Open-access PADRONIZAÇÃO DO CÁLCULO DA DOSAGEM DE ANTIMICROBIANOS EM PEDIATRIA: ELEMENTOS PARA TECNOLOGIA CUIDATIVO-EDUCACIONAL

RESUMO

Objetivo:  Identificar limitações na segurança do paciente pediátrico durante o preparo e administração de antimicrobianos pela equipe de enfermagem, e validar, de forma participativa, a necessidade e os elementos essenciais de uma tecnologia cuidativo-educacional voltada à padronização do cálculo das dosagens de antimicrobianos em pediatria.

Método:  Estudo exploratório com abordagem qualitativa, fundamentado no Modelo Conceitual de Tradução do Conhecimento em Ação (Knowledge Translation), desenvolvido de julho a dezembro de 2024 em uma Unidade da Criança e do Adolescente de um hospital de ensino do Sul do Brasil. A produção de dados foi realizada mediante 126 horas de observação participante e três sessões de grupo focal com a equipe de enfermagem. Os dados foram submetidos à análise de conteúdo temática.

Resultados:  A observação participante revelou a falta de padronização nos cálculos das dosagens dos antimicrobianos e desafios multifatoriais relativos a interrupções no fluxo e processo de trabalho; e a indisponibilidade de materiais adequados para padronização dos cálculos. No grupo focal, foi validada a necessidade de uma tecnologia, como facilitadora do cuidado, para precisão dos cálculos de antimicrobianos e elencados os elementos essenciais para a sua construção.

Conclusão:  As evidências qualitativas obtidas pela observação participante serviram de base para o planejamento das sessões de grupo focal. Nesse contexto, identificou-se a necessidade de uma tecnologia cuidativo-educacional, no formato de aplicativo móvel, voltada à padronização dos cálculos de dosagem de antimicrobianos em pediatria, bem como foram elencados os elementos essenciais para sua composição.

DESCRITORES:
Segurança do paciente; Erros de medicação; Cálculo da dosagem de medicamento; Tecnologia; Enfermagem pediátrica

ABSTRACT

Objective:   to identify limitations in pediatric patient safety during the preparation and administration of antimicrobials by the nursing staff, and to participatively validate the need for and essential elements of a care-educational technology aimed at standardizing the calculation of antimicrobial dosages in pediatrics.

Method:   this is an exploratory study with a qualitative approach based on the Knowledge Translation Conceptual Model, developed from July to December 2024 in a Child and Adolescent Unit of a teaching hospital in Southern Brazil. The data were produced through 126 hours of participant observation and three focus group sessions with the nursing staff. The data were then subjected to thematic content analysis.

Results:   participant observation revealed a lack of standardization in the calculation of antimicrobial dosages and multifactorial challenges related to interruptions in workflow and processes, as well as the unavailability of adequate materials for standardizing calculations. The need for technology to facilitate care and ensure accurate antimicrobial dosage calculations was validated in the focus group, and the essential elements for its development were listed.

Conclusion:   the qualitative evidence obtained through participant observation served as the basis for planning the focus group sessions. In this context, the need for a care-educational technology in the form of a mobile application aimed at standardizing antimicrobial dosage calculations in pediatrics was identified, and the essential elements for its composition were listed.

DESCRIPTORS:
Patient safety; Medication errors; Medication dosage calculation; Technology; Pediatric nursing

RESUMEN

Objetivo:   identificar las limitaciones en la seguridad del paciente pediátrico durante la preparación y administración de antimicrobianos por parte del personal de enfermería, y validar, de forma participativa, la necesidad y los elementos esenciales de una tecnología asistencial-educativa destinada a estandarizar el cálculo de las dosis de antimicrobianos en pediatría.

Método:  estudio exploratorio con enfoque cualitativo, basado en el Modelo Conceptual de Traducción del Conocimiento (Knowledge Translation), desarrollado de julio a diciembre de 2024 en una Unidad de Niños y Adolescentes de un hospital universitario del sur de Brasil. La producción de datos se llevó a cabo mediante 126 horas de observación participante y tres sesiones de grupo focal con el personal de enfermería. Los datos se sometieron a un análisis de contenido temático.

Resultados:  la observación participante reveló una falta de estandarización en el cálculo de las dosis de antimicrobianos y desafíos multifactoriales relacionados con las interrupciones en el flujo de trabajo y los procesos, así como la falta de materiales adecuados para estandarizar los cálculos. En el grupo focal, se validó la necesidad de tecnología para facilitar la atención y garantizar la precisión en el cálculo de las dosis de antimicrobianos, y se enumeraron los elementos esenciales para su desarrollo.

