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Disfunção intestinal em pacientes com lesão cerebral decorrente de acidente vascular cerebral e traumatismo craniencefálico: estudo retrospectivo de uma série de casos

Disfuncción intestinal en pacientes con daño cerebral como resultado de una lesion cerebral traumática y accidente cerebrovascular: un estudio retrospectivo de una serie de casos

Resumos

A disfunção intestinal é uma queixa comum entre pacientes com lesão cerebral decorrente de Acidente Vascular Cerebral e Traumatismo Craniencefálico. Este estudo objetivou pesquisar a prevalência da disfunção intestinal (incontinência anal e constipação intestinal) em pacientes com lesão cerebral decorrente de Acidente Vascular Cerebral e Traumatismo Craniencefálico, admitidos para reabilitação. Trata-se de um estudo retrospectivo de uma série de casos, a partir da análise dos dados de 138 prontuários de pacientes internados no primeiro semestre de 2009. A prevalência de disfunção intestinal foi 41%, sendo 33 (24%) incontinência anal e 37 (27%) constipação intestinal. Comprometimento motor, auxílio locomoção, alterações de memória e comunicação estiveram associados à presença de incontinência anal. A prevalência de disfunção intestinal é alta nessa população, identificá-la precocemente, bem como os fatores relacionados, e promover a reeducação intestinal, poderá contribuir para melhora na qualidade de vida dessas pessoas.

Constipação intestinal; Incontinência fecal; Acidente vascular cerebral; Traumatismos encefálicos


La disfunción del intestino es una queja común entre los pacientes con daño cerebral debido a una lesión cerebral traumática y accidente cerebrovascular. Este estudio tuvo como objetivo investigar la prevalencia de disfunción del intestino (incontinencia y constipación) en pacientes con daño cerebral debido a una lesión cerebral traumática y accidente cerebrovascular admitidos para la rehabilitación. Este es un estudio retrospectivo de una serie de casos a partir del análisis de los datos de 138 expedientes de los pacientes ingresados en el primer semestre de 2009. La prevalencia de disfunción del intestino fue de 41%, siendo 33 (24%) incontinencia anal y 37 (27%), constipación. El comprometimiento motor, ayuda a la movilidad, cambios en la memoria y la comunicación se asocian con la presencia de la incontinencia anal. La prevalencia de disfunción del intestino es alta en esta población, identificar en forma temprana los factores relacionados, y promover el reentrenamiento intestinal pueden ayudar a mejorar la calidad de sus vidas.

Estreñimiento; Incontinencia fecal; Accidente cerebrovascular; Lesiones cerebrales traumáticas


Bowel dysfunction is a common complaint among patients with brain damage due to stroke and traumatic brain injury. The aim of this study was to investigate the prevalence of bowel dysfunction (anal incontinence and intestinal constipation) in patients with brain damage due to stroke and traumatic brain injury admitted for rehabilitation. This is a retrospective case series study, based on the analysis of data from 138 charts of patients admitted in the first half of 2009. The prevalence of bowel dysfunction was 41%, with 33 (24%) cases of anal incontinence and 37 (27%) cases of intestinal constipation. Motor impairment, mobility aid, changes in memory and communication were associated with the presence of anal incontinence. The prevalence of bowel dysfunction is high in this population. Early identification of the symptoms and its related factors promoting bowel retraining, may help to improve the quality of life of patients with bowel dysfunction.

