RESUMO
Objetivo: identificar nas publicações nacionais e internacionais indexadas nas bases de dados os principais métodos adotados pelos pesquisadores para o desenvolvimento de aplicativos móveis em saúde.
Método: revisão integrativa da literatura de estudos publicados nas bases de dados MEDLINE/PubMed, Scopus, Web of Science, CINAHL e SciELO, no período de 2012 a 2016. Foram selecionados para análise 21 artigos.
Resultados: os principais métodos para desenvolvimento de aplicativos móveis na área da saúde descritos nos artigos foram: design instrucional sistemático, design instrucional contextualizado, design centrado no usuário e ciclo de vida de desenvolvimento de sistemas.
Conclusão: independentemente do método de desenvolvimento escolhido, as etapas devem ser bem definidas e estruturadas, a fim de que o aplicativo móvel desenvolvido seja útil ao usuário final.
DESCRITORES:
Aplicativos móveis; Aplicação de informática médica; Informática em enfermagem; Informática médica; Tecnologia da informação
ABSTRACT
Objective: to identify, in the Brazilian and international publications indexed in the databases, the main methods adopted by researchers for developing mobile apps in health.
Method: integrative review of the literature, of studies published in the following databases: MEDLINE/PubMed, Scopus, Web of Science, CINAHL and SciELO, in 2012 - 2016. A total of 21 articles were selected for analysis.
Results: the main methods for developing mobile apps in the area of health, described in the articles, were: systematic design of instruction, contextualized design of instruction, user-centered design and systems development life cycle.
Conclusion: regardless of the method of development selected, the stages must be well-defined and structured, so that the mobile app developed may be useful to the end-user.
DESCRIPTORS:
Mobile applications; Medical informatics applications; Nursing informatics; Medical informatics; Information technology
RESUMEN
Objetivo: identificar en las publicaciones nacionales e internacionales indexadas en las bases de datos los principales métodos adoptados por los investigadores para el desarrollo de aplicaciones móviles en salud.
Método: revisión integrativa de literatura de estudios publicados en las bases de datos MEDLINE/PubMed, Scopus, Web of Science, CINAHL y Scielo, en el período de 2012 a 2016. Fueron seleccionados para el análisis, 21 artículos.
Resultados: los principales métodos para el desarrollo de aplicaciones móviles en el área de la salud descritos en los artículos fueron: diseño instructivo sistemático, diseño educativo contextual, diseño centrado en el usuario y ciclo de vida de desarrollo de sistemas.
Conclusión: independientemente del método de desarrollo elegido, las etapas deben estar bien definidas y estructuradas, a fin de que la aplicación móvil desarrollada sea útil para el usuario final.
DESCRIPTORES:
Aplicaciones móviles; Aplicación de informática médica; Informática en enfermería; Informática médica; Tecnología de la información
INTRODUÇÃO
No contexto atual, as Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs) voltadas para a área da saúde possuem diversas ferramentas que apóiam a estruturação e a organização dos dados e informações, possibilitando o armazenamento, processamento, acesso em tempo real e/ou remoto e compartilhamento dos mesmos, seja pelos diversos profissionais envolvidos na assistência, bem como, pelo próprio paciente/usuário.1-5 Tais tecnologias são consideradas um recurso global, o qual conecta diversos computadores criando uma rede de informações e que permite colaborar com o desenvolvimento e aperfeiçoamento das profissões da saúde.1
As TICs, além de possibilitar a divulgação, disseminação e atualização do conhecimento na área da saúde, podem apoiar a tomada de decisão clínica dos profissionais contribuindo com a elaboração de diagnósticos fidedignos e orientações/condutas terapêuticas qualificadas destinadas aos pacientes/usuários.1-2,5 Ressalta-se ainda que, o acesso em tempo real e/ou remoto às informações, contribui para a solução de problemas/necessidades de saúde em diferentes regiões geográficas, promovendo uma ampla cobertura da assistência à saúde especializada realizada nos grandes centros urbanos.1
