Open-access AVALIAÇÃO DA ASSISTÊNCIA EM SAÚDE MENTAL DURANTE A GESTAÇÃO E PUÉPERIO NA ATENÇÃO PRIMÁRIA

RESUMO

Objetivo:   Avaliar as ações de assistência em saúde mental prestadas por profissionais da Atenção Primária à Saúde a mulheres no período gravídico-puerperal em um município do Centro-Sul do Paraná.

Método:  Estudo qualitativo, de caráter avaliativo, realizado com 15 puérperas. A coleta de dados incluiu entrevistas semiestruturadas, aplicação da Escala de Depressão Pós-Parto de Edimburgo e análise documental de prontuários. Os dados foram submetidos à análise descritiva e à análise de conteúdo temática.

Resultados:  Identificou-se elevada frequência de sofrimento psíquico no período gravídico-puerperal, contrastando com a ausência de registros sobre saúde mental nos prontuários e com a escassez de orientações e de acolhimento emocional durante o pré-natal e o puerpério. A assistência mostrou-se centrada no modelo biomédico, com baixa participação da enfermagem e pouca utilização de estratégias de escuta qualificada e de apoio psicossocial.

Conclusão:   Os achados revelam fragilidades estruturais na atenção à saúde mental materna na Atenção Primária à Saúde (APS), elucidando lacunas na assistência e descontinuidade do cuidado. Destaca-se a necessidade de qualificar a atuação profissional, incorporar práticas de rastreamento e fortalecer modelos de cuidado integral que respondam às necessidades emocionais das mulheres no período gravídico-puerperal.

DESCRITORES:
Atenção primária à saúde; Assistência à saúde mental; Período pós-Parto; Depressão pós-parto; Saúde das mulheres

ABSTRACT

Objective:   To assess the mental healthcare actions provided by Primary Health Care professionals to women during the pregnancy-postpartum period in a municipality in the Central-South region of Paraná, Brazil.

Method:   This qualitative evaluative study was conducted with 15 postpartum women. Data collection included semi-structured interviews, administration of the Edinburgh Postnatal Depression Scale, and documentary analysis of medical records. Data were subjected to descriptive analysis and thematic content analysis.

Results:   A high frequency of psychological distress during the pregnancy-postpartum period was identified, contrasting with the absence of mental health records in medical charts and the scarcity of guidance and emotional support during prenatal and postpartum care. Care was shown to be centered on the biomedical model, with low nursing participation and limited use of qualified listening and psychosocial support strategies.

Conclusion:   The findings reveal structural weaknesses in maternal mental healthcare within PHC, highlighting gaps in care and discontinuity of assistance. The need to improve professional practice, incorporate screening practices, and strengthen comprehensive care models capable of addressing women’s emotional needs during the pregnancy-postpartum period is emphasized.

DESCRIPTORS:
Primary Health Care; Mental Health Assistance; Postpartum Period; Depression, Postpartum; Women’s Health

RESUMEN

Objetivo:   Evaluar las acciones de atención a la salud mental proporcionadas por profesionales de atención primaria a mujeres durante el embarazo y el período posparto en un municipio de la región Centro-Sur de Paraná.

Método:  Este estudio cualitativo y evaluativo se realizó con 15 mujeres en el posparto. La recopilación de datos incluyó entrevistas semiestructuradas, la aplicación de la Escala de Depresión Posnatal de Edimburgo y el análisis documental de los expedientes médicos. Los datos fueron sometidos a análisis descriptivo y análisis temático de contenido.

Resultados:  Se identificó una alta frecuencia de malestar psicológico durante el embarazo y el posparto, en contraste con la ausencia de registros de salud mental en las historias clínicas y la escasez de orientación y apoyo emocional durante la atención prenatal y posparto. Se observó que la atención se centraba en el modelo biomédico, con escasa participación del personal de enfermería y un uso limitado de estrategias de escucha activa y apoyo psicosocial.

Conclusión:   Los hallazgos revelan deficiencias estructurales en la atención de la salud mental materna dentro de la Atención Primaria de Salud, evidenciando carencias en la asistencia y discontinuidad en la atención. Se subraya la necesidad de mejorar la práctica profesional, incorporar métodos de detección y fortalecer modelos de atención integral que aborden las necesidades emocionales de las mujeres durante el embarazo y el posparto.

