científicos biologizantes que sustentam a divisão sexual do trabalho ao desnaturalizar a amamentação como parte intrínseca à tarefa de gestar. Ou seja, a amamentação em um corpo que não gestou a criança a ser amamentada coloca em xeque os pressupostos biologizantes que organizam os modos de vida e, por consequência, o modelo ideal de exercício da maternidade (Mattar e Diniz 2012). A possibilidade de experienciar parte da gestação - quando sonhada e desejada, mas impossibilitada - também surge então como uma das motivações para a indução da lactação pela parceira que não gestou:
Agora, o lado da amamentação veio muito por conta da questão também que eu queria muito ter engravidado e não consegui. Era um sonho amamentar, engravidar e tudo mais e… quando soube da oportunidade de que eu também poderia pelo menos amamentar, eu quis fazer e me dediquei super a isso, entendeu?! (Bruna, mãe não gestante).
Desejo pela maternidade
Os trechos categorizados nesse tema discorrem sobre a presença ou ausência do desejo pela maternidade, experienciado pelas mães gestantes e não gestantes. Para elas, a maternidade sempre foi uma vontade, em maior ou menor nível, e apresenta diferentes atravessamentos. Vale dizer que, ao olharmos para a experiência de maternidade entre mulheres cisgêneras, o desejo - seja ele construído coletivamente, individualmente ou imposto por processos de subjetivação - se torna um importante pressuposto, visto a necessidade das mediações tecnológicas:
Quando a gente começou a falar sobre o assunto ser mãe, casar, ter filhos e tudo mais, nós duas tinha em comum a vontade de ser mãe e a vontade de gestar. É… mas aí nesse meio tempo [...] em 2022 a gente se casou já com o plano da fertilização.[...] A gente já conhecia a clínica, já tinha entrado em contato, já sabia como que seria mais ou menos o processo, aí em 2022 a gente se casou e em 2023 a gente iniciou o processo de fertilização. É… aí, a gente sempre falou dessa questão de filhos. Eu sempre quis ser mãe, ela também. Ela teve um relacionamento anterior que ela falou sobre ser mãe e a ex mulher dela não tinha essa vontade em comum com ela. E eu sempre… A gente sempre conversou sobre isso e a gente tinha essa vontade em comum. (Marcia, mãe não gestante).
Entretanto, por mais que exista uma intencionalidade - e por mais que o papel da maternidade para mulheres que se relacionam com outras mulheres tenha diferentes significados do que para mulheres cisheterossexuais -, elas também estão inseridas no mesmo contexto político-social de imposição da maternidade que outras mulheres cisgêneras. Ou seja, apesar de impactadas de forma distinta pela imposição da maternidade enquanto norma - visto as hierarquias reprodutivas que normatizam a reprodução socialmente aceita, sendo essa, entre um casal heterossexual, branco, monogâmico e saudável (Mattar e Diniz 2012) -, mulheres que se relacionam com mulheres também são impactadas pela imposição da maternidade enquanto destino inato. Dessa forma, é possível então complexificar o olhar sobre a realidade das duplas maternidades visto que, por um lado, o desejo pela maternidade está sempre presente - dada a mediação médico-jurídica necessária para que ela aconteça (Trupa 2017) -, e, por outro, assumir esse desejo como inato seria ignorar os processos de subjetivação que dão corpo à identidade dessas mulheres (Federici 2023; Rich 2010).
Esse desejo é então atravessado por questões que não são dadas à experiência hegemônica de maternidade, mas sim por negociações que acontecem a partir da singularidade das possibilidades numa dupla maternidade. E, se por um lado, a maternidade pode representar esse momento de realização de desejo individual - por meio do maternar, da gestação ou da experiência da amamentação -, ela também pode se estabelecer como um momento de realização coletiva, centrada na ideia de construção de família:
Eu sempre sonhei em ser mãe e acho que desde sempre [risadas]. Eu até brinco com a Marcia que se eu fosse casada com um homem eu já ia ter uns 7 filhos [risadas]. Eu sempre sonhei em gestar, é… Passar por todo o processo de gestação né… [...] Sempre fantasiei muito a gestação, né, o processo de gestação. Pra mim era uma coisa muito linda, muito extraordinária, é… Sentir que você tá gerando uma criança, né?! E… desde o primeiro dia de contato, desde o primeiro dia que eu e a Marcia se conheceu, a gente sempre falou de ter filho, né?! E… de formar uma família juntas né?! (Fabiana, mãe gestante).