Constipation; Fecal incontinence; Stroke; Traumatics brain injury


ARTIGO ORIGINAL

Disfunção intestinal em pacientes com lesão cerebral decorrente de acidente vascular cerebral e traumatismo craniencefálico: estudo retrospectivo de uma série de casos

Disfuncción intestinal en pacientes con daño cerebral como resultado de una lesion cerebral traumática y accidente cerebrovascular: un estudio retrospectivo de una serie de casos

Cinthia Carlos DouradoI; Tânia Mara Nascimento de Miranda EnglerII; Sandro Barbosa de OliveiraIII

IEnfermeira do Programa de Reabilitação Neurológica da Rede SARAH de Hospitais de Reabilitação. Distrito Federal, Brasil. E-mail: cinthiadourado@gmail.com

IIDoutoranda do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde da Universidade de Brasília (UnB). Enfermeira do Programa de Reabilitação Neurológica da Rede SARAH de Hospitais de Reabilitação. Distrito Federal, Brasil. E-mail: tania0877@hotmail.com

IIIEstatístico do Centro Nacional de Controle de Qualidade da Rede SARAH de Hospitais de Reabilitação. Distrito Federal, Brasil. E-mail: sndr@terra.com.br

Correspondência Correspondência: Tânia Mara Nascimento de Miranda Engler SMHS quadra 301 bloco 70335-901 – Brasília, DF, Brasil E-mail: tania0877@hotmail.com

RESUMO

A disfunção intestinal é uma queixa comum entre pacientes com lesão cerebral decorrente de Acidente Vascular Cerebral e Traumatismo Craniencefálico. Este estudo objetivou pesquisar a prevalência da disfunção intestinal (incontinência anal e constipação intestinal) em pacientes com lesão cerebral decorrente de Acidente Vascular Cerebral e Traumatismo Craniencefálico, admitidos para reabilitação. Trata-se de um estudo retrospectivo de uma série de casos, a partir da análise dos dados de 138 prontuários de pacientes internados no primeiro semestre de 2009. A prevalência de disfunção intestinal foi 41%, sendo 33 (24%) incontinência anal e 37 (27%) constipação intestinal. Comprometimento motor, auxílio locomoção, alterações de memória e comunicação estiveram associados à presença de incontinência anal. A prevalência de disfunção intestinal é alta nessa população, identificá-la precocemente, bem como os fatores relacionados, e promover a reeducação intestinal, poderá contribuir para melhora na qualidade de vida dessas pessoas.

Descritores: Constipação intestinal. Incontinência fecal. Acidente vascular cerebral. Traumatismos encefálicos.

RESUMEN

La disfunción del intestino es una queja común entre los pacientes con daño cerebral debido a una lesión cerebral traumática y accidente cerebrovascular. Este estudio tuvo como objetivo investigar la prevalencia de disfunción del intestino (incontinencia y constipación) en pacientes con daño cerebral debido a una lesión cerebral traumática y accidente cerebrovascular admitidos para la rehabilitación. Este es un estudio retrospectivo de una serie de casos a partir del análisis de los datos de 138 expedientes de los pacientes ingresados en el primer semestre de 2009. La prevalencia de disfunción del intestino fue de 41%, siendo 33 (24%) incontinencia anal y 37 (27%), constipación. El comprometimiento motor, ayuda a la movilidad, cambios en la memoria y la comunicación se asocian con la presencia de la incontinencia anal. La prevalencia de disfunción del intestino es alta en esta población, identificar en forma temprana los factores relacionados, y promover el reentrenamiento intestinal pueden ayudar a mejorar la calidad de sus vidas.

Descriptores: Estreñimiento. Incontinencia fecal. Accidente cerebrovascular. Lesiones cerebrales traumáticas.

INTRODUÇÃO

A constipação intestinal é uma condição em que o indivíduo apresenta sintomas que o impedem de realizar uma eliminação intestinal satisfatória. Pode estar associada à consistência das fezes, frequência das evacuações, esforço para alcançar uma eliminação eficaz e sensação de esvaziamento incompleto da ampola retal.1-2 Afeta entre 2% e 27% da população geral dos países ocidentais,3-4 sendo que esta variação na prevalência pode ser explicada por vários aspectos: a variedade de definições utilizadas nas pesquisas e parâmetros como a idade, diferentes classes econômicas, hábitos alimentares, nível socioeconômico e dificuldade da população ao atendimento médico.5