DESCRIPTORES:
Atención Primaria de Salud; Atención a la Salud Mental; Periodo Posparto; Depresión Posparto; Salud de la Mujer

INTRODUÇÃO

O período gravídico-puerperal é marcado por diversas alterações na vida da mulher, especialmente de ordem psicológica e emocional, e exige uma assistência em saúde mental adequada e prestada em tempo oportuno, a fim de contribuir para a redução da morbimortalidade materna1,2. A literatura aponta que, na assistência ao período gravídico-puerperal, há maior ênfase nos problemas físicos do que no bem-estar psicológico e emocional, ainda permeado pelo estigma e pela invisibilidade da mulher nesse período3,4. Contudo, a dimensão emocional e psíquica da gestante e da puérpera merece atenção especial, principalmente diante da possível discrepância entre o idealizado e a realidade vivenciada3.

Nesse contexto, destaca-se que a depressão perinatal constitui uma das complicações mais comuns durante a gestação e o puerpério, afetando cerca de uma em cada sete mulheres1. A literatura mostra prevalência de 24,7% de depressão pós-parto em países de baixa renda5, podendo chegar a 56% entre mulheres latinas6. Apesar da elevada prevalência, a literatura evidencia fragilidades na rede de atenção à saúde durante o período gravídico-puerperal2,7, especialmente no âmbito da Atenção Primária à Saúde APS, onde se observa desconhecimento dos profissionais quanto ao diagnóstico adequado e oportuno da DPP7,8.

Apesar da alta prevalência e das repercussões negativas da depressão perinatal, a literatura evidencia fragilidades na rede de atenção à saúde durante o período gravídico-puerperal2,7, o que revela a desassistência às mulheres nesse período e o desconhecimento, por parte dos profissionais de saúde da Atenção Primária à Saúde APS, quanto ao diagnóstico adequado e oportuno da DPP7,8.

Nos últimos anos, estudos têm avançado na identificação de barreiras estruturais e organizacionais da APS, bem como na análise da atuação profissional frente à saúde mental materna, porém ainda apresentam fragilidade em estudos avaliativos4. Tais pesquisas concentram-se majoritariamente em capitais ou grandes centros urbanos, focalizam apenas a percepção dos profissionais ou utilizam fontes secundárias agregadas, sem acesso direto aos registros clínicos8,9. Assim, permanece pouco explorada a experiência concreta das mulheres atendidas, bem como a qualidade efetiva dos registros de saúde mental durante o pré-natal e puerpério. Além disso, as produções recentes ainda não contemplam as especificidades dos municípios de pequeno porte, cujas limitações estruturais, menor capacidade de gestão e dificuldades de acesso a serviços especializados configuram um cenário distinto e pouco investigado10,11.

Dessa forma, o presente estudo avança no conhecimento ao integrar duas dimensões ainda pouco articuladas na literatura nacional: a perspectiva das próprias mulheres, que permite compreender suas necessidades, percepções e expectativas sobre a assistência recebida; e a análise dos registros clínicos dos atendimentos, oferecendo evidências concretas da operacionalização da saúde mental na APS.

Considerando o exposto, este estudo contribui para o avanço da área ao aprofundar a compreensão das necessidades e percepções das mulheres, bem como dos registros realizados no período gravídico-puerperal, em um município de pequeno porte, permitindo subsidiar políticas públicas e estratégias para o fortalecimento da atenção à saúde mental nesses contextos específicos.

Esta pesquisa teve por objetivo avaliar as ações de assistência em saúde mental prestadas por profissionais da Atenção Primária à Saúde a mulheres no período gravídico-puerperal em um município do Centro-Sul do Paraná. Partiu-se da hipótese de que essa assistência é realizada de forma superficial, sem abordagens sistemáticas sobre saúde mental nos atendimentos e com pouco conhecimento dos profissionais quanto ao uso de instrumentos para a identificação da depressão pós-parto.

MÉTODO

Trata-se de um estudo avaliativo, com abordagem qualitativa, fundamentado em Patton12 e conduzido conforme as recomendações do Consolidated Criteria for Reporting Qualitative Research COREQ. O cenário de pesquisa foi um município de pequeno porte da região Centro-Sul do Paraná, com 29.924 habitantes e média anual de 455 nascidos vivos13,14. A Rede de Atenção à Saúde local é composta por 12 Unidades Básicas de Saúde (UBS); entretanto, o município não dispõe de serviço especializado em saúde mental, realizando encaminhamentos para referência regional. Três UBS com maior número de gestantes cadastradas foram selecionadas para a coleta de dados.

