Open-access O preconceito e as identidades LGBT e heterossexual como construções históricas no capitalismo

The prejudice and LGBT and heterosexual identities as historical constructs under capitalism

Resumo:

Em contexto de análises patologizantes sobre a LGBTQIA+fobia, esta revisão de literatura, fundamentada no materialismo histórico-dialético, debate as determinações do preconceito e da formação das identidades LGBT no capitalismo e suas implicações para assistentes sociais. Dessa forma, a historicização do preconceito e da formação das identidades LGBT no capitalismo pode auxiliar assistentes sociais na defesa revolucionária das pautas antiopressão contra o identitarismo.

Palavras-chave:
Serviço Social; Capitalismo; Identidade

Abstract:

Within the context of pathologizing analyses regarding LGBTQIA+phobia, this literature review grounded in historical-dialectical materialism examines the determinants of prejudice and the formation of LGBT identities under capitalism, as well as their implications for social workers. Thus, historicizing prejudice and the formation of LGBT identities under capitalism can assist social workers in the revolutionary defense of anti-oppression agendas against identity politics.

Keywords:
Social Work; Capitalism; Identity

Introdução à problematização da LGBTQIA+fobia

Para pensar criticamente sobre a LGBTQIA+fobia, é preciso conhecer o que a literatura científica do Serviço Social brasileiro produziu sobre esse tema. Encontramos dois estudos cuja técnica de pesquisa foi a revisão integrativa de literatura sobre a diversidade sexual, publicados por assistentes sociais em periódicos de Serviço Social.

A primeira revisão integrativa analisou 12 artigos publicados entre 2012 e 2019, e concluiu que os seus temas estão distribuídos da seguinte forma, em ordem decrescente: cinco estudos sobre as políticas públicas LGBT em geral; três sobre as políticas públicas de saúde LGTB; um a respeito da política pública de segurança LGBT; um que trata do movimento LGBT; um sobre a representação política da comunidade LGBT; e um que apresenta a participação social nas políticas públicas LGBT (Souza Júnior; Mendes, 2020, p. 648).

Indubitavelmente, o estudo sobre as políticas públicas LGBT é legítimo, porque fortalece a defesa de respostas coletivas à parcela da classe trabalhadora explorada e oprimida em função do preconceito contra a diversidade de gênero e sexual. Contudo, nenhum dos estudos analisados na revisão integrativa abordou a questão da LGBTQIA+fobia.

A segunda revisão integrativa investigou 42 estudos publicados entre 2010 e 2020, e classificou os seus temas da seguinte forma, em ordem descrescente: 12 estudos sobre LGBT; 11 estudos que tratam de transexualidade; oito estudos sobre direitos LGBT; cinco estudos que dizem respeito à homossexualidade; três estudos sobre políticas LGBT; dois estudos que apresentam travestilidades; e um estudo sobre LGBT (Duarte; Fernandes, 2023, p. 211).

Sem dúvida alguma, é importante estudar as particularidades da comunidade LGBT, dentre elas, pessoas trans e homossexuais, no sentido de apreender suas necessidades e lutas. Entender sobre os direitos LGBT, especialmente quando são conquistados de forma frágil pelo Poder Judiciário e não pelo Poder Legislativo, é relevante. Os estudos sobre as políticas públicas LGBT são legítimos, porque constituem intervenções estatais coletivas em um contexto em que tudo favorece análises e ações individuais e fragmentadas, superficiais. Entretanto, nenhum desses estudos investigou a questão da LGBTQIA+fobia.

Diante da ausência de um estudo mais direcionado para a compreensão crítica da LGBTQIA+fobia, este artigo tem como objetivo adensar esse preconceito na história, ou seja, disponibilizar elementos sobre a sua origem, desenvolvimento e crítica, que se encontram na literatura internacional e nacional da Psicologia Social. O estudo do preconceito apenas é insuficiente, porque é preciso apreender a formação sócio-histórica de seus sujeitos sociais ou identidades no capitalismo, tendo em vista que esses dois processos podem fundamentar as apreensões e as intervenções de assistentes sociais nas pautas antiopressão e contra o identitarismo.

