RESUMO
Objetivos: As arboviroses são uma ameaça à saúde pública e requerem o engajamento da população no seu enfrentamento. Ações de educação em saúde são essenciais para a promoção da saúde, e quando atreladas a tecnologias no ambiente escolar têm a condição de motivar mudanças de práticas da população. Este estudo teve como objetivo validar com juízes das áreas de educação e saúde, a tecnologia Arboedu (aplicativo móvel, plataforma web e guia do professor), como recurso para promoção de mudanças de práticas na prevenção de arboviroses de estudantes do ensino médio.
Método: Estudo metodológico quantitativo de validação. O protótipo do Arboedu foi avaliado por 25 juízes com ampla qualificação profissional. A coleta de dados online aconteceu no período de agosto a setembro de 2021. Foi utilizado o Índice de Validade de Conteúdo, com um ponto de corte de 80%, para validação dos domínios: Objetivos, Apresentação, Amigabilidade, Conteúdo, Relevância e Pressupostos Pedagógicos.
Resultados: O Arboedu foi avaliado com um Índice de Concordância Geral de 99%, com menor Índice individual de 0,90, considerando a sua proposta como tecnologia gamificada para a mediação do professor em intervenções educativas na prevenção de arboviroses.
Conclusão: A validação do Arboedu por juízes de educação e saúde assegura uma maior aderência a processos educacionais e práticas de saúde, indicando uma aceitação potencial pelo seu público-alvo. Pesquisas futuras precisam investigar seus impactos em conhecimento, adoção de práticas protetivas e redução de casos de arboviroses, além de estudar sua contribuição para o aumento dos níveis de autoeficácia dos estudantes.
DESCRITORES:
Arboviroses; Educação em saúde; Saúde do adolescente; Aplicativos móveis; Gamificação; Validação de software
ABSTRACT
Objectives: Arboviruses pose a significant threat to public health, necessitating active community involvement in their prevention and control. Health education is a crucial component of health promotion, and when integrated with technology in school environments, it can effectively motivate behaviour changes in the population. This study aimed to validate the Arboedu technology (a mobile application, web platform, and teacher’s guide) through expert review by professionals in the fields of education and health. The goal was to assess its potential as a resource for promoting preventive practices against arboviruses among high school students.
Method: This is study employed a quantitative methodological validation approach. The Arboedu prototype was evaluated by 25 highly qualified judges. Online data collection was conducted from August to September 2021. The Content Validity Index (CVI) was used with an 80% cut-off point to validate the following domains: Objectives, Presentation, User-Friendliness, Content, Relevance, and Pedagogical Assumptions.
Results: Arboedu received a General Agreement Index of 99%, with a lower individual index being 0.90. This validates its effectiveness as a gamified technology for teacher-mediated educational interventions in the prevention of arboviruses.
Conclusion: The validation of Arboedu by experts in education and health supports its potential to enhance adherence to educational processes and health practices, suggesting its likely acceptance indicating potential acceptance by its target audience. Future research should explore its impact on knowledge acquisition, the adoption of protective practices, and the reduction of arbovirus cases, as well as its contribution to improving students’ self-efficacy levels.
DESCRIPTORS:
Arboviruses; Health education; Adolescent health; Mobile applications; Gamification; Software validation
RESUMEN
Objetivos: Los arbovirus son una amenaza para la salud pública y requieren del compromiso de la población para combatirlos. Las acciones de educación en salud son esenciales para la promoción de la salud y, cuando se vinculan a las tecnologías en el ambiente escolar, son capaces de motivar cambios en las prácticas de la población. Este estudio tuvo como objetivo validar, con jueces de las áreas de educación y salud, la tecnología Arboedu (aplicación móvil, plataforma web y guía docente), como recurso para promover cambios en las prácticas en la prevención de arbovirus en estudiantes de secundaria.