A população foi composta por puérperas com idade ≥18 anos, que realizaram ao menos uma consulta puerperal na UBS de referência e se encontravam entre 42 dias e seis meses pós-parto. Foram excluídas mulheres cujos filhos não nasceram vivos. A identificação das elegíveis ocorreu com apoio das enfermeiras das UBS. Das 37 mulheres inicialmente contatadas, 15 compuseram a amostra final. As perdas ocorreram por recusa n=2 e impossibilidade de contato n=20. O tamanho da amostra foi definido pelo critério de saturação teórico-empírica, verificado de forma independente por duas pesquisadoras12.

As entrevistas foram agendadas conforme a ordem de retorno das tentativas de contato telefônico com as participantes. Ao estabelecer contato, as mulheres puderam escolher o horário e o local mais convenientes.

A coleta de dados ocorreu entre janeiro e março de 2024, por meio de quatro momentos distintos. Inicialmente, foi aplicado um questionário contendo informações sociodemográficas (idade, estado civil, escolaridade, número de filhos, presença de conflitos familiares) e dados de perfil clínico e obstétrico (número de gestações, doenças e agravos, gravidez planejada e intercorrências durante a gestação, o parto e/ou o puerpério).

Em seguida, realizaram-se entrevistas semiestruturadas, guiadas por um roteiro construído com base na Teoria do Programa de Assistência Pós-Parto4. As perguntas versavam sobre a história de problemas de saúde mental, o estado emocional das participantes, o suporte familiar e social recebido no pré-natal e no puerpério, bem como sobre as orientações ofertadas acerca das alterações emocionais comuns no pós-parto. A questão disparadora utilizada foi: “Fale-me como foi seu atendimento pela equipe da unidade básica de saúde (posto de saúde) desde o pré-natal até o momento”.

As entrevistas foram realizadas por uma acadêmica de enfermagem previamente treinada, em ambientes reservados, sendo sete nas UBS e oito nos domicílios, com duração média de 10 minutos. Todas foram audiogravadas e transcritas integralmente.

Na etapa seguinte, foi entregue às participantes a Escala de Depressão Pós-Parto de Edimburgo (Edinburgh Postnatal Depression Scale - EPDS), para autoaplicação. A versão da EPDS utilizada no estudo foi validada para população brasileira por Santos et al.15, sendo composta por 10 itens, investiga sentimentos relacionados ao puerpério, como humor, culpa, ansiedade, medo, tristeza e pensamentos de autoviolência. Adotou-se o ponto de corte igual ou superior a 12, indicando a probabilidade de depressão pós-parto, sem, contudo, definir sua gravidade16.

Por fim, foi realizada a coleta de dados nos prontuários das participantes, norteada por um formulário contendo: data da consulta, profissional responsável pelo atendimento, tipo de consulta (pré-natal ou pós-parto) e espaço para a transcrição fidedigna dos registros realizados pelos profissionais. Essa etapa permitiu identificar os registros relacionados à assistência em saúde mental prestada durante o período gravídico-puerperal.

Os dados quantitativos foram descritos por números absolutos. As entrevistas e os prontuários foram analisados por meio da análise de conteúdo categorial17, envolvendo pré-análise, exploração e interpretação. Utilizou-se codificação in vivo18 e categorização guiada pela Teoria do Programa de Assistência Pós-Parto4, que orienta o cuidado integral na APS, considerando acesso, longitudinalidade, coordenação e integralidade.

O projeto foi submetido à apreciação do Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Estadual do Centro-Oeste. Para garantir o anonimato das participantes, foram utilizados códigos iniciados com a letra “P” (de puérpera), seguidos do número correspondente à ordem das entrevistas.

RESULTADOS

Participaram do estudo 15 puérperas. Dentre elas, 10 tinham 25 anos ou mais, 11 possuíam companheiro, 11 apresentavam escolaridade de, no mínimo, ensino médio incompleto, 11 tinham dois ou mais filhos e 13 relataram não vivenciar conflitos familiares.

