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“O caminho que através dos séculos seguiu à civilização”: frei Camillo de Monserrate e o ensino de Geografia Antiga no Colégio Pedro II (1850-1854)

“The Path that Followed Civilization through the Centuries”: Friar Camillo de Monserrate and the Teaching of Ancient Geography at Colégio Pedro II (1850-1854)

“El camino que través de los siglos siguió la civilización”: Fray Camillo de Monserrate y la enseñanza de Geografía Antigua en el Colegio Pedro II (1850-1854)

RESUMO

Criado no dia 2 de dezembro de 1837, o Imperial Colégio Pedro II foi a mais importante instituição de ensino secundário do Brasil oitocentista. A instituição formou parte da elite letrada imperial e o seu currículo expressava a proeminência de um projeto de invenção da identidade nacional pautado na noção de civilização e amparada pela ênfase no mundo antigo. Nesse sentido, este artigo tem como escopo o ensino de Geografia Antiga pensado pelo professor frei Camillo Monserrate na instituição entre 1850 e 1854. Para isso, mobilizo os programas das disciplinas e anotações produzidas pelo docente, com o intuito de compreender as finalidades atribuídas aos usos da Antiguidade no currículo do ensino secundário na edificação de um ideal de civilização e as inquietações acerca da construção do equilíbrio de conteúdos entre a Europa e a América.

Palavras-chave
Colégio Pedro II; ensino secundário; frei Camillo de Monserrate; Geografia Antiga; século XIX

ABSTRACT

Created on December 2, 1837, the Imperial Colégio Pedro II was the most important secondary education institution in 19th century Brazil. The institution formed part of the imperial literate elite and its curriculum expressed the prominence of a project of invention of national identity based on the notion of civilization and supported by an emphasis on the ancient world. In this sense, this article has as its scope the teaching of Ancient Geography thought by Professor Frei Camillo Monserrate at the Imperial College Pedro between 1850 and 1854. to the uses of antiquity in the secondary education curriculum in the construction of an ideal of civilization and the concerns about the construction of a balance of contents between Europe and America.

Keywords
Colégio Pedro II; Secondary Education; Friar Camillo de Monserrate; Ancient Geography; 19th Century

RESUMEN

Creado en el día 2 de diciembre de 1837, el Imperial Colegio Pedro II fue la más importante institución de enseñanza secundaria de Brasil en los ochocientos. La institución formó parte de la elite letrada imperial y su currículo expresaba la preeminencia de un proyecto de invención de la identidad nacional pautado en la noción de civilización y amparada por el énfasis en el mundo antiguo. En este sentido, este artículo tiene como escopo la enseñanza de Geografía Antigua pensada por el maestro Fray Camillo Monserrate en el Imperial Colegio Pedro II entre 1850 y 1854. Para eso, movilizo los programas de las disciplinas y anotaciones producidas por el maestro, con el intento de comprender las finalidades atribuidas a los usos de la antigüedad en el currículo de la enseñanza secundaria en la edificación de un ideal de civilización y las inquietaciones cerca de la construcción del equilibrio de los contenidos entre la Europa e la América.

Palabras Clave
Colegio Pedro II; educación secundária; fray Camillo Monserrate; Geografia Antigua; siglo XIX

Introdução

Ela indica o caminho que através dos séculos seguiu a civilização, de que somos herdeiros: conduz-nos ao meio das ruínas de cidades opulentas fundadas e habitadas outrora por poderosos monarcas, que contavam com a glória imortal, e cujos nomes, todavia a história não se dignou de conservar: finalmente, mostrando a cada passo o dedo da Providência e a fraqueza humana, ela oferece um atrativo filosófico que outras ciências histórias não têm (MONSERRATE, 1887b, p. 355).

A epígrafe que introduz este artigo apresenta as considerações do professor Camillo de Monserrate acerca da pertinência do ensino da Geografia Antiga no curso secundário do Colégio Pedro II. De acordo com o docente, a disciplina emergia no currículo com uma finalidade de revelar os percursos trilhados pela civilização ao longo do tempo. O olhar acerca do passado geográfico, pautado na vasculha de vestígios como as arcaicas ruínas, possibilitava o vislumbre das antigas sociedades das quais o Brasil se apresentava como herdeiro. A Geografia Antiga emergia assim como uma disciplina complementar à História, mas com pressupostos que iam além, ao oferecer “um atrativo filosófico” particular.

Pautado nessa prerrogativa, as anotações de planejamento do professor sinalizam para uma articulação entre o currículo do ensino secundário do Colégio Pedro II e o projeto de nação gestado pelas lideranças do Império do Brasil. Diante disso, neste artigo, tenho como escopo o ensino de Geografia Antiga pensado pelo professor Frei Camillo Monserrate no Imperial Colégio Pedro II no período entre 1850 e 1854. Trata-se do momento no qual o docente esteve à frente da disciplina e elaborou os planos de ensino. Com isso, mobilizo como fontes os programas das disciplinas e as anotações produzidas pelo docente, com o intuito de compreender as finalidades atribuídas aos usos da antiguidade no currículo do ensino secundário na edificação de um ideal de civilização e as inquietações do letrado acerca da construção do equilíbrio de conteúdos entre a Europa e a América.

Os usos da antiguidade entre os letrados brasileiros do século XIX tem sido alvo da atenção de considerável número de pesquisas. De algum modo, essas leituras têm possibilitado entender os meandros que dimensionaram a atuação da elite letrada oitocentista, em instituições acadêmicas como o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, a Imperial Academia de Belas Artes, o Conservatório Dramático e o Colégio Pedro II. Além disso, as análises tiveram como ênfase os usos da antiguidade em questões como a escrita biográfica (OLIVEIRA, 2011OLIVEIRA, Maria da Glória de. Escrever vidas, narrar a história: a biografia como problema historiográfico no Brasil oitocentista. Rio de Janeiro: FGV, 2011.; ENDERS, 2014ENDERS, Armelle. Os vultos da nação: fábrica de heróis e formação dos brasileiros. Rio de Janeiro: FGV, 2014.), o ensino de Retórica (SOUZA, 1999SOUZA, Roberto Acízelo Quelha de. O império da eloquência: retórica e poética no Brasil oitocentista. Niterói/RJ: EDUFF, 1999.) ou de História (TURIN, 2015TURIN, Rodrigo. A prudência dos antigos: figurações e apropriações da tradição clássica no Brasil oitocentista. O caso do Colégio Imperial Pedro II. Anos 90, v. 22, n. 41, p. 299-320, 2015.), os tensionamentos entre o ensino da História do Brasil e da História Antiga (SANTOS, 2019SANTOS, Magno Francisco de Jesus. “Um operoso e erudito estudioso da história de nossa pátria”: Raphael Galanti e o ensino de História do Brasil (1896-1917). IHS: Antiguos Jesuítas en Iberoamérica, v. 7, n. 2, p. 42-62, 2019.; 2021SANTOS, Magno Francisco de Jesus. “Maior somma de factos históricos, elucidados com mais método”: Américo Braziliense e a invenção do espaço paulista na escrita da história escolar (1873-1879). Almanack, n. 29, p. 1-51, 2021.; 2023SANTOS, Magno Francisco de Jesus. “No grande theatro da História”: Francisco Homem de Mello e os fazeres historiográficos oitocentistas (1858-1864). História (Unisinos), v. 27, n. 1, p. 530-544, 2023.); bem como, os sentidos pragmáticos dos usos da antiguidade nas instituições acadêmicas (TURIN, 2010TURIN, Rodrigo. Entre ‘antigos’ e ‘selvagens’: notas sobre os usos da comparação no IHGB. Revista de História, ed. especial, p. 131-146, 2010.; 2011TURIN, Rodrigo. Os antigos e a nação: algumas considerações sobre os usos da Antiguidade clássica no IHGB (1840-1860). L’Atelier du Centre de Recherches Historiques, n. 7, p. 1-18, 2011.).