Conclusión:  la evidencia cualitativa obtenida mediante la observación participante sirvió de base para la planificación de las sesiones de grupos focales. En este contexto, se identificó la necesidad de una tecnología asistencial-educativa, en forma de aplicación móvil, destinada a estandarizar el cálculo de las dosis de antimicrobianos en pediatría, y se enumeraron los elementos esenciales para su composición.

DESCRIPTORES:
Seguridad del paciente; Errores de medicación; Cálculo de la dosis de medicación; Tecnología; Enfermería pediátrica

INTRODUÇÃO

Os incidentes envolvendo a administração de medicamentos em crianças, nas diversas vias, ocorrem com frequência. Especialmente na via intravenosa, tendem a ocorrer durante as etapas de preparo e administração, onde os erros de dosagem que excedem os limites recomendados para essa faixa etária podem resultar em danos, os quais ocorrem cerca de três vezes mais em crianças do que em adultos.1

Frente ao exposto, inúmeros são os desafios enfrentados pelas organizações de saúde para aprimorar os processos de trabalho e implementar estratégias que minimizem a ocorrência de incidentes relacionados a antimicrobianos na população pediátrica. Isto porque os pacientes infantis estão expostos a um risco acentuado devido às condições anatomofisiológicas pelo constante crescimento e, a depender da faixa etária, não possuem plena capacidade de expressarem os sinais e sintomas decorrentes dos incidentes e/ou eventos adversos (EAs).2

Ainda, para o alcance das dosagens corretas e seguras no preparo e na administração de antimicrobianos em pediatria é necessária a realização de uma variedade de cálculos matemáticos nas diversas fases do preparo e administração de medicamentos, devido às diferentes proporções de peso corporal e às limitações fisiológicas relativas à faixa etária.3 Esta atividade complexa faz parte do processo de trabalho dos(as) enfermeiros(as) e requer competências de cálculos matemáticos, como equivalência de unidades, dose total, dose com conversão de unidades, fracionadas, diluição e ritmo de infusão.4,5

Portanto, parte-se do pressuposto de que cálculos precisos na administração de medicamentos constituem uma parte essencial da Segurança do Paciente (SP). Estudo com enfermeiras de um hospital no Peru, durante o preparo e administração de medicamentos em pediatria, identificou que o erro de dosagem representou 67,5% dos erros observados.6 Quando acometidas por EAs, as consequências para as crianças podem perpassar desde o agravamento e/ou instabilidade do quadro clínico ao óbito, com necessidade de suporte de terapia intensiva.7

Além disso, destaca-se que em 2025 o tema do Dia Mundial da Segurança do Paciente foi “Cuidado seguro para cada recém-nascido e cada criança”, com ênfase na urgência de agir de forma precoce e consistente para prevenir danos ao longo da infância e gerar benefícios ao longo de toda a vida.8 Entre os objetivos da campanha, salientam-se as necessidades específicas de crianças, famílias e cuidadores, bem como da implementação de estratégias sustentáveis de cuidado seguro em pediatria e fortalecimento de pesquisa em segurança do paciente nessa área.9

Portanto, diante da preocupação com a melhoria dos desfechos do cuidado em âmbito nacional, a temática deste estudo vai ao encontro da Agenda de prioridades de pesquisa do Ministério da Saúde (MS), dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) e do Plano de Ação Global para a Segurança do Paciente (SP) 2021-2030.10

No entanto, embora a prática segura e livre de danos seja uma meta global10, ainda há necessidade de investimentos em sistemas e práticas para prevenir erros e melhorar a terapia medicamentosa. Com isso, a construção de Tecnologias Cuidativo-Educacionais (TCE) tem se mostrado relevante, impactando positivamente a SP e otimizando a prática assistencial.11

Frente ao exposto, tem-se como questões de pesquisa: Existe a necessidade de desenvolvimento de Tecnologia Cuidativo-Educacional para auxiliar na precisão dos cálculos no preparo dos antimicrobianos em pediatria? Quais os elementos essenciais que devem ser incorporados a ela? Dessa forma, objetivou-se identificar limitações na segurança do paciente pediátrico durante o preparo e administração de antimicrobianos pela equipe de enfermagem, e validar, de forma participativa, a necessidade e os elementos essenciais de uma tecnologia cuidativo-educacional voltada à padronização do cálculo das dosagens de antimicrobianos em pediatria.