Em relação ao perfil clínico e obstétrico, nove tiveram gravidez planejada, duas apresentaram intercorrências (incluindo parto prematuro) e seis relataram diagnóstico prévio de ansiedade; duas referiram depressão. Na EPDS, cinco participantes obtiveram pontuação ≥12, sendo encaminhadas para acompanhamento na unidade de referência, enquanto as demais apresentaram pontuação inferior ao ponto de corte.

A partir da análise dos dados qualitativos, utilizando-se a codificação por meio de códigos in vivo, foi possível identificar três categorias analíticas, que foram: 1. Vivências de sofrimento psíquico no período gravídico-puerperal: tristeza, ansiedade e depressão silenciadas; 2. Fragilidades na assistência em saúde mental no período gravídico-puerperal; 3. Satisfação adaptada ao modelo biomédico: percepção positiva apesar de lacunas assistenciais às necessidades emocionais e subjetivas.

A síntese do processo de análise está representada na árvore de codificação, apresentada na Figura 1.

Figura 1 -
Árvore de codificação a partir de códigos in vivo. Imbituva, PR, Brasil, 2024.

Vivências de sofrimento psíquico no período gravídico-puerperal: tristeza, ansiedade e depressão silenciadas

Os relatos das participantes revelaram a presença recorrente de sofrimento psíquico durante a gestação e o puerpério, expresso por códigos in vivo como “triste”, “só chorava” e “foi bem complicado”. Esses sentimentos foram associados tanto às transformações físicas e emocionais quanto às demandas sociais e familiares, que se intensificam ao longo desse período.

Muitas mulheres relataram vivências marcadas por tristeza e sobrecarga emocional, permeadas pela sensação de invisibilidade de suas próprias necessidades diante do papel materno.

Eu me sinto triste sim, às vezes, porque agora eu que só penso neles, né? Não tenho mais aquela coisa de pensar em mim, [...] Só penso neles agora, em criar meus filhos (P3).

A gestação não planejada apareceu como fator agravante do sofrimento, especialmente no início da gravidez, quando sentimentos de rejeição, ambivalência e medo se tornaram mais evidentes.

Foi muito difícil mesmo, eu não queria ter engravidado dele. [...] No começo eu só chorava (P4).

As últimas semanas de gestação também foram descritas como um período de grande exaustão física e emocional, revelando a intensidade do desconforto e a vulnerabilidade vivenciada pelas mulheres.

Eu chorava de nervo [...]. Nos últimos dias foi bem complicado (P12).

Além desses sentimentos, emergiram referências explícitas à ansiedade e à depressão, incluindo episódios anteriores ou em curso.

Eu já tive depressão [...] (P2).

[...] um pouco é por causa da ansiedade que eu sempre tive (P7).

Apesar da variedade de sintomas, o manejo clínico relatado pelas participantes restringiu-se ao uso de medicação, sem menção a intervenções psicoterapêuticas ou a recursos não farmacológicos.

Mesmo tomando sertralina já fazia uns três anos [...] eu não posso ficar sem esse remédio. Eu fico muito estressada (P4).

Esse conjunto de relatos indica que o sofrimento psíquico estava presente e reconhecido pelas mulheres, porém não articulado a uma rede de cuidado que oferecesse acolhimento ou diversidade de abordagens terapêuticas.

Fragilidades na assistência em saúde mental no período gravídico-puerperal

A análise das entrevistas evidenciou que, apesar da presença de sintomas emocionais significativos, a assistência em saúde mental oferecida pelos serviços da APS foi incipiente, fragmentada e predominantemente centrada na prescrição medicamentosa. As mulheres relataram não ter sido questionadas sobre seus sentimentos durante o pré-natal ou o pós-parto.

Não me perguntaram nada [...]. Eu já tive depressão, mas eles nem lembraram, eu acho (P1).

Não, não perguntaram nada disso [...] nem depois que eu ganhei ela (P3).

Mesmo mulheres com histórico de depressão ou ansiedade relataram ausência de acompanhamento sistemático.

A única coisa que a médica falou foi pra eu tomar sertralina. Eu já tomava antes (P12).

Das 15 participantes, 13 afirmaram não ter recebido nenhuma orientação sobre saúde mental. Para muitas, o tema sequer foi abordado pelos profissionais.

