Open-access VULNERABILIDADE CLÍNICO-FUNCIONAL EM PESSOAS IDOSAS: ESTUDO DE MÉTODOS MISTOS NA ATENÇÃO PRIMÁRIA À SAÚDE

RESUMO

Objetivo:   analisar a autopercepção e os aspectos associados à vulnerabilidade clínico-funcional em pessoas idosas vinculadas à Atenção Primária à Saúde.

Método:  pesquisa de métodos mistos, com abordagem sequencial explanatória (QUAN→qual), realizada com idosos usuários da Atenção Primária à Saúde de um município rural, no estado do Rio Grande do Sul, Brasil. A coleta dos dados ocorreu entre janeiro e agosto de 2023, com uso de instrumento com questões de caracterização sociodemográfica e das condições de saúde, Índice de Vulnerabilidade Clínico-Funcional (IVCF-20) e entrevistas semiestruturadas. A etapa quantitativa foi composta por uma amostra de 356 pessoas idosas, enquanto na qualitativa alcançou-se a saturação de dados com 22 entrevistas. Os dados quantitativos foram analisados por análise descritiva e probabilística, com testes qui-quadrado de Pearson e de Kruskal-Wallis. Os qualitativos seguiram a análise temática. Realizou-se a mixagem dos dados por integração por conexão, apresentando-a em forma de joint display. Respeitaram-se todos os preceitos éticos.

Resultados:  A idade média da amostra foi de 71,3 anos, e a maioria eram mulheres e com reduzida escolaridade. A vulnerabilidade clínico-funcional de 54,2% dos participantes foi de baixo risco, e 45,8% deles apresentaram risco moderado a alto. A autopercepção das pessoas idosas revelou vivências de fragilidade, limitações físicas e emocionais, insegurança e dependência crescente. Assim, evidencia-se o caráter interdependente e multidimensional da vulnerabilidade clínico-funcional.

Conclusão:  A vulnerabilidade clínico-funcional em pessoas idosas reflete um ciclo complexo e vicioso de limitações que comprometem a capacidade funcional, exigindo intervenções multidisciplinares que promovam suporte clínico, reabilitação funcional e inclusão social.

DESCRITORES:
Idoso; Idoso fragilizado; Estado funcional; Atenção Primária à Saúde; Avaliação geriátrica; Enfermagem

ABSTRACT

Objective:   To analyze self-perception and the aspects associated with clinical-functional vulnerability in older adults linked to Primary Health Care.

Method:  A mixed-methods study with an explanatory sequential design (QUAN→qual), conducted with older adults using Primary Health Care services in a rural municipality in the state of Rio Grande do Sul, Brazil. Data were collected between January and August 2023, using an instrument with questions on sociodemographic characteristics and health conditions, the Clinical-Functional Vulnerability Index (IVCF-20), and semi-structured interviews. The quantitative stage included a sample of 356 older adults, while the qualitative stage reached data saturation with 22 interviews. Quantitative data were analyzed using descriptive and inferential statistics, including Pearson's chi-square and Kruskal-Wallis tests. Qualitative data were analyzed using thematic analysis. Data mixing was performed through connecting integration and is presented as a joint display. All ethical principles were respected.

Results:  The mean age of the sample was 71.3 years, and most participants were women with low educational attainment. Clinical-functional vulnerability was low risk in 54.2% of participants, while 45.8% presented moderate to high risk. Older adults' self-perception revealed experiences of frailty, physical and emotional limitations, insecurity, and increasing dependence. These findings indicate the interdependent and multidimensional nature of clinical-functional vulnerability.

Conclusion:  Clinical-functional vulnerability in older adults reflects a complex and vicious cycle of limitations that compromise functional capacity, requiring multidisciplinary interventions that promote clinical support, functional rehabilitation, and social inclusion.

DESCRIPTORS:
Older adult; Frail elderly; Functional status; Primary Health Care; Geriatric assessment; Nursing

RESUMEN

Objetivo:  analizar la autopercepción y los aspectos asociados a la vulnerabilidad clínico-funcional en personas mayores vinculadas a la Atención Primaria de Salud.