Tais pesquisas possibilitam afirmar que os usos do mundo antigo, notadamente o das chamadas “sociedades clássicas”,1 1 Neste artigo mobilizo o termo “sociedades clássicas” para designar a história da Grécia e Roma antigas a partir da própria definição que de forma recorrente aparecia nos livros escolares de História. pelo menos até o último quartel do século XIX, foram um elemento predominante no currículo do Colégio Pedro II. Como nos lembra Rodrigo Turin, os estudos clássicos do currículo ocupavam mais de 50 % da carga horária dos alunos e a “divisão das matérias no currículo do Colégio, (... ) atribuía um lugar de destaque às Humanidades, em especial às línguas clássicas - grego e latim” (TURIN, 2015, p. 304TURIN, Rodrigo. A prudência dos antigos: figurações e apropriações da tradição clássica no Brasil oitocentista. O caso do Colégio Imperial Pedro II. Anos 90, v. 22, n. 41, p. 299-320, 2015.). Contudo, apesar do recente investimento em avalizar a estruturação do currículo e as narrativas difundidas em manuais escolares de História, ainda é premente a necessidade de realizar estudos atinentes à presença da história antiga como atividade-meio, por exemplo, em materiais didáticos com conteúdos históricos mobilizados para o ensino de Língua Inglesa;2 2 Na disciplina de Língua Inglesa, o livro didático adotado era History of Rome, de Goldsmith. ou por meio de componentes curriculares pouco elucidados, como foi o caso da própria Geografia Antiga.

Pautado nessa premissa, investigo os usos do mundo antigo no componente curricular Geografia Antiga a partir das propostas planejadas pelo docente frei Camillo de Monserrate. Trata-se de um erudito francês, nascido nos idos de 1818, que migrou para o Império do Brasil em 1845, tornando-se monge do Mosteiro de São Bento do Rio de Janeiro e a partir de 1850, docente do Colégio Pedro II. O letrado permaneceu como professor catedrático de Geografia Antiga até os idos de 1854. Além disso, entre 1853 e 1882 atuou como bibliotecário da Biblioteca Imperial.

Como docente do Colégio Pedro II, frei Camillo Monserrate contribuiu na formulação do programa de conteúdos a serem mobilizados em suas aulas,3 3 Como docente da disciplina, Monserrate contribuiu para a definição do programa e defendeu que, a partir do desenvolvimento de pesquisas sobre as antigas sociedades americanas, o currículo passasse a contemplar esses conteúdos. Nesse caso, não desconsidero o papel da congregação na chancela do currículo, mas ressalto o docente como uma autoridade no assunto que fez proposições sobre a reformulação curricular. bem como engendrou uma série de argumentos que referendava a manutenção do ensino da Geografia Antiga. Em decorrência de suas atividades desenvolvidas como bibliotecário, ocorreu a preservação de parte desses registros, que permaneceram custodiados no acervo da Biblioteca Imperial. Trata-se, em grande medida, de pequenas anotações, informações que poderiam ser mobilizadas em suas preleções, bem como listas de assuntos a serem inclusos nas disciplinas das quais o docente estava à frente.

Além desse acervo de notas, também consultei as anotações, registradas em meados do século XIX e resultantes do processo de planejamento da disciplina. Trata-se de textos mais adensados, que revelam um maior investimento no refinamento da argumentação e sinalizam para uma narrativa que explicitava grande parte das narrativas mobilizadas sobre Geografia Antiga. Esses registros foram editados pelo bibliógrafo Benjamin Franklin Ramiz Galvão e publicados nos Anais da Biblioteca Imperial nos idos de 1887. Nessa publicação, o organizador das fontes também escreveu uma avultada biografia de Monserrate, que foi acionada neste artigo.

Essas fontes foram cotejadas por meio de registros e notícias publicadas em jornais do Rio de Janeiro e nos relatórios da Repartição de Negócios do Império do Brasil entre as décadas de 40 e 50 do século XIX. Os impressos registram a circulação do letrado em diferentes instituições, o envolvimento na salvaguarda e sistematização dos acervos das bibliotecas e arquivos, bem como a procura por uma aproximação da corte brasileira.

As fontes foram acionadas nesta pesquisa a partir da premissa de entender a articulação do ensino da Geografia Antiga com o projeto político de construção de uma identidade para o Brasil Imperial, pautado na ideia de civilização. Nesse sentido, busco pensar esse constructo a partir do conceito de cultura política. De acordo com René Rémond, a “história do fato não vive fora do tempo em que é escrita, (... ) suas variações são resultado das mudanças que afetam o político, como das que dizem respeito ao olhar que o historiador dirige ao político” (RÉMOND, 2003, p. 22RÉMOND, René. Por uma história política. Rio de Janeiro: FGV, 2003.).

Ao partir dessa premissa, corroboro com a leitura na qual elucida como o privilégio que a história universal apresentava no currículo do ensino secundário brasileiro oitocentista referendava um projeto de formação identitária pautada na construção de vínculos com a Europa. Assim, ao efetivar uma leitura acerca do passado geográfico, o componente curricular contribuía para forjar um vínculo com o tempo presente. Como Serge Berstein explicitou, de forma pertinente, a cultura política “supre ao mesmo tempo uma leitura comum de passado e uma projeção no futuro vivida em conjunto” (BERSTEIN, 1998, p. 352BERSTEIN, Serge. A cultura política. In: RIOUX, Jean-Pierre; SIRINELLI, Jean-François. Para uma história cultural. Lisboa: Estampa, 1998.).

Diante do exposto, o artigo encontra-se estruturado em duas seções. Na primeira, investigo a trajetória docente de frei Camillo Monserrate, com ênfase em sua atuação no Colégio Pedro II e para os elementos basilares de sua formação na França. Não se trata de uma nova biografia, mas de retomar alguns direcionamentos que sinalizavam para as suas escolhas como docente. Para isso, mobilizo como fonte central os textos biográficos produzidos pelo então diretor da Biblioteca Imperial e Pública, Ramiz Galvão e pelo professor João Batista Calógeras, ambos os textos em cotejo com as notícias publicadas na imprensa e nos relatórios imperiais. Na segunda seção, perscruto a disciplina Geografia Antiga, a partir das pistas nos escritos de Camillo Monserrate, com o intuito de inquirir acerca das atribuições de finalidades à disciplina na formação da elite letrada do Império do Brasil.

Frei Camillo de Monserrate: um professor beneditino

“Lá se foi, quase sem que ninguém reparasse, uma das maiores ilustrações que tenham procurado as praias hospitaleiras do Brasil”.4 4 CALÓGERAS, João Baptista. Fr. Camillo de Monserrate. Jornal do Commércio, Rio de Janeiro, n. 324, 24 nov. 1870, p. 2. Com essas palavras, em um amálgama de lamento, constrangimento e exaltação, João Batista Calógeras, então professor do Imperial Colégio Pedro II, iniciou o elogio fúnebre de Camillo de Monserrate na edição de 24 de novembro de 1870 do Jornal do Comércio. Ao longo da centúria oitocentista, o necrológio se tornou um valioso recurso de edificação da memória dos grandes homens nacionais. No entender de Maria da Glória de Oliveira, no âmbito do IHGB esse gênero histórico corroborou com a ambição de “salvar da voragem do tempo” “os nomes e feitos dos que serviram à nação” (OLIVEIRA, 2011, p. 27OLIVEIRA, Maria da Glória de. Escrever vidas, narrar a história: a biografia como problema historiográfico no Brasil oitocentista. Rio de Janeiro: FGV, 2011.). Assim, “ao lado da história, à biografia também cabia a tarefa de escrever a história da nação” (DALL’AGNOL, 2017, p. 9DALL’AGNOL, Rafael Terra. Biografar, imaginar, escrever: escrita biográfica e imaginação histórica em Pereira da Silva. Dissertação (Mestrado em História) - Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2017.).

