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Entre a elite e o povo: o sport no Rio de Janeiro do século XIX (1851-1857)

Entre la elite y el pueblo: el deporte en Rio de Janeiro del siglo XIX (1851-1857)

Entre l’élite et le peuple, le sport à Rio de Janeiro du XIXe siècle (1851-1857)

Resumo:

Este artigo tem por objetivo discutir as experiências esportivas em curso no Rio de Janeiro entre os anos de 1851 e 1857. Como data inicial do recorte temporal, considerou-se o momento em que estavam fundadas as primeiras agremiações de turfe e remo da cidade. A data final refere-se à criação do Jockey Club Petropolitano, última iniciativa antes que houvesse um período de recesso na promoção de eventos de esporte. Procurou-se abordar as peculiaridades do envolvimento dos diversos grupos sociais com o fenômeno. Como a prática era muito associada a noções de civilização e progresso, inferimos que essa investigação pode nos ajudar a melhor entender o relacionamento desses distintos estratos com as iniciativas de adesão ao ideário e imaginário da modernidade na capital do país, observáveis naquele momento. Para alcance do objetivo, como fontes, utilizamos periódicos publicados na cidade, tendo em conta que a imprensa começava a assumir o papel de arena pública e formadora de opiniões. Ao fim, concluímos que, no período, observa-se um dos dilemas-chave na conformação do campo esportivo, a exemplo do que ocorria com outras práticas de entretenimento: a necessidade de gestar estratégias de atração e envolvimento de um público ampliado, sem abandonar os mecanismos de distinção.

Palavras-chave:
história do esporte; Segundo Império; Rio de Janeiro.

Resumen:

El presente artículo tiene como objetivo discutir las experiencias deportivas que estaban en curso en Rio de Janeiro, entre los años del 1851 y 1857. Se consideró como data inicial del recorte del tiempo el momento en lo cual las primeras agremiaciones de turf y remo de la ciudad se fundieron. La data final se refiere a la creación del Jockey Club Petropolitano, que fue la última iniciativa previa a un periodo de receso en la promoción de eventos deportivos. Se intentó abordar las peculiaridades de lo envolvimiento de diversos grupos sociales con el fenómeno. Debido a la práctica ser muy relacionada a las nociones de civilización y progreso, deducimos que esa investigación puede ayudarnos a comprehender mejor la relación de esos diferentes estratos con las iniciativas de adhesión al ideal e imaginario de modernidad en la capital del país, que son observables en aquello momento. Para que el objetivo sea alcanzado, fueron utilizados, como fuentes, los periódicos publicados en la ciudad, llevándose en cuenta que la prensa estaba empezando a asumir el rol de arena pública y de formador de opiniones. Al final, se concluyó que, en el período, se observa uno de los problemas esenciales en la conformación del campo deportivo, como ocurría con otras prácticas de entretenimiento: la necesidad de gestar estrategias de atracción e envolvimiento de un público mayor, sin dejar de lado los mecanismos de distinción.

Palabras clave:
historia del deporte; Segundo Imperio; Rio de Janeiro.

Résumé:

Cet article vise à discuter des expériences sportives en cours à Rio de Janeiro, entre les années 1851 et 1857. Comme le délai de la date de début, il était considéré comme le moment où ils ont fondé les premières associations de courses de chevaux et d’aviron de la ville. La date limite se réfère à la création du Jockey Club Petropolitano, dernière initiative avant qu’il y ait une période de stagnation dans la promotion de manifestations sportives. Il a cherché à répondre aux particularités de la participation de divers groupes sociaux avec le phénomène. Comme la pratique a été étroitement associé aux notions de civilisation et de progrès, nous en déduisons que cette recherche peut nous aider à mieux comprendre la relation entre ces différentes strates avec les initiatives d’adhésion des idées et de l’imagination de la modernité dans la capitale, observables à l’époque. Pour atteindre l’objectif, telles que les polices, les périodiques d’utilisation publiés dans la ville, étant donné que la presse a commencé à prendre le rôle de l’espace public et de formation des opinions. A la fin, nous avons conclu que il a été un des principaux dilemmes pour façonner le terrain de sport, comme cela qui a eu lieu avec d’autres pratiques de divertissement: la nécessité de stratégies pour attirer et impliquer un public élargi sans autorisation mécanismes de distinction.

Mots-clés:
histoire du Sport; Second Empire; Rio de Janeiro.

Abstract:

This article aims to discuss the sporting experiences underway in Rio de Janeiro between the years 1851 and 1857. As a starting point of the time frame, it was considered the moment when the first associations of horse racing and rowing were founded the city. The ending point refers to the creation of Petropolitano Jockey Club, the last initiative before there was a period of stagnation in the promotion of sporting events. We tried to address the peculiarities of the involvement of various social groups in the phenomenon. As the practice was closely associated with notions of civilization and progress, we infer that this research can help us better understand the relationship of these different strata with the initiatives of adherence to the ideas and images of modernity in the capital of the country, which could be observed at that period. To fulfill the objective, we used as sources the publications edited in the city, taking into account that the press began to take on the role of public arena and an opinion leader. At the end, we concluded that, in this period, one of the key dilemmas of the shaping of the sports field can be observed, as it had occurred with other entertainment practices: the need to create strategies to attract and involve a larger public, without abandoning the distinction mechanisms.

Keywords:
history of the sport; Second Empire; Rio de Janeiro.

Na primeira metade do século XIX, foram promovidas, no Rio de Janeiro, as pioneiras competições esportivas do Brasil. Mesmo que não se possa falar stricto sensu de um campo estruturado,1 1 Estou trabalhando com a ideia de campo esportivo conforme sugerida em Pierre Bourdieu, “Como é possível ser esportivo?”, In: ______., Questões de sociologia, Rio de Janeiro, Marco Zero, 1983, p. 136-163. Basicamente, tenho em conta o olhar do autor sobre seus elementos constituintes (entidades representativas, corpo técnico próprio, calendário autônomo, mercado ao seu redor), bem como suas reflexões sobre a estruturação das estratégias de distinção ao redor do esporte. essas experiências iniciais já guardavam muitos dos seus elementos constituintes, sendo inclusive possível perceber o delineamento de duas modalidades, o turfe e o remo, ao redor das quais se estabeleceram algumas diferenças relacionadas não só à dinâmica das práticas como também aos distintos grupos sociais que com elas se envolveram de forma mais ou menos intensa.2 2 Victor Andrade de Melo, Antes do club: as primeiras experiências esportivas na capital do Império (1825-1851), vol. 49, Projeto História, São Paulo, 2014. No prelo.

O que aproximava as iniciativas das duas modalidades era a pretensão de emular determinados parâmetros simbólicos do mundo “civilizado” europeu.3 3 O esporte, em vários sentidos, dramatizou e ajudou a conformar um conjunto de valores e imagens relacionadas ao ideário e imaginário da modernidade. Para mais informações, ver: Georges Vigarello; Richard Holt, “O corpo trabalhado - ginastas e esportistas no século XIX”, In: Alain Corbin (org.), História do corpo, vol. 2, Rio de Janeiro, Vozes, 2008, p. 393-478; Victor Andrade de Melo, Cinema e esporte: diálogos, Rio de Janeiro, Aeroplano; FAPERJ, 2006. As fundações do Club de Corridas, em 1849, e da Sociedade Recreio Marítimo, em 1851, foram encaradas como indícios alvissareiros de que o país progredia.

Essas agremiações surgiram em um momento importante da história brasileira. Depois de um período muito turbulento, marcado por dificuldades na consolidação da independência, sentidas tanto no Primeiro Reinado (1822-1831) quanto no Período Regencial (1831-1841), com a assunção de Pedro II ao trono (1841), começou a se conformar uma maior estabilidade política e econômica.4 4 José Murilo Carvalho, “A vida política”, In: ______. (coord.), História do Brasil Nação (1808-2010). A construção nacional (1830-1889), vol. 2, Rio de Janeiro, Objetiva, 2012, p. 83-130.

Cerca de uma década depois, tornaram-se visíveis os desdobramentos desse processo. Os anos 1850 foram um divisor de águas na história do país.5 5 Sidney Chalhoub, “População e sociedade”, In: Ibidem,, p. 37-82. Era perceptível uma melhor estruturação do Estado, bem como o entabular de iniciativas de modernização. Paulatinamente, construía-se a ideia de que o Brasil deveria se destacar pela adesão a ideias de civilização e progresso, ainda que as dificuldades e contradições internas, como a própria existência da escravidão, explicitassem os limites desse intuito.

No âmbito da economia, percebe-se tanto a consolidação do setor comercial, impulsionado pelos bons resultados no ramo agroexportador, quanto certa diversificação, inclusive as primeiras tentativas de industrialização.6 6 João Antônio de Paula, “O processo econômico”, In: Ibidem, p. 179-224. Na esfera da política, tratou-se de um momento de relativa estabilidade, em que se destacava o poder e a liderança do Partido Conservador.7 7 José Murilo Carvalho, “A vida política”, In: ______. (coord.), História do Brasil Nação (1808-2010). A construção nacional (1830-1889), vol. 2, Rio de Janeiro, Objetiva, 2012, p. 83-130. No cenário cultural, aumentou a busca de vínculos com o continente europeu,8 8 Alfredo Bosi, “Cultura”, In: Ibidem, p. 225-280. processo potencializado pela grande presença de estrangeiros, que atuavam nos mais distintos negócios, e mesmo pelo incremento da possibilidade de comunicação, com a instalação do telégrafo e o surgimento de alternativas mais eficazes e rápidas de navegação, graças ao uso das embarcações a vapor.

Na capital do Império, sentiram-se claramente impactos dessas mudanças, inclusive iniciativas relacionadas à melhor organização dos serviços públicos: saneamento, distribuição de água, iluminação, sistema de saúde e estrutura de transportes.9 9 Sidney Chalhoub, “População e sociedade”, In: Ibidem, p. 37-82. O Rio de Janeiro vai definitivamente se consolidar como a mais importante cidade do Brasil, principal centro de entrada dos mais diferentes produtos e pessoas, das mais diversas nacionalidades, bem como um foco irradiador de modas e costumes.10 10 Lilia Moritz Schwarcz, As barbas do Imperador, São Paulo, Companhia das Letras, 1998. No caso do esporte, deve-se ter em conta que, no decorrer do tempo, se a influência da capital foi notável em muitas localidades, houve também outros importantes centros de difusão, outras cidades que exerceram alguma ingerência regional.