Método: Estudio de validación metodológica cuantitativa. El prototipo Arboedu fue evaluado por 25 jueces con amplia cualificación profesional. La recolección de datos en línea se realizó de agosto a septiembre de 2021. Se utilizó el Índice de Validez de Contenido, con un punto de corte del 80%, para validar los dominios: Objetivos, Presentación, Amabilidad, Contenido, Relevancia y Supuestos Pedagógicos.
Resultados: Arboedu fue evaluado con un Índice de Acuerdo General de 99%, con un Índice individual más bajo de 0,90, considerando su propuesta como una tecnología gamificada para la mediación docente en intervenciones educativas para la prevención de arbovirus.
Conclusión: La validación de Arboedu por jueces de educación y salud asegura mayor adherencia a los procesos educativos y prácticas de salud, indicando una potencial aceptación por parte de su público objetivo. Es necesario que futuras investigaciones investiguen sus impactos en el conocimiento, la adopción de prácticas protectoras y la reducción de casos de arbovirus, además de estudiar su contribución al aumento de los niveles de autoeficacia de los estudiantes.
DESCRIPTORES:
Arbovirus; Educación sanitaria; Salud de los adolescentes; Aplicaciones móviles; Gamificación; Validación de software
INTRODUÇÃO
Arboviroses são doenças virais causadas por arbovírus, que incluem o vírus da dengue, Zika vírus, febre chikungunya e febre amarela. As infecções por arboviroses têm impacto internacional, sendo a dengue a mais prevalente, principalmente no continente americano. A proliferação dos mosquitos vetores em ambiente urbano, tornou-se um desafio persistente para a saúde pública brasileira. Historicamente, o país vem investindo em diversas estratégias de combate ao vetor: educacionais, mecânicas ou biológicas. No entanto, os dados epidemiológicos evidenciam que tais intervenções têm se mostrado pouco eficientes, diante da inapropriada infraestrutura de saneamento das cidades e da pequena mobilização da população no que se refere ao controle de proliferação dos mosquitos1,2. Estas condições foram agravadas pelas condições climáticas em nosso continente em decorrência do aquecimento global, e em 2024 houve um aumento significativo dos casos de dengue no Brasil, somando 2.624.300 casos prováveis e 991 óbitos por dengue, até abril de 20243.
Neste cenário, é necessária a intensificação das ações de educação em saúde, promovendo uma maior participação social e estimulando mudanças de hábitos, atitudes e práticas da população, possibilitando uma promoção de saúde mais sustentável4. Tecnologias educacionais têm sido aplicadas na implementação de estratégias inovadoras direcionadas ao público infantojuvenil. Tais ferramentas, quando fundamentadas em metodologias que integram a comunicação entre sujeitos, diferentes saberes e setores em busca de um objetivo comum, contribuem para a execução da integralidade, princípio doutrinário do SUS5.
O uso de gamificação e atividades lúdicas no desenvolvimento de tecnologias educacionais tem o potencial de motivar e engajar o público adolescente na adoção de práticas protetivas em prol da sua qualidade de vida, disseminando-as também no seu ambiente familiar6-9. Gamificação consiste no uso de elementos e técnicas de design de jogos em contextos não relacionados a jogos, com o objetivo de engajar, motivar e influenciar comportamentos10.
Apesar dos avanços, ainda há uma carência de estudos sobre tecnologias que explorem com eficácia estratégias lúdicas e de gamificação para o ensino e a mobilização social sobre o tema das arboviroses. Encontram-se várias propostas para auxiliar o público infanto-juvenil no enfrentamento de arboviroses11-13. No entanto, a maior parte delas atua apenas no contexto informacional e não motiva uma mudança de práticas sustentáveis. Com esta finalidade foi desenvolvido o Arboedu: uma tecnologia educacional, destinada a estudantes, professores e profissionais de saúde, para que interajam e cooperem na realização de ações para a prevenção de arboviroses.