MÉTODO

Trata-se de um estudo exploratório com abordagem qualitativa. Utilizaram-se as diretrizes do Consolidated Criteria for Reporting Qualitative Research (COREQ).12 Foram desenvolvidas as fases do ciclo de criação da estrutura, fundamentado no modelo conceitual de Tradução do Conhecimento em Ação (Knowledge Translation) (Figura 1).

Figura 1 -
Modelo Conceitual de Tradução do Conhecimento em Ação (Knowledge Translation). Santa Maria/RS, Brasil, 2024. (n=36).

O estudo foi desenvolvido em um hospital público de ensino da região central do Rio Grande do Sul, na Unidade da Criança e do Adolescente (UCA). A unidade atua como referência estadual no atendimento pediátrico, exclusivo pelo Sistema Único de Saúde (SUS), com 20 leitos e taxa de ocupação média de 95% de internação de crianças e adolescentes entre 0 e 14 anos, 11 meses e 29 dias. Na prática pediátrica hospitalar, os medicamentos são fornecidos pela farmácia em quantidades correspondentes ao período de 24 horas de tratamento, não sendo disponibilizados em doses unitárias fracionadas.

Na etapa da observação, a amostra foi intencional e por conveniência.15 Os critérios de inclusão foram: ser Enfermeiro(a) ou Técnico(a) de Enfermagem (TE) com, pelo menos, três meses de atuação na UCA. Foram excluídos os profissionais afastados por férias, licença ou atestado médico no período de coleta de dados.

Houve 36 sessões de observação, nos turnos da manhã (n=8), tarde (n=14) e noite (n=14), com duração média de 3 horas e 30 minutos por turno, totalizando 126 horas, entre junho e agosto de 2024. Utilizou-se um roteiro semiestruturado nos momentos de aprazamento das prescrições médicas, de cálculo de dosagem e de preparo de antimicrobianos prescritos.

A saturação dos dados ocorreu quando não foram identificados elementos novos associados ao objeto de estudo.16 Posteriormente, ocorreram as três sessões de grupo focal (GF), de setembro a dezembro de 2024, para validar a necessidade de uma TCE e definir seus elementos essenciais, por meio de roteiro pré-estabelecido. A seleção dos participantes ocorreu por conveniência, conforme a possibilidade de afastamento do trabalho. O critério de inclusão consistiu no envolvimento direto com os cálculos das dosagens dos antimicrobianos e adotaram-se os mesmos critérios de exclusão da observação.

Na primeira sessão do GF, participaram nove TEs e três enfermeiras; na segunda, 10 TEs; e na terceira, seis TEs e duas enfermeiras. Cada sessão teve duração média de uma hora e envolveu discussões mediadas pela pesquisadora, com o apoio de três coletadoras que auxiliaram na observação, nas anotações e nas gravações dos áudios. Os depoimentos foram gravados em dispositivos eletrônicos de áudio (celulares e iPad) e integralmente transcritos, junto aos registros do diário de campo, para o Microsoft Office Word®. Durante esta etapa foi utilizado a ferramenta de inteligência artificial Turbe Scribe, versão gratuita, para transcrição de áudio. Após o uso desta ferramenta os autores revisaram e editaram o conteúdo em conformidade com o método científico e assumem total responsabilidade pelo conteúdo da publicação.

Foi realizada análise de conteúdo do tipo temática em três etapas: pré-análise, exploração do material e interpretação.17 Na pré-análise, os dados foram organizados, após a leitura dos registros obtidos pelo Roteiro de Observação e dos depoimentos nas sessões de GF, selecionando-se as evidências relevantes para o objeto de estudo.17

Esta pesquisa atendeu aos aspectos éticos envolvendo seres humanos expressos na Resolução nº 466/12 do Conselho Nacional de Saúde e foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da instituição. Os participantes da pesquisa foram esclarecidos sobre os objetivos e a metodologia, assinando o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). Para garantir o anonimato aos participantes do GF, suas identidades foram substituídas pelas letras E, para identificar Enfermeiros(as), e TE para Técnicos(as) de Enfermagem, seguidas por números sequenciais.

