Resumo
Embora ambas busquem ancorar a conceituação sociológica num engajamento profundo com os dados empíricos, a teoria fundamentada (Grounded Theory) de Glaser e Strauss e o estudo de caso ampliado (Extended Case Method) de Burawoy divergem, no entanto, singularmente nas suas formas de encarar a extensão do estudo de caso e de reconhecer o contexto mais amplo da pesquisa no processo de teorização – revelando afinidades eletivas, por um lado, com uma abordagem positivista voltada para as interações locais e, por outro lado, com uma perspectiva reflexiva sensível com as dinâmicas globais. Para elucidar as raízes destas semelhanças e divergências, este artigo visa estimular um diálogo interdisciplinar entre esses legados metodológicos da sociologia de Chicago e da antropologia social de Manchester: (1) localizando-as dentro dos debates epistemológicos fundamentais das Ciências Sociais a respeito da relação entre observador e participante no cerne do processo de coleta de dados; (2) reconstruindo as gêneses e conexões que existem entre Chicago e Manchester, destacando os processos sociais e científicos que moldaram suas contribuições singulares para a história disciplinar da Sociologia e da Antropologia; (3) retornando, por fim, à antinomia entre suas concepções de comparação e generalização, destacando assim o contraste epistemológico existente entre estas duas abordagens. Ao longo dessas trajetórias disciplinares, paralelas, mas contraditórias, surgem assim recursos metodológicos que respondem cada um de forma distinta ao desafio de conectar forças globais e dinâmicas locais – ressaltando, assim, a importância do diálogo interdisciplinar e dos cruzamentos entre escolas de pensamento distintas na história e no futuro das Ciências Sociais.
Palavras-chave:
ciência reflexiva; positivismo; epistemologia; observação participante; metodologia
Résumé
Cherchant toutes deux à enraciner la conceptualisation sociologique dans un engagement approfondi des données empiriques, la théorie ancrée (Grounded Theory) de Glaser et Strauss et l’étude de cas élargie (Extended Case Method) de Michael Burawoy divergent toutefois singulièrement dans leurs manières d’aborder l'extension de l'étude de cas et de reconnaître le contexte de recherche plus large dans le processus de théorisation. Pour éclairer les fondements de ces similitudes et divergences, cet article vise ainsi à reconstituer un dialogue entre ces héritages méthodologiques de la sociologie de Chicago et de l'anthropologie sociale de Manchester: (1) en les situant dans les débats épistémologiques fondamentaux des sciences sociales en ce qui concerne la relation entre observateur et participant au cœur du processus de collecte de données sociologiques; (2) en reconstruisant ensuite l'historique de leurs genèses et les connexions existant entre Chicago et Manchester, soulignant les processus sociaux et scientifiques qui ont façonné leurs contributions singulières à l’histoire disciplinaire de la sociologie et de l’anthropologie; (3) en revenant finalement sur l’antinomie entre leurs conceptions de la comparaison et de la généralisation, mettant ainsi en exergue le contraste épistémologique existant entre ces deux approches. Au fil de ces trajectoires disciplinaires parallèles, mais contradictoires, émergent ainsi des ressources méthodologiques répondant chacune de manière distincte au défi de connecter forces globales et dynamiques locales – soulignant ainsi l’importance du dialogue interdisciplinaire et des croisements entre écoles distinctes dans l’histoire et le devenir des sciences sociales.
Mots-clés:
science réflexive; positivisme; épistémologie; observation participante; méthodologie
1. Introdução
Como podemos contribuir para a teoria sociológica enquanto enraizamos ao mesmo tempo de maneira firme a conceitualização em um engajamento profundo com os dados obtidos em campo? De qual maneira podemos dar conta da singularidade dos casos estudados sem perder de vista uma perspectiva de extensão e de generalização? E de que maneira podemos conectar fenômenos locais – estudados pela etnografia ou através de entrevistas – com dinâmicas mais amplas do mundo social?
Estas questões estão no cerne das preocupações tanto da Escola de Chicago quanto da Escola de Antropologia Social de Manchester: enquanto a primeira, enraizada numa leitura empirista da ecologia urbana e a sua lógica interacionista e gerencialista, ganhou uma posição quase incontornável em sociologia, sobretudo francófona – nomeadamente através do incessante trabalho de tradução, intelectual e linguístico, de Jean-Michel Chapoulie (1984, 2001) – a segunda, compartilhando com o marxismo uma certa afinidade por uma perspectiva de transformação social, ficou influencial em antropologia, embora de forma muito mais aguda no mundo anglófono (ver Evens; Handelman, 2005a, 2005b) e brasileiro – entre outros, por meio das contribuições de Peter Fry (2011) nos programas de pós-graduação da UFRJ e da Unicamp, e dos irmãos Velho (2010; Velho; Fiore, 2010) no programa do Museu Nacional.
Portanto, ambas apresentam respostas metodológicas notavelmente divergentes acerca dos seus horizontes epistemológicos e das formas de conceber os objetivos da pesquisa em Ciências Sociais: enquanto a tradição de Chicago acabou se consolidando no final da década de 1960 em uma abordagem resolutamente indutiva – buscando regularidades na vida social – codificada por Glaser e Strauss (1967) em The Discovery of Grounded Theory (teoria fundamentada), a contribuição de Manchester assumiu por sua vez progressivamente a forma de uma proposição reflexiva – focando nas especificidades dos casos estudados – que foi formulada por Michael Burawoy (1944-2025), ao longo de sua prática pedagógica em Berkeley (Burawoy, 1991b) e das revisitas das suas pesquisas na Zâmbia (Burawoy, 1998) e em Chicago (Burawoy, 2003b), consolidada na forma da Extended Case Method (estudo de caso ampliado).
Entretanto, embora ambas atribuam à teoria uma posição quase que de antagonista – com a teoria fundamentada a considerando como o resultado de uma abordagem de pesquisa indutiva, e o estudo de caso ampliado a abordando como o ponto de partida de um processo de questionamento e reconstrução – estas duas escolas compartilham, no entanto, uma história de cruzamentos e diálogos (ver Hannerz, 1980) que precisam ser desvendados a fim de esclarecer suas contribuições específicas para as trajetórias disciplinares contraditórias seguidas pela Sociologia e Antropologia; revelando formas distintas de conectar os fenômenos sociais locais com as forças globais e, consequentemente, concepções divergentes da mudança social e do papel das ciências sociais nesse processo.