O conceito daquilo que é família não é homogêneo nem mesmo dentro do movimento LGBTQIA+ e se, por vezes se debate a importância das “found families”3 como relação vital para a sobrevivência de grupos marginalizados, o processo neoliberal também cumpre um papel importante na captura dos sonhos, produzindo um desejo constante de assimilação, atravessado pela cisheterosexualidade - e o seu estilo de vida - enquanto objeto de desejo. Não é possível ignorar que a busca pela assimilação também se relaciona com as violências vividas que, juntamente com a arquitetura política-social-colonial - e sua incessante busca pela reprodução e manutenção de um sujeito universal, constituindo nele aquilo que é a norma -, cumprem papel central na normatização daquilo que se entende coletivamente como família. Mesmo que em certos territórios a construção daquilo que é família tenha diferentes significados, a ideia operante é a de uma família nuclear, branca e heterossexual.
De todo modo, outras maneiras de organizar as relações de parentesco ainda escapam à essa captura, como em alguns territórios onde a amamentação cruzada e as “mães de leite” são uma prática comum que se fundamenta em uma organização coletiva das tarefas de cuidado com o trabalho remunerado. Em alguns casos, quando a amamentação é constante e envolve outras tarefas de cuidado, pode gerar relações de parentesco envolvendo deveres e expectativas (Hirsch 2024).
Também é possível pensar nos limites daquilo que é compreendido como ser mãe e da própria maternidade enquanto experiência, já que dentro do desenho político e social que normativiza a maternidade heterossexual, há pouco espaço para a imaginação de novas formas de maternar, borrando os limites entre a ideia daquilo que é a maternidade e aquilo que é a gestação. Logo é possível compreender que conceitos como maternar e gestar podem ter diferentes significados a depender da interlocutora, podendo ora assumir um mesmo significado, ora assumir sentidos distintos:
A minha família já esperava isso um pouco de mim por conta de saber que eu sou louca por criança, sempre quis ser mãe… Desde criancinha “qual é o seu sonho de vida?” “eu quero ser mãe”. [...]. Então, quando a Laisa engravidou, todo mundo vinha me perguntar “como que você tá?”. Porque todo mundo achou que eu fosse dar uma surtada porque não era eu a grávida. E na verdade, eu também achava, porque no começo do nosso relacionamento eu falava pra ela “se eu não puder engravidar, a gente não vai ter filho, porque eu não vou aguentar ver você grávida e eu não”. [...] E quando eu descobri o positivo, porque eu que fiz o teste… Ela fez xixi e me entregou, eu que fiz o teste [as duas dão risadas] Como se fosse eu ali, é… Aí eu caí assim e pensei “cara, é real, vai acontecer… O que são 9 meses de barriga perto de uma vida inteira com ele…” Eu já tenho agora muito mais tempo com ele do que o tempo que ele passou na barriga, então assim, não era algo que… Antes de acontecer era algo que me martirizava, depois que eu vi o positivo, passou a não me martirizar mais…[...] Agora eu tenho o meu filho, porque eu vou me martirizar porque eu não pude gestar ele? Pra mim não era primordial “só vai ser meu se eu gestar”; ele é meu, tanto quanto, né?! (Bruna, mãe não gestante).
Planejamento sobre quem/como/quando gestar
Esse tema percorre os atravessamentos que surgem das negociações feitas pelos casais ao decidirem gestar, abordando aspectos como o método de fertilização, momento ideal para a gravidez e a experiência de pessoas próximas com gestação e parto, relacionando-se com a amamentação compartilhada na medida em que sua possibilidade torna-se mais um elemento nas negociações entre parceiras. Para Bruna, que passou 5 anos tentando engravidar por inseminação caseira antes de tentar uma Fertilização in vitro (FIV) que também não resultou em gravidez, foi um elemento que surgiu nos acordos com sua ex-parceira:
E na verdade, o nosso acordo, com minha esposa, agora ex-esposa, mas eu ainda falo esposa. Ela falou assim pra mim: “eu engravido, mas você amamenta”, ok, mas eu não tinha a completa noção de que eu não seria o suficiente sozinha para amamentar exclusivamente até os 6 meses que é o que precisa, né?