Este estudo teve como objetivo validar com juízes das áreas de educação e saúde, a tecnologia Arboedu (aplicativo móvel, plataforma web e guia do professor), como recurso para promoção de mudanças de práticas na prevenção de arboviroses de estudantes do ensino médio. Esta é a primeira etapa do processo de validação do Arboedu, na qual profissionais de saúde e de educação avaliam se o modelo educacional está adequado para os objetivos propostos. A validação com juízes especialistas é uma etapa fundamental para garantir a adequação da tecnologia, antes de sua utilização com o público-alvo. Neste sentido, este trabalho avalia o Arboedu em relação aos seus objetivos, apresentação, amigabilidade, conteúdo, relevância e aderência aos seus pressupostos pedagógicos.
Uma tecnologia educativa como o Arboedu poderá desempenhar um papel importante na promoção da saúde, atuando como um recurso facilitador na construção de conhecimentos sobre as arboviroses. Além disso, pode estimular mudanças nas práticas socioambientais do público infantojuvenil, alinhadas aos objetivos da Agenda 2030 da ONU14.
MÉTODO
Estudo de desenvolvimento metodológico com ênfase na validação de uma tecnologia educativa (Arboedu) por juízes especialistas. Esta etapa objetiva a validação prévia do protótipo da tecnologia, permitindo a realização dos ajustes necessários antes de sua aplicação ao público-alvo.
O Arboedu é uma tecnologia para suporte educacional no processo de ensino-aprendizagem de arboviroses para jovens escolares entre 14 e 19 anos que estão cursando o ensino médio. É composta por um aplicativo móvel, uma plataforma web e um guia para o professor, com o objetivo de auxiliar na promoção de mudanças de práticas do adolescente e do seu ciclo familiar, alicerçadas na reflexão de atitudes socioambientais no combate e prevenção das arboviroses. Sua estratégia emprega elementos lúdicos e de gamificação atrelados à Base Nacional Comum Curricular (BNCC)15, à aprendizagem móvel16 e à autoeficácia da Teoria Social Cognitiva (TSC)17.
Os jogos auxiliam no desenvolvimento de capacidades diversas, na exploração e entendimento sobre a realidade e papeis sociais18, além de promover um maior engajamento, podendo tornar a aprendizagem mais significativa e prazerosa19. Atrelados ao jogo, são empregados recursos de gamificação, como recompensas e feedbacks positivos, buscando a promoção da interação com o meio, a cooperação, a colaboração e o compartilhamento de informações entre os estudantes9. Foram mobilizadas nove competências da BNCC: conhecimento; desenvolvimento de pensamento científico, crítico e criativo; repertório cultural; comunicação; cultura digital; argumentação; autoconhecimento e autocuidado; empatia e cooperação; responsabilidade e cidadania15.
A autoeficácia é um dos constructos da Teoria Social Cognitiva (TSC). Quando percebida, se constitui em um “julgamento das pessoas sobre suas próprias capacidades para executar cursos de ação exigidos para se atingir um certo grau de desempenho”17. A autoeficácia é explorada para a motivação dos estudantes e desenvolvimento de habilidades e conhecimentos necessários às ações de prevenção contra arboviroses17. Questões e mensagens são utilizadas ao longo das atividades visando a reflexão do estudante, a fim de fortalecer suas crenças de autoeficácia.
Em uma estratégia do tipo gincana, apresentada através de “missões”, o professor do ensino médio tem o papel de mediador no processo educativo. Utilizando a plataforma web e o Guia, ele pode atuar na comunicação com os estudantes, na revisão e liberação de atividades, e na gestão da aprendizagem. Os profissionais de saúde podem participar esclarecendo dúvidas e apresentando aos estudantes o papel do poder público na prevenção de arboviroses. A plataforma web apresenta ainda, informações sobre lacunas de conhecimento e ausência de práticas territorializadas que podem ser foco de políticas locais e de educação em saúde (Figura 1).
Os cinco desafios (QuizArbo, Patrulha em Foco, Janelas & Tanques, Coleta & Reciclagem e ArboTurma) propostos no aplicativo, são estruturados com avaliações de conhecimento e atividades atitudinais e motivacionais apresentadas como missões.