Neste cenário, destacam-se o fenômeno das tecnologias móveis (tablets, smartphones, etc.), especialemte da utilização de aplicativos móveis (também conhecidos como apps - do inglês application) entre a população mundial. Os apps são conceituados como um conjunto de ferramentas desenhado para realizar tarefas e trabalhos específicos.6
Os dispositivos móveis, em especial, os aplicativos móveis, visam atender o acesso das pessoas à informação e ao conhecimento, sem restrição de tempo e espaço. A possibilidade da queda de barreiras de tempo e espaço permite também novas formas de comunicação.7-9 Tais características agregam valor estratégico para a nova sociedade da Era da Informação.10
Atualmente, é possível constatar uma proliferação de tecnologias e aplicativos móveis (m-saúde/m-health) que estão colaborando para a construção de uma nova modalidade de assistência em saúde, no qual as informações referentes à saúde das pessoas se fazem oportunas e onipresentes.6 Diversos estudos apontam que tais aplicativos, incluindo as informações geradas pelos mesmos, podem ser utilizados para otimização dos resultados e redução dos riscos em saúde, bem como, para compreensão dos fatores determinantes que promovem a saúde e/ou que levam à doença.11-16
Especificamente na área da enfermagem, considera-se que as ferramentas disponibilizadas pelas TICs associadas à prática clínica, educacional e de gestão exigem dos enfermeiros o empreendimento de esforços para alcançar uma definição de seu papel frente à informática na enfermagem. Evidencia-se a necessidade iminente destes profissionais em realizar uma reflexão, bem como, se inserir no ambiente tecnológico dos aplicativos móveis, fortemente presentes no contexto cultural, social e econômico do país.17
Diante destas considerações, surgiu a seguinte questão de pesquisa: quais são os principais métodos adotados pelos pesquisadores para o desenvolvimento de aplicativos móveis em saúde? Assim, este estudo de revisão integrativa da literatura objetivou identificar nas publicações nacionais e internacionais indexadas nas bases de dados os principais métodos adotados pelos pesquisadores para o desenvolvimento de aplicativos móveis em saúde.
MÉTODO
Trata-se de um estudo de revisão integrativa da literatura de estudos científicos publicados no período de 2012 a 2016. As etapas desta revisão foram alicerçadas em um protocolo previamente estabelecido, visando manter o rigor científico e metodológico, a saber: 1) elaboração da pergunta de pesquisa; 2) definição dos critérios de inclusão de estudos e seleção da amostra (busca ou amostragem na literatura); 3) representação dos estudos selecionados em formato de tabelas, considerando todas as características em comum (coleta de dados); 4) análise crítica dos estudos incluídos, identificando diferenças e conflitos; 5) interpretação/discussão dos resultados; 6) apresentação da revisão integrativa de forma clara e objetiva das evidências/dados encontrados.18
Para responder a questão norteadora da revisão, realizou-se a busca bibliográfica das publicações indexadas nas seguintes bases de dados: MEDLINE/PubMed, Scopus, CINAHL, Web of Science e SciELO. Os descritores MeSH adotados foram: Mobile Applications; Medical informatics; Medical informatics Applications; Public health informatics; Nursing informatics; Information technology; Telemedicine; e Technology. Devido à variedade de termos utilizados na área da TIC, optou-se ainda por incluir na busca as seguintes palavras-chave: mobile technology; e-Health, m-health; telehealth; healthcare application; cybercare. Destaca-se que as expressões booleanas AND e OR foram os recursos adotados para a pesquisa com o intuito de se obter o maior número de estudos acerca da temática revisada.
Os critérios de inclusão dos estudos foram: pesquisas originais, revisões de literatura (sistemática, integrativa ou narrativa) e relatos de experiência publicados entre janeiro de 2012 a dezembro de 2016, em língua inglesa, portuguesa ou espanhola; disponíveis na íntegra e que apresentassem expressamente as etapas/métodos (framework) de desenvolvimento do aplicativo móvel na área da saúde, especificamente, enfermagem, medicina e saúde pública. Os critérios de exclusão considerados foram duplicidade dos artigos, editoriais, anais de congresso, estudos de casos e artigos de reflexão.