A perda de fezes através do esfíncter anal é outra condição que restringe a interação social do indivíduo. Pode apresentar-se em virtude de alterações da musculatura do assoalho pélvico e/ou da musculatura esfincteriana anal, plenitude do trato gastrintestinal, condições clínicas e infecciosas. É estimado que 0,5% a 5% da população geral apresentem incontinência anal.6

O mecanismo da defecação é controlado pelo sistema nervoso central. Injúrias que ocorrem no cérebro e em suas conexões podem alterar o funcionamento intestinal dos indivíduos. Como exemplos dessas injúrias, pode-se citar o Acidente Vascular Cerebral (AVC) e o Traumatismo Craniencefálico (TCE). Fatores associados à lesão cerebral podem alterar a peristalse e eliminação das fezes. A imobilidade, a espasticidade, a debilidade muscular, a perda da independência para utilizar o vaso sanitário e a utilização de alguns fármacos podem contribuir para a disfunção intestinal.7-8 Consequentemente, esses pacientes poderão apresentar constipação intestinal e incontinência anal, consideradas as disfunções intestinais mais comuns nessa população.

Na literatura há uma escassez de informações sobre a disfunção intestinal em pacientes com sequela de AVC e TCE. A prevalência de constipação intestinal, nos pacientes com sequela de AVC, varia entre 22,9% e 60%, a depender da definição utilizada e do tipo de estudo.9-11 Já a incontinência anal pode variar de 30% a 40% na fase aguda e de 9% a 15% na fase crônica.12 No Brasil, um estudo avaliou a prevalência da constipação intestinal em pacientes com sequela de AVC e no qual 49% dos pacientes admitidos para um programa de reabilitação apresentavam o sintoma. A prevalência de incontinência anal não foi pesquisada no mesmo estudo.13 Até o presente estudo não havia no Brasil estudo de prevalência de disfunção intestinal em paciente com TCE.

A prevalência de disfunção intestinal em pacientes com sequela de AVC e TCE é superior à encontrada na população geral. A literatura é escassa sobre essa alteração e, no Brasil, a dimensão desse problema é pouco conhecida. Tais queixas são comuns nos indivíduos com sequela de AVC e TCE e levam a constrangimentos e comprometimento da qualidade de vida, dificultando, por vezes, o retorno efetivo às atividades cotidianas e sociais.8,14 Conhecer a dimensão do problema dessa população no Brasil poderá contribuir para uma maior atenção a esses sintomas nessa população, para o estabelecimento de medidas de reeducação intestinal precoce e, consequentemente, para a melhora da qualidade de vida dessas pessoas.

Dessa forma, este estudo teve como objetivo pesquisar a prevalência da disfunção intestinal (constipação intestinal e incontinência anal) nos pacientes admitidos para reabilitação, em uma enfermaria de reabilitação neurológica.

MÉTODO

Estudo retrospectivo de uma série de casos, a partir da análise de prontuário eletrônico dos dados referentes às internações ocorridas no primeiro semestre de 2009 em uma enfermaria de reabilitação neurológica, onde são admitidos pacientes para investigação diagnóstica e reabilitação. Foram Incluídos todos os pacientes adultos com lesão cerebral decorrente de AVC e TCE, independente do tempo de lesão cerebral e do comprometimento neurológico internados no período supracitado.

Foram analisadas todas as evoluções de admissão dos pacientes realizadas por enfermeiros, médicos e fisioterapeutas. A partir da análise do prontuário de cada paciente, foram registrados os sintomas de constipação intestinal e incontinência anal e as seguintes alterações: distúrbio da memória, mudanças na comunicação, comprometimento motor, uso de auxílio locomoção e características demográficas.