Nesse cenário, percebe-se a gestação de uma dinâmica pública mais intensa, manifesta, inclusive, na melhor estruturação de um mercado ao redor das diversões. Na capital da nova nação que se consolidava, a sociedade civil se organizava e se fazia reconhecer também no âmbito do entretenimento, que rapidamente se ampliava, ajudando a reforçar e expor as contradições e ambiguidades que cercavam as iniciativas de adoção de novos parâmetros civilizatórios. Muitos foram os que pelos jornais registraram esse novo momento: “são tantos os divertimentos que uma pessoa não tem tempo nem para mudar de toilette, ou arrepender-se, antes de cometê-los, dos novos dos pecados do dia antecedente. Feliz Vida!”.11 11 Novo Correio das Modas, 1853, p. 63. Periódico que deu sequência ao Correio das Modas, destinava-se a abordar os mais diferentes assuntos sociais, oferecendo também às leitoras, seu público-alvo, divertimentos diversos, seja na forma de literatura, seja na forma de jogos de palavras e charadas. Essa matéria foi escrita por D. Sallustio, redator geral e responsável pela coluna “Crônica da Quinzena”.

O club é uma das novidades que chegou dos países civilizados e se instaurou na capital em mudança, uma das expressões da valorização das atividades públicas de convivência. Eram grupos políticos, literários, de negócios, filantrópicos, bem como ligados às diversões, entre os quais as sociedades dançantes12 12 Victor Andrade de Melo, “Educação do corpo - bailes no Rio de Janeiro do século XIX: o olhar de Paranhos”, Educação e Pesquisa, vol. 40, n. 3, 2014, p. 751-766. e as agremiações esportivas.

Considerando esse contexto, este artigo tem por objetivo discutir as experiências esportivas em curso no Rio de Janeiro entre os anos de 1851 e 1857. Como data inicial do recorte temporal, considerou-se o momento em que estavam fundadas as primeiras agremiações de turfe e remo da cidade, o Club de Corridas e a Sociedade Recreio Marítimo. A data final refere-se à criação do Jockey Club Petropolitano, última iniciativa antes que houvesse um período de recesso na promoção de eventos de esporte, somente retomados no final da década de 1860.

Especificamente, pretende-se abordar as peculiaridades do envolvimento dos diversos grupos com o fenômeno. Como a prática esportiva era muito associada a noções de civilização e progresso, inferimos que essa investigação pode nos ajudar a melhor entender o relacionamento dos distintos estratos com as iniciativas de adesão ao ideário e imaginário da modernidade na capital do país, observáveis naquele momento, bem como a olhar para as relações sociais no período em tela.

Neste estudo, tendo em vista o contexto, vamos considerar como membros das elites aqueles que detinham não só o poder econômico, como também a capacidade de exercer influência política e cultural. Integravam o estrato os tradicionalmente ligados à posse de terra, comumente envolvidos com a atividade agroexportadora, bem como os responsáveis pelos novos grandes negócios que se gestavam na cidade, nos ramos financeiro, industrial e comercial. Pode-se ainda citar os militares de alta patente e políticos de primeiro escalão, mesmo que não integrassem os grupos anteriores.

Na capital da nova nação que se consolidava, a sociedade civil se organizava e se fazia reconhecer também no âmbito do entretenimento

Já as camadas populares eram constituídas por gente de baixa condição socioeconômica, trabalhadores de profissões manuais e empregados nas menores posições hierárquicas de empreendimentos de diversas naturezas. Há que se considerar ainda um grande número de escravos que se relacionavam de diferentes formas com os membros desse estrato. Devemos lembrar, aliás, que “a alta porcentagem de pretos e pardos livres na população singularizava a sociedade escravista brasileira em relação a outras do século XIX”.13 13 Sidney Chalhoub, “População e sociedade”, In: José Murilo Carvalho (coord.), História do Brasil Nação (1808-2010). A construção nacional (1830-1889), vol. 2, Rio de Janeiro, Objetiva, 2012, p. 42.

Devemos ainda ter em conta a conformação de um estrato intermediário, formado por certos profissionais liberais, grupos específicos de funcionários públicos, empregados em cargos de direção em empresas industriais e comerciais, militares oficiais subalternos e donos de pequenos negócios. Fazendo uso das palavras de Fabiane Popinigis, que dialogou com um estudo de Brien Owensby sobre as classes médias, “Em meados da década de 1850, essas pessoas teriam, segundo ele, encontrado uma maneira de diferenciarem-se das classes inferiores, mas também, e sobretudo, de afirmarem-se perante as elites”.14 14 Fabiane Popinigis, Proletários de casaca: trabalhadores do comércio carioca - 1850-1911, Campinas, Editora da UNICAMP, 2007, p. 55.

Esse grupo, cada vez mais socialmente visível, inclusive no tocante à atuação política, foi muito importante na ampliação da base de consumo, aspecto relevante na conformação de certas práticas, entre as quais as esportivas. De outro lado, assim como ocorria com os populares, era também encarado como suspeito pela elite ciosa de manter seus privilégios e posição de destaque. Vale considerar que, embora fossem flagrantes as cisões entre os estratos sociais, começaram a se gestar espaços em que, de diversas formas e graus, e mesmo com limites, havia pontos de contato e interfaces.

Para alcance do objetivo, como fontes, utilizamos periódicos editados no Rio de Janeiro do período em tela, considerando que, no decorrer do século XIX, a imprensa começava a assumir o papel de arena pública e formadora de opiniões.15 15 Para mais informações sobre a imprensa do século XIX, ver Marialva Barbosa, História cultural da imprensa: Brasil. 1800-1900, Rio de Janeiro, MauadX, 2010; Paulo Knauss et al. (orgs.), Revistas Ilustradas: modos de ler e ver no Segundo Reinado, Rio de Janeiro, MauadX, 2011.

Vale explicitar que consideramos o que foi publicado não como expressão da verdade, mas sim como representações entabuladas a partir de determinado ponto de vista. Quando necessário, na medida em que julgamos ter algum potencial de esclarecimento, fizemos referência à peculiaridade do jornal/revista e do autor da informação utilizada. Uma parte do material consultado, de fato, se trata de anúncios dos próprios clubes ou notas muito sumárias sobre os eventos.16 16 Os periódicos foram consultados na Hemeroteca Digital Brasileira e na Biblioteca Nacional. Para análise e interpretação do material, tivemos em conta as sugestões de: Tania Regina de Luca, “História do no e por meio dos periódicos”, In: Carla Bassanezi Pinsky (org.), Fontes históricas, São Paulo, Contexto, 2005. p. 111-153.

Em um primeiro momento, discutiremos as representações sobre o esporte veiculadas nos periódicos, notadamente a construção da ideia de que se tratava de uma diversão útil, uma argumentação usual na consolidação do campo esportivo no decorrer do século XIX.17 17 Victor Andrade de Melo, “‘Temos apaixonados para o mar e para a terra’: representações do esporte nos folhetins (Rio de Janeiro; 1851-1855)”, Revista Brasileira de Educação Física e Esporte, vol. 27, n. 4, 2013, p. 553-566. Posteriormente, debateremos a conformação do público que comparecia aos eventos, bem como as tensões que ao seu redor se estabeleciam.

Abordaremos ainda uma dimensão importante na organização do campo esportivo, a compreensão sobre quem podia ou não participar mais diretamente das provas, um elemento determinante na definição das estratégias de distinção. Por fim, discutiremos o caso do Jockey Club Petropolitano, considerando-o como um ponto de inflexão, uma síntese das dimensões que cercavam a conformação do fenômeno esportivo na ocasião.

À busca de uma diversão útil

As primeiras corridas de cavalos promovidas em 1851, organizadas por João Guilherme Suckow,18 18 Prussiano que chegara ao Brasil, em 1824, integrando tropas a serviço do Império, se envolveu com a criação de empresas de transporte público e de leilões de animais. Era também fazendeiro e criador de cavalos. que arrendara o hipódromo do Club de Corridas,19 19 O hipódromo do Club de Corridas era chamado de Prado Fluminense. Somente acolheu uma atividade dessa agremiação, mas sediou parte importante do desenvolvimento do turfe fluminense, permanecendo ativo até a década de 1920. mereceram especial atenção de Manuel Antônio de Almeida, responsável pela coluna Pacotilha, do Correio Mercantil.20 20 Na seção, eram comentados os principais acontecimentos da cidade. Almeida foi o autor de uma obra bem conhecida, Memórias de um sargento de milícias. Ao saudar enfaticamente o evento, inclusive por ser comum em outras nações tidas como civilizadas, observou o cronista: “Faltava sem dúvida ao Rio de Janeiro um lugar de recreio, um ponto de reunião de seus habitantes para uma ou outra vez se encontrarem de dia, pois que para as reuniões da noite não faltam teatros e teatrinhos, e os bailes públicos de todos os gêneros”.21 21 Correio Mercantil, 15 e 16 de junho de 1851, p. 1.

O periodista de Marmota na Corte foi ainda mais enfático ao louvar a novidade. Para ele, “era a primeira vez que tais divertimentos hípicos tinham um caráter regular, e semelhante aos da Inglaterra”.22 22 Marmota na Corte, 17 de junho de 1851, p. 1. Jornal de modas e variedades, expressava bem as ambiguidades que cercavam as mudanças na Corte, reunindo posições avançadas e conservadoras. No seu entender, por sua importância, a iniciativa deveria receber estímulo governamental, incentivo da imprensa e apoio de todos os comprometidos com a nação. Não se tratava meramente de uma diversão, mas sim de uma prática que indicava o avanço dos costumes: “Ninguém desconhece que os divertimentos públicos são uma necessidade imperiosa para o povo, tão conveniente à moral como à política”.23 23 Ibidem.

No decorrer dos anos, é possível perceber que compreensões semelhantes houve ao redor do remo, também elogiado por ser um símbolo cultural dos britânicos. Um periodista sugeriu que “Entre os divertimentos em que se emprega a atividade inglesa, a regata merece especial menção”.24 24 Diário do Rio de Janeiro, 28 de setembro de 1861, p. 1. Esse periódico foi um dos primeiros do país a circular diariamente, caracterizando-se tanto pela ênfase no comercial e na publicidade quanto por adotar uma linha editorial que defendia o progresso do país. Outro cronista inferiu: “Nós somos um povo essencialmente importador; não admira, portanto, que importemos as regatas da Inglaterra”.25 25 Correio Mercantil, 1º de outubro de 1861, p. 1. Esse periódico ocupou espaço de importância no Segundo Reinado. Tinha um perfil político liberal e engajado, ao contrário do mais moderado Jornal do Comércio.

A conexão com o continente europeu era clara. Tratava-se de emular o que havia de melhor nos países civilizados numa nação recém-independente que arvorava apresentar sua adesão à ideia de progresso. Os eventos esportivos eram celebrados como uma das marcas de um novo momento da sociedade fluminense, que perspectivava abandonar o passado colonial e se preparar para um futuro alvissareiro.

