Accessibility / Report Error

Representar o Antropoceno

Representing the Anthropocene

Representar el Antropoceno

James, Erin. Narrative in the Anthropocene. Columbus: The Ohio State University Press, 2022. 234

Desde o advento do ambientalismo como tema de interesse acadêmico, nos anos 1970, as disciplinas literárias vêm sendo influenciadas pela necessidade de repensar seus conceitos e temas à luz do pensamento ecológico. Com a consolidação do Antropoceno e da emergência climática como horizonte socioambiental, a necessidade de incorporar essas questões passou a ser sentida de maneira ainda mais aguda. No entanto, enquanto a história ambiental e a antropologia se tornaram essenciais para os debates do Antropoceno, na medida em que centram as relações mesmas entre natureza, sociedade, e cultura, os estudos literários encontram dificuldade em serem ouvidos no debate ambiental mais amplo, dado o escopo mais limitado de seus objetos. Para contrabalançar essa dificuldade, a ecocrítica e as humanidades ambientais, campos importantes na academia anglófona, apostaram no poder da representação de reproduzir, mas também de transformar ideias sobre a natureza e o humano. A síntese dessa posição pode ser encontrada na introdução de Ken Hiltner à coletânea de textos ecocríticos organizada por ele, onde propõe a pergunta “Como a literatura e seu estudo podem ajudar a salvar o planeta?” como mote da disciplina (HILTNER, 2015HILTNER, Ken. Ecocriticism: The Essential Reader. Londres: Routledge, 2015., p. xii). Por outro lado, um movimento mais recente, informado pela tradição crítica, vê com cautela o que considera uma avaliação exagerada dos efeitos potenciais da literatura e de seu estudo. Imre Szeman e Jennifer Wenzel sugerem um “entendimento mais rigoroso e circunspecto do trabalho que nosso trabalho pode realizar no mundo” como contraponto necessário à defasagem de meios e fins de posições como a de Hiltner (SZEMAN; WENZEL, 2021SZEMAN, Imre; WENZEL, Jennifer. What Do We Talk About When We Talk About Extractivism? Textual Practice, v. 35, n. 3, p. 505-523, 2021., p. 506).

O livro de Erin James, Narrative in the Anthropocene, se coloca de modo qualificado no campo de Hiltner. Para a autora, narrativas são essenciais para tornar o Antropoceno, suas causas e consequências, inteligíveis, o que por sua vez se refletiria em transformações nos valores e no comportamento de seus receptores, levando enfim a modos de “vida mais ambientalmente responsáveis” (JAMES, 2022JAMES, Erin. Narrative in the Anthropocene. Columbus: The Ohio State University Press, 2022., p. 18). No entanto, como ela explica na introdução, debates sobre o Antropoceno nos estudos literários e nas humanidades em geral vêm enfatizando ora o caráter irrepresentável do Antropoceno - como evocado pelo conceito de hiperobjeto de Timothy Morton -, ora a incompatibilidade entre formas narrativas modernas e as escalas geológicas - como nas críticas de Amitav Ghosh ao romance burguês-realista. Frente a isso, James sugere a necessidade de repensar as categorias da narrativa, para evidenciar seu potencial de representar adequadamente o Antropoceno. É esse o teor de seu livro, que esboça uma “teoria narrativa para o Antropoceno”. James põe em diálogos nomes importantes das humanidades ambientais, como Ursula Heise e Rob Nixon; teóricos da narrativa, como Gérard Genette e James Phelan; e autores contemporâneos, como Maria Popova e Jeff VanderMeer, para rearticular a maneira como entendemos e falamos sobre narrativas. Em cada capítulo, ela segue o mesmo procedimento: primeiro, introduz um tema relevante para discussões sobre o Antropoceno; em seguida, tensiona as categorias tradicionais da narratologia, evidenciando seus limites para representar os fenômenos envolvidos na nova época geológica; por fim, oferece novas categorias com base em exemplos tirados sobretudo da produção cultural anglófona contemporânea.

O capítulo 1, “Mundos”1 1 Os títulos originais dos capítulos são “Worlds”, “Material”, “Time”, “Space”, “Narration” e “Narrative and Climate Science”. , propõe uma revisão do conceito de narrativa que aproxima essa prática da definição de Antropoceno da autora. James repassa a história da narratologia para mostrar como, a partir do foco inicial na sequência de eventos como definidora da narratividade, a disciplina foi incorporando em seu escopo outros aspectos da narrativa, como sua dimensão retórica ou comunicativa e seus efeitos no mundo. Com a incorporação recente de estudos sobre os efeitos cognitivos e neurológicos da narrativa, James argumenta, é possível afirmar com segurança que narrativas são instrumentos de construção de mundo (worldbuilding), uma vez que “oferecem aos leitores ferramentas com as quais construir mundos imaginários com ética, valores e normas comportamentais específicas, as quais, por sua vez, têm efeitos reais em como esses leitores percebem o mundo e vivem nele” (JAMES, 2022JAMES, Erin. Narrative in the Anthropocene. Columbus: The Ohio State University Press, 2022., p. 36)2 2 Trad. livre do autor: “offer readers tools with which to build specific imaginative worlds with specific ethics, values, and behavioral norms that, in turn, have real-world effects on the ways that those readers perceive and live in the real-world”. . Assim, para James, narrativas constituem uma técnica intencional de construção de mundo, o que as aproxima do modo como, no Antropoceno, humanos “inscrevem” sua presença no registro geológico. A partir dessa conclusão teórica, James expande sua análise para considerar como um tipo específico de narrativa, romances realistas, projeta mundos a partir do discurso. Inspirada na leitura em contraponto que Edward Said fez de Mansfield Park, James argumenta que narrativas constroem mundos não só por meio do que dizem, mas também por meio do que não dizem. Por essa razão, uma teoria narrativa do Antropoceno deve considerar não só textos que tratam explicitamente de questões ambientais e climáticas, como o gênero “cli-fi” (climate fiction), mas buscar as questões ambientais e climáticas “não narradas”, mas presentes, em toda forma de narrativa.