O exórdio biográfico elucidava o contraste entre o silêncio acerca da morte e a profusão de instituições nas quais o falecido havia atuado. Nas palavras de Calógeras:

No dia 10 do corrente deu a alma a Deus frei Camillo de Monserrate, monge beneditino, ex-professor de história e geografia do Imperial Colégio de Pedro II, membro do Instituto histórico e geográfico brasileiro, bibliotecário da Biblioteca pública, paleógrafo do arquivo público e membro do conselho diretor da instrução pública da corte.5 5 CALÓGERAS, João Baptista. Fr. Camillo de Monserrate. Jornal do Commércio, Rio de Janeiro, n. 324, 24 nov. 1870, p. 2.

O letrado francês teve suas habilidades profissionais evocadas à medida que foram elencadas as instituições nas quais havia atuado. No Mosteiro de São Bento, ele havia sido o frade, dedicado à vida monástica e convocado para fazeres extramuros; no Colégio Pedro II havia se notabilizado como professor, nomeadamente em Geografia Antiga; na Biblioteca Imperial e Pública, como bibliotecário, cargo no qual passou maior parte de sua vida profissional; no Arquivo Público, era o paleógrafo, responsável por decifrar os códigos de antigas escritas americanas. No conselho diretor, colaborou com o processo de profissionalização da instrução pública, em um importante contexto de reformas educacionais (GONDRA, 2008, p. 15GONDRA, José. A emergência da escola. São Paulo: Cortez, 2008.). De algum modo, o religioso francês havia se deslocado por parte das principais instituições culturais da corte ao longo do terceiro quartel oitocentista.

Além de elencar as multifaces da atuação profissional do religioso, João Calógeras também tratou sobre a formação, na qual expressava um letrado versado em arqueologia e dedicado aos fazeres científicos atinentes à antiguidade. Saberes que foram mobilizados na condição de docente do Pedro II:

Por mais honrosos que fossem esses títulos, eles por certo não lhe proporcionavam os meios de utilizar convenientemente a sua rara inteligência e o seu vasto saber. Formado em arqueologia e em todos os ramos que se prendem a esta complicada ciência, frei Camillo era, além disso, perfeitamente versado nas ciências naturais, na história e geografia, e nas literaturas grega, latina e francesa. Em França, quando ainda moço, o nosso sempre chorado amigo havia sido colaborador do célebre arqueólogo Letrone; no Brasil teve apenas ocasião de compor algumas inscrições e de decifrar algumas bulas antigas, escritas em caracteres lombardos.6 6 Idem.

As considerações de João Calógeras, que também ocupou o cargo de professor de História antiga e média do Pedro II, explicitava alguns indícios acerca das atividades que contribuíram para a formação de frei Camillo de Monserrate no campo dos estudos da antiguidade: inicialmente, a formação em arqueologia, complementada com as atividades de campo como colaborador de Jean Antoine Letrone (1787-1848), que a partir de 1838, ocupou a cadeira de Arqueologia do College de France e foi o responsável pela tradução de textos clássicos, resultantes da lavra de autores como Tucídides e Estrabão. Leituras que em sua prática docente seriam acionadas. Posteriormente, a formação por meio de debates e críticas, como integrante da Sociedade Geológica da Franca a partir de 1835. Neste sentido, revelava-se como a aptidão para os fazeres arqueológicos e, notadamente, no tocante à sensibilidade para a antiguidade, era resultante de um esforço que coadunava formação teórica e empírica.

Sobre a formação de frei Camillo de Monserrate, Ramiz Galvão expressava as dificuldades em operar com registros fragmentados. No seu entender, “longe do teatro dos acontecimentos, sem outro dado além das revelações feitas a um amigo e essas mesmas já meio apagadas pela tradição e pelo tempo” (GALVÃO, 1887, p. 5GALVÃO, Benjamin Franklin Ramiz. Frei Camillo de Monserrate: estudo biográphico. Annaes da Bibliotheca Nacional do Rio de Janeiro, v. 12. Rio de Janeiro: Lauringer & Filhos, 1887.), seria difícil reconstituir o cenário de formação do famoso letrado. Contudo, o biógrafo não receou em asseverar de forma contundente que “Camillo nascera para as investigações eruditas”. Em suas palavras, ainda jovem, “o menino sonhava os descobrimentos do crítico e do filólogo, queria trabalhar sim, mas pela glória, não pelo dinheiro” (GALVÃO, 1887, p. 9GALVÃO, Benjamin Franklin Ramiz. Frei Camillo de Monserrate: estudo biográphico. Annaes da Bibliotheca Nacional do Rio de Janeiro, v. 12. Rio de Janeiro: Lauringer & Filhos, 1887.).

Imbuído do desejo de enveredar-se pelas coisas velhas e envolto em conflitos familiares, o jovem, com apenas 15 anos, passou a viver em Paris, usufruindo dos acervos de bibliotecas, museus e universidades. Na capital francesa seria lapidada a habilidade em manusear os artefatos arqueológicos. Para Galvão (1887, p. 10)GALVÃO, Benjamin Franklin Ramiz. Frei Camillo de Monserrate: estudo biográphico. Annaes da Bibliotheca Nacional do Rio de Janeiro, v. 12. Rio de Janeiro: Lauringer & Filhos, 1887.:

Para Camillo o mundo encantado da erudição sorria-lhe por todos os lados: aqui a Biblioteca Nacional da rua Richilieu com imensos tesouros e seus cursos de línguas orientais e clássicas, de paleografia e arqueologia; ali o Colégio de França com professores eméritos, o Instituto com suas Academias; acolá, o Louvre com suntuosos museus; mais além, as sociedades científicas, com suas reuniões altamente instrutivas, e suas discussões luminosas.

O jovem Camillo começou por todos eles, sem descanso e sem trégua, travando conhecimento com os sábios mais ilustres; dir-se-ia o viajante do Saara, ardente, que mal entra na sombra amiga e húmida do oásis, bebe febril em todas as fontes cristalinas que irrompem da verdura.

Em uma narrativa delineada pela dimensão essencialista, na qual o letrado teve sua trajetória aludida como um sujeito predestinado a ser erudito, aficionado investigador da antiguidade, Ramiz Galvão elencou algumas das instituições francesas onde Camillo de Monserrate realizou os seus estudos. Em um contexto marcado pelas grandes descobertas arqueológicas, que de algum modo eram mobilizadas para forjar a feitura das nações tidas como civilizadas, o letrado enveredou-se nas investigações sobre o antigo Egito:

Eis pois o moço ilustre a entrar no mundo dos sábios, e seu primeiro passo é para o museu de antiguidades egipcianas. Não admira esta tendência. Naquela época o Egito era o grande enigma da arqueologia; para ali convergiam todas as atenções depois das conquistas do famoso capitão do século, e das não menos célebres vitórias incruentas de Champollion, que rasgara o espesso véu dos hieroglifos (GALVÃO, 1887, p. 12GALVÃO, Benjamin Franklin Ramiz. Frei Camillo de Monserrate: estudo biográphico. Annaes da Bibliotheca Nacional do Rio de Janeiro, v. 12. Rio de Janeiro: Lauringer & Filhos, 1887.).

O século XIX na França, de algum modo, havia sido tingido pela confluência de duas experiências que emolduraram um modelo de civilização: a expansão napoleônica e a descoberta dos artefatos das antigas sociedades. Esses episódios contribuíram para instituir um cenário marcado pelas demandas por história e arqueologia, pautadas na criação de sociedades acadêmicas e de museus. A civilização era um elemento-chave na construção de culturas políticas oitocentistas. Foi neste contexto que Camillo de Monserrate, ainda com o nome civil de Camillo de Cléau,7 7 Ele adotou o nome religioso de Camillo de Monserrate após o ingresso no Mosteiro de São Bento, já vivendo no Brasil a partir de 1844. passou a colaborar na elaboração da grande “Biografia Universal”, na qual ele chegou a esboçar as biografias de Clitodeme e Duris. De acordo com Ramiz Galvão, o letrado francês tinha a intensão de escrever outros artigos, pois ele havia encontrado notas sobre pensadores antigos como Chrisermus, Cleo Curiensis, Cinethon e Creophilo.