Tornou-se, assim, costumeiro exaltar as competições esportivas: “No domingo passado grande parte da população desta capital correu a gozar um espetáculo tão divertido como novo entre nós: as corridas de cavalos no Prado Fluminense”.26 26 Idem, 21 e 22 de setembro de 1851, p. 2. Para o cronista, foi um evento “variado e brilhante, sobretudo para quem estava nas galerias, rodeado das mais gentis formosuras da Corte, e olhasse para o campo, onde a multidão ondulava e crescia a todos os momentos”.

Ver, ser visto, buscar emoção, entusiasmar-se, excitar-se publicamente, valorizar o célere e o veloz: a mobilização desses sentidos ao redor das atividades esportivas atendia aos desejos de uma sociedade que ocupava a cena pública. Assim narrou o cronista do folhetim do Diário do Rio de Janeiro:

Moças formosas, cavalheiros distintos, seguiam com uma curiosidade frenética as corridas dos generosos cavalos, que com a rapidez do raio galgavam o imenso semicírculo da praça, e chegavam, ébrios de entusiasmo e de glória, ao termo da carreira, onde eram freneticamente vitoriados pelos espectadores curiosos.27 27 Diário do Rio de Janeiro, 11 de dezembro de 1853, p. 1.

Se o esporte era considerado como benéfico por gestar novas alternativas de encontros sociais, outras utilidades eram também aventadas. Esse é o caso de uma suposta importância do turfe para o desenvolvimento da raça nacional de bucéfalos:

As primeiras corridas não foram senão ensaios, porém com eles já o país lucrou alguma coisa; é desde então que têm aparecido cavalos de raça. Se a Ilma. Câmara Municipal julgar dever premiar os cavalos do país, é de crer que esta instituição preste muito bons serviços.28 28 Marmota na Corte, 6 de fevereiro de 1852, p. 2.

Ainda tardaria alguns anos para que a relação entre esporte, atividade física e saúde se tornasse mais reconhecida. Desde aqueles primeiros momentos, todavia, surgiram insinuações nesse sentido. Para D. Sallustio, por exemplo, tratava-se de um “varonil exercício que desenvolve as forças físicas e completa a educação do mancebo que não quer assemelhar-se a esses entes afeminados que muitas vezes envergonham os descendentes de Adão”.29 29 Novo Correio das Modas, 1854, p. 192. Perceba-se a mobilização de certos parâmetros de masculinidade que se relacionavam a uma postura social ativa e ousada, desejável para os homens que deveriam conduzir a nação ao progresso.

Para os que esgrimiam esses argumentos, não se devia pensar somente nos ganhos econômicos ligados aos animais, mas também no que a modalidade poderia beneficiar os indivíduos envolvidos, contributos que supostamente remontavam a tempos passados, que deveriam servir de inspiração para um processo de regeneração:

Uma corrida de cavalos tem alguma coisa de heroico que nos faz lembrar dos jogos e das lutas da Antiguidade, dos tempos em que os homens eram mais robustos e mais ágeis no corpo, mais firmes e mais inabaláveis nas convicções da alma. Bom é que este gênero de distrações se aclimate entre nós e combata a indolência com que este clima nos enerva.30 30 Ibidem.

No caso do remo, por suas características, a questão da performance física ficava ainda mais pronunciada. O Marmota na Corte ironizou esse aspecto ao narrar a história de um suposto duelo marcado entre dois sujeitos. Ao saber do ocorrido, as famílias dos envolvidos mobilizaram a polícia para tentar impedir a catástrofe. Ao chegar ao local, ao invés de com pistolas em punho, teriam os encontrados em barcos: “- Este duelo é lícito, disse o Chefe de polícia, portanto cumpre-me somente ser espectador, e aplaudir o triunfo. Soou o sinal, e os dois botes partiram como dois peixe-espadas”.31 31 Marmota na Corte, 16 de março de 1852, p. 3. Os homens tinham uma nova forma de resolver seus conflitos, novas alternativas de exibição pública.

No decorrer do século, aliás, foi comum esse tipo de desafio. Proprietários de barcos lançavam pelos periódicos uma convocatória de disputa com outra embarcação. Seguiam-se as provocações e o arranjo da data. No dia marcado, normalmente grande assistência acompanhava com entusiasmo o duelo.

De fato, como nas corridas de cavalos, nas atividades náuticas, usualmente era grande o número de espectadores. Eram mais uma das valorizadas diversões do momento, tendo como palco um local na ocasião ainda mais afastado da região central, logo relacionado a um novo estilo de vida em construção: “Botafogo continua a ser o rendez-vous da sociedade elegante desta Corte. {...} Uma regata, um baile popular e um fogo de artifício suspenso sobre as águas límpidas da baía! Que magnífico espetáculo!”, dizia José de Alencar, na coluna “Ao Correr da Pena”, publicada no folhetim do Correio Mercantil de 22 de abril de 1855.

Enfim, um ponto em comum nas representações sobre o esporte foi o argumento sobre sua suposta contribuição simbólica e material para a sociedade e para os indivíduos. Desde esse olhar, não se tratava de um divertimento qualquer, mas sim de uma útil diversão.

Um público ampliado (e animado)

O grande destaque das primeiras corridas de cavalos de 1851, no ponto de vista do cronista do Correio Mercantil, Manuel Antônio de Almeida, foi o entusiasmado público presente, gente de vários perfis e estratos sociais, casados e solteiros, uns ricos e outros nem tanto, homens e mulheres, jovens e velhos, até mesmo a família imperial.32 32 Correio Mercantil, 15 e 16 de junho de 1851, p. 1.

Ao comentar que havia em torno de 5 mil pessoas no hipódromo,33 33 Não é fácil confirmar essa estimativa. Em outros casos, houve mesmo divergências entre os cronistas. De toda forma, vale considerar que o desejo do periodista era expressar que muita gente compareceu ao evento. o cronista demonstrou grande otimismo: “parece que o novo folguedo transplantado da Europa pegou na nossa terra, e aclimou-se já neste nosso país”.34 34 Correio Mercantil, op cit. Para ele, a sociedade fluminense, que já não toleraria mais “as bárbaras corridas de touros, nem as antiquadas cavalhadas de argolinhas”, “sem dúvida abraça com todo o gosto e adota as corridas de cavalos”.35 35 Ibidem.

Tratava-se, na verdade, de uma visão normativa e otimista. As corridas de touros ainda persistiriam por muitos anos, mesmo que criticadas,36 36 Victor Andrade de Melo, “Uma diversão adequada? As touradas no Rio de Janeiro do século XIX (1870-1884)”, História, vol. 32, n. 2, 2013, p. 163-188. assim como tardaria um pouco mais a consolidação definitiva do esporte na cidade.37 37 Victor Andrade de Melo, “Das touradas às corridas de cavalo e regatas: primeiros momentos da configuração do campo esportivo no Brasil”, In: Mary del Priore; Victor Andrade de Melo, História do esporte no Brasil: do Império aos dias atuais, São Paulo, Editora da UNESP, 2009, p. 35-70. Percebe-se claramente, na posição do cronista, uma expectativa civilizacional, um projeto de avanço dos costumes a partir de um modelo exógeno, para o qual o esporte era mobilizado.

Um periodista, mesmo reconhecendo o sucesso das corridas de cavalos, demonstrava preocupação com a dificuldade de os mais pobres comparecerem ao espetáculo: “Ainda não há muito tempo que lastimávamos da falta de toda espécie de divertimentos na capital; {...} Presentemente não temos razão de queixa; superabundam divertimentos, mas é verdade que fora do alcance dos pobres”.38 38 Marmota na Corte, 6 de fevereiro de 1852, p. 1.

Manuel Antônio de Almeida já demonstrara preocupações semelhantes. Para ele, deveriam ser entabuladas estratégias para possibilitar maior presença desse estrato social nos eventos esportivos e até mesmo repensar os preços dos bilhetes, que custavam 1$000, sendo necessário pagar mais 1$000 para sentar nas arquibancadas.39 39 Correio Mercantil, 12 de junho de 1851, p. 4.

Tratava-se de emular o que havia de melhor nos países civilizados numa nação recém-independente que arvorava apresentar sua adesão à ideia de progresso

Na verdade, as entradas para as corridas de cavalos não eram mais caras do que usualmente se cobrava para a maioria das diversões na ocasião.40 40 Para uma comparação, ver Victor Andrade de Melo; Fabio de Faria Peres, A gymnastica no tempo do Império, Rio de Janeiro, 7 Letras, 2014. Todavia, havia outros custos que devem ser considerados, como a alimentação e o transporte, cujo impacto era mais perceptível no caso das competições de remo, realizadas em locais mais difíceis de chegar:

A regata, tão falada pelos apaixonados das apostas de botes, não tem dado acordo de si, por que? Não temos outra explicação senão a que se dá a todas as outras empresas semelhantes no nosso país. Todos estes divertimentos não custam menos de mil réis, além de outras despesas de transporte, roupa e comida.41 41 Marmota na Corte, 10 de fevereiro de 1852, p. 2.

Esse cronista também chama a atenção para a necessidade de oferecer diversões “adequadas” para os mais pobres, sem o que, no seu olhar, poderiam procurar “outras distrações, muitas vezes em prejuízo da moral e do sossego público”. Por isso, a exemplo do que supunha ocorrer em “países civilizados”, sugeria que o governo deveria se empenhar em tal tarefa. A preocupação mesclava certo humanismo com intuitos de controle e ordenação.

De toda maneira, se os entretenimentos atendiam mais às elites e aos estratos médios que se delineavam na capital, o novo quadro também dizia respeito aos mais pobres, seja porque alguma possibilidade de participação se abria, seja porque espaços populares também seriam criados.

Esses aspectos também ajudam a entender o crescimento das preocupações com a ampliação das alternativas de diversão, até porque, como vimos no item anterior, não se tratava de valorizar qualquer divertimento, mas sim aqueles que pudessem ser considerados úteis para as necessidades da nação, mesmo que isso tenha sido, mais do que tudo, uma estratégia discursiva.

Havia, de fato, questões simbólicas que complexificam o trato do tema. As competições esportivas eram uma arena pública, onde as elites podiam se autoidentificar e se exibir, se fazendo necessárias, logo, estratégias de separação do público, que, todavia, era mesmo um elemento importante. O desafio era conjugar as dimensões de popularização e distinção.

Um fato permite-nos perceber bem essas tensões. Em 1º de novembro de 1852, a Sociedade Regata, a despeito de ter publicado nos jornais uma série de comunicados, realizou um evento restrito aos sócios, longe do litoral e do alcance do grande público, obliterando a visão da assistência por uma linha de embarcações nas quais se encontravam somente os que tinham convites.

