RESUMO
A flora tropical brasileira influenciou a identidade nacional e a estética urbana. Na capital do país, as transformações urbanas na virada para o século XX foram acompanhadas pelo controle da vegetação para promover a modernização. De uma cidade colonial pouco arborizada à capital republicana denominada “Cidade Maravilhosa”, analisamos as pinturas de paisagem e fotografias da cidade do Rio de Janeiro para compreendermos como as plantas estavam presentes no discurso civilizatório na estética da tropicalidade brasileira e na narrativa de modernização urbana. Dessa maneira, este artigo analisa o processo social de domesticação da flora na paisagem urbana e seu papel na modernização da paisagem urbana carioca, desde meados do século XIX até o primeiro centenário da Independência Nacional.
Palavras-chave:
paisagem urbana; flora tropical; modernização; identidade nacional; fotografia urbana
ABSTRACT
Brazil’s tropical flora influenced its national identity and urban aesthetics. In Rio de Janeiro, at the turn of the twentieth century, urban transformations were accompanied by vegetation control to promote modernization. In analyzing Rio de Janeiro’s transformation from a sparsely wooded colonial city to the republican capital known as the “Marvelous City”, this article draws on landscape paintings and photographs of the city to understand how plants were present in civilizational discourse, Brazilian tropicality aesthetics, and the narrative of urban modernization. Thus, this article analyze the social process of taming flora in the urban landscape and its role in the modernization of Rio de Janeiro’s urban scenery, from the mid-nineteenth century to the first centenary of National Independence.
Keywords:
Urban Landscape; Tropical Flora; Modernization; National Identity; Urban Photography
RESUMEN
La flora tropical brasileña influyó en la identidad nacional y en la estética urbana. En la capital del país, las transformaciones urbanas para finales del siglo XIX, fueron acompañadas por el control de la vegetación para promover la modernización. De una ciudad colonial poco arborizada a capital republicana denominada Ciudad Maravillosa, analizamos las pinturas de paisajes y fotografías de la ciudad de Río de Janeiro para comprender cómo las plantas estaban presentes en el discurso civilizador, en la estética del trópico brasileño y en la narrativa de la modernización urbana. De esta forma, este artículo analiza el proceso social de domesticación de la flora en el paisaje urbano carioca, desde mediados del siglo XIX hasta el primer escenario de la Independencia Nacional.
Palabras clave:
paisaje urbano; flora tropical; modernización; identidad nacional; fotografía urbana
As plantas estiveram presentes nas paisagens da cidade do Rio de Janeiro desde sua fundação, em 1565. Na realidade, a urbe carioca se desenvolveu num mosaico de ecossistemas de manguezais e alagados, de restingas e areais, de florestas no sopé e no alto dos morros. O presente artigo analisa como se deu o processo social de domesticação da flora na paisagem urbana do Rio de Janeiro, desde meados do século XIX até as três primeiras décadas do XX. Nesse intervalo temporal, no auge da modernização urbana carioca, duas mudanças podem ser observadas: a transformação na distribuição das plantas pelo território urbano e a modificação das relações flora-cidade. No início desse período, as plantas limitavam-se aos arredores da capital luso-brasileira e a alguns interiores mencionados anteriormente. No entanto, nos espaços públicos, nas calçadas, e na grande maioria das praças, rocios e campos, havia pouca ou nenhuma vegetação. Como veremos mais adiante, a arborização tornou-se presente nessas áreas paralelamente aos anseios burgueses de transformar o Rio de Janeiro em favor de seus interesses e estéticas, similar a cidades francesas e inglesas. Entre projetos de urbanização de engenheiros, leis de usos e costumes, e outras documentações, observaremos que as árvores entraram de vez na idealização da paisagem urbana carioca.
As plantas, em seu contexto biológico, parecem exercer uma passividade no espaço urbano. No entanto, de modo a evidenciar sua participação ativa no projeto de uma cidade mais cosmopolita, nos apoiaremos em dois conceitos que darão melhor embasamento a essa história: paisagem e agência vegetal. Embora pareçam contraditórios, são ferramentas epistemológicas que permitem analisar a presença da flora nas mudanças urbanas, como veremos adiante.
Agência e espontaneidade das plantas na paisagem urbana
Em toda a diversidade conceitual sobre o termo “paisagem”, torna-se pertinente considerá-la aqui, primeiramente, como uma representação visual de um dado espaço, dotada de estética e de significados1. Mesmo que no campo da geografia ou da história da arte o debate sobre a paisagem resulte na dúvida se contemplamos a paisagem ou se estamos dentro dela, a dimensão representacional se mantém. Seja na noção idealizada do espaço urbano na mente de um engenheiro que esboça os traços num mapa, ou na materialização de um panorama urbano, consideramos a paisagem como representação (SOUZA, 2018). Embora -reconheçamos a existência de uma miríade de atores não humanos - rios, plantas, animais e outros -, a paisagem será interpretada neste artigo como um instrumento cultural esteticamente processado, uma obra da mente “mediada por elementos históricos, culturais e sociais” (SCHWARCZ, 2009, p. 23). Na maior parte das vezes, as intenções dos artistas são passíveis de serem interpretadas, e de se tomar a paisagem como um documento histórico - não para termos acesso ao real, ou resgatar ambientes pretéritos, mas sim para compreender esses significados que afetam e foram afetados por diferentes contextos históricos (SCHWARCZ, 2009; CORRÊA, 2013; CAPILÉ; FRANÇA; SALES, 2021).
No contexto das concepções humboldtianas de paisagem no início do século XIX, o Rio de Janeiro tornou-se um importante polo científico e artístico para diversos naturalistas e artistas viajantes. Nessa visão, as paisagens luso-brasileiras foram descritas e idealizadas de maneira a fornecer credibilidade para compreender os novos ambientes americanos desconhecidos dos europeus. Portanto, o encontro cultural das artes e das ciências europeias junto aos ambientes naturais da natureza tropical brasileira resultou em distintas pinturas de paisagem que foram incorporadas enquanto retórica de tropicalidade.
A historiadora Lilia Moritz Schwarcz (2009) reforça que as paisagens brasileiras oitocentistas foram “matéria dileta” nos discursos de identidade nacional. E é no centro do interesse das pinturas e gravuras de paisagens do século XIX que a flora tropical brasileira se destacou de maneira estética e efusiva, especialmente as paisagens do Rio de Janeiro, pela sua beleza cênica e importância política enquanto capital imperial. Isso traz um novo sentido ao denominarmos de Plantas da Nação as “espécies vegetais frequentemente retratadas que foram associadas à identidade nacional, participando dos elementos estéticos da consolidação do estado brasileiro” (CAPILÉ, 2022, p. 2). Apesar de a paisagem ser considerada neste artigo como uma atividade simbólica humana, contemplamos em sua materialidade a agência de nossa espécie junto a outras espécies, especialmente as plantas. Vemos, então, uma pluralidade de seres ativos que agem sobre os ambientes urbanos, transformando-os e adaptando-se a eles (HARVEY, 1996). Nessa perspectiva, é possível concebermos diferentes tipos de agências da flora nas cidades. A mais óbvia é a ação rotineira de crescimento, floração, frutificação e outras atividades que, na cidade, estão fortemente associadas à ação humana de plantio, poda, colheita etc. Mesmo assim, é claro que as plantas transcendem esse papel passivo que frequentemente lhes direcionamos. Outra atividade é uma ação transformativa no ambiente em que as plantas habitam. Mais uma vez, não podemos deixar de considerar a atuação conjunta de humanos e outras espécies de animais. Afinal, as plantas coevoluíram sua fixidez nos solos a partir de relações ecológicas com polinizadores e dispersores de sementes (JONES; CLOKE, 2008).
