Open-access ENSINO DA INTERPRETAÇÃO DE EXAMES POR IMAGEM: ANÁLISE DOS CURRÍCULOS DE ENFERMAGEM EM UNIVERSIDADES BRASILEIRAS

RESUMO

Objetivo:  Descrever os componentes curriculares que contemplam conteúdos teóricos e/ou práticos voltados à interpretação de exames por imagem em cursos de graduação em Enfermagem.

Método:  Estudo documental baseado na análise de 53 Projetos Pedagógicos de Curso de instituições federais de ensino superior. Os dados foram organizados por meio de estatística descritiva, sem necessidade de apreciação ética, conforme a Resolução nº 510/2016. Ainda assim, adotaram-se cuidados éticos quanto à não identificação das instituições, garantindo caráter neutro, descritivo e isento de juízos de valor.

Resultados:  Dos 53 Projetos Pedagógicos analisados, apenas cinco contemplavam disciplinas relacionadas à temática. Sendo três IES no Nordeste, uma no Sul e uma no Sudeste. Duas instituições ofertavam componentes obrigatórios, mas somente uma exigia pré-requisitos técnicos, enquanto as demais disponibilizavam o conteúdo como disciplina eletiva. A carga horária média foi de 45 horas, com ementas pouco detalhadas e limitada clareza quanto à abordagem prática ou ao uso de metodologias inovadoras.

Discussão:  Embora a interpretação de exames por imagem seja relevante para o processo de enfermagem, seu ensino ainda é incipiente. Esse cenário contrasta com as normativas vigentes, evidenciando fragilidades curriculares e a necessidade de atualização alinhada às Diretrizes Curriculares Nacionais e às demandas atuais da saúde.

Conclusão:  O estudo evidencia lacunas nas universidades federais analisadas quanto à interpretação de exames por imagem, apontando para a necessidade de revisão curricular que integre o tema de forma sistemática, ampliando competências e qualificando a atuação profissional.

DESCRITORES:
Enfermagem radiológica e de imagem; Diagnóstico por imagem; Política de educação superior; Profissionais de enfermagem; Formação em enfermagem

ABSTRACT

Objective:  To describe the curricular components including theoretical and/or practical content focused on the interpretation of imaging exams in undergraduate Nursing courses.

Method:  Documentary study based on the analysis of 53 Course Curriculum Proposals from federal higher education institutions. Data were organized using descriptive statistics, without the need for ethical review, in accordance with Resolution No. 510/2016. Nevertheless, ethical precautions were taken regarding the non-identification of the institutions, ensuring a neutral, descriptive character free from value judgments.

Results:  Of the 53 Curriculum Proposals analyzed, only five included subjects related to the theme. There are three higher education institutions (HEI) in the Northeast, one in the South, and one in the Southeast. Two institutions offered mandatory components, but only one required technical prerequisites, while the others offered the content as an elective course. The average course load was 45 hours, with poorly detailed course outlines and limited clarity regarding the practical approach or the use of innovative methodologies.

Discussion:  Although the interpretation of imaging exams is relevant to the nursing process, its teaching is still in its early stages. This scenario contrasts with current regulations, highlighting curricular weaknesses and the need for updates aligned with the National Curricular Guidelines and current health demands.

Conclusion:  The study highlights gaps in the federal universities analyzed regarding the interpretation of imaging exams, pointing to the need for curricular revision that systematically integrates the topic, expanding skills and improving professional performance.

DESCRIPTORS:
Radiological and imaging nursing; Diagnostic imaging; Higher education policy; Nursing professionals; Nursing training

RESUMEN

Objetivo:  Describir los componentes curriculares que incluyen contenido teórico y/o práctico centrado en la interpretación de exámenes de imagen en los cursos de pregrado de Enfermería.

Método:  Estudio documental basado en el análisis de 53 proyectos pedagógicos de cursos de instituciones federales de educación superior. Los datos se organizaron utilizando estadística descriptiva, sin necesidad de revisión ética, de conformidad con la Resolución N° 510/2016. No obstante, se tomaron precauciones éticas con respecto a la no identificación de las instituciones, garantizando un carácter neutral y descriptivo, libre de juicios de valor.

Resultados:  De los 53 Proyectos Pedagógicos analizados, solo cinco incluían temas relacionados con la temática. Hay tres instituciones de educación superior en el noreste, una en el sur y una en el sureste. Dos instituciones ofrecían componentes obligatorios, pero solo una requería requisitos técnicos previos, mientras que las demás ofrecían el contenido como curso optativo. La carga lectiva promedio era de 45 horas, con programas de estudio poco detallados y escasa claridad en cuanto al enfoque práctico o el uso de metodologías innovadoras.

Discusión:  Si bien la interpretación de las pruebas de imagen es relevante para el proceso de enfermería, su enseñanza aún se encuentra en sus primeras etapas. Este escenario contrasta con la normativa vigente, lo que pone de manifiesto las deficiencias del plan de estudios y la necesidad de actualizarlo de acuerdo con las Directrices Curriculares Nacionales y las exigencias sanitarias actuales.

Conclusión:  El estudio pone de relieve las deficiencias de las universidades federales analizadas en lo que respecta a la interpretación de exámenes de imagen, señalando la necesidad de una revisión curricular que integre sistemáticamente el tema, ampliando las competencias y mejorando el desempeño profesional.

DESCRIPTORES:
Enfermería radiológica y de imagen; Diagnóstico por Imagen; Política de educación superior; Profesionales de enfermería; Formación en enfermería

INTRODUÇÃO

A complexidade crescente da assistência à saúde tem elevado a demanda por profissionais de Enfermagem com sólida integração de conhecimentos clínicos especializados1. A categoria está cada vez mais presente em contextos de maior complexidade, o que exige domínio técnico apurado e compreensão dos riscos envolvidos2. Nesse cenário, o conhecimento sobre a interpretação de exames por imagem emerge como uma competência relevante para o planejamento do cuidado, a tomada de decisões clínicas e a qualificação da assistência3.

É oportuno destacar que o conhecimento básico sobre exames de imagem permite ao enfermeiro identificar precocemente alterações clínicas críticas, como pneumotórax, edema agudo de pulmão, hemorragias, deslocamento de dispositivos e sinais inflamatórios4. Nesse contexto, frente à necessidade de apoio técnico para o planejamento dos cuidados de enfermagem, a Resolução COFEN nº 679/2021 aprovou a normatização da realização da ultrassonografia à beira-leito (POCUS) por enfermeiros5. Evidências recentes apontam que, quando executada por profissionais habilitados, a POCUS contribui para intervenções mais seguras, decisões clínicas mais confiáveis e maior autonomia da equipe de Enfermagem, sobretudo em unidades críticas, como UTIs e serviços de emergência6.

Dando respaldo a essa ampliação do escopo profissional, um estudo recente explorou como enfermeiros percebem o uso da ultrassonografia à beira-leito na prática clínica, especialmente na avaliação de acessos vasculares e canulação guiada em pacientes em hemodiálise. Os resultados demonstraram que o POCUS é visto como um recurso capaz de aumentar a segurança do procedimento, reduzir complicações e favorecer decisões clínicas mais assertivas. Os profissionais relataram maior confiança técnica e autonomia ao incorporar essa tecnologia ao cuidado, embora também tenham apontado desafios como a necessidade de treinamento e acesso adequado a equipamentos7.

Contudo no campo da formação acadêmica, persistem fragilidades. Embora haja avanços pontuais, a maioria dos cursos de Enfermagem ainda omite, em suas ementas, conteúdos sobre interpretação de exames de imagem. Essa ausência reflete modelos formativos centrados na técnica e no hospital, que desconsideram a integralidade do cuidado e a atuação crítica no SUS8. Como apontado por estudiosos da área, é urgente reorientar o currículo para além das competências tradicionais, incorporando novas demandas do sistema de saúde e fortalecendo a articulação entre teoria, prática e realidade social9.

Essa competência favorece decisões rápidas e fundamentadas, impactando diretamente a segurança e o desfecho clínico do paciente10. Nessa perspectiva, o domínio técnico sobre recursos da Radiologia não apenas qualifica a assistência direta, mas também a torna mais precisa, ágil e segura. Ao antecipar complicações, subsidiar condutas clínicas e colaborar de forma mais assertiva com a equipe multiprofissional, o enfermeiro contribui para a resolutividade dos serviços de saúde11.

Apesar da relevância dessa temática, ainda é incipiente o conhecimento sobre como os Projetos Pedagógicos de Curso (PPCs) de Enfermagem das Universidades Públicas Federais brasileiras abordam o ensino relacionado à atuação a interpretação de exames de imagem. Diante dessa lacuna, o presente estudo tem como objetivo descrever os componentes curriculares que contemplam conteúdos teóricos e/ou práticos voltados ao uso de exames de imagem por enfermeiros nos cursos de graduação em Enfermagem de universidades federais do Brasil.

MÉTODO

Trata-se de um estudo exploratório e descritivo, com abordagem qualitativa, de natureza documental12. A investigação concentrou-se na análise dos Projetos Pedagógicos de Curso (PPCs) de cursos de graduação em Enfermagem de instituições federais brasileiras, considerando suas versões digitais. O delineamento e o relato do estudo foram orientados pelas diretrizes do Standards for Reporting Qualitative Research (SRQR), assegurando rigor metodológico e transparência na condução da pesquisa13. Durante a preparação deste artigo, os autores não utilizaram ferramentas de Inteligência Artificial.

Inicialmente, foram consideradas no estudo 69 Instituições Federais de Ensino Superior (IFES) brasileiras aptas à oferta de cursos na área da Saúde, conforme dados do sistema eletrônico de informações sobre a regulação da educação superior, o e-MEC14. O Ministério da Educação disponibiliza, por meio dessa plataforma, dados sobre os Projetos Pedagógicos de Curso do ensino superior autorizados no território brasileiro. Realizou-se, então, um censo documental, no qual foram triadas sistematicamente apenas as IES que ofertavam o curso de Graduação em Enfermagem. Assim, após a análise documental, 53 PPCs foram selecionados e compuseram o corpus de análise do estudo.

Figura 1 -
Fluxograma do processo de censo e triagem documental. Campina Grande, Paraíba, Brasil, 2025. (n=53).

Foram incluídas as IES federais que possuíam oferta ativa do curso de Enfermagem e disponibilizavam, de forma pública, gratuita, irrestrita e integral, seus respectivos PPCs, bem como matrizes curriculares suficientemente detalhadas para permitir a identificação de componentes curriculares relacionados ao objeto de pesquisa, acompanhados de suas respectivas ementas. Foram excluídas apenas as propostas pedagógicas nas quais não foi possível identificar componentes curriculares contendo conteúdos pertinentes ao objeto de investigação, conforme exposto na Figura 1.

Após a seleção dos PPCs elegíveis, também foram consultados documentos digitais institucionais, disponibilizados publicamente em sítios eletrônicos oficiais, tais como páginas da Pró-Reitoria de Graduação, dos Departamentos e das Coordenações dos cursos de Enfermagem incluídos no estudo. Ademais, informações disponibilizadas na plataforma pública e-MEC14 subsidiaram a elaboração do artigo.

A busca documental foi realizada entre os meses de março e julho de 2024. Inicialmente, procedeu-se ao levantamento das IES federais com oferta ativa do curso de Enfermagem, por meio do sistema e-MEC. Em seguida, após a seleção dos PPCs elegíveis, realizou-se busca manual nos portais institucionais, utilizando-se, de forma combinada, os descritores: “projeto pedagógico do curso”, “PPC Enfermagem”, “matriz curricular” e “estrutura curricular”, associados ao nome da instituição, inclusive por meio de buscadores externos (ex.: site:ufxx.br enfermagem “projeto pedagógico”).

Para cada PPC identificado, registraram-se, em planilha eletrônica própria, a região geográfica, o nome da instituição, a unidade federativa e o campus, o link de acesso (URL), o formato do arquivo e o ano de aprovação. As informações foram extraídas manualmente, por meio da leitura integral dos PPCs, matrizes curriculares, ementas e quadros-resumo das disciplinas.

Para a organização, análise e interpretação dos dados, seguiram-se os princípios da análise de conteúdo temática15, com categorias definidas a priori com base no objetivo da pesquisa. As etapas de codificação e categorização foram realizadas manualmente em planilha Excel, classificando as disciplinas conforme apresentado na Tabela 1.

Houve dupla codificação independente, com revisão e consenso entre os pesquisadores para assegurar consistência na interpretação. As decisões metodológicas e interpretativas foram documentadas em diário de campo eletrônico, garantindo rastreabilidade, auditabilidade e coerência analítica ao processo.

A mensuração da concordância entre especialistas foi realizada por meio do coeficiente Kappa modificado. Para cada item, calculou-se a probabilidade de concordância ao acaso, considerando o total de avaliadores e o número de especialistas que o classificaram como relevante. A interpretação seguiu ponto de corte previamente estabelecido: valores entre 0,40 e 0,59 indicam concordância baixa; entre 0,60 e 0,74, moderada a boa; e valores acima de 0,75 representam concordância excelente16. Ao analisar os PPCs, todos os itens representaram excelente concordância (Quadro 1).

Quadro 1 -
Codificação das disciplinas apresentadas no PPCs dos cursos de Enfermagem das Universidades Federais brasileiras. Campina Grande, Paraíba, Brasil, 2025. (n=53).

Considerando a natureza e as especificidades dos dados analisados, bem como o fato de as informações não serem identificáveis, a Resolução nº 510, de 07 de abril de 2016, do Conselho Nacional de Saúde, estabelece que os protocolos não necessitam ser registrados e/ou avaliados pelo Sistema CEP/CONEP. Ainda assim, a pesquisa comprometeu-se a não emitir juízos de valor que permitissem a identificação de instituições específicas, assegurando caráter neutro, ético e eminentemente descritivo aos resultados.

RESULTADOS

Dos 53 PPCs analisados, constatou-se que 5 (9,4%) das IES federais descrevem em sua matriz curricular componentes que versam sobre a temática, enquanto 48 (90,6%) não fazem menção em seus PPCs sobre o ensino da análise e interpretação de exames de imagem. Quanto à distribuição por estado, 3 (60%) estavam localizadas na região Nordeste, 1 (20%) na região Sul e 1 (20%) no Sudeste, conforme apresentado na Tabela 1.

Tabela 1 -
Distribuição regional dos Projetos Pedagógicos de Curso com e sem conteúdos sobre interpretação de exames por imagem por estado federativo. Campina Grande, Paraíba, Brasil, 2025. (n=53).

Embora apenas cinco IES (9,4%) entre as analisadas apresentem conteúdo relacionado à temática, destaca-se que a Universidade Federal do Recôncavo Baiano (UFRB) contempla dois componentes curriculares distintos cuja ementa inclui tópicos referentes à interpretação de exames de imagem. Considerando o conjunto dos componentes identificados, quatro disciplinas são obrigatórias, o que corresponde a 66,7% do total analisado. Esses componentes concentram-se predominantemente na região Nordeste, distribuídos entre os PPCs da UFRB e da Universidade Federal da Bahia (UFBA).

Por outro lado, duas disciplinas apresentam caráter optativo, representando 33,3% das ofertas encontradas. As disciplinas optativas estão localizadas nas regiões Sudeste, especificamente na Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM), e Sul, na Universidade Federal do Pampa (UNIPAMPA). Observa-se, portanto, que a maior parte dos componentes curriculares que abordam a temática nos PPCs assume caráter obrigatório, evidenciando sua relevância e centralidade na formação em Enfermagem nas instituições analisadas, conforme exposto no Quadro 2.

Quadro 2 -
Caracterização Geral das Instituições e Componentes Curriculares que ofertam conteúdo relacionado à interpretação de exames de imagem. Campina Grande, Paraíba, Brasil, 2025. (n=05).

Conforme exposto no Quadro 3, a análise das ementas evidenciou que as IES apresentam componentes curriculares com amplitudes distintas, porém convergentes quanto à inclusão de conteúdos relacionados ao exame físico, à análise de exames laboratoriais e à interpretação de exames de imagem. Ao avaliar as cargas horárias, identificou-se significativa variação entre os componentes curriculares.

A maior carga horária foi observada na UFRB, no componente destinado ao cuidado clínico do adulto e do idoso, totalizando 153 horas, enquanto a menor carga horária correspondeu à disciplina ofertada pela UNIPAMPA, com 30 horas. Considerando todas as disciplinas analisadas, a média de carga horária foi de 94,5 horas, o que evidencia diferenças relevantes na profundidade e na extensão dedicadas ao desenvolvimento de competências relacionadas à avaliação clínica, à interpretação de exames laboratoriais e à compreensão dos métodos de diagnóstico por imagem.

Quadro 3 -
Estrutura Curricular, Carga Horária e Pré-Requisitos. Campina Grande, Paraíba, Brasil, 2025. (n=06).

DISCUSSÃO

O avanço das tecnologias diagnósticas na área da saúde tem transformado significativamente a dinâmica assistencial, exigindo dos profissionais de Enfermagem competências cada vez mais específicas e interdisciplinares. Embora o enfermeiro não seja legalmente responsável pelo diagnóstico clínico, a capacidade de analisar exames por imagem constitui ferramenta auxiliar valiosa na prática cotidiana, sobretudo para o Processo de Enfermagem (PE)3-17.

Além disso, a ampliação das legislações que amparam o uso do ultrassom à beira-leito (POCUS) permite ao enfermeiro acessar informações que subsidiam decisões clínicas e executar procedimentos com maior segurança, como a correta inserção de sondas e cateteres, a avaliação do volume urinário, do resíduo gástrico, do posicionamento de dispositivos, do estado volêmico e das funções cardíaca, pulmonar e abdominal, além da detecção de ascite, derrames, pneumotórax e alterações em grandes vasos. Tais avanços reforçam a necessidade de inclusão sistemática dessa competência na formação de graduação18-19.

Os achados mostram que, entre os 53 PPCs analisados, apenas cinco IES, três no Nordeste, uma no Sul e uma no Sudeste, incluem componentes curriculares relacionados aos exames de imagem. Em duas delas, tais componentes são obrigatórios e distribuídos em diferentes momentos do curso, enquanto apenas uma exige pré-requisitos alinhados às DCNs20. Em três instituições, os conteúdos são ofertados como disciplinas optativas, o que reduz sua centralidade formativa. Além disso, persistem lacunas nas ementas quanto à abordagem teórica e/ou prática, prejudicando a clareza pedagógica e a adequada preparação do estudante para atuar em ambientes tecnologicamente avançados2,9-10.

Para superar essas deficiências, estudiosos apontam para a necessidade urgente de revisar e aprimorar a estrutura curricular e o processo de ensino-aprendizagem, assegurando planos de ensino mais claros e alinhados às DCNs20. É fundamental fortalecer a articulação entre o conhecimento teórico e a prática nos serviços de saúde, valorizando a qualidade do estágio supervisionado e o papel ativo do docente21-22.

Nesse cenário, os Programas de Residência configuram-se como estratégias formativas relevantes. Destaca-se o Programa de Residência em Enfermagem em Diagnóstico por Imagem da Faculdade de Enfermagem Nossa Senhora das Graças e do Hospital da Restauração de Recife/PE, vinculado à ESSPE. Pioneiro no Nordeste, forma enfermeiros para atuar em endoscopia, hemodinâmica, tomografia, ressonância magnética e medicina nuclear, por meio de uma proposta pedagógica que integra teoria, prática e pesquisa, com rodízios em hospitais de referência. Com carga horária de 5.760 horas e avaliação contínua, o programa representa um marco na consolidação da especialidade e evidencia a necessidade de maior alinhamento entre normativas, formação e prática profissional23.

Por outro lado, vale ressaltar que a baixa representatividade curricular mencionada anteriormente contrasta com o arcabouço normativo da profissão. A Resolução COFEN nº 679/2021, por exemplo, autoriza e normatiza o uso do ultrassom por enfermeiros em situações clínicas específicas, e a Resolução nº 625/2020 reconhece a Enfermagem em Diagnóstico por Imagem como especialidade. A maioria dos projetos analisados, porém, ainda não incorpora essas atualizações, indicando um descompasso entre os avanços legais e a estrutura curricular vigente5-6.

Esse cenário pode estar relacionado ao ano de publicação dos PPCs, reforçando a necessidade de revisões periódicas, além de suscitar reflexões sobre o perfil dos docentes que os elaboram e se sua experiência influenciou a inserção do tema. As DCNs da Enfermagem preveem atualização curricular e docente como princípio obrigatório, tornando a incorporação de conteúdos inovadores uma exigência normativa e ética para assegurar a qualidade formativa15. Como indicado em pesquisas, esses achados reforçam a urgência de se repensar os currículos à luz da complexidade dos cenários de cuidado, da inovação tecnológica e das exigências legais e assistenciais contemporâneas5,22,24-25.

Quando analisada a distribuição geográfica das instituições que ofertam conteúdos relacionados a exames de imagem, observou-se maior concentração nas regiões Sudeste e Sul. Historicamente, as primeiras escolas de Enfermagem no Brasil surgiram nessas regiões e abrigam instituições mais consolidadas, com maior tempo de existência, o que pode ter influenciado a incorporação mais precoce de disciplinas voltadas a práticas clínicas especializadas26-27.

No entanto, não se pode afirmar uma linearidade entre antiguidade institucional e presença da temática, visto que algumas universidades mais recentes também apresentam propostas curriculares inovadoras, refletindo atualização frente às novas demandas tecnológicas da prática profissional. Apesar disso, o predomínio de abordagens optativas ou integradas a disciplinas mais amplas indica que as competências em interpretação de exames ainda não ocupam um espaço central e sistematizado na formação generalista do enfermeiro.

Observa-se também uma concentração dos conteúdos relativos aos exames de imagem em disciplinas que não possuem foco exclusivo no tema, o que dificulta a aquisição de competências específicas. Essa abordagem diluída pode gerar insegurança nos egressos diante da necessidade de atuação em unidades que realizam exames como tomografia, ressonância magnética ou ultrassonografia4-10.

Ademais, a presença de componentes curriculares optativos, e não obrigatórios, que tratam do tema, como identificado em algumas instituições analisadas, sinaliza que a área ainda não é considerada central na formação generalista do enfermeiro. Nesse cenário, a atualização das Diretrizes Curriculares Nacionais, proposta pelo MEC e discutida pelo COFEN em 2024, reforça a necessidade de que a formação em Enfermagem esteja alinhada às demandas contemporâneas do cuidado, incluindo o uso seguro e crítico das tecnologias diagnósticas9.

Tais diretrizes também enfatizam a aprendizagem baseada em competências, integrando teoria e prática, com destaque para experiências reais e simuladas, aspecto especialmente relevante para o ensino11,21. Sobre isso, as referências apontam que o distanciamento entre teoria e prática ainda é um desafio no ensino de Enfermagem4. Nessa ótica, estudos demonstram que ferramentas tecnológicas no ensino de diagnóstico por imagem podem potencializar a aprendizagem e favorecer a familiarização dos estudantes com as atividades clínicas. No entanto, a escassez de iniciativas nesse sentido reflete o desafio da inovação no ambiente acadêmico, especialmente em instituições com restrições estruturais e pedagógicas25.

Diante disso, a presente análise reforça a urgência de repensar a estrutura curricular dos cursos de graduação em Enfermagem, incorporando de forma sistemática os conhecimentos relacionados aos exames de imagem, com respaldo legal, pedagógico e ético. A inclusão estruturada desses conteúdos favorece a consolidação de competências essenciais ao cuidado contemporâneo e contribui para reduzir lacunas formativas ainda presentes em grande parte das IES brasileiras. Assim, espera-se a formação de profissionais mais bem preparados para atuar com segurança, competência e protagonismo em serviços de saúde cada vez mais tecnológicos e interdisciplinares.

Este estudo apresenta limitações inerentes ao seu delineamento documental, pois se baseia exclusivamente na análise dos Projetos Pedagógicos de Curso, ficando sujeito ao grau de completude, atualização e transparência desses registros. Além disso, verifica-se a escassez de estudos primários, revisões sistemáticas e metanálises publicados em periódicos de alto impacto que abordem especificamente o ensino da interpretação de exames por imagem na graduação em Enfermagem. Essa lacuna restringe as possibilidades de comparação dos achados e limita a amplitude da discussão.

CONCLUSÕES

A análise mostra que os cursos de Enfermagem das universidades federais ainda apresentam inserção limitada, fragmentada e heterogênea de conteúdos voltados à interpretação de exames de imagem. Mesmo quando presentes, esses temas surgem de forma pontual em disciplinas propedêuticas, semiológicas ou optativas, não configurando um eixo estruturante da formação, o que contrasta com a crescente demanda tecnológica do SUS e com o reconhecimento da especialidade pelo COFEN.

Diante desse cenário, torna-se imprescindível uma atualização curricular que integre, de modo contínuo e transversal, fundamentos teóricos e práticos da atuação da Enfermagem frente aos exames de imagem, associada ao uso de metodologias ativas, tecnologias educacionais e ambientes simulados ou reais. Tal reformulação fortalece o desenvolvimento de competências clínicas e analíticas, consolidando a formação de enfermeiros aptos a atuar com segurança, criticidade e protagonismo em serviços de saúde cada vez mais tecnológicos e interdisciplinares, conforme evidenciado pelas pesquisas analisadas.

AGRADECIMENTO

Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva da Universidade Estadual da Paraíba (PPGSP).

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NOTAS

  • FINANCIAMENTO
    Este trabalho foi realizado com apoio da Universidade Estadual da Paraíba, PRPGP Edital 01/2026.
  • APROVAÇÃO DE COMITÊ DE ÉTICA EM PESQUISA
    Por se tratar da natureza das fontes (documental), há dispensa de apreciação do Comitê de Ética, conforme a Resolução Ética n°510/2016.
  • DISPONIBILIDADE DE DADOS
    Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.

Editado por

  • EDITORES
    Editores Associados: Glilciane Morceli.
    Editor-chefe: Gisele Cristina Manfrini.

Disponibilidade de dados

Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    24 Ago 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    07 Set 2025
  • Aceito
    05 Mar 2026
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