O pior é que a gente sabe né, que pode ficar [...] mas ali não (P14).

A análise dos prontuários confirmou essa lacuna. Observou-se ausência quase total de registros relacionados à saúde mental, tanto no pré-natal quanto no puerpério. Mesmo com prontuário eletrônico disponível, diversos campos estavam vazios ou preenchidos exclusivamente com informações de cunho biológico. Não havia referências ao rastreamento de sintomas emocionais, ao acolhimento psicossocial ou a encaminhamentos.

Os prontuários físicos apresentaram fragilidades semelhantes, como campos em branco, anotações incompletas e ausência de descrição das condutas adotadas. Apenas três prontuários continham prescrição de sertralina, sem qualquer detalhamento adicional.

Ainda chamou atenção a baixa participação da enfermagem no acompanhamento: apenas 26% das consultas estavam registradas, revelando uma subutilização da consulta de enfermagem como ferramenta de cuidado integral.

Esse conjunto de achados demonstra uma desconexão entre o sofrimento vivenciado pelas mulheres e a prática assistencial, evidenciando que a saúde mental não tem sido incorporada de forma sistemática às ações da APS no período gravídico-puerperal.

Satisfação adaptada ao modelo biomédico: percepção positiva apesar de lacunas assistenciais às necessidades emocionais e subjetivas

Apesar das fragilidades identificadas, a maioria das participantes avaliou o atendimento recebido como satisfatório, usando termos como “bom” e “ótimo”.

Eu acho que é tudo bem bom (P9).

O atendimento por enquanto tá sendo bom […] avisam, agendam, mandam mensagem (P5).

Não tenho do que reclamar […] foi ótimo (P1).

O padrão das respostas sugere que a percepção de satisfação está fortemente associada à resolutividade biomédica do serviço - acesso a exames, agendamentos, vacinação e prescrição medicamentosa. Entretanto, aspectos subjetivos, emocionais e relacionais não foram reconhecidos como parte do escopo do cuidado, o que revela uma compreensão limitada sobre os direitos e as possibilidades de assistência à saúde mental.

Essa dissociação entre o sofrimento vivenciado e a ausência de crítica ao cuidado recebido indica uma forma de “satisfação adaptada”, em que as mulheres avaliam positivamente aquilo que conhecem como oferta possível, e não necessariamente o que seria adequado do ponto de vista da integralidade.

Esse contraste ficou evidente na fala de uma única participante que reconheceu a insuficiência do suporte emocional:

É bom em partes [...] foi bem complicado, eu quase recaí (P12).

Esse depoimento expressa uma consciência ampliada sobre direitos e necessidades, ressaltando que a ausência de cuidado em saúde mental não é percebida por todas, mas tende a ser naturalizada pela maioria, especialmente em municípios com oferta limitada de serviços especializados.

Assim, os resultados revelam não apenas lacunas assistenciais, mas também a necessidade de promover o letramento em saúde mental entre as usuárias, ampliando sua capacidade de identificar demandas e reivindicar cuidados adequados no âmbito da APS.

DISCUSSÃO

As características sociodemográficas das participantes reforçam evidências de que fatores como escolaridade, renda e condições de vida influenciam diretamente o acesso, a compreensão e o uso de informações em saúde, sobretudo no campo da saúde mental perinatal4. Em municípios de pequeno porte, como o cenário deste estudo, essas variáveis se somam a limitações estruturais e organizacionais da Atenção Primária à Saúde APS, gerando barreiras adicionais à integralidade do cuidado.

A maior parte das mulheres referiu possuir um parceiro, o que pode configurar um fator protetivo devido ao suporte emocional proporcionado19,20. Entretanto, esse apoio nem sempre é efetivo, sendo fundamental que os profissionais compreendam as dinâmicas familiares e adotem estratégias de acolhimento que incluam a rede de apoio da mulher21. Assim, torna-se essencial o envolvimento das famílias e/ou companheiros (as) durante todo o período gravídico-puerperal4.

A presença de sintomas ansiosos e depressivos entre as participantes confirma a relevância dos transtornos mentais perinatais5. Contudo, os registros analisados evidenciaram intervenções essencialmente medicamentosas, sem referências a abordagens psicoterapêuticas, integrativas ou de apoio psicossocial. Essa ausência reflete fragilidades persistentes na APS, que ainda opera majoritariamente sob um modelo biomédico e incorpora pouco as práticas preconizadas pelas políticas de saúde mental materna.