Essa postura foi muito criticada e abalou a credibilidade da agremiação. Para um periodista, “O público dessa capital acaba de ser vítima da mais revoltante injustiça!”.42 42 Marmota Fluminense, 5 de novembro de 1852, p. 1. O jornal deu sequência e possuía perfil semelhante ao do Marmota na Corte. Pareceu-lhe absurdo o procedimento da Sociedade Regata. O mesmo tom de irritação sente-se na posição do cronista do Correio Mercantil: “Fomos a Roma, não vimos o papa, fomos a Botafogo, não vimos regatas”.43 43 Correio Mercantil, 2 de novembro de 1852, p. 1. Segundo seu olhar, era indigna e decepcionante a atitude do clube: “Não merecia a população desta capital ser tratada com tanto desprezo, vedando-se o gozo do divertimento aos que estavam em terra”.

Outro jornalista lembra que uma grande expectativa houve com a realização do evento: “A causa era tentadora: a cidade ficou quase deserta. Alugaram-se conduções por preços fabulosos e lá se achou uma multidão de 5 a 6 mil pessoas, se não mais, apinhando a praia da risonha enseada”.44 44 Idem, 3 de novembro de 1852, p. 1. Tratava-se de um desrespeito e uma enganação a atitude da agremiação: “Pobre povo! Como és parvo em te fiares em quem quer que seja!”.

Os estatutos da Sociedade Regata, de fato, indicavam posturas restritivas. Os interessados em se associar deveriam ter seus nomes aprovados pela diretoria e pagar uma joia de 12$000, além de uma mensalidade de 2$000.45 45 Idem, 19 de outubro de 1852, p. 2. Era ainda prevista a proibição da emissão de convites para outros que não autoridades (como ministros e diplomatas). Os sócios somente poderiam levar para os eventos seus familiares, definidos como “os que viverem debaixo do mesmo teto e subordinado restritamente ao chefe deste”.46 46 Correio Mercantil, 19 de outubro de 1852, p. 2.

Esse tipo de procedimento era usual em outras agremiações. A diferença é que as regatas eram realizadas em espaços públicos, o que as tornava mais disponíveis para aqueles que não eram associados. Isso era um problema a ser equacionado pelos dirigentes. No polêmico episódio de 1852, frente à sugestão de um leitor de que “a sociedade concilie seu recreio com os desejos de todos”, a diretoria reforçou a ideia de que seu evento era “especialmente consagrado aos convidados da sociedade e aos seus membros; as conveniências destes devem ser seu principal alvo”.47 47 Jornal do Comércio, 29 de outubro de 1851, p. 2.

Tal foi a má repercussão, que é difícil até mesmo conseguir informações sobre o andamento dessas regatas. Segundo o que percebeu o cronista do Jornal do Comércio, periódico normalmente mais alinhado com os interesses das elites, houve muita festa entre os que assistiram aos páreos, aboletados nos barcos que saíram do Cais Pharoux e ancoraram na Baía da Guanabara. Entre os presentes, se encontrava muita gente envolvida com o comércio, especialmente ligados a empreendimentos de ingleses e portugueses, além de notórios personagens da Corte, entre os quais, o Imperador e a Imperatriz, ministros, diplomatas estrangeiros, comandantes da Armada brasileira e de navios do exterior no Rio de Janeiro estacionados.48 48 Periódico dos Pobres, 4 de novembro de 1852, p. 5.

Os fatos de 1852 repercutiram por muito tempo. Por ocasião da realização de um evento náutico, em 1853, logo se suspeitou que estivesse em curso mais uma tentativa de afastar o público, já que foi marcado em um dia no qual muitas diversões estavam programadas e por ter sido previsto para o Saco da Ponta do Caju,

um lugar acanhado, que não pode conter todo o povo que há de concorrer, quando se a regata fosse do lado da cidade a partir da Ilha dos Ferreiros, ofereceria um vasto campo para todos os amadores de tão belo divertimento. Deus queira que não seja um 2º volume da regata de Botafogo!49 49 Diário do Rio de Janeiro, 22 de novembro de 1853, p. 2.

As pressões para que o acesso fosse mais amplo parecem ter surtido algum efeito. O modelo adotado nessa regata de 1853 foi o que se consolidou. Os sócios, familiares e convidados assistiam às provas em embarcações nas quais havia música, refrescos e boa comida. Depois dos páreos, em alguma casa, na sede do clube promotor ou de alguma agremiação irmã, se organizava uma festividade que variava de apenas um drink a almoços e até mesmo bailes. A população se espalhava pelo litoral, podendo acompanhar as competições, já que a raia era montada perto das praias; a festa também era intensa.

Para aqueles que tinham um pouco mais de recursos, havia ainda outra opção: comprar uma passagem em alguma embarcação que pelos jornais se oferecia, como o vapor Hércules (3$000).50 50 Diário do Rio de Janeiro, 17 de maio de 1855, p. 5. Com bilhete ainda mais barato (1$000), a Companhia Nitheroy e Inhomirim ressaltava: “Para mais comodidade dos senhores passageiros haverá a bordo da dita barca refrescos, doces e sorvetes, vendidos comodamente por um dos melhores confeiteiros desta Corte”.51 51 Correio Mercantil, 29 de setembro de 1861, p. 2. À diversificação do perfil de público, correspondia uma ampliação do mercado.

A despeito dessa nova organização, durante muitos anos, persistiu uma compreensão de que o turfe acolhia melhor o grande conjunto da população do que as atividades náuticas. A conformação do hipódromo, mesmo que houvesse a cobrança de ingressos, privilegiava a maior presença de gente vários estratos sociais, acomodada em locais distintos de acordo com o perfil financeiro. Além disso, Suckow sempre concebeu o Prado também como um negócio, ao contrário dos envolvidos com o remo. Como precisava dar lucro, suas portas estavam mais abertas.

No turfe, todavia, houve também iniciativas de promoção de corridas mais restritas. Esse é o caso do único evento organizado pelo Jockey Club Fluminense (1954). Nos páreos, os animais foram conduzidos exclusivamente por cavaleiros que corriam sem receber remuneração ou premiação em dinheiro, “elegantes e distintos gentlemen-riders, que montavam os rápidos corredores, e pertenciam às mais distintas famílias de nossa sociedade”.52 52 Novo Correio das Modas, 1854, p. 192. Os gentlemen-riders eram também, em muitas ocasiões, donos dos cavalos.

Nesse evento, como fez questão de exaltar um cronista, promovido “por moços distintos, que convidaram tudo quanto há de elegante na sociedade do Rio de Janeiro para tornarem luzida a reunião e assistirem ao seu divertimento todo particular”,53 53 O Jornal das Senhoras, 11 de junho de 1854, p. 186. o público foi integralmente constituído de convidados e familiares, a “fina flor” da elite fluminense. A ambiguidade na abordagem dos jornais era clara. Se, de um lado, alguns cronistas reivindicavam o acesso dos mais pobres, de outro, celebravam um evento de corte bem elitista.

Independentemente do perfil da iniciativa, algumas presenças eram sempre desejadas e celebradas nos eventos esportivos, como a da família imperial. A atividade só começava quando chegava o Imperador, que, aliás, constantemente prestigiava as competições. Era uma situação adequada para o monarca exibir-se para seus súditos, ainda mais por se tratar de uma prática tida como civilizada, valorizada nos países em que o Brasil se inspirava. Da mesma maneira, esse comparecimento era encarado pelos agentes do campo e frequentadores como sinal de distinção e reconhecimento.

Era também muito exaltada a presença das mulheres. As tribunas esportivas foram, de fato, um dos primeiros espaços públicos onde se tornaram bem-vindas, uma expressão das mudanças pelas quais passava a sociedade fluminense. Por vezes, ocuparam até mesmo um papel de destaque, como o de entregarem a premiação, uma função que até poucos anos antes seria inconcebível. Vejamos como um jornal se refere a uma dessas ocasiões: “O Sr. Carvalho foi o vencedor e recebeu de uma delicada mãozinha a taça de ouro, que era o prêmio da corrida; porém para ele sem dúvida o maior prêmio foi um sorriso cheio de amabilidade e uma flor arrancada de um perfumado ramalhete”.54 54 Correio Mercantil, 11 de dezembro de 1853, p. 1.

Para além de ser fruto de reivindicação feminina, tal presença estava também enquadrada por valores masculinos. As mulheres davam um caráter familiar ao evento, devendo se comportar de acordo com rígidos códigos. De toda forma, percebe-se uma distensão nos costumes, expressa até mesmo em uma forma mais leve de vestir-se e portar-se; pelo menos assim foi representado em muitas ocasiões:

encantavam pelo seu trajar e pela sua beleza, tornando-se muito mais notável um tipo de candura com o rosto amoldurado por chapéu cinzento ornado no interior com flores encarnadas que mais realçavam sua formosura, e uma outra que, apesar da singeleza de seu trajar e de seu chapéu de seda amarela, atraía a atenção de todos.55 55 Idem, 13 de junho de 1852, p. 2.

Na verdade, gestou-se uma pouco comum oportunidade até então de encontros públicos entre os sexos. Logo, as competições esportivas, assim como outros entretenimentos, mesmo que com todo controle, tornaram-se um lugar de flerte. No Periódico dos Pobres, na coluna satírica “Tribunal das Moças Facecias”, em que se narra um suposto julgamento de certa D. Eufrasia do Amor Perfeito, a personagem declara: “agora é que eu namoro como nunca, não perco funções, bailes, teatros, passeios, danço a schotish como ninguém, aprecio uma regata como a melhor coisa que há. Uma regata é mesmo de regalar”.56 56 Periódico dos Pobres, 20 de outubro de 1853, p. 1.

Essa novidade gerava simultaneamente expectativas, críticas e preocupações, até mesmo porque as atividades esportivas chegavam a rivalizar com atividades sociais mais tradicionais. Sugeriu um cronista, frente ao fato de que havia pouca presença feminina na missa festiva de Santa Tereza, celebrada em 1851, no templo da Ordem Terceira do Carmo:

A igreja, tribunas e sacristia estavam só apreciadas por homens, ao passo que vemos as nossas patrícias ficarem todas quentes e alvoraçadas por qualquer baile, por corrida de cavalos e outros festejos de onde não se tira um recreio edificante e proveitoso qual o ato de religião.57 57 Marmota na Corte, 17 de outubro de 1851, p. 2.