Este artigo visa portanto sintetizar e ampliar o diálogo empreendido por Burawoy (1991a, 2000) entre estas duas escolas-chave da Ciência Social do século XX, destacando o significado politico e macrossociológico das suas divergências metodológicas: situando-o primeiro no campo dos debates epistemológicos que estruturaram a relação tanto entre atores e pesquisadores quanto entre o trabalho de campo e as teorias; voltando em seguida ao processo de constituição de suas contribuições metodológicas numa lógica genética; e propondo, finalmente, um balanço de suas concepções divergentes sobre as dinâmicas de comparação e generalização que orientam a prática da pesquisa sociológica.
2. Eixo hermenêutico e eixo científico
A metodologia é a estrutura que possibilita o diálogo entre o campo e a teoria, realizando a articulação entre uma série de técnicas de coleta de dados e um conjunto de conceitos e generalizações. Nas Ciências Sociais, Burawoy (1994) defende a ideia de que o campo metodológico se encontra tensionado entre dois eixos: um eixo hermenêutico – que trata da relação entre observador e participante – e um eixo científico – que trata da relação entre campo e teoria. Enquanto o positivismo tentaria reprimir a dimensão hermenêutica da pesquisa – procurando impor um controle radical sobre os efeitos do engajamento do pesquisador com o mundo por ele estudado, a fim de garantir a cientificidade do processo indutivo – o pós-modernismo rejeitaria, por sua vez, sua dimensão científica – abraçando radicalmente o envolvimento subjetivo e considerando o projeto de desenvolver teorias explicativas da sociedade como uma ambição inalcançável, ou até mesmo como uma falha moral. Contudo, como também aponta Burawoy (1994, p. 1):
As sociologias clássicas de Marx, Weber, Durkheim e Freud, cada uma à sua maneira, rejeitaram a repressão positivista da dimensão hermenêutica, bem como a repressão pós-moderna da dimensão científica1 .
A fim de apresentar uma alternativa reflexiva ao modelo positivista, afastando-se ao mesmo tempo da abordagem pós-moderna e de seu abandono de uma perspectiva de diálogo com a teoria, Burawoy (2009) nos propõe uma tabela que localize as principais correntes metodológicas nas Ciências Sociais, de acordo com a forma como elas concebem a combinação entre um modelo científico e uma técnica de pesquisa (Quadro 1).
Burawoy se concentra primeiro nos dois principais tipos de técnicas de coleta de dados desenvolvidos progressivamente pelas Ciências Sociais: seja trazendo os sujeitos da pesquisa no tempo e espaço do pesquisador, na forma de questionários ou entrevistas, seja sujeitando o pesquisador à temporalidade e espacialidade dos sujeitos, no âmbito da observação participante. Tomando o ponto de vista do etnógrafo, o sociólogo de Berkeley dará então conta desta distinção da seguinte maneira:
Como técnica de pesquisa, a observação participante se destaca por quebrar as barreiras entre observador e participante, entre aqueles que pesquisam e aqueles que são pesquisados. Ela quebra a gaiola de vidro a partir da qual os sociólogos observam o mundo e os coloca temporariamente à mercê de seus sujeitos. Em vez de observar os entrevistados através de um espelho de duas vias, reconstruindo-os a partir dos traços que deixam nos arquivos, analisando suas respostas a entrevistas telefônicas, ou reduzindo-os a pontos de dados demográficos, o etnógrafo confronta os participantes em sua realidade corpórea, em sua existência concreta, em seu tempo e espaço (Burawoy, 1991b, p. 291).
O interesse de tal distinção é que ela vai além da divisão formal entre pesquisa qualitativa e quantitativa, que, na realidade, se limita a expressar a forma assumida pela codificação dos dados e, em última análise, acaba por não dizer nada sobre a relação entre o pesquisador e o campo, ou sobre a relação entre generalização e teoria. Este critério distintivo também torna possível perceber que toda pesquisa mobilizadora de entrevistas não conduz necessariamente à submissão ao positivismo, e que toda pesquisa etnográfica não implica necessariamente em um posicionamento reflexivo.
3. Limites de uma concepção positivista da pesquisa com entrevistas
Segundo Burawoy, o modelo de pesquisa positivista, amplamente dominante nas Ciências Naturais, encontra uma expressão particularmente clara nas Ciências Sociais na obra de Jack Katz, sociólogo da Universidade da Califórnia: Los Angeles (UCLA). Com base na sua pesquisa de doutorado – uma etnografia das mudanças na prática de advogados voluntários em Chicago – Katz (1983, p. 127-128) atualizou de certa forma os cânones de indução de John Stuart Mill (1900), usados por Theda Skocpol (1979; Burawoy, 1989), propondo uma tradução da epistemologia positivista para a sociologia sob a forma dos 4Rs: Reactivity, Reliability, Replicability e Representativeness.
A pesquisa em Ciências Sociais deveria, nesse sentido, visar a não reatividade ou neutralidade – evitando afetar a realidade estudada – a fiabilidade – definindo variáveis padronizadas para a seleção dos dados – a reprodutibilidade dos resultados por outros pesquisadores – seguindo o princípio de que tudo o que é externo à pesquisa deve ser tomado como constante – e, por fim, a representatividade – segundo a qual a pesquisa deveria basear-se em amostragens rigorosas, que garantam a possibilidade de inferir resultados para uma população mais ampla de casos.
O modelo científico positivista, portanto, tende a considerar a inescapável inserção do pesquisador na realidade que ele está estudando como um viés que precisa ser controlado e limitado ao máximo por meio de uma série de dispositivos, muitas vezes severos, que permitiriam encaixar a disciplina nos cânones da ciência positiva. O objetivo declarado é, portanto, neutralizar ao máximo os efeitos da escolha do pesquisador de um “quebra-cabeça” teórico e de seu engajamento na realidade social que ele está estudando, sob o pretexto de preservar a integridade dos dados e da indução analítica subsequente. A pesquisa do tipo survey, por meio de questionários ou entrevistas, é, portanto, a forma mais adequada para este projeto. Ela permite que o pesquisador coloque os atores, os pesquisados, em um contexto temporal e espacial que ele controla. O sociólogo tem assim a ilusão de um controle mais direto sobre as condições de produção dos dados, a impressão de conseguir controlar os vieses induzidos pela pesquisa.