As mulheres com escores sugestivos na EPDS foram encaminhadas, porém a continuidade do cuidado se mostrou frágil. Considerando que fatores como histórico psiquiátrico, sintomas depressivos iniciais e comorbidades representam risco aumentado para DPP22, o acompanhamento sistemático deve ser estruturado de forma robusta, especialmente diante do aumento do suicídio como causa evitável de mortalidade materna23.

O puerpério é marcado por vulnerabilidades emocionais, inseguranças e pressões sociais referentes ao papel materno19. Essa vivência se agrava diante das expectativas de gênero que responsabilizam exclusivamente a mulher pelo cuidado dos filhos e do lar24. Incorporar uma perspectiva de gênero nas ações de saúde é fundamental para reconhecer desigualdades e orientar estratégias de cuidado mais equitativas.

Embora a EPDS seja amplamente recomendada para o rastreamento, o uso desse instrumento deve ser articulado a intervenções efetivas para identificação oportuna de risco de DPP4. Abordagens integrativas como práticas de yoga, acupuntura, aromaterapia e psicoterapia têm se mostrado eficazes na redução de sintomas e na promoção do bem-estar25, mas não foram identificadas nas ações da APS deste estudo. A ausência dessas práticas evidencia uma lacuna assistencial relevante.

Os resultados deste estudo mostram que as mulheres apresentam importantes necessidades de cuidado em saúde mental. Dessa forma, a assistência prestada deve incluir a investigação do estado emocional, a oferta de orientações qualificadas e a implementação de intervenções e encaminhamentos apropriados, conforme as demandas identificadas4.

A análise dos prontuários revelou registros incompletos e ausência de informações essenciais sobre acolhimento psicossocial, encaminhamentos e intervenções. Além de comprometer a continuidade do cuidado, essa lacuna representa uma falha ética e legal na prática profissional26. Diante desse cenário, a consulta de enfermagem é uma ferramenta essencial para o cuidado integral, permitindo acolhimento, escuta qualificada e abordagem psicossocial, além do registro de informações essenciais para a continuidade do cuidado e a utilização de instrumentos padronizados para rastreamento e avaliação das necessidades de saúde dos pacientes27.

Portanto, é essencial que os profissionais atuantes na APS, especialmente os enfermeiros, desenvolvam sua prática de forma qualificada, de acordo com os atributos da APS e com a garantia de direito às mulheres, com foco na ampliação da escuta ativa, no uso de instrumentos de rastreamento para depressão e ansiedade4, no registro adequado das informações e nos encaminhamentos oportunos. A ausência dessas práticas representa uma falha sistêmica que pode comprometer tanto o cuidado à mulher quanto a efetividade das políticas de saúde mental materna.

A predominância de um modelo biomédico, centrado na identificação de patologias e na prescrição medicamentosa, limita a capacidade da APS de oferecer cuidado integral e centrado na pessoa28. Essa fragilidade é agravada por barreiras estruturais, pela ausência de capacitação específica e pelo estigma em torno da saúde mental9. Além disso, muitas mulheres evitam relatar sofrimento psíquico por medo de julgamento, reforçando a necessidade de práticas de acolhimento sensíveis e livres de estigma21.

Uma assistência adequada tem como resultados esperados melhorar a satisfação das mulheres e, para tanto, elas precisam estar cientes de seus direitos com garantia desses por parte dos profissionais da APS4.

Este estudo apresenta contribuição inédita ao integrar duas fontes complementares de informação - a percepção das mulheres e a análise dos registros clínicos - permitindo identificar discrepâncias entre o que é vivido pelas usuárias e o que é efetivamente registrado e realizado pelos serviços. Essa abordagem, ainda pouco explorada no contexto brasileiro, possibilita uma compreensão mais ampla e fiel da qualidade da assistência prestada.

Outro aspecto inovador foi o foco em um município de pequeno porte, cenário frequentemente negligenciado na literatura sobre saúde mental perinatal. Ao evidenciar como limitações estruturais e a menor oferta de serviços especializados impactam o cuidado, o estudo contribui para a compreensão das desigualdades territoriais e para a formulação de políticas sensíveis ao contexto local.