A despeito das tensões que cercavam sua participação, as mulheres celebravam essas novas ocasiões, tentando entender o que se passava nas lides esportivas. No Jornal das Senhoras, um periódico destinado a conscientizar o público feminino, dirigido por uma feminista, Juana Manso, uma leitora diz gostar das corridas, “lugar onde não posso estar séria por mais que queira, muito me rio e me divirto à custa dos Srs. homens e seus bucéfalos”,58 58 O Jornal das Senhoras, 15 de fevereiro de 1852, p. 53. notadamente daqueles “que querem ser cavaleiros e não sabem andar a cavalo”. Já sobre as regatas, ressalta que são “cobertos de glória os que ganharam e lavados de suor e raiva os que perderam”.

Muitas eram mesmo as novidades que cercavam a nova prática que se conformava naquela cidade cheia de alternativas.

Entre amadores e profissionais

Naqueles anos 1850, a organização de espetáculos esportivos requeria uma logística complexa. Tinha-se que dar conta de múltiplos aspectos, a começar do espaço de competição, preocupação mais notável no caso do turfe. Enquanto as atividades náuticas utilizavam as enseadas, para as corridas de cavalos, era necessário construir nem que fosse uma estrutura básica.

Um ponto em comum nas representações sobre o esporte foi o argumento sobre sua suposta contribuição simbólica e material para a sociedade e para os indivíduos

Para o cronista do Correio Mercantil, além de se situar num lugar muito bonito e aprazível, o Prado Fluminense estava bem instalado graças às ações de Suckow, que reformou a pista e ergueu uma confortável arquibancada.59 59 Correio Mercantil, 15 e 16 de junho de 1851, p. 1. O narrador fez apenas duas ressalvas ao evento inaugural - o tamanho da pista em forma de ferradura, que causava dificuldades para alguns cavalos, e a alimentação: “todos saíram satisfeitos, menos com o restaurante, onde tudo quanto se comeu e bebeu foi por um preço exorbitante”.60 60 Ibidem. O cronista de Marmota na Corte também criticou o “barracão do Sr. Neuville” pelos “copos d’agua a 80 rs, os preços exagerados da comida e o mau serviço”.61 61 Marmota na Corte, 17 de junho de 1851, p. 1.

Neuville foi um dos pioneiros a oferecer um serviço de alimentação mais refinado na cidade. Seu estabelecimento, localizado no Largo do Paço, era um centro das novidades que ocorriam na capital. Em função dos problemas no hipódromo, pediu desculpas pelos jornais, assumindo que não conseguiu se preparar adequadamente para tamanho número de consumidores.62 62 Em geral, o evento começava às 10 horas, tinha um intervalo para almoço das 12 às 14 horas, seguindo depois até as 16 horas.

Para os páreos de setembro do mesmo ano, anunciou-se a substituição: “O Sr. Angelo encarregou-se de fornecer ao respeitável público as comidas e refrescos de 1ª qualidade”.63 63 Correio Mercantil, 10 de setembro de 1851, p. 3. O novo responsável se notabilizara pelos serviços oferecidos no Hotel de Itália64 64 Localizado na Praça da Constituição (atual Praça Tiradentes), foi um dos hotéis mais importantes da capital à sua época. Ficou conhecido por ter sido local dos primeiros bailes de carnaval da cidade. e parece ter agradado “pelo bom agasalho com que cativa todas as pessoas que o procuram, sem se aproveitar das ocasiões para depenar os patinhos. Além dos preços razoáveis, tudo era bom e servido com prontidão”.65 65 Marmota na Corte, 16 de setembro de 1851, p. 1.

Não era fácil mesmo dar conta de tudo que cercava a infraestrutura necessária para a realização de corridas: espaço para estacionar os carros e acomodar os cavalos, instalações para acolher o público, local para alimentação e tudo o que se referia aos páreos. Eram elevados os custos com a manutenção do Prado, com a premiação e com a ornamentação, gastos nem sempre cobertos por meio da venda de bilhetes, taxas de inscrição para as provas, bem como eventual aluguel do hipódromo para particulares.

Em certa oportunidade, quando um leitor solicitou publicamente a Suckow que voltasse a promover corridas, garantindo que havia expectativas públicas para tal, o dirigente respondeu que já investira muito no Prado Fluminense, estando “quase desanimado de poder vencer os obstáculos que tenho encontrado”.66 66 Jornal do Comércio, 24 de junho de 1853, p. 2.

As dificuldades não se referiam somente às peculiaridades da organização. Um dos complicadores era dar conta de um transporte público que pudesse levar os interessados ao hipódromo, que se localizava a aproximadamente cinco quilômetros da região central. Além disso, em função das chuvas, a estrada até o Prado por diversas vezes se tornava intransitável.

Os problemas também se referiam às especificidades da modalidade. Desde as primeiras corridas, houve debates sobre o regulamento, inclusive sobre que personagens poderiam participar dos páreos. Vejamos que é mesmo mais fácil encontrar indícios dos nomes de cavalos e proprietários. Nas corridas de 1851, por exemplo, tomaram parte, entre outros, Orestes, do filho de Suckow; Pluto, do Sr. Brandão; Malacarinha, do Sr. Maia; Sultão, do Sr. José Monteiro; Kaleb, do Sr. Thomaz Land; Sam Sly, do Dr. Costa; Loterie, do Sr. Ferreira.67 67 Marmota na Corte, 17 de junho de 1851, p. 1; Jornal do Comércio, 20 de junho de 1851, p. 3.

Excetuando o caso de Land, um estrangeiro que se estabeleceu em Petrópolis, foi dono de um importante hotel e deu boas contribuições para a agricultura nacional, é difícil saber quem exatamente eram os proprietários, mas algumas observações podem ser feitas: a maioria era composta de brasileiros; possivelmente, tratava-se de personagens conhecidos na cidade; provavelmente, era gente da elite nacional, ligada aos negócios agrícolas ou à emergente burguesia urbana.

Encontramos também algumas informações sobre os gentlemen-riders, que deveriam ser “leves e elegantes como zéfiros”,68 68 Correio Mercantil, 18 de agosto de 1851, p. 2. sempre a cuidar de todos os detalhes que cercavam sua participação nas provas. Difícil mesmo é descobrir algo sobre os jóqueis, os condutores de cavalos que disputavam prêmios em dinheiro e/ou recebiam remuneração para correr para os donos dos cavalos, ainda que não tenha sido possível até o momento perceber o grau de relação profissional estabelecido. Seus nomes raramente eram divulgados. Ao contrário dos gentlemen-riders, provavelmente eram oriundos das camadas populares.

Vejamos dois personagens das corridas realizadas em dezembro de 1853. Um deles foi o gentlemen-rider Alba Carvalho, “aluno do quarto ano da escola de medicina da Corte”.69 69 Correio Mercantil, 9 de dezembro de 1853, p. 1. Na prova da qual participou o estudante, saudado pelo público como o grande herói do dia, seis outros amadores tomaram parte, todos “trajando elegantes casacas verdes e montados em cavalos de sua propriedade”.70 70 Idem, 11 de dezembro de 1853, p. 1. Os jornais não divulgaram os nomes de todos os participantes, apenas do vencedor. Segundo um cronista, entre os que mais lhe aplaudiram, estavam seus colegas de faculdade, “a classe dos filhos de Hipócrates”.

Na mesma ocasião, “um demoninho bronzeado, como o amante de Desdemona, de quatro palmos de altura e trajado de azul, foi proclamado, ao som de estrondoso vivas, o primeiro jóquei do Prado”:71 71 Ibidem. era Balbino (ou Albino), um negro ou pardo de cerca de 13 anos, que ganhou as seis provas que disputou. Precisamos de mais estudos, mas estamos introdutoriamente inferindo que as corridas de cavalos tenham sido um dos primeiros espaços sociais em que negros e pardos ocuparam um papel protagonista.73 72 Não devemos esquecer também sua participação em grupos musicais como uma possibilidade de protagonismo social. Ver: Mauricio Monteiro, “Música e mestiçagem no Brasil”, Nuevo Mundo Mundos Nuevos, fev. 2006. Disponível em: <http://nuevomundo.revues.org/1626>. Acessado em: 6 de agosto de 2014; Martha Abreu; Andrea Marzano, “Entre palcos e músicas: caminhos de cidadania no início da República”, In: José Murilo Carvalho; Lúcia Maria Bastos Pereira das Neves (orgs.), Repensando o Brasil do Oitocentos: cidadania, política e liberdade, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2009, p. 123-149.

O procedimento a ser adotado pelos jóqueis ainda estava sendo definido, a despeito de muito se copiar do turfe inglês e francês. De toda forma, esses personagens já começavam a ter algum destaque. Sua importância ficou mais clara com a experiência do Jockey Club Fluminense (1854), na qual só tomaram parte gentlemen-riders.

A despeito de alguns elogios ao evento, percebe-se que a competição foi bastante deficiente do ponto de vista técnico. Por mais que certos setores da elite pensassem ser possível promover corridas só com gentlemen-riders, não dependendo dos jóqueis, o fato é que sem eles, e sem o grande público, o espetáculo perdia muito em qualidade e em emoção.

No caso do remo, a questão do amadorismo era mais explícita. Os estatutos da Sociedade Regata previam, no artigo 22, que “Escaler algum pertencente aos clubes poderá ser admitido às corridas sem que esses clubes sejam filiados à sociedade e suas tripulações sócios”.74 74 Correio Mercantil, 17 de maio de 1855, p. 1. Isso restringia a possibilidade de participação e definia o perfil aceitável para os remadores, que em hipótese alguma recebiam prêmios em dinheiro.

Boa parte dos remadores era composta de estrangeiros, notadamente ingleses, mas também alemães, franceses e portugueses. Estiveram envolvidos, da mesma forma, muitos militares das Armadas do Brasil e de outros países no Rio de Janeiro estabelecidos.

Os civis formavam agremiações mais ou menos formais. Vejamos, por exemplo, os participantes de uma regata realizada em 1855: “O Albion dirigido pelo Sr. Holy, e tripulado por amadores ingleses; o S. Jorge, dirigido pelo Sr. Lazaro e tripulado por amadores brasileiros; o Argos, de seis remos, dirigido pelo Sr. Camacho e tripulado por amadores portugueses {...}”.74 74 Correio Mercantil, 17 de maio de 1855, p. 1.