Em uma polêmica agora famosa com seu colega da UCLA, o sociólogo-etnógrafo de Berkeley aponta, no entanto, que o envolvimento do pesquisador com seu objeto de estudo – uma característica essencial da pesquisa em Ciências Sociais – segue, apesar do desejo de controlar seus efeitos, inevitavelmente moldando os resultados e as análises obtidos por esse método. Ele propõe chamar essas antinomias do projeto positivista de “efeitos de contexto” (Burawoy, 2009, p. 35-38): o efeito de entrevista – as características do entrevistador e do entrevistado têm um impacto substancial sobre os resultados obtidos na relação social da entrevista – o efeito do respondente – o tipo de perguntas feitas e as expectativas conscientes ou inconscientes de ambos os lados influenciam o tipo de respostas dadas – o efeito do campo – a entrevista não pode ser separada da realidade econômica, política e histórica que a atravessa – e, por fim, o efeito da situação – os conhecimentos ou as práticas sociais estudadas pela sociologia não são específicas dos indivíduos, mas são produtos de processos sociais, o que significa que devemos estudar situações sociais concretas, e não nos limitarmos a desenvolver amostragens de indivíduos representativos.
Frente a essas limitações do projeto cientificista nas Ciências Sociais, Burawoy rejeita, contudo, a resposta trazida pela crítica pós-moderna:
Diante da inevitável brecha entre os princípios positivistas e a prática de pesquisa, nem abandono a ciência por completo nem me resigno a refinar minha prática para me aproximar de princípios positivistas inatingíveis. Pelo contrário, estou propondo um modelo alternativo de ciência, uma ciência reflexiva que toma o contexto como ponto de partida e não como ponto de conclusão (Burawoy, 2009, p. 38).
Não podemos deixar de reconhecer aqui um eco das reflexões iniciadas por Pierre Bourdieu (1993) em La Misère du monde – rompendo significativamente com a orientação mais positivista defendida em Le métier de sociologue (Bourdieu; Chamboredon; Passeron, 1968), cerca de 30 anos antes.
4. Sobre a dualidade epistemológica nas Ciências Sociais
A década de 1990 viu assim uma convergência, em campos acadêmicos e linguísticos muito diferentes, desses dois autores fundamentais da Sociologia contemporânea, apesar de partirem posições científicas e políticas muitas vezes significativamente distintas (Burawoy; von Holdt, 2012). Tanto Burawoy quanto “Pierre Bourdieu, com a ajuda de seu interlocutor Loïc Wacquant (Bourdieu; Wacquant, 1992), nos convidam a uma sociologia reflexiva que busca explicitamente aprofundar os fundamentos científicos da sociologia” (Burawoy, 1998 p. 13-14), com ambos buscando oferecer uma resposta às contradições do positivismo e do pós-modernismo.
Eu [no entanto] defendo uma abordagem substancialmente diferente [da de Bourdieu e Wacquant]. Em vez de argumentar que existe um único modelo científico, que seria melhor colocado em prática com a consciência reflexiva, proponho uma dualidade metodológica, a coexistência e a interdependência de dois modelos de ciência – positivista e reflexiva. Enquanto a ciência positiva propõe isolar o sujeito do objeto, a ciência reflexiva faz do diálogo seu princípio e da intersubjetividade entre o participante e o observador sua premissa. Ela reúne o que a ciência positivista separa: participante e observador, conhecimento e situação social, contexto de pesquisa e seu campo de inscrição social, teoria popular e teoria acadêmica (Burawoy, 2009, p. 39).
Burawoy argumenta, portanto, a favor da coexistência de modelos positivistas e reflexivos: assim, seria possível mobilizar, na pesquisa reflexiva, as contribuições da pesquisa por questionário estritamente positivista – destinada a coletar dados demográficos ou econômicos, tais como os censos do INSEE francês ou do IBGE brasileiro, por exemplo – sem rejeitá-las por uma suposta incompatibilidade epistemológica. Burawoy lançou mão, aliás, desse tipo de articulação em alguns dos seus projetos de pesquisa, principalmente em seu estudo sobre a colour bar na Zâmbia pós-colonial (Burawoy, 1972): para ampliar o alcance de sua pesquisa etnográfica, ele não hesitou em recorrer a um levantamento realizado em uma escala mais ampla, a respeito das condições de trabalho na empresa de mineração que estava pesquisando na época. Uma abordagem semelhante pode também ser encontrada tanto na pesquisa seminal do antropólogo Clyde Mitchell (1956) sobre a Kalela Dance – onde utiliza “[...] dados quantitativos que colheu durante um survey sobre atitudes das pessoas com relação aos demais grupos étnicos na cidade” (Fry, 2011, p. 10) para dar sentido ao “[...] paradoxo […] desta dança ‘tribal’ dança[da] com roupa tipicamente europeia com cada membro adotando um papel dentro do mundo dos brancos” (Fry, 2011, p. 10) – quanto no trabalho de Florence Weber (1998; 2009) sobre a cultura da classe trabalhadora e a prática da horticultura, como discutida pela antropóloga francês no artigo A etnografia armada com estatísticas (Weber, 1995).
5. A observação participante em debate
Assim como a pesquisa por meio de entrevistas, o método de pesquisa por meio da observação participante também pode ser objeto de uma abordagem positivista ou reflexiva. A principal questão metodológica colocada ao etnógrafo refere-se à generalização, ou seja, como garantir que a metodologia não se limite a uma descrição etnográfica fina, mas seja capaz de dizer algo a respeito das dinâmicas da sociedade e da forma como elas moldam as idiossincrasias do campo.
Em seu primeiro texto inteiramente dedicado ao estudo de caso ampliado – publicado em Ethnography Unbound (Burawoy et al., 1991), um livro coletivo de 1991 escrito em conjunto com um grupo de estudantes de pós-graduação que participaram do seu seminário sobre observação participante (Burawoy, 1994) – Burawoy propõe uma discussão a respeito da maneira como diversas correntes etnográficas, emblemáticas das Ciências Sociais anglófonas, lidam com as críticas frequentemente feitas a este método, que seria “[...] por natureza micro, a-histórico e singular” (Burawoy, 1991a, p. 273).