Entretanto, ao enfrentar as dificuldades vivenciadas no âmbito familiar e para publicar suas memórias, Camillo de Cléau realizou uma longa viagem pela Oceania entre 1837 e 1838. Posteriormente, já em 1842, passou a lecionar latim e grego no Liceu de Corbeil, nos arrabaldes de Paris. Dois anos depois, face a novas dificuldades de inserção no campo de letrados da França, o jovem francês “embarcou para o Brasil (...) a 15 de maio de 1844” (GALVÃO, 1877, p. 69GALVÃO, Benjamin Franklin Ramiz. Frei Camillo de Monserrate: estudo biográphico. Annaes da Bibliotheca Nacional do Rio de Janeiro, v. 12. Rio de Janeiro: Lauringer & Filhos, 1887.).

Em terras brasileiras, a aptidão para as antiguidades foi apropriada a partir das diferentes demandas criadas em âmbito institucional. Inicialmente, passou a integrar o Mosteiro de São Bento, adotando o nome de frei Camillo de Monserrate. Para Ramiz Galvão (1877, p. 74)GALVÃO, Benjamin Franklin Ramiz. Frei Camillo de Monserrate: estudo biográphico. Annaes da Bibliotheca Nacional do Rio de Janeiro, v. 12. Rio de Janeiro: Lauringer & Filhos, 1887., “ora Camillo cogitando em abraçar a vida religiosa não pudera hesitar um momento na escolha do Instituto a cujas portas cumpria bater: por índole e por educação literária, era a Ordem Beneditina que ele devia procurar e assim foi”.

Entre 1847 e 1850, inúmeras cartas de recomendação foram enviadas por Joaquim Caetano da Silva, então diretor do Colégio de Pedro II. A intensão era aproveitar o talento do sacerdote beneditino para atender às demandas da instituição de ensino secundário. Contudo, somente no emergir de 1850 é que o letrado passou a integrar o corpo docente do referido colégio, por meio de um convite. Como foi lembrado por Flávia Soares, os polêmicos concursos da instituição foram institucionalizados somente a partir de 1855 (SOARES, 2010, p. 7SOARES, Flávia. Analisando provas de concursos para professores de Matemática no Colégio Pedro II no século XIX. Bolema, v. 23, n. 35, p. 1-22, 2010.). No entender do biógrafo Ramiz Galvão:

De fato, as insignes habilitações do sábio beneditino não podiam passar despercebidas. O claustro, tal como existia entre nós, não era teatro bastante vasto para a manifestação de quanto ele valia. O governo imperial foi buscá-lo no retiro, e por decreto de 28 de setembro de 1850 o nomeou professor da segunda cadeira de Geografia e História do Colégio de Pedro II, vaga por haver passado para a primeira o dr. Joaquim Manuel de Macedo.

Chamado a suceder ao dileto amigo, João Batista Calógeras, que nessa data abandonou o professorado público para organizar um estabelecimento particular de instrução secundária, frei Camillo não pudera ver mais bem aproveitados os conhecimentos espaciais que possuía da antiguidade (GALVÃO, 1877, p. 93GALVÃO, Benjamin Franklin Ramiz. Frei Camillo de Monserrate: estudo biográphico. Annaes da Bibliotheca Nacional do Rio de Janeiro, v. 12. Rio de Janeiro: Lauringer & Filhos, 1887.).

A partir de 1850, frei Camillo de Monserrate passou a ocupar novos cargos públicos, em uma trajetória profissional que atravessou diferentes instituições. Assim, “em 1850 foi nomeado professor de história e geografia no imperial Colégio de Pedro, e em 1852 bibliotecário e paleógrafo do arquivo”.8 8 CALÓGERAS, João Baptista. Fr. Camillo de Monserrate. Jornal do Commércio, Rio de Janeiro, n. 324, 24 nov. 1870, p. 2. Possivelmente, essa disponibilidade de postos ao letrado francês na corte poderia ser resultante de sua origem familiar, visto que era descendente da aristocracia europeia. Para o biógrafo Ramiz Galvão:

A Musa da História não tem reservas a guardar, mormente quando passados já quase 70 anos, lhe é permitido revelar a verdade inteira, sem risco de ofender melindres e tanto mais quanto importa esta verdade à explicação lógica de acontecimentos, que doutra sorte mal se puseram justificar. É, portanto sem escrúpulo que o dizemos: Camillo era realmente filho de não J. Cléau, mas do desventurado duque de Berry já então casado com a filha de Fernando I, e sua mãe, pertencia à célebre família italiana dos Malatesta (GALVÃO, 1887, p. 5GALVÃO, Benjamin Franklin Ramiz. Frei Camillo de Monserrate: estudo biográphico. Annaes da Bibliotheca Nacional do Rio de Janeiro, v. 12. Rio de Janeiro: Lauringer & Filhos, 1887.).

Partindo de uma premissa na qual a verdade histórica era devedora do afastamento temporal dos episódios, com o sufocamento dos melindres e possíveis constrangimentos dos sujeitos, o bibliotecário Ramiz Galvão mobiliza a informação na qual frei Camillo de Monserrate era descendente das famílias oligárquicas da velha Europa. O afastamento temporal, com a consequente morte dos sujeitos envoltos na trama possibilitava o vislumbre da verdade e o uso de informações colhidas na intimidade das conversas amistosas. Como bem expressou Ramiz Galvão, sucessor de Monserrate na Biblioteca Imperial: “este segredo ele próprio o comunicou entre lágrimas a mais de um amigo íntimo no Rio de Janeiro, e as qualidades de seu nobre caráter não permitem supor que faltasse à assunto tão delicado” (GALVÃO, 1887, p. 5GALVÃO, Benjamin Franklin Ramiz. Frei Camillo de Monserrate: estudo biográphico. Annaes da Bibliotheca Nacional do Rio de Janeiro, v. 12. Rio de Janeiro: Lauringer & Filhos, 1887.). A escrita biográfica contribuía para forjar mitos acerca da ascendência do letrado.

No Imperial Colégio de Pedro II, frei Camillo de Monserrate ministrou componentes curriculares atrelados à antiguidade, com ênfase para a Geografia e História antigas. Entre 1850 e 1853, por exemplo, Antônio Gonçalves Dias era o professor de História do Brasil; Joaquim Manuel de Macedo lecionava Geografia, História moderna e História média; enquanto frei Camillo de Monserrate ficava a cargo das disciplinas de Geografia antiga e História antiga. Com isso, o letrado francês lecionava nas turmas do terceiro e sétimo ano. Nos anos de 1854 e 1855, Joaquim Manuel de Macedo também passou a lecionar a disciplina de História pátria, em decorrência do afastamento de Antônio Gonçalves Dias (IMPERIAL COLÉGIO DE PEDRO II, 1855, p. 86IMPERIAL COLÉGIO DE PEDRO II. Almanack Administrativo. Rio de Janeiro: Imperial Colégio de Pedro II, 1855.). Também nos idos de 1855, o professor de Geografia e História antigas, que havia entrado em exercício no dia 14 de outubro de 1850, deixou “o magistério por decreto de 20 de junho de 1855, que lhe concedeu a demissão muitas vezes solicitada” (GALVÃO, 1877, p. 94GALVÃO, Benjamin Franklin Ramiz. Frei Camillo de Monserrate: estudo biográphico. Annaes da Bibliotheca Nacional do Rio de Janeiro, v. 12. Rio de Janeiro: Lauringer & Filhos, 1887.).