A missão do “QuizArbo” é aprofundar os conhecimentos dos alunos sobre arboviroses e características entomológicas dos vetores. O desafio seguinte, “Patrulha em Foco”, exercita o controle vetorial, além da incorporação de suas práticas à vida cotidiana dos estudantes e de sua família. O estudante soluciona situações de risco capturadas com a câmera do celular, utilizando geolocalização. No “Janelas & Tanques”, a missão é avaliar os riscos apresentados por janelas e armazenamento doméstico de água potável, sendo o estudante orientado a utilizar telas protetoras em sua residência. Com o objetivo de construir conhecimentos e aplicá-los na coleta e reciclagem de materiais, a missão “Coleta & Reciclagem” apresenta informações sobre coleta seletiva, descarte adequado e destinação final do lixo, decomposição de materiais, sustentabilidade, vigilância entomológica, além do ciclo da água e sua relação com o acúmulo de lixo. O “ArboTurma” é um desafio colaborativo que dá início à etapa final da gincana. Neste desafio, as equipes participarão de um concurso audiovisual, utilizando a criatividade para a produção de um vídeo sobre a temática.
Os alunos são orientados, na participação da gincana, através de vídeos e infográficos, evitando o uso de textos, criando uma interação mais engajadora e leve. Através do aplicativo, as atividades são pontuadas gerando um ranking de estudantes, turmas e escolas. A competição é utilizada na motivação para a adesão dos estudantes.
Foi utilizada uma abordagem quantitativa não probabilística para obter dados objetivos e mensuráveis sobre a percepção profissional em saúde e educação, acerca da adequação da tecnologia em desenvolvimento20. O estudo foi realizado no município do Recife, durante os meses de agosto e setembro de 2021. Os avaliadores foram selecionados por conveniência, considerando a qualificação necessária. O Arboedu foi validado por 25 juízes: 10 do perfil saúde e 15 do perfil educação21.
O perfil Educação foi constituído por professores do ensino médio, educadores de apoio, coordenadores pedagógicos, gestores e gestores adjuntos das escolas da rede municipal e estadual de ensino das gestões regionais de educação Norte e Sul do Recife, além de graduandos do curso de Licenciatura em Ciências Biológicas da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). O perfil Saúde foi constituído por profissionais da área de saúde da Diretoria Executiva de Vigilância à Saúde e do Centro de Vigilância Ambiental e Controle de Zoonoses do município de Recife, relacionados direta ou indiretamente com ações educativas, ou responsáveis pelo combate, mensuração, controle da infestação dos mosquitos vetores na capital de Pernambuco.
Os critérios de elegibilidade dos juízes foram baseados em um estudo, no qual cada juiz precisou atingir uma pontuação mínima de cinco pontos, considerando sua experiência e qualificação profissional22. Os critérios para pontuação consideraram: teses e/ou dissertações na área, cursos de especialização, publicações, experiência profissional e acadêmica, atuação como pesquisador, uso de softwares educativos na prática profissional, e ser aluno regular do curso de licenciatura em ciências biológicas. Foram excluídos da pesquisa todos os participantes que não concluíram o preenchimento do formulário adotado dentro do limite temporal estabelecido.
Foi adotado um instrumento de avaliação baseado em uma pesquisa23, que oferece uma estrutura sistemática para avaliar a qualidade pedagógica de tecnologias educacionais. Não foram utilizadas as seções do instrumento de Behar voltadas para avaliação de hardware e software, considerando a pluralidade dos cenários tecnológicos atuais. Por outro lado, no contexto do presente estudo, a seção direcionada aos domínios pedagógicos; conteúdo; funcionalidade; apresentação e usabilidade, apresenta um ótimo protocolo. O instrumento adotado no presente estudo foi estruturado nos seguintes domínios: Objetivos (Quadro 1), Apresentação e Amigabilidade, Conteúdo, Relevância e Pressupostos Pedagógicos (Quadro 2), acrescentando algumas informações necessárias para avaliar a presente estratégia educativa. Para os juízes da área de saúde a validação não incluiu o domínio Alcance dos Pressupostos Pedagógicos, que foi avaliado apenas pelos profissionais de educação.