O pesquisador-docente de Berkeley destaca então primeiro a etnometodologia de Jack Douglas (1967, 1970) e Aaron Cicourel (1964), para quem “[...] o mundo macro não é um mundo real, mas uma construção dos participantes que lhes permite negociar e manter interações face a face” (Burawoy, 1991a, p. 272). Este interacionismo simbólico tenderia assim a considerar que só poderia existir “[...] uma sociologia, a da microssociologia da situação social singular, que Knorr-Cetina (1981) chama de ‘situacionismo metodológico’” (Burawoy, 1991a, p. 272). Burawoy também se debruçar sobre o estudo de caso interpretativo e sua tendência a fazer da interpretação hermenêutica de eventos paradigmáticos – tais como as rinhas de galo de Clifford Geertz (1973) em Bali – o caminho real para alcançar os fundamentos da vida e da organização social. No entanto, ao fazê-lo, “[...] denigre e manda para as notas de rodapé […] o contexto histórico específico que molda tanto a rinha de galo quanto a dominação [masculina] que a produziu” (Burawoy, 1991a, p. 279).
Assim, tanto a etnometodologia quanto o estudo de caso interpretativo se esquivam, de certa forma, da delicada questão da relação entre a micro realidade social e as macro forças da sociedade: a primeira fazendo “[...] da necessidade virtude, reduzindo a sociologia ao micro e ao particular” (Burawoy, 1991a, p. 273), e a segunda considerando “[…] o micro como expressão do macro, o particular como expressão do geral” (Burawoy, 1991a, p. 273).
Em Reaching for the Global (Burawoy, 2000, 2018) – um capítulo escrito como introdução à Global Ethnography (Burawoy et al., 2000), seu segundo livro publicado, uma década depois, em conjunto com doutorandos de Berkeley – Burawoy aborda duas correntes que tentaram oferecer uma resposta ao desafio de vincular o micro e o macro. A primeira está enraizada na tradição sociológica da Escola de Chicago e sua formalização da Grounded Theory (teoria fundamentada) como um cânone da abordagem indutiva, baseada na prática da observação participante nessa metrópole dos Grandes Lagos americanos. Por outro lado, a segunda tendência tem origem na Escola de Antropologia Social de Manchester e em sua abordagem etnográfica reflexiva das mudanças econômicas e sociais que estavam ocorrendo na África Meridional sob o domínio colonial britânico, dando origem ao Extended Case Method (estudo de caso ampliado).
Por ter convivido de perto com essas duas correntes incontornáveis das Ciências Sociais de língua inglesa ao longo de sua trajetória pessoal e intelectual, as contribuições de Burawoy se revelam assim fundamentais para a compreensão de suas semelhanças e diferenças. De origem britânica e inicialmente formado em Matemática em Cambridge, Burawoy obteve seu mestrado em sociologia em 1972 na Universidade do Zâmbia, fortemente influenciada pela Escola de Manchester. Esse início de carreira atípico como pesquisador, questionando os limites da descolonização no Copperbelt (Burawoy, 1972), marcou, portanto, toda sua carreira. Em seguida, Burawoy mudou-se para os Estados Unidos para realizar seu doutorado (Burawoy, 1976) sobre a produção do consentimento nas linhas de montagem de uma fábrica de motores da região metropolitana de Chicago – estudo realizado com base em um ano de trabalho etnográfico como operário metalúrgico. Seu período no programa de pós-graduação do Departamento de Sociologia da Universidade de Chicago o colocou frente a frente com as limitações de um modelo radicalmente indutivo aplicado à etnografia como consolidado pela Escola de Chicago.
6. Escola de Chicago e Grounded Theory
A chamada Escola de Chicago é uma tradição sociológica de base etnográfica que se consolidou no Departamento de Sociologia da Universidade de Chicago desde o início do século XX até meados dos anos 60. Michael Burawoy (2000) traça sua evolução desde sua pré-história, a saber, o trabalho de Thomas e Znaniecki sobre a emigração polonesa para os Estados Unidos no início do século passado.
The Polish Peasant in Europe and America (Thomas; Znaniecki, 1927) consiste em uma pesquisa iniciada em 1908 e finalmente publicada entre 1918 e 1920, baseada em uma etnografia realizada tanto na Polônia quanto na comunidade polonesa em Chicago, bem como em um grande número de trocas de cartas, artigos de jornal e autobiografias. A investigação mapeia as profundas mudanças que ocorreram nas zonas rurais do Leste Europeu a partir de meados do século XIX, as consequências da industrialização e das sucessivas ocupações estrangeiras no país e a crescente importância da emigração como solução diante do agravamento das condições de vida e a desintegração da comunidade camponesa tradicional.
Adotando uma abordagem etno-histórica, mas também de etnografia global, acompanhando os fluxos populacionais na escala de uma globalização que já estava em franca expansão na época, a pesquisa de Thomas e Znaniecki foi pioneira para a época. A amplitude do foco etnográfico de The Polish Peasant parecia indicar um futuro promissor para a sociologia de Chicago. Mas a expulsão de William I. Thomas da Universidade de Chicago em 1918 (Blumer, 1986, p. 59-63) e a posição proeminente que Robert E. Park então adquiriu resultaram em um rumo distinto.
No período do entreguerras houve de fato uma mudança em direção à etnografia local, como parte do projeto de ecologia urbana de Park (1967). Este último considerava Chicago como “[...] o laboratório ideal para o estudo de processos sociais” (Burawoy, 2000, p. 12; 2018, p. 30) porque, dadas “[...] as rápidas mudanças e a diversidade social, as leis da natureza humana [se tornariam] facilmente acessíveis” (Burawoy, 1991a, p. 281). Apesar das afinidades entre Park e Thomas – com ambos defendendo “[...] o potencial de um trabalho empírico fundamentado na teoria [e] a importância da ‘definição da situação’ pelos próprios atores” (Blumer, 1986, p. 63), as diferenças de foco com The Polish Peasant são, portanto, nitidamente perceptíveis:
Enquanto Thomas e Znaniecki exploraram a integração nacional da comunidade camponesa tanto como um processo dentro da Polônia quanto entre a Polônia rural e a América urbana, Park e seus seguidores limitaram por sua vez sua atenção à transição incerta que estava ocorrendo na porta deles (Burawoy, 2000, p. 11).