O pouco tempo de permanência de frei Camillo de Monserrate na docência do Imperial Colégio de Pedro II sinaliza para a questão do acúmulo de cargos pelos letrados. Apesar da visibilidade e rentabilidade dos docentes do Pedro II, alguns letrados usavam a docência como uma oportunidade de alavancar a carreira profissional em outras prestigiadas instituições ou em cargos administrativos do Império do Brasil. No entender de Rodrigo Turin, a docência no Colégio de Pedro II era um trampolim que possibilitava a ascensão para outros cargos. Ele chama atenção:

Era comum que a atuação como professor no Colégio fosse acompanhada por outras atividades paralelas, como foi o caso, por exemplo, de Justiniano da Rocha (que acumulava atividades no jornalismo e na política) e Camilo de Monserrat (que, após passagem pelo Colégio, assumiu o cargo de Diretor da Biblioteca Nacional) (TURIN, 2015, p. 303TURIN, Rodrigo. A prudência dos antigos: figurações e apropriações da tradição clássica no Brasil oitocentista. O caso do Colégio Imperial Pedro II. Anos 90, v. 22, n. 41, p. 299-320, 2015.).

Além da docência, frei Camillo de Monserrate também chegou a investir no estudo de escritos mexicanos, como resultante de sua preocupação acerca da antiguidade americana. Estudos que que deveriam resultar na reestruturação curricular de Geografia Antiga. Segundo Calógeras:

Apesar de melindroso de sua saúde, ocupou-se com a reorganização do respeito Catálogo e fez alguns trabalhos importantes, que não quis dar à luz, entre os quais sobressai aquele sobre as antiguidades mexicanas. É muito para desejar que tais trabalhos não fiquem inutilizados.9 9 CALÓGERAS, João Baptista. Fr. Camillo de Monserrate. Jornal do Commércio, Rio de Janeiro, n. 324, 24 nov. 1870, p. 2.

Os trabalhos de frei Camillo de Monserrate que buscavam a decifração da cultura antiga mexicana não chegaram a ser publicados. Tratava-se de ensaios nos quais o letrado francês iniciava os investimentos na decifração e tradução. Além disso, sinalizava para o seu empenho em fomentar a ampliação dos estudos e ensino atinentes à antiguidade, rompendo com as fronteiras europeias e do crescente fértil, com a inserção dos povos americanos. Seria essa uma ampliação de conteúdos que exigia esforços investigativos que fundamentassem a constituição de um currículo.

Na invenção do herói biográfico, tanto Calógeras quanto Galvão investiram na mobilização das noções de talento, martírio e abnegação. Aspectos recorrentes em elogios fúnebres, que emolduravam os heróis da nação. Os autores elucidam a dedicação do letrado no zelo dos acervos documentais, chegando a morar na biblioteca. No final do ano de 1869, os problemas de saúde de frei Camillo de Monserrate se agravaram. Um sinal disso foi a notícia publicada no Jornal do Comércio do Rio de Janeiro sobre a Comissão para examinar o arquivo do Dr. Alexandre José de Mello Morais. De acordo com a notícia:

Por ato do ministério do império de 29 de janeiro de 1870 foram os abaixo assinados nomeados para proceder ao exame do referido arquivo. Os dois membros Joaquim Manuel de Macedo e Francisco Inácio Marcondes Homem de Mello foram designados para substituir os Srs. Dr. Joaquim Caetano da Silva e frei Camillo de Montserrate, os quais por doentes haviam obtido dispensa da comissão nomeada em 20 de dezembro de 1869, que aliás não funcionou.10 10 JORNAL DO COMMERCIO. A comissão nomeada para examinar o archivo do Sr. Dr. Mello Moraes. Rio de Janeiro, n. 139, 19 maio 1872, p. 3.

Mesmo havendo uma total reformulação dos nomes que integravam a referida comissão, em decorrência de alegados problemas de saúde, registra-se que os nomes de substitutos também eram letrados que atuavam ou tinham atuado no Colégio de Pedro II. Além disso, o registro documenta como os problemas de saúde de frei Camillo de Monserrate haviam se agravado, impedindo-o de exercer as atividades no arquivo e na biblioteca. O homem que havia vivido recluso entre os papeis velhos necessitava afastar-se da lida com as antiguidades. Os últimos meses foram vividos nos arrabaldes da corte.

De acordo com João Batista Calógeras, “havia mais de um ano que o nosso querido amigo ia sucumbindo a uma hipertrofia do coração, complicada de asma, bronquite crônica e enfisema pulmonar”.11 11 CALÓGERAS, João Baptista. Fr. Camillo de Monserrate. Jornal do Commércio, Rio de Janeiro, n. 324, 24 nov. 1870, p. 2. Em 1870, mudou-se para a Ilha do Governador, onde morreu sob os cuidados de Faustino, um negro liberto que trabalhava na Biblioteca Imperial. Seis dias após a morte, o seu amigo nos fazeres docentes do Pedro II publicou o necrológio, clamando para a memória do professor de Geografia Antiga. Assim, adentro a questão do planejamento da aludida disciplina.

“Companheira indispensável ou irmã da História”: a Geografia Antiga

Ainda que pareça, à primeira vista, senão árido e fastidioso, pelo menos pouco necessário e pouco próprio para desenvolver o juízo e gosto – o estudo da geografia antiga, companheira indispensável ou irmã da história, como a Cronologia, é a moldura natural e fornece-lhe as perspectivas: ele deve agradar e interessar pela variedade de conhecimentos que reúne: é necessário, porque completa os estudos clássicos: forma juízo pelas dificuldades que oferece: desenvolve o gosto comentando e explicando as obras-primas da literatura antiga, cuja graça e nobreza vos são demonstradas por sábios professores, incumbidos de revelar-vos o espírito delas e de ensinar-vos a imitar as suas belezas (MONSERRATE, 1887b, p. 354MONSERRATE, Frei Camillo de. Lições de Geografia Antiga. In: GALVÃO, Benjamin Franklin Ramiz. Frei Camillo de Monserrate: estudo biográphico. Annaes da Bibliotheca Nacional do Rio de Janeiro, v. 12. Rio de Janeiro: Lauringer & Filhos, 1887b. p. 354-374.).

Nas anotações deixadas pelo frei Camillo de Monserrate é possível vislumbrar alguns aspectos que o docente atribuía ao ensino da Geografia Antiga, incluindo importantes vestígios que revelavam as contribuições atribuídas ao componente curricular na formação dos novos cidadãos do Império do Brasil. Assim, apesar das características que tornavam o ensino fatigante e com efeitos aparentemente estéreis, a Geografia Antiga apresentava elementos que a tornavam um conhecimento necessário à formação do brasileiro.

A narrativa produzida sob a pena de frei Camillo de Monserrate parecia denotar um argumento inicial de apresentação do componente curricular aos discentes, ou seja, expressava uma defesa de sua relevância e uma estratégia de explicitar quais as finalidades daquele ensino para um público jovem que passaria a integrar a elite burocrática da corte. O texto sinaliza para algumas das contribuições atribuídas ao ensino da Geografia Antiga. A primeira partia da premissa que o ensino ocorreria como um elemento complementar à História Antiga e assim iria contribuir para emoldurar os episódios ocorridos na antiguidade. Neste sentido, a Geografia Antiga aproximava-se da Cronologia, complementando o ensino histórico: aquela com a constituição do cenário; esta pela exposição dos episódios a partir da sistematização do tempo.