Conseguimos alguns indícios sobre o grupo dos ingleses, denominado British Rowing Club, e dos portugueses, que chegou a aprovar um estatuto e eleger uma diretoria formada pelo comendador Antônio Manoel da Fonseca, Joaquim Augusto da Cunha Porto (comerciante e colecionador de obras de arte), José Ferreira dos Santos Cardoso (influente negociante, ativo membro da colônia portuguesa) e o notório farmacêutico Nuno Freire Dias Salgueiro. A cerimônia de fundação foi realizada no Real Gabinete Português de Leitura, sendo a presidência destinada ao Ministro de Portugal no Brasil.75 75 Jornal do Comércio, 28 de abril de 1852, p. 17. Foi mais uma das importantes iniciativas associativistas de lusitanos no país estabelecidos.76 76 Victor Andrade Melo; Fabio de Faria Peres, “Associativismo e política no Rio de Janeiro do Segundo Império: o Clube Ginástico Português e o Congresso Ginástico Português”, Topoi: Revista de História, vol. 15, n. 28, Rio de Janeiro, 2014, p. 242-265.

Há evidências de que muitos eram os comerciários envolvidos. Em mais de uma oportunidade, desde a primeira regata (a de 1851), se citou a participação da categoria. A peculiaridade do ramo era até mesmo considerada na escolha das datas para os eventos, já “que não podiam ser distraídos das operações comerciais”.77 77 Jornal do Comércio, 27 de outubro de 1851, p. 2.

Esse grupo merece uma atenção especial. Já foi detectado em outros estudos seu envolvimento com outras modalidades, como touradas,78 78 Victor Andrade de Melo, “Uma diversão adequada? As touradas no Rio de Janeiro do século XIX (1870-1884)”, História, vol. 32, n. 2, 2013, p. 163-188. dança79 79 Idem, “Educação do corpo - bailes no Rio de Janeiro do século XIX: o olhar de Paranhos”, Educação e Pesquisa, vol. 40, n. 3, 2014, p. 751-766. e ginástica.80 80 Idem; Fabio de Faria Peres, A gymnastica nos tempos do Império, Rio de Janeiro, 7 Letras; FAPERJ, 2014. Popinigis81 81 Fabiane Popinigis, Proletários de casaca: trabalhadores do comércio carioca - 1850-1911, Campinas, Editora da UNICAMP, 2007. identifica que, de fato, foi uma categoria muito mobilizada, tendo participado ativamente do cenário político e cultural da Corte, inclusive integrando agremiações diversas.

Deve-se ter em conta que não formavam um grupo homogêneo. Havia diferentes cargos e funções, notadamente uma clara distinção entre os que atuavam no “alto comércio” (ligado à importação e exportação) e no “baixo comércio” (os armazéns mais populares, de secos e molhados).82 82 Ibidem. É possível que os remadores fossem mais vinculados ao estrato economicamente superior: necessitavam ter posses para poder integrar os clubes, bem como algum tempo livre para participarem de treinos e competições.

Vale ainda citar o perfil dos responsáveis pela organização das regatas. Um dos mais destacados foi o Marquês de Abrantes, importante personagem do Império, envolvido com a modalidade desde as primeiras iniciativas. Ele, com um grupo de notáveis, como o conselheiro Bernardo Nascentes de Azambuja e o oficial da Armada Theotonio Meirelles da Silva, chegaram a se reunir algumas vezes com o Imperador para comunicar a promoção de eventos náuticos, buscar seu apoio e convidá-lo para assistir aos eventos.

Se, de um lado, alguns cronistas reivindicavam o acesso dos mais pobres, de outro, celebravam um evento de corte bem elitista

Merece ainda destaque a participação dos capitães de mar e guerra Francisco José de Mello e Antônio Felix Corrêa de Mello, do capitão de fragata Raphael M. de Moraes Valle e do capitão-tenente Antônio Affonso Lima. Até mesmo em função da característica da atividade profissional, enquanto oficiais do Exército estavam mais envolvidos com o turfe, os da Armada dinamizavam o remo. Em ambos os casos, mesclava-se o interesse laboral e pessoal com um discurso de contribuição para a nação (especialmente com a suposição da possível contribuição do esporte para o desenvolvimento da raça de cavalos e das embarcações).

Jockey Club Petropolitano

Mesmo que não tivesse sede no município neutro da Corte, o caso do Jockey Club Petropolitano merece destaque por ser uma última iniciativa de organização de competições antes de um período de recesso que se prolongaria até a transição dos anos 1860 e 1870, bem como por ser um bom exemplo da articulação do esporte com o momento pelo qual passava a capital em todos seus aspectos, inclusive políticos.

Numa matéria sobre Petrópolis, publicada no Correio Mercantil, em setembro de 1856, ao narrar a beleza da cidade, a estrutura comercial destacável e a boa estrutura de turismo e lazer, um cronista observou: “Há uma bem organizada sociedade com o nome de Jockey-Club Petropolitano que já tem tido duas corridas coroadas do mais brilhante êxito”.83 83 Correio Mercantil, 13 de setembro de 1856, p. 3.

Em julho desse mesmo ano, de fato, publicara-se um comunicado da Sociedade de Corridas de Petrópolis, que informava a realização de páreos no mês em questão.84 84 Idem, 17 de julho de 1856, p. 3. Assinou como secretário da agremiação um certo G. T. L., provavelmente o já citado Thomaz Land. O presidente era o médico Thomaz José Porciúncula, importante político e personalidade local. Num anúncio posterior, é possível identificar uma curiosa mescla de denominações: “Instalou-se, domingo passado, em Petrópolis, um jockey club denominado - Club de Corridas de Petrópolis”.85 85 Correio Mercantil, 24 de julho de 1857, p. 1. A experiência que ocorrera no Rio de Janeiro criou uma expectativa e um modelo para outras iniciativas.

Até março de 1857, foram promovidas cinco corridas, todas contando com a presença de importantes personagens da Corte, algumas inclusive com a família imperial. A maior parte das provas foi exclusiva para gentlemen-riders. Estiveram envolvidos, entre outros, cavalos pertencentes a José Pinheiro de Siqueira (político local, comerciante do ramo de aluguel de seges), João Pedro Villa-Real (militar e naturalista), Ricardo Narciso da Fonseca (político muito dedicado à construção da cidade), Luis Jacome de Abreu e Souza (empreendedor e um dos mais renomados professores de equitação do Império) e ao Conde de Herzberg (prussiano, casado com a filha de Suckow, um dos mais importantes incentivadores do turfe nacional).

A partir de março de 1857, com a eleição de uma nova diretoria, a agremiação tornou-se mais estruturada, decidindo-se inclusive pela construção de um hipódromo na região do Fragoso, próximo à Fábrica de Pólvora da Raiz da Serra, ao lado da estação da Estrada de Ferro.86 86 Não conseguimos identificar onde as antigas corridas eram realizadas. Nesse momento, o clube era presidido pelo já citado Thomaz José Porciuncula, tendo como vice-presidente Luiz Jacome de Abreu e Souza.87 87 Compunham ainda a diretoria José Pinheiro de Siqueira (tesoureiro), Augusto da Rocha Fragoso (secretário), empreendedor envolvido com a modernização da economia nacional, e Ricardo Narciso Fonseca (procurador).

O novo hipódromo, distante da capital, era alcançável por navio a vapor (que saía do Cais Pharoux em direção a Magé) e trem (que partia do Porto Mauá e chegava a Fragoso). O trajeto era considerado um bom passeio. Com isso, alguns jornais sugeriram que as atividades do Jockey Club Petropolitano se tornariam um dos mais fashionables divertimentos da época.88 88 Correio Mercantil, op cit.

Essa expectativa tinha relação com o momento pelo qual passava Petrópolis, cujo desenvolvimento se acentuava com a nova possibilidade de transporte. Desde a transição dos anos 1840/1850, ao tornar-se uma das sedes do governo imperial, a localidade vinha rapidamente crescendo. Se, a princípio, o Imperador por lá passava os verões, fugindo do calor e das epidemias, no final do período monárquico, praticamente na cidade se estabeleceria.89 89 Roderick J. Barman, Imperador cidadão, São Paulo, Editora da UNESP, 2012.

Muitas famílias das elites construíram residência na cidade, que se tornou “uma espécie de vila europeia, e lá todos vivem como se estivessem na civilização”.90 90 Lilia Moritz Schwarcz, As barbas do Imperador, São Paulo, Companhia das Letras, 1998, p. 239. Nesse cenário, para um leitor que assina como Zancuí, “O Jockey Club parece-nos digno dos maiores elogios por ter construído um prado nas melhores condições para aquele útil divertimento, com todos os melhoramentos recentemente introduzidos em Inglaterra em semelhantes estabelecimentos”.91 91 Correio Mercantil, 27 de junho de 1857, p. 2. As corridas de cavalos seriam mais um sinal do progresso local.

Alguns cronistas expressaram sua esperança de que a iniciativa lograsse sucesso pelo que podia representar para a “civilização brasileira”, a exemplo do que já ocorria em França e Inglaterra, e pelos possíveis contributos para a criação de cavalos: “Assim, o Jockey Club de Petrópolis tenha melhor futuro do que teve o Prado”.92 92 Diário do Rio de Janeiro, 16 e 17 de agosto de 1857, p. 1. Nessa ocasião, o Prado estava inativo por ter sofrido um incêndio.

A primeira corrida no novo hipódromo foi marcada para agosto de 1857. Foram previstos cinco páreos para jóqueis (com premiação em dinheiro) e um para gentlemen-riders (tendo como prêmio um copo de prata).93 93 Idem, 18 de julho de 1857, p. 3. O prêmio foi exposto no estabelecimento do reconhecido ourives e joalheiro Xavier Berard, na Rua do Ouvidor (Correio Mercantil, 11 de agosto de 1857, p. 3). O regulamento tentava dirimir todas as dúvidas e garantir a maior lisura possível nas provas.94 94 Correio Mercantil, 19 de julho de 1857, p. 3. Merece destaque o número de punições previstas para os que infringissem as regras.

A despeito dessas preocupações, houve um membro da agremiação o qual sugeriu que deveria ficar mais claro que a prova para amadores deveria ser exclusivamente para gentlemen-riders,95 95 Idem, 23 de julho de 1857, p. 3. indício de certas tensões na definição dos envolvidos, repercussões do que estava ocorrendo na capital, um embate entre modelos de promoção de corridas de cavalos.

Frente à contestação, um anônimo, que assina como “um membro roceiro do Jockey Club que não sabe nada de estranja”, julgou a posição tratar-se de um desmerecimento e falta de incentivo às iniciativas do Jockey Club, postura equivocada em um momento no qual seria necessário o apoio de todos os que apreciavam o turfe. Criticou ainda o uso do termo “gentlemen-riders”, por não constar na língua portuguesa:

Jockey Club! E nós que já estivemos a ponto de não entrar para esta instituição só por não entendermos que aí se tratava de corridas de cavalos! Nada: a respeito de inglesia fiquemos por ai. Falemos antes português claro, é a melhor maneira de nos entendermos, se andarmos de boa fé.96 96 Idem, 30 de julho de 1857, p. 3.

