RESUMO
Este trabalho traz uma análise de relatos de três tradutoras sobre a percepção que têm de suas emoções durante e depois da tradução de histórias verídicas, incluindo narrativas sobre os efeitos sentidos no corpo. Por meio de uma abordagem teórico-metodológica transdisciplinar, são apresentados trechos decorrentes de entrevistas com as tradutoras, a fim de promover uma reflexão sobre as relações estabelecidas a partir do entendimento que elas apresentam sobre a interferência das emoções no processo tradutório, nas relações e na forma como vivenciam a profissão e o mundo. As análises mostram que reconhecer que os valores afetivos são constitutivos de qualquer tradução (Koskinen, 2020) pode nos ajudar a entender a nossa tarefa, além do fato inegável de que somos sempre afetadas e afetamos tudo o que nos cerca, e de que traduzir pode ser lindo e horrível (Wittner, 2023), o que põe em cena a responsabilidade e a ética (Derrida, 2000; 2006) de quem traduz, sobretudo quando se trata de literatura de testemunho (Seligmann-Silva, 2008).
Palavras-chave
tradução e emoção; narrativas tradutórias; literatura de testemunho
ABSTRACT
This paper presents an analysis of narratives from three female translators regarding the perception of their emotions during and after translating real-life stories, as well as the physical effects they experienced. Using a transdisciplinary theoretical and methodological approach, the study presents interview excerpts to promote reflection on the relationships established during the translation process. This approach is based on the translators’ understanding of the interference of emotions in the way they experience the profession and the world. The analyses show that knowing affective values are constitutive of any translation process (Koskinen, 2020) can enhance our understanding of our task and help us confront the undeniable fact that we are invariably affected by and affect everything around us. This underscores that translating is both beautiful and horrible (Wittner, 2023), and highlights the responsibility and ethics (Derrida, 2000; 2006) of the translator, especially when it comes to literature of testimony (Seligmann-Silva, 2008).
Keywords
translation and emotion; translation narratives; literature of testimony
No livro Is That a Fish in Your Ear? Translation and the Meaning of Everything, Bellos (2012) enfatiza que a tradução não é algo secundário, mas está no centro da nossa civilização porque ajuda a entender os aspectos sociais, culturais e humanos de cada língua.1 Bellos defende que a diversidade de línguas constitui e define cada povo e a tradução mostra a própria condição humana — e nos leva a repensar as relações que estabelecemos com o outro — seja na nossa língua, seja na língua estrangeira. Um dos objetivos do livro é revisitar o mito da torre de Babel e refletir sobre as consequências da dispersão dos povos e das línguas.
O não entendimento proveniente de Babel sempre esteve no âmago das discussões sobre a tradução, já que, antes de tudo, Babel nos mostra que temos uma língua e não a língua, e que a relação entre as línguas em geral não é pacífica, corroborando a afirmação de Cassin (2023, p. xvii) de que “cada língua acusa uma ou várias outras de serem radicalmente estrangeiras. Em árabe se acusa o persa ou o hindi. Em hindi, o tâmil. Em hebraico, o chinês. Em chinês, a escrita celestial.” Em português, o que nos é incompreensível é grego, ou seja, o que nos é estranho é sempre atribuído à língua do outro. Há, nessa acusação de que o outro está falando algo que não compreendo, um esquecimento de que mesmo o que consideramos ‘nossa língua’ não nos pertence: “eu não tenho senão uma língua, ora, ela não é minha”, diz o franco-argelino Jacques Derrida (2001, p.15). Assim, nenhuma língua é totalmente apropriada, há algo que constantemente nos escapa, algo indecidível, idiomático, que exige a tradução.
Em geral reputada como maldição, Babel pode ser vista como “constatação sem condenação de uma separação originária”, como defende Paul Ricoeur:
Se adotamos essa linha de leitura, (…) a dispersão e a confusão das línguas, anunciadas pelo mito de Babel, vem coroar essa história da separação, levando-a ao coração do exercício da linguagem. Assim somos, assim existimos, dispersos e confusos, e chamados para o quê? Bem… para a tradução! (2011, p.43)
Enquanto Ricoeur sustenta que a tradução existe como exercício de linguagem, Derrida (2006) observa que a passagem ao outro pode ser entendida como hospitalidade, representada tanto pela construção de Babel, pela busca da tradução universal e imposição de uma só língua, quanto pela desconstrução da torre, revelando as tensões e os conflitos inerentes ao processo. O próprio título do livro em que Derrida trata do mito apresenta uma homofonia — Des tours de Babel: as voltas, os desvios, as torres de Babel — e coloca em cena a instabilidade do significado e os desafios da tradução. A intraduzibilidade desse título remete ainda ao double bind (à necessidade e à impossibilidade de traduzir), ao “vínculo duplo, possível e impossível, da relação entre as línguas, entre os textos original e traduzido, entre autor e tradutor” (Lima e Siscar, 2013, p.50).