Dessa maneira, os movimentos de crescimento das raízes entre as pedras e muros das cidades são um excelente exemplo para ilustrar a espontaneidade da flora no território urbano: o mato - termo genérico emblemático que explicita o movimento natural de crescimento, floração e reprodução das plantas nos recantos mais urbanizados. Nesse sentido, a sociedade urbana não planeja sua presença, tampouco a vegetação toma decisões de maneira consciente. Mesmo assim, na irregularidade dos pavimentos, ocorria o crescimento de pequenas gramíneas e outros grupos, sendo evitados pela constante varrição, enquanto nas fissuras e ranhuras das paredes e muros distintas espécies disputavam o espaço em busca da luz solar.
A agência vegetal também foi constante e diversificada junto às atividades humanas nos capinzais, bananeirais e plantações de agrião nas várzeas dos rios; nas mangueiras, jaqueiras e tantos outros pomares nos quintais e chácaras; e nas plantas de interesse econômico (café, chá, anil, especiarias e outras) experimentalmente plantadas nos hortos e jardins botânicos. Veremos que, conforme a cidade do Rio de Janeiro se modernizava, materialmente e simbolicamente, a ação vegetal foi dificultada pelas iniciativas municipais de extração das plantas dos rios (limpeza de rios), de impedir o desenvolvimento das sementes nos pavimentos (varrição), e de orientar o crescimento das cercas espinhosas nas calçadas (poda). A constante coibição das agências vegetais por parte da municipalidade, ou o que geralmente é chamado de “serviços municipais”, são relações socioecológicas que se intensificam conforme há mais presença de plantas dentro e nos arredores da cidade.
Por fim, podemos considerar uma última percepção de agência vegetal para este artigo: a de sua existência no mundo material afetar significativamente nosso potencial criativo, cultural e simbólico. As árvores têm a capacidade de estimular respostas afetivas e emocionais dos povos que convivem com elas (RYAN, 2012). São elas que tornam o ambiente urbano habitável, além de mais saudável, prazeroso e estimulante. A viva e indisciplinada presença material das plantas é interpretada em seus próprios ritmos, conectando espacialmente terra e sociedade, e, temporalmente, diferentes momentos políticos e econômicos da cidade (JONES; CLOKE, 2008). Algumas delas possuem um apelo carismático de maior evidência (LORIMER, 2007), conforme podemos observar nas gravuras de paisagem oitocentistas sobre o Rio de Janeiro, onde palmeiras, embaúbas, bananeiras e tantas outras foram alvo de interesse dos artistas viajantes europeus.
Aparentemente, é possível identificar uma contradição entre o conceito de paisagem como um instrumento cultural esteticamente processado e o de agência das plantas. Embora a paisagem, aqui neste trabalho, seja considerada como uma obra da mente humana, temos que reconhecer que essa mente está num corpo que vê, sente, escuta, cheira. Influenciado pela “fenomenologia da percepção” de Merleau-Ponty (1999), Chris Tilley ressalta a carnalidade da experiência pelo indivíduo, que tem “um corpo e um espírito que sempre encontram o mundo a partir de um determinado ponto de vista, em um contexto particular, de um dado momento e em um lugar específico” (TILLEY, 2014, p. 24-25). É no mundo, ambiente, que esse corpo humano percebe e é afetado pela agência das plantas, marcando profundamente o que ele vê e o que ele deseja representar nas pinturas e fotografias. Veremos, nas análises, que o processo de modernização urbano oitocentista foi impulsionado pelo ocultamento de alguns elementos naturais e o evidenciamento de outros. Representações imagéticas que revelaram a presença e ausência de elementos entrelaçados no ambiente urbano que exercem influência direta nas práticas sociais e nas percepções humanas (LEFEBVRE, 2006).
A distribuição das plantas pelo território urbano carioca não se deu de maneira homogênea, sendo possível associar padrões de aglomerados vegetais em conformidade com estéticas específicas de paisagens, como o centro urbano, o subúrbio, o campo e a floresta (CAPILÉ; FRANÇA; SALES; 2021). Ao longo do século XIX, essas quatro paisagens se complexificaram e, posteriormente, no século XX, entraram numa intensa homogeneização estética e modernizadora, onde a flora urbana se tornaria constante. Para este texto sobre uma história ambiental urbana, o enfoque ficará delimitado pelo centro urbano e subúrbios cariocas. Dessa maneira, não abordaremos paisagens cariocas já tradicionalmente tratadas pela historiografia, como o Jardim Botânico (DOMINGUES, 2001; BEDIAGA, 2007; PEIXOTO; GUEDES-BRUNI, 2010; CASAZZA, 2012) e a Floresta da Tijuca (DRUMMOND, 1988; HEYNEMANN, 1995; SALES; GUEDES-BRUNI, 2018).
Os tempos de ausência da flora nos espaços públicos do centro urbano carioca
Até a década de 1860, o centro urbano carioca possuía pouquíssima vegetação nos espaços públicos. No Largo do Paço, atual Praça XV, uma região central e importante da cidade imperial, o local era considerado uma “árida plaga, sem uma fevera de erva”, pelo jornalista francês Charles Ribeyrolles. É crucial buscarmos nos relatos de estrangeiros desacostumados ao clima quente e úmido fontes onde podemos compreender um pouco mais sobre essa paisagem urbana. Enfático e crítico, Ribeyrolles perguntava-se: “onde achar o fresco, a brisa, a sombra, se não há árvores, se não há pórticos nas grandes praças?”2. As descrições do jornalista sobre o espaço urbano versavam de maneira crítica a respeito da disposição das ruas, questões sanitárias, abastecimento de água, do trabalho escravo e outros temas, como a falta de árvores na cidade (SANTOS FILHO, 2009). Sobre as praças no final da década de 1850, Ribeyrolles diz que
Na praça da Constituição (...) vegetam em areia alguns enfezados arbustos, que não recordam muito a terra das palmeiras. E quanto ao Campo d’Aclamação, vasto quadrilátero, onde caberiam dois grandes squares de Londres, é tão nu como o deserto d’África. Porque este ódio das árvores, e este desprezo da folhagem tão risonhas nas quentes paisagens? Ignora-se acaso que as plantações nas cidades são ornamento e dão salubridade?3
A Praça da Constituição, atual Praça Tiradentes, tornou-se um espaço urbano privilegiado com a chegada da família real, em 1808. Neste momento, a forma do antigo Rocio se transformou para atender à demanda de novas residências e edifícios voltados para atender à súbita presença da nova classe social da nobreza lusitana. Entre cafés, clubes e o Real Teatro de São João (1813), a área manteve-se desprovida de vegetação, embora o arquiteto Grandjean de Montigny tenha elaborado o plantio de algumas, em projeto não realizado (GONÇALVES; BRAIDA; COLCHETE FILHO, 2018). Na figura 1, o desenho de Iluchar Desmons representa a Praça da Constituição e a ausência de vegetação, inclusive dos “enfezados arbustos” relatados por Ribeyrolles.