Cabe ressaltar que a seleção dos estudos foi conduzida conforme a metodologia Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses (PRISMA).19 Os pesquisadores foram divididos em 2 grupos, cada um com 2 membros. O grupo 1 foi responsável por realizar a busca nas bases de dados, utilizando os descritores e palavras-chave selecionados. Nesta etapa foram encontrados 1.984 artigos. Após a busca, os artigos foram compartilhados com o grupo 2 e assim procedeu-se as demais etapas da revisão de forma independente e simultânea. A figura 1 apresenta a síntese dos resultados obtidos em cada etapa.
O método de leitura científica foi adotado para realizar a análise dos dados. Este método se desenvolve em três etapas: 1) visão sincrética - leitura de reconhecimento geral visando se aproximar do tema do estudo e leitura seletiva buscando as informações acerca do objetivo do estudo; 2) visão analítica: leitura reflexiva e crítica dos artigos selecionados e escolha dos conteúdos principais relacionados ao tema; e 3) visão sintética: leitura de interpretação dos dados/resultados apresentados nos estudos.20
Destaca-se que foi elaborado um instrumento para a coleta e análise dos dados dos estudos que incluídos. Neste instrumento foram registradas as seguintes informações: autoria, país, idioma, categoria de publicação, ano de publicação, periódico, objetivo do estudo, área da saúde atendida pelo aplicativo móvel, referencial teórico e método adotado para o desenvolvimento do aplicativo móvel. Agrupados por semelhança de conteúdo, duas categorias para análise foram concebidas: Descrição das características dos estudos e Métodos utilizados para o desenvolvimento de aplicativos móveis em saúde.
RESULTADOS
Descrição das Características dos Estudos
As publicações selecionadas para a identificação dos principais métodos adotados pelos pesquisadores para o desenvolvimento de aplicativos móveis em saúde estão descritas no quadro 1.
Descrição das publicações sobre métodos para desenvolvimento de aplicativos móveis em saúde, segundo ano de publicação, periódico, método e área da saúde do aplicativo. Florianópolis-SC, Brasil, 2017
Na base de dados MEDLINE/PubMed foram selecionados doze artigos para análise; Scopus e Web of Science três estudos em cada; CINAHL dois estudos; e um artigo na SciELO, totalizando 21 artigos analisados. Destaca-se que 86% (18) dos estudos foram publicados em periódicos internacionais e 14% (03) em periódicos nacionais.
Em relação aos países de origem dos estudos, houve a seguinte distribuição: Estados Unidos da América, 33,5% (07); Brasil, 14% (03); Suécia, 9,5% (02); Argentina, Austrália, Chile, Coreia do Sul, Espanha, Holanda, Indonésia, Itália e Taiwan, 43% (09), sendo um artigo de cada nação. Quanto aos idiomas dos artigos analisados, 86% (18) foram publicados em inglês e 14% (03) em língua portuguesa; nenhuma publicação em língua espanhola foi selecionada para análise.
A figura 2 apresenta a distribuição dos estudos selecionados segundo o ano de publicação.
Os artigos foram classificados quanto à sua categoria de publicação, conforme explicitado pelos periódicos: 86% (18) pesquisas originais; 9,5% (2) comunicados breves e; 4,5% (1) protocolo.
Em relação à área de especialidade dos aplicativos móveis desenvolvidos e/ou avaliados, evidenciou-se a seguinte distribuição: oncologia (hospitalar, domiciliar e auditoria),21-22 19% (4); doenças respiratórias (asma/adolescente e cuidado domiciliar),25-27 14,3% (3); Atenção Primária à Saúde (promoção à saúde, doenças crônicas e doenças cardiovasculares),28-30 14,3% (3); geriatria,31-32 9,5% (2); pediatria (cuidados paliativos e cuidados ao recém-nascido)33,34 9,5% (2); cuidados críticos (adulto e neonatal),35-36 9,5% (2); doença renal (hemodiálise),37 4,8% (1); doença metabólica (obesidade),38 4,8% (1); saúde mental (depressão)39 4,8% (1); recuperação pós-operatória40 4,8% (1) e; nutrição (parenteral)41 4,8% (1).