Essa relação proporcionada pelo contato entre as línguas, explicitada na tradução, resulta na produção de um novo texto, e requer criações na língua de chegada, considerando a historicidade de cada palavra e as complexas interconexões textuais que a envolvem. Esse processo decorre, portanto, de uma interpretação, na qual os sentidos são constantemente construídos e reconstruídos, transformando o texto de partida em um texto traduzido em uma determinada época e com determinados propósitos. Nesse contexto, entendemos a tradução como uma “construção do comparável” (Ricoeur, 2011, p.68) que mostra a relação inevitável entre as línguas, ampliando o conhecimento que temos daquela que é, para nós, a nossa própria língua.
Na tradução, fica ainda mais evidente que o contato com a língua do outro transforma e reconfigura a nossa língua, borrando as fronteiras entre elas e pondo em questão a maneira como lidamos com a nossa língua e as línguas (radicalmente ou não) estrangeiras, e mostrando, como defende Rajagopalan, que
as línguas não são meros instrumentos de comunicação, como costumam alardear os livros introdutórios. As línguas são a própria expressão da identidade de quem delas se apropria. Logo, quem transita entre diversos idiomas está redefinindo sua própria identidade. (2003, p.69)
Mais do que se apropriar de uma língua — mesmo que essa apropriação nunca seja completa —, quem traduz vive e transita entre línguas, conectando diferenças em tempos e espaços distintos, mostrando a instabilidade dos sentidos e a impossibilidade de um significado único e transcendental, que são concepções que têm sido questionadas há anos, mas que passaram a ser mais debatidas a partir do que se nomeou o pensamento pós-estruturalista. A tradução é vista, portanto, como “interpretação ou compreensão global, do mundo, seguindo a estrutura geral do compreender” (Cassin, 2004, p.1317, minha tradução), tornando explícito que a pessoa que traduz está inexoravelmente envolvida no processo.
Derrida chama o convite à leitura — que, no caso da tradutora e do tradutor, é, por extensão, um convite à escritura — de contra-assinatura, que consiste em um gesto de hospitalidade, de distanciamento e de proximidade do outro. Ele declara, ainda, sua “admiração por aqueles e aquelas que considero os únicos a saber ler e escrever: as tradutoras e tradutores” (2000, p.14), e completa:
A filosofia da tradução, a ética da tradução, se é que existe, seria, hoje, uma filosofia da palavra, uma linguística ou uma ética da palavra. No início da tradução existe a palavra. Nada é menos inocente, pleonástico e natural, nada é mais histórico que essa proposição, mesmo se ela parece evidente demais. (Derrida, 2000, p.20)
Cabe à tradutora ou ao tradutor, então, ser capaz de assinar o texto traduzido considerando as especificidades de cada língua e cultura, ou, mais do que isso, a “ética da palavra”. Essa responsabilidade tem gerado discussões em torno de uma ética do traduzir que, nas palavras de Berman, pode ser entendida como “reconhecer e receber o Outro enquanto Outro. […] Acolher o Outro, o estrangeiro, em vez de rejeitá-lo ou de tentar dominá-lo” (Berman, 2007, p.68).
O entendimento da tradução como uma complexa prática da diferença e como um processo relacional igualmente complexo de negociação entre diferentes línguas, culturas e pessoas, evidencia que, em cada projeto tradutório, quem assina uma tradução é responsável política e eticamente por suas escolhas, inclusive teóricas. Koskinen (2020) lembra, ainda, que as relações que a tradutora e o tradutor estabelecem com o texto são moldadas pelo que nos afeta, e convida a pensar em como nossas emoções e sentimentos interferem na maneira como teorizamos e praticamos a tradução.