Tanto o processo de historicização do preconceito quanto o estudo da formação das identidades homossexual e heterossexual no capitalismo, bem como as implicações para assistentes sociais no debate sobre as pautas antiopressão e o identitarismo, constituem alguns dos resultados de uma tese de doutoramento em Serviço Social, defendida em 2023, em programa de pós-graduação de uma universidade pública brasileira, por um assistente social. Esses resultados correspondem a material inédito que ainda não foi publicado em outro artigo.

Voltando ao estudo do preconceito na história, é preciso explicar que existem várias pesquisas desde 2004 que questionam o conceito de homofobia. Ressalta-se que existem conceitos semelhantes à homofobia, como lesbofobia, bifobia, transfobia, homotransfobia, LGBTQIA+fobia, dentre outras denominações. Um dos objetivos deste artigo é apresentar uma série de elementos de pesquisas internacionais e nacionais que questionam o conceito original de homofobia.

Um dos principais estudiosos da homofobia foi o psicólogo norte-americano Gregory M. Herek, que investigou sua origem, significado e aspectos.

A palavra homofobia foi criada em 1965 pelo psicólogo George Weinberg. O primeiro uso impresso do vocábulo ocorreu em 5 de maio de 1969 na revista Screw, publicação pornográfica heterossexual dos Estados Unidos. Esse termo apenas foi popularizado quando Weinberg publicou o livro Society and the healthy homosexual, em 1972, no qual o significado de homofobia foi estabelecido como medo irracional de gays, lésbicas e bissexuais (Herek, 2000, p. 19).

Percebe-se, então, que a palavra homofobia foi criada significando medo irracional, entendido como uma doença. Contudo, a partir de 2004, 39 anos após sua origem, Gregory M. Herek questionou essa acepção como medo irracional, indicando que não consistia em medo ou doença. Esse psicólogo chegou a essa conclusão comparando os componentes emocionais da homofobia com os constituintes de outras fobias clássicas, como a acrofobia (medo de altura), a aracnofobia (medo de aranhas) e a catsaridafobia (medo de baratas).

Herek (2004, p. 10) discordou do entendimento de que a homofobia é uma fobia, porque seus principais componentes emocionais são a raiva e o desgosto. São muito diferentes dos componentes emocionais de fobias clássicas, que são a ansiedade e o medo.

Os componentes emocionais da raiva e do desgosto podem ser verificados na realidade atual analisando a brutalidade dos crimes de ódio contra a comunidade LGBT, pois se percebe que a emoção dos criminosos refere-se à raiva e ao desgosto, não ao medo e à ansiedade.

De acordo com o Dossiê Assassinatos e violências contra travestis e transexuais brasileiras em 2024, publicado em 2025 pela Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra, 2025), os assassinatos notificados tiveram como ferramentas e métodos: armas de fogo; arma branca; espancamento; pauladas; apedrejamento; asfixia; estrangulamento; atropelamentos intencionais; decapitação; desmembramento; carbonização; e degolamento (Antra, 2025, p. 83). O dossiê ainda ressalta os seguintes indícios de crueldade em 89% dos assassinatos: muitos tiros à queima-roupa; várias perfurações; degolamento; esquartejamento; arrastamento do corpo pela rua; desferimento de golpes na cabeça, nos seios e nos genitais (Antra, 2025, p. 84).

Considerando as ferramentas, os métodos e os indícios de crueldade desses crimes, verifica-se que suas motivações não eram a ansiedade e o medo. Diante do medo e da ansiedade em relação à outra pessoa, recorre-se ao apedrejamento, ao espancamento, à decapitação, à desmembração, à carbonização? Trata-se evidentemente de raiva e desgosto, únicas emoções capazes de produzir a destruição do outro.

Portanto, concluiu-se que a homofobia é um preconceito, não uma fobia. Um preconceito que originalmente expressava a hostilidade contra gays, lésbicas e bissexuais na década de 1960.

Embora essa discussão reconheça a importância política da homofobia para o movimento social, ela defende a compreensão dessa hostilidade como preconceito, fundamentado em processos psicológicos, sociais e culturais, não em processos patológicos (Herek, 2004, p. 14).