Além disso, a disciplina poderia agradar por tratar de temáticas variadas, nas quais os povos da antiguidade dos continentes africano, asiático e europeu seriam apresentados por meio do uso de velhos mapas. Como nos lembra Renato Amado Peixoto, no período posterior à Revolução Francesa os “atlas históricos passaram a secundar a ascensão do Estadonação e a refletir os valores eurocêntricos, enfatizando o poder territorial e a nacionalidade” (PEIXOTO, 2021, p. 4PEIXOTO, Renato Amado. Desconstruindo os atlas históricos: do Parergon ao Atlas Histórico Escolar. Revista História (São Paulo), v. 41, p. 1-22, 2021.). O ensino da Geografia Antiga também se tornava necessário por complementar os estudos clássicos, tanto no âmbito das línguas latina e grega, como em disciplinas de caráter mais pragmático como retórica, ou de caráter cívico-civilizatória, como História e Cronologia. Por meio da Geografia Antiga os alunos poderiam ter acesso aos grandes nomes da literatura antiga e assim consolidar o gosto pelas letras.

Outra dimensão atrelada à disciplina e que foi fomentada em defesa de seu ensino foi a dificuldade de aprendizagem, pois assim formaria a habilidade de “juízo” entre os discentes. Por fim, o argumento que enfeixava toda a assertiva era no tocante “aos sábios professores”, que poderiam acionar a literatura antiga com nobreza e assim possibilitar que os alunos imitassem os exemplos de outrora. Assim como a biografia e a História, a Geografia Antiga também se encontrava ancorada na premissa de imitar os exemplos dos grandes homens do passado. O espelho do futuro encontrava-se voltada para a predita ação humana pretérita. A antiguidade emergia como mestra da vida.

No período de atuação de frei Camillo de Monserrate no Imperial Colégio de Pedro II, o currículo da instituição ainda privilegiava o ensino de componentes que aludiam à antiguidade, em disciplinas que se encontravam distribuídas nos sete anos do ensino secundário, conforme pode ser observado no Quadro I:

Quadro I
Distribuição das disciplinas no Imperial Colégio de Pedro II (1850-1855)IMPERIAL COLÉGIO DE PEDRO II. Almanack Administrativo. Rio de Janeiro: Imperial Colégio de Pedro II, 1855.

Por meio do Quadro I percebe-se como o currículo da principal instituição de ensino secundário do Império do Brasil encontrava-se ancorado em disciplinas que mobilizavam conteúdos atinentes à antiguidade. Por um lado, a História do Brasil emergia apenas no último ano, como o encerramento do ciclo de estudos do secundário. Ao contrário do que pesquisas como a Circe Bittencourt sinalizam para uma possível distorção do currículo na centúria oitocentista, com o predomínio de uma história universal em desfavorecimento da história nacional, pretensamente “em condição complementar, quase como um estudo anexo” (BITTENCOURT, 2009, p. 78BITTENCOURT, Circe Maria Fernandes. Ensino de História: fundamentos e métodos. São Paulo: Cortez, 2009.), o currículo elucidava a história nacional como o ápice de uma jornada entre as grandes civilizações. Era a concretização de uma cultura política imperial na qual o Brasil emergia como a culminância civilizada. O currículo materializava uma leitura de passado linear, centrada na noção de civilização na qual o passado nacional era o capítulo conclusivo e chave para o futuro.

Esse cenário é indicativo de um projeto político que se traduzia no âmbito curricular, sugeridos pela própria Circe Bittencourt ao avalizar a concepção geral sobre como “os conteúdos propostos serviam também para uma formação moral baseada no ideário de civilização” (BITTENCOURT, 2009, p. 78BITTENCOURT, Circe Maria Fernandes. Ensino de História: fundamentos e métodos. São Paulo: Cortez, 2009.). Ao partir dessa chave explicativa, o ensino de História do Brasil restrito ao último ano do curso secundário revela a concepção de um currículo centrado na civilização, com ênfase para as sociedades antigas e que se deslocariam temporalmente até a história mais recente e que tinha por palco o Brasil.12 12 Sobre o ensino de História do Brasil no Colégio Pedro II oitocentista existe uma farta historiografia, com destaque para Hansen (2000), Mattos (2000), Gasparello (2004) e Melo (2008). Ao ser observado por outra lente, o currículo revela a história nacional como o desfecho de uma configuração da marcha civilizatória. Com isso, não teríamos um desmerecimento da história do país, mas um enquadramento do passado nacional no âmbito do mundo tido como civilizado. Esse ideal de civilização revelado pelo currículo expressava um projeto de formação de uma elite letrada imperial.

Neste cenário curricular envolto de um projeto de nação centrado na concepção de civilização, a Geografia Antiga galgava uma funcionalidade pragmática de desenvolver a habilidade no alunado de constituir a leitura atinente às antigas fronteiras por meio da leitura de autores do mundo clássico. A disciplina era oferecida no último ano do curso secundário, concomitante com a História do Brasil. Com isso, à medida que o alunado passava a conhecer o passado pátrio, também descortinava os antigos territórios instituídos pelas primeiras “civilizações”. Em sua última instância, o ensino secundário possibilitava a confluência dos tempos, com o emergir e conclusão da marcha civilizada.

Diante do exposto, torna-se salutar mensurar como frei Camillo de Monserrate estruturou os conteúdos da disciplina. Tomo como fonte os registros localizados por Ramiz Galvão. Segundo o biógrafo, “entre seus preciosos papeis achamos um programa do curso da aula para o ano de 1853” (GALVÃO, 1877, p. 94GALVÃO, Benjamin Franklin Ramiz. Frei Camillo de Monserrate: estudo biográphico. Annaes da Bibliotheca Nacional do Rio de Janeiro, v. 12. Rio de Janeiro: Lauringer & Filhos, 1887.). Essas notas, juntamente com os apontamentos acerca de cada conteúdo, expressam indícios sobre a disciplina. Os conteúdos listados pelo docente para o ano de 1853 podem ser observados no Quadro II:

Quadro II
Programa de Geografia Antiga por Frei Camillo de Monserrate em 1853

Os dados apresentados no Quadro II evidenciam um amplo deslocamento pelas sociedades do mundo antigo, com maior predileção para as que se estabeleceram no continente asiático. O eixo norteador do programa estabelecido pelo docente não foi o cronológico, como era recorrente nas disciplinas de História. Frei Camillo de Monserrate sistematizou a marcha civilizatória em dimensão espacial, atendendo a uma premissa da área geográfica. Os conteúdos atendiam algumas predileções da geografia, como a ênfase na localização, na descrição física e elucidação dos limites territoriais. Contudo, a estruturação curricular também expressava a valorização do eixo estruturador do currículo institucional, ao destacar a geografia religiosa, com ênfase para os povos bíblicos e do projeto político de invenção da nacionalidade brasileira, ao culminar nas chamadas sociedades clássicas, com Grécia e Roma. A disciplina promovia a confluência entre a história sagrada e a nacional.13 13 A questão da presença da história sagrada nos conteúdos de Geografia Antiga é complexa e marcada por uma vasta documentação. É um enfretamento que pode ser observado em uma análise que evidencie exclusivamente esse problema, por meio do cotejo entre a dimensão religiosa do currículo do Pedro II e a dimensão pessoal do autor, religioso da Ordem de São Bento.

Assim, a disciplina desenrolava-se por meio de um deslocamento pautado na lavra de historiadores antigos, com onze aulas sobre as sociedades da Ásia, três sobre as da África e três da Europa. A escolha das sociedades listadas pelo docente esteve pautada não somente no mérito civilizatório, mas principalmente, na existência de fontes coetâneas de teor cartográfico. Como o docente argumentou, “a geografia antiga descreve a terra tal como era nos tempos antigos, ou tal como a conheciam os antigos, ou como a supunham, ou como os modernos supõem que os antigos a conheciam” (MONSERRATE, 1877b, p. 358MONSERRATE, Frei Camillo de. Lições de Geografia Antiga. In: GALVÃO, Benjamin Franklin Ramiz. Frei Camillo de Monserrate: estudo biográphico. Annaes da Bibliotheca Nacional do Rio de Janeiro, v. 12. Rio de Janeiro: Lauringer & Filhos, 1887b. p. 354-374.). Mais do que a verdade sobre os antigos espaços, o docente valorizava o que os antigos pensavam sobre tais espaços. Isso tornava possível pensar o paraíso terrestre imaginado pelos antigos.