As questões do instrumento apresentaram cinco respostas possíveis de acordo com a escala de Likert: Concordo Totalmente (CT), Concordo Parcialmente (CP), Nem Concordo e Nem Discordo (NCND), Discordo Parcialmente (DP) e Discordo Totalmente (DT). Em cada domínio foi disponibilizado um espaço aberto para o registro de observações, comentários e sugestões.
O procedimento de coleta de dados foi mediado por uma plataforma Web, onde foram apresentados: o protótipo, um guia de uso, os instrumentos de coleta e o processo de validação. Após a exploração da tecnologia foi orientado o preenchimento do instrumento de coleta do perfil do juiz (saúde ou educação).
A análise dos resultados utilizou o Índice de Validade de Conteúdo (IVC), que indica a congruência das opiniões dos sujeitos. Para a excelência da validade, adotou-se um ponto de corte de 80% (0,80) como padrão de concordância20. Os dados obtidos foram organizados em números absolutos, médias, medianas e percentuais, calculados com o auxílio dos programas Microsoft Office Excel 2016 e BioEstat. A análise dos dados provenientes das sugestões e opiniões foi documentada com base nos domínios pertinentes e analisadas qualitativamente.
A pesquisa foi realizada durante a pandemia de COVID-19, após aprovação pelo Comitê de Ética em Pesquisa da instituição universitária proponente. Os juízes participantes informaram sua concordância em participar do estudo em formulário de consentimento online.
Devido às restrições de isolamento impostas pela pandemia, a coleta de dados foi executada de forma exclusivamente remota. Apesar do emprego de estratégias de engajamento, comunicações regulares e personalizadas com os participantes para incentivar a conclusão da avaliação, é possível que a disposição e prontidão tenham sido afetadas, assim como o estado emocional e mental dos mesmos. Em atenção a tais limitações, foram produzidos materiais de apoio para esclarecer o processo de uso da tecnologia e sua validação. Esta estratégia não apenas objetivou mitigar os efeitos das limitações impostas, mas também, enriquecer a qualidade dos resultados do estudo.
RESULTADOS
A pesquisa teve a participação de 25 juízes, dos quais 10 (40%) são do perfil saúde e 15 (60%) pertencem ao perfil educação (Tabela 1).
Os participantes do perfil saúde eram todos do sexo feminino, com uma média de idade de 34 anos (dp±8,04), variando entre o limiar de 24 e 49 anos. Quatro participantes (40%) possuíam mestrado ou doutorado nas áreas de saúde coletiva, da família e saúde pública. Dos profissionais de saúde, 40% (n=4) realizaram publicações de artigos nas áreas de arboviroses (10%) e validação de software educacional (30%), com média de 3,25 artigos publicados e dp ± 6,74. No que se refere à trajetória profissional, 70% dos juízes de saúde possuíam experiência docente ou clínica nas áreas de saúde da família, saúde coletiva, saúde pública e/ou saúde da criança e do adolescente, com uma média de 5,5 anos de experiência e dp ± 6,16. Quando questionados, houve unanimidade no uso de software educativo na prática profissional.
O perfil educação foi composto por gestores e educadores de instituições escolares, e acadêmicos de licenciatura em ciências biológicas. O perfil contou com sete mulheres (63,63%) e quatro homens (36,37%), com idades entre 30 e 55 anos, e média de 42,45 anos (dp±7,79). Sete (63,63%) dos participantes possuíam no mínimo uma pós-graduação, com média de duas pós-graduações por pessoa. Todos os profissionais possuíam experiência docente com média de 17 anos por participante, no entanto, só 10 possuíam experiência com adolescentes, com uma média de 15,54 anos. Apenas um juiz participou de grupo de pesquisa ou foi pesquisador na área de validação de software educacional ou arboviroses. Nove dos 11 participantes afirmaram utilizar softwares educativos na prática profissional. Este perfil também incluiu licenciandos em Ciências Biológicas. Três eram do sexo feminino e um do sexo masculino, com média de idade de 24 anos (dp±1,82). Todos integraram projetos de pesquisa e/ou extensão na área educacional e possuíam experiência em estágio docente com o público infantojuvenil.