Ou seja, a compreensão da homofobia como preconceito potencializa a sua análise crítica pelo Serviço Social, pois inclui questões históricas, psicológicas, sociais e culturais, em vez de enfatizar o que é individual e clínico. Essa crítica pode ser fundamental para superar o modelo hegemônico da patologização, que historicamente atingiu e fere a comunidade LGBT.

Herek não só sugeriu a ressignificação da homofobia como preconceito, mas também analisou seus três aspectos: Estigma Sexual; Heterossexismo; e Preconceito Sexual. Esses três elementos serão explicados e exemplificados a seguir, tendo em vista sua contemporaneidade.

Para Herek (2004, p. 14-15), independentemente de atitudes pessoais, de forma coletiva, os membros da sociedade norte-americana partilham um estigma sexual, ou seja, interpretam atos, desejos e identidades homossexuais como maus, imaturos, doentios e inferiores em relação à heterossexualidade, assim, estigmatizam qualquer comportamento, identidade, relacionamento ou comunidade não heterossexual.

Herek elaborou o estigma sexual na sociedade norte-americana, pois seus estudos iniciais ocorreram nessa sociedade. Com o avançar dos anos, outras pesquisas incluiriam as demais sociedades, como a brasileira, por exemplo, conforme será visto adiante.

A persistência do estigma sexual pode ser observada nas lutas pela despatologização da homossexualidade e da transexualidade, porque a concepção de homossexualidade como psicopatologia só foi questionada em termos globais pela Organização Mundial da Saúde em maio de 1990, enquanto essa instituição somente questionou a patologização da transexualidade em 25 de maio de 2019. Ressalta-se que a transexualidade ainda consta como patologia em duas principais normatizações, ou seja, as lutas contra o estigma sexual, expresso na patologização, continuam.

O heterossexismo, o segundo aspecto do preconceito, é uma ideologia cultural que operacionaliza o estigma sexual por instituições culturais, como a linguagem, e instituições jurídicas, como as leis (Herek, 2004, p. 15-16).

Ele pôde ser reconhecido no Brasil por meio da lei e de normativas sobre o casamento civil e a doação de sangue, por exemplo. Atualmente, expressa-se na resistência de instituições em reconhecer as demandas da comunidade LGBT na produção de informações e nas políticas públicas.

No Brasil, o casamento civil consistiu em exemplo de heterossexismo, porque era um privilégio heterossexual, até maio de 2011, quando o Supremo Tribunal Federal alterou o entendimento de família formada por uma mulher e um homem, no Código Civil. Em 2013, o Conselho Nacional de Justiça publicou resolução que proíbe cartórios de negar a realização de casamentos homoafetivos. Apesar desses avanços, inexiste lei no Brasil que proteja o casamento homoafetivo até o ano atual.

Outro exemplo de heterossexismo foi a doação de sangue no Brasil, antes de 8 de maio de 2020. O doador de sangue identificado na entrevista com profissional de saúde como homossexual tinha seu sangue descartado por força da Portaria n. 158/2016 do Ministério da Saúde e da Resolução RDC 34/14 da Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Tais portarias foram consideradas discriminatórias pelo Supremo Tribunal Federal em 2020.

Em 2025, evidenciou-se dificuldade em órgãos oficiais, como o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em produzir dados sobre a comunidade LGBT. A primeira vez em que dados sobre homossexuais e bissexuais foram coletados e analisados foi em 2019, na Pesquisa Nacional de Saúde - Quesito Orientação Sexual. Nessa ocasião, não foram produzidos dados sobre travestis e transexuais, e a Antra informa que o IBGE age de maneira contrária ao diálogo para resolver essa falta de informações (Antra, 2025, p. 41).

Então, pode-se compreender essa falta de produção de dados sobre travestis e transexuais como uma forma de heterossexismo ainda existente em 2025.

Por fim, o terceiro aspecto do preconceito, denominado preconceito sexual.