Métodos utilizados para o desenvolvimento de aplicativos móveis em saúde
A partir da revisão realizada evidenciou-se que os descritores Mobile applications; Medical informatics; Medical informatics applications; Public health informatics; Nursing informatics; Information technology; Telemedicine; e Technology, bem como as palavras-chave mobile technology, e-Health, m-health, telehealth e healthcare application contemplaram estudos que abordaram os principais métodos para desenvolvimento de aplicativos móveis na área da saúde. A palavra chave cybercare, pesquisada de forma isolada e/ou em associação com os demais descritores, não apresentou estudos sobre a temática central desta revisão integrativa da literatura.
Um dos métodos mais difundidos mundialmente é o Design Instrucional Sistemático (DIS) (Systematic Design of Instruction).22-28,30-31,33-34,36-41 Elaborado por Walter Dick e Lou M. Carey42-43 em 1978, este modelo contempla as etapas análise, design/desenvolvimento, implementação e avaliação.
Outro método utilizado para o desenvolvimento de aplicativos móveis em saúde é o Design Instrucional Contextualizado (DIC).35 Este método adota as mesmas etapas do método Design Instrucional Sistemático, entretanto, a etapa implementação acontece simultaneamente com as etapas de análise/concepção, agregando novos estágios e adicionando maior detalhamento à ferramenta tecnológica.44-46
O método Design Centrado no Usuário (DCU) (User Centered Design) foi utilizado para desenvolver aplicativos na área de Enfermagem Geriátrica32 e Atenção Primária (prevenção de doenças crônicas).29 Trata-se de um método que estabelece a participação/colaboração entre os usuários e os designers/pesquisadores na fase da concepção para o desenvolvimento de sistemas informatizados, nomeadamente, os aplicativos móveis.47-50
O método Ciclo de Vida de Desenvolvimento de Sistemas (CVDS) (Systems Development Life Cycle - SDLC) foi adotado no estudo que desenvolveu um aplicativo para a consulta de medicamentos quimioterápicos visando auxiliar a auditoria em enfermagem de contas hospitalares.21 Este método possui três formas de abordagem para o desenvolvimento de sistemas: ciclo de vida clássico, ciclo de vida espiral e ciclo de vida da prototipação. Tais formas visam auxiliar o desenvolvedor/pesquisador a identificar as necessidades dos usuários.51-52
DISCUSSÃO
Uma gama de métodos/procedimentos de Design Instrucional foi desenvolvido nas últimas décadas visando a construção de novas ferramentas tecnológicas (nomeadamente, os aplicativos móveis), que melhoram o processo de ensino-aprendizagem e o desempenho dos usuários nos mais diversos contextos. Observa-se que os desenvolvedores/pesquisadores adotam uma série de meios/recursos instrucionais para atingir seus objetivos, entretanto, independente do método escolhido e das diferentes etapas que compõem cada um deles, a maioria dos métodos inclui as etapas análise, concepção, desenvolvimento, implementação e avaliação.42,44,46,53 Aponta-se ainda que, no design instrucional e tecnológico, além da das etapas mencionadas, inclui-se a etapa da gestão como um todo.53
De uma forma geral, o Design Instrucional contempla planejamento, preparação, produção e publicação de textos, imagens, sons e movimentos, simulações e atividades sustentadas por ferramentas virtuais disponibilizadas pelas TICs.45 Este método possui algumas características e mecanismos contextuais, entre elas: individualização dos ritmos de aprendizagem; adaptável às características institucionais, nacionais, regionais e/ou locais; possibilidade de constante atualização mediante feedback/opinião dos usuários; acesso em tempo real e/ou remoto às informações; possibilidade de comunicação entre os usuários e desenvolvedores/pesquisadores; e monitoramento da construção individual e coletiva dos conhecimentos dos usuários.
Diferentes modalidades de Design Instrucional que possuem objetivos semelhantes, diferenciam-se em suas modelações e características, estão descritas na literatura.44 Desta forma, o modelo de Design Instrucional se divide conforme apresentado: Design Instrucional Fixo (DIF), Design Instrucional Aberto (DIA), DIC e o Modelo Integrative Learning Design Framework (ILDF).