No primeiro plano da figura 1, está o morro de Santo Antônio com alguma vegetação representada em seu sopé. Na parte centro-direita, a Praça da Constituição aparece sem plantas desenhadas. A presença vegetal nesse centro urbano limitava-se aos interiores de algumas residências e igrejas, assim como nos morros e alagados nos arredores da cidade - conforme é possível observar nos morros ao fundo da imagem, com arbustos e árvores desenhados de maneira genérica e algumas palmeiras. Algumas plantas permitem uma aproximação da identificação biológica, como as palmeiras enfileiradas (talvez palmeiras imperiais Roystonea oleraceae) no jardim interno de uma residência no canto inferior esquerdo (acima da cabeça da moça), e nos ciprestes (família Cupressasseae) ao fundo no centro da imagem.
Na figura 2, que junto à anterior completa uma visão de 360º da cidade do Rio de Janeiro, o padrão de distribuição das plantas pela paisagem urbana se mantém, com a vegetação mais evidente nos morros (em primeiro plano e ao fundo, no morro de Santa Teresa). A vista de cima para baixo privilegia a observação da vegetação no território urbano. Mesmo assim, podemos ver nessa paisagem do centro urbano como a proximidade da flora dos morros e o continuum com o subúrbio da Glória, do Catete e de Laranjeiras trazem um padrão com maior presença vegetal. No olhar de um artista viajante, as plantas que mais se destacam são as que possuem melhor representação.
Ainda no centro urbano, o principal agregador de biodiversidade de flora no Rio de Janeiro até a década de 1850 era o Passeio Público. Nas principais cidades do mundo pré-industrial, os parques e passeios públicos eram raros ou inexistentes. Embora fosse visto como um espaço público, assim como em outras cidades, sua utilização era sinônimo de distinção de classe e, no Brasil, de raça (CHOAY, 1999). Aberto ao público em 1783, o parque e suas plantas evocavam aspectos civilizatórios do centro urbano e estiveram amplamente presentes nos relatos de viagem, na literatura, nas gravuras e nas fotografias. O contraste com o deserto urbano de seu entorno era recorrente, assim como o deleite do encontro do mar junto ao terraço do Passeio Público (ARAGÃO; JÚNIOR, 2012). Alfred Martinet, em O Brasil pitoresco, histórico e monumental, de 1847, escreve que ali onde ele “sentava inalando o suave perfume das flores purificado pela aura salutar que se escoa aromatizando-se por meio da vegetação dos trópicos”4 havia um antigo alagado, a Lagoa do Boqueirão da Ajuda, com “deletérios miasmas” que infectavam o ar.
Embora divulgasse seus serviços como retratista, Martinet foi um excelente desenhista e litógrafo de paisagens. Na figura 3, o artista francês representou a rica diversidade vegetal presente no interior do Passeio Público. No relato escrito em O Brasil pitoresco, histórico e monumental, Martinet sente a “sombra refrigerante” das mangueiras, jambeiros, fruta-pão, jenipapo e tantas outras, que, como a grumixama, possuem “fruto saboroso que se destila um suco que refrigera os lábios e a boca mais sequiosa”5. Na imagem a seguir, as distintas espécies vegetais compõem, de maneira majestosa, e talvez até aristocrática, o fundo do cenário de indivíduos da classe mais abastada da sociedade carioca. Pelas cartolas, indumentárias, joias e cachorros, vemos um Passeio Público socialmente apartado, onde o único indivíduo que destoa é o trabalhador negro ao lado esquerdo. Mais uma vez, a presença e a distribuição das plantas refletem um espaço urbano com toda sua complexidade, seus vieses e preconceitos.
O subúrbio carioca como espaço de encontro e confronto entre o rural e o urbano
Conforme entramos nos subúrbios cariocas do século XIX, uma nova disposição da flora tropical se faz presente nas paisagens. Aqui, há duas tendências territoriais que se chocam e trazem um sentido muito particular ao significado do termo subúrbio para a atualidade. A primeira é um movimento centrífugo, do qual as elites que antes moravam no centro urbano passam a ocupar cada vez mais as chácaras e solares nos vales do rio Carioca, em Laranjeiras, do rio Berquó, em Botafogo, e do rio Maracanã, no Alto da Boa Vista. Fugindo do agito social e das questões sanitárias da aglomeração humana, diversas famílias buscaram na proximidade das águas correntes bons ares e temperaturas amenas para viver. Outra tendência é a persistência e expansão dos hábitos e práticas associadas à agricultura e jardinagem das zonas rurais. Em meio a essas transformações do espaço suburbano, observamos uma complexidade vegetal crescente na paisagem suburbana. Dos antigos canaviais, foi possível perceber o aumento da diversidade vegetal nas hortas, pomares e jardins nos arredores do centro urbano. Os missionários norte-americanos Daniel Kidder e James Fletcher, entre tantos outros viajantes, descrevem bastante sobre esses territórios.
Ao passar pela longa estrada do Engenho Velho, que é alinhada com as casas de famílias ricas, cada uma delas rodeada por chácaras e quintais, que brilham com as folhas das mangueiras, laranjeiras e palmeiras, intercaladas com flores de matizes cintilantes, chegamos ao pé da montanha. Aqui existem muitas mansões pitorescas, cada uma com jardins na frente, e geralmente com um grande portal de pedra, onde a família senta-se à noite para assistir aos transeuntes6.
O crescimento populacional e o aumento da circulação de pessoas resultaram em novas regras para o uso das estradas e caminhos em direção aos subúrbios. A partir da legislação municipal do Rio de Janeiro, podemos compreender mais sobre as relações socioecológicas da municipalidade e as plantas urbanas. Na Seção Segunda, Título V sobre estradas, caminhos, plantações de árvores e extinção de formigas do Código de Posturas, observamos a presença de leis de proibição do corte de árvores nos subúrbios, de ordenação das cercas de espinhos que deveriam ser viradas para dentro das chácaras para não incomodar os transeuntes, ou até mesmo o incentivo financeiro de 10 mil réis para o plantio de espécies como figueiras (Ficus sp.), fruta-pão (Artocarpus incisa) e anda-açú (Joannesia sp.) (MORAES FILHO, 1894). A elaboração desses dispositivos legislativos na ordenação das plantas no subúrbio era parte integrante de um projeto modernizador e centralizador do governo imperial, do qual ficam mais explícitas as intenções de um controle da sociedade e da natureza urbana pela Câmara Municipal.