Método:  investigación de métodos mixtos, con abordaje secuencial explicativo (QUAN→qual), realizada con personas mayores usuarias de la Atención Primaria de Salud de un municipio rural, en el estado de Rio Grande do Sul, Brasil. La recolección de datos se realizó entre enero y agosto de 2023, mediante un instrumento con preguntas de caracterización sociodemográfica y de las condiciones de salud, el Índice de Vulnerabilidad Clínico-Funcional (IVCF-20) y entrevistas semiestructuradas. La etapa cuantitativa estuvo compuesta por una muestra de 356 personas mayores, mientras que en la cualitativa se alcanzó la saturación de datos con 22 entrevistas. Los datos cuantitativos fueron analizados mediante análisis descriptivo y probabilístico, con las pruebas de chi-cuadrado de Pearson y de Kruskal-Wallis. Los datos cualitativos siguieron el análisis temático. Se realizó la mixtura de los datos por integración por conexión, presentándola en forma de joint display. Se respetaron todos los preceptos éticos.

Resultados:  La edad media de la muestra fue de 71,3 años, y la mayoría eran mujeres y con baja escolaridad. La vulnerabilidad clínico-funcional del 54,2% de los participantes fue de bajo riesgo, y el 45,8% de ellos presentó riesgo moderado a alto. La autopercepción de las personas mayores reveló vivencias de fragilidad, limitaciones físicas y emocionales, inseguridad y dependencia creciente. Así, se evidencia el carácter interdependiente y multidimensional de la vulnerabilidad clínico-funcional.

Conclusión:  La vulnerabilidad clínico-funcional en las personas mayores refleja un ciclo complejo y vicioso de limitaciones que comprometen la capacidad funcional, exigiendo intervenciones multidisciplinarias que promuevan el apoyo clínico, la rehabilitación funcional y la inclusión social.

DESCRIPTORES:
Anciano; Anciano frágil; Estado funcional; Atención Primaria de Salud; Evaluación geriátrica; Enfermería

INTRODUÇÃO

O envelhecimento populacional é um fenômeno mundial, mas, na América Latina e no Caribe, essa transição ocorre de forma ainda mais acelerada. Tal cenário impõe desafios significativos, sobretudo no acesso a recursos básicos essenciais, particularmente sociais e de saúde, na perspectiva de proporcionar uma vida digna na terceira idade e a participação ativa na sociedade1, evidenciando a necessidade de políticas públicas eficazes destinadas a essa crescente parcela da população.

O aumento da expectativa de vida e o avançar da idade populacional têm transformado o perfil de adoecimento, em que as doenças crônicas não transmissíveis estão cada vez mais prevalentes. Essas enfermidades, associadas ao processo natural de envelhecimento, tendem a reduzir a capacidade clínico-funcional, tornando a população idosa mais vulnerável a complicações de saúde, dependência e incapacidades2,3.

A vulnerabilidade clínico-funcional envolve alterações orgânicas que podem impactar diferentes aspectos da funcionalidade, resultando em déficits locomotores, distúrbios de humor, comprometimento cognitivo e dificuldades de comunicação. Esses fatores comprometem a autonomia e a independência na realização de atividades básicas e instrumentais da vida diária4. Quando a pessoa idosa se encontra em estado de vulnerabilidade clínico-funcional, há aumento do risco de desfechos adversos, incluindo o desenvolvimento de condições crônicas e agudas, maior necessidade de hospitalização, institucionalização e óbito5.

Nessa conjuntura, a avaliação do estado clínico e funcional da pessoa idosa torna-se pertinente, com vistas a pensar intervenções e possibilitar a prestação de cuidados adequados às necessidades do indivíduo6. Além de identificar as pessoas idosas com maior risco de vulnerabilidade clínico-funcional, é essencial compreender como elas percebem os impactos disso no cotidiano, considerando suas necessidades e limitações, para construção conjunta de um plano terapêutico singular e com as melhores práticas assistenciais. Dessa forma, essa temática aproxima-se das prerrogativas da equidade e da integralidade do cuidado na Atenção Primária à Saúde (APS)7, da Política Nacional de Saúde da Pessoa Idosa8, da Década do Envelhecimento Saudável1 e dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável9, especificamente daqueles que tratam da promoção da saúde e do bem-estar para todas as pessoas e a redução das desigualdades.