Segundo Herek (2004, p. 16-20), refere-se a atitudes negativas de heterossexuais em relação a comportamentos homossexuais; contra pessoas que se identificam como gays, lésbicas ou bissexuais; e contra comunidades de gays, lésbicas e bissexuais.

Sabe-se que não são apenas os heterossexuais que têm atitudes de preconceito sexual com LGBT, porque esse grupo também é criado em uma sociedade com estigma sexual e heterossexismo, portanto, pode manifestar preconceito sexual contra si mesmo.

Além da psicologia norte-americana, a brasileira também contribuiu para esse debate.

Psicólogos brasileiros estudaram esse preconceito e constataram, por meio de revisão sistemática de 31 estudos, que no Brasil ocorrem os três aspectos estabelecidos por Herek. Tal preconceito é direcionado tanto para pessoas cuja orientação sexual não é hegemônica, como homossexuais e bissexuais, quanto a pessoas cujas identidades de gênero não são hegemônicas, como travestis e transgêneres (Costa et al., 2012, p. 907).

Pessoas que seguem as normas de gênero predominantes (cisgêneres ou cisgêneras) sofrem menos preconceito que aquelas que desafiam esses padrões (transgêneres ou transgêneras). Logo, isso indica que a melhor denominação desse preconceito no Brasil é preconceito contra diversidade sexual, porque ele se direciona contra uma diversidade de orientações sexuais e identidades de gêneros não hegemônicas (Costa; Nardi, 2015, p. 724).

Observa-se que, desde 2020, Leonardo Nogueira, Maysa Pereira e Rafael Toitio, no livro O Brasil fora do armário: diversidade sexual, gênero e lutas sociais, trabalham com a categoria diversidade sexual e de gênero, discutindo-a na particularidade brasileira, em perspectiva marxista.

Dessa maneira, compreende-se criticamente a necessidade de substituição de homofobia, lesbofobia, bifobia, transfobia, homotransfobia, LGBTQIA+fobia, dentre outras denominações, por preconceito contra a diversidade sexual e de gênero.

Adicionalmente, esse preconceito contra a diversidade sexual e de gênero encontra fundamentação na literatura crítica do Serviço Social, como será visto mais adiante neste texto, na abordagem das implicações para assistentes sociais.

Então, foram explicados os elementos que permitiram a historicização da homofobia e a defesa do termo preconceito contra a diversidade sexual e de gênero. Além disso, é importante ressaltar que não só esse preconceito, mas também as identidades homossexual e heterossexual constituem produtos históricos do capitalismo.

1. A formação das identidades homossexual e heterossexual no capitalismo

O historiador norte-americano John D’Emilio debateu a expansão do trabalho assalariado como uma condição histórica para a origem da homossexualidade e das comunidades gays.

Para D’Emilio (2007, p. 240-242), no século XVII, os colonizadores da Nova Inglaterra viviam em uma economia doméstica na qual as famílias eram a unidade produtiva, isto é, por meio da procriação, as famílias produziam os seus meios de subsistência.

A partir da segunda metade do século XIX, com o processo de acumulação do capital e a expansão do trabalho assalariado, houve uma radical modificação dessa economia doméstica.

Em vez da unidade familiar, as pessoas começaram a subsistir por meio do trabalho assalariado, mudaram-se para os grandes centros urbanos em formação no início do século XX. O que anteriormente se expressava como comportamento homossexual se concretizava em identidade homossexual, formada por pessoas que trabalhavam nos grandes centros, longe de suas famílias, e que frequentavam os estabelecimentos comerciais, partilhando uma vivência do desejo e do amor impossível de ser realizada na unidade produtiva familiar (D’Emilio, 2007, p. 242).

Outra mudança material que causou o fortalecimento das identidades homossexuais foi a guerra.

Milhões de homens e mulheres jovens foram tirados de suas cidades pequenas para locais distantes onde os sexos eram segregados, como os edifícios militares permitidos apenas para pessoas do mesmo sexo, constituindo outra oportunidade para florescer a sexualidade. Por volta das décadas de 1950 e 1960, nos grandes centros urbanos, já estava se estabilizando uma subcultura gay e lésbica (D’Emilio, 2007, p. 243).