O sintoma constipação intestinal foi definido na ocorrência de pelo menos um dos critérios: frequência das evacuações inferior a três vezes por semana, uso de laxantes. lavagem intestinal e uso de supositórios. Estas definições também foram utilizadas em outros estudos.8-10,15

A incontinência anal foi identificada através do relato do paciente e/ou familiar quanto à necessidade de uso de fraldas. Pacientes que não conseguiam informar o desejo de evacuar também foram considerados incontinentes. A capacidade cognitiva (memória e comunicação) foi registrada quanto à presença ou ausência de alterações. Para a classificação do uso do auxílio locomoção considerou-se aquele utilizado com maior frequência. O comprometimento motor foi classificado, conforme evoluído pelos profissionais, como: tetraplegia, tetraparesia, hemiplegia, hemiparesia e nenhum comprometimento motor.

Além do cálculo das prevalências da disfunção intestinal, foi avaliada a relação da constipação intestinal e incontinência anal com as seguintes variáveis: alteração de memória, alteração de comunicação, comprometimento motor, uso de auxílio locomoção, idade e gênero.

Os dados foram coletados diretamente do prontuário eletrônico e armazenados em banco de dados Microsoft Access 2003.

Foram realizadas análises descritivas e inferenciais. Para a análise inferencial utilizou-se as estimativas intervalares com nível de confiança igual a 95%. A relação entre as prevalências de constipação intestinal e incontinência anal e as variáveis clínicas e sociodemográficas foi avaliada a partir do teste Qui-quadrado considerando o nível de significância igual a 5%.17 As análises estatísticas foram realizadas no programa SPSS 13.0.

O projeto foi aprovado previamente pelo comitê de ética em pesquisa da instituição, ofício de aprovação nº 754.

RESULTADOS

No primeiro semestre de 2009 internaram no programa de reabilitação neurológica 138 pacientes, dos quais 72 (52%) apresentavam lesão cerebral decorrente de AVC, observa-se na tabela 1 que há predomínio de pacientes com lesões isquêmicas. A idade média de todos os pacientes foi de 46,6 anos (desvio padrão=18,4 anos). No grupo de pacientes com lesão cerebral decorrente de AVC, a idade média de 59,4 anos (desvio padrão=13,9 anos) foi maior quando comparada ao grupo com TCE (32,7 anos; desvio padrão=11,9 anos). O tempo médio de lesão da amostra foi igual a 4,6 anos (desvio padrão=5,2 anos). Na tabela 1, é possível observar características clínicas da amostra.

A prevalência de incontinência anal foi igual a 24% (intervalo de confiança 95%: 17% - 31%) e a prevalência de constipação intestinal foi igual a 27% (intervalo de confiança 95%: 16% - 37%). Considerando como disfunção intestinal a ocorrência de constipação intestinal e/ou incontinência anal, a prevalência de disfunção intestinal foi 41% (intervalo de confiança 95%: 29% - 53%). De acordo com a tabela 2 não foi encontrada diferença estatisticamente significante entre os pacientes com AVC e TCE, tanto para a prevalência de incontinência anal quanto para a prevalência de constipação intestinal.

O tempo médio de lesão entre os pacientes constipados foi de 4,3 anos (desvio padrão =5 anos) e de 3,9 anos (desvio padrão =4 anos) para os pacientes incontinentes.

Ainda em relação à tabela 2, observa-se que a incontinência anal foi associada ao comprometimento motor, ao uso de auxílio locomoção, à alteração mnemônica e à mudança na comunicação. Não foi observada associação entre disfunção intestinal e gênero, idade e tipo de lesão.

DISCUSSÃO

Neste estudo, disfunção intestinal foi definida a partir da presença de constipação intestinal e/ou incontinência anal. Foram identificados 41% dos pacientes com disfunção intestinal, sendo 27% com constipação intestinal e 24% com incontinência anal.

Nos resultados de uma auditoria nacional de constipação crônica, realizada nos Estados Unidos da América, observou-se que 75% dos casos estavam entre pessoas mais idosas e 58% entre aqueles com alteração neurológica.17 Neste estudo, a prevalência de constipação intestinal foi inferior a citada no estudo acima, porém essa prevalência pode variar de acordo com as definições utilizadas nos estudos,5 é importante citar que, neste estudo, foram avaliados os casos de pacientes com AVC e TCE, diferente do estudo anterior, no qual, além destas, foram avaliadas também outras doenças neurológicas.