Ao longo do século XIX, as espécies vegetais que permaneciam ou passavam a ocupar os centros urbanos tornaram-se mais domesticadas, sob condições controladas, como nos parques, nas praças, na arborização, nas espécies companheiras. No que diz respeito à natureza urbana, ao compararmos plantas e animais, houve uma tendência distinta. Se, por um lado, cada vez mais variedades de plantas eram incorporadas como uma natureza desejada dentro da cidade, por outro lado, a grande maioria dos animais foi alvo de novas regras embasadas nas teorias higienistas e sanitaristas, no que Peter Atkins (2012) chamou de a “Grande Separação” (Great Separation): um momento do desenvolvimento urbano em que os planejadores urbanos buscaram ao máximo separar a natureza da sociedade. Do ponto de vista animal, é pertinente perceber que, no século XIX, houve um aumento populacional de animais não humanos dentro do território urbano, como as vacas que circulavam para ter seu leite extraído para venda; os cavalos e burros que carregavam pessoas e materiais; os porcos que rondavam soltos em busca de comida; e os ratos, baratas e moscas que viviam em vários ambientes (ATKINS, 2012). Ou seja, na noção higienista, a presença desses animais era totalmente indesejada, o que resultou em novas regras que excluíam a presença deles nos centros urbanos. Enquanto as plantas domesticadas passaram a ser vistas como parte do processo modernizador urbano, desde que estivessem em ambientes controlados.
No vale das Laranjeiras, onde passa o rio Carioca, as fitopaisagens suburbanas também se organizavam em pomares, hortas e jardins. A botânica inglesa Maria Graham, que também desenhava paisagens cariocas, veio à cidade na década de 1820 e ficou atenta às plantas nos interiores de chácaras ou no próprio Jardim Botânico, mas também a muitos espaços urbanos. Segundo Graham, “sebes de acácias e mimosas cercam os jardins, cheios de bananeiras, laranjeiras e outras frutas, que cercam cada vila”, e dentro de cada casa, os jardins de trepadeiras e arbustos são “entremeados com flores de laranja e limão, o jasmim e a rosa do oriente”7. Na figura 4, vemos a rua das Laranjeiras em direção à praia do Flamengo. Do lado direito da via, uma linha de bananeiras, junto a canteiros de hortas, compõe a paisagem de uma lavoura suburbana oitocentista. Nas chácaras e quintais das casas mais suntuosas, diferentes espécies arbóreas compartilham o espaço numa estética paisagística mais elaborada (MARTINS, 2001). Os lavradores reconhecidos pelo censo de 1872 nos subúrbios das paróquias da Glória, Engenho Velho, São Cristóvão e Lagoa foram 228 indivíduos. Destes, 66 eram escravizados, e os restantes eram homens e mulheres livres. Certamente, o cenário agrícola suburbano decorreu do trabalho braçal dessas pessoas, somado ao dos equinos e bovinos, para transformar a paisagem local. Esse número, no entanto, torna-se ínfimo ao ser comparado com o total de 17 mil lavradores na zona rural do Município Neutro8.
As imagens do Rio de Janeiro são representações culturais conectadas às relações de poder da sociedade carioca oitocentista. A chegada de uma estética de desenhos e pinturas de paisagem na Corte Imperial brasileira reforçou toda uma conjuntura de hegemonia cultural de um grupo dominante local (COSGROVE, 1998; TOGASHI, 2009). Ou seja, observamos que a transformação dessa paisagem reforçou toda uma lógica de espacialidade e dominação territorial pelas elites cariocas na cidade do Rio de Janeiro. Repensando o conceito de paisagem urbana e ampliando o debate para o campo da cultura, Bonametti (2017, p. 263) afirma que esta deve ser pensada através de “uma composição espacial sujeita a valores e princípios filosóficos inerentes à sociedade à qual pertence”.
A consolidação do poder burguês junto aos ideais republicanos no final do século XIX vai reforçar toda essa lógica espacial, da qual as plantas tiveram um papel simbólico e material presente e constante na cidade. Nessa temporalidade, o processo civilizador transformou os costumes e os usos do espaço público urbano, por meio de leis que proibiram as lavouras suburbanas, projetos que incorporaram as plantas nos planejamentos urbanos e outros dispositivos municipais e federais. A diversidade de comportamentos e apropriações do espaço urbano foi tolhida em nome da modernidade. Um exemplo disso foi o Campo de Santana, anteriormente chamado de Campo da Aclamação. No início do século, com a chegada da família real e a mentalidade iluminista e fisiocrata, a região era um rocio arenoso com alguns cajueiros, um resquício da flora de restinga e da continuidade suburbana. O primeiro projeto de ordenamento das plantas se deu pelo Intendente Geral, Paulo Fernandes Vianna, em 1815, com o plantio de amoreiras e outras espécies de interesse econômico. Desafortunadamente, o jardim foi descontinuado por decisão de Dom Pedro I no ano da volta de seu pai a Portugal, em 1821. As décadas seguintes tiveram um convívio conflituoso entre o abandono e o depósito de lixo, e projetos pontuais de replantio e arborização, sem sucesso (BELÉM, 1980).
Essa breve história mostra o quanto o espaço público é um território em disputa. Por um lado, a sociedade clama por embelezamento urbano, e é dificilmente atendida pelo baixo valor da área, em comparação a outras mais centrais. Por outro lado, o poder público municipal atuava no sentido de um ordenamento e da preservação das poucas árvores que conseguiam se manter, mesmo que momentaneamente. Por exemplo, em abril de 1866, as lavadeiras do Campo de Santana foram proibidas de pendurar as roupas para secar nas poucas árvores presentes (MORAES FILHO, 1894). Na década seguinte, Auguste Glaziou iniciou uma grande remodelação paisagística nessa praça, que ficava junto à estação ferroviária da Estrada de Ferro Pedro II. Nessas e tantas outras histórias, as plantas e as sociedades se encontram de maneira material e simbólica. Aprofundaremos um pouco mais sobre este segundo sentido, mais cultural, mais imaterial, através das fotografias da cidade do Rio de Janeiro. O final do século XIX marcou uma série de transformações sociais, políticas e culturais, e iremos abordar nas próximas seções como se deu a iconização da flora na paisagem urbana.