Nesse sentido, é válido destacar que as pesquisas desenvolvidas sobre a temática, em sua maioria, são transversais3,5,6,10,11, evidenciando a importância da realização de estudos que contemplem também aspectos subjetivos, como o de métodos mistos. Esse tipo de abordagem permite ampliar e aprofundar temáticas mais complexas12, entre as quais a vulnerabilidade clínico-funcional da pessoa idosa. Destaca-se que, ao estratificar o risco de vulnerabilidade clínico-funcional de pessoas idosas na rede de atenção à saúde, há possibilidade de propor intervenções de caráter preventivo, promocional, paliativo ou de reabilitação individuais, de acordo com o estrato clínico-funcional da pessoa idosa e os domínios funcionais comprometidos13.

Considerando esse contexto, o presente estudo teve por objetivo analisar a autopercepção e os aspectos associados à vulnerabilidade clínico-funcional em pessoas idosas vinculadas à APS.

MÉTODO

Esta pesquisa adota métodos mistos, com delineamento sequencial explanatório (QUAN→qual), no qual foram feitas a coleta e a análise dos dados quantitativos e, na sequência, dos qualitativos14. Foram contemplados os critérios estabelecidos pelo Mixed Methods Appraisal Tool para apresentar a integração dos dados do estudo de método misto12. Para a qualidade da redação, foram utilizados as recomendações da Strengthening the Reporting of Observational Studies in Epidemiology (STROBE) para as análises quantitativas15 e o Consolidated Criteria for Reporting Qualitative Research (COREQ) para as análises qualitativas16.

Esta pesquisa foi realizada com pessoas idosas que residiam na comunidade e eram vinculadas à APS de um município rural, localizado na região noroeste do estado do Rio Grande do Sul, Brasil. O município tinha uma população estimada de 8.010 habitantes, e, destes, 1.869 (23,3%) eram pessoas idosas. Para seleção dos participantes, foram adotados os seguintes critérios de inclusão: ter 60 anos de idade ou mais; ter cadastro na APS do município. O critério de exclusão foi apresentar condições limitantes que impossibilitassem o indivíduo de participar da entrevista e de responder aos instrumentos de coleta de dados.

A etapa quantitativa teve abordagem transversal, descritiva e analítica. Para tanto, fez-se cálculo amostral para definição da amostra, considerando uma confiança de 95% e margem de erro de 5%, acrescido de 10% para compensar eventuais perdas. Assim, a amostra elegível foi de 356 pessoas idosas. Com a anuência da Secretaria Municipal de Saúde do respectivo município, obteve-se acesso à relação das pessoas com 60 anos ou mais com cadastro na APS. Em sequência, realizou-se um sorteio aleatório, por meio de um sorteador online, para identificar os possíveis participantes da pesquisa. Em caso de recusa da pessoa idosa em participar do estudo, foi feito um novo sorteio, sucessivamente, até se atingir a amostra esperada.

Nesta etapa, foram aplicados dois instrumentos: um com questões relativas a dados de caracterização sociodemográfica e das condições de saúde; e um de rastreio do Índice de Vulnerabilidade Clínico-Funcional (IVCF-20).

O instrumento de caracterização sociodemográfica continha as seguintes variáveis: idade (em anos), sexo (masculino ou feminino), autodeclaração racial (branca, parda, preta, amarela, indígena ou outra), escolaridade (nível), estado civil (solteiro, casado, com companheiro, divorciado ou viúvo), crença religiosa (católico, evangélico ou outra), aposentado (sim ou não), renda mensal (sem renda, até um salário mínimo, mais do que 1 e até 2 salários, mais do que 2 e até 4 salários, mais do que 4 salários mínimos), local de residência (urbano ou rural), número de pessoas que residem na mesma casa, com quem reside (filho, neto, outro), número de filhos, como considera a própria saúde (ruim, regular, boa ou ótima), uso de medicamentos (uma até três variedades, três até seis, mais de seis variedades de medicamentos).