Nesse sentido, as preleções mobilizavam como fontes os textos produzidos pelos antigos e isso exigia um criterioso investimento na crítica histórica, com o intuito de efetivar o cotejo entre as descrições presentes nos escritos, a cultura material e a observação dos lugares. O docente explicitou o problema do método:

A geografia heroica compreenderia: acontecimentos referidos pelos poetas épicos ou nas narrativas mescladas de maravilhoso, mas no fundo certo, dos antigos historiadores: expedições de Sesostris; Amazonas; Argonautas; Pelasgos; Troia; Odisseia e Eneida; Salomão.

A geografia paradoxal incluiria: relações mais que duvidosas das Ilhas Afortunadas, da Atlântida, das circunavegações da África &.

As noções duvidosas podem elevar-se à categoria de noções certas, com o auxílio da crítica, mediante felizes combinações de textos, com o concurso dos monumentos figurados, pela atenta observação dos lugares. Acresce que a dúvida a respeito destas noções geográficas Não se aplica às vezes senão a uma das faces da questão: ela pode referir-se à situação, ao nome, à importância, à origem, aos monumentos, à história local, ou aos documentos que fornecem os dados (MONSERRATE, 1877b, p. 358MONSERRATE, Frei Camillo de. Lições de Geografia Antiga. In: GALVÃO, Benjamin Franklin Ramiz. Frei Camillo de Monserrate: estudo biográphico. Annaes da Bibliotheca Nacional do Rio de Janeiro, v. 12. Rio de Janeiro: Lauringer & Filhos, 1887b. p. 354-374.).

A explanação de frei Camillo de Monserrate é reveladora do enfrentamento do problema metodológico. O elemento norteador do componente curricular era a questão da verdade, substanciada pelo uso de fontes escritas por historiadores antigos e que deveriam passar pelo crivo da crítica histórica. Isso se daria por meio do cotejo entre as fontes escritas e destas com os monumentos e observação dos lugares descritos. Essa conduta evidenciava uma situação observada por Antoine Prost acerca de profissionalização da docência histórica ao longo da centúria oitocentista, na qual os materiais didáticos deixam de ser um meio e passam a ser acionados como “fontes a serviço da história” (PROST, 2008, p. 19PROST, Antoine. Doze lições sobre a história. Belo Horizonte: Autêntica, 2008.).

Os dados do referido quadro também denotam outras inquietações. A principal delas é a ausência de conteúdos atinentes às antigas sociedades americanas. Essa omissão, no primeiro momento, causa estranhamento, pois nas anotações do professor Monserrate é possível identificar inúmeros registros acerca dos povos antigos que viveram no México e no Peru. O docente era conhecedor das pesquisas sobre esses povos. Aparentemente, uma possibilidade da supressão dos antigos povos americanos entre os temas tratados na disciplina do Imperial Colégio de Pedro II seria o atendimento de um projeto político de tecer um enredo no qual o passado nacional seria articulado com o velho mundo, notadamente, a Europa. De alguma forma, a premissa da política imperial brasileira emergia como resposta imediata.

Contudo, as fontes sinalizam para uma situação mais complexa e que envolve um dilema epistemológico da pesquisa e do ensino. Os critérios metodológicos adotados em Geografia Antiga, de alguma forma, explicam a ausência das antigas sociedades americanas entre os temas abordados na disciplina. O docente articulava a historiografia em cotejo com outras fontes, com o intuito de dirimir as incertezas. No entendimento de Monserrate, esse procedimento ainda era inviável no tocante à história das civilizações americanas:

Pelo que respeita à origem e à história da civilização nas nações indígenas da América, – não tendo nós ao nosso dispor senão materiais relativamente pouco numerosos, que deixam subsistir entre os fatos grandes lacunas, e que não adquirem todo o seu valor senão após um exame escrupuloso e mediante uma confrontação judiciosa, – como seria possível sem perigo arriscamo-nos a esboçar um quadro de elementos confuso, por vezes contraditórios, frequentemente duvidosos, sempre insuficiente? (MONSERRATE, 1877c, p. 473MONSERRATE, Frei Camillo de. Antiguidades americanas. In: GALVÃO, Benjamin Franklin Ramiz. Frei Camillo de Monserrate: estudo biográphico. Annaes da Bibliotheca Nacional do Rio de Janeiro, v. 12. Rio de Janeiro: Lauringer & Filhos, 1887c. p. 473-517.).

As palavras de frei Camillo de Monserrate não desmerecem as antigas sociedades americanas. Ao contrário, ele as inclui entre as chamadas “civilizações”. O problema que afetava o seu ensino perpassa pela questão do método histórico eivado pela busca da verdade. Naquele contexto marcado por pesquisas iniciais e poucos dados, o cauteloso docente revelava que seria temeroso sistematizar as informações acerca dessas sociedades sem incorrer no risco de instituir um quadro confuso e até mesmo contraditório. Isso sinalizava para o reconhecimento de que seria necessário maior investimento nas pesquisas sobre essas sociedades para que tais temáticas pudessem ser inclusas no programa do componente curricular.

O ensino da Geografia Antiga seguia o mote da geografia moderna, mas trazia como diferencial a mobilização do método histórico, com o intuito de referendar o tratamento da cartografia e da historiografia produzida pelos antigos. Sobre este método o docente considerou:

Talvez ao método seguido no aproveitamento de tão preciosos materiais, e ao emprego prematuro das generalizações em conhecimentos tão pouco elucidados nos seus pormenores. A ciência histórica, antes de proceder por traços largos, confia à crítica minuciosa e paciente o cuidado de preparar os elementos que ela deve aproveitar, de discutir-lhes o valor e a autenticidade. Verdade é que esta crítica não interessa ao público em geral, mal preparado para segui-la em suas laboriosas investigações e incapaz de apreciar as dificuldades e o proveito de semelhante trabalho; mas por mais modesto que seja o seu papel, e por pouco interessante que ela pareça em relação ao historiador, não deixa de ser o seu auxiliar indispensável, que o guia e o anima, que o detém nos seus transviamentos, condu-lo à verdade quando ele a esquece ou desconhece; finalmente reserva para si o direito de censurá-lo, quando ele, caminhando só e apartado dos seus conselhos, se aventura sob pretexto de filosofia ou de inspiração profética nos caminhos do erro ou do paradoxo (MONSERRATE, 1877c, p. 472MONSERRATE, Frei Camillo de. Antiguidades americanas. In: GALVÃO, Benjamin Franklin Ramiz. Frei Camillo de Monserrate: estudo biográphico. Annaes da Bibliotheca Nacional do Rio de Janeiro, v. 12. Rio de Janeiro: Lauringer & Filhos, 1887c. p. 473-517.).

Frei Camillo de Monserrate discorreu sobre a fundamentação do método histórico no tratamento das peças documentais. Antes de elaborar as generalizações acerca das sociedades, era necessário acionar à crítica dos testemunhos, discutindo questões como a autenticidade das fontes e a veracidade das informações. No bojo de uma cultura política imperial em construção, fomentar a formação de uma elite letrada pautada nos princípios científicos era uma necessidade basilar. Segundo o argumento do docente, a questão da crítica histórica não chegava a interessar ao grande público, que desconhecia os seus procedimentos.