Flora na paisagem urbana através das fotos
Sobre o uso de fotografias na história, precisamos compreender as dinâmicas de construção de significado como processos sociais e históricos, a partir da contextualização do objeto pictórico e da caracterização das transformações da visualidade. Não mais objetos pontuais, as gravuras anteriores e as fotografias a seguir estão inseridas em sistemas de representações e significados que afetam e são afetados pelas relações sociais e históricas (KNAUSS, 2006). Embora no início da tecnologia fotográfica, no século XIX, a fotografia tenha sido imaginada como um retrato do real, para Ana Maria Maud (1996, p. 79), o historiador deve interpretá-la “como resultado de um trabalho social de produção de sentido, pautado sobre códigos convencionalizados culturalmente”.
Mais do que registros ou testemunhas da história, as fotografias constituem história. Essas imagens permitem contemplar um pedaço da paisagem congelada no tempo e no espaço. Elas são delineadas pelas dinâmicas históricas, sociais e culturais de sua produção, possibilitando interpretar do passado as intenções, visões de mundo, utopias, crenças e hierarquias. Assim, o historiador olha para a fotografia junto às informações contíguas à cena e aos contextos históricos do espaço geográfico e da época e, dessa maneira, consegue desenvolver uma análise que permita compreender uma configuração maior do território urbano (POSSAMAI, 2008).
A cidade moderna era a cidade fotografada; desde os primórdios da fotografia, a cidade foi um objeto privilegiado. O apelo visual da cultura fotográfica alimentou o imaginário de progresso e civilização urbanos. Inicialmente, tal predileção pelas paisagens urbanas veio das limitações técnicas da fotografia. A necessidade de longos tempos de exposição para o registro fazia com que o movimento dos transeuntes, carroças, e outros elementos móveis da cidade se tornasse vultos translúcidos. Daí a diligência dos primeiros fotógrafos em buscar paisagens imóveis de ruas, prédios e suas árvores (SOUZA; SALGADO, 2020). Mesmo que a flora tenha sido amplamente despercebida na memória e na história da paisagem urbana, percebemos com facilidade que as árvores são mais do que elementos recorrentes: elas são componentes fundamentais no discurso de uma cidade moderna, sendo a fotografia um “fruto dos novos anseios surgidos com a sociedade moderna” (MUAZE, 2007, p. 174).
A questão da facilidade reprodutiva da fotografia permite inseri-la com maior facilidade na comercialização das coisas dentro da lógica de mercado. Seu preço facilitava o acesso de um número significativamente maior de pessoas do que o acesso às litografias das gravuras de paisagem - e infinitamente maior do que o das pinturas a óleo. O circuito social da fotografia evoluiu de um modo de distinção de classe, com os retratos das famílias mais abastadas e das paisagens dos 32 fotógrafos da Casa Imperial, para um suporte de fácil impressão nas revistas e jornais durante os tempos republicanos. No Império, a fotografia das paisagens urbanas dialogava com a estética e a arte romântica das gravuras e pinturas de paisagem. E, junto a esses suportes, compartilhava os espaços de retórica da modernidade, como nas exposições universais. Assim, a fotografia colaborou na edificação da imagem nacional, seja pela retórica do discurso civilizatório das inovações tecnológicas, como as ferrovias e as obras urbanas, seja pela estética da tropicalidade da biodiversidade da fauna e flora brasileiras - ou pelos dois, iconizados nas paisagens urbanas em que árvores carismáticas são enquadradas junto a grandes obras públicas. As primeiras décadas do século XX marcaram uma transição no modo de narrar as paisagens urbanas pela fotografia. A retórica de nacionalidade, civilização e tropicalidade vai coexistir com a de modernidade e progresso. Assim, cada vez mais as agências de Estado e da imprensa vão investir na produção imagética da urbanidade carioca a partir das fotografias de paisagem (MUAZE, 2007; LOPES; MUAZE; MAUAD, 2017).
Nesse sentido, tomaremos como exemplo a palmeira imperial (Roystonea oleraceae). Originária das Antilhas, as primeiras sementes dessa espécie chegaram ao Rio de Janeiro em 1809 pelo oficial da Marinha Luiz de Abreu Vieira e Silva, que as contrabandeou do jardim botânico francês Pamplemousse, localizado nas Ilhas Maurício. Elas foram plantadas no Jardim Botânico do Rio de Janeiro e utilizadas nas vias do parque simbolicamente como colunas. A fisionomia e seu porte, com alturas que ultrapassam facilmente mais de 30 m, reforçavam a estética neoclássica da segunda metade do século XIX e mararam sua iconização na paisagem urbana carioca enquanto plantas de espaços da elite aristocrática e política (DEAN, 1991; D’ELBOUX, 2006).
Na figura 5, vemos as colunas majestosas dessas palmeiras na entrada do Palácio Guanabara, antigo Paço Isabel. O enquadramento centralizado da entrada do Palácio, com os estipes lisos e cilíndricos, atribui o tom aristocrático da antiga residência da Princesa Isabel. As palmeiras imperiais marcaram inicialmente as paisagens urbanas dos palacetes da aristocracia brasileira, simbolizando o poder social monárquico. Na figura 6, a estética da flora com neoclassicismo se deu por meio da harmonia dos troncos da palma se mesclando com as colunas da Igreja Nossa Senhora da Glória, no Largo do Machado.
Ambas as fotos são da segunda década do século XX, realizadas pelo fotógrafo oficial da administração pública municipal da capital federal: Augusto Malta. Nas três décadas (1903-1936) que se manteve no cargo de registrar as transformações urbanas no Rio de Janeiro, Malta realizou mais de 30 mil fotografias. Mais do que catalogar em imagens, sua prática fotográfica deu significado à paisagem urbana, fortalecendo, assim, a retórica de modernidade. Em sua prática discursiva, que mesclava o civilizatório e a amálgama cultural da sociedade do Rio de Janeiro, o fotógrafo construiu simbolicamente a imagem da cidade de maneira simultânea à transformação material das grandes obras (GRALHA, 2009; MAUAD, 2013).
A nobreza e grandiosidade da palmeira imperial supera a temporalidade do Império brasileiro e entra em tempos republicanos. Antes circunscrita às paisagens aristocráticas, como o Jardim Botânico e palacetes, ela vai adentrando as cenas urbanas dos edifícios públicos e dos pontos turísticos. Vemos a presença dela na praia do Botafogo e em outras áreas da atual Zona Sul, com especial destaque na Avenida do Mangue, ampliada com as reformas modernizadoras do início do século XX. Na figura 7, que ilustrou o suplemento da revista A Illustração Brazileira, de 1911, observa-se a retórica de transformar a antiga região miasmática e fétida do manguezal de São Diogo - deteriorado, poluído e transformado - em um verdadeiro circuito de passeio para cariocas e turistas. Antes da expansão viária e dos viadutos que vão modificar a estética da região a partir da década de 1940, o Canal do Mangue foi ofertado como “ponto pitoresco” em jornais e cartões-postais. A estética da aléia de palmeiras se destaca no canal e nas ruas ao lado direito. Em primeiro plano, novas fileiras de mudas ensejam a continuidade da paisagem urbana mobilizada pelas árvores.