O método DIC considera central a atividade humana, buscando o equilíbrio entre a automação dos processos de planejamento, personalização e contextualização da instrução/conteúdo e as ferramentas tecnológicas disponíveis. Ou seja, o termo DIC é adotado para descrever uma ação intencional de planejamento, desenvolvimento e aplicações didáticas específicas e contextualizadas, alicerçadas pelas ferramentas disponibilizadas pelas TICs, incorporando em suas diversas fases mecanismos e processos que favorecem a contextualização e flexibilidade do conteúdo/instrução.44-45
O DIC é composto pelas seguintes etapas: análise, design, desenvolvimento, implementação e avaliação. Entretanto, enquanto os modelos de design instrucionais convencionais incorporam estágios específicos em cada etapa, este modelo adota o entrelaçamento entre suas etapas ao longo de todo o processo de desenvolvimento da instrução/conteúdo. O DIC inicialmente caracteriza os usuários, identifica as necessidades dos mesmos e realiza um levantamento de restrições, aprimorando e atualizando estes dados e informações paralelamente às novas demandas e participação dos usuários. Assim, a fase implementação não ocorre separadamente da fase concepção (análise, design e desenvolvimento), ambas progridem e incorporam uma série de estágios que se complementam.44-46
Para exemplificar a utilização do método DIC, cita-se o estudo que desenvolveu e avaliou um aplicativo móvel para o ensino da mensuração da pressão venosa central destinado a acadêmicos de enfermagem (usuários finais). Nesse estudo, as pesquisadoras contemplaram todas as etapas descritas pelo DIC, assim especificadas: I) Análise: "levantamento das necessidades, a caracterização do público-alvo, a coleta de referencial bibliográfico, a definição dos objetivos educacionais, a definição dos conteúdos, a análise da infra-estrutura tecnológica e a criação de um diagrama para orientar a construção da ferramenta";35:109 II) Design: "planejamento e a produção do conteúdo didático, a definição dos tópicos e redação dos módulos, a seleção das mídias e o desenho da interface (layout). Optou-se pela utilização de imagens e textos, estruturados em tópicos, e conectados por hipertextos (links)";35:109 III) Desenvolvimento: [...] "seleção das ferramentas do aplicativo multimídia, a definição da estrutura de navegação e o planejamento da configuração de ambientes";35:109 IV) Implementação: [...] "configuração das ferramentas e recursos tecnológicos educacionais, bem como a construção de um ambiente para download da aplicação na internet e sua instalação no dispositivo móvel";35:109 e V) Avaliação: "avaliação de especialistas em relação aos conteúdos, recursos didáticos e interface do ambiente".35:109
O método DIS, também denominado Modelo de Dick e Carey, possui uma abordagem de sistemas objetivando uma instrução efetiva para apoiar o processo de ensino-aprendizagem de forma bem sucedida. Este método contempla as etapas análise, design/desenvolvimento, implementação e avaliação, enfatizando a análise completa e detalhada dos diversos componentes instrucionais que se relacionam, a avaliação integral dos materiais produzidos e o refinamento/atualização do conteúdo/instrução ao longo de todo o processo de desenvolvimento da ferramenta tecnológica.42-43,46,53-54
Apesar das etapas descritas neste método, os autores apontam que não existe um único modelo para a criação e desenvolvimento de uma instrução/conteúdo e incentivam os desenvolvedores/pesquisadores/designers e usuários a criarem seu próprio método/processo de design instrucional visando soluções singulares para problemas e/ou necessidades específicas em suas situações práticas.42-43,54
Este método pode ser utilizado para uma diversidade de sistemas instrucionais, neste estudo, os aplicativos móveis.22-23,26-28,34,38-39 Destaca-se, ainda, que o Modelo Dick e Carey baseia-se em diversas perspectivas existentes no processo de ensino-aprendizagem, assim especificadas: Behaviorismo (definição dos componentes da estratégia instrucional); Teoria Cognitiva (formulação da apresentação do material/conteúdo instrucional e processamento das informações); Construtivismo (análise de contextos para auxiliar os usuários na construção de estruturas conceituais para a aprendizagem).42-43,53-54
O método DCU possui uma abordagem amplificada. Trata-se de um termo geral caracterizado por uma filosofia e etapas que descrevem os processos de um projeto, centrado na criação e envolvimento dos usuários na concepção de sistemas informatizados.47 Ou seja, no DCU os usuários finais podem influenciar diretamente todas as etapas metodológicas, sendo fundamental que o pesquisador/desenvolvedor/designer entenda o contexto de utilização da ferramenta tecnológica e os requisitos fornecidos pelos usuários.47,55-57
Destaca-se que no DCU a participação do usuário pode variar de intensidade.47 Numa extremidade da construção da ferramenta tecnológica, o envolvimento pode ser relativamente baixo, ou seja, os usuários podem ser consultados e observados quanto às suas necessidades e serem convidados a participar de testes de usabilidade do sistema desenvolvido. Na outra extremidade, os usuários podem se envolver de forma intensa, participando ativamente de todas as etapas do projeto, incluindo a própria concepção da ferramenta tecnológica.