Os juízes obtiveram pontuações entre cinco e 90 pontos, com uma mediana de 24 pontos (Tabela 1). Considerando a alta pontuação, foram julgados aptos para avaliar e realizar considerações importantes sobre o Arboedu.
A Tecnologia Educacional foi validada e obteve o IVC-Geral de 0,99 em ambos os perfis, com Percentual de Concordância Geral entre os especialistas de 99,33%, acima do ponto de corte em cada domínio analisado20. Os resultados, conforme pode ser observado na Tabela 2, demonstram a adequação da tecnologia educacional diante dos parâmetros estabelecidos na avaliação pelos juízes. Os IVC e os altos Percentuais de Concordância refletiram os elogios e sugestões registrados nos campos abertos de cada domínio.
Domínio Objetivos
No domínio objetivos os 10 juízes do perfil saúde atribuíram IVC-I para cada item proposto com variação de 0,90 e 1,00. Assim o IVC do domínio foi de 0,99 e o percentual de concordância de 98,57%. Na opinião do grupo saúde, destaca-se o IVC-I do item 4 (Quadro 1) que verifica se o aplicativo possibilita a reflexão sobre as possíveis redes de vigilância, prevenção e controle que possam ser acionadas para a redução dos criadouros dos mosquitos vetores. Este foi o único item do domínio que recebeu uma avaliação neutra (NCND), sob a justificativa do especialista da área de saúde de que “a reflexão ainda é inicial, e talvez o aplicativo devesse estimular dentro dos desafios momentos e espaços para o debate coletivo, propondo uma frase ou situação problema para além das perguntas”. Mesmo assim, o item em questão apresentou um índice de concordância de 0,90.
Sob avaliação do perfil educação, todos os itens do domínio “Objetivos” obtiveram IVC-I máximo (1,00). O item 3 (Quadro 1) - o aplicativo possibilita a reflexão crítica sobre os potenciais impactos da mudança de hábitos/práticas socioambientais, teve um maior número de avaliações “Concordo Parcialmente”. Não foram registradas justificativas.
Domínio Apresentação e Amigabilidade
Sob a análise do perfil saúde, o IVC dos itens foi 1,00, gerando um IVC-D de 1,00 e um percentual de concordância de 100%. O item que verifica se a linguagem utilizada no aplicativo é atrativa para o público adolescente, recebeu o maior quantitativo de Concordância Parcial (CP), justificadas por “há alguns erros gramaticais, que faz uso de expressões e palavras complexas, e que faz questionamentos sobre qual a resposta incorreta durante o quiz”.
Na avaliação do perfil educação, o índice de concordância dos itens (IVC-I) variou entre 0,93 e 1,00, gerando um índice de concordância (IVC-D) de 0,99 e um percentual de concordância de 98,83%. Os itens com menor índice de validação são: 2 - o aplicativo fornece estímulos motivacionais e 4 - a linguagem utilizada no aplicativo é atrativa para o público adolescente.
O alto Percentual de Concordância deste domínio (99,41%) indica que a interação do público-alvo com a tecnologia e a praticidade na sua utilização foram bem avaliados.
Domínio Conteúdo
Este domínio recebeu um percentual de concordância de 100%, com IVC-I e IVC-D igual a 1,00, na avaliação do perfil saúde. Na avaliação dos juízes do perfil educação, apenas três questões receberam IVC-I inferior a 1,00, com percentual de concordância de 99,18%: i) sobre o ciclo de vida do Aedes e de telagem de janelas e reservatórios de água; ii) sobre estratégias de prevenção das arboviroses e combate ao Aedes; e iii) sobre o ciclo reprodutivo dos vetores.
O domínio conteúdo foi avaliado com um IVC-Domínio de 0,99, e um percentual de concordância de 99,09%.