Em outras pesquisas com a população geral, realizadas na América Latina, a constipação intestinal é mais comum em mulheres.2 Nessa pesquisa verifica-se que a mesma foi mais frequente entre os homens, isso pode ser explicado pelo fato dessa amostra ter um número de homens bem superior ao de mulheres, porém não foi encontrada significância estatística entre essas variáveis.

No presente estudo observa-se que a idade média dos pacientes constipados foi menor que a encontrada em estudos similares, o que pode ser justificado pela presença de pacientes com lesão cerebral decorrente de TCE, os quais geralmente são mais jovens. Resultados semelhantes foram encontrados em uma pesquisa com pacientes com AVC, TCE e outras lesões cerebrais, em que a população com TCE era significativamente mais jovem, com predomínio do gênero masculino.18 A idade média dos pacientes com lesão cerebral decorrente de AVC e a prevalência de constipação intestinal não difere dos resultados encontrados em outro estudo realizado com 140 pacientes com AVC, no qual verificou-se que a constipação intestinal ocorreu em 22,9% dos pacientes, que foi a principal complicação após o AVC. 10

Em outra pesquisa realizada com o objetivo de avaliar a prevalência de disfunção intestinal após o AVC, observou-se que a constipação intestinal é uma condição frequente, ocorrendo em 30% dos pacientes, já a incontinência anal ocorreu em 5,5% após o AVC. 9

Dessa forma, observa-se na literatura que a prevalência de constipação intestinal nos pacientes com sequela de AVC pode variar entre 22,9% a 60%, porém, diferentes definições e momentos de investigação são identificados nos estudos. Em alguns casos a prevalência foi investigada em pacientes mais agudos ou após lesão recente10-11,19 e em outros com pacientes crônicos.9,13 No presente estudo, essa diferença pode ser justificada pela metodologia – análise retrospectiva dos dados do prontuário eletrônico – e a consequente não possibilidade de investigação de outros sintomas de constipação intestinal. Já em outra pesquisa prospectiva e com instrumento padronizado, realizada no Brasil,13 essa prevalência foi maior e isso reforça as diferenças dos tipos de estudo, de acordo com as definições de constipação intestinal adotadas.

O AVC pode resultar em paresias e alterações na fala, além de alterações cognitivas, agnosia de objetos, desorientação visoespacial, distúrbios de atenção, o que pode comprometer a evacuação em local e horário socialmente aceitáveis e em constipação intestinal.20 Neste estudo foi observado que alterações mnemônicas e da comunicação foram variáveis que estiveram estatisticamente associadas à incontinência anal.

O AVC pode afetar todos os aspectos da vida pessoal e aumentar fatores de risco para problemas intestinais como: redução da mobilidade física; diminuição da ingestão de líquidos, pois o indivíduo pode apresentar dificuldade de deglutir e conseguir alcançar os líquidos ou diminuir a ingestão de líquidos na tentativa de controlar a incontinência urinária; redução da ingestão de fibras, devido dificuldade de deglutição; dependência de outros para ir ao banheiro; redução ou ausência da sensação de necessidade de defecar; comprometimento cognitivo e uso de medicações que podem afetar a função intestinal.21

A disfunção intestinal é uma condição comum e angustiante após o AVC, porém não existem, praticamente, estudos de intervenção nesta área clínica.8 Outro aspecto é que a constipação intestinal em pacientes hemiplégicos acontece provavelmente por um mecanismo duplo. Por um lado as desordens neurológicas que levam a distúrbios dos esfíncteres vesicais e anorretal. Por outro, as consequências gerais da hemiplegia como a dependência, modificação do regime alimentar e condições de defecação. A constipação é reconhecida como um sério problema na prática clínica e pode afetar até 60% dessa população nos centros de reabilitação.15