Assim, em consonância com uma abordagem hermenêutica da tradução (Venuti, 2012),2 e em consonância com os Estudos do Tradutor propostos por Chesterman (2015) que, entre outros aspectos, enfocam o estudo sociológico e o papel de tradutoras e tradutores, este artigo traz três relatos provenientes de entrevistas com tradutoras, a fim de refletir sobre emoções e afetos fundamentais para a vida pessoal, profissional e social, moldando as relações dessas profissionais e as formas como vivenciam o mundo.
A dimensão ética e afetiva do processo de tradução é colocada em ato por meio de relatos que entrelaçam tradução e vida, possibilitando discussões sobre as intrincadas conexões entre as práticas tradutórias, o corpo humano, as influências socioculturais e as emoções, transformando o olhar das três tradutoras profissionais na relação com histórias verídicas de mulheres que narram situações de sofrimento e superação. O objetivo, portanto, é trazer uma análise dessas narrativas do ponto de vista das tradutoras, da forma como percebem suas emoções, mesmo anos depois de terem traduzido essas obras. Os relatos visam despertar a reflexão sobre o processo tradutório, contemplando as seguintes perguntas: Quais são as percepções de quem traduz em relação à tradução de textos de temáticas sensíveis? Quais são os efeitos da emoção percebidos no processo tradutório e nas relações com os agentes envolvidos nesse processo? Como as tradutoras entendem seu papel de forma individual e coletiva, e como percebem os efeitos no corpo em diferentes momentos da tradução? Com base nesse conjunto de perguntas, discute-se a subjetividade da tradutora, sua percepção e a expressão das emoções durante e depois do processo tradutório. O recorte apresentado a seguir é uma tentativa de mostrar como cada experiência é perpassada por questões que são muito mais amplas do que as narrativas individuais, uma vez que envolvem questões político-sociais que se refletem na coletividade.
EMOÇÕES À FLOR DA PELE: TRADUZINDO A HISTÓRIA DA OUTRA
Em Viver e traduzir, a tradutora argentina Laura Wittner (2023) apresenta o que chama de registros de tradução, que trazem inquietações e reflexões que permeiam suas experiências tradutórias e as discussões que ocorrem com estudantes e profissionais em oficinas de tradução3. O livro trabalha com a estética do fragmento, e oferece um conjunto de observações que mesclam ficção e realidade, autobiografia e declarações de pessoas que participaram das oficinas, às vezes comentando a tradução de colegas, às vezes com expressões dela mesma sobre seu processo de tradução.
Acho que ver uma tradutora, um tradutor, participar de forma tão ativa e prazerosa na transformação do texto revela, para o público em geral, um mundo que ele desconhecia ou supunha ser diferente (talvez mais cinzento, mais burocrático). Para aqueles que traduzem, como eu, por outro lado, esses “Registros de tradução” são um alívio, uma diversão; a possibilidade de pensar novas formas de contar o que fazemos e a alegria de ver outras pessoas contarem e se divertirem no emaranhado do seu próprio par de línguas e daquele “segundo lar” que é o texto que está sendo traduzido. (Wittner, 2023, p.89)
De forma semelhante ao que ocorre com os “registros de tradução”, que dão lugar e voz a tradutoras e tradutores, os trechos de entrevistas apresentados neste artigo trazem narrativas que entrelaçam tradução e vida, em experiências de tradução de histórias verídicas. De um lado, é possível observar que os trabalhos que trazem emoções negativas levam à diminuição da potência de agir, como explica Spinoza (1677/2014); de outro, há a alegria e a esperança que fazem com que a potência seja aumentada, transformando a relação entre texto e tradução em fonte de satisfação. Foram selecionados três excertos de narrativas de situações em que as tradutoras se sentiram afetadas por aquilo que estavam traduzindo e que dizem respeito a histórias que associam essas experiências tradutórias à ideia de emoção como um modo de relação social (Ahmed, 2014).