Vale ressaltar que a norma International Organization for Standardization (ISO) 13.407: Human-centered design processes for interactive systems (processo de design centrado no ser humano para sistemas interativos) descreve três soluções de design para o DCU: I) Design cooperativo (usuários e desenvolvedores/pesquisadores estão envolvidos em todas as etapas); II) Design participativo (usuários ocasionalmente participam do processo de concepção) e; III) Design contextual (baseia-se no contexto atual).55
Vários mecanismos apóiam o DCU, entre eles: testes de usabilidade, engenharia de usabilidade de sistemas, avaliação heurística e avaliações rápidas/testes piloto. As avaliações rápidas (testes piloto) são consideradas importantes para que os usuários possam dar seu feedback desde o início do projeto, bem como, promover a aproximação dos mesmos com os desenvolvedores/pesquisadores e a ferramenta tecnológica em si.47
Como exemplo de aplicação do método DCU, cita-se o estudo que desenvolveu um aplicativo móvel de monitorização e reação para estimular a atividade física em pessoas portadoras de doença crônica na atenção primária. Neste estudo, os pesquisadores recrutaram pessoas em associações nacionais de pacientes portadores de Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC) e diabetes para participarem da equipe de pesquisa. Estes pacientes retrataram e refletiram as necessidades, demandas e restrições da sua condição enquanto portadores de doenças crônicas, bem como, forneceram aos pesquisadores feedback sobre a compreensão das questões abordadas nas entrevistas e dos conteúdos/documentos destinados aos usuários finais. Ao adotar o método DCU, os pesquisadores conseguiram reunir requisitos do usuário que foram traduzidos em soluções técnicas pela equipe de engenharia do projeto, possibilitando a interação contínua entre todos os envolvidos.29
O método CVDS contempla as seguintes etapas: análise (levantamento das necessidades e identificação das necessidades da instituição/usuário); projeto (especificações detalhadas do projeto); desenvolvimento (inclui desenvolvimento ou aquisição do software); implementação (após passar por testes avaliativos); e manutenção (manter e atualizar o sistema constantemente). O CVDS se subdivide em três categorias: ciclo de vida clássico, ciclo de vida espiral e ciclo de vida da prototipação.51-52
O ciclo de vida clássico, também denominado Modelo em Cascata, segue todas as etapas do CVDS descritas anteriormente. Possui uma estrutura linear, sequencial e ausência de revisão de cada etapa, ou seja, o desenvolvimento do sistema se dá em uma única direção, sendo considerado um modelo/método inflexível. Ao adotar este método, o pesquisador/desenvolvedor entregará todo o sistema/ferramenta tecnológica ao final do projeto.51-52
O ciclo de vida espiral baseia-se no conceito de maior necessidade do usuário. Este método desenvolve e entrega o sistema/ferramenta tecnológica em versões. Ressalta-se que cada versão segue todas as etapas do CVDS, com as seguintes exceções: I) etapa implementação pode ser adotada por algumas ou todas as versões; II) etapa manutenção será aplicada somente à última versão disponibilizada. No CVDS abordagem espiral, os usuários podem acompanhar o sistema em desenvolvimento e julgar se o conteúdo/instrução atende de modo satisfatório suas necessidades, possibilitando a substituição do sistema existente (novas versões).51-52
O ciclo de vida da prototipação aborda a descoberta gradual e evolutiva do sistema em desenvolvimento pelos usuários e desenvolvedores/pesquisadores. Ou seja, a partir de um conjunto de necessidades dos usuários, os desenvolvedores/pesquisadores as implementam rapidamente e as refinam/detalham a partir do aumento do conhecido do sistema pelos usuários e pelos próprios desenvolvedores.51-52