As notas de observação participante foram identificadas por números crescentes, antecedidos pelo código NO, fazendo-se referência à nota de observação. Quanto às notas do GF, utilizou-se o código NGF, seguido do número correspondente à sessão (1, 2 ou 3), do dia/mês/ano de ocorrência e do turno.

RESULTADOS

Os resultados serão apresentados de acordo com as etapas sequenciais e inter-relacionadas: observação participante e GF, com análise mediante triangulação dos dados. Foram realizadas 36 observações participantes de 18 profissionais de enfermagem, majoritariamente TEs (72,3%), e Enfermeiras (27,7%), do sexo feminino (100%) e com tempo de atuação entre 7 e 9 anos na UCA (50%). Emergiram cinco categorias temáticas centrais (I a V) que estão em ordem crescente, no Quadro 1. Destaca-se que os valores percentuais apresentados referem-se à frequência relativa de observações realizadas no período de coleta de dados.

Quadro 1 -
Fatos relacionados à administração segura de antimicrobianos observados na Unidade da Criança e do Adolescente. Santa Maria/RS, Brasil, 2024. (n=36)

Na categoria I, as observações revelaram frequentes dificuldades relacionadas à precisão do cálculo da dosagem dos antimicrobianos, como a carência de padronização específica para pacientes pediátricos, auxílio de ferramentas e protocolos institucionais. Os profissionais enfrentaram divergências nos cálculos em comparação ao manual de diluição institucional, o que gerou incertezas e erros potenciais.

Também ocorreram dúvidas no cálculo da conversão entre diferentes unidades (mg para ml), aumentando o risco de incidentes com antimicrobianos. Logo, o arredondamento inadequado dos valores dos cálculos das dosagens, que envolvem reconstituições e diluições, pode resultar em subdosagem ou superdosagem, comprometendo a SP. Ademais, quando um erro era identificado, observou-se a colaboração entre Enfermeiros(as) e TEs para corrigir as divergências antes da administração do antimicrobiano, conduta que pode contribuir para a redução do risco de EAs.

Na categoria II, ficou evidente que as interrupções no aprazamento e preparo ocorriam por demandas externas à atividade primária, proveniente de diferentes fontes, fossem de colegas, da equipe médica, multiprofissionais e de familiares de pacientes.

Do total de 21 interrupções observadas (100%), 14 acometeram as TEs (66,7%) e sete, as Enfermeiras da UCA (33,3%). Essas interrupções impactaram diretamente a concentração e a precisão dos cálculos, com o agravante de que, na pediatria, as doses são ajustadas individualmente com base no peso e na condição clínica do paciente. Além disso, repercutiram no tempo de execução da atividade primária, como a diluição do antimicrobiano, pois foi necessário pausar a atividade para atender demandas externas.

No que concerne à categoria III, em 50% dos momentos, as profissionais de enfermagem utilizaram algumas ferramentas para auxiliar no cálculo das dosagens dos antimicrobianos, sobressaindo-se o painel de diluições e as calculadoras, tanto de bolso como em aplicativo de celular, como recurso rápido e prático de consulta no preparo e aprazamento dos antimicrobianos. Logo, a ausência de uma ferramenta ou de uma tecnologia para a padronização dos cálculos de dosagens dos antimicrobianos resultou em abordagens variadas de profissionais de diferentes turnos, colocando uma carga significativa sobre a profissional de enfermagem, que necessita desenvolver os cálculos matemáticos com a dependência de cálculos manuais ou calculadoras, repercutindo no aumento do risco de erros e, consequentemente, de incidentes e EAs.

Na categoria IV, identificou-se a recorrência da indisponibilidade de materiais essenciais para o preparo dos antimicrobianos. Estes incluíram as etiquetas autocolantes, utilizadas externamente nas seringas para a identificação dos medicamentos, e as divergências na utilização das bombas de infusão por equipo e seringa.

Apesar dos desafios observados, a categoria V aponta que há práticas positivas frente à problemática. Estas incluíram a colaboração entre os profissionais para resolução de problemas; com momentos de aprendizado coletivo e troca de conhecimentos técnicos sobre cálculos e preparações, apontando para a importância de aprender com os colegas experientes, especialmente em caso de dúvida. Ainda, ocorreram a divisão do aprazamento da prescrição médica, entre enfermeiras, refletindo uma estratégia de otimização do fluxo de trabalho e evitando a sobrecarga individual, e o suporte aos novos integrantes da equipe.