Os achados reforçam a necessidade de fortalecer a formação dos profissionais da APS para a identificação oportuna de agravos, uso qualificado da EPDS, o desenvolvimento de intervenções psicossociais e o registro adequado das informações. Além disso, é essencial aprimorar os fluxos de cuidado e a articulação com serviços especializados, garantindo acompanhamento longitudinal e intervenções coerentes com as necessidades das mulheres.

A avaliação sob a perspectiva das usuárias se mostra central para qualificar os processos de trabalho, fortalecer vínculos e orientar políticas de saúde mental materna mais resolutivas e equitativas29. Sem a integração entre rastreamento, escuta qualificada e ações terapêuticas estruturadas, a APS não consegue responder de forma satisfatória às demandas emocionais do período gravídico-puerperal.

Acredita-se que alguns fatores devem ser considerados na interpretação dos achados: a realização das entrevistas em ambientes vinculados à unidade de saúde pode ter inibido críticas mais profundas ao serviço, produzindo respostas potencialmente influenciadas pelo efeito de desejabilidade social; o tempo reduzido das entrevistas pode ter limitado a exploração de dimensões subjetivas mais complexas do período gravídico-puerperal; a dependência de registros em prontuários físicos e eletrônicos, frequentemente incompletos, restringiu a análise da integralidade da assistência prestada. Além disso, o fato de a coleta ter contado com o apoio das enfermeiras das UBS na identificação das participantes pode ter introduzido algum viés de seleção. Apesar dessas possíveis limitações, o rigor metodológico adotado e a triangulação entre entrevistas, escala EPDS e os prontuários conferem robustez aos resultados e contribuem para a compreensão crítica da assistência em saúde mental no ciclo gravídico-puerperal na APS.

CONCLUSÃO

Este estudo revelou fragilidades estruturais e processuais na assistência em saúde mental a mulheres no período gravídico-puerperal na APS, expressas pela ausência de registros sistemáticos, predomínio de intervenções biomédicas e baixa incorporação de práticas psicossociais. Mesmo diante da presença de sintomas sugestivos de sofrimento psíquico, o cuidado ofertado não contemplou integralmente as necessidades subjetivas das mulheres, refletindo um modelo de atenção ainda centrado na dimensão biológica.

A originalidade deste estudo reside na análise integrada das percepções das usuárias com os registros dos prontuários, permitindo identificar divergências entre o cuidado esperado, o cuidado vivenciado e o cuidado documentado - aspecto ainda pouco explorado na literatura, especialmente em municípios de pequeno porte.

Os achados reforçam a necessidade de fortalecer a formação e a educação permanente dos profissionais da APS, aprimorar o uso de instrumentos validados de rastreamento e ampliar intervenções psicossociais alinhadas ao modelo biopsicossocial. Esses resultados oferecem subsídios para a reorganização das práticas e políticas de saúde mental materna no SUS, em direção a um cuidado mais integral, sensível e orientado pelos direitos das mulheres.

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NOTAS

  • ORIGEM DO ARTIGO
    Extraído Trabalho de Conclusão de Curso - Avaliação da Assistência em Saúde Mental Durante a Gestação e Puerpério na Atenção Primária, apresentada ao Departamento de Enfermagem, da Universidade Estadual do Centro-oeste, em 2024.
  • APROVAÇÃO DE COMITÊ DE ÉTICA EM PESQUISA
    Aprovado no Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Estadual do Centro-oeste, conforme parecer Número: 6.541.332 registrado no CAAE nº 76020323.7.0000.0106.
  • DISPONIBILIDADE DE DADOS
    Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo está disponível mediante solicitação às autoras Milena Oliveira de Almeida e/ou Tatiane Baratieri, as quais detém os dados. O conjunto de dados não está publicamente disponível devido a possível comprometimento da privacidade das participantes da pesquisa.

Editado por

  • EDITORES
    Editores Associados: Roberta Costa.
    Editor-chefe: Gisele Cristina Manfrini.

Disponibilidade de dados

Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo está disponível mediante solicitação às autoras Milena Oliveira de Almeida e/ou Tatiane Baratieri, as quais detém os dados. O conjunto de dados não está publicamente disponível devido a possível comprometimento da privacidade das participantes da pesquisa.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    17 Ago 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    12 Ago 2025
  • Aceito
    11 Mar 2026
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