De fato, nos momentos iniciais do turfe, o excessivo uso de termos em inglês foi motivo de estranhamento por parte do público.97 97 Victor Andrade de Melo, Antes do club: as primeiras experiências esportivas na capital do Império (1825-1851), vol. 49, Projeto História, São Paulo, 2014. No prelo. O debate de Petrópolis, contudo, parece ser mais um desdobramento das tensões internas da modalidade, entre dois personagens que não conseguimos precisar.

Percebe-se que um setor da capital se mobilizou para comparecer ao evento inaugural, que tendia mesmo a ser menos popular, já que grande parte dos habitantes do Rio de Janeiro tinha dificuldades de chegar a Petrópolis. Uma curiosidade é que havia uma maior segmentação de ingressos - os mais baratos, para assistir em pé, vendidos a 1$000, enquanto, para se ver o espetáculo sentado nas arquibancadas, havia duas opções: 2ª classe por 2$000 e 1ª classe por 3$000.

Os anúncios do Jockey Club Petropolitano sempre eram acompanhados de informes da Estrada de Ferro sobre as opções especiais de transporte: três horários de ida e volta, com preços que variavam de 3$000 a 7$000. Vale uma observação: metade dos prêmios dos páreos foi oferecida pela empresa ferroviária de Mauá, personagem central no processo de modernização do país. Ele, aliás, chegou a inscrever uma égua que se sagrou vitoriosa, cujo nome não poderia ser mais expressivo: Locomotiva.

No hipódromo, um sistema de bandeirolas comunicava a hora de partida do trem.98 98 Correio Mercantil, 2 de agosto de 1857, p. 3. Uma parte da assistência, contudo, não precisava se preocupar com isso por ter residência na cidade ou fazer uso das hospedarias da região. Uma delas assim anunciou: “Para tornar mais completo o divertimento das corridas no Fragoso, o público encontrará neste hotel todos os cômodos necessários, como comidas, sorvetes, refrescos etc.”.99 99 Idem, 19 de agosto de 1857, p. 3. Houve mesmo a previsão de carros extras do centro de Petrópolis para o prado para atender os interessados.

As expectativas, todavia, parecem ter sido frustradas. Para Leonel de Alencar, que dedicou um folhetim quase na íntegra para comentar o evento, o turfe era um tipo de atividade que deveria se caracterizar pelo luxo, ornamentação e bom gosto, “um divertimento oferecido à sociedade elegante”. Nesse sentido, não demonstrou grande entusiasmo com as corridas de Petrópolis. Para ele, a despeito dos esforços, tudo lhe pareceu muito prosaico: “estiveram muito longe das de um Jockey Club fashionable”.100 100 Diário do Rio de Janeiro, 30 de agosto de 1857, p. 1.

Fracassou a iniciativa de promover um evento mais “selecionado”, utilizando-se de uma estratégia distinta da que usara o Jockey Club Fluminense. Não se tratou de fazer uma sessão somente para convidados. De outro lado, o público não compareceu, em função das dificuldades de no hipódromo chegar.

Com isso, mesmo com o apoio de certos setores das elites, inviabilizou-se financeiramente a iniciativa. Quando mais se organizou, inclusive com a construção de um hipódromo, o Jockey Club Petropolitano interrompeu suas atividades. Somente em 1864, sete anos depois, seria realizado um novo evento turfístico na cidade.

Conclusão

Em novembro de 1852, um anônimo sugeriu que o turfe e o remo eram duas diversões “diametralmente opostas”, ainda que houvesse muitos associados em comum.101 101 Correio Mercantil, 21 de outubro de 1852, p. 2. Para ele, a despeito disso, não seria adequado que os clubes “guerreassem”. Deveriam colaborar mutuamente para que pudessem sobreviver: “Pensam que nessa capital há já tão pouco dinheiro que duas associações não progridam por falta de sócios e que seja, por conseguinte, necessário matar uma delas?”.

Havia, de fato, diferenças entre os grupos comprometidos com a organização das iniciativas de turfe e remo, ainda que o público, de diferentes estratos sociais, frequentasse indistintamente os eventos de ambos. Na promoção de corridas de cavalos, se percebe uma maior participação de membros da elite ligados à agroexportação, enquanto com as atividades náuticas estavam mais associados os que atuavam nos novos negócios urbanos, notadamente comerciários. No primeiro, havia maior presença de militares do Exército, enquanto os da Armada se envolviam com as regatas.

Mesmo com distinções, havia pontos em comum no delineamento das duas modalidades. Os protagonistas de ambas celebravam o envolvimento com o esporte como uma adesão a ideias de civilização e progresso. O homem público, nova postura que se materializava naqueles meados do século XIX, precisava de mecanismos de identificação e de definição das esferas de responsabilidade numa sociedade que se multifacetava. Os eventos esportivos bem cumpriam esse papel.

A celebração da modernidade trazia, contudo, novos desafios. Se a base social se ampliava, como estabelecer a distinção? Se a diversão estava a ser valorizada, como garantir, pelo menos discursivamente, que se articulasse com o que eram consideradas necessidades da nação? Como entabular mecanismos de controle das camadas populares e dos estratos médios que faziam mais claramente parte do grande concerto social?

As atividades de remo e turfe dramatizaram bem essas tensões e dúvidas. Preocuparam-se mais com mecanismos de distinção as agremiações do primeiro, o que pode parecer curioso a partir de um olhar da dinâmica de seus eventos, realizados nas praias e tocados por gente dos novos negócios. Nas corridas de cavalos, houve também iniciativas de elitização; todavia, em função da organização do espaço e do intuito de lucro, se faziam sentir de forma diversa.

Esse debate se materializou em dois temas: quem poderia competir, somente gentlemen-riders ou também jóqueis?; quem poderia assistir aos eventos: exclusivamente convidados ou também o grande público? A resposta quem deu foi a própria dinâmica do campo esportivo. As tentativas de excluir os populares, de forma distinta em cada uma das modalidades, jogaram as agremiações em aporias, levando à interrupção das iniciativas. O público não era um detalhe, era elemento fundamental no sucesso da prática. Para que seguisse vivo o esporte, ter-se-ia que encontrar novas estratégias para mantê-lo entre a elite e o povo.

As futuras agremiações esportivas, a partir do final dos anos 1860, demonstrariam que aprenderam essa lição. Mas isso é tema para outro estudo.