O IVCF-20 é um instrumento brasileiro, validado17, de triagem rápida de vulnerabilidade clínico-funcional, para utilização pela APS. Compõe-se de 20 questões para avaliação das principais dimensões preditoras: idade, autopercepção da saúde, atividades básicas e instrumentais de vida diária, cognição, humor, mobilidade, comunicação e comorbidades múltiplas. Cada uma tem pontuação específica, chegando-se ao valor máximo de 40 pontos. Os estratos sugeridos no IVCF-20 compreendem a seguinte classificação quanto ao grau de vulnerabilidade clínico-funcional: 0 a 6 pontos, baixo risco; 7 a 14, moderado risco; e 15 ou mais, alto risco18.

Especificamente nessa etapa, a coleta dos dados ocorreu entre janeiro e junho de 2023, de forma individual, no domicílio ou na unidade de saúde, sendo data, horário e local previamente acordados com a pessoa idosa. A identificação e a localização dos participantes foram intermediadas pelos Agentes Comunitários de Saúde, os quais também foram capacitados quanto à aplicação dos questionários e auxiliaram na coleta dos dados. Esta fase da pesquisa teve início somente após a anuência dos participantes, por meio da assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE).

Os dados quantitativos foram digitados em planilha do Microsoft Excel® e passaram por análise estatística, distribuição de frequências absolutas e percentuais para as variáveis categóricas, e médias e desvios padrão para as numéricas. Foram realizadas análises descritivas, por meio de frequência e percentual das variáveis qualitativas e média, mediana, desvio padrão, mínimo e máximo das variáveis quantitativas. A avaliação da associação entre as variáveis qualitativas foi realizada pelo teste qui-quadrado de Pearson. Por sua vez, a associação entre as variáveis qualitativas e quantitativas foi realizada pelo teste de Kruskal-Wallis. Considerou-se o nível de significância de p < 0,05. Utilizou-se o software IBM SPSS Statistics (versão 21).

A etapa qualitativa teve abordagem descritiva e exploratória, em que os participantes foram definidos a partir da análise quantitativa, de modo a aprofundar o estudo e compreender como as pessoas idosas vivenciavam, no cotidiano, a limitação da capacidade clínico-funcional. Dessa forma, a coleta dos dados dessa etapa foi realizada entre junho e agosto de 2023, por intermédio de entrevistas semiestruturadas. As entrevistas, individuais e presenciais, foram conduzidas pela pesquisadora responsável pelo estudo, gravadas e transcritas na íntegra, com anuência dos participantes, por meio da assinatura do TCLE. Utilizou-se como critério de interrupção das entrevistas, para definir o número de participantes, a saturação teórica de dados, ou seja, quando nenhum novo elemento foi encontrado nos dados.

A análise dos dados qualitativos seguiu os preceitos da análise temática19, abrangendo as etapas: (1) fase exploratória; (2) momento interpretativo; (3) análise final; (4) relatório. Os depoimentos foram identificados por códigos compostos pela letra “E” (de “entrevistado”), seguida de um número ordinal (E1 a E22) não correspondente à ordem de entrevista, bem como das letras “M” (referente a masculino) ou “F” (referente a feminino) e da idade do participante, com vistas à preservação do anonimato. A integração dos dados adquiridos nas etapas quantitativa e qualitativa foi realizada por conexão, conforme recomendado em estudos de métodos mistos14 e de acordo com o Pillar Integration Process na apresentação de um joint display20. No joint display, para facilitar a compreensão do leitor e dar mais fluidez aos depoimentos, os excertos foram editados, de modo a alinhá-los com a linguagem gramatical, porém sem mudar o sentido.

Respeitaram-se todos os preceitos éticos de pesquisas envolvendo seres humanos conforme Resolução n°466/2012 do Conselho Nacional de Saúde. O presente estudo consiste em um recorte de pesquisa de dissertação, sendo o estudo matricial aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa Institucional.