Portanto, embora tenham dado origem a trabalhos etnográficos que se tornaram clássicos da sociologia urbana – tais como os de Ernest Burgess (2008), Nels Anderson (1923) ou Louis Wirth (1928) – foi o próprio projeto sociológico do que viria a ser a Primeira Escola de Chicago que a levou a não perceber as grandes transformações em curso na época, principalmente as consequências da Grande Depressão.
O modelo conceitual de Park [composto por] invasão e sucessão, ciclos de interação de grupos, funções de espaços “naturais” e assim por diante, esvaziou a etnografia local de seu contexto e, dessa forma, perdeu drasticamente as transformações provocadas pela expansão da cultura de massa, das máquinas políticas, dos sindicatos e de um estado de bem-estar social rudimentar (Burawoy, 2000, p. 12-13).
Essa redução no escopo da etnografia continuou depois de 1945 na Segunda Escola de Chicago, com Erving Goffman (1968), Howard Becker (1963) e Donald Roy (1952) operando uma retirada para dentro das instituições. Essas pesquisas se concentraram de fato em ambientes fechados – deslocando-se dos bairros para instituições como prisões, hospitais e fábricas – observando-as do ponto de vista do paciente ou do operário, com o objetivo de revelar suas contradições internas. Mas ao estudar “[...] um mundo fechado e bem definido, um mundo fora da história e fora de seu contexto americano” (Burawoy, 2000, p. 14), a dinâmica global da sociedade foi de certa forma tratada como marginal, afastando-se ainda mais do impulso original de Thomas e Znaniecki – juntando-se aqui às críticas dirigidas, já nos anos 60 e 70, contra a Escola Livre de Sociologia e Política, fortemente influenciada pela sociologia de Chicago (ver Mendoza, 2005), “[...] por ser ‘acrítica’, ‘culturalista’, pouco atenta aos ‘conflitos sociais’ e às ‘lutas de classe’, particularmente pela sociologia marxista que ganhava peso na USP” (Bispo; Zampiroli, 2020, p. 24).
No entanto, esse confinamento progressivo da abordagem etnográfica da Escola de Chicago a um campo isolado de seu contexto social, econômico e histórico e das macro forças que o moldam contribuiu, paradoxalmente, para forjar a ideia de que “[...] suas afirmações poderiam ser generalizadas para diversos contextos” (Burawoy, 2000, p. 14). As análises de Goffman parecem, portanto, aplicáveis a todas as instituições totais, e o trabalho de Becker a todas as situações de rotulagem social de desvio. Mas, na verdade, foi justamente a “[...] descontextualização [que] tornou a teoria de Chicago eminentemente portátil e, nesse sentido, global” (Burawoy, 2000, p. 14). Essa aparente capacidade de generalização é, portanto, apenas o produto de uma ilusão de ótica induzida precisamente pela abstração do contexto: ao limitar deliberadamente o campo de pesquisa às paredes físicas da instituição, essas etnografias parecem chegar ao cerne da dinâmica institucional; contudo, ao fazê-lo, apenas reforçam a separação entre essas instituições e a sociedade americana do pós-guerra, da qual são, no entanto, fruto e cuja análise, por sua vez, teria possibilitado questionar.
A redução gradual de alcance realizada pela Escola de Chicago foi acompanhada pela consolidação de seu modelo metodológico. Já no final da década de 1930, a crítica ao livro The Polish Peasant feita pelo interacionista simbólico Herbert Blumer (1939) resumia seu princípio fundamental: a redução do escopo da abordagem etnográfica era a garantia de uma “[...] concepção indutiva da ciência, enraizada e emergente dos dados” (Burawoy, 2000, p. 10). E foi de acordo com esses princípios que “[...] as bases da ‘teoria fundamentada’ foram lançadas, mergulhando a etnografia em águas cada vez mais estreitas” (Burawoy, 2000, p. 10) – levando assim à famosa codificação dessa proposição metodológica indutiva por Glaser e Strauss em The Discovery of Grounded Theory (Glaser; Strauss, 1967), que presidiu o treinamento metodológico de coortes inteiras de sociólogos na Universidade de Chicago.
7. Antropologia social de Manchester e Extended Case Method
No entanto, quando chegou em Illinois para cursar seu doutorado em meados da década de 1970, Burawoy encontrou apenas as ruínas do que havia sido a escola de etnografia de Chicago. Manufacturing Consent (Burawoy, 1979), sua brilhante revisão etnográfica do trabalho de um dos mais ilustres representantes da Escola de Chicago na sociologia das relações industriais, Donald Roy (1952), não segue, portanto, a Grounded Theory, ao contrário dos trabalhos de Jack Katz (1983), mas é inspirado pelo estudo de caso ampliado, uma emanação metodológica da Escola de Antropologia Social de Manchester.
Contudo, Burawoy nunca estudou as ciências sociais em Manchester. Sua descoberta do estudo de caso ampliado foi, na verdade, o resultado de uma série de coincidências, tendo origem após seu bacharelado em Matemática em Cambridge. No início da década de 1970, ele foi contratado por uma empresa de mineração britânica no Copperbelt da Zâmbia, na época em pleno processo de descolonização, resolvendo iniciar em paralelo um mestrado em Sociologia na recém-criada Universidade do Zâmbia. Foi lá que ele se encontrou com a tradição de Manchester, na pessoa de Jaap Van Velsen (1979), um de seus mais eminentes representantes.
A Escola de Manchester possui uma história longa e profundamente enraizada nas mudanças ocorridas na África Meridional sob o domínio britânico, que transicionava tanto de uma economia centrada na atividade de vilarejos para a industrialização através das mineradoras e da urbanização quanto do regime colonial para os desafios da descolonização. A origem dessa relação especial entre Manchester e Lusaka pode ser traçada até o trabalho de Godfrey Wilson (1941), quando decidiu estudar os efeitos da industrialização e da economia colonial nas sociedades tribais da então Rodésia do Norte:
Wilson começa com o desequilíbrio da economia mundial em um período de recessão no qual a acumulação de capital supera o consumo, impulsionando a busca por matérias-primas e novos mercados. A crise global se manifestou localmente em Broken Hill, onde o capital internacional havia começado a minerar zinco a partir de 1906. Broken Hill [como o Copperbelt como um todo] tornou-se uma comunidade racialmente polarizada e dividida em classes [compostas por] comerciantes indianos, trabalhadores brancos qualificados e mão de obra africana barata. A economia tribal entrou em colapso à medida que seus jovens eram atraídos para as minas, onde recebiam menos do que o necessário para sustentar suas famílias, eram alojados em alojamentos para solteiros e deveriam voltar para “casa” quando não estivessem mais aptos para o trabalho. [...] A rápida incorporação numa economia global multiplicou as tensões, que repercutiram nos cantos mais remotos dessa colônia britânica. It was a far cry to the conventional village anthropology (Burawoy, 2000, p. 16).
Diante das profundas mudanças que estavam ocorrendo em seu campo de estudo, Wilson recorreu às estruturas analíticas que pareciam mais propensas a enriquecer sua compreensão da Zâmbia da época, que compartilhava tantas semelhanças com o processo da Revolução Industrial vivenciado em Manchester quase um século antes. Assim, enquanto “Thomas e Znaniecki seguem na direção das conexões e imaginações globais – o fluxo transatlântico de pessoas, cartas, dinheiro e ideias” (Burawoy, 2000, p. 15) – Wilson, do seu lado, abre sua pesquisa para as forças macrossociais que moldam a realidade de campo. Ele se distingue assim radicalmente tanto da Antropologia clássica de Radcliffe-Brown ou Evans-Pritchard quanto da etnografia microlocal defendida por Bronisław Malinowski, e abre as portas para a etnografia global. Posteriormente, e ao contrário do afastamento da abertura de horizontes presente em The Polish Peasant pelos sucessivos herdeiros da Escola de Chicago, os colegas e sucessores de Wilson prosseguiram nesse caminho, aprofundando o estudo dessas convulsões sociais, das quais a descolonização não foi a menor expressão.
Max Gluckman, que assumiu o lugar de Godfrey Wilson como diretor do Rhodes-Livingstone Institute na Rodésia do Norte no início da década de 1940 – após um atraso em sua nomeação pelas autoridades coloniais (Burawoy, 2000, p. 16) seguindo sua “[...] simpatia política pela esquerda [e] a familiaridade com a tradição marxiana” (Evens; Handelman, 2005a, p. 3) – contribuiu de forma extremamente proativa para o surgimento de uma escola antropológica como tal, consolidando explicitamente sua dimensão metodológica. Ao estudar os diversos atores participando de uma cerimônia de inauguração de uma ponte na Zululândia (Gluckman, 1958) – chefes tribais, administradores coloniais, missionários, etc. – ele traz à tona “[...] as interdependências, mas também os conflitos, o equilíbrio, como também a instabilidade” (Burawoy, 2000, p. 16) que estavam então percorrendo a sociedade sul-africana sob o domínio colonial britânico: esse é o momento fundador da “[...] análise situacional, que [posteriormente] se tornou o estudo de caso ampliado” (Handelman, 2005, p. 74).
Esse enfoque de Gluckman em “situações sociais” – que ele pretende “[...] comparar [e] analisar em suas relações com outras situações [a fim de] tentar mapear a estrutura social da Zululândia moderna” (Gluckman, 1958, p. 9-10) – não deixa, no entanto, de evocar “[...] a monografia sociológica pioneira de Thomas e Znaniecki, The Polish Peasant, no qual esses últimos [também] discutem a importância de estudar ‘situações concretas’” (Evens; Handelman, 2005b, p. 124). De fato, numa carta de 1948 dirigida a Clyde Mitchell, na qual ele menciona o recente falecimento de W. I. Thomas, Gluckman afirma explicitamente que “[...] ‘foi dele que tirei the situation approach, uma abordagem que, em minha opinião, fornece muitas respostas para nossas dificuldades’” (Mills, 2005, p. 134).
No entanto, enquanto a involução da sociologia de Chicago levaria a uma redução gradual do escopo da análise situacional, Gluckman argumentou a favor de sua abertura, principalmente em uma “[...] crítica aos estudos de casos isolados, particularmente na antropologia jurídica” (Mills, 2005, p. 140). Tomando como exemplo as interpretações restritivas feitas do livro no qual Victor Turner (1996) propõe uma análise de “[...] ‘dramas sociais’ – eventos complexos e interconectados que afetam a história de um grupo de pessoas, sejam brigas, processos, adivinhações, rituais etc.” (Gluckman, 1973, p. 636) – ele afirma que “[...] quase todos os antropólogos que usaram o livro parecem ter negligenciado as primeiras 90 páginas, que contêm [precisamente] uma análise detalhada, e várias vezes quantificada, do ambiente externo e da estrutura da sociedade Ndembu” (Gluckman, 1973, p. 636, apudMills, 2005, p. 140). E foi precisamente nesse sentido que Clyde Mitchell (1956) se referiu à Gluckman e à pesquisa da ponte – abrindo sobre uma “[...] análise histórica e sociológica da estrutura global da Zululândia moderna” (Mitchell, 1956, p. 1) – com fonte de inspiração para seu estudo da Kelala Dance, tendo igualmente como objetivo “[...] a compreensão das relações raciais, étnicas e de classe na sociedade global-local do Copperbelt” (Agier; Nahrath, 1996, p. 1).
Assim, “Gluckman, e especialmente seus estudantes, desenvolveram o estudo de caso ampliado, abrindo as aldeias e situações urbanas para forças políticas e econômicas mais amplas associadas ao colonialismo” (Burawoy, 1991a, p. 279). Jaap Van Velsen (1979), que, como professor de sociologia da Universidade de Zâmbia, teve um impacto profundo na carreira de Burawoy, é um exemplo da geração de pesquisadores associados a Gluckman que consolidou essa proposta metodológica. Direcionando sua pesquisa para um tema clássico da antropologia – as relações de parentesco (Van Velsen, 1964) – ele observou que, entre os Tongas, 40% das uniões matrimoniais divergiam do modelo matrilinear e matrilocal ao qual o grupo afirmava pertencer. Ele decidiu então confrontar essa “anomalia” e transformá-la em um quebra-cabeças, tentando entender como o êxodo de homens jovens para o setor de mineração da África do Sul contribuiu para a transformação não apenas das relações de parentesco, mas também da sociedade tribal como um todo.
Ao tornar problemáticos os casos excepcionais ou desviantes, Van Velsen é levado para fora do campo, em direção às forças políticas e econômicas mais amplas que afetam os Tongas. Vista pelas lentes do colonialismo e da industrialização, a situação social se torna um objeto completamente diferente, permeado por padrões de poder nos quais as normas de parentesco se tornam um campo de luta (Burawoy, 1991a, p. 278).
Assim, sob o peso das grandes transformações vividas em seus campos de pesquisa – industrialização, colonialismo e descolonização – os antropólogos da Escola de Manchester foram levados a tematizar as contradições que perpassavam os processos sociais que eles estavam reconstruindo por meio de observações participantes espalhadas ao longo de um extenso intervalo de tempo. Dessa forma, eles romperam os limites físicos do campo, seguindo seu objeto desde a aldeia da antropologia clássica até os novos centros urbanos da etnografia global. Para entender seu objeto de estudo, era necessário compreender não a maneira como o terreno de alguma forma refletia a dinâmica global, mas sim a maneira como essas transformações de forças macroeconômicas, políticas e históricas moldavam e as realidades locais.
Enquanto no estudo original da abertura da ponte Gluckman considerava a situação social como uma expressão da sociedade mais ampla, muitos de seus sucessores [por sua vez] apreenderam a aldeia, a greve, a associação tribal, como moldadas [shaped] por forças externas (Burawoy, 1991a, p. 277).
A transição da análise situacional – e sua inclinação a se tornar “[...] uma aplicação do estudo de caso interpretativo” (Burawoy, 1991a, p. 277) – para o estudo de caso ampliado é, portanto, possibilitada pela transição de uma lógica de generalização, baseada na busca de expressão do macro numa situação micro, para um processo mais sutil no qual o macro contribui para moldar e dar forma – to shape, no texto original em inglês – os contornos de uma situação local e das suas condições de possibilidade, o que leva a uma compreensão das características específicas do campo e não apenas da sua relação com o geral. Quanto às forças externas em questão, a abordagem de pesquisa as leva em conta na forma de generalizações já existentes, ou seja, por meio da teoria, que precisa ser reconstruída precisamente com base nas contradições e anomalias que emergem das particularidades do caso estudado.
O estudo de caso ampliado procura macro determinações específicas no mundo micro [...]. Ele busca a generalização reconstruindo generalizações existentes, ou seja, reconstruindo a teoria existente (Burawoy, 1991a, p. 279).
Em um contexto colonial, foi isso que tanto Jaap Van Velsen (1964) tentou fazer com os laços de parentesco dos Tongas, sujeitos às pressões da industrialização, quanto Arnold Epstein (1958) em seu estudo sobre o impacto do ritmo de trabalho da indústria de mineração sobre a temporalidade urbana. E esse caminho foi também seguido pelo próprio Burawoy que, em seu primeiro estudo sociológico, The Colour of Class (Burawoy, 1972), questionou o processo de descolonização do setor de mineração na Zâmbia, com a ajuda do trabalho de Frantz Fanon, destacando a reprodução da barreira da cor em um contexto pós-colonial, por meio de sutis – e brutais – adaptações e reproduções da estrutura hierárquica das empresas mineradoras.
Após seu doutorado em Chicago e sua mudança para a Califórnia, Burawoy traduziu gradualmente a herança metodológica da Antropologia de Manchester para a Sociologia. Depois de obter, não sem dificuldades, sua tenure em Berkeley no início dos anos 80 (Burawoy, 2009, p. 6-10), ele contribuiu ativamente para o treinamento de novos contingentes de jovens pesquisadores em Ciências Sociais. Embora a sua difusão já tendo sido garantida pelos trabalhos do Peter Fry (2011) e dos irmãos Velho (2010; Velho; Fiore, 2010) do lado da antropologia, é também indiretamente por meio do Burawoy, e do trabalho de tradução coordenado por Ruy Braga (2012; Burawoy, 2014), que o estudo de caso ampliado acabou chegando na sociologia brasileira, bem como às nas terras da sociologia francófona, por meio das publicações coordenadas por Daniel Cefaï (Burawoy, 2003a, 2010) e, em seguida, graças às conexões possibilitadas pela sociologia global, por uma nova geração de cientistas sociais belgas francófonos (Antoine, 2014; Antoine; Piret; Rinschbergh, 2018).
8. O problema da comparação e da generalização
Rastreando a gênese e o desenvolvimento intelectual e social dessas duas escolas, Burawoy contribuiu para esclarecer as características específicas de sua resposta à questão da generalização. Desta forma, ele destaca também as contribuições metodológicas específicas do estudo de caso ampliado, que compartilha, como vimos, uma notável proximidade com as intuições dos primeiros sociólogos de Chicago.
Diferentemente da etnometodologia e do estudo de caso interpretativo, que preferem ignorar o problema “[...] reduzindo toda a sociologia ao micro e ao particular, ou ao macro e ao geral” (Burawoy, 1991a, p. 274), o estudo de caso ampliado e a teoria fundamentada reconhecem que “[...] o micro e o macro são níveis de realidade distintos, embora causalmente relacionados” (Burawoy, 1991a, p. 274). No entanto, eles diferem na forma como concebem as “[...] generalizações [que] podem ser extraídas da comparação de situações sociais particulares” (Burawoy, 1991a, p. 274) e, portanto, na forma como imaginam a construção da pesquisa sociológica (Quadro 2).
O estudo de caso ampliado “[...] ao tornar explícita a ligação entre o micro e o macro, constitui a situação social por meio da compreensão da correlação particular de forças externas que a moldam” (Burawoy, 1991a, p. 274). Buscando as raízes macrossociológicas da microssociologia, ele “[...] presta atenção à complexidade, profundidade e espessura” (Burawoy, 1991a, p. 281) dos casos estudados, em sua lógica genética de surgimento. Para isso, ele destaca as diferenças entre casos semelhantes e procura a origem dessas diferenças na forma como as forças da sociedade contribuem para moldar essas realidades sociais singulares.
A ligação macro-micro se refere [então] não tanto a uma “expressão” da totalidade, mas a uma “estruturação” do todo, em que a parte é moldada por sua relação com o todo, e o todo é representado por “forças externas”. Essa determinação geralmente se torna acessível ao explicar as divergências entre dois “casos” similares (Burawoy, 2000, p. 27).