Ao se lembrarem de situações profissionais que as afetaram, algumas tradutoras, entrevistadas no início de 2021, narraram experiências com textos cujos conteúdos são considerados sensíveis — por exemplo, relativos a crises humanitárias, guerras, posicionamentos políticos, religiões, questões de gênero etc.4 Nesses casos, a tradução pode evocar respostas emocionais mais ou menos intensas e perceptíveis, provocando interferências no ato tradutório. Assim, textos diferentes estão propensos a gerar respostas diferentes em cada pessoa, mais ainda quando consideramos temas controversos ou constrangedores para determinados grupos sociais. Essas respostas também variam se estão relacionadas a acontecimentos imediatos ou a acontecimentos que implicam um recuo ao passado, se há uma vivência testemunhal ou se a sensibilização é decorrente de empatia com o que testemunha. Invariavelmente, os relatos das pessoas entrevistadas são marcados pela afetividade, por um estar entre aquilo que as impede de se mover e o que faz com que se movam. Portanto, as narrativas enfocam também as consequências dessas experiências tradutórias em seus corpos, bem como seus efeitos na própria dinâmica de trabalho. Além disso, funcionam como um componente de criação de significado socialmente situado, que aparece na interação caracterizada por uma complexidade afetiva e cognitiva (Hokkanen e Koskinen, 2018), uma vez que se dá na interação das pessoas entrevistadas com o que está sendo exposto, com sua identificação com determinadas representações e que, nesse papel de profissionais, sabem que estão falando com alguém que pretende analisar seus relatos sobre as experiências vividas.
Nas experiências enfocadas a seguir, a relação entre a tradutora e o texto a ser traduzido é percebida como perturbadora dada a carga emotiva das narrativas que trazem histórias reais, vividas pelas personagens dos livros, que podem ser vistos como literatura de testemunho. Como defende Seligmann-Silva (2008, p.71), ao tratar especificamente de relatos de sobreviventes dos campos nazistas, “[o]corre uma revisão da noção de literatura justamente porque do ponto de vista do testemunho ela passa a ser vista como indissociável da vida, a saber, como tendo um compromisso com o real.”
A literatura de testemunho é pertinente aos relatos aqui tratados, uma vez que apresentam a necessidade de narrar a experiência da barbárie como uma ação política para compreensão da história e da humanidade. No caso das três tradutoras, cada texto tem uma característica singular — o primeiro é totalmente escrito por quem viveu e foi testemunha da história (Eger, 2019); o segundo é proveniente de entrevistas com as pessoas que viveram os traumas e é escrito por jornalistas, que poderiam ser considerados testemunhos secundários (Kristof e WuDunn, 2009); e o terceiro é escrito em coautoria entre a testemunha e o psicólogo que a ajudou a lidar com o trauma (Logan e Fassbender, 2010). Nos três, há um compromisso com a representação do “real”, do “verídico”, daquilo que foi vivido e testemunhado por essas pessoas e a percepção daquilo que as palavras não dão conta de expressar, daí levarem anos até decidirem publicar as suas histórias.
Esse caráter testemunhal da literatura também nos remete a Demeure, livro em que Derrida (1998) trata do testemunho e da ficção em Blanchot. Embora o contexto das experiências relatadas pelas tradutoras seja diferente, sobretudo por serem histórias não ficcionais, Derrida nos ajuda a pensar nos rastros da história que são trazidos em cada obra e no entrecruzamento dessa história com a subjetividade de cada tradutora, na maneira como cada uma acolhe os textos a serem traduzidos e lida com as experiências narradas em forma de testemunho. O autor discute a relação entre a ficção e a verdade autobiográfica, entre aquilo que permanece (demeure) como verdade de um testemunho.5 Outro diálogo com essa obra de Derrida diz respeito à paixão, que perpassa toda a relação com a literatura — apresentada em sete pontos (1998, p.26-29), desde a paixão como sacralidade até a paixão como relação de amor, responsabilidade, sofrimento, finitude, engajamento, testemunho:
Podemos ler o mesmo texto — que, portanto, não existe “per se” — como um testemunho dito sério e autêntico, ou como um arquivo, ou como um documento ou como um sintoma — ou como obra de ficção literária, até mesmo a obra de uma ficção literária que simula todos os status que acabamos de listar. (Derrida, 1998, p.30, minha tradução)
As histórias citadas a seguir são efetivamente experiências reais, diferentemente do caso da ficção ou do falso testemunho que o autor questiona ao tratar do texto literário ficcional, mas também podem ser lidas como arquivo, documento e sintoma que despertam os diversos tipos de paixões desencadeados pela literatura.