RESULTADOS

O perfil sociodemográfico das pessoas idosas participantes do estudo caracterizou-se pela idade média de 71,3 anos (±7,475) e predomínio da faixa etária entre 60 e 74 anos; as mulheres, 231 (64,9%), estavam em maior número em relação aos homens; houve prevalência de pessoas idosas com baixa escolaridade, 317 (89,0%); 197 (55,3%) eram casados ou estavam em união estável; e 189 (53,0%) tinham renda mensal reduzida.

Sob avaliação por meio do IVCF-20, prevaleceu o baixo risco para vulnerabilidade clínico-funcional - 193 (54,2%). Porém, quantitativos significativos, 97 (27,2%) e 66 (18,6%), apresentaram, respectivamente, risco moderado e alto para vulnerabilidade clínico-funcional.

Ser do sexo feminino, apresentar baixa escolaridade e ter vivenciado alterações na saúde durante a pandemia de COVID-19 (como depressão, ansiedade, hipertensão arterial, diabetes mellitus, doenças osteoarticulares, do aparelho digestório e cardíacas) foram fatores estatisticamente significantes e associados ao risco moderado a alto para vulnerabilidade clínico-funcional. Além disso, identificou-se que idade avançada, pior autopercepção de saúde, menor autonomia nas atividades básicas e instrumentais de vida diária, comorbidades múltiplas, declínio cognitivo e alterações no humor, na mobilidade e na comunicação apresentaram significância estatística para risco moderado a alto de vulnerabilidade clínico-funcional. Os dados referentes à caracterização dos participantes e aos fatores associados à vulnerabilidade clínico-funcional estão apresentados na Tabela 1.

Tabela 1 -
Caracterização dos participantes e análise dos fatores associados à vulnerabilidade clínico-funcional em pessoas idosas na Atenção Primária à Saúde. Município rural, Rio Grande do Sul, Brasil, 2023 (n = 356).

Na análise do perfil sociodemográfico e das condições de saúde dos participantes da etapa qualitativa, verificou-se que a idade mínima foi de 60 anos, e a máxima, de 88 anos, com média de 74,2 anos. Além disso, 16 (72,7%) eram do sexo feminino e seis (27,3%) do masculino. Houve prevalência de pessoas idosas sem escolaridade ou que estudaram até o ensino fundamental, sendo 21 (95,4%) pessoas, e um (5,6%) participante frequentou até o ensino médio. Quanto à situação conjugal, 12 (54,5%) eram casados, oito (36,4%) eram viúvos ou divorciados, e dois (9,1%) eram solteiros. Em relação à religião, 14 (63,6%) eram católicos, e oito (36,4%) eram evangélicos. A renda mensal oscilou entre até um salário-mínimo, 16 (72,7%), e seis (27,3%) recebiam mais que um salário-mínimo por mês. Todos os participantes dessa etapa tinham alguma doença crônica, entre as quais destacam-se hipertensão arterial, diabetes mellitus, depressão e câncer - a maioria, 12 (54,6%), fazem uso de polifarmácia.

A análise temática dos dados qualitativos originou cinco categorias: (1) Características sociodemográficas associadas à vulnerabilidade clínico-funcional; (2) Um ciclo difícil de romper: inter-relação entre condições clínicas adversas e vulnerabilidade clínico-funcional; (3) Impactos da pandemia de COVID-19 na saúde física e mental da pessoa idosa; (4) Repercussões das limitações físicas sobre a autonomia da pessoa idosa; (5) Interfaces entre declínio cognitivo e sensorial e vulnerabilidade clínico-funcional.

No joint display, representado no Quadro 1, apresentam-se os resultados integrados, destacando-se as categorias e os extratos da análise temática, assim como o sumário das associações da análise estatística. Em seguida, a partir das inferências obtidas de cada abordagem isolada, são propostas metainferências. Tais achados possibilitaram demonstrar como as pessoas idosas vivenciaram as situações de vulnerabilidade clínico-funcional no seu cotidiano e as repercussões no seu bem-estar e na manutenção da sua autonomia e da sua independência.