Na etapa do GF, a equipe de enfermagem da UCA validou amplamente a necessidade de uma TCE destinada ao suporte no cálculo de antimicrobianos, elencando os elementos essenciais que deverão ser contemplados na tecnologia.

[...] para uma ferramenta de trabalho que vai facilitar e muito [...] se der certo, nas outras unidades também pode ser usado [referindo-se a uma tecnologia] (TE1, NGF2, 24/11/2024).

[...] acho que tem que ter o aplicativo, que a gente cola o nome do remédio, o paciente, o peso dele. Antes de dar o resultado, ela tinha que dar um alerta, olhar de novo para ver se tudo ficou certo [...] (TE4, NGF1, 24/09/2024).

As sugestões de funcionalidades, como alertas para verificar a precisão dos cálculos, lembretes personalizados e notificações de incompatibilidades medicamentosas, destacam a preocupação dos profissionais em garantir que o aplicativo seja robusto, intuitivo e adaptado às necessidades práticas:

[...] poderia lançar lembretes mais personalizados de acordo com o paciente [...] (TE6, NGF1, 24/09/2024).

[...] a incompatibilidade seria como um alerta também, se tem duas medicações, para não colocar no mesmo horário [...] (TE7, NGF1, 24/09/2024).

[...] vai ser obrigado [o profissional de enfermagem] a fazer o cálculo no aplicativo, a utilizar o aplicativo. E vai ser uma coisa mais segura (TE11, NGF1, 24/09/2024).

Os dados refletem a percepção positiva e as expectativas dos profissionais de saúde em relação ao desenvolvimento e à implementação de uma TCE para a otimização dos processos de cálculo e administração de antimicrobianos, no formato de aplicativo móvel. Isso é especialmente relevante em contextos como a UCA, onde o fluxo de trabalho exige respostas rápidas e precisas.

Para que isso seja possível, a equipe reconheceu a necessidade de capacitação adequada, do engajamento coletivo e da inclusão tecnológica, considerando os profissionais com pouca familiaridade com aplicativos. Ademais, elementos interativos e metodologias ativas de ensino-aprendizagem foram sugeridos para tornar o processo educativo dinâmico e para reforçar os conhecimentos adquiridos, ilustrando essa abordagem inovadora, alinhada às tendências de educação em saúde:

[...] no momento que constrói uma tecnologia, tem que ter uma capacitação. Todo mundo testa e vê se é aquilo [...] (TE2, NGF1,24/09/2024).

[...] e quem não sabe? A gente sabe que os colegas... e eu não sei muito bem essas coisas de aplicativo no celular [...] (TE1, NGF1, 24/09/2024).

[...] o que tu pode fazer se tu quer interatividade e educar, a cada tantos acessos que tivéssemos, por exemplo, tivesse um quiz ou jogo para testar o que tu aprendeu [...] (TE4, NGF1, 24/09/2024).

No transcorrer das sessões de GF, foram consideradas as sugestões pelo público-alvo sobre os elementos essenciais para a construção de um aplicativo móvel, conforme o Quadro 2. Selecionaram-se imagens via plataforma online gratuita Freepik, as quais foram disponibilizadas aos profissionais de enfermagem como fonte de inspiração para a criação dos elementos visuais da TCE.

Os dados apontam que a elaboração participativa de uma TCE, em formato de aplicativo móvel, ancorada na Knowledge Translation, tem o potencial “cuidativo-educacional”, com isso, poderá contribuir diretamente para a padronização de condutas na prática diária da equipe de enfermagem.

Quadro 2 -
Elementos essenciais, na percepção do público-alvo, para a construção coletiva de uma Tecnologia Cuidativo-Educacional para a padronização do cálculo de antimicrobianos em enfermagem pediátrica. Santa Maria/RS, Brasil, 2024.

DISCUSSÃO

A identificação de divergências nos cálculos das dosagens dos antimicrobianos durante o preparo e aprazamento das dosagens dos antimicrobianos demonstrou que as causas de erros neste processo são multifatoriais, derivados de desafios em relação à realização dos cálculos, fragilidades na padronização em pediatria, interrupções e ausência de ferramentas que auxiliem na precisão dos cálculos. Erros de medicação são multifacetados e estudos indicam que podem ocorrem erros com taxas que variam de 1% a 58%, em diferentes momentos no processo medicamentoso em pediatria.18-19

