Open-access “ÀS VEZES, É SÓ UMA PALAVRA”: A PROMOÇÃO DA SAÚDE COMO RESISTÊNCIA NO ENVELHECER PELO SUS

RESUMO

Objetivo:   Analisar as percepções de pessoas idosas sobre o envelhecimento ativo e as ações de promoção da saúde desenvolvidas na Atenção Primária à Saúde a partir de suas vivências no território.

Método:  Pesquisa qualitativa realizada em uma Unidade Básica de Saúde do litoral catarinense com sete pessoas idosas participantes de um grupo de caminhada. A coleta incluiu observação participante, entrevistas individuais e grupo de negociação. As falas foram analisadas por meio do método comparativo constante e sistematizadas em uma matriz de forças, fragilidades, oportunidades e ameaças.

Resultados:  Os resultados evidenciam a existência de práticas potentes de cuidado sustentadas por vínculos afetivos, participação ativa e redes de apoio informal. No entanto, apontam também limites estruturais, como a ausência de profissionais da saúde mental, a escassez de espaços adequados e a falta de sistematização das ações coletivas. As oportunidades estão associadas à integração com outros serviços e à inventividade cotidiana das pessoas idosas. As ameaças decorrem do adoecimento, da sobrecarga e do isolamento.

Conclusão:  A promoção da saúde na Atenção Primária à Saúde, quando construída com base na escuta e na autonomia dos sujeitos, assume contornos de resistência frente à precarização dos serviços públicos e à invisibilidade da velhice nas políticas de saúde.

DESCRITORES:
Atenção primária à saúde; Promoção da Saúde; Envelhecimento; Idoso; Pesquisa qualitativa

ABSTRACT

Objective:   to analyze the perceptions of older adults regarding active aging and health promotion actions developed in Primary Health Care based on their experiences in the territory.

Method:   this is a qualitative study conducted in a Basic Health Unit on the coast of Santa Catarina with seven older adults participating in a walking group. Data collection included participant observation, individual interviews, and group negotiation. The statements were analyzed using the constant comparative method and systematized in a matrix of strengths, weaknesses, opportunities, and threats.

Results:   the results show the existence of powerful care practices supported by affective bonds, active participation, and informal support networks. However, they also point to structural limitations, such as the absence of mental health professionals, the scarcity of adequate spaces, and a lack of systematized collective actions. Opportunities are associated with integration with other services and the daily inventiveness of older adults. Threats stem from illness, overload, and isolation.

Conclusion:   when health promotion in Primary Health Care is built on listening to and empowering individuals, it takes on characteristics of resistance against the precariousness of public services and the invisibility of old age in health policies.

DESCRIPTORS:
Primary Health Care; Health promotion; Aging; Older adult; Qualitative research

RESUMEN

Objetivo:  analizar las percepciones de las personas mayores sobre el envejecimiento activo y las acciones de promoción de la salud desarrolladas en la Atención Primaria de Salud, a partir de sus experiencias en el territorio.

Método:  investigación cualitativa realizada en una Unidad Básica de Salud en la costa de Santa Catarina con siete personas mayores que participaron en un grupo de caminata. La recolección de datos incluyó observación participante, entrevistas individuales y negociación grupal. Las afirmaciones se analizaron mediante el método comparativo constante y se sistematizaron en una matriz de fortalezas, debilidades, oportunidades y amenazas.

Resultados:  los resultados muestran la existencia de prácticas de cuidado eficaces, sustentadas en vínculos afectivos, participación activa y redes informales de apoyo. Sin embargo, también señalan limitaciones estructurales, como la ausencia de profesionales de la salud mental, la escasez de espacios adecuados y la falta de sistematización de las acciones colectivas. Las oportunidades se asocian con la integración con otros servicios y la creatividad cotidiana de las personas mayores. Las amenazas provienen de la enfermedad, la sobrecarga y el aislamiento.

Conclusión:  la promoción de la salud en Atención Primaria de Salud, al basarse en la escucha y el empoderamiento de las personas, se caracteriza por la resistencia a la precariedad de los servicios públicos y la invisibilidad de la vejez en las políticas sanitarias.

DESCRIPTORES:
Atención primaria de salud; Promoción de la salud; Envejecimiento; Personas mayores; Investigación cualitativa

INTRODUÇÃO

O Brasil vive um processo acelerado de envelhecimento populacional, sem que as políticas públicas acompanhem, em ritmo e profundidade, as transformações exigidas por esse novo cenário1. Embora o país conte com marcos legais importantes, como a Política Nacional de Saúde da Pessoa Idosa2, a Política Nacional de Promoção da Saúde3 e a Política Nacional de Atenção Básica4, observa-se um abismo entre os dispositivos normativos e a realidade cotidiana dos serviços de saúde5-6.

A Atenção Primária à Saúde (APS), considerada a principal porta de entrada do Sistema Único de Saúde (SUS) e coordenadora do cuidado, é o espaço estratégico para a promoção do envelhecimento ativo e saudável. No entanto, em muitas localidades, suas ações permanecem fragilizadas por desfinanciamento, sobrecarga de trabalho e lógicas gerenciais que priorizam metas quantitativas em detrimento do vínculo e da integralidade7-8. Essa realidade impõe limites à realização de ações coletivas, tão fundamentais para a promoção da saúde e o fortalecimento da autonomia das pessoas idosas 9-10.

Diante disso, a escuta das pessoas idosas se torna essencial para compreender os sentidos atribuídos às práticas de cuidado, os desafios enfrentados na APS e os caminhos possíveis para sua transformação. Quando as pessoas idosas são envolvidas nos processos avaliativos, deixam de ser vistas como público-alvo passivo e assumem seu lugar como protagonistas da atenção em saúde. A avaliação construída com os sujeitos, e não sobre eles, amplia o horizonte democrático do SUS e possibilita visibilizar experiências que escapam aos dados gerenciais e indicadores de desempenho11,12.

Ouvi-las é mais do que reconhecer suas demandas: é legitimar seus saberes, dar visibilidade às práticas que sustentam o cuidado no cotidiano e fortalecer o vínculo entre serviços e usuários. A escuta qualificada permite identificar não apenas os limites do cuidado ofertado, mas também as estratégias que a própria comunidade mobiliza para resistir e reinventar o viver13.

Assim, este artigo tem como objetivo analisar as percepções de pessoas idosas sobre o envelhecimento ativo e as ações de promoção da saúde desenvolvidas na APS, a partir de suas vivências no território. O estudo busca compreender os sentidos atribuídos ao cuidado, os desafios enfrentados e as possibilidades de transformação da atenção à saúde a partir da participação ativa das pessoas idosas.

MÉTODO

Este artigo integra uma pesquisa de doutorado em andamento. O objetivo é compreender desafios e oportunidades para a promoção do envelhecimento ativo na APS. A abordagem é a Avaliação de Quarta Geração (AQG), de Guba e Lincoln14. Trata-se de um método qualitativo, construtivista, dialógico e participativo. Os participantes são reconhecidos como coautores do processo. A coleta e a análise ocorrem por meio do Círculo Hermenêutico-Dialético (CHD) e as Reivindicações, Preocupações e Questões (RPQs) orientam o percurso. O CHD promove negociação de sentidos e construção coletiva das interpretações.

Essa etapa da pesquisa ocorreu entre fevereiro e abril de 2025. O campo foi uma Unidade Básica de Saúde (UBS) de um município do litoral catarinense. A UBS foi sorteada entre equipes com ações regulares de promoção do envelhecimento ativo. Esse levantamento prévio, dentre as UBS que desenvolviam ou não ações voltadas para o envelhecimento ativo e saudável foi realizado em dezembro de 2024 pela pesquisadora. Na época da coleta, o município contava com 18 UBS e 28 Equipes de Saúde da Família (eSF).

Participaram sete pessoas idosas do grupo de caminhada da UBS. O grupo se reúne três vezes por semana e é acompanhado por profissionais de saúde da unidade. A pesquisadora realizou observação participante por cerca de 70 horas. Além disso, houve o acompanhamento nas caminhadas, conversas presenciais e trocas no WhatsApp do grupo. Também manteve um diário de campo para apoiar a análise.