Quanto à incontinência anal, um estudo realizado nos Estados Unidos da América, com amostra de 1.013 pacientes com TCE revelou que 68% dos pacientes apresentavam incontinência fecal no momento da internação.14 Entretanto esse dado é superior ao encontrado no presente estudo. O que pode estar relacionado à forma como os dados foram coletados, pois, a incontinência anal foi um dado identificado através do uso de fralda e a não solicitação do paciente para evacuar em local adequado, conforme relato do familiar ou do próprio paciente no momento da internação. Outro aspecto é o fato de a amostra do estudo supracitado apresentar um número superior de pacientes com lesões neurológicas. Vale ressaltar que o tempo de lesão cerebral também é outro fator importante que deve ser levado em consideração na análise dos dados.

Em relação ao auxílio locomoção e ao comprometimento motor, segundo a literatura, a imobilidade pode ser um fator de risco para constipação intestinal, pois induz a um descondicionamento, o que resulta numa força de prensa abdominal inadequada para a defecação,20 dessa forma a mobilidade física desempenha papel importante na dinâmica intestinal.10 Neste estudo não foi encontrada associação entre uso de cadeira de rodas, comprometimento motor e constipação intestinal. Já em relação à incontinência anal esta associação foi observada e uma das hipóteses é a dificuldade de acesso do paciente ao banheiro e outra a presença de alterações cognitivas. A extensão da lesão cerebral pode resultar em maior comprometimento cognitivo e motor, o que não foi possível mensurar no presente estudo. Esses fatores estão intimamente relacionados à função intestinal do indivíduo, visto que os mesmos alteram o autocuidado relacionado ao toalete, ocasionando também a incontinência anal.8,14

CONCLUSÕES

Os resultados deste estudo apontam que a disfunção intestinal em pacientes com lesão cerebral decorrente de AVC e TCE é um achado frequente, especialmente naqueles com limitações motoras, de comunicação e alteração mnemônica.

Conhecer a prevalência da disfunção intestinal e alguns fatores a ela associados reforça a importância de que a equipe de reabilitação, especialmente a equipe de enfermagem, atente para as disfunções intestinais. Identificar precocemente esses pacientes e instituir uma abordagem terapêutica para melhor manejo da função intestinal pelo próprio paciente e por seus familiares/cuidadores, poderá contribuir para uma melhor qualidade de vida e possibilidade de reinserção social.

O presente estudo tem como limitação o fato de que não foi utilizada uma definição padronizada para constipação intestinal e incontinência anal, esse dado foi coletado diretamente do prontuário eletrônico, a partir do registro do relato do paciente/familiar. Dessa forma, o método utilizado pode interferir, pois, entende-se que o registro no prontuário, no momento da admissão, é um dado autorreferido pelo paciente e familiar, muitas vezes pode apresentar-se subestimado e, em alguns casos, a constipação intestinal só é identificada após internação do paciente. Com relação a essa informação observa-se na prática que o paciente, no momento da admissão, em programa de reabilitação enfoca prioritariamente os aspectos motores e muitos não se atentam a informar os sintomas intestinais.

Este estudo foi válido para fornecer informações sobre a prevalência de disfunção intestinal na admissão de pacientes para reabilitação, além de alguns fatores que podem estar associados à mesma. Estudos posteriores poderão comparar essa prevalência na admissão com aquela identificada durante o programa de reabilitação, além de avaliar outros fatores que poderão estar associados à disfunção intestinal utilizando instrumentos padronizados.

Recebido: 25 de Julho de 2011

Aprovação: 10 de Julho de 2012

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  • Correspondência:

    Tânia Mara Nascimento de Miranda Engler
    SMHS quadra 301 bloco
    70335-901 – Brasília, DF, Brasil
    E-mail:
  • Datas de Publicação

    • Publicação nesta coleção
      08 Jan 2013
    • Data do Fascículo
      Dez 2012

    Histórico

    • Recebido
      25 Jul 2011
    • Aceito
      10 Jul 2012
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