No caso de Bruna, mesmo com o processo de indução e produção de leite acontecendo como o esperado, a quantidade não foi o suficiente para a oferta de forma exclusiva até os 6 meses de idade, como recomendam o Ministério da Saúde (Brasil 2024) e o Guia Alimentar para Crianças Brasileiras menores de 2 anos (2019). A possibilidade de diferentes arranjos das tarefas de cuidado que se relacionam à maternidade, como a amamentação, surge como um elemento importante na negociação dos limites entre parceiras. Diferente das maternidades que acontecem em relações heterossexuais e cisgêneras, a gestação entre mulheres não heterossexuais, também cisgêneras, passa por etapas distintas de planejamento que são atravessadas por aspectos subjetivos que se relacionam com suas histórias de vida (Carvalho et al. 2020). Para um dos casais, em que ambas desejavam gestar, a idade foi o critério inicial para algumas decisões - seja como elemento para pensar o quando gestar, seja para pensar quem gestar:
Eu completei 30 anos em janeiro e a Fabiana fez 29 em maio e eu falei pra ela “ai, eu sou um pouco mais velha que você, se for pra ficar grávida, eu quero ficar primeiro que você”. Eu queria ficar grávida logo, porque depois dos 30 não quero mais. [...] Mas eu tive duas amigas que engravidaram, uma de gêmeos e uma outra que assim… É… Queria ser mãe, mas não queria naquela hora e assim, elas odiaram a gravidez. A gravidez foi horrível pra elas, elas falavam assim “miga, eu amo minha filha, eu amo meus filhos, eu faço tudo por eles, mas a gravidez eu odiei!” Ela falou assim: se pudesse pular a parte de ficar grávida, eu pularia e teria só o filho. Pegava ele já prontinho.” Ela falou assim, sem parir sem nada, mas o processo da gravidez as duas odiaram e assim, é… não é um bicho de sete cabeças, mas aí eu falei assim “ai, acho que eu também não quero” [...]. Eu sou bem mole pra essas coisas, eu choro, choro mesmo e a Fabiana [...] tipo assim, ela já sabia do processo porque assim, a Fabiana ela sempre pesquisou… Tudo ela pesquisa, tudo ela procura, ela vai atrás… Assim, não que eu seja menos interessada, mas eu não procurava saber muito sobre isso. [...] Eu falei assim “eu não quero”. Aí ela falou assim “tem certeza? por que quando a gente decidir a gente tem que falar quem que é que vai gestar.” Aí eu falei assim “eu não quero, você pode gestar”. Aí, tipo assim, porque a gente é muito aberta quanto a isso. Tipo, vamo conversar, ver o que vai ser e decidir? Vamos! Aí foi assim.. Eu falei que eu não queria mais e ela falou assim: “depois se for pra ter outro filho você vai querer?” E porque depois da Laura [a filha] a gente já conversou sobre isso porque a gente tinha óvulos congelados, aí eu falei assim “não, não vou querer.” [risadas] E aí a gente decidiu assim, mas é… é, foi muito.. depois do que a Fabiana passou, porque assim, a gravidez dela foi muito tranquila, mas nos 3 dias antes da Maya nascer ela ficou bem mal e assim, eu falei pra ela “eu achei que você ia morrer” [participante ri nervosa] Porque assim, foi bem grave o caso dela, aí eu falei assim: “agora que eu num quero mais mesmo” [risadas]. (Marcia, mãe não gestante).
Entretanto, o fator central para a decisão final foi a experiência de amigas próximas com o processo de gestação e o momento do parto, que aparece como um elemento importante também em outras entrevistas. A partir daí, o corpo é colocado no centro da experiência - seja a partir da narrativa de outras mulheres, seja pela própria memória acionada por esse corpo que já passou pela gestação no passado. O risco então é apresentado também como um elemento na negociação de quem irá gestar:
A ideia de [...] quem iria gestar sempre foi em relação a Suzana, porque ela nunca tinha passado pela experiência e eu não estava disposta a passar novamente, até pela minha idade, também uma questão de risco… E ela sempre quis engravidar, então foi… juntamos a fome com a vontade de comer, né?! Já tinha a vontade de gestar e foi uma conversa simples. Foi a primeira conversa que a gente teve quando a gente sentou pra conversar sobre relacionamento, com dias que a gente se conhecia, 2, 3 dias. [...] [a falta de vontade de gestar novamente] Tem a ver com tudo. Com todo o processo. Então a gestação não era tão complicada, mas os meus dois partos foram muito difíceis, eu tinha uma idealização do parto humanizado, em casa, com parteira, mas tinha um pouquinho de pavor também, um pouquinho de medo”. (Lucia, mãe não gestante).