O primeiro participante foi indicado por uma Agente Comunitária de Saúde (ACS). Os demais foram indicados em cadeia pelos próprios participantes durante o CHD. Os critérios de inclusão foram idade ≥60 anos, vínculo com a UBS, participação ativa e condições cognitivas adequadas pelo Mini Exame do Estado Mental15. Todos atenderam aos critérios e não houve recusas ou desistências. Os convites subsequentes foram feitos pela pesquisadora, seguindo o encadeamento do CHD, em contatos presenciais e combinados individuais.

As entrevistas foram realizadas nas residências, em dias e horários definidos pelos próprios participantes e ocorriam sem a presença de terceiros, assegurando privacidade. Cada entrevista durou entre 10 e 40 minutos. O roteiro iniciou com três perguntas disparadoras (ações oferecidas pela UBS; impactos na saúde; sugestões de novas atividades). Ao final do CHD, totalizaram-se dez questões, incorporadas a partir das RPQs emergentes. A coleta de dados foi encerrada quando as entrevistas sucessivas passaram a indicar a estabilização das RPQs e das construções negociadas.

As entrevistas foram gravadas em áudio, por meio de um smartphone, após o consentimento formalizado no Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). Para garantir o anonimato, os participantes escolheram o nome de um chá que remete às práticas de saúde das pessoas idosas. A transcrição foi manual, com apoio do Microsoft Word 365. A pesquisadora é nutricionista, mestre em Saúde e Gestão do Trabalho e doutoranda em Promoção da Saúde. Possui experiência em pesquisa qualitativa e desenvolve suas atividades laborais na APS. Cabe destacar que não havia relação prévia com os participantes. Para reflexividade e controle de vieses, utilizou diário reflexivo, triangulação entre fontes (entrevistas, observação e validação) e registro das decisões analíticas.

A análise seguiu o Método Comparativo Constante14. Para tal, fez-se leitura flutuante e crítica, seguida, codificação linha a linha. As unidades de sentido foram comparadas de forma contínua, considerando frequência, intensidade e pertinência. Houve reorganização iterativa em categorias provisórias. Por fim, integrou-se a interpretação à luz das RPQs emergentes, do diário de campo e posteriormente validadas na sessão de negociação com os participantes.

Antes do grupo de negociação, os participantes receberam previamente a transcrição de sua entrevista para darem sua anuência. Após o aceite das transcrições, os participantes receberam um material síntese. O documento trazia categorias provisórias e trechos ilustrativos, servindo para leitura e comentários. A negociação final ocorreu em abril de 2025, na casa de uma participante, sendo que cinco das sete pessoas compareceram. O encontro durou cerca de 90 minutos. As categorias foram apresentadas e discutidas e grupo reconheceu os resultados como legítimos. Não houve solicitações de alteração ou pedido de exclusão de alguma das categorias.

Os achados foram organizados em matriz SWOT. As fortalezas e fragilidades representam o ambiente interno das ações na APS e as oportunidades e ameaças representam o ambiente externo que influencia sua realização. A matriz funcionou como dispositivo pedagógico e dialógico, tornando visíveis tensões e potencialidades apontadas pelas próprias pessoas idosas.

O estudo foi aprovado pelos Comitês de Ética em Pesquisa da Unidade Central de Educação Faem Faculdade e da Universidade Cesumar. Foi conduzido e relatado conforme as diretrizes do COREQ-3216, e todos os dados coletados estão integralmente disponíveis para acesso e consulta livre no Mendeley Data.

Para aprimorar a clareza textual e a revisão ortográfica, foi utilizada uma ferramenta de Inteligência Artificial generativa (ChatGPT, versão GPT-4). Esse recurso foi empregado exclusivamente como apoio à edição do manuscrito, não tendo sido utilizado na análise, interpretação ou produção dos dados, tampouco na escrita do texto científico. As autoras revisaram integralmente o conteúdo final e assumem total responsabilidade pela integridade, originalidade e rigor científico da publicação17.

RESULTADOS

Os participantes têm entre 60 e 80 anos, sendo seis mulheres e um homem. O tempo de participação no grupo de caminhada variava entre dois e doze anos. Os participantes referiram condições como hipertensão, diabetes, fibromialgia e outras doenças crônicas. Nenhum deles é natural do município, mas escolheram permanecer na cidade para viver o processo de envelhecimento com maior qualidade de vida.

A partir dessa escuta, foi construída uma matriz SWOT (Quadro 1) que sistematiza os sentidos atribuídos às práticas de promoção da saúde na APS, com base nas vivências relatadas pelas pessoas idosas. A matriz, apresentada a seguir, organiza-se em quatro construções: fortalezas, fragilidades, oportunidades e ameaças, elementos que, combinados, revelam tanto a potência quanto os limites das ações desenvolvidas.

Quadro 1 -
Análise SWOT das práticas de promoção da saúde na Atenção Primária à Saúde, pela perspectiva das pessoas idosas. Navegantes, SC, Brasil, 2025. (n= 7).

Apresentamos a seguir os principais achados, a partir das fortalezas emergidas nas falas das pessoas idosas. As fragilidades, oportunidades e ameaças identificadas serão apresentadas em sequência. As construções apresentadas nos resultados correspondem às RPQs negociadas com os participantes ao longo do CHD.

Fortalezas: vínculos, movimento e pertencimento no cuidado na APS

As fortalezas construídas pelas pessoas idosas dizem respeito aos vínculos com os profissionais da eSF, à regularidade das atividades coletivas e ao reconhecimento do grupo como espaço de apoio e convivência. As falas destacam acolhimento, escuta e presença no cotidiano, tanto na unidade quanto no território.

Basta a gente chegar na porta, elas já vêm com aquele sorrisão, com aquela alegria delas, nos atender (Cavalinha).

Eles vêm na casa da gente. Conversam, ajudam. São muito queridos.” (Losna)

“Todos [...] são cheios de carinho para oferecer, de amor e de abraços.” (Melissa)

Outra fortaleza recorrente foi a participação no grupo de caminhada, descrito como atividade física regular que favorece a interação social, a organização da rotina e o cuidado com a saúde física e emocional. As caminhadas foram mencionadas como compromisso semanal e espaço de convivência:

“Segunda, quarta e sexta eu tenho um compromisso.” (Lavanda)

“Caminhar me ajuda, senão eu só ficava na rede.” (Alecrim)

Os relatos também mencionam benefícios emocionais, como melhora do humor, redução do isolamento e possibilidade de compartilhar experiências pessoais.

“Os meus exercícios me tiraram da depressão e tiraram de tudo quanto era coisa ruim.” (Cavalinha)

Às vezes eu fico com aquela coisa guardada, não tem com quem conversar, no dia que eu saio com a caminhada, eu aproveito já, a conversa e conto tudo, as novidades [...].” (Lavanda)

Durante a pandemia, o WhatsApp emergiu como território de cuidado compartilhado. Mesmo em meio ao distanciamento físico, o grupo permaneceu ativo, enviando receitas, conselhos e palavras de ânimo. O digital foi reapropriado como espaço de convivência e solidariedade:

“A gente se comunica pelo grupo (WhatsApp)... mandamos força, notícia.” (Cavalinha)

“Sempre enviam ali, informações importantes pra gente, do dia a dia, receitas, de coisas saudáveis, sempre orientando a gente.” (Melissa)

Além disso, os relatos evidenciaram a participação ativa das pessoas idosas na organização das atividades. Dentre elas, destaca-se o acolhimento de novos integrantes e a realização de confraternizações, fortalecendo o sentimento de pertencimento e convivência:

“A gente decide em grupo se é melhor. [...] Hoje eu tenho meus projetos.” (Cavalinha)

“A gente faz também as nossas festinhas [...] as nossas confraternizações. Essa convivência, é maravilhosa.” (Melissa)

Fragilidades: limites estruturais e instabilidade do cuidado coletivo

As fragilidades identificadas referem-se a limitações estruturais e organizacionais das ações de promoção da saúde na APS. Uma das fragilidades mais recorrentes diz respeito à falta de atividades diversificadas e à ausência de espaços adequados para práticas integrativas, sociais e corporais. As falas expressam o desejo por iniciativas que ampliem as possibilidades de participação para além da caminhada:

“Tá faltando uma casa de apoio para artesanato, onde a gente possa [...] fazer os artesanatos [...].” (Cavalinha)

“[...] se tivesse um Pilates, era bom [...] uma sala, assim para gente fazer, uma vez por semana, uma tarde.” (Lavanda)

Outra fragilidade apontada foi a ausência de atendimento psicológico e de grupos terapêuticos voltados à pessoa idosa. As falas evidenciam demandas por escuta qualificada, apoio emocional e espaço de conversas estruturados:

“Nós podíamos ter [...] um grupo de psicologia, ter [...] o psicólogo ali para nós.” (Losna)

“Nós somos nossos próprios psicólogos, nossos terapeutas.” (Cavalinha)

A limitação dos horários e dos locais das atividades físicas emerge como um obstáculo relevante. A rigidez da oferta e a concentração das ações em poucos turnos são fatores que dificultam o acesso de parte do grupo:

“Podia ser melhor se a gente pudesse ir naquele dia X e fazer a ginástica da gente [...] E de noite que é bom.” (Losna)

“[...]Tem aquele dia, aquele horário cedo. Senão depois não tem mais.” (Camomila)

Por fim, os relatos apontam a falta de sistematização das ações coletivas na APS, percebidas como iniciativas instáveis e dependentes da atuação de profissionais específicos. A continuidade das atividades é relatada como vinculada às pessoas que as conduzem, e não a uma organização institucional consolidada.

“A Andréia começou com o grupo nosso lá no postinho [...]. (Losna)

“Junto com esse grupo, junto com as meninas da UBS [...]. Vai a Lili com o seu aparelhinho [...] não nos falta nada.” (Cavalinha)

Oportunidades: brechas no cotidiano e expansão do cuidado no território

As oportunidades apontadas pelas pessoas idosas dizem respeito à expansão das ações de promoção da saúde para além da unidade. Destaca-se a circulação por equipamentos sociais e possibilidade de ampliar atividades no território. A integração com serviços comunitários aparece como caminho para fortalecer vínculos e diversificar experiências, apoiando o cuidado em dimensões sociais e afetivas.

“[...] a maioria do nosso grupo tá no CRAS (Centro de Referência de Assistência Social) com outras coisas [...] nós [...] fizemos enxovalzinhos.” (Losna)

“Participo da capoterapia, aqui no ginásio de esporte, a ginástica que é musculação. Nós temos o CRAS também.” (Cavalinha)

Além disso, relatam oportunidades ligadas ao aprendizado mútuo e ao reconhecimento do grupo como espaço de troca cotidiana. As falas indicam que a participação no coletivo cria circulação de saberes e incentiva o autocuidado, inclusive por meio de pequenas estratégias práticas compartilhadas no convívio.

“Até trouxe da minha amiga aqui para fazer (o bordado da toalha), porque a minha amiga não consegue fazer direito. Eu tô ensinando ela.” (Losna)

“A gente aprende muito [...] às vezes a gente idosa esquece da água [...] aprende receitas, incentivo.” (Melissa)

Por fim, as pessoas idosas reconhecem o grupo como oportunidade de reorganizar a vida cotidiana, com efeitos sobre a convivência social e o bem-estar emocional. A participação passa a abrir espaço para sair de casa, conversar, circular e sustentar a própria rotina.

“Agora eu saio, converso [...] tá sendo ótimo, para minha mente.” (Lavanda)

“Você tem alegria de participar [...] isso faz muito bem para gente, né? Pro nosso emocional, pro nosso psicológico, pro nosso físico.” (Melissa)

Ameaças: quando o cuidado se desfaz no silêncio das ausências

As ameaças identificadas pelas pessoas idosas referem-se a fatores que dificultam ou interrompem a participação nas ações de promoção da saúde. Entre elas, destacam-se as condições de saúde, a sobrecarga doméstica e o isolamento social.

Uma das ameaças mais recorrentes está relacionada às próprias condições de saúde. Doenças crônicas, sintomas físicos e orientações médicas impõem pausas ou afastamentos das atividades coletivas.

“Devido ao fato de ser portadora de fibromialgia [...], a idade, cada uma com seu problema.” (Melissa)

“Fiquei parada há quase uns três meses [...] porque eu fiquei tonta [...] evitei de caminhar [...].” (Losna)

“[...] eu operei minha cabeça de câncer de pele e o doutor me proibiu [...] de andar esse sol quentão [...].” (Cavalinha)

Além das limitações físicas, destaca-se a sobrecarga doméstica e emocional, especialmente entre as mulheres idosas. As falas evidenciam o acúmulo de responsabilidades no cotidiano e o impacto emocional desse processo:

“Pra nós ficar em casa, terceira idade, só cuidando dos nossos afazeres e neto [...] traz a depressão, traz a doença.” (Cavalinha)

“Aqui dentro da casa da gente [...] às vezes é só uma palavra, só uma palavra basta [...] isso faz muita diferença.” (Losna)

“Porque o grupo a gente acostumou [...] mas eu sou que nem uma bomba. Tem dias [...] que se tu encostar em mim, capaz de eu explodir [...].” (Losna)

Por fim, o isolamento social também se apresenta como ameaça relevante. A ausência de vínculos no território, associada à tristeza e à falta de motivação, interfere diretamente na adesão às ações coletivas.

“Eu vim lá do Rio Grande, eu era parece um bicho. Porque eu não tinha amizade com ninguém [...].” (Camomila)

“Às vezes a gente [...] levanta triste, cheio de dor, tudo travado, não dá vontade de sair da porta para fora [...].” (Melissa)

“[...] Porque eu ficava só em casa, dormia até tarde [...]”. (Lavanda)

DISCUSSÃO

As percepções compartilhadas pelas pessoas idosas revelam que as práticas de promoção da saúde na APS ainda se constroem, principalmente, nos interstícios das políticas formais7,8,18. São práticas sustentadas por vínculos afetivos, esforços voluntários e iniciativas pontuais e não por diretrizes institucionalizadas ou recursos estruturais estáveis19. O cuidado em saúde, para ser emancipador, precisa se constituir como encontro entre sujeitos, e não como aplicação linear de protocolos10.

Na construção das fortalezas, o vínculo com os profissionais da eSF emerge como um dos elementos mais potentes na experiência de cuidado 5,7,20. Trata-se de um vínculo que ultrapassa a dimensão técnica e que se ancora no reconhecimento mútuo, na presença constante e na confiança construída. Quando essa presença se mantém ao longo do tempo, a continuidade relacional ganha densidade. Em pessoas idosas, ela se relaciona a desfechos mais favoráveis e a menor uso evitável de serviços. Assim, vínculo não é apenas afeto, é uma forma concreta de sustentação do cuidado21.

Essa característica, no entanto, contrasta com a fragilidade estrutural do SUS, que se manifesta pela rotatividade de profissionais, contratos precarizados e sobrecarga de trabalho20. O cuidado torna-se, então, uma construção coletiva apesar do sistema, e não por causa dele22.

Esses vínculos se estendem para além dos espaços formais de cuidado. As pessoas idosas organizam-se para acolher novos integrantes e apoiar aquelas com maiores limitações físicas. Promovem encontros coletivos e sustentam momentos de convivência com recursos próprios. Aniversários e confraternizações passam a integrar a rotina do grupo. Essas práticas expressam autonomia e protagonismo no envelhecer, vividos no cotidiano9,18,22.

Do mesmo modo, a força do grupo de caminhada e das redes afetivas que se formam em torno dele revelam o quanto os dispositivos coletivos são capazes de ressignificar a vida cotidiana das pessoas idosas18,22. A participação social opera como mediadora de sentido e vínculo no cotidiano e sustenta o bem-estar no envelhecer18,23,24. É uma prática negociada no território, atravessada por pertencimento, acesso e reconhecimentos cotidianos. Com isso, a experiência do grupo se aproxima de um campo mais amplo de produção de laços e sentido no envelhecer25.

Como discutem Buss, Pelegrini Filho e Carvalho9, é no espaço da coletividade que se forjam sentidos de pertencimento, identidade e bem-estar. No entanto, a persistente ausência de políticas que garantam espaços adequados, profissionais qualificados e continuidade das ações aponta para um descompasso entre a retórica da promoção da saúde e sua efetivação prática. Esse descompasso revela o limite das abordagens que reconhecem a promoção da saúde como discurso, mas não a sustentam como política pública estruturante26.

As fragilidades apontadas pelas pessoas idosas revelam um cotidiano tensionado entre o cuidado informal que resiste e a ausência de sustentação institucional. A falta de atividades diversificadas e de espaços adequados para práticas integrativas e sociais limita a participação e silencia demandas relacionadas ao lazer, à criação e ao fortalecimento do corpo. Soma-se a isso a ausência de atendimento psicológico e de grupos terapêuticos estruturados, especialmente em um contexto marcado por perdas, solidão e sofrimento psíquico27. Solidão, sofrimento psíquico e ausência de suporte emocional atravessam a experiência do envelhecer e impactam a participação social19.

As falas evidenciam o esforço coletivo para suprir essas ausências. Diante da falta de apoio psicológico, as próprias pessoas idosas constroem espaços de escuta entre si. Compartilham angústias, oferecem apoio emocional e cuidam umas das outras. Esse cuidado autogerido convive com a percepção de abandono e com a naturalização da precariedade.

A organização dos serviços impõe barreiras à participação. Essas barreiras decorrem da rigidez dos horários e da dependência de profissionais específicos para a manutenção das ações coletivas7. A ausência de políticas que sustentem essas iniciativas como direito fragiliza a continuidade do cuidado. Como resultado, as práticas coletivas na APS tornam-se instáveis6,27. Essas fragilidades não se limitam a falhas operacionais. Elas apontam para um modo de governar que negligencia o envelhecimento e precariza a saúde coletiva como política pública28.

A organização do cuidado também desconsidera a diversidade das experiências de envelhecimento. Limitações físicas, contraindicações médicas e condições climáticas interferem na participação. A lógica dos serviços impõe barreiras silenciosas. O cuidado passa a depender da adaptação da pessoa idosa ao serviço, e não do serviço às suas necessidades.

As oportunidades reconhecidas pelos participantes como a integração com o CRAS, o desejo por novas atividades e a autonomia nos processos decisórios apontam caminhos potentes para uma APS mais inclusiva, horizontal e intersetorial18. Essas propostas emergem da experiência concreta e do convívio coletivo. Não são expectativas abstratas e indicam caminhos possíveis para o fortalecimento da autonomia e da corresponsabilização no cuidado7,22.

As oportunidades também se constroem no cotidiano. Elas emergem entre uma caminhada e outra, nas conversas informais e nos encontros espontâneos. O grupo passa a ser reconhecido como espaço de troca, aprendizado e apoio. Nesse movimento, o cuidado deixa de ser apenas oferta institucional e passa a ser produzido coletivamente.

Além disso, os processos de aprendizado mútuo observados nas práticas coletivas fortalecem redes de apoio, incentivam o autocuidado e reposicionam a pessoa idosa como sujeito ativo na produção da saúde11,18. Autonomia e tomada de decisão configuram dimensões estruturantes do envelhecimento saudável em contextos comunitários22,23. Porém, como alertam Burmann e Custódio29, sem a institucionalização dessas práticas como direito e sem o reconhecimento da velhice como prioridade nas agendas públicas, essas oportunidades permanecem como iniciativas frágeis, sustentadas, em grande medida, por esforços individuais.

As ameaças, por sua vez, evidenciam os efeitos da negligência institucionalizada: o sofrimento psíquico, o isolamento, as barreiras físicas e a sobrecarga emocional que recaem, sobretudo, sobre as mulheres idosas27. Ao delegar ao indivíduo a responsabilidade pelo cuidado de si, o Estado se exime de seu papel.

Esse deslocamento não é casual. AbuElKheir-Mataria e Chun30 descrevem esse movimento como parte de reformas neoliberais, que priorizam privatização, competição e eficiência econômica, em detrimento da universalidade e da equidade. Nesse processo, o cuidado deixa de ser direito e passa a ser tratado como serviço. Essa é a mesma lógica que transforma políticas sociais em mercadorias e fragiliza a função redistributiva do Estado28.

O sofrimento psíquico aparece como obstáculo à participação. Tristeza, desânimo e isolamento atravessam o cotidiano. Em alguns momentos, a permanência em casa se impõe. A ausência de espaços estruturados de escuta amplia essas dificuldades e fragiliza a adesão às práticas coletivas.

Neste contexto, a promoção da saúde aparece, paradoxalmente, como um movimento de resistência. Resistência à lógica da produtividade, à medicalização do envelhecer, à desresponsabilização do Estado6. Resistência que se faz no cuidado entre pares, na partilha de receitas no WhatsApp, no abraço dado no corredor da UBS.

O envelhecer pelo SUS se revela em práticas ordinárias. Ele se manifesta nos grupos que persistem, nas relações que se mantêm e nas estratégias construídas para seguir participando. Entre limites institucionais e vínculos afetivos, o cuidado se reinventa no cotidiano.

Mais do que um registro de narrativas, a escuta realizada neste estudo assumiu caráter avaliativo, constituindo-se como prática participativa e emancipadora, em consonância com os pressupostos da Avaliação de Quarta Geração14. Como afirmam Carneiro e Ayres11, tornar-se visível é também um ato político. Apresentamos cada relato aqui como uma reivindicação pela centralidade da velhice nos projetos de saúde pública. Porque às vezes, como disse Losna, “é só uma palavra. Só uma palavra basta” para cuidar, para resistir, para continuar.

Entre as limitações do estudo, destaca-se o recorte territorial, restrito a uma única UBS e a um grupo específico de atividade. No entanto, esse recorte não compromete a profundidade interpretativa, pois sustenta-se na coerência interna entre método, teoria e dados produzidos. Estudos futuros poderão ampliar essa abordagem, explorando outros territórios, grupos de interesse e articulações intersetoriais, de forma a aprofundar o debate sobre a centralidade da velhice nas políticas públicas.

CONCLUSÃO

Este estudo evidenciou que, mesmo diante de um cenário marcado pela precarização das políticas públicas, especialmente no contexto do envelhecimento, ainda emergem experiências potentes e mobilizadoras nas práticas de promoção da saúde na APS. As falas das pessoas idosas revelaram tanto os limites impostos pelas ausências institucionais quanto a capacidade de criar redes, vínculos e sentidos coletivos que sustentam a vida em sua dimensão mais ampliada.

A escuta das pessoas idosas mostrou-se essencial para compreender as contradições que atravessam o cotidiano dos serviços de saúde: de um lado, a fragilidade das estruturas e a fragmentação das ações; de outro, o fortalecimento dos laços e o protagonismo das experiências coletivas. As ações de promoção da saúde, quando construídas com base nos vínculos afetivos e no reconhecimento das subjetividades, tornam-se espaços de resistência frente à lógica produtivista e à medicalização do envelhecer.

Reafirmar o lugar da pessoa idosa como sujeito de direitos e voz ativa no processo de cuidado é um ato político. Mais do que um público-alvo, trata-se de reconhecer nessa população um coletivo que resiste, propõe e transforma. E às vezes, como nos ensinou uma das participantes, tudo começa por uma palavra. Basta escutar.

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NOTAS

  • ORIGEM DO ARTIGO
    Extraído da tese - Desafios e oportunidades para a promoção da saúde à pessoa idosa na Atenção Primária: Avaliação de Quarta Geração, em andamento, do Programa de Pós-Graduação de Promoção da Saúde, da Universidade Universidade Cesumar, em 2026.
  • FINANCIAMENTO
    Não se aplica.
  • APROVAÇÃO DE COMITÊ DE ÉTICA EM PESQUISA
    Aprovado no Comitê de Ética em Pesquisa da Unidade Central de Educação Faem Faculdade, parecer n. 7.299.301 Certificado de Apresentação para Apreciação Ética 141739/2024, e da Universidade Cesumar, parecer n. 7.377.012. CAAE 009094/2025 (UNICESUMAR).
  • DISPONIBILIDADE DE DADOS
    Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo está disponível mediante solicitação ao autor correspondente Aliny de Lima Santos.

Editado por

  • EDITORES
    Editores Associados: Clemente Neves de Sousa.
    Editor-chefe: Gisele Cristina Manfrini.

Disponibilidade de dados

Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo está disponível mediante solicitação ao autor correspondente Aliny de Lima Santos.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    17 Ago 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    18 Out 2025
  • Aceito
    19 Fev 2026
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