Inicio com a narrativa da tradutora Débora Chaves, que conta a experiência de traduzir a história de Edith Eva Eger (2019), A bailarina de Auschwitz (The Ballerina of Auschwitz), do inglês para o português. O livro traz a experiência de Eger nos campos de concentração, para onde foi aos 16 anos, quando o exército alemão invadiu seu vilarejo na Hungria. No dia em que sua mãe morreu, ela foi obrigada a dançar para Mengele, daí o título do livro, que é um relato de suas memórias e de casos reais de pessoas que ajudou, escrito quando estava com mais de 80 anos.6 A tradutora, que tem mais de 30 anos de experiência, afirma:
Nos últimos anos o livro que mais me afetou foi “A Bailarina de Auschwitz”, de Edith Eger, que traduzi em 2017. Foi quase uma catarse… eu traduzia chorando basicamente. Eu imaginava que seria um livro sofrido, mas descobri o tamanho da minha ignorância sobre o tema e mergulhei fundo na história por trás da história que o livro contava. Foi muito enriquecedor, embora tenha me levado a momentos bem tristes, de questionamentos filosóficos e comportamentais, uma jornada pessoal que me levou a novas posturas e compreensões sobre o que é viver.
Os afetos são mobilizados já no assunto do livro — Auschwitz e tudo o que o Holocausto e o nazismo representam: uma memória coletiva sobre sofrimento, violência, ódio, preconceito e a necessidade de lutar por direitos humanos e por garantias básicas universais que assegurem a vida e a dignidade de todas as pessoas. Como Ahmed (2014) observa em seu trabalho sobre a natureza sociopolítica da emoção, examinar as narrativas emotivas que circulam nos discursos individuais e sociais revela como os mundos são modelados e como os corpos foram e são construídos como efeitos de emoções, indo além da compreensão das relações internas e das manifestações externas que ocorrem em cada pessoa, e colocando em discussão o poder político desses discursos.
As imagens acionadas quando se fala de Holocausto trazem “expressões coletivas das emoções que atravessam a história” (Didi-Huberman, 2021, p.34). No caso da tradução, a memória também é essencial, pois a dor é intensificada pela lembrança de tudo o que a tradutora sabe e que está relacionado ao nazismo. Além do choro, ela lembra de ter dores no corpo e de precisar de pausas longas para se recompor, remetendo à ideia de experiência idiossomática (Robinson, 2003; 2016), resultante da impossibilidade de a tradutora ignorar e desvincular todo o conhecimento acumulado daquilo que é sentido. Contudo, juntamente com a tristeza, reconhece-se que há uma espécie de compensação, um enriquecimento pessoal trazido pelo conhecimento adquirido e pelo novo olhar sobre a própria vida.
O que se produz nos relatos de superação do livro é um sentimento de esperança, ou seja, os efeitos produzidos em cada situação interferem diretamente na posição adotada pela tradutora, que menciona a quebra de expectativa (“descobri o tamanho da minha ignorância sobre o tema”) e como foi transpassada pela emotividade e pelas reações do corpo, além da percepção e do entendimento das mudanças pessoais após o término do trabalho. O relato de superação do livro influencia a posição adotada pela tradutora, que, sensibilizada, consegue ver a relevância da divulgação da obra.
O segundo relato é da tradutora Sonia, 68 anos, mais de 25 anos de experiência, que traduz do inglês e do francês para o português, em geral na área de ciências humanas, medicina e turismo. Na entrevista ela fala de um trabalho que a impactou demais:
Foi a tradução do livro “Metade do Céu”, da Editora Novo Século, traduzido em 2011. Esse livro conta histórias reais de mulheres de diversos países que transformaram situações de muita opressão e dificuldade em oportunidades de crescimento para si mesmas e para os outros. Eu sabia que seria um livro de conteúdo pesado e inspirador, mas não imaginava que haveria momentos em que eu precisaria interromper o trabalho para chorar e me acalmar antes de continuar.
Half the Sky — Turning Oppression into Opportunity for Women Worldwide foi escrito pelos renomados jornalistas Nicholas D. Kristof e Sheryl WuDunn (2009), que viveram anos na Ásia, África e América Latina, recolhendo depoimentos e relatos por meio de conversas e entrevistas com mulheres que enfrentam misoginia, mortalidade materna, violência obstétrica, estupro, tráfico sexual, entre outras tragédias, além de dados que comprovam as histórias, como documentos e estatísticas (dados da Unicef sobre mutilação genital, por exemplo). O título é uma referência à expressão cunhada por Mao Tsé-Tung para explicar que homens e mulheres têm direitos iguais, ou que as mulheres sustentam metade do céu, como aparece na epígrafe do livro.7 Os autores advogam pelo empoderamento das mulheres por meio de ações educativas e políticas públicas, trazendo inclusive ações que cada pessoa pode fazer como agente de mudança.
