RESUMO
Objetivo: analisar práticas de cuidado a partir de processos de acolhimento em Centros de Atenção Psicossocial, com reflexos na reabilitação psicossocial.
Método: Pesquisa convergente assistencial, qualitativa realizada nos Centros de Atenção Psicossocial de Porto Velho/Rondônia com a participação de quatro enfermeiros, três assistentes sociais, um profissional de psicologia, um usuário e seu familiar. Os dados são provenientes dos grupos de pesquisa-assistência e foram analisados pelos processos de apreensão, síntese, teorização e transferência.
Resultados: emergiram as categorias: Seleção e classificação do acolhimento como ativador do processo de reabilitação psicossocial e Estratégias e implicações do uso do acolhimento com vistas à reabilitação psicossocial. Por seu potencial de estabelecer vínculo terapêutico e adesão ao tratamento, promover programas e novas abordagens terapêuticas indutoras da reabilitação psicossocial, o acolhimento constitui uma prática emancipatória de cuidado. A participação dos usuários no momento de acolhimento enriquece a construção do Projeto Terapêutico Singular e capta elementos importantes para o cuidado em equipe.
Conclusão: o acolhimento em saúde mental é uma das práticas de cuidado pela qual se obtém resultados efetivos para consolidar a estabilidade da rede de reabilitação psicossocial. Contudo, no cenário estudado é necessário incluir a intersetorialidade para facilitar o itinerário terapêutico dos usuários.
DESCRITORES:
Saúde mental; Serviços de saúde mental; Reabilitação psiquiátrica; Cooperação e adesão ao tratamento; Integralidade em saúde
ABSTRACT
Objective: to analyze care practices carried out in the process of embracing the user in Psychosocial Care Centers, with impacts on psychosocial rehabilitation.
Method: qualitative, convergent-care research carried out in the Psychosocial Care Centers of the city of Porto Velho/Rondônia with the participation of four nurses, three social workers, one psychologist, one user and his family member. The data came from the research-care groups and were analyzed through the processes of apprehension, synthesis, theorization and transfer.
Results: the following categories emerged: “Selection and classification of the user embracement process as an activator of the psychosocial rehabilitation process” and “Strategies and implications of the use of an embracement approach aimed at psychosocial rehabilitation”. Due to its potential to establish therapeutic bonds and adherence to treatment, promote programs and new therapeutic approaches that induce psychosocial rehabilitation, the user embracement process constitutes an emancipatory care practice. The participation of users during the process of embracement enriches the construction of the Singular Therapeutic Project and captures important elements for team care.
Conclusion: the user embracement process focused on mental health is one of the care practices that achieves effective results to strengthen the stability of the psychosocial rehabilitation network. However, in the scenario studied, it is necessary to include an intersectoral approach to facilitate the users’ therapeutic itinerary.
DESCRIPTORS:
Mental health; Mental health services; Psychiatric rehabilitation; Cooperation and adherence to the treatment; Integrality in health
RESUMEN
Objetivo: analizar prácticas de cuidados basadas en procesos de admisión en Centros de Atención Psicosocial, con impactos en la rehabilitación psicosocial.
Método: investigación convergente, cualitativa sobre cuidados, realizada en los Centros de Atención Psicosocial de Porto Velho/Rondônia con la participación de cuatro enfermeros, tres trabajadores sociales, un profesional de psicología, un usuario y su familiar. Los datos provinieron de grupos de asistencia e investigación y fueron analizados a través de los procesos de aprehensión, síntesis, teorización y transferencia.
Resultados: surgieron las categorías: “Selección y clasificación de la recepción como activador del proceso de rehabilitación psicosocial” y “Estrategias e implicaciones para el uso de la admisión con miras a la rehabilitación psicosocial”. Por su potencial para establecer un vínculo terapéutico y adherencia al tratamiento, promover programas y nuevos abordajes terapéuticos que induzcan a la rehabilitación psicosocial, la admisión constituye una práctica de cuidado emancipador. La participación de los usuarios en el momento de la admisión enriquece la construcción del Proyecto Terapéutico Singular y capta elementos importantes para la atención en equipo.
Conclusión: el apoyo a la salud mental es una de las prácticas de atención a través de las cuales se obtienen resultados efectivos para consolidar la estabilidad de la red de rehabilitación psicosocial. Sin embargo, en el escenario estudiado es necesario incluir la intersectorialidad para facilitar el itinerario terapéutico de los usuarios.