Todavia, isso não isentava da necessidade de enverar o método em sala de aula, na formação dos eruditos que iriam ocupar cargos públicos no Império do Brasil. A cada aula, o docente elencava elementos que demandavam o uso da crítica dos escritos dos antigos historiadores. Era esse procedimento que provocava o deslocamento entre o campo de suspeitas e incertezas para a questão da verdade. A crítica, no entender do docente, era o princípio revelador da maturidade científica e da produção do conhecimento acerca de uma sociedade. Nesse aspecto as sociedades americanas ainda eram devedoras:

A ciência da antiguidade americana, a nosso ver, não atingiu ainda ao ponto de madureza a que chegará um dia sem dúvida com o poderoso auxílio do Sr. Brasseur. Ela não está bastante segura de si mesma para caminhar com o passo da história clássica de Atenas ou de Roma, as quais aliás reclamam todos os dias o socorro da erudição paciente para esclarecer-se no meio dos obstáculos e das dúvidas que as embaraçam: não têm mesmo todos os recursos de que dispõem os que com estudo laborioso e difícil avançam lentamente no campo das antiguidades do Egito, da Assíria e da Índia (MONSERRATE, 1877c, p. 476MONSERRATE, Frei Camillo de. Antiguidades americanas. In: GALVÃO, Benjamin Franklin Ramiz. Frei Camillo de Monserrate: estudo biográphico. Annaes da Bibliotheca Nacional do Rio de Janeiro, v. 12. Rio de Janeiro: Lauringer & Filhos, 1887c. p. 473-517.).

A exclusão das antigas sociedades americanas entre os conteúdos de Geografia Antiga pelo professor Camillo de Monserrate foi em decorrência de uma premissa epistemológica situacional. As palavras do letrado eram reveladoras que de que a “ciência da antiguidade americana” ainda não se encontrava equiparada com a de outros povos, notadamente o das sociedades clássicas. Todavia, o autor foi contundente ao afirmar que certamente chegaria o momento no qual o conhecimento acerca das sociedades americanas estaria equiparado ao que prevalecia em relação às do velho mundo.

A ciência, assim como o componente curricular do Imperial Colégio de Pedro II, encontrava-se em processo de constituição, por meio do investimento em pesquisas que pudessem subsidiar a produção historiográfica que norteasse o ensino pautado na elucidação de quadros gerais, na crítica dos testemunhos e no cotejo entre diferentes experiências. Nesse sentido, o próprio deslocamento do professor Camillo de Monserrate como erudito preocupado com a crítica e sistematização das línguas das antigas sociedades americanas pode ser entendido como um indício de uma ambição pessoal em amplificar a Geografia Antiga para as plagas americanas. Um projeto que impactaria na difusão da cultura política imperial e foi suprimido com a sua saída do Imperial Colégio de Pedro II nos idos de 1855.

Considerações finais

Neste artigo analisei o ensino de Geografia Antiga no Colégio de Pedro II a partir dos registros de planejamento do professor frei Camillo de Monserrate. Arqueólogo com formação em importantes instituições francesas, o docente elaborou um plano no qual as antigas civilizações eram aludidas como instrumento para fomentar a formação dos jovens que iriam atuar no corpo burocrático da corte.

Os registros produzidos pelo docente elucidam um currículo que se encontrava coadunado com o projeto político de forjar uma identidade nacional pautada na concepção de civilização. O futuro da nação deveria ser localizado em outro espaço e outro tempo, no velho mundo e nas sociedades antigas. Com isso, em busca de inspiração para edificar a civilização nos trópicos, os letrados olhavam para o passado. Não propriamente o passado do país, mas o passado da civilização, mobilizando a noção de história universal, na qual o mundo marchava para o progresso.

O plano de curso elaborado por frei Camillo de Monserrate também expressava uma dimensão erudita, na qual o aluno aprenderia pelas dificuldades em mobilizar os textos oriundos da lavra de autores antigos, como Estrabão, Políbio, Plutarco e Heródoto. Neste sentido, o docente explicitava uma formação que possibilitava o contato os chamados grandes homens, pensadores que tinham trajetórias que poderiam ser mobilizadas como modelos no tempo presente. Com isso, a Geografia Antiga emergia no currículo como uma disciplina irmã da história e que consolidaria a base de conhecimento atinente ao mundo antigo. No Brasil imaginado como herdeiro do mundo civilizado, dos bancos escolares do Pedro II ecoavam as narrativas sobre o nascedouro da civilização. Clio e Atlas exortavam ações contíguas de invenção do Império do Brasil.

  • 1
    Neste artigo mobilizo o termo “sociedades clássicas” para designar a história da Grécia e Roma antigas a partir da própria definição que de forma recorrente aparecia nos livros escolares de História.
  • 2
    Na disciplina de Língua Inglesa, o livro didático adotado era History of Rome, de Goldsmith.
  • 3
    Como docente da disciplina, Monserrate contribuiu para a definição do programa e defendeu que, a partir do desenvolvimento de pesquisas sobre as antigas sociedades americanas, o currículo passasse a contemplar esses conteúdos. Nesse caso, não desconsidero o papel da congregação na chancela do currículo, mas ressalto o docente como uma autoridade no assunto que fez proposições sobre a reformulação curricular.
  • 4
    CALÓGERAS, João Baptista. Fr. Camillo de Monserrate. Jornal do Commércio, Rio de Janeiro, n. 324, 24 nov. 1870, p. 2.
  • 5
    CALÓGERAS, João Baptista. Fr. Camillo de Monserrate. Jornal do Commércio, Rio de Janeiro, n. 324, 24 nov. 1870, p. 2.
  • 6
    Idem.
  • 7
    Ele adotou o nome religioso de Camillo de Monserrate após o ingresso no Mosteiro de São Bento, já vivendo no Brasil a partir de 1844.
  • 8
    CALÓGERAS, João Baptista. Fr. Camillo de Monserrate. Jornal do Commércio, Rio de Janeiro, n. 324, 24 nov. 1870, p. 2.
  • 9
    CALÓGERAS, João Baptista. Fr. Camillo de Monserrate. Jornal do Commércio, Rio de Janeiro, n. 324, 24 nov. 1870, p. 2.
  • 10
    JORNAL DO COMMERCIO. A comissão nomeada para examinar o archivo do Sr. Dr. Mello Moraes. Rio de Janeiro, n. 139, 19 maio 1872, p. 3.
  • 11
    CALÓGERAS, João Baptista. Fr. Camillo de Monserrate. Jornal do Commércio, Rio de Janeiro, n. 324, 24 nov. 1870, p. 2.
  • 12
    Sobre o ensino de História do Brasil no Colégio Pedro II oitocentista existe uma farta historiografia, com destaque para Hansen (2000)HANSEN, Patrícia Santos. Feições & fisionomias: a História do Brasil de João Ribeiro. Rio de Janeiro: Access, 2000., Mattos (2000)MATTOS, Selma Rinaldi de. O Brasil em lições: a História como disciplina escolar em Joaquim Manuel de Macedo. Rio de Janeiro: Access, 2000., Gasparello (2004)GASPARELLO, Arlette Medeiros. Construtores de identidades: a pedagogia da nação nos livros didáticos da escola secundária brasileira. São Paulo: Iglu, 2004. e Melo (2008)MELO, Ciro Flávio de Castro Bandeira de. Senhores da História e do esquecimento: a construção do Brasil em dois manuais didáticos de História na segunda metade do século XIX. Belo Horizonte: Argumentum, 2008..
  • 13
    A questão da presença da história sagrada nos conteúdos de Geografia Antiga é complexa e marcada por uma vasta documentação. É um enfretamento que pode ser observado em uma análise que evidencie exclusivamente esse problema, por meio do cotejo entre a dimensão religiosa do currículo do Pedro II e a dimensão pessoal do autor, religioso da Ordem de São Bento.

Referências

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Editoras responsáveis: Hanna Sonkajärvi e Luiza Larangeira

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    05 Abr 2024
  • Data do Fascículo
    2024

Histórico

  • Recebido
    11 Jan 2023
  • Aceito
    31 Jul 2023
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