É interessante notar que essas negociações são transversais ao processo - que pode, em si mesmo, impactar nas decisões tomadas, seja influenciando ainda na decisão de quem gestará, seja na mudança do método de fertilização - aqui indo da inseminação caseira para a FIV e da FIV de volta para inseminação caseira:
É, e aí eu fiquei em média aí uns 5 anos, 5 anos e meio tentando engravidar por inseminação caseira. Ficamos um tempinho assim meio que “ah, deixa pra lá” e depois voltou, mas a gente tinha bastante tentativas e nunca dava certo, é… Fisicamente os médicos diziam que tava tudo em ordem, que não tinha um problema físico, num… num tinha algo que me impedia de engravidar, mas eu não conseguia. Aí em um determinado momento, a gente conseguiu uma ajuda financeira da minha mãe e a gente fez FIV, com os óvulos da minha esposa implantados em mim. Fizemos duas tentativas, uma com um embrião e outra com dois embriões que não deu certo. Aí, depois disso, a gente ficou meio que assim, num limbo, “que que a gente faz agora?” né?! Eu não consigo engravidar, não era o sonho da vida dela engravidar… Ela queria ser mãe sem engravidar. Só que aí ela chegou pra mim e falou assim “que que cê acha da gente tentar a inseminação caseira comigo?” Aí eu “tá, cê tem certeza disso?” “Tenho, eu já pensei muito e quero fazer.” E aí a gente fez uma inseminação caseira e veio o Davi, de cara, assim. (Bruna, mãe não gestante).
Apesar do avanço das tecnologias médicas abrirem mais possibilidades quando pensamos na maternidade entre mulheres (Trupa 2017; Carvalho et al. 2020), o seu desenvolvimento está enraizado em um projeto biopolítico de melhoramento dos corpos, pensado a partir da realidade de casais heterossexuais para uma reprodução que não pressuponha uma relação sexual reprodutiva (Felipe e Tamanini 2020). Esse ponto é central para compreendermos o imbricamento entre o desenvolvimento das tecnologias médicas e os ganhos para a população LGBTQIA+, sem que seja construída a falácia de que em alguma medida o poder médico trabalha em favor de corpos marginalizados.
Uma outra possibilidade no processo de transição para a parentalidade é a fertilização caseira que, por vezes, é entendida como uma opção mais natural que aquelas que envolvem um aparato médico:
E [...] a gente acabou encontrando um amigo, que surgiu o assunto com um amigo e ele demonstrou interesse. Na época, a gente não tinha certeza se a gente queria um pai ou não pra Ana e… e aí ele falava que queria ter filho, mas não queria criar filho, mas queria ter algum legado e tal. E aí a gente fez três auto-inseminações com ele. [...] Então as três em 2020, uma em janeiro uma em outubro, uma em dezembro. Nossa eu lembro quando eu tomei a vacina… a primeira vacina da covid, aquela a única coisa que eu falei foi Ana, estamos chegando, tipo você está vindo. A… a minha relação com a vacina com a covid era filha agora você pode vir.. Aí [...] na terceira inseminação eu tive uma gestação química, eu cheguei a ter um positivo, fiz teste cedo, bem cedo, então cheguei a ter um positivo do beta, mas bem baixinho depois menstruei logo em seguida. Aí o cara pipocou, falou: “deu ruim aqui em casa, acho que não vai rolar, meu marido ficou meio incomodado”. E aí a gente também entendeu que ele queria ser pai e a gente não queria um pai. [...] A gente deu um tempo e aí maio… junho… como é que foi? Lá pra maio a gente começou a pensar nisso de novo. E a Lucia trouxe a possibilidade do filho mais velho dela ser o doador - do irmão mais velho da Ana ser o doador - que na época tinha 25, 26 anos, é raro também as famílias terem essa possibilidade, né? Do irmão doar, porque normalmente os irmãos têm idade próxima, né? Enfim, é raro você ter irmão que já é um adulto com competência para tomar uma decisão dessa. (Suzana, mãe gestante).
Nesse caso, são essas mulheres que devem negociar a doação de sêmen, sendo esse então mais um atravessamento que, não só influencia nas decisões a serem tomadas, como também adiciona mais uma pessoa - e assim, seus desejos e subjetividades - a esse já denso processo de decisão:
A Lucia teve [...] uma gestação com uma perda e depois as duas gestações dos dois meninos, né, [...] eu nunca tinha tido uma gestação e eu eu sempre coloquei: eu quero, eu vou gestar a Ana e ponto. Isso [...] não era negociável. O que poderia ser negociável era ela também gestar outra criança e… e ela também gestar um filho nosso, ou uma filha nossa. Isso poderia ser conversado. Não, pra mim não existia a conversa se eu gestaria ou não porque era uma vontade muito grande em mim.. É… mas ela às vezes trazia que sim, às vezes trazia que não e aí tinha sintomas de, de menopausa e que ela ainda tem até hoje e aí não, e sim… então sempre foi uma coisa muito [...] incerta assim: quero ou não quero? [...] Eu não pressionei nem por um lado, nem por outro, enfim eu só segui, segui e também pra ela, isso sempre foi muito tranquilo e claro, que eu gestaria também ou sozinha né? [...] E fomos seguindo ela ela teve ideia [...] do filho [dela] ser o nosso doador, pelo vínculo genético, né, biológico mesmo [...]. Pra ela era importante, então foi também por esse caminho [...]. (Suzana, mãe gestante).