DESCRIPTORES:
Salud mental; Servicios de salud mental; Rehabilitación psiquiátrica; Cooperación y adherencia al tratamiento; Integralidad en salud
INTRODUÇÃO
A reabilitação psicossocial compõe um dos eixos da Política Nacional de Saúde Mental (PNSM) e envolve o tripé rede social, trabalho e habitat em lógica comunitária1. Na América Latina2-3, em países que desenvolveram processos de reforma psiquiátrica por meio do cuidado comunitário, os programas de reabilitação psicossocial precisam ser revistos no momento presente, demonstrando a necessidade de estabelecer serviços de saúde mental comunitária e estratégias efetivas de reabilitação, aliadas à autonomia e emancipação de pessoas.
Por outro lado, a similaridade conceitual entre os termos reabilitação psicossocial, inserção ou inclusão social requer elucidação e compreensão, tendo em vista que são processos distintos e demandam direcionamentos de políticas intersetoriais4-5.
A reabilitação psicossocial deve envolver práticas que efetivem transformações nas condições de vida dos sujeitos e de seu poder contratual, respeitando a singularidade e individualidade, sem se limitar a habilitar ou desabilitar funções6. Envolve o desenvolvimento de um conjunto de ações emancipatórias nos heterogêneos campos do trabalho, educação, cultura, habitação e saúde7.
Os processos de reabilitação ainda esbarram em limitações, principalmente pelos retrocessos na política de saúde mental ameaçados desde 2017, quando o componente reabilitação psicossocial foi retirado da Portaria 3.088/11, negligenciando a garantia de direitos, recuperação da contratualidade e potencialização de um cuidado comprometido com processos reabilitadores, como as iniciativas de geração de renda e trabalho8.
As práticas de cuidado em saúde mental devem ser mudadas para alcançar um cuidado efetivo em reabilitação psicossocial, o qual ainda é incipiente no país, requer o treinamento dos profissionais, o fortalecimento da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) e o protagonismo de iniciativas para a inclusão social pelo trabalho9-10.
Neste sentido, a falta de treinamento e inclusão da temática de reabilitação desde a formação, nos cursos de graduação, e a ausência de um trabalho em rede são dificuldades importantes já evidenciadas e fragilizam o itinerário terapêutico do usuário2.
No âmbito dos dispositivos da RAPS, a contextualização da reabilitação psicossocial parte do princípio que a exclusão social exacerba o sofrimento psíquico dos usuários, o que aumenta a responsabilidade da atuação inicial dentro da lógica de inclusão das pessoas em seus contextos familiar e comunitário a partir do processo de acolhimento no Centro de Atenção Psicossocial (CAPS), tendo em vista que esta tecnologia apresenta potencial para estabelecer vínculo e integralidade11.
Isto posto, o objetivo é analisar as práticas de cuidado a partir de processos de acolhimento em Centros de Atenção Psicossocial, com reflexos na reabilitação psicossocial.
MÉTODO
Estudo qualitativo, derivado de uma tese de doutorado em que foi utilizado o método da Pesquisa Convergente Assistencial (PCA), indicado quando o pesquisador está imerso na prática assistencial e pretende transformá-la para qualificar a assistência, contando com a adesão da equipe de saúde12.
Os cenários utilizados foram três CAPS que atendem pessoas adultas no município de Porto Velho, capital do estado de Rondônia; dois CAPS tipo II, e um CAPS Álcool e Outras Drogas (CAPS-AD), também do tipo II. Quanto à eleição dos participantes, de um total de seis equipes multiprofissionais compostas por 18 profissionais de enfermagem, serviço social e psicologia que realizavam acolhimento, a amostra por conveniência deste estudo incluiu quatro enfermeiros, três assistentes sociais, um profissional da psicologia, um usuário e seu familiar.
Os critérios de inclusão foram ser profissional do CAPS, tempo de serviço maior que 12 meses nas equipes de acolhimento, além de usuários e familiares que passaram por este acolhimento e se encontravam em acompanhamento por Projeto Terapêutico Singular (PTS). Profissionais em férias e licenças, e usuários e familiares com dificuldades cognitivas foram excluídos.
A pesquisadora principal atua como docente de curso de graduação em enfermagem nos cenários de prática e para a coleta de dados, utilizou cerca de 450 horas no período de novembro de 2018 a julho de 2019, quando realizou nove momentos sequenciais da PCA. Tais momentos compreenderam as fases de instrumentação e perscrutação: 1) adesão de participantes; 2) apresentação do referencial teórico aos participantes da pesquisa; 3) diálogo sobre o cuidado de enfermagem em CAPS; 4) diálogo-reflexivo quanto aos limites e possibilidades das tecnologias de cuidado em CAPS; 5) eleição do acolhimento como tecnologia de cuidado de maior complexidade pelos participantes; 6) identificação de estratégias emancipatórias com potencial para promover a reabilitação psicossocial em CAPS; 7) relatos decorrentes do processo e avaliação do acolhimento; e momentos 8) e 9), de discussão dos resultados parciais e finais da pesquisa.
Os instrumentos de coleta de dados utilizados foram: roteiro norteador das atividades dos encontros individuais e de grupo, dois gravadores digitais, um tablet para anotações de dados subjetivos, data show e slides (momentos 2 e 5). Os momentos em grupo duraram em média 50 minutos e as gravações foram transcritas na íntegra.
Os dados foram analisados pelos processos de apreensão, síntese, teorização e transferência, os quais estruturam a PCA, caracterizando as etapas de análise dos dados12. Na apreensão, emergiram os dados organizados em notas de grupo e dos encontros individuais com o usuário e familiar, os quais foram codificados, com as frases semelhantes rastreadas e reunidas por familiaridade para construir as categorias. Na síntese, os participantes selecionaram o acolhimento, especialmente destacado por se apresentar como a tecnologia de cuidado mais complexa, e identificaram estratégias e implicações para o processo de reabilitação psicossocial. Na teorização foi possível analisar os aspectos do acolhimento que impulsionavam processos de reabilitação psicossocial, e suas dificuldades e estratégias para efetivarem o vínculo e itinerário terapêutico autônomo e emancipado. No processo de transferência, o cuidado em saúde mental e a reabilitação psicossocial foram aproximados a partir da avaliação da tecnologia acolhimento. Particularmente o cuidado posterior à aplicação do acolhimento e suas contribuições para a integralidade e longitudinalidade do cuidado em saúde mental, que colaboram com o itinerário terapêutico e, consequentemente, com o processo de reabilitação psicossocial.
Para a apresentação dos dados, os grupos foram organizados em códigos alfanuméricos: G5, G6, G7, G8 e G9, além de usuário e familiar.
A teoria de médio alcance de Elizabeta Nietsche13-14 foi adotada para sustentar a análise. Seu conceito de Tecnologia Emancipatória se relaciona ao desenvolvimento de instrumentos e meios no processo de trabalho a partir da evolução dos saberes humanos. O sentido da emancipação reflete no direito de conquistar um espaço de liberdade e autonomia para que um indivíduo vivencie a própria cidadania13. Desta forma, apoiou a condução da PCA através da incorporação dos conceitos de tecnologia em saúde e de tecnologia de cuidado emancipatório aos saberes dos participantes, reunindo um conjunto de conhecimentos e pressupostos que possibilitam o pensar, o refletir e o agir numa perspectiva de exercício de consciência crítica e cidadania.
Este artigo emergiu dos resultados da pesquisa supracitada, demonstrando a função da PCA na qualificação da prática assistencial. Com a ocorrência simultânea da pesquisa e da prática12, os marcos conceituais da primeira foram incorporados pelos participantes envolvidos, o que permitiu a escrita deste artigo.
A produção dos dados aqui tratados ocorreu especificamente entre os momentos 5) e 9) da PCA, com os profissionais que ofereciam acolhimento e desenvolviam o PTS. Estes se envolveram com a análise do acolhimento e suas implicações para a reabilitação psicossocial sob a premissa de que usuários de processos de acolhimento e PTS apresentavam melhores itinerários terapêuticos, o que naturalmente favoreceu o envolvimento do serviço com o método da PCA.
O estudo foi aprovado pelo comitê de ética em pesquisa, e o consentimento dos participantes foi obtido através da assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.
RESULTADOS
Seleção e classificação do acolhimento como ativador do processo de reabilitação psicossocial
Ao se trabalhar com a equipe multiprofissional durante uma PCA, são estabelecidos acordos de participação na pesquisa que enriquecem sobremaneira a captação dos dados, e neste caso, o acolhimento se destacou entre as práticas de cuidado nos CAPS. Em momento específico de grupos de integração pesquisa-assistência, os profissionais de uma equipe multiprofissional elegeram o acolhimento como uma tecnologia de cuidado e propuseram avaliar critérios para a sua qualificação:
[...] quando você avalia o acolhimento, você também está se avaliando como parte da estrutura do serviço [...] (G6). [...] é o primeiro momento do paciente no serviço e com os profissionais; é onde ele consegue estabelecer o vínculo com o profissional de referência. Neste momento, consegue-se esclarecer para ele como é que funciona o serviço e como pode ser dado o andamento no tratamento. Pode ser o momento de trazer o paciente para o serviço ou também distanciá-lo (G5). [...] faz parte da reabilitação psicossocial, sim, porque através do acolhimento é que você vai identificar até mesmo o primeiro passo para a construção do futuro plano terapêutico singular (G6).
Estratégias e implicações do uso do acolhimento com vistas à reabilitação psicossocial
As práticas de reabilitação psicossocial perpassam o acolhimento e seu processo avaliativo por meio da construção de vínculo, seguimento do cuidado e adesão ao processo terapêutico, como observado nas transcrições a seguir:
[...] para avaliar, é preciso ter esse segundo atendimento, essa reavaliação (G6). [...] além de averiguar o estabelecimento de vínculo, é preciso estar mais perto do paciente para a gente poder seguir os passos dele e saber se realmente ele está conseguindo parar esse uso, o uso da substância; enfim, é estar mais perto (G7).
A reflexão acerca das metas propostas pela equipe multiprofissional se revelou um método essencial para reavaliar estas metas e suas implicações para o itinerário terapêutico, com vistas à reabilitação psicossocial:
[...] hoje o usuário participa, interage, compartilha suas experiências, suas vivências [...] consegue interagir; amadureceu. É muito importante ver esse crescimento dele como pessoa; dele saber identificar os problemas com as drogas; os problemas com a família; os fatores de risco e de proteção. E inclusive, ele tem trazido pessoas, pessoas que ele identifica que estão em situação de dependência química, para que participem dos grupos. (G8). [...] ele participa de todos os grupos do CAPS. Ele é assíduo. [...] Ele traz as suas experiências como propostas para outras pessoas. [...] Ele voltou a cuidar do filho. [...] Todas as vezes que ele tem problemas, o CAPS é o refúgio. [...] Dá para identificar que a equipe inteira é referência para ele [...] (G8).
[...] o que seria ideal para ele: voltar a estudar; colocar suas ideias no papel e, quem sabe, escrever um livro, já que quer discutir a questão da cura para a droga (G9).
Identificar as práticas de cuidado voltadas para a reabilitação psicossocial reitera o quanto o comportamento da equipe e essa identificação podem melhorar o cuidado oferecido ao usuário e à família:
[...] se você faz uma boa escuta e um bom acolhimento, desenvolve um olhar para a pessoa e as necessidades dela, para explicar para ela também o que é o serviço; se está de acordo com aquilo que ela está buscando no momento, há uma maior possibilidade de adesão e dele ficar vinculado com o serviço (G5). [...] levantar a autoestima, mas ajudar a pessoa a acreditar em si mesma e que ela pode e consegue; não deixar morrer os sonhos, e inclusive a gente trabalhou isso no grupo de ontem (G7).
[...] eu penso que há possibilidades de ser curado. Para os participantes do grupo, a adição é um demônio e tem cura. Talvez não exista agora, mas um dia haverá. Todo trabalho que faço é terapia ocupacional. Costumo prestar bastante atenção no que sinto em relação à compulsão e obsessão, e isto ajuda a ter controle na síndrome do pânico. Procuro viver o momento presente e isto já facilita tudo (Usuário). [...] alguns estão fazendo faculdade, mas vêm de vez em quando aqui, apenas para o grupo, pois não tem mais prontuário aqui. E quando tem um caso assim, a gente fica feliz porque vê a pessoa caminhando com as próprias pernas (G7). [...] o CAPS ajudou a expor o que meu filho é: uma criança amorosa (Familiar).
As dificuldades para efetivar as práticas de reabilitação psicossocial desenhadas a partir do acolhimento denotam o quanto ainda pode ser construído em prol destas práticas:
[...] a gente tinha uma ideia de criar um espaço com computadores, para eles começarem a fazer os seus próprios currículos, mas diante das dificuldades, começamos a procurar parceiros fora (G7). [...] o PTS é um ponto crítico para se avaliar o cuidado prescrito desde o acolhimento. Uma das dificuldades é a participação do médico (G6).
[...] faltam recursos financeiros para se ampliar mais as ações; para ampliar o acesso e para criar um espaço que seja realmente terapêutico (G7). [...] temos dificuldades para o desenvolvimento do PTS, como a falta de profissionais, porque a quantidade de pacientes é muito grande, e daí é preciso estabelecer quais são os mais prioritários, pois não dá para fazer o PTS de todo mundo (G6). [...] há um prejuízo para a família, porque se o paciente não consegue se reabilitar, ele não consegue perceber o dano que causa à família (G7).
DISCUSSÃO
A pesquisa permitiu avaliar e classificar tecnologias do cuidado em saúde mental com potencial para emancipar os usuários e profissionais, por meio do acolhimento como uma tecnologia plena, que evidencia componentes emancipatórios para os profissionais e usuários, como consciência crítica, cidadania, liberdade e autonomia13-14, objetivando a garantia da equidade a partir da avaliação de tecnologias, conforme definição em uma das premissas da Organização Mundial de Saúde (OMS)15.
A avaliação dentro desta premissa contribuiu para ressaltar os aspectos do acolhimento e suas relações com os processos de trabalho de profissionais que realizam o PTS. A equipe entende o acolhimento como algo que vai além da triagem, o que facilita o vínculo, seguimento do cuidado, adesão ao acompanhamento e ao processo de reabilitação psicossocial, e uma pessoa acolhida criteriosamente sente mais pertencimento para continuar sua trajetória terapêutica no serviço, portanto, ambos os pontos de vista se complementam e se retroalimentam16.
Esta visão demonstra que a equipe é flexível, revisa suas práticas e aponta o PTS como um método que viabiliza a reabilitação psicossocial de forma integral17-18.
A avaliação também possibilitou detectar problemas, indicar melhorias e ter um olhar diferenciado para as práticas de cuidado desenvolvidas junto aos usuários e suas famílias, o que favoreceu a percepção do acolhimento e o caráter emancipatório envolvidos na construção desse cuidado, identificando a importância da escuta, do diálogo terapêutico, do vínculo19, e da adesão e responsabilização, como corroborado em estudo20 sobre o estabelecimento de relações de respeito e aceitação mútuas advindos do momento do acolhimento, com contribuições para a adesão.
Por outro lado, ao identificar e compreender os fatores que interferem no processo de adesão ao tratamento, podem ser elaborados programas e novas abordagens terapêuticas. Neste estudo, estas abordagens também foram evidenciadas a partir do acolhimento, demonstrando a importância de elaborar o PTS dos usuários e dos elementos necessários20.
Quanto à identificação das estratégias emancipadoras do acolhimento para promover a reabilitação psicossocial, emergiu uma questão que possibilitou análise e reflexão sobre a ausência de avaliação do cuidado prestado no cenário do CAPS. O fato do usuário ficar sem referência na linha de cuidado dificulta a adesão e a validação do itinerário terapêutico, implicando na necessidade de outra lógica assistencial21 para a mensuração efetiva de como isso se dá na esfera da RAPS e do território.
A equipe, o usuário e seu familiar foram capazes de construir e permitir a avaliação dos significados do cuidado prestado para o contexto terapêutico, suas conquistas e limitações, contribuindo para entender as questões subjetivas envolvidas no cuidado longitudinal por meio do PTS22.
Durante o processo de produção dos dados, a equipe apresentou alguns exemplos de práticas de cuidado voltadas para a reabilitação psicossocial e desenhadas em PTS, como a inclusão por meio de formação em ensino superior, resgate da autoestima, acolhimento das necessidades, identificação de subjetividades e participação em terapia de grupo. No entanto, é necessário maior embasamento para um melhor direcionamento destas práticas pela equipe no tocante à reabilitação psicossocial23.
Atender as singularidades do usuário, reconhecendo a subjetividade e a dimensão simbólica do indivíduo e ter a RAPS articulada e estruturada são ideias defendidas em um estudo que retrata a percepção de reabilitação psicossocial pelo usuário24, aspecto a ser considerado na reflexão sobre as práticas de cuidado em reabilitação psicossocial. Exemplos de desafios do cuidado são a reinserção social e a expressão das singularidades ao efetivar as práticas em reabilitação25.
Estratégias como as da Economia Solidária podem contribuir para efetivar o poder contratual do usuário com espaços de socialização, aprendizagem e cooperação7. No entanto, os profissionais precisam de melhor conhecimento acerca de reabilitação psicossocial para que isso se evidencie de fato em uma prática engajada com as necessidades de usuários de CAPS.
Por outro lado, dificuldades de várias ordens atropelam as já incipientes atividades de reabilitação psicossocial no âmbito dos serviços, tais como aquelas apresentadas pelos profissionais, com destaque para suas limitações na realização do PTS, como a concentração dos atendimentos pelos médicos, que fragmenta o cuidado e impossibilita a interlocução dos saberes19,26, e a falta de investimentos em aquisição de insumos para realizar as atividades de reabilitação psicossocial e prejuízos familiares por sua não inclusão, que dificultam a compreensão do usuário acerca do itinerário terapêutico27.
Experiências intersetoriais envolvendo a inclusão pelo trabalho, como previsto na Portaria GM 1.169/2005 acerca de incentivo para municípios com projetos de inclusão social, foram inexistentes durante a produção dos dados28. Da mesma maneira que oficinas de trabalho por meio da geração de renda e cooperativas como representação de trabalhos com valor social29.
O retrocesso na Política Nacional de Saúde Mental (PNSM) com a retirada do componente VII da reabilitação psicossocial em 2017, da Portaria 3.088/2011, que requer revogação, também deve ser considerado. Esta iniciativa impactou as iniciativas de geração de renda e trabalho e cooperativas sociais do Ministério do Trabalho.
Estas circunstâncias justificam em parte a inexistência das iniciativas no CAPS, o que pode ser considerado como limitação do estudo. Foi perceptível a necessidade de preparar os profissionais para o trabalho com reabilitação psicossocial, exemplificada pelas dificuldades de parte deles com a compreensão do trabalho com inserção social, além de pouca disponibilidade para engajamento em projetos solidários, de incentivos ao aperfeiçoamento da assistência e reflexão sobre os processos de trabalho desenvolvidos na PNSM29.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A PCA revela-se uma ferramenta ímpar para qualificar a prática assistencial, dada a sua capacidade de conciliar a reflexão da equipe de saúde envolvida com a promoção de uma educação continuada, integrando pesquisa-assistência. As informações acerca da pesquisa, seu referencial de tecnologias emancipatórias e a apresentação conceitual do que é a reabilitação psicossocial permitiram maior participação dos profissionais nos grupos de convergência, que no primeiro momento sustentaram o acolhimento como prática de cuidado complexa e central para a atenção psicossocial.
Este estudo revelou uma lacuna no que se refere à reabilitação psicossocial no contexto dos serviços e das práticas de cuidado na RAPS, e a urgência de sua construção para que outros processos possam permear o cuidado da equipe de saúde mental no território.
Os usuários de serviços de saúde mental são cidadãos que perderam autonomia e poder contratual de redes sociais e de trabalho. Eles demandam recursos de políticas públicas intersetoriais de saúde, trabalho e renda, que garantam integralidade e longitudinalidade do cuidado.
Isto posto, o estudo contribui para o engajamento destas políticas em prol das pessoas usuárias de serviços de saúde mental, enxergando-as integralmente e com possibilidades de aproximação com o cuidado no território.
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NOTAS
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ORIGEM DO ARTIGO
Extraído da tese - A prática emancipatória nos Centros de Atenção Psicossocial pelo uso de tecnologias do cuidado de enfermagem, apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Enfermagem, da Escola de Enfermagem Anna Nery, Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2021.
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FINANCIAMENTO
FAPERO- Fundação Rondônia de Amparo ao Desenvolvimento das Ações Científicas e Tecnológicas e à Pesquisa do Estado de Rondônia.
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APROVAÇÃO DE COMITÊ DE ÉTICA EM PESQUISA
Aprovado no Comitê de Ética em Pesquisa da Escola de Enfermagem Anna Nery-Hospital Escola São Francisco de Assis, parecer nº 2.991.799/2018, Certificado de Apresentação para Apreciação Ética 00977118.0.0000.5238. Parecer de Emenda nº 3.571.116 e CAEE: 00977118.0.0000.5238.