Os assuntos são bastante sensíveis, sobretudo pela identificação que criamos por sermos mulheres em um país com muitos problemas de opressão, violência doméstica, assédio sexual, falta de assistência médica no parto ou em caso de aborto, bem como de falta de oportunidade de trabalho e impossibilidade de ascensão econômica e social. Traduzir as histórias nas vozes de cada mulher acaba por descortinar problemas que sabemos que existem, mas nem sempre reconhecemos que são parte do nosso dia a dia.
Há uma conscientização do impacto da emoção no trabalho e a tradutora acredita que as estratégias aprendidas na profissão de psicóloga ajudam a lidar com a situação. A consequência direta, lembra, foi ter sentido a diminuição do rendimento e a necessidade de solicitar mais prazo para a editora — um pedido que geralmente não é recebido com bons olhos.
O que acontecia quando eu estava traduzindo esse livro: primeiro, tive que ir num ritmo muito mais devagar que meu habitual e tive que usar meu treinamento de psicóloga… era meio similar, como se cada história que eu traduzisse, eu estivesse ouvindo a pessoa falar. Eu tinha que deixar o relato dela em primeiro plano, mas muitas vezes eu tinha que parar o trabalho e me dar o direito de chorar.
A tradutora enfatiza que o livro “é muito pesado”, embora traga histórias que considera lindas, de meninas e mulheres que sofreram opressões e violações, mas que também protagonizam histórias inspiradoras, mostrando superações das mulheres no mundo. Assim como no primeiro exemplo, a tradutora percebe que o corpo responde somaticamente, diminuindo sua potência de agir (ou, no caso, de traduzir).
Uma última narrativa de tradução de histórias verídicas é da tradutora Samantha, 43 anos, que trabalha com os pares inglês <> português, principalmente na área de dispositivos médicos, educação física, esportes e autoajuda, já com mais de 20 anos de experiência.
[A tradução do] livro intitulado Alone: Orphaned on the Ocean. Foi feita em meados de 2011. O livro conta a história verídica de Terry Jo Duperrault, que aos 11 anos viu toda sua família ser assassinada durante um passeio num veleiro fretado. Ela conseguiu escapar apoiando-se numa boia e sobreviveu durante 4 dias em alto mar até ser resgatada. Eu achei o assunto muito interessante do ponto de vista psicológico e como poderia auxiliar pessoas que sobreviveram a tragédias. Não imaginei que pudesse me afetar. (…) Eu senti muita empatia pela personagem.8
O livro Sozinha, órfã no oceano conta a história de Terry Jo Duperrault Fassbender que, com apenas 11 anos, se jogou no oceano após presenciar o assassinato de sua mãe, seu pai, sua irmã e seu irmão a bordo de um veleiro na Flórida. Terry foi resgatada após 84 horas, desidratada, queimada do sol, flutuando em um pedaço de boia. O livro foi escrito 50 anos depois do acontecimento, ocorrido em novembro de 1961, em coautoria com o psicólogo Richard Logan (2010), especialista em sobrevivência. A tragédia e a superação de Terry levaram a tradutora Samantha a questionar vários momentos traumáticos da sua própria vida e a reconhecer que as experiências narradas eram piores do que as suas: “Para mim foi muito bom ter feito essa tradução e eu pensei em pessoas que tivessem vivido tragédias, assassinatos na família… pensei em pessoas que iam ler o livro e ver que existe esperança.”
Novamente o embate com o texto foi permeado por choro, muitas pausas para que pudesse se recompor. O interesse pela história de Terry, indo além do que o livro apresenta, levou-a à pesquisa sobre o tema, quando descobriu que as boias passaram a ser de cor laranja após seu salvamento, visto que até então eram brancas, o que dificultava a visibilidade no mar.
Nos três depoimentos, são estabelecidas conexões entre os aspectos profissionais e pessoais de cada uma, o que evidencia que a tradutora (e o tradutor, obviamente) é um ser social com identidade, personalidade, crenças, afetos, ideologias, experiências e memórias que influenciam o processo e o produto da tradução. Há um reconhecimento da importância das escolhas de quem traduz e uma sensibilidade ao efeito que o texto traduzido poderá, por sua vez, produzir, mostrando que apenas a tradução humana pode fazer jus àquilo inicialmente narrado em outra língua, principalmente quando se trata de histórias de opressões, violações e traumas de mulheres que despertam o respeito, a identificação, a empatia e o cuidado dessas tradutoras com o que está sendo exposto.
A tradução possibilita que se pense a relação entre o texto, a história e as personagens dessa história — que, nos três casos, são mulheres — e as tradutoras. Há uma espécie de dívida que talvez não fosse tão significativa se as envolvidas não fossem mulheres, isto é, essa responsabilidade na tradução também decorre da disposição e do desejo de escutar, de se colocar no lugar da outra, de se emocionar diante do sofrimento, possibilitando uma reflexão sobre o passado e sobre situações que não devem ser repetidas. A empatia aparece como uma característica essencial na compreensão intercultural, que confere à tradutora uma responsabilidade ética e um comprometimento político ainda maiores perante as decisões tradutórias, e evidencia que fazemos “laços de amor” (Wittner 2023, p.63) enquanto traduzimos.
TRADUZIR É SEGUIR VIVENDO9
A tradução de obras que podem ser reconhecidas como literatura de testemunho possibilita não só uma aproximação com o passado, mas traz reflexões sobre experiências individuais relacionadas a uma relevância de ordem coletiva, além de mostrar como a tradução ajuda a não esquecer uma parte de uma história que teve lugar e que implica uma promessa de verdade. Nesse sentido, também funciona como um arquivo ou documento, como prova de um acontecimento. Essas histórias são perpassadas, então, pela memória individual, pela memória coletiva e pela reconstrução histórica, articulando narração, testemunho e tradução.
Há uma relação que difere da tradução de outros gêneros, pois a história verídica tem, ao mesmo tempo, um caráter memorialístico e de testemunho, de algo que não foi inventado, mas vivido. Essa narrativa, em conjunto com o conhecimento que cada tradutora tem dos fatos expostos, torna o processo quase insustentável, forçando essas tradutoras a terem outros pensamentos que possam contrabalancear o sofrimento: “foi muito enriquecedor”, “poderia auxiliar pessoas que sobreviveram a tragédias”. Essas experiências podem ser reconhecidas como traumáticas (embora não usem esse termo nem reconheçam os sintomas como trauma vicário), mas, ao mesmo tempo, são possibilidades de sobrevida do original em outra língua e de disseminação das histórias para outras pessoas.
As tradutoras não destacam questões de escolhas linguísticas ou desafios tradutórios, mas as dificuldades em lidar com as angústias, ao testemunharem as barbáries, os traumas, o peso da realidade e da verdade exposta na literatura, que aparecem de forma nua e crua durante o processo para o qual não estavam preparadas — apesar de acreditarem que estariam, como se observa nas frases: “eu imaginava que seria um livro sofrido, mas descobri o tamanho da minha ignorância sobre o tema”, “eu sabia que seria um livro de conteúdo pesado e inspirador, mas não imaginava que haveria momentos em que eu precisaria interromper o trabalho”, “não imaginei que pudesse me afetar”. Embora não haja uma explicitação, é possível deduzir que as narrativas são tão densas que se tornam difíceis de serem colocadas em palavras — levando a pausas, a um menor rendimento, ao choro.
As narrativas escolhidas revelam, inicialmente, uma ambivalência entre reconhecer que as tradutoras são impactadas durante e até após concluírem as traduções e a preocupação em relação à impressão que podem transmitir ao demonstrarem envolvimento emocional com a tradução. De um lado, há, nas falas das tradutoras, tristeza, sofrimento e preocupação, e, de outro, esperança, ânimo e satisfação. Em várias situações, as emoções surgem da avaliação que as tradutoras fazem do texto e daquilo que aparece em palavras e em (re)ações, como a vibração e o conforto de estarem traduzindo algo que estimula a sociabilidade da emoção. A incapacidade de expressar em palavras aquilo que foi vivido também aparece na fala das tradutoras, quando se sentem impedidas de continuar a traduzir ou não conseguem explicar o que sentiram, embora reconheçam que, em determinados momentos, houve a diminuição da potência de agir (Spinoza, 1677/2014). Passados alguns anos, a lembrança desses momentos é transpassada por emoções positivas decorrentes da relevância da tradução para um novo público, transformando a relação entre texto, corpo e tradução em fonte de alegria. Há, nesse sentido, um reconhecimento de cada tradutora sobre a importância de sua tarefa e uma sensibilidade ao efeito que o texto traduzido poderá produzir, um compromisso ético-político com a tradução e seu impacto na sociedade.