A transformação da paisagem urbana da Cidade Nova e do Canal do Mangue se deu com obstáculos físicos das lamas, rios e marés locais, além das dificuldades sanitárias da noção médica contemporânea de conceber áreas alagadas como focos de doenças. A região foi promovida como uma zona industrial com residências proletárias, e as árvores tiveram seu papel civilizador na paisagem. A construção dessa estética fez parte de um longo anseio de modernização da cidade do Rio de Janeiro que se deu desde a década de 1870 e se consolidou com as reformas urbanas de 1903. Nessa modificação do território urbano, as plantas exerciam sua agência, por vezes dotando o cenário de beleza, e em outras, sendo obstáculos no caminho do progresso.
Modernização da paisagem urbana e o controle social da flora pelo Estado
A natureza urbana é indissociável da sociedade urbana. Essa afirmação não se limita somente à presença de outras espécies (ratos, baratas, urubus, cachorros...) no território urbano, tampouco à materialidade da continuidade dos corpos humanos na entrada de água e comida, e na produção de esgoto. A natureza está presente nos discursos humanos, inclusive na retórica urbana (SWYNGEDOUW, 2001). No século XIX, momento histórico da consolidação das cidades burguesas industriais, as árvores começaram a ser pensadas para as ruas e as calçadas, e não somente para jardins e praças. O novo modelo de inchaço urbano, com maiores aglomerações populacionais, foi acompanhado de uma série de epidemias associadas à água, como cólera, febre amarela, malária e outras. A partir das teses neohipocráticas da Medicina Social, em conceber a necessidade de plantas para a renovação e purificação dos ares, a administração pública municipal de diversas cidades apostou nas árvores9. Mais do que um uso pragmático, a presença da flora entrou no repertório imagético civilizacional das grandes cidades (CORBIN, 1987; SEDREZ; DUARTE, 2019).
A construção de um imaginário de cidade com sua natureza urbana domesticada, menos animais indesejados e mais plantas domesticadas, foi crucial para o processo de idealização desse viés de modernização. As paisagens de arborização ordenada foram traduzidas como fetiches do capitalismo e como desejos de felicidade, revelando uma aversão ao desordenado, ao colonial ou à natureza sem controle (BENJAMIN, 1999). É interessante dialogar aqui com a conceituação sobre as cidades de Maria Stella Bresciani (1992, p. 13), na qual ela aponta uma questão técnica. Não se trata apenas de uma linguagem apoiada no reducionismo científico e burocrático dos relatórios e ofícios, mas, especialmente, de uma nova comunicação visual sobre o que deveria ser essa nova cidade, com arborização, praças e parques.
Na Europa, a invenção de espaços verdes na cidade não era novidade oitocentista, pois distintos parques e jardins já existiam, distribuídos pelos territórios urbanos. Em sua maioria, eram espaços de distinção de classe, com a supressão da presença de proletários, pobres e escravos de maneira coercitiva ou simbólica. Consequência direta da Revolução Industrial e do proletariado migrado das zonas rurais mais verdes, a arborização urbana passa a marcar sua presença pela higiene “material”, decorrente das já citadas noções médicas que repensaram a cidades oitocentistas, e “imaterial”, relacionada à moralização dos comportamentos e costumes. Nos parques londrinos, a simulação da estética rural dos jardins em paisagens pitorescas dentro da cidade se torna um convite para uma imersão do corpo humano no espaço verde. Os parques parisienses, por sua vez, terão uma distribuição mais homogênea pelo território, num sistema de espaços verdes com jardins abertos, parques fechados por grades, etc. Nas ruas e calçadas de ambas as cidades, as árvores passaram a compor a estética urbana das largas ruas abertas, junto a outros mobiliários como pequenas cercas, coretos, quiosques e postes de luz. A paisagem urbana se torna mais convidativa para o passeio, o flanar, o encontro e o desencontro das pessoas. Nos bastidores da administração municipal, uma série de inovações foi incorporada na materialidade da cidade, como novas funções profissionais - como, por exemplo, o arborizador urbano, o jardineiro ou o paisagista - e de materiais - como o ferro fundido das cercas e proteções das árvores (CHOAY, 1999; RICARD, 2005).
Na cidade do Rio de Janeiro, a chegada das plantas para os espaços públicos da cidade inicia-se com o Passeio Público e com as distintas propostas de arborização no Campo de Santana. Essas e outras áreas foram alvo de diversas disputas e interesses das elites municipais. Fora dos jardins e parques, a consolidação das políticas públicas para o plantio e manejo de árvores nas ruas e calçadas ocorreu com o reconhecimento do trabalho de Auguste Glaziou. O paisagista e botânico francês foi reconhecido pelo seu trabalho na remodelação de parques, como o Passeio Público, o Campo de Santana, a Quinta da Boa Vista e outros espaços verdes (TERRA, 1993; SANTOS; ROCHA; BERGALHO, 2010). Na arborização urbana, ele planejou um grande boulevard do cais da praia dos Mineiros, nas proximidades da Igreja da Candelária, até o Andaraí. Nesse projeto de 1874, não realizado, Glaziou traça uma avenida arborizada com 50 m de largura e quase 10 km de comprimento. Na figura 8, vemos um trecho desse extenso mapa (1,50 m x 0,45 m), com as duas fileiras duplas de árvores vistas de cima (mapa) e em perfil (abaixo).
O projeto de Glaziou somava forças com outros interesses da época em expandir e urbanizar para o oeste da cidade, em direção aos subúrbios do Engenho Velho, Andarahy Grande e ao recém-criado bairro de Vila Isabel. O projeto contemplava a abertura de novas ruas arborizadas e um complexo universitário composto por prédios diversos, um jardim zoológico e um jardim botânico no Andarahy. Essa orientação para o oeste, e não para os subúrbios das praias litorâneas, foi defendida pelos engenheiros da Comissão de Melhoramentos da Cidade do Rio de Janeiro e gerou controvérsias e críticas. Entre os engenheiros propositores participantes da comissão estava Francisco Pereira Passos, que, décadas depois, chefiou parte das reformas urbanas de 1903 (AZEVEDO, 2003).