Dentre esses, a fase de administração mostra-se como prevalente na ocorrência de incidentes em pediatria (61,8%), principalmente erros de dose (33,5%).20 Cálculos imprecisos ou incorretos durante as dosagens, bem como na conversão de unidades de medida também aumentam os riscos de danos na população pediátrica.21 Outrossim, os incidentes pediátricos estão relacionados, com maior frequência, aos medicamentos e fluidos intravenosos (25,1%), especialmente os quimioterápicos, sedativos, diuréticos, antifúngicos (65,1%), seguidos pelos antimicrobianos (15,8%).20

Os resultados apontaram que a equipe da UCA é composta por dois diferentes níveis de formação, o que permite inferir que nem todos os profissionais têm o mesmo conhecimento teórico e técnico ou experiência no cálculo da dosagem, o que pode levar a inconsistências na administração de medicamentos. Observou-se a necessidade de padronização nos processos de preparo e administração de antimicrobianos. Notou-se que a equipe utilizava, majoritariamente, um painel expositivo disposto na unidade com as reconstituições e diluições dos principais medicamentos, retiradas do manual de diluição dos medicamentos injetáveis, que não contempla diretamente a população infantil.

No entanto, os estudos são unânimes em recomendar a utilização de concentrações padronizadas para simplificar os cálculos de reconstituições e rediluições, e, com isso, reduzir o risco de incidentes, com ou sem danos.21 Revisão sistemática acerca dos danos causados por erros de preparação de medicamentos endovenosos evidenciou doses erradas com taxas de 0% a 99,6%, com concentração errada de 0,3% a 88,6%, e o volume de diluente errado de 0,06% a 49,0%.22

As interrupções foram dificultadoras para o cálculo preciso dos antimicrobianos na UCA, constituindo fatores de risco para a ocorrência de EAs. Embora, sob circunstâncias específicas, sejam consideradas como inevitáveis, requerem estratégias de mitigação para preservar a SP e a eficácia do cuidado. Essas incluem: estabelecer períodos de trabalho ininterrupto para o preparo e aprazamento de medicamentos, com sinalização clara para evitar distrações; melhorar a comunicação interprofissional, como estabelecer fluxos para entrega de prescrições e alterações terapêuticas; implementar tecnologias e sistemas de apoio que reduzam a dependência de interações diretas durante tarefas críticas. Portanto, reconhecer e gerenciar as interrupções é essencial para garantir a qualidade assistencial e reduzir os riscos associados a erros no cuidado pediátrico.23

A implantação de tecnologias digitais sofisticadas pode oferecer informações precisas e atualizadas, capazes de complementar os recursos disponíveis na UCA para os cálculos das dosagens dos antimicrobianos. Recomenda-se combinar serviços de saúde digitais e tradicionais de cuidado. Através dessa interação, os profissionais podem se familiarizar com as inovações tecnológicas, integrando-as em suas práticas cotidianas. Além disso, as ferramentas digitais também constroem novos conhecimentos e competências para o contexto da saúde, cada vez mais orientado por soluções digitais.24

A falta de materiais implicou, negativamente, na precisão do cálculo de antimicrobianos em pediatria, sendo a indisponibilidade de etiquetas autocolantes cruciais para esse desfecho. Essa escassez levou a equipe de enfermagem a improvisar manualmente, utilizando outras fitas que, além de não possuírem aderência à seringa, com risco de descolagem antes da administração, não apresentavam dados importantes sobre o paciente e medicamentos, predispondo à ocorrência de incidentes no processo medicamentoso. Em consonância, estudo reitera a importância, na percepção de 11 enfermeiras pediátricas, de imprimir etiquetas autocolantes contendo os identificadores do paciente, bem como os dados relativos ao medicamento (nome, dose, horário).25

As limitações logísticas observadas apontam para desafios estruturais e operacionais no ambiente clínico, com a necessidade de disponibilização de tecnologias apropriadas e de capacitação das equipes para o manejo dessas situações. Além disso, evidenciam a importância da comunicação entre a equipe multiprofissional para mitigar os riscos associados à administração de medicamentos em condições inadequadas. Em última análise, a insuficiência de recursos tecnológicos pode prejudicar tanto a SP quanto a eficácia dos tratamentos prescritos, tornando imprescindível o aprimoramento das práticas de gestão e aquisição de equipamentos nas instituições de saúde.26

Os profissionais de enfermagem desvelaram a necessidade de treinamentos contínuos e capacitações como estratégia possível para a problemática. Estudo sugeriu temas para serem abordados nesses espaços coletivos, como a aplicabilidade prática dos protocolos de SP, a necessidade de transpor o tabu sobre dialogar acerca de erros de medicação, buscando atenuar os sentimentos de medo e culpabilização individuais.25

A validação da necessidade de construção de um aplicativo móvel no GF poderá contribuir para o avanço do cálculo de doses, atualmente realizadas na forma convencional, que poderia ocasionar incidentes, para um sistema tecnológico que poderá minimizar o risco de ocorrência de erros e tornar o processo mais seguro, com padronização de conduta entre os profissionais de enfermagem. Esse avanço tem sido acompanhado pelos estudos científicos que apontam que o uso de tecnologias na área da saúde contribui positivamente para a SP, especialmente quando direciona-se para práticas seguras em grupos populacionais de maior risco, como o infanto-juvenil.2

O uso de aplicativos móveis relacionados à saúde, de modo geral, está facilmente difundido nas plataformas mundiais, totalizando cerca de 350.000, porém sem estudos científicos que sustentem a sua implementação e que comprovem sua eficácia e qualidade. Frente a essa realidade, torna-se iminente que os aplicativos móveis sejam regulamentados, construídos com rigor metodológico e que tenham a eficácia verificada, com vistas a não trazerem informações inadequadas para os usuários.26

Destaca-se, como limitação deste estudo, a inclusão de somente uma unidade pediátrica do hospital público de ensino utilizado como cenário da pesquisa, o que não permite a compreensão mais ampla de outras realidades institucionais e contextuais que poderiam influenciar as percepções dos enfermeiros.

CONCLUSÃO

As observações sustentaram a hipótese de que existe divergência nos cálculos das dosagens dos antimicrobianos, assim como subsidiaram dados relevantes para o desenvolvimento do estudo, ao sugerirem a necessidade de desenvolver uma Tecnologia Cuidativo-Educacional para fortalecer a segurança no processo de medicação em pediatria. A utilização de recursos tecnológicos e a colaboração entre a equipe foram elementos positivos que podem ser potencializados para garantir maior segurança e padronização no preparo e administração de medicamentos.

Logo, a utilização na prática clínica pediátrica de uma tecnologia em formato de aplicativo tem a possibilidade de inovar o processo manual e convencional de cálculo de doses para um sistema tecnológico que oportunize o cálculo seguro e padronizado da dosagem dos antimicrobianos no cenário de estudo. Essa ferramenta digital tende a contribuir positivamente para tornar o cálculo da dosagem dos antimicrobianos seguro e preciso, padronizando-o e minimizando a variabilidade nas práticas observadas e, consequentemente, o risco de ocorrência de incidentes (com ou sem danos) em um setor de internação pediátrica, assegurando aos pacientes um cuidado de qualidade.

A pesquisa cumpriu o propósito de traduzir o conhecimento relativo ao cálculo dos antimicrobianos, pautada na segurança do paciente pediátrico. Portanto, pode ser utilizada como estratégia para facilitar o acesso dos profissionais de enfermagem à padronização do cálculo da dosagem nas diferentes etapas do manejo de medicamentos, desde a apresentação, reconstituição, diluição e tempo de infusão.

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NOTAS

  • ORIGEM DO ARTIGO
    Extraído da dissertação - Segurança do paciente pediátrico: tecnologia cuidativo-educacional para padronização no cálculo da dosagem dos antimicrobianos, apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Enfermagem, da Universidade Federal de Santa Maria, em 2025.
  • FINANCIAMENTO
    Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Brasil (CAPES) - Código de Financiamento 001, pelo auxílio para o desenvolvimento deste estudo.
  • APROVAÇÃO DE COMITÊ DE ÉTICA EM PESQUISA
    Aprovado no Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de Santa Maria, parecer n. 6.702.587/2024, Certificado de Apresentação para Apreciação Ética 39368820.1.1001.5346.
  • DISPONIBILIDADE DE DADOS
    O acesso aos dados que fundamentam este estudo pode ser solicitado diretamente à autora correspondente.

Editado por

  • EDITORES
    Editores Associados: Mara Ambrosina de Oliveira Vargas.
    Editor-chefe: Gisele Cristina Manfrini.

Disponibilidade de dados

O acesso aos dados que fundamentam este estudo pode ser solicitado diretamente à autora correspondente.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    14 Ago 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    18 Jul 2025
  • Aceito
    28 Out 2025
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