Percebe-se, então, que o autor historicizou a origem da identidade homossexual a partir de mudanças na forma de produção da vida social, da unidade familiar colonial e rural para uma vida urbana em que a família não mais produz aquilo de que precisa, porque vende a sua força de trabalho. Associado ao processo de urbanização e de guerra, também um grande fator de crescimento do capital por causa da venda de equipamentos militares, relaciona-se o desenvolvimento da vida capitalista dos grandes centros como fonte material de formação da identidade homossexual e de sua subcultura.

Além de a identidade homossexual ter sua origem debatida, Jonathan Katz historicizou a identidade heterossexual em um conjunto de processos históricos: os primeiros anos da heterossexualidade, de 1892 a 1900; a legitimação heterossexual, de 1900 a 1930; a expansão da heterossexualidade, de 1930 a 1945; a hegemonia heterossexual, de 1945 a 1965; e o questionamento da heterossexualidade, de 1965 a 1982.

Os primeiros anos da heterossexualidade se referem ao período das primeiras utilizações dos termos heterossexual e homossexual nos Estados Unidos. O termo heterossexual foi utilizado pela primeira vez naquele país no dia 7 de março de 1892 em um artigo do médico James Kiernan, enquanto um dos primeiros usos da palavra homossexual também se refere a esse médico no mesmo ano (Katz, 2001, p. 70).

A legitimação heterossexual, por sua vez, ocorreu mediante um processo de ortodoxia sexual, isto é, pela legitimação desse padrão de sexualidade como único e verdadeiro. Isso ocorreu no contexto de consumo e trabalho da sociedade capitalista urbana, em que as juventudes heterossexuais da classe trabalhadora - maioria da população - vivenciaram um processo de transformação social, no qual a sexualidade que focalizava a procriação na antiga vida rural, na economia familiar, pôde ser sobrepujada pela sexualidade do prazer nos centros urbanos. Então, trata-se de um processo em que a identidade heterossexual emergiu de uma subcultura para uma cultura dominante (Katz, 2001, p. 72).

Talvez esse processo de legitimação tenha suas raízes na separação da unidade familiar para a venda da força de trabalho nos ambientes urbanos, na lógica do pensamento de D’Emilio. Se a identidade homossexual, em sua minoria, pôde se desenvolver nas grandes cidades, é possível pensar a legitimação da identidade heterossexual como maioria da sociedade, nos centros urbanos.

A expansão da heterossexualidade foi o processo no qual essa identidade deixa de dominar apenas as publicações médicas para se expandir para o universo da classe média urbana, nacional e até internacionalmente (Katz, 2001, p. 73).

Percebe-se, então, o desenvolvimento de uma identidade heterossexual fora do âmbito da saúde para um mercado de consumo mais amplo.

A hegemonia heterossexual, por sua vez, ocorreu em um processo em que profissionais de saúde conservadores restauraram o vínculo entre a identidade heterossexual e a procriação, ao mesmo tempo que associavam a identidade homossexual com a esterilidade (Katz, 2001, p. 73-74).

É possível que este processo tenha ocorrido mediante a perda da força de trabalho da Segunda Guerra Mundial, o que pode ter possibilitado um discurso que centralizasse a necessidade de reposição de trabalhadores para o contínuo processo de acumulação de capital.

Por fim, surgiu o questionamento da heterossexualidade, a partir do movimento de contracultura e dos direitos homossexuais (Katz, 2001, p. 75).

Trata-se de um período de questionamento da heterossexualidade como única sexualidade legítima, tendo em vista o intenso processo de lutas por direitos de homossexuais ter início nesse período.

O historiador Peter Drucker, dos Países Baixos, investigou o processo de formação das comunidades LGBT durante o modo de produção fordista, também conhecido como regime de acumulação fordista.

Drucker (2015, p. 163-164) situa historicamente o surgimento das comunidades LGBT da classe trabalhadora na longa onda expansiva de 1945 a 1973, associadas ao processo de industrialização e urbanização. Pela primeira vez na história, esses trabalhadores conseguem viver independentemente de suas famílias, de forma a desenvolver suas identidades e vivenciar sua sexualidade.