Domínio Relevância
A Relevância do Arboedu foi avaliada pelo perfil saúde com o IVC-D de 0,99, com um percentual de concordância de 98,57%. A avaliação realizada pelo perfil educação, destacou o item que “verifica a construção de experiências de aprendizagem, no que se refere ao adolescente como sujeito ativo nas práticas socioambientais”, com o menor índice de concordância nesse domínio (0,93), refletindo a resposta NCND de um juiz (não apresentou justificativas). O alto IVC-D indica que o Arboedu tem relevância e potencial para a educação em saúde em arboviroses.
Domínio Pressupostos Pedagógicos
Este domínio foi avaliado apenas pelos profissionais da educação, e na opinião destes, todos os itens (Quadro 2) receberam IVC-I, IVC-D e Percentual de Concordância máximos.
DISCUSSÃO
Os resultados da avaliação confirmaram que o Arboedu está apto para alcançar seus objetivos. Ressalta-se que sua eficácia depende da mediação dos professores para alcançar os resultados desejados. A literatura enfatiza que a aplicação de tecnologias educacionais deve favorecer a mediação da aprendizagem, aproximando estudantes e professores como coparticipantes desse processo24. A mediação do professor maximiza os impactos da tecnologia, colaborando para o alcance dos seus objetivos.
Os conteúdos do aplicativo foram propostos com base em referências formais25. Os juízes sugeriram a inclusão da sintomatologia e efeitos da automedicação, que passaram a ser abordados em vídeo introdutório na nova versão. Adicionalmente, os juízes consideraram complexas as questões do Quiz. O banco de questões foi elaborado para contribuir com o desenvolvimento dos adolescentes em termos de argumentação, leitura, escrita, questionamento e pensamento crítico, além de elevar o conhecimento dos alunos na temática. O quiz foi elaborado para ser desafiador, mas sem desestimular a participação dos estudantes, conforme preconiza a literatura26. Equilibrar dificuldade e engajamento é fundamental para conseguir a adesão dos estudantes, o que precisa ser avaliado com este público em estudos futuros.
Em relação à apresentação e amigabilidade, as avaliações referiram a complexidade de termos, estética e feedback. Na medida do possível, o aplicativo móvel procurou utilizar uma linguagem informal e direcionada aos adolescentes do ensino médio. No entanto, alguns termos sobre arboviroses (considerados complexos pelos avaliadores) foram mantidos intencionalmente, por se tratarem de vocabulário necessário para a resolução de testes vestibulares. Os erros gramaticais reportados foram corrigidos.
A interface do aplicativo foi bem avaliada. Uma interface de qualidade proporciona uma melhor interação e comunicação, favorecendo a adesão ao uso de uma solução tecnológica24. O design do aplicativo empregou vídeos, infográficos e elementos gráficos para tal. Outro ponto importante, para a comunicação e para a construção do conhecimento, é o processo de checagem de erros e acertos (com feedbacks)27. No Arboedu, o erro foi utilizado para estimular a reflexão, transformando-o em aprendizado. Os feedbacks foram satisfatoriamente avaliados. No entanto, as mensagens de encorajamento foram melhoradas na nova versão, por solicitação dos avaliadores.
No domínio “Relevância” foram levantadas questões sobre a importância do Arboedu para o enfrentamento de arboviroses. O aplicativo buscou facilitar a inserção de atividades práticas na escola que estimulassem a criatividade e o compartilhamento de experiências, de acordo com a BNCC15. Ainda, o Arboedu procurou estimular os estudantes a assumir um papel ativo nas ações sugeridas. Segundo pesquisadores4, para uma melhor efetividade das ações de educação em saúde, é necessária a participação ativa da comunidade estimulando mudança de hábitos, atitudes e práticas da sociedade.
O domínio dos pressupostos pedagógicos é o mais significativo na avaliação do Arboedu. Neste domínio, com a avaliação máxima obtida, foi demonstrada uma coerência da tecnologia com a proposta pedagógica na qual foi fundamentada. O Arboedu utilizou recursos pedagógicos diversos, como gamificação e ludicidade, para potencializar a aprendizagem colaborativa, a motivação e o engajamento, como preconiza a literatura28. Estudos sobre o papel da gamificação como recurso potencializador da experiência do usuário, relatam que esta contribui positivamente para o envolvimento do aluno29. Com o alinhamento à BNCC, o Arboedu buscou atrelar a tecnologia ao currículo escolar, contribuindo para a prática docente na temática das arboviroses30.
Além da construção do conhecimento, a proposta do Arboedu é promover mudanças sustentáveis nas práticas protetivas em saúde do público infantojuvenil, o que consiste em um desafio4. Para tal, foram utilizadas formas de gamificação, como o incentivo ao descarte de resíduos sólidos recicláveis nos pontos de coleta das companhias provedoras de energia elétrica. Este aspecto foi positivamente avaliado pelos juízes, mas precisa ter sua eficácia avaliada em pesquisas futuras, junto ao público-alvo.
No contexto da escola pública, é fundamental o uso de recursos tecnológicos para melhorar o envolvimento dos estudantes na sua aprendizagem. Isto é um desafio, no que concerne às dificuldades de financiamento da educação no Brasil. Uma tecnologia como o Arboedu precisa de recursos públicos estaduais (gestão do ensino médio) para alojamento da plataforma web, que trará insumos para a educação e saúde. A comprovação de seu potencial, pode tornar viável o convencimento dos órgãos públicos, considerando seus benefícios tanto para educação como para a saúde e sua importância para o enfrentamento de arboviroses no cenário nacional, que tem se agravado ainda mais com o crescimento dos casos de Febre do Oropouche.
CONCLUSÃO
O Arboedu é uma tecnologia educativa que se propõe a auxiliar no engajamento de adolescentes e suas famílias na adoção de medidas protetivas em relação às arboviroses. Este estudo evidenciou, com um processo de validação com juízes das áreas de saúde e educação, a adequação do Arboedu para esta finalidade, com um IVC-Geral de 0,99, considerando os domínios: objetivos, apresentação e amigabilidade, conteúdo, relevância e pressupostos pedagógicos. Os critérios de acessibilidade e eficiência relativos à “usabilidade” não foram avaliados nesta etapa, constituindo uma limitação deste estudo. Esta 1ª versão da ferramenta não contemplou formas de acesso especiais para diferentes tipos de estudantes. Por sua vez, o critério eficiência será avaliado em versões futuras maia maduras do software.
A validação de uma ferramenta educativa com um alto grau de aceitação por professores e profissionais de saúde assegura a sua aderência a processos de educação e práticas de saúde, e indica a aceitação potencial pelo público-alvo. As próximas pesquisas incluem: a avaliação da aceitação pelo público-alvo, a identificação de impactos na aquisição de conhecimento, na sustentabilidade de práticas saudáveis e na redução de casos de arboviroses. Não menos importantes, os impactos nos níveis de autoeficácia dos estudantes em relação às arboviroses, também requerem investigações.
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NOTAS
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ORIGEM DO ARTIGO
Extraído da dissertação - Validação de uma Tecnologia Educacional Baseada em Gamificação para o Enfrentamento de Arboviroses no Ensino Médio, apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Saúde da Criança e do Adolescente, do Centro de Ciências Médicas da Universidade Federal de Pernambuco, em 2022.
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FINANCIAMENTO
As autoras gostariam de agradecer o apoio recebido da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Brasil (CAPES), por meio do edital PROPG n.º 02/2021, e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), através do edital PROPESQI n.º 02/2022.
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APROVAÇÃO DE COMITÊ DE ÉTICA EM PESQUISA
Aprovado no Comitê de Ética em Pesquisa do Centro de Ciências da Saúde da Universidade Federal de Pernambuco, parecer n.º 4.916.336, Certificado de Apresentação para Apreciação Ética n.º 30742320.8.0000.5208.