Este modelo possui três categorias: I) protótipo em papel ou protótipo computacional (demonstra a interação homem/máquina e o entendimento claro desta interação existente); II) protótipo de trabalho (implementa algumas funções exigidas pelo usuário que poderão ser melhoradas durante o desenvolvimento do sistema); e III) protótipo funcional (permite ao usuário o armazenamento de dados e execução de operações com tais dados). Destaca-se que os protótipos possibilitam visualizar aspectos incertos do sistema em desenvolvimento, bem como, podem verificar e testar hipóteses sobre tais aspectos. Assim, os protótipos são considerados tipicamente incompletos e não possuem a intenção de funcionar sem falhas toleráveis.51-52
Estudo que desenvolveu um aplicativo para consulta de medicamentos quimioterápicos na auditoria de contas hospitalares.21 As pesquisadoras adotaram o método de CVDS - prototipação, contemplando as seguintes etapas: I) comunicação: "levantamento dos requisitos do software";21:180; II) planejamento: descrição dos "recursos que seriam utilizados e o cronograma a ser seguido";21:180 III) modelagem: "criação do modelo consistente com requisitos levantados";21:180 IV) construção: "geração de códigos e testes para revelar erros";21:180 e V) implantação: "a etapa final onde o produto é analisado e avaliado".21:180
Um estudo de revisão sistemática sintetizou os conhecimentos atuais sobre os fatores que influenciam a adoção de aplicativos de saúde móvel (m-saúde/m-health) por profissionais de saúde. A partir dos 33 estudos selecionados para análise, 179 elementos foram reconhecidos como facilitadores (54,7%) ou barreiras (45,3) para a adoção de tais ferramentas tecnológicas. Entre os principais elementos identificados, caracterizados como individual, organizacional e contextual, destacaram-se: utilidade/finalidade e facilidade de uso; design e preocupações técnicas; segurança, privacidade, custo e tempo; familiaridade com a tecnologia; interação com colegas, pacientes e gestores.16 Ressalta-se, portanto, a relevância da escolha apropriada do método para desenvolvimento de aplicativos móveis em saúde, uma vez que, as questões relacionadas à facilidade de uso, design e componentes técnicos dos sistemas constituem-se em fatores diretamente relacionados ao sucesso e às barreiras para a adoção destas ferramentas tecnológicas.
CONCLUSÃO
Neste estudo de revisão integrativa da literatura optou-se por analisar somente os artigos que continham a descrição do método utilizado, associado ao detalhamento de suas respectivas etapas, para o desenvolvimento de aplicativos móveis em saúde. Entretanto, vale destacar que as autoras ao adotarem o "Método de Leitura Científica", na fase visão sincrética, para a análise dos 1.984 artigos, foi possível evidenciar que, de forma geral, os pesquisadores/desenvolvedores/designers utilizaram os principais métodos para desenvolvimento de aplicativos descritos na literatura, quais sejam: design instrucional, design instrucional sistematizado, design instrucional contextualizado, design centrado no usuário e ciclo de vida de desenvolvimento de sistemas.
Esta revisão integrativa permitiu identificar as etapas descritas em cada método, destacando as características de cada uma delas e ainda compreender que, independente do método escolhido, as etapas devem ser bem definidas e estruturadas de forma adequada, para que o aplicativo móvel desenvolvido seja útil ao usuário final.
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