Nesse mesmo sentido, a genética surge como um fator paradoxal, que, ao mesmo tempo que tem sua importância reafirmada, também expõe a fragilidade ficcional da relação que se constitui entre os laços genéticos e as relações de parentesco. É possível então, a partir dessa cena de negociação em que o filho de uma das mulheres torna-se o doador, pensar sobre os modos com que a biologia enquanto campo científico e, por consequência, o campo da saúde não só trabalha a favor da construção de uma ficção biologizante da arquitetura social, como se tornou parte constituinte - e no limite, seu cerne -, reduzindo significativamente a nossa capacidade de imaginar outras possibilidades de organizar o mundo e, por consequência, as relações de parentesco.
Nesta cena em que o doador não desenvolverá um vínculo de parentalidade, a genética surge como critério de decisão. Em justaposição, ou talvez contradição, com a interpretação acima, esta situação oferece pistas da potência das dissidências de gênero em fazer tremer o regime político de homogeneização sexual que constrói uma política de morte para as corporalidades desviantes (Mombaça 2021). Assim, a partir da produção de vidas dissidentes é possível que coletivamente professemos: “[...] nós vamos penetrar suas famílias, bagunçar suas genealogias e dar cabo de suas ficções de linhagem” (Mombaça 2021, 85).
Considerações finais
A produção desse artigo acontece a partir de um esforço narrativo na tentativa de produzir alguma visibilidade para os atravessamentos que antecedem o parto em casais de mulheres que optaram pela dupla amamentação como parte importante das suas histórias de vida, bem como para suas práticas de cuidado. Olhar para essas realidades - bem como para os atravessamentos que particularizam essas experiências - é fundamental para suscitarmos perguntas outras que sejam capazes de dar conta de realidades que fujam à norma.
É importante pensar que o campo da saúde ainda se estabelece como um dos principais pilares da patologização de corpos dissidentes e, construir uma produção científica implicada com um projeto de vida e felicidade para esses corpos, localizada na realidade do território e a partir da valorização de nossas práticas ancestrais de organizar a vida, é urgente. A amamentação compartilhada, e seus atravessamentos que antecedem o parto, surgem como uma das mais variadas formas de disputar a narrativa estática e normatizante da colonialidade e, portanto, da cisheteronorma.
A partir disso, esse estudo evidencia de que maneiras essas mulheres negociam suas vidas cotidianamente, partindo de suas formas de entender o mundo e pensar a maternidade segundo suas lógicas de cuidado, evidenciando a maneira com que as construções de gênero e a relação com o trabalho remunerado se articulam com o desejo pela maternidade e as negociações sobre a gestação.
Logo, trazer ao centro essas narrativas marginalizadas acabam então por ser um modo de reivindicação de direitos que se estabelece em paralelo ao projeto de mundo que possui como pressuposto ontoepistemológico a exclusão e o genocídio de corporalidades desviantes e que, ao mesmo tempo, se encarrega em deslocar o desconforto da própria existência de volta para aqueles que não conseguem imaginar um mundo em que existam aquelas e aqueles que sequer almejam se constituir à sua imagem e semelhança (Mombaça 2021).
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1
Aqui, a heterossexualidade é compreendida enquanto regime operante que constrói um modo de viver no mundo, centrado não apenas na heterossexualidade compulsória mas também na cisgeneridade enquanto ideal de gênero e performance (Wittig 2022; Rich 2010; Motter 2024).
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2
A indução da lactação é a técnica que combina suplementação hormonal à estimulação mecânica das mamas, no intuito de produzir leite em corpos que não passaram por uma gestação (Fernandes et al. 2022).
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3
O conceito de “found family” surge nos estudos de literatura para debater narrativas que se constroem em torno do encontro de pessoas LGBTQIA+ que resulta na construção de uma comunidade queer de aceitação e cuidado, que por muitas vezes ocupa o lugar da família nuclear (Simmons 2020). A exemplo das casas de Vogue.
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Declaração de dados:
Todos os dados estão disponíveis no texto.
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