Quadro 1 -
Joint display de integração dos resultados quantitativos e qualitativos e das metainferências quanto à vulnerabilidade clínico-funcional em pessoas idosas na Atenção Primária à Saúde. Município rural, Rio Grande do Sul, Brasil, 2023.

DISCUSSÃO

O presente estudo analisou a autopercepção das condições de saúde e os aspectos associados à vulnerabilidade clínico-funcional em pessoas idosas vinculadas à APS. Entre as potencialidades, destaca-se a abordagem de métodos mistos e a utilização de instrumentos de coleta de dados válidos e confiáveis, que permitiram análise abrangente e aprofundada da vulnerabilidade clínico-funcional entre os participantes do estudo.

Entre os resultados, ressalta-se que, para a maioria das pessoas idosas, havia baixo risco de vulnerabilidade clínico-funcional, achados que convergem para os de outros estudos3,5. Porém, eles divergem de resultados encontrados nas regiões Norte11 e Sudeste21 do Brasil, em que a maioria dos indivíduos idosos apresentou de moderado a alto risco de vulnerabilidade clínico-funcional. Contudo, é importante pontuar que cerca de 45% dos participantes do presente estudo estavam associados a risco moderado a alto, o que reforça a relevância do tema e as diferenças regionais.

Além disso, os resultados demonstraram que as características sociodemográficas (como idade avançada, gênero feminino e baixo grau de escolaridade) estão intrinsecamente associadas ao risco moderado a alto para vulnerabilidade clínico-funcional da pessoa idosa. No cotidiano, as pessoas idosas percebem a vulnerabilidade pela fadiga (mesmo aos mínimos esforços), pela sarcopenia e pela fragilidade, associando-as, principalmente, à idade mais avançada.

Corroborando esse resultado, estudo22 evidenciou que, com o avançar da idade, amplia-se o risco para o declínio funcional. As mulheres, que frequentemente apresentam maior longevidade, também são mais expostas aos fatores de risco, ao comprometimento de funcionalidade e à maior frequência de polifarmácia21.

O baixo grau de escolaridade teve alta prevalência, isto é, 89,0% entre as pessoas idosas. Desses, a maior parte declarou não ter escolaridade ou ter cursado até os primeiros anos do ensino fundamental. Em consequência do reduzido grau educacional, vivenciavam limitações na realização de atividades de forma independente e autônoma, como a organização e a administração das medicações de uso contínuo e a administração financeira, ressaltando as vulnerabilidades e a dependência do auxílio de familiares. Nesse sentido, destaca-se que pessoas idosas com baixos índices de alfabetização, que não têm garantida a competência para ler e compreender textos escritos e conceitos, apresentam piores habilidades cognitivas, que se refletem em pior autocuidado e bem-estar23.

Evidenciou-se também a inter-relação entre as condições clínicas adversas e a funcionalidade das pessoas idosas, formando um ciclo de vulnerabilidade difícil de romper. A pior autopercepção da saúde, a presença de comorbidades (especialmente hipertensão arterial, diabetes mellitus e depressão) e o uso de polifarmácia foram fatores significativos para um risco moderado a alto de vulnerabilidade clínico-funcional. Nessa perspectiva, ressalta-se que o uso de polifarmácia (31,5%) foi relativamente alto em comparação aos achados de outros estudos5,11, nos quais a prevalência foi de 21,40% e 13,91%, respectivamente. O estudo11 aponta, ainda, que, no grupo de pessoas com polifarmácia, 57,97% tinham pelo menos um medicamento potencialmente inapropriado em seu prontuário, dos quais 62,5% eram idosos vulneráveis.

Nesse sentido, na presente investigação, os relatos demonstraram que o uso de medicamentos controlados pode levar a efeitos colaterais, como tontura e quedas, agravando a fragilidade em pessoas idosas. Assim, vale destacar que a incidência de quedas e fraturas de fêmur em indivíduos idosos tem associação com o uso de medicamentos sedativos, em especial os benzodiazepínicos24.

Ademais, a sobrecarga das comorbidades, os desafios na mobilidade, a dificuldade de acesso a serviços de saúde e as barreiras ao tratamento criam um cenário de limitações que comprometem tanto a autonomia quanto o bem-estar, contribuindo para um estado de dependência progressiva. Vale destacar que a população idosa residente em áreas rurais do país está mais suscetível às vulnerabilidades, em razão do menor acesso às consultas médicas e odontológicas e à utilização dos serviços de saúde, quando comparado a indivíduos residentes em áreas urbanas25. Assim, evidencia-se a necessidade de estratégias integradas para a promoção da saúde e da assistência geriátrica qualificada.

Na pandemia de COVID-19, particularmente, as alterações de saúde autopercebidas pelas pessoas idosas também representaram impactos negativos significativos, associados ao aumento do risco de vulnerabilidade clínico-funcional. Resultados semelhantes foram encontrados em outro estudo26 no âmbito da APS, no qual 53% dos participantes idosos transitaram para um quadro de pré-fragilidade durante o contexto pandêmico.

O isolamento social, necessário para a contenção do vírus, resultou em privação do convívio social, incluindo a interrupção de atividades comunitárias e religiosas, reforçou sentimentos de tristeza e desesperança, levando, em alguns casos, à necessidade de intervenções farmacológicas para manejo do sofrimento psíquico. Além disso, a limitação da interação social impediu o suporte emocional e afetivo, fundamental para o bem-estar da população idosa, agravando o impacto da pandemia na sua saúde mental. Diante da pandemia da COVID-19, o cotidiano das pessoas idosas foi permeado pela transformação de hábitos e adaptação às mudanças impostas, as quais foram marcadas por ansiedade, medos, perda de amigos e familiares, notícias desagradáveis e alteração na sociabilidade27. Esses achados ressaltam a importância de estratégias voltadas à promoção da saúde emocional das pessoas idosas, especialmente em situações de crise sanitária.

Da mesma forma, a diminuição da capacidade de realizar atividades básicas e instrumentais da vida diária, associada a alterações na mobilidade, demonstrou forte relação com o risco de vulnerabilidade clínico-funcional de moderado a alto. Na Colômbia, um estudo28 também identificou limitações funcionais em pessoas idosas para a realização das atividades de vida diária, associadas à idade, disfunção cognitiva e risco de queda.

Os resultados evidenciam que dores, fraqueza muscular, incontinência urinária e episódios de quedas geram limitações que aumentam a dependência para a realização de tarefas cotidianas, reforçam o isolamento social e agravam o declínio funcional e emocional. A dificuldade de locomoção e a perda de habilidades motoras finas comprometem a segurança e a qualidade de vida, gerando um ciclo progressivo de fragilidade. Nesse contexto, destaca-se que as quedas são um problema comum entre pessoas idosas, associadas à perda de urina, dependência para atividades básicas da vida diária e polifarmácia29.

A interação entre o declínio cognitivo, emocional e sensorial também se mostrou significativa para a vulnerabilidade clínico-funcional em pessoas idosas, impactando a capacidade adaptativa e o risco de deterioração da saúde. Consequentemente, o comprometimento cognitivo, o baixo nível de escolaridade e o histórico de internação nos últimos seis meses associam-se a maior incidência de hospitalização e óbito30. A perda de memória compromete a autonomia e pode dificultar a execução de tarefas cotidianas, enquanto alterações de humor, como tristeza e desesperança, reduzem o engajamento em atividades prazerosas e sociais, favorecendo o isolamento.

Além disso, dificuldades visuais e auditivas limitam a mobilidade e a comunicação, tornam a pessoa idosa mais insegura e restringem sua participação ativa no ambiente comunitário. Os relatos demonstram que essas limitações contribuem para o medo, luto e solidão, criando um ciclo de fragilidade física e emocional. Assim, restrições relacionadas à perda auditiva, agravadas por comprometimento emocional, representam um desafio na vida dos gerontes, tornando-os ainda mais suscetíveis às vulnerabilidades31. Ademais, é importante salientar que, frequentemente, alterações visuais e auditivas associam-se ao aumento na hipótese de demência e à queixa cognitiva10. Por isso, é fundamental realizar o rastreamento do declínio cognitivo e sensorial e intervir precocemente, pois enxergar e ouvir possibilita às pessoas idosas manter a funcionalidade, autonomia e independência10.

De modo geral, a análise deste estudo destaca a importância da APS na identificação precoce da vulnerabilidade clínico-funcional em pessoas idosas, por meio de abordagens criteriosas e uso de instrumentos como o IVCF-20, bem como a necessidade de intervenções multidisciplinares, incluindo estratégias para fortalecimento muscular, adaptação ambiental e suporte social, além do rastreamento precoce dos declínios cognitivo, sensorial e emocional. A Enfermagem pode desempenhar papel central nesse processo, ao coordenar o cuidado, promover a autonomia e fortalecer a educação em saúde. Apesar da robustez metodológica do estudo, os resultados devem ser interpretados no contexto específico da pesquisa, ressaltando a importância de estudos complementares em diferentes cenários.

CONCLUSÃO

Neste estudo, a vulnerabilidade clínico-funcional em pessoas idosas esteve significativamente associada a idade avançada, gênero feminino, baixa escolaridade, pior autopercepção de saúde, vivência de alterações durante a pandemia de COVID-19, presença de múltiplas comorbidades (especialmente hipertensão arterial, diabetes mellitus e depressão), uso de polifarmácia, declínio cognitivo, alterações de humor, limitações na mobilidade e na comunicação, além de dificuldades para realizar atividades básicas e instrumentais da vida diária. Esses fatores demonstram como diferentes aspectos contribuem para o aumento da fragilidade nesse estrato populacional.

Além disso, evidenciou-se que esses fatores não se apresentam de forma isolada, mas se entrelaçam em um ciclo complexo de vulnerabilidade, marcado por limitações físicas, emocionais, cognitivas e sociais. A conexão dos dados revelou que a vulnerabilidade é vivenciada no cotidiano pela fadiga aos mínimos esforços, pela insegurança diante da perda de autonomia, pelos sentimentos de tristeza e isolamento social, bem como por dificuldades no autogerenciamento da saúde e nas relações familiares. Dessa forma, o estudo reforça que a abordagem mista amplia a compreensão do fenômeno, revelando tanto a magnitude estatística quanto a experiência subjetiva da vulnerabilidade, o que subsidia intervenções multidisciplinares e integradas para a promoção do envelhecimento mais saudável, autônomo e digno.

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NOTAS

  • ORIGEM DO ARTIGO
    Extraído da dissertação - Vulnerabilidades em pessoas idosas e repercussões da pandemia por Covid-19: estudo de método misto, apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Saúde e Ruralidade, da Universidade Federal de Santa Maria/Campus Palmeira das Missões/RS, em 2023.
  • FINANCIAMENTO
    Fundo de Incentivo à Pesquisa (FIPE) - Bolsa de Iniciação Científica, conforme Resolução 01/2013 da UFSM e as Resoluções RN 017/2006 (e seus anexos) e RN 023/2008 do CNPq. Fundação Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES).
  • APROVAÇÃO DE COMITÊ DE ÉTICA EM PESQUISA
    Aprovado no Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de Santa Maria, parecer n. 5.639.338/2022, Certificado de Apresentação para Apreciação Ética 61689722.3.0000.5346.
  • DISPONIBILIDADE DE DADOS
    Os dados que sustentam as conclusões deste estudo não estão disponíveis publicamente devido a questões éticas e à confidencialidade dos participantes. Informações adicionais podem ser fornecidas pelo autor correspondente mediante solicitação justificada e aprovação ética.

Editado por

  • EDITORES
    Editores Associados: Leticia de Lima Trindade.
    Editor-chefe: Gisele Cristina Manfrini.

Disponibilidade de dados

Os dados que sustentam as conclusões deste estudo não estão disponíveis publicamente devido a questões éticas e à confidencialidade dos participantes. Informações adicionais podem ser fornecidas pelo autor correspondente mediante solicitação justificada e aprovação ética.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    21 Ago 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    10 Abr 2025
  • Aceito
    10 Nov 2025
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