AGRADECIMENTOS
Este trabalho foi desenvolvido com apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), bolsa Pós-Doc Sênior, Processo 102448/2022-1, vigência 01/06/2022 a 31/05/2023. Agradeço ainda ao Fundo de Apoio ao Ensino, à Pesquisa e à Extensão (FAEPEX) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), número da solicitação 2144/23 (Auxílio à Participação em Evento Científico) e à Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), Processo 2023/02107-9 (Reuniões no Exterior-Presencial-Fluxo Contínuo) e a todas as tradutoras e tradutores que participaram da pesquisa.
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1
Babel Fish é uma criatura pequena, amarela, semelhante a uma sanguessuga, inventada por Douglas Adams em O guia do mochileiro das galáxias, publicado originalmente em 1978. Quando colocada no ouvido, Babel Fish traduz automaticamente qualquer língua que esteja sendo falada. No livro, Adams descreve essa ação como bizarrely improbable. O título de Bellos brinca com a possibilidade da existência desse ser que traduz tudo.
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A abordagem hermenêutica é definida por Venuti (2012) em contraposição à abordagem instrumental (ou modelo instrumental), e diz respeito a uma postura mais crítica em relação ao papel do tradutor como intérprete do texto, defendida por vários autores antes dele, como exemplificado em Spolidório et al. (2025).
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Em Lima (2024a) retomo alguns aforismos, tais como: “Traduzir é lindo. Traduzir é horrível. Traduzir é desesperador. Traduzir é puro instinto. Traduzir é autoanalisar-se.”
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Foram entrevistadas 30 pessoas por meio da plataforma Google Meet e de um questionário no Google Forms. As escolhas metodológicas e alguns resultados estão publicados em Lima (2024b; 2025).
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O papel da tradutora, então, é o de ser o testemunho, na sua língua, daquilo que cada autora ou autor não pode testemunhar por si, de forma semelhante ao papel do intérprete, desenvolvido em “Verdade em tradução: um testemunho da dor das palavras” (Veras, 2011), em que se discute o papel do intérprete na Comissão de Verdade e Reconciliação na África do Sul.
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A autora morreu em abril de 2026, com 92 anos. Ela demorou décadas para decidir escrever o livro, que consiste em uma autobiografia entremeada por casos clínicos que tratou como psicóloga.
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Em 2012 o livro deu origem a um documentário de 4 horas de duração, dividido em seis episódios dirigidos por Maro Chermayeff e filmados em dez países com a participação das ativistas America Ferrera, Diane Lane, Eva Mendes, Meg Ryan, Gabrielle Union e Olivia Wilde.
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A tradutora não menciona a editora ou a data de publicação, e em plataformas de busca foi possível encontrar apenas uma tradução de Sozinha: Órfã no Oceano, feita por Dayane Silva, publicada em 2020, sem menção da editora responsável pelo projeto ou pelos direitos autorais.
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Tomo emprestado de Wittner (2023) o aforismo que dá título a essas considerações finais.
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Declaração de disponibilidade de dados da pesquisa
Este trabalho é um recorte do estudo etnográfico desenvolvido no pós-doutorado (CNPq 102448/2022-1), cujos dados são provenientes de entrevistas online semiestruturadas feitas pela plataforma Google Meet, com duração aproximada de uma hora para cada participante, selecionadas entre 20 participações voluntárias, cujas interações ocorreram em janeiro de 2021. O projeto foi submetido à Plataforma Brasil e aprovado pelo comitê de ética em 2020 (CAAE: 35266820.7.0000.8142, parecer número 5.287.731). As entrevistas com as tradutoras e tradutores não estão disponíveis ao público, uma vez que algumas delas apresentam informações que podem vir a comprometer a privacidade das pessoas participantes na pesquisa.
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Declaração de uso de inteligência artificial
Declaro que foi usada inteligência artificial para formatação das referências bibliográficas.
REFERÊNCIAS
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