No capítulo 2, “Material”, James incorpora à sua análise um conjunto mais diverso de formas narrativas, especialmente as que encontram seu suporte na internet, como tweets e threads. James inicia o capítulo por um diálogo com ideias dos novos materialismos, a linha teórica que privilegia a agência material não humana nos debates sobre o Antropoceno e o meio ambiente. Em oposição a teses que atribuem a todas as formas de matéria a capacidade de narrar, James enfatiza que a narrativa é um fenômeno antropogênico - uma especialização, talvez, das capacidades mais generalizadas de significar, codificar, ou comunicar, mas ainda assim uma capacidade específica. Semióticas não humanas, para James, não são narrativas, o que não quer dizer que elas não possam ser incorporadas às narrativas humanas. A partir dessa tese, James desenvolve o conceito de cognição material-narrativa, que busca incorporar a materialidade das mídias à narrativa. Em diálogo com teóricos da mídia, James propõe que narrativas que incorporam a estrutura das redes à sua construção (através, por exemplo, da lógica dos hiperlinks) possibilitam um ganho cognitivo no entendimento das redes materiais do Antropoceno.

O capítulo 3, “Tempo”, apresenta os conceitos de pseudo-singular e evento-efeito, que buscam indexar as escalas temporais do Antropoceno, os ritmos e o senso de duração do tempo geológico, por si só quase incompreensíveis desde o ponto de vista da vida humana, nas escalas mais modestas de uma narrativa. No primeiro caso, James revisa categorias de Gérard Genette para a análise da temporalidade narrativa. Enquanto o teórico francês limita seus termos à relação entre eventos particulares e a sequência narrativa de uma obra específica, James sugere que narrativas podem indexar seus eventos em “sequências” temporais que lhes são externas - como a história da colonização, nos romances afrofuturistas de River Solomon e Cherie Dimaline que James usa de exemplo, ou a história do Antropoceno. No segundo caso, James se inspira no conceito de slow violence (violência lenta) desenvolvido por Rob Nixon. Com esse conceito, Nixon buscou destacar como formas de violência graduais e distribuídas no tempo (como a contaminação de um rio por pesticidas ao longo dos anos e seus efeitos nas comunidades que se utilizam dele) desafiam a representação por não serem localizadas e escaparem à lógica do espetáculo. James incorpora o conceito de Nixon à teoria da narrativa por meio de uma revisão do conceito narratológico fundamental - o “evento” -, incorporando a ele as noções de longa duração e processo lento elaboradas por Nixon.

No capítulo 4, “Espaço”, James propõe o conceito de desespacialização para representar o caráter profundamente instável do espaço no Antropoceno. Em oposição ao teor estável e cênico do espaço na narratologia tradicional, James enfatiza que as transformações radicais do ambiente no Antropoceno precisam de formas de representação que expressem essa instabilidade. Inspirada em narrativas de espaços em transformação de Marina Vitaglione, Richard McGuire, e Jeff VanderMeer, James explora como recursos descritivos podem ser usados para desestabilizar o espaço da narrativa, produzindo confusão na leitora e dificultando a aceitação passiva do espaço como pano de fundo estável. Esse efeito tem como contraparte afetiva sentimentos como a solastalgia, definida pelo filósofo Glenn Albrecht como o sofrimento produzido pela transformação ambiental da terra onde se vive.

No capítulo 5, “Narração”, James investiga o uso dos pronomes “nós” e “você” como possibilidades de articular as agências coletivas envolvidas na produção do Antropoceno. James sugere que esses usos, incomuns em narrativas tradicionais e pouco discutidos na narratologia, possibilitam novas formas de representar dinâmicas de responsabilidade e percepção comuns ao Antropoceno. Em contraste com o narrador onisciente em terceira pessoa, cuja perspectiva tenderia ao externo e unívoco, o uso “intermitente” da primeira pessoa do plural permite articular, por um lado, a atuação coletiva ou distribuída da espécie e da classe social, e por outro, a experiência ainda individual das consequências de tal atuação. Já a segunda pessoa é um “expediente de transporte imaginativo”, capaz de interpelar a leitora e situá-la de modo mais concreto no contexto da narrativa.