A princípio, essa situação ocorreu nos países centrais do capitalismo, resultado do processo de acumulação de capital que gerou a urbanização e a industrialização.

O mercado de consumo fordista fomentou os mercados de nicho, inclusive LGBT, na forma de jornais, agências de turismo e serviços específicos, a partir de 1945 nos Estados Unidos e na Europa ocidental (Drucker, 2015, p. 165) e, então, para o Japão, a partir da década de 1950 (Drucker, 2015, p. 175).

Em momento posterior, tal processo ocorreu em países periféricos.

Assim, enquanto nos países imperialistas norte-americanos e europeus o fordismo promovia as bases materiais para que comunidades gays e lésbicas existissem e se expandissem, a vida dessas comunidades nos países dependentes era muito diferente, tendo em vista que a dependência desses países periféricos exigia altos impostos para subsidiar o Estado de Bem-Estar Social do imperialismo (Drucker, 2015, p. 188).

Dessa forma, no México, em Porto Rico, na Argentina, no Uruguai, no Brasil, na África do Sul, em Taiwan, na Tailândia e na Malásia, as comunidades LGBT começaram a se estabelecer nos grandes centros urbanos apenas nas décadas de 1960 e 1970 por causa da industrialização e da urbanização mais tardias (Drucker, 2015, p. 176).

Drucker abordou o desenvolvimento das identidades LGBT no fordismo em uma análise de maior espectro, abordando não só o centro e a periferia do capital.

Após a compreensão dos processos de crítica ao preconceito e da formação da identidade homossexual e heterossexual no capitalismo, serão abordadas a seguir suas implicações para assistentes sociais no debate sobre as pautas antiopressão e o identitarismo.

2. Implicações para assistentes sociais no debate sobre as pautas antiopressão e o identitarismo

Entender o preconceito contra a diversidade sexual e de gênero em uma perspectiva de totalidade constitui um debate sobre a diversidade humana, a partir da literatura crítica do Serviço Social.

De acordo com Santos, Lemos e Moreira (2026, p. 7-12), o Serviço Social tem construído uma agenda política sobre a diversidade humana desde o fim da ditadura empresarial-civil-militar, quando movimentos sociais organizaram as lutas feministas, antirracistas e pela livre orientação sexual e identidade de gênero. Nesse contexto, assistentes sociais atuaram política e profissionalmente nessas lutas por serem seus sujeitos, por pesquisarem sobre elas e por elaborarem uma reflexão ética delas em perspectiva ontológica.

Isso foi e continua sendo fundamental no direcionamento crítico do Serviço Social nessa área, porque permite a apreensão da classe trabalhadora em sua forma concreta, histórica.

Significa que a classe trabalhadora possui raça, etnia, sexualidade, identidade de gênero, geração, deficiência, dentre outras dimensões, ou seja, trata-se de uma concepção de diversidade humana que apreende as relações sociais de exploração-opressão na perspectiva da totalidade (Santos; Lemos; Moreira, 2026, p. 10).

Além disso, outros estudos elaborados por assistentes sociais defendem essa perspectiva ontológica na análise da diversidade humana.

Santos (2026, p. 5-6), recorrendo a Santos (2017, p. 16), afirma que não há como dissociar as opressões e as violações de direitos da exploração da força de trabalho em uma sociedade fundada na propriedade privada dos meios de produção. E complementa, com base em Pinheiro (2022, p. 265-266), que a exploração da força de trabalho e a opressão à diversidade sexual e de gênero estabelecem mediações que desumanizam o gênero humano, convertendo diferenças humanas em desigualdades socialmente construídas.

Essa unidade dialética exploração-opressão é um elemento central na análise da diversidade humana em perspectiva de totalidade, e sua expressão pode ser observada na realidade.

Isso porque, no contexto de ofensiva da extrema-direita, os direitos do trabalho e as políticas em defesa dos direitos humanos e da diversidade são atacados, como ocorreu no Brasil no governo Bolsonaro de 2019 a 2022 (Santos; Lemos; Moreira, 2026, p. 4).

Então, além das implicações críticas sobre a diversidade humana, também existem aquelas relativas à identidade, especialmente na sociedade do capital contemporânea.

A sociedade do capital está fundada no antagonismo entre duas classes fundamentais, a classe dominante e a classe trabalhadora. Então, as identidades na sociedade capitalista não podem ser apreendidas dissociadas dessas duas classes. A partir dessas classes antagônicas, as diversas identidades defendem projetos opostos de sociedade. Dessa maneira, a identidade que luta pela defesa dos interesses da classe trabalhadora possui uma direção social transformadora, portanto, colabora nas pautas ou nas lutas antiopressão, enquanto a identidade que luta pela conservação dessa sociedade possui uma perspectiva identitária.

Assim, as lutas em direção social transformadora constituem uma oposição sistêmica às formas de opressão, porque as apreendem como elementos organizados em uma sociedade capitalista, logo, as lutas antiopressão são lutas contra a exploração e as opressões (Fernandes, 2020, p. 242).

Desse modo, pensando na luta da comunidade LGBT, pode-se deduzir que sua luta pode ocorrer à direita, a favor da classe dominante; ou pela esquerda, a favor da classe trabalhadora. Assim, a identidade LGBT alinhada à direita ou à esquerda liberal, o identitarismo, promove uma luta antirrevolucionária mediante a representatividade individual ou aquela geralmente restrita a poucas pessoas, porque não almeja uma transformação social. Em contrapartida, a identidade LGBT, associada à esquerda radical, luta não só contra todas as opressões, não apenas aquelas vividas por toda essa comunidade, mas também contra as demais opressões na sociedade, porque são lutas por acesso universal de uma coletividade.

Exemplificando, na luta coletiva ou revolucionária da comunidade LGBT, os alvos são não só os comportamentos preconceituosos e as estruturas opressoras como o heterossexismo, mas também o combate contra outras opressões, bem como a luta por transformação social de forma radical, isto é, destituindo a burguesia que atualmente domina os meios de produção.

Isso pode ser operacionalizado de uma série de maneiras. Por exemplo, relembrando o pioneirismo da Revolução Soviética na despatologização da homossexualidade; e mais recentemente, do Código Familiar Cubano, uma legislação que permite o casamento e a adoção por casais homoafetivos na nação socialista cubana (importante ressaltar que no Brasil inexistem leis a favor da comunidade LGBT, apenas medidas judiciais, que são juridicamente mais frágeis, em especial quando parcela da magistratura apoia o fascismo), reforçando a direção socialista da luta. Além disso, lutando por espaços de esquerda, nos partidos políticos e seus cargos de poder, para a comunidade LGBT, desde que sejam pessoas com perspectiva anticapitalista e socialista.

Por fim, é preciso lutar contra a abordagem identitária a favor do capital, que coopta as lutas de gênero, raça e sexualidade, dentre outras.

Essa abordagem enfatiza apenas a representatividade e o empoderamento, sem jamais discutir qualquer transformação social. É necessário, portanto, enfrentar o desafio de organizar a classe trabalhadora em toda a sua diversidade para a luta, sabendo que não é nem será uma tarefa simples. E essa organização contra as pautas antiopressão precisa lutar contra todas as opressões e contra a exploração capitalista, porque tanto a estrutura do capital quanto as estruturas opressivas organizam nossas vidas no capitalismo. Saber que o capitalismo coopta as pautas é justamente um motivo fundamental para politizá-las de forma revolucionária (Fernandes, 2020, p. 242).

O objetivo deste artigo foi adensar o preconceito contra a diversidade sexual e de gênero na história, socializando alguns elementos de uma tese de doutorado em Serviço Social para possibilitar que assistentes sociais construam um pensamento e ações críticas na luta pela construção de outra ordem social, contra toda forma de exploração e opressão. Talvez os elementos problematizados neste estudo possam ser parte de uma resposta qualificada para o combate ao neofascismo a serviço do capital que ameaça as nossas vidas.

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  • Editora responsável:
    Priscila Flório Augusto

Disponibilidade de dados

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    21 Ago 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    30 Mar 2026
  • Aceito
    09 Jul 2026
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