A disputa pelo ordenamento territorial da cidade do Rio de Janeiro não se deu somente no debate entre engenheiros e no sentido do crescimento urbano. A própria agência da flora urbana competia pelos espaços urbanos, tornando-se um incômodo constante nos projetos idealizados. Do lado humano desse embate, a querela desenvolvia-se de forma física, nos serviços municipais de varrição, poda e outros; e simbólica, pela elaboração icônica de discursos, como os mapas dos engenheiros, que apagavam resquícios de vegetação dos manguezais e outras áreas alagadas para reforçar o sentido de um espaço vazio, pronto a ser civilizado. Do lado vegetal, a resistência se dava de maneira incessante, pelo brotar das sementes de gramíneas nas rachaduras dos pavimentos, pelo crescimento de figueiras pelas antigas paredes e pela persistência da ruralidade das plantas agrícolas anos depois de sua proibição. Esse controle socionatural vai ser norteado pelos argumentos médicos da Junta Central de Higiene Pública e pela retórica de modernização e civilidade. José Pereira Rego, o Barão do Lavradio e presidente da Junta, ordenou a criação da Comissão Geral de Salubridade em fevereiro de 1875. Dessa maneira, a agência das plantas foi coibida de maneira crescente, conforme a diversidade e quantidade de plantas nas lavouras suburbanas derivaram para questões sanitárias ou sociais. Isso foi percebido pelo fim do uso das várzeas para o plantio de capinzais para alimentação dos cavalos e burros e pela proibição e destruição das lavouras de agrião e bananeiras nas valas anexas aos cursos fluviais. Além da coerção estatal, a própria dinâmica de uma cidade burguesa capitalista inviabilizou a continuidade de chácaras e quintais em meio à especulação imobiliária e à construção massiva em todo metro quadrado urbano. As únicas plantas permitidas seriam a de viés estético e civilizador dos parques, jardins e calçadas da cidade.
O processo de modernização da cidade do Rio de Janeiro terá seu momento mais icônico e reconhecido nas reformas urbanas de 1903. A proposta de um sistema urbano integrado tinha o porto e as grandes vias como a base material para se conceber uma cidade civilizada. As vias, por sua vez, funcionavam como grandes artérias, efetivando assim uma boa circulação nos antigos capilares entupidos. A construção dessas vias deu-se ao custo da demolição de muitos edifícios e à perda de moradias. Com o espaço ampliado para a circulação de gentes e coisas, essas avenidas foram amplamente plantadas com árvores (BENCHIMOL, 1992; AZEVEDO, 2003).
A Avenida Central, hoje Avenida Rio Branco, foi inaugurada com seus 1.800 m em novembro de 1905. O espaço aberto constituía-se de 33 m de largura para a via, além de 2 m no canteiro central e 7 m nas calçadas. A iluminação foi um grande investimento para o projeto modernizador, com 55 postes com três focos de luz nos canteiros centrais e 104 postes com cinco focos de luz nas calçadas. Nessa área urbana ampliada com a demolição de mais de 640 edifícios, centenas de árvores foram plantadas para atuar na paisagem urbana carioca com sombreamento, circulação dos ares e, especialmente, na retórica civilizadora das plantas domesticadas no coração da capital (RABHA, 2006; BARROS, 2008).
Na figura 9, a fotografia da Avenida Central de 1908, tirada do alto para baixo, mostra o alinhamento das árvores já plantadas em 1905. Embora a via tenha sido inaugurada anos antes, o processo de elaboração de sua paisagem ainda demorou alguns anos, pois muitas edificações ainda estavam sendo construídas. Nota-se isso nos quarteirões ainda em construção do lado esquerdo da avenida. O início da arborização da via figura entre os postes de iluminação nos canteiros centrais e nas calçadas.
Não há um consenso sobre quais foram as árvores utilizadas, e as fotos não permitem um reconhecimento taxonômico efetivo. Beatriz Kushnir e Sandra Horta afirmam que foram plantados 53 paus-brasil (Paubrasilia echinata) nos canteiros centrais e 358 jambeiros (Syzygium spp.) nas calçadas ao longo da avenida (KUSHNIR; HORTA, 2007). Já Ferreira da Rosa (1977) menciona o plantio de 53 jacarandás (Machaerium sp.) e 333 alfeneiros ou ligustros (Ligustrum japonicum). Na figura 10, a mirada tomada debaixo reforça a noção civilizatória com o alinhamento das calçadas e dos prédios num ponto de fuga ao final dela. Nota-se que, além das espécies arbóreas, uma pequena vegetação similar a uma palmeira foi plantada nos canteiros centrais. Repare também que o agito das carroças, dos trabalhadores e transeuntes é, nesse início do século XX, registrado fotograficamente na paisagem urbana. Essa mudança na estética só foi possível devido a questões técnicas que permitiram captar as imagens de maneira mais rápida e, consequentemente, com menos vultos dos movimentos.
Conforme a Avenida Central estabelece uma imagem civilizatória com o término de seus principais edifícios, torna-se mais claro que esses processos de intervenção estiveram associados à expressão de um ideal de poder. Antes uma realidade de decadência associada ao passado colonial de ruas apertadas, cortiços e edifícios inapropriados à retórica civilizacional de progresso, o centro da cidade do Rio de Janeiro vai simular uma vida exuberante cada vez mais orientada para o consumo. Dessa maneira, os planejamentos urbanos vieram como uma força das elites urbanas para preparar uma nova visão de cidade ordenada, redesenhando a antiga e complexa rede de relações materiais e simbólicas entre humanos e não humanos na cidade. O poder dessa retórica urbana será percebido em muitos elementos. Na figura 11, fotografia da agora Avenida Rio Branco de 1922, uma série desses signos do ordenamento urbano se faz presente. Em primeiro plano está o guarda junto a um poste para sinalização dos veículos automotores. O destaque para o indivíduo uniformizado é uma identificação da lei e da ordem no território urbano. Mais ao fundo, do lado esquerdo, o bonde figura como elemento que conecta o principal componente do funcionamento da área central: o trabalhador e seu transporte. Nessa continuidade da avenida, as árvores alinhadas começam a sair da ordenação de sua poda anual, invadindo aos poucos o espaço da avenida com seus galhos e folhas. Fato notório é que elas são podadas anualmente, caso contrário dificultaria a conexão dos bondes elétricos à fiação ao alto. O guarda, o bonde e a árvore simbolizam uma nova domesticação das naturezas urbanas nesta paisagem:
A entrada para o novo século nacional foi figurativa, e as árvores estavam presentes no discurso de uma nova cidade. O tradicional era redefinido na modernização do centro da cidade, enquanto o antigo era apagado, como foi o caso do Morro do Castelo demolido em 1922. As dinâmicas sociais de uso do território urbano deram novas imagens para as paisagens urbanas. Um exemplo disso é o processo sutil do Rio de Janeiro tornando-se uma cidade balneário. Mesmo que localmente as práticas e costumes de uso do mar para banho e lazer remontem ao século XIX, é somente no século XX que elas se consolidam enquanto cultura carioca (GASPAR; CORRÊA, 2004). Na paisagem urbana que se desenhava, mais uma vez as árvores ali estavam a participar com suas sombras e sua estética. Na figura 12, a praia de Botafogo, em 1922, aparece sem a faixa de areia, e na calçada à esquerda a arborização já desponta com grande sucesso. Essa calçada, que antes era praia, foi aterrada a bons metros em direção ao mar para a via de comunicação com o centro da cidade. Deve-se ter reparado que a imagem é um valete de espadas, carta presente no baralho comemorativo do centenário nacional o Souvenir do Centenário da Independência do Brasil. Nas outras dezenas de cartas, diferentes fotografias apresentam paisagens urbanas do Rio de Janeiro, sem mais poder deixar de representar a flora urbana.
Praia de Botafogo, Valete de espadas em baralho de comemoração do centenário da Independência, 1922
É dessa época do primeiro centenário que a alcunha carioca marcou sua história como “Cidade Maravilhosa”, vislumbrada por Coelho Netto. A riqueza e variedade de vários lugares simbólicos que ora reafirmavam a beleza dos suntuosos edifícios e ora as particularidades geológicas e biológicas fortaleceram a construção desse maravilhamento. Após pouco mais de um século com dezenas de artistas e fotógrafos catalogando, dando significado e produzindo as paisagens urbanas cariocas, o acervo tornou-se monumental e mobilizou a visita de milhares de turistas estrangeiros. Amanda Costa (2015, p. 187) afirma que a imagem turística de um lugar é “uma construção subjetiva que coloca em diálogo os imaginários do lugar a ser visitado e dos seus visitantes”.
A partir da década de 1930, com a expansão territorial urbana para os bairros das praias atlânticas na Zona Sul da cidade, a imagem da cidade dentro e fora do país desassocia-se dos centros urbanos e volta-se novamente para o mar. Antes, os valores burgueses estavam voltados aos hábitos noturnos, bem como boêmios, dos cafés, teatros e cabarés. Com o início dessa transição cultural, novos hábitos diurnos, e até de novos padrões de vida voltados para a saúde e o esporte, foram relacionando-se uma vez mais com o mar. Mais uma vez, as árvores urbanas irão participar dessa história, dando valor e significado às novas paisagens urbanas dos calçadões e faixas de areia (COSTA, 2015).
Considerações finais
Enquanto espaço público, as ruas do centro da capital imperial mantiveram-se com pouquíssimas árvores. Esse cenário se deu especialmente devido a menos investimentos na arborização, pois havia menos dinheiro para obras públicas; às tendências culturais que foram desenvolvidas e incorporadas gradualmente ao longo do Império; assim como à disputa racial pelo espaço urbano pelos trabalhadores negros, onde, nos tempos coloniais, a elite imperial pouco circulava fora das ruas apertadas do antigo centro. Nesse momento, as plantas estavam presentes nos arredores da cidade.
Com o aumento do poder político da burguesia, esta impôs uma nova visão de cidade. Isso se deu especialmente pela articulação das ideias de médicos e engenheiros que agora tinham disciplinas especializadas para refletir sobre o espaço urbano: a medicina social e a engenharia civil. Numa visão de controle da natureza urbana, essas duas classes desenvolveram conceitos e noções que fomentaram toda uma estética e retórica sanitária que transformou a cidade. A flora urbana foi idealizada e controlada para atuar de maneira conjunta aos ideais de modernização e civilização. Dessa maneira, antigas práticas rurais foram perseguidas e extintas, enquanto novas práticas paisagísticas de arborização foram incentivadas e executadas. Assim, algumas espécies vegetais e suas práticas agrícolas foram indesejadas, enquanto outras espécies foram almejadas para a modernização. Nesse cenário, vemos que o discurso de controle da natureza urbana tornou-se a base das políticas públicas, seja pelas plantas, pelos rios, ou pelos corpos das pessoas.
Por fim, observamos que a vegetação, especialmente a tropical, foi um elemento presente na retórica de ordenamento da flora urbana da capital tropical como parte integrante das novas paisagens urbanas. Dessa maneira, a análise e uso de fotografias se demonstraram uma rica ferramenta para compreender como a técnica colaborou na construção de uma imagem nacional. Isso se deu tanto pela retórica do discurso civilizatório e das inovações tecnológicas urbanas (ferrovias, obras, iluminação pública) quanto pela estética da tropicalidade brasileira. Em todos esses casos, as paisagens urbanas fotografadas enquadraram as árvores, as quais, de maneira silenciosa e silenciada, fizeram parte ativa e passiva de nossa própria história. Hoje, mesmo sem termos uma noção consciente disso, dificilmente poderíamos conceber algum tipo de ordem e progresso, ou de civilização e modernidade, sem a presença das plantas no espaço urbano.
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1
Por ser uma pesquisa com base em fontes visuais, para o presente texto serão desconsiderados outros sentidos como olfato, audição, etc. Eliminando, desta forma, as paisagens olfativas, auditivas, etc.
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2
RIBEYROLLES, Charles. Brasil pitoresco: história, descrições, viagens, instituições, colonização. Rio de Janeiro: Typ. Nacional, 1859. t. 2, p. 45.
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3
Ibidem, p. 45-46.
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4
MARTINET, Alfred. O Brasil pittoresco, histórico e monumental. Rio de Janeiro: Typ. Universal de Laemmert, 1847. p. 18. Disponível em: http://objdigital.bn.br/acervo_digital/div_iconografia/icon211917/icon211917.pdf. Acesso em: 4 jan. 2022.
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5
Ibidem, p. 19.
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6
Trad. livre do autor: “Passing through the long street of Engenho Velho, which is lined with the residences of wealthy families, each surrounded with its chacara or grounds, that glow with the fadeless verdure of mangeiras, orange-groves, and palms, interspersed with flowers of the brightest hues, we reach the foot of the mountain. Here are many picturesque villas, each having piazzas in front, and often approached by a large stone gateway, where, in the evening, the family sit to amuse their listless hours by watching the passers-by”. KIDDER, Daniel Parish; FLETCHER, James Cooley. Brazil and the Brazilians: Historical and Descriptive Sketches. Philadelphia: Childs & Peterson, 1857. p. 204.
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7
GRAHAM, Maria. Diário de uma viagem ao Brasil e de uma estada nesse país: durante parte dos anos de 1821, 1822 e 1823 [1854]. São Paulo: Brasiliana, 1956. v. 8.
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8
BRASIL. Directoria Geral de Estatística. Recenseamento Geral da população do Império do Brasil a que se procedeu no dia primeiro de agosto de 1872. Rio de Janeiro: Directoria Geral de Estatística, 1873.
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9
Este fato ocorreu com controvérsia, pois também associavam as plantas, assim como a água, como produtora de miasmas, os gases fétidos geradores de doenças (CHALHOUB, 2018).
Agradecimentos
Esta pesquisa foi feita no contexto do Programa Nacional de Apoio à Pesquisa da Fundação Biblioteca Nacional (PNAP/FBN 2020).
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Editores responsáveis:
José Augusto Pádua e Silvia Liebel













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Fonte: DESMONS, Iluchar; TIRPENNE, Jean-Louis. Panorama da cidade do Rio de Janeiro: tomada do morro de St. Antonio a voo de pássaro, 1854. Litografia. Disponível em:
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Fonte: MALTA, Augusto. Photographias D. Federal, 1911-1920. Fotografia. Disponível em:
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Fonte: CARNEIRO, Francisco. Praia de Botafogo Rio. Valete de espadas do Souvenir do Centenário da Independência do Brasil, 1922. Disponível em: