Resumo
Este artigo visa apresentar alguns resultados derivados da pesquisa de 783 autos de
notificação, custodiados pelo Arquivo Histórico da Casa Setecentista (AHCS), em
Mariana (MG). Os dados trabalhados, atinentes ao período de 1711 a 1888, foram
obtidos através do uso de variáveis estabelecidas numa ficha de coleta em formato
eletrônico. Através dos resultados já obtidos, é possível apontar hipóteses sobre o
funcionamento da Justiça no termo de Mariana.
notificações; Minas Gerais; Justiça.
Abstract
This paper aims to present some results derived from a research on 783 notification
acts that are kept by Arquivo Histórico da Casa Setecentista, in Mariana, Minas
Gerais. The data, referring to the period 1711-1888, were obtained through the
adoption of variables established in an electronic form. Through the results already
reached, it is possible to point out some hypotheses about the inner workings of
Justice in the Mariana region.
notifications; Minas Gerais; Justice.
1
HESPANHA, António Manuel. As vésperas do Leviathan. Coimbra:
Almedina, 1994. Na mesma linha, CARDIM, Pedro. Cortes e cultura política no
Portugal do Antigo Regime. Lisboa: Cosmos, 1998; "Administração" e
"governo": uma reflexão sobre o vocabulário do Antigo Regime. In: BICALHO, Maria
Fernanda; FERLINI, Vera Lúcia Amaral (Org.). Modos de governar. São
Paulo: Alameda, 2005. p. 45-68. Numa perspectiva parcialmente distinta e voltada para
o século XVIII, MONTEIRO, Nuno Gonçalo. Elites e poder. Lisboa: ICS,
2003.
2
Por exemplo, BICALHO, Maria Fernanda; FERLINI, Vera Lúcia Amaral (Org.).
Modos de governar, op. cit.
3
PRADO JR., Caio. Formação do Brasil contemporâneo. 12. ed. São
Paulo: Brasiliense, 1972; NOVAIS, Fernando Antônio. Portugal e Brasil na
crise do Antigo Sistema Colonial. 4. ed. São Paulo: Hucitec, 1986;
MAXWELL, Kenneth. A devassa da devassa. 3. ed. Rio de Janeiro: Paz e
Terra, 1985; ALENCASTRO, Luiz Felipe de. O trato dos viventes. São
Paulo: Companhia das Letras, 2000; FRAGOSO, João; FLORENTINO, Manolo. O
arcaísmo como projeto. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001; e
FURTADO, Júnia Ferreira. Homens de negócio. São Paulo: Hucitec,
1999.
4
Antonio Manuel Hespanha tratará de críticas dessa natureza ao comentar as observações
tecidas por Laura de Mello e Souza. SOUZA, Laura de Melo. O sol e a sombra: política
e administração do Império português no século XVIII. São Paulo: Companhia das
Letras, 2006. HESPANHA, Antonio Manuel. Depois do Leviatã. Almanack Brasiliense, n.
5, maio 2007
5
Por exemplo, e apesar das diferenças que os separam, IGLÉSIAS, Francisco. Minas e a
imposição do Estado no Brasil. Revista de História, São Paulo, n. 100, p. 257-273,
out./dez. 1974; SOUZA, Laura de Mello e. Desclassificados do ouro. 2. ed. Rio de
Janeiro: Graal, 1986; Norma e conflito. São Paulo; Belo Horizonte: Companhia das
Letras; Ed. da UFMG, 1999; BOSCHI, Caio César. Os leigos e o poder. São Paulo: Ática,
1986; FURTADO, Júnia Ferreira. O Livro da Capa Verde. São Paulo: Annablume, 1996;
FIGUEIREDO, Luciano Raposo. Barrocas famílias. São Paulo: Companhia das Letras,
1997.
6
HOLANDA, Sérgio Buarque de. Metais e pedras preciosas. In: _____ (Ed.). A época
colonial - administração, economia, sociedade. Rio de Janeiro: Difel, 1982. v. II, p.
259-310. (História geral da civilização brasileira).
7
SOUZA, Laura de Mello e. Desclassificados do ouro. Sobre a caracterização das Minas
como uma sociedade perpassada pela instabilidade. Ver também SILVEIRA, Marco Antonio.
O universo do indistinto. São Paulo: Hucitec, 1997.
8
ANASTASIA, Carla Maria Junho. