Open-access ANÁLISE DA QUALIDADE E CONFIABILIDADE DOS VÍDEOS DO YOUTUBE SOBRE AUTOCUIDADO COM OS PÉS DE PESSOAS COM DIABETES MELLITUS

RESUMO

Objetivo:   analisar a qualidade e confiabilidade dos vídeos educacionais sobre autocuidado com os pés para pessoas com diabetes disponíveis no YouTube.

Método:   estudo de benchmarking, realizado conforme as recomendações do checklist Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses em janeiro de 2025. Avaliaram-se qualidade e confiabilidade dos vídeos brasileiros disponíveis no YouTube sobre o autocuidado com os pés de pessoas com diabetes, baseadas nas diretrizes do International Working Group on the Diabetic Foot, disponíveis no YouTube, por meio dos instrumentos DISCERN e JAMA. Os dados foram analisados por meio do software Jamovi® versão 2.3.28.

Resultados:   foram incluídos 20 vídeos e todos orientavam sobre lesões nos pés e suas consequências. A maioria foi realizada por profissionais de saúde e nenhum contemplou todas as recomendações do IWGDF. As informações identificadas foram: lavagem dos pés (17; 85%), corte adequado de unhas (15; 75%), inspeção dos pés (14; 70%), uso adequado do calçado (14; 70%), secagem cuidadosa entre os dedos (12; 60%) e uso de emolientes para hidratar a pele (12; 60%). No DISCERN, doze vídeos (60%) apresentaram falhas mínimas, seis (30%), falhas potencialmente relevantes e dois (10%) falhas graves ou generalizadas. No JAMA, todos pontuaram um em autoria, transparência e atualização e zero em atribuição, totalizando, assim, três pontos.

Conclusão:  conclui-se que a maioria dos vídeos avaliados apresentou qualidade alta e confiabilidade parcialmente suficiente. Evidencia-se a necessidade de produção de vídeos de qualidade e confiáveis, que contemplem todas as orientações de autocuidado com os pés para pessoas com diabetes.

DESCRITORES:
Pé diabético; Diabetes Mellitus; Autocuidado; Prevenção; Filme e vídeo educativo; Internet

ABSTRACT

Objective:   to analyze the quality and reliability of educational videos on foot self-care for people with diabetes available on YouTube.

Method:   a benchmarking study was conducted according to the recommendations of the Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses checklist in January 2025. The quality and reliability of Brazilian videos available on YouTube about foot self-care for people with diabetes, based on the guidelines of the International Working Group on the Diabetic Foot (IWGDF), were evaluated using the DISCERN and JAMA instruments. Data were analyzed using Jamovi® software version 2.3.28.

Results:   a total of 20 videos were included, all of which provided guidance on foot injuries and their consequences. Most were produced by healthcare professionals, and none addressed all the IWGDF recommendations. The information identified was: foot washing (17; 85%), proper nail trimming (15; 75%), foot inspection (14; 70%), proper footwear use (14; 70%), careful drying between the toes (12; 60%), and use of emollients to moisturize the skin (12; 60%). As a result, 12 videos (60%) in DISCERN presented minimal flaws, six (30%) potentially relevant flaws, and two (10%) serious or widespread flaws. All videos evaluated in JAMA scored one in authorship, transparency, and updating and zero in attribution, thus totaling three points.

Conclusion:   it is concluded that most of the evaluated videos presented high quality and partially sufficient reliability. The need to produce quality and reliable videos which cover all the self-care guidelines for the feet of people with diabetes is evident.

DESCRIPTORS:
Diabetic foot; Diabetes Mellitus; Self-care; Prevention; Educational film and video; Internet

RESUMEN

Objetivo:  analizar la calidad y fiabilidad de los vídeos educativos sobre el autocuidado de los pies para personas con diabetes disponibles en YouTube.

Método:  se realizó un estudio comparativo según las recomendaciones de la lista de verificación PRISMA (Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses) de enero de 2025. La calidad y fiabilidad de los vídeos brasileños disponibles en YouTube sobre el autocuidado de los pies para personas con diabetes, basados ​​en las directrices del International Working Group on the Diabetic Foot (IWGDF), se evaluaron mediante los instrumentos DISCERN y JAMA. Los datos se analizaron con el software Jamovi® versión 2.3.28.

Resultados:  se incluyeron veinte vídeos, todos ellos con información sobre lesiones en los pies y sus consecuencias. La mayoría fueron producidos por profesionales sanitarios y ninguno abordó todas las recomendaciones del IWGDF. La información identificada fue: lavado de pies (17; 85%), corte adecuado de uñas (15; 75%), inspección de pies (14; 70%), uso adecuado de calzado (14; 70%), secado cuidadoso entre los dedos (12; 60%) y uso de emolientes para hidratar la piel (12; 60%). En DISCERN, doce videos (60%) presentaron fallas mínimas, seis (30%) fallas potencialmente relevantes y dos (10%) fallas graves o generalizadas. En JAMA, todos obtuvieron una puntuación de uno en autoría, transparencia y actualización, y cero en atribución, sumando así un total de tres puntos.

Conclusión:  se concluye que la mayoría de los videos evaluados presentaron alta calidad y una fiabilidad parcialmente suficiente. Es evidente la necesidad de producir videos de calidad y fiables que abarquen todas las pautas de autocuidado para los pies de las personas con diabetes.

DESCRIPTORES:
Pie diabético; Diabetes Mellitus; Autocuidado; Prevención; Película y video educativo; Internet

INTRODUÇÃO

A doença do pé relacionada ao diabetes é uma condição evitável complexa, permeada de sofrimento e custos financeiros para o paciente, com impacto significativo na qualidade de vida, além de afetar família, profissionais, sistemas de saúde e sociedade em geral1.

No mundo, a prevalência de úlcera nos pés de pessoas com diabetes é de 6,3%, sendo a maior na América do Norte, 13%, e a menor na Oceania, 3%. Na África, a prevalência é de 7,2%, sendo maior do que na Ásia, 5,5%. A ulceração nos pés em pessoas com diabetes é mais prevalente em homens, 4,5%, do que em mulheres, 3,5%. E pessoas com diabetes mellitus tipo 2 (DM2) apresentam prevalência maior de ulceração, 6,4%, em comparação com pessoas com diabetes mellitus tipo 1 (DM1), 5,5%2. Em casos mais graves, podem ocorrer amputações e morte. Estudo realizado em um hospital de alta complexidade no Nordeste do Brasil evidenciou que pacientes com diabetes mellitus (DM) submetidos à amputação de membros inferiores apresentaram elevada prevalência de infecção no sítio cirúrgico. Verificou-se, ainda, que a ocorrência dessas infecções esteve significativamente associada à baixa renda familiar e ao prolongamento do tempo de internação3.

Assim, o impacto sobre os pacientes e o custo da doença do pé relacionada ao diabetes pode ser consideravelmente reduzido quando o tratamento preventivo baseado em evidências é implementado em pessoas com diabetes que correm o risco de desenvolver úlceras no pé1. A prevenção da doença do pé relacionada ao diabetes é fundamental para reduzir riscos e complicações, preservar a qualidade de vida e reduzir custos com tratamentos4.

Dentre as formas de prevenção, a avaliação regular voltada ao rastreamento, classificação de risco, tratamento precoce e prática de autocuidado podem garantir ações assistenciais sistemáticas efetivas5-7.

Considera-se o autocuidado como a prática de atividades que o indivíduo realiza em seu próprio benefício, na manutenção da vida, da saúde e do bem-estar8, que deve ser incentivado por meio da educação.

Para isso, a educação do paciente é um componente importante do cuidado e desempenha um papel essencial no manejo da doença, promoção da saúde e prevenção de agravos, contribuindo para o autocuidado e reduzindo complicações9. Deve ser apresentada de maneira estruturada, organizada e repetida para alcançar um desempenho importante na prevenção de lesões, melhora o autocuidado do paciente com os pés e aumento da motivação e habilidades para adesão ao tratamento1.

Isso pode assumir muitas formas, como educação verbal individual, educação integrada a entrevistas motivacionais, sessões educacionais em grupo, educação em vídeo, livretos, aplicativos de software, questionários e educação pictórica por meio de desenhos animados ou imagens descritivas1. Nesse contexto, destacam-se os vídeos educativos, que são ferramentas audiovisuais de disseminação rápida da informação por meio de plataformas online que viabilizam o alcance de qualquer pessoa, independentemente da classe social ou do nível educacional10.

Considerando o YouTube como local mais difundido entre os usuários de Internet, o que leva muitas pessoas a utilizá-lo como fonte de pesquisa, enfatiza-se a importância de pesquisas que realizem análise da qualidade e fidedignidade das informações postadas.11 Ademais, o YouTube é uma das ferramentas mais importantes para difusão de informações, pela facilidade de acesso e de transmissão da mensagem em forma de vídeo ou áudio, tornando-se uma das principais fontes de transmissão de dados do mundo12.

Portanto, ressalta-se a importância de difundir orientações adequadas de autocuidado com os pés para prevenção de complicações em pessoas com diabetes. Nesse sentido, ao atuar como propagador de informações, o YouTube apresenta significativa importância na disseminação de conhecimento, tornando-se um local favorável à investigação do objeto de estudo.

Ante o exposto, esse estudo objetivou analisar a qualidade e confiabilidade dos vídeos educacionais sobre autocuidado com os pés para pessoas com diabetes disponíveis no YouTube.

MÉTODO

Trata-se de um estudo tipo benchmarking, conduzido de acordo com checklist Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses (PRISMA)13, utilizado em revisões sistemáticas. Para tal, seguiram-se as etapas adaptadas para esse estudo: 1) Estabelecimento dos objetivos analíticos; 2) Escolha dos termos; 3) Enumeração dos critérios; 4) Definição das informações a serem extraídas; 5) Análise dos resultados; e 6) Apresentação dos resultados e discussão.

Inicialmente, estabeleceram-se os objetivos analíticos, os quais foram identificar e quantificar os vídeos disponíveis no YouTube sobre o autocuidado com os pés de pessoas com diabetes. A seleção dos vídeos ocorreu em um único momento de coleta de dados, no dia 5 de janeiro de 2025.

Na segunda etapa, foi realizada a escolha dos termos, sendo definidos os seguintes termos segundo os Descritores em Ciências da Saúde (DeCS): Pés e diabetes, Pé diabético, Autocuidado com os pés, utilizados de forma associada e com aspas, para restringir a pesquisa a vídeos que tivessem os dois descritores. Realizou-se a pesquisa até a página dez, na qual os vídeos tinham relação com a busca. Para a pré-seleção, analisaram-se o título e a descrição dos vídeos para avaliar se abordavam o objeto do estudo.

Para a terceira etapa, foram considerados os critérios de inclusão e exclusão dos vídeos. Incluíram-se vídeos sobre autocuidado com pés para pessoas com diabetes direcionados para pacientes e/ou familiares, na língua portuguesa do Brasil. Excluíram-se os vídeos divididos em mais de uma parte, lives, shorts, propagandas e que apresentassem baixa qualidade na imagem e no som, já que poderia interferir no processo de avaliação.

Na quarta etapa, foram definidas as informações a serem extraídas. A coleta foi realizada por pares, de forma independente, com auxílio de um formulário específico com informações divididas em quatro partes: 1) Características gerais: Tipo de filmagem, Autoria, Título, Entidade que postou, Categoria, Data da postagem, Duração, Número de visualizações, Número de comentários, Avaliação dos internautas; 2) Orientações de autocuidado com os pés, de acordo com as recomendações do International Working Group on the Diabetic Foot1. Essa instituição desde 1999 publica Diretrizes práticas com base em revisões sistemáticas da literatura e formulação de recomendações de especialistas multidisciplinares de todo o mundo baseadas em evidências sobre a prevenção e o gerenciamento de doenças do pé relacionadas ao diabetes14, quais sejam: Inspeção dos pés, lavagem dos pés, secagem cuidadosa entre os dedos, corte de unhas, uso de emolientes para lubrificar a pele, não uso de agentes químicos ou emplastros para remover calosidades, inspeção de calçados, evitar andar descalço ou apenas com meias ou chinelos de sola fina, evitar usar meias apertadas, evitar exposição ao frio e calor excessivo); 3) Para classificação dos vídeos, utilizou-se o instrumento DISCERN, que permite classificar a qualidade das informações de saúde relacionadas aos tratamentos fornecidos nos vídeos15.

O instrumento consiste em 16 questões divididas em três seções. A primeira seção (8 questões) avalia a confiabilidade da informação ou a credibilidade da fonte da informação; a segunda (7 questões), a qualidade das informações sobre as opções de tratamento; e a última (1 questão), a qualidade geral da publicação. As seções 1 e 2 são avaliadas por meio de respostas em escala de Likert de cinco pontos: 1 - não; 2; 3 - parcialmente; 4 e 5 - sim; e, na seção 3, as alternativas de respostas são 1 - Baixa (falhas graves ou generalizadas); 2; 3 - Moderada (falhas potencialmente importantes, mas não graves); 4 e 5 - Alta (falhas mínimas). Na seção 2, as questões referem-se ao tratamento ou tratamentos descritos na publicação, o autocuidado foi considerado uma forma de tratamento ao longo de toda esta seção15. 4) Utilizou-se a ferramenta do Journal of American Medical Association Benchmarks (JAMA Benchmarks)16 para medir a confiabilidade, nomeadamente para determinar autoria, atribuição, transparência e atualidade dos vídeos. A autoria está ligada à identificação dos autores e colaboradores do local eletrônico, suas credenciais e afiliações. A atribuição abrange as referências e fontes das informações. O conceito de transparência vincula-se à identificação do responsável do site, de patrocínio, de políticas de publicidade e possíveis conflitos de interesse. A atualização diz respeito à apresentação das datas de publicação e atualização das informações16,17. O cálculo é feito a partir do somatório das pontuações atribuídas em cada item, que resulta em valor que varia de 0 a 4, sendo classificado como: 0 a 1 - dados insuficientes, 2 a 3 - dados parcialmente suficientes, e 4 - dados suficientes16,18.

A diferença nos resultados obtidos da utilização dos dois instrumentos de avaliação é explicada, uma vez que o JAMA avalia a confiabilidade dos vídeos, sem levar em consideração o conteúdo apresentado17.

A coleta foi conduzida por dois pesquisadores e corroborada por um terceiro, de modo que quaisquer diferenças na abordagem e foco foram sempre discutidas e resolvidas com total concordância.

Na quinta etapa, realizou-se a análise dos resultados por meio do software Jamovi® versão 2.3.28. Para variáveis qualitativas, utilizaram-se frequências absoluta e relativa. Nas variáveis quantitativas, primeiro foi calculada a normalidade pelo teste de Shapiro-Wilk, adotando a hipótese nula (variáveis seguem uma distribuição normal) para p > 0,05 e a hipótese alternativa (variáveis não seguem uma distribuição normal) para p < 0,05. Utilizaram-se média e desvio padrão para as variáveis que apresentaram distribuição normal. Já as variáveis assimétricas foram representadas por meio da mediana e percentil. As orientações de autocuidado baseadas na IWGDF1 foram apresentadas por meio das frequências absoluta e relativa das respostas sim, não e em parte.

Ademais, os resultados do DISCERN foram representados pelas frequências relativa e absoluta da classificação final da qualidade dos vídeos, adquirida a partir do somatório dos pontos de cada item do instrumento. Para o JAMA, utilizaram-se média e desvio-padrão das pontuações por item e total obtidas por cada vídeo.

Por fim, testou-se a correlação entre as variáveis duração do vídeo (em segundos), número de visualizações, número de inscritos no canal, número de comentários e classificação do DISCERN pelo Coeficiente de Correlação de Spearman, já que não seguiram uma distribuição normal, sendo considerada significância estatística p-valor < 0,05. A força da correlação foi considerada maior quanto o resultado do cálculo fosse mais próximo dos extremos (-1 ou +1) e fraca ou inexistente quando próxima de 0, sendo valores positivos diretamente proporcionais e negativos inversamente.

Durante a preparação deste artigo, os autores não utilizaram ferramentas de geração de texto e/ou Inteligência Artificial (IA).

Esse estudo não foi submetido ao comitê de ética porque foi realizado em uma rede social e não envolveu nenhum dado de paciente ou humano, além de medir a atividade da Internet entre usuários do YouTube. Além disso, utilizaram-se apenas dados de usuários que consentiram que o YouTube tornasse seus dados publicamente disponíveis (ou seja, nenhuma configuração de privacidade foi selecionada por eles). Mesmo assim, as contas de usuários individuais foram anonimizadas para desenvolver boas práticas de pesquisa em mídias sociais19.

A sexta etapa, apresentação dos resultados e discussão, foi realizada de forma descritiva e por meio de figuras e tabelas.

RESULTADOS

A busca inicial identificou 54 vídeos. Após leitura de título e descrição dos vídeos, os 54 permaneceram para avaliação na íntegra. Nesse processo, 34 foram excluídos, por não abordar as orientações de autocuidado com pés para pessoas com diabetes direcionadas para pacientes e/ou familiares (n=33), por não estar na língua portuguesa do Brasil (n=1), restando, assim, 20 vídeos para compor a amostra final do estudo (Figura 1).

Figura 1 -
Fluxograma PRISMA adaptado de seleção dos vídeos do Youtube. Fortaleza, Ceará, Brasil, 2025.

Dos 20 vídeos incluídos no estudo, 16 (80%) eram filmagens profissionais. Quanto à autoria, sete (35%) foram produzidos por médicos, três por enfermeiros (15%) e dois por fisioterapeutas (10%), instituto (10%) e reportagens (10%), cada. Os demais foram feitos por nutricionistas, pacientes, secretaria de saúde e sociedade ou associação, um cada.

O ano de postagem variou entre 2012 e 2024, sendo o período entre 2021 e 2024 predominante (9;45%), sugerindo que os vídeos contêm informações atualizadas. Todos tiveram pessoas com DM e familiares como público-alvo. A mediana da duração do vídeo foi de 5,46 minutos, número de visualizações 7.330, número de inscritos no canal 30.600 e número de comentários foi 16 (Tabela 1).

Tabela 1 -
Caracterização geral dos vídeos. Fortaleza, CE, Brasil, 2025. (n=20).

Todos os vídeos orientavam sobre lesões nos pés e suas consequências (20; 100%). As principais orientações de autocuidado com os pés identificadas foram: lavagem dos pés (17; 85%), corte adequado de unhas (15; 75%), inspeção dos pés (14; 70%), uso adequado do calçado (14; 70%), secagem cuidadosa entre os dedos (12; 60%) e uso de emolientes para hidratar a pele (12; 60%). Em contrapartida, a maioria dos vídeos não apresentou informações referentes ao não uso de agentes químicos ou emplastros para remover calosidades (13; 65%) e inspeção de calçados (13; 65%) (Tabela 2).

Tabela 2 -
Conteúdos abordados sobre as orientações das práticas de autocuidado com os pés de pessoas com diabetes. Fortaleza, CE, Brasil, 2025. (n=20)

Alguns vídeos abordaram orientações incompletas ou mesmo equivocadas sobre as orientações de autocuidado com os pés, como: imagem de personagens com os pés dentro de bacia com água (n=2); colocar a mão para testar a temperatura da água na hora do banho (n=2); procurar um profissional de saúde para realização de massagem nos pés após prática de exercício físico (n=1); usar talcos antissépticos nos pés que apresentam suor intenso (n=1); usar loções e talcos entre os dedos (n=1); sentar com os pés elevados para melhorar o retorno venoso (n=1), sem especificar as contraindicações; além de orientar o uso de lixa nos pés para retirar as calosidades (n=1).

Em relação à qualidade das informações nos vídeos, 12 (60%) apresentaram falhas mínimas, seis (30%) falhas potencialmente relevantes e dois (10%) falhas graves ou generalizadas.

Já no JAMA, todos pontuaram um em autoria, transparência e atualização e zero em atribuição, totalizando, assim, três pontos. Dessa forma, todos apresentaram dados parcialmente suficientes (Tabela 3).

Tabela 3 -
Pontuações DISCERN e JAMA. Fortaleza, CE, Brasil, 2025.

Apenas as correlações entre número de visualizações e número de comentários; número de visualizações e número de avaliação dos internautas; e número de comentários e número de avaliação dos internautas apresentaram significância estatística (p < 0,05), sendo todas correlações fortes. Assim, sugere-se que, quanto maior for o número de visualizações, maior será o número de comentários e avaliação dos internautas. Além disso, quando o número de comentários aumenta, o número de avaliações dos internautas tende a aumentar (Tabela 4).

Tabela 4 -
Coeficiente de Correlação de Spearman. Fortaleza, CE, Brasil, 2025. (n=20)

DISCUSSÃO

As gravações de vídeos educativos estão aumentando em popularidade. Eles estão disponíveis em várias plataformas, e nem sempre passam por um processo de avaliação20,21. Embora os vídeos educacionais sejam bem prevalentes, destaca-se que o nosso estudo é o primeiro na literatura a avaliar a qualidade e confiabilidade dos vídeos do YouTube, na língua portuguesa do Brasil, de acordo com as recomendações de autocuidado com os pés do IWGDF (2023)1.

No que concerne à prevenção de agravos nas doenças crônicas, as orientações de autocuidado com os pés de pessoas com diabetes podem evitar desfechos negativos, tais como amputação de membros, que impactam a qualidade de vida dos pacientes22.

Nesse âmbito, os vídeos educativos podem constituir uma importante estratégia para o fortalecimento da educação em saúde; entretanto, para que isso ocorra, faz-se necessário o cumprimento de um rigor metodológico23,24. Nesse contexto, a qualidade da filmagem torna-se um fator relevante, visto que a principal diferença entre produções profissionais e amadoras está nos recursos empregados em sua elaboração, como o uso de câmeras e softwares avançados. As produções profissionais são produzidas e editadas por especialistas técnicos; as amadoras utilizam recursos mais simples em sua produção25. O tipo de filmagem pode interferir na recepção do conteúdo pelo público-alvo, como demonstrou um estudo26 que avaliou 288 vídeos e identificou que as produções amadoras pontuaram significativamente mais baixo nos domínios técnico e instrucional em comparação com as profissionais, o que pode impedir o engajamento dos espectadores.

Para que um vídeo seja de alta qualidade, deve ser considerado o tempo de duração, que é um parâmetro essencial ao planejar a criação e o consumo de um vídeo no YouTube27. Não há uma diretriz única quanto ao tempo de duração ideal de vídeos educativos. Porém, quando os vídeos que não ultrapassam cinco minutos, há uma maior aceitação por parte do público14.

Esse processo de aceitação pode contribuir para gerar um conflito entre o conteúdo científico e a lógica dos algoritmos digitais, que favorece a visibilidade de conteúdos simplistas em detrimento de materiais científicos28. Assim, mesmo quando vídeos educativos de boa qualidade são produzidos por profissionais e especialistas, a dinâmica algorítmica pode limitar seu alcance, em contraste com conteúdos persuasivos que se propagam mais rapidamente e em maior quantidade, o que pode representar um risco à disseminação pública do conhecimento e saúde29. Além de provocar um grande impacto social, pois muitos pacientes em regiões com barreiras de acesso à saúde usam o YouTube como principal ou único recurso educativo30.

Durante a produção das filmagens, os autores devem atentar-se a elementos técnicos e instrucionais para garantir o engajamento do público-alvo e a devida absorção das informações transmitidas. Um vídeo deve apresentar aspectos como qualidade de produção, visualização de conteúdos, ritmo de explicação adequado, precisão técnica e completude, usando exemplos e vinculando conteúdos a conhecimentos prévios para assegurar um estilo de comunicação envolvente relacionados ao conteúdo do vídeo e à adequação do formato para fins educacionais27.

Nesse estudo, constatou-se correlação significativa entre o número de visualizações com o número de comentários e avaliação dos internautas e do número de comentários com o número de avaliação dos internautas. Para Lijo et al. (2024)27, quanto mais visível um conteúdo é, mais visitas e interações, como comentários, compartilhamentos e curtidas, ele recebe.

O presente estudo mostrou que, embora os vídeos analisados abordassem orientações de autocuidado com os pés de pessoas com diabetes, existem diferenças significativas no que tange à qualidade e confiabilidade. Os materiais assemelham-se nos quesitos inspeção diária dos pés e controle glicêmico, recomendados fortemente no IWGDF1. Contudo, nenhum deles abordou integralmente todas as orientações de autocuidado apresentadas na diretriz, o que evidencia uma lacuna no conteúdo.

Os vídeos ainda divergiram em relação à clareza das mensagens, nível de detalhamento técnico e conteúdo baseado em evidências. Enquanto alguns apresentavam linguagem acessível, transmitida com boa qualidade de imagem e som, outros mostraram-se incompletos ou confusos, com roteiro marcado por trechos breves ou com fundamentação desconhecida. A confiabilidade desse material, avaliada conforme os critérios do JAMA16, é questionada pela ausência das referências e fontes empregadas. Ademais, mesmo aqueles produzidos por profissionais da saúde, obtiveram pontuações com variância considerável na organização do conteúdo e profundidade das informações, como apresentado nas pontuações obtidas pelo DISCERN.

Os resultados do presente estudo demonstram que, mesmo vídeos com boa qualidade técnica, podem apresentar conteúdo que não condiz com evidências científicas. Ressalta-se que as recomendações do IWGDF1 ajudam os profissionais de saúde a fornecerem melhores cuidados para pessoas com diabetes em risco de ulceração no pé, a aumentar o número de dias sem úlcera e a reduzir os custos do paciente e da assistência médica devido à doença do pé relacionada ao diabetes31. A prevenção, assim como o gerenciamento do diabetes, está associada à diminuição de amputações de extremidades inferiores relacionadas ao diabetes14, corroborando a importância de difundir orientações de forma adequada, com embasamento técnico em evidências científicas.

Semelhante aos dados encontrados, estudo que avaliou a qualidade dos vídeos no YouTube sobre a capsulite adesiva evidenciou que vídeos de fontes médicas ou acadêmicas não forneceram mais informações educacionais do que outras fontes32. Ademais, outras pesquisas também mostraram a baixa qualidade das informações comunicadas pelo YouTube para o uso educacional em diversas doenças12,33. Em contrapartida, recentemente, estudos evidenciaram que vídeos criados por profissionais de saúde são, no geral, mais detalhados e de maior valor educacional e qualidade34,35, porém, alguns vídeos ainda eram classificados como de qualidade baixa-moderada34.

Esses dados merecem atenção, pois estudo realizado com usuários do YouTube revelou que uma maioria significativa está tomando decisões de saúde com base no que assistem, com 15,7% fazendo isso com ainda mais frequência. Isso demonstra que o YouTube pode influenciar a saúde daqueles que consomem vídeos relacionados à saúde e que as pessoas estão tomando decisões com base no que assistem36. Daí, a importância do desenvolvimento de vídeos educativos com rigor metodológico, com conteúdo baseado em evidências científicas e em uma linguagem compreensível para as pessoas.

Percebe-se com isso que ainda não existe uma curadoria oficial do Sistema Único de Saúde (SUS) ou sociedades científicas sobre vídeos educativos confiáveis ou de informações incompletas37. Além disso, a formação do profissional de saúde pouco contribui para produzir conteúdo digital que integre narrativa lógica, linguagem acessível em um tempo curto e limitado. Logo, mesmo os vídeos realizados por profissionais podem pecar na clareza, engajamento ou completude38.

Considerando que quase todos os vídeos foram realizados por profissionais, a avaliação da qualidade das informações pelo DISCERN indica que ainda é necessário melhorar a qualidade das informações de saúde relacionadas ao autocuidado com os pés de pessoas com diabetes pelos profissionais. Isso também significa que há uma grande quantidade de informações não verificadas sendo compartilhadas por pessoas que não se identificam como profissionais de saúde e não baseiam suas declarações em fontes científicas. Essa situação pode afetar as pessoas e se tornar um problema de saúde pública12.

Sobre a confiabilidade dos vídeos disponíveis, nenhum apresentou a atribuição, que são as referências e recursos utilizados para o conteúdo, que devem ser listados claramente, assim como as informações de direitos de autor referidas de acordo com os critérios de JAMA Benchmarks. Porém as informações de autoria, transparência e atualidade dos vídeos foram fornecidas.

A internet tornou mais fácil do que nunca o acesso a informações sobre qualquer assunto imaginável. No entanto, isso também significa que muitas informações e desinformações estão disponíveis online, o que pode ser um problema, pois as pessoas podem não conseguir distinguir entre informações confiáveis ou não32.

A qualidade e a confiabilidade das informações de conteúdo relacionado à saúde podem variar significativamente. Essa discrepância entre popularidade e qualidade do conteúdo destaca o desafio de garantir a disponibilidade e acessibilidade de vídeos confiáveis e de alta qualidade relacionados à saúde na plataforma36. Embora os vídeos educacionais disponíveis apresentem tópicos importantes, não conseguimos encontrar nenhum vídeo que contemplasse todas as recomendações de autocuidado com os pés recomendadas pelo IWGDF1.

Ao avaliar sistematicamente a qualidade e a confiabilidade dos vídeos do YouTube sobre autocuidado dos pés em pessoas com diabetes, o nosso estudo evidencia lacunas nas informações disponíveis e ressalta a importância de conteúdos digitais baseados em evidências e fontes confiáveis. Logo, contribui para fornecer subsídios a profissionais de saúde e educadores em diabetes, orientando a produção de materiais educativos confiáveis na internet e destacando a utilidade de instrumentos que auxiliem na avaliação da qualidade e confiabilidade das informações.

Nosso estudo tem algumas limitações, como as dificuldades de pesquisar dentro do YouTube, pois, mesmo com o uso de diversas estratégias de buscas voltadas ao tema, surgiram muitos vídeos diferentes do assunto buscado. Outra limitação é que os vídeos foram visualizados e avaliados em um momento oportuno, porém, o número de visualizações, curtidas e comentários de vídeos é propenso a mudar.

CONCLUSÃO

Ao analisar a qualidade e a confiabilidade dos vídeos educacionais sobre autocuidado com os pés de pessoas com diabetes disponíveis na plataforma Youtube, a maioria apresentou qualidade alta, com falhas mínimas, e demonstrou dados parcialmente suficientes.

Apesar de a maioria dos vídeos publicados no YouTube sobre as orientações de autocuidado com os pés para pessoas com diabetes serem publicados por profissionais de saúde, apresentam informações que não estão alinhadas com a literatura científica ou com informações incompletas. Nota-se, assim, a importância de melhorar a confiabilidade e a qualidade do conteúdo para que os internautas encontrem vídeos educativos com informações confiáveis em uma linguagem compreensível.

Sugere-se, portanto, a produção de vídeos de qualidade e boa confiabilidade sobre autocuidado dos pés para pessoas com diabetes e realização de estudos que avaliem essas características para disponibilização nas plataformas digitais, como o YouTube.

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NOTAS

  • DISPONIBILIDADE DE DADOS
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Editado por

  • EDITORES
    Editores Associados: Camila Xavier Dalcol.
    Editor-chefe: Gisele Cristina Manfrini.

Disponibilidade de dados

O conjunto de dados que dá suporte aos resultados desse estudo está disponível mediante solicitação ao autor correspondente.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    14 Ago 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    05 Set 2025
  • Aceito
    19 Nov 2025
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