  • 1
    Estou trabalhando com a ideia de campo esportivo conforme sugerida em Pierre Bourdieu, “Como é possível ser esportivo?”, In: ______., Questões de sociologia, Rio de Janeiro, Marco Zero, 1983, p. 136-163. Basicamente, tenho em conta o olhar do autor sobre seus elementos constituintes (entidades representativas, corpo técnico próprio, calendário autônomo, mercado ao seu redor), bem como suas reflexões sobre a estruturação das estratégias de distinção ao redor do esporte.
  • 2
    Victor Andrade de Melo, Antes do club: as primeiras experiências esportivas na capital do Império (1825-1851), vol. 49, Projeto História, São Paulo, 2014. No prelo.
  • 3
    O esporte, em vários sentidos, dramatizou e ajudou a conformar um conjunto de valores e imagens relacionadas ao ideário e imaginário da modernidade. Para mais informações, ver: Georges Vigarello; Richard Holt, “O corpo trabalhado - ginastas e esportistas no século XIX”, In: Alain Corbin (org.), História do corpo, vol. 2, Rio de Janeiro, Vozes, 2008, p. 393-478; Victor Andrade de Melo, Cinema e esporte: diálogos, Rio de Janeiro, Aeroplano; FAPERJ, 2006.
  • 4
    José Murilo Carvalho, “A vida política”, In: ______. (coord.), História do Brasil Nação (1808-2010). A construção nacional (1830-1889), vol. 2, Rio de Janeiro, Objetiva, 2012, p. 83-130.
  • 5
    Sidney Chalhoub, “População e sociedade”, In: Ibidem,, p. 37-82.
  • 6
    João Antônio de Paula, “O processo econômico”, In: Ibidem, p. 179-224.
  • 7
    José Murilo Carvalho, “A vida política”, In: ______. (coord.), História do Brasil Nação (1808-2010). A construção nacional (1830-1889), vol. 2, Rio de Janeiro, Objetiva, 2012, p. 83-130.
  • 8
    Alfredo Bosi, “Cultura”, In: Ibidem, p. 225-280.
  • 9
    Sidney Chalhoub, “População e sociedade”, In: Ibidem, p. 37-82.
  • 10
    Lilia Moritz Schwarcz, As barbas do Imperador, São Paulo, Companhia das Letras, 1998. No caso do esporte, deve-se ter em conta que, no decorrer do tempo, se a influência da capital foi notável em muitas localidades, houve também outros importantes centros de difusão, outras cidades que exerceram alguma ingerência regional.
  • 11
    Novo Correio das Modas, 1853, p. 63. Periódico que deu sequência ao Correio das Modas, destinava-se a abordar os mais diferentes assuntos sociais, oferecendo também às leitoras, seu público-alvo, divertimentos diversos, seja na forma de literatura, seja na forma de jogos de palavras e charadas. Essa matéria foi escrita por D. Sallustio, redator geral e responsável pela coluna “Crônica da Quinzena”.
  • 12
    Victor Andrade de Melo, “Educação do corpo - bailes no Rio de Janeiro do século XIX: o olhar de Paranhos”, Educação e Pesquisa, vol. 40, n. 3, 2014, p. 751-766.
  • 13
    Sidney Chalhoub, “População e sociedade”, In: José Murilo Carvalho (coord.), História do Brasil Nação (1808-2010). A construção nacional (1830-1889), vol. 2, Rio de Janeiro, Objetiva, 2012, p. 42.
  • 14
    Fabiane Popinigis, Proletários de casaca: trabalhadores do comércio carioca - 1850-1911, Campinas, Editora da UNICAMP, 2007, p. 55.
  • 15
    Para mais informações sobre a imprensa do século XIX, ver Marialva Barbosa, História cultural da imprensa: Brasil. 1800-1900, Rio de Janeiro, MauadX, 2010; Paulo Knauss et al. (orgs.), Revistas Ilustradas: modos de ler e ver no Segundo Reinado, Rio de Janeiro, MauadX, 2011.
  • 16
    Os periódicos foram consultados na Hemeroteca Digital Brasileira e na Biblioteca Nacional. Para análise e interpretação do material, tivemos em conta as sugestões de: Tania Regina de Luca, “História do no e por meio dos periódicos”, In: Carla Bassanezi Pinsky (org.), Fontes históricas, São Paulo, Contexto, 2005. p. 111-153.
  • 17
    Victor Andrade de Melo, “‘Temos apaixonados para o mar e para a terra’: representações do esporte nos folhetins (Rio de Janeiro; 1851-1855)”, Revista Brasileira de Educação Física e Esporte, vol. 27, n. 4, 2013, p. 553-566.
  • 18
    Prussiano que chegara ao Brasil, em 1824, integrando tropas a serviço do Império, se envolveu com a criação de empresas de transporte público e de leilões de animais. Era também fazendeiro e criador de cavalos.
  • 19
    O hipódromo do Club de Corridas era chamado de Prado Fluminense. Somente acolheu uma atividade dessa agremiação, mas sediou parte importante do desenvolvimento do turfe fluminense, permanecendo ativo até a década de 1920.
  • 20
    Na seção, eram comentados os principais acontecimentos da cidade. Almeida foi o autor de uma obra bem conhecida, Memórias de um sargento de milícias.
  • 21
    Correio Mercantil, 15 e 16 de junho de 1851, p. 1.
  • 22
    Marmota na Corte, 17 de junho de 1851, p. 1. Jornal de modas e variedades, expressava bem as ambiguidades que cercavam as mudanças na Corte, reunindo posições avançadas e conservadoras.
  • 23
    Ibidem.
  • 24
    Diário do Rio de Janeiro, 28 de setembro de 1861, p. 1. Esse periódico foi um dos primeiros do país a circular diariamente, caracterizando-se tanto pela ênfase no comercial e na publicidade quanto por adotar uma linha editorial que defendia o progresso do país.
  • 25
    Correio Mercantil, 1º de outubro de 1861, p. 1. Esse periódico ocupou espaço de importância no Segundo Reinado. Tinha um perfil político liberal e engajado, ao contrário do mais moderado Jornal do Comércio.
  • 26
    Idem, 21 e 22 de setembro de 1851, p. 2.
  • 27
    Diário do Rio de Janeiro, 11 de dezembro de 1853, p. 1.
  • 28
    Marmota na Corte, 6 de fevereiro de 1852, p. 2.
  • 29
    Novo Correio das Modas, 1854, p. 192.
  • 30
    Ibidem.
  • 31
    Marmota na Corte, 16 de março de 1852, p. 3.
  • 32
    Correio Mercantil, 15 e 16 de junho de 1851, p. 1.
  • 33
    Não é fácil confirmar essa estimativa. Em outros casos, houve mesmo divergências entre os cronistas. De toda forma, vale considerar que o desejo do periodista era expressar que muita gente compareceu ao evento.
  • 34
    Correio Mercantil, op cit.
  • 35
    Ibidem.
  • 36
    Victor Andrade de Melo, “Uma diversão adequada? As touradas no Rio de Janeiro do século XIX (1870-1884)”, História, vol. 32, n. 2, 2013, p. 163-188.
  • 37
    Victor Andrade de Melo, “Das touradas às corridas de cavalo e regatas: primeiros momentos da configuração do campo esportivo no Brasil”, In: Mary del Priore; Victor Andrade de Melo, História do esporte no Brasil: do Império aos dias atuais, São Paulo, Editora da UNESP, 2009, p. 35-70.
  • 38
    Marmota na Corte, 6 de fevereiro de 1852, p. 1.
  • 39
    Correio Mercantil, 12 de junho de 1851, p. 4.
  • 40
    Para uma comparação, ver Victor Andrade de Melo; Fabio de Faria Peres, A gymnastica no tempo do Império, Rio de Janeiro, 7 Letras, 2014.
  • 41
    Marmota na Corte, 10 de fevereiro de 1852, p. 2.
  • 42
    Marmota Fluminense, 5 de novembro de 1852, p. 1. O jornal deu sequência e possuía perfil semelhante ao do Marmota na Corte.
  • 43
    Correio Mercantil, 2 de novembro de 1852, p. 1.
  • 44
    Idem, 3 de novembro de 1852, p. 1.
  • 45
    Idem, 19 de outubro de 1852, p. 2.
  • 46
    Correio Mercantil, 19 de outubro de 1852, p. 2.
  • 47
    Jornal do Comércio, 29 de outubro de 1851, p. 2.
  • 48
    Periódico dos Pobres, 4 de novembro de 1852, p. 5.
  • 49
    Diário do Rio de Janeiro, 22 de novembro de 1853, p. 2.
  • 50
    Diário do Rio de Janeiro, 17 de maio de 1855, p. 5.
  • 51
    Correio Mercantil, 29 de setembro de 1861, p. 2.
  • 52
    Novo Correio das Modas, 1854, p. 192. Os gentlemen-riders eram também, em muitas ocasiões, donos dos cavalos.
  • 53
    O Jornal das Senhoras, 11 de junho de 1854, p. 186.
  • 54
    Correio Mercantil, 11 de dezembro de 1853, p. 1.
  • 55
    Idem, 13 de junho de 1852, p. 2.
  • 56
    Periódico dos Pobres, 20 de outubro de 1853, p. 1.
  • 57
    Marmota na Corte, 17 de outubro de 1851, p. 2.
  • 58
    O Jornal das Senhoras, 15 de fevereiro de 1852, p. 53.
  • 59
    Correio Mercantil, 15 e 16 de junho de 1851, p. 1.
  • 60
    Ibidem.
  • 61
    Marmota na Corte, 17 de junho de 1851, p. 1.
  • 62
    Em geral, o evento começava às 10 horas, tinha um intervalo para almoço das 12 às 14 horas, seguindo depois até as 16 horas.
  • 63
    Correio Mercantil, 10 de setembro de 1851, p. 3.
  • 64
    Localizado na Praça da Constituição (atual Praça Tiradentes), foi um dos hotéis mais importantes da capital à sua época. Ficou conhecido por ter sido local dos primeiros bailes de carnaval da cidade.
  • 65
    Marmota na Corte, 16 de setembro de 1851, p. 1.
  • 66
    Jornal do Comércio, 24 de junho de 1853, p. 2.
  • 67
    Marmota na Corte, 17 de junho de 1851, p. 1; Jornal do Comércio, 20 de junho de 1851, p. 3.
  • 68
    Correio Mercantil, 18 de agosto de 1851, p. 2.
  • 69
    Correio Mercantil, 9 de dezembro de 1853, p. 1.
  • 70
    Idem, 11 de dezembro de 1853, p. 1. Os jornais não divulgaram os nomes de todos os participantes, apenas do vencedor.
  • 71
    Ibidem.
  • 72
    Não devemos esquecer também sua participação em grupos musicais como uma possibilidade de protagonismo social. Ver: Mauricio Monteiro, “Música e mestiçagem no Brasil”, Nuevo Mundo Mundos Nuevos, fev. 2006. Disponível em: <http://nuevomundo.revues.org/1626>. Acessado em: 6 de agosto de 2014; Martha Abreu; Andrea Marzano, “Entre palcos e músicas: caminhos de cidadania no início da República”, In: José Murilo Carvalho; Lúcia Maria Bastos Pereira das Neves (orgs.), Repensando o Brasil do Oitocentos: cidadania, política e liberdade, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2009, p. 123-149.
  • 73
    Correio Mercantil, 19 de outubro de 1852, p. 2.
  • 74
    Correio Mercantil, 17 de maio de 1855, p. 1.
  • 75
    Jornal do Comércio, 28 de abril de 1852, p. 17.
  • 76
    Victor Andrade Melo; Fabio de Faria Peres, “Associativismo e política no Rio de Janeiro do Segundo Império: o Clube Ginástico Português e o Congresso Ginástico Português”, Topoi: Revista de História, vol. 15, n. 28, Rio de Janeiro, 2014, p. 242-265.
  • 77
    Jornal do Comércio, 27 de outubro de 1851, p. 2.
  • 78
    Victor Andrade de Melo, “Uma diversão adequada? As touradas no Rio de Janeiro do século XIX (1870-1884)”, História, vol. 32, n. 2, 2013, p. 163-188.
  • 79
    Idem, “Educação do corpo - bailes no Rio de Janeiro do século XIX: o olhar de Paranhos”, Educação e Pesquisa, vol. 40, n. 3, 2014, p. 751-766.
  • 80
    Idem; Fabio de Faria Peres, A gymnastica nos tempos do Império, Rio de Janeiro, 7 Letras; FAPERJ, 2014.
  • 81
    Fabiane Popinigis, Proletários de casaca: trabalhadores do comércio carioca - 1850-1911, Campinas, Editora da UNICAMP, 2007.
  • 82
    Ibidem.
  • 83
    Correio Mercantil, 13 de setembro de 1856, p. 3.
  • 84
    Idem, 17 de julho de 1856, p. 3.
  • 85
    Correio Mercantil, 24 de julho de 1857, p. 1.
  • 86
    Não conseguimos identificar onde as antigas corridas eram realizadas.
  • 87
    Compunham ainda a diretoria José Pinheiro de Siqueira (tesoureiro), Augusto da Rocha Fragoso (secretário), empreendedor envolvido com a modernização da economia nacional, e Ricardo Narciso Fonseca (procurador).
  • 88
    Correio Mercantil, op cit.
  • 89
    Roderick J. Barman, Imperador cidadão, São Paulo, Editora da UNESP, 2012.
  • 90
    Lilia Moritz Schwarcz, As barbas do Imperador, São Paulo, Companhia das Letras, 1998, p. 239.
  • 91
    Correio Mercantil, 27 de junho de 1857, p. 2.
  • 92
    Diário do Rio de Janeiro, 16 e 17 de agosto de 1857, p. 1. Nessa ocasião, o Prado estava inativo por ter sofrido um incêndio.
  • 93
    Idem, 18 de julho de 1857, p. 3. O prêmio foi exposto no estabelecimento do reconhecido ourives e joalheiro Xavier Berard, na Rua do Ouvidor (Correio Mercantil, 11 de agosto de 1857, p. 3).
  • 94
    Correio Mercantil, 19 de julho de 1857, p. 3.
  • 95
    Idem, 23 de julho de 1857, p. 3.
  • 96
    Idem, 30 de julho de 1857, p. 3.
  • 97
    Victor Andrade de Melo, Antes do club: as primeiras experiências esportivas na capital do Império (1825-1851), vol. 49, Projeto História, São Paulo, 2014. No prelo.
  • 98
    Correio Mercantil, 2 de agosto de 1857, p. 3.
  • 99
    Idem, 19 de agosto de 1857, p. 3.
  • 100
    Diário do Rio de Janeiro, 30 de agosto de 1857, p. 1.
  • 101
    Correio Mercantil, 21 de outubro de 1852, p. 2.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    Jan-Jun 2015

Histórico

  • Recebido
    11 Ago 2014
  • Aceito
    13 Jan 2015
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