A teoria fundamentada, como projeto indutivo, busca, ao contrário, encontrar os fundamentos macrossociológicos da macrossociologia. Para isso, ela se concentra nas similaridades entre casos distintos, em uma lógica genérica de busca por seus menores denominadores comuns. No entanto, “[...] ao buscar [essas] generalizações em diversas situações sociais, obscurece [ao mesmo tempo] as determinações contextuais específicas da situação social” (Burawoy, 1991a, p. 274).
A pretensão científica da teoria fundamentada encontra-se [portanto] em sua ardente busca por generalizações, induzida pela comparação entre [diferentes] situações sociais. Mas na realização dessas comparações, a Grounded Theory reprime [na verdade] as especificidades de cada situação (Burawoy, 1991a, p. 275).
Essa lógica encontra uma expressão admirável na sociologia do trabalho de “[...] um dos mais influentes professores de observação participante em Chicago” (Burawoy, 1991a, p. 274): Everett Hughes (1958). Sua comparação entre profissões diferentes consistia, de fato, em destacar o que elas tinham em comum, a fim de derivar uma teoria geral da atividade profissional, e não o que as diferenciava, o que teria permitido uma melhor compreensão das particularidades de cada caso e aberto uma discussão sobre a questão da divisão social do trabalho.
9. Conclusão
A originalidade de uma comparação metodológica entre a Escola de Chicago e a Escola de Antropologia Social de Manchester está, portanto, no fato de que ela vai além da divisão acadêmica formal entre essas duas disciplinas das Ciências Sociais, tornando possível enfatizar que seguiram trajetórias paralelas, mas em direções opostas:
No momento em que a observação participante era cada vez mais identificada com a microssociologia nos Estados Unidos, o movimento oposto estava em andamento na antropologia. À medida que as lutas anticoloniais se espalhavam e a industrialização desorganizava e conectava os cantos mais remotos do globo, os antropólogos não podiam mais fingir que suas aldeias eram isoladas e atemporais. O problema se tornou ainda mais agudo quando eles deixaram suas aldeias e se aventuraram em espaços urbanos, onde era impossível impor limites à interação face a face (Burawoy, 1991a, p. 277).
Assim, enquanto os sociólogos de Chicago estavam gradualmente se fechando em seus campos, isolando-se das principais dinâmicas sociais e barricando-se atrás dos muros das instituições que estudavam, os antropólogos de Manchester estavam explodindo as fronteiras da aldeia da antropologia clássica, expressando uma etnografia que se recusava a ficar confinada aos limites físicos do campo e que exigia uma extensão espaço-temporal da abordagem antropológica.
Quando as lutas anticoloniais irromperam em torno de suas tendas, quando os pilares imperiais da etnografia desmoronaram, os antropólogos redescobriram o contexto global de suas pesquisas [:] industrialismo avançado, colonialismo por colonos brancos e crescentes lutas de classes racializadas (Burawoy, 2000, p. 32-33).
A dinâmica na qual os antropólogos da Escola de Manchester se empenharam foi, portanto, uma resposta às profundas transformações que estavam ocorrendo no mundo após a Segunda Guerra Mundial. Essa abertura da etnografia a uma dimensão global e a uma sensibilidade marxista, ou pelo menos ‘de esquerda’, aos conflitos sociais desempenharia um papel vital na sobrevivência da Antropologia ao final do regime colonial que lhe tinha dado origem, iniciando sua transformação em uma disciplina das Ciências Sociais em contato próximo com as contradições do sistema econômico global e seu desenvolvimento desigual e combinado.
Conforme Connell (1997), a sociologia também embarcou no século passado com inequívocas ambições imperiais, preocupada em traçar hierarquias de diferença – de gênero, raciais e étnicas – em escala global. Mas sua primeira grande etnografia, The Polish Peasant, foi [ao contrário] notável pela maneira como deixou de lado esses primeiros discursos de “progresso” e superioridade. Thomas e Znaniecki adotaram [de fato] o ponto de vista do colonizado ao defender o renascimento nacionalista polonês contra as potências ocupantes. Como vimos, a Escola de Chicago [entretanto] reduziu essa etnografia global a uma etnografia local e, a partir de então, ela desapareceu dentro das organizações. Após essa redução em escala, após essa virada para a microssociologia, a etnografia se tornou cada vez mais marginal – onde antes era central – para uma sociologia cujo objeto se tornou a sociedade civil e suas conexões com o Estado (Burawoy, 2000, p. 33).
Além das suas respectivas contribuições para uma socio-antropológia urbana – exploradas em detalhes por Ulf Hannerz (1980) – o caminho seguido pelos sociólogos estado-unidenses é, portanto, muito diferente do de seus colegas britânicos. O trabalho dos sociólogos da Primeira Escola de Chicago fez muito pouco para entender ou explicar a Grande Depressão, ao contrário de obras literárias e cinematográficas como Vinhas da Ira, de Steinbeck (2006) ou Tempos Modernos, de Chaplin. Da mesma forma, os pesquisadores da “virada” para as instituições da Segunda Escola de Chicago lançaram pouca luz sobre as contradições dos Estados Unidos do pós-guerra, sobre o boom do consumo ou a reestruturação produtiva do complexo militar-industrial, no que contrastam com outras pesquisas, como por exemplo The Power Elite, de Wright Mills (1959). O paradoxo está no fato de que o uso metodológico reducionista da etnografia, consagrado pela Grounded Theory, acabou impedindo que esses pesquisadores se aproveitassem plenamente da posição privilegiada que ocupavam em um dos centros nevrálgicos do capitalismo estadunidense, o que fazia de Chicago um campo sociológico ideal para o estudo das transformações sociais globais – e não das leis da natureza humana, como o entendia Robert E. Park.
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Todas as citações de obras originalmente redigidas em inglês ou em francês foram traduzidas para o português brasileiro pelo autor deste artigo
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Fonte de financiamento:
A pesquisa foi viabilizada por uma bolsa de pesquisa de pós-graduação do Fundo Nacional de Pesquisa Científica (F.R.S. – FNRS) da Bélgica francófona.
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Aprovação do Comitê de Ética:
nada a declarar.
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Disponibilidade de Dados:
Não foram utilizados dados de pesquisa.
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Uso de tecnologia assistida por inteligência artificial: O autor declara que absolutamente nenhuma ferramenta da chamada “inteligência artificial” (ou seja, Grandes Modelos de Linguagem) foi utilizada na pesquisa aqui relatada ou na preparação deste artigo.
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Editor:
Enio Passiani (UFRGS, Brasil).
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