Em uma coda, intitulada “Narrativa e ciência do clima”, James explora as possibilidades da narrativa para a comunicação científica. Enquanto comunicadores de ciência veem na narrativa uma possibilidade de tornar fenômenos complexos e dados opacos inteligíveis e interessantes para o público, James acusa discussões nessa área de trabalhar com conceitos limitados e reducionistas de narrativa, sem incorporar a complexidade e sofisticação permitidas por essa forma. Como seu livro evidencia, formas narrativas oferecem um amplo arsenal de possibilidades para articular as complexidades do Antropoceno, suas causas e consequências.

O livro de James representa um esforço bem-vindo de revisão de conceitos da narratologia à luz dos debates sobre o Antropoceno. Ela sintetiza uma série desses debates, sobretudo os que concernem à representação da natureza, da emergência climática e dos fenômenos geológicos. Além da importância de encontrar uma síntese desses debates, é muito positiva sua atitude de questionar juízos totalizantes sobre formas e gêneros narrativos, como o argumento de Amitav Ghosh de que o romance realista seria incapaz de representar a emergência climática. James mostra que as formas possuem alta plasticidade e seus sentidos emergem não só de uma estrutura transcendente, mas da maneira como são utilizadas em diferentes contextos. O apelo ao “uso imaginativo” das narrativas por seus leitores é frequente. Tal ênfase nos usos múltiplos das narrativas é um dos elementos mais promissores da argumentação de James, embora aponte para problemáticas que permanecem por resolver ao final do livro.

A abordagem de James trata narrativas como modelos cognitivos, verdadeiros simuladores de experiência que permitiriam a seus leitores “ensaiar”, antes de passar ao mundo real, transformações nos “comportamentos destrutivos que produziram o Antropoceno” (JAMES, 2022JAMES, Erin. Narrative in the Anthropocene. Columbus: The Ohio State University Press, 2022., p. 6). No entanto, se uma narrativa é suscetível a usos imaginativos, seu potencial como modelo depende tanto de aspectos formais inerentes, que determinam a interação entre narrativa e leitora, como de aspectos contextuais contingentes, ligados a forças e estruturas que atravessam indivíduos e seus encontros com as narrativas. Faz parte do esforço de James complexificar noções reducionistas e individualizadas de subjetividade e agência, razão pela qual sua teoria da narrativa como modelo de worldmaking merece ser expandida para além de experiências de leitura individuais. Como Anna Lowenhaupt Tsing demonstrou em sua etnografia dos criadores de modelos climáticos, um modelo é sempre seletivo e estratégico, atravessado por objetivos e métodos contraditórios, e altamente dependente do contexto para sua apreciação. James reconhece essa dinâmica quando se refere aos usos imaginativos que leitores fazem das narrativas. No entanto, sua aposta na transitividade direta entre as formas narrativas e as formas cognitivas e de comportamento deixa aberta a questão de como os modelos narrativos interagem com seus contextos sociais e culturais.

Ao mesmo tempo em que sugere o potencial de uma teoria narrativa do Antropoceno, o livro de James demonstra os desafios que uma teoria com essa ambição enfrenta. A própria autora reconhece que o esforço presente em seu livro é um primeiro tratamento das questões abertas pela relação entre narrativas e o Antropoceno. A teoria narrativa do Antropoceno, tal como esboçada por James, precisa não só declinar as possibilidades da narrativa em prosa, mas considerar como narrativas das mais diversas formas são mediadas, não só pelo sistema contemporâneo das mídias, mas pelas relações sociais e subjetividades do presente.

  • 1
    Os títulos originais dos capítulos são “Worlds”, “Material”, “Time”, “Space”, “Narration” e “Narrative and Climate Science”.
  • 2
    Trad. livre do autor: “offer readers tools with which to build specific imaginative worlds with specific ethics, values, and behavioral norms that, in turn, have real-world effects on the ways that those readers perceive and live in the real-world”.

Referências

  • HILTNER, Ken. Ecocriticism: The Essential Reader. Londres: Routledge, 2015.
  • JAMES, Erin. Narrative in the Anthropocene Columbus: The Ohio State University Press, 2022.
  • SZEMAN, Imre; WENZEL, Jennifer. What Do We Talk About When We Talk About Extractivism? Textual Practice, v. 35, n. 3, p. 505-523, 2021.
  • TSING, Anna Lowenhaupt. Friction: An Ethnography of Global Connection. Princeton: Princeton University Press, 2011.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    15 Dez 2023
  • Data do Fascículo
    Sep-Dec 2023

Histórico

  • Recebido
    04 Ago 2023
  • Recebido
    09 Ago 2023
Programa de Pós-Graduação em História Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro Largo de São Francisco de Paula, n. 1., CEP 20051-070, Rio de Janeiro, RJ, Brasil, Tel.: (55 21) 2252-8033 R.202, Fax: (55 21) 2221-0341 R.202 - Rio de Janeiro - RJ - Brazil
E-mail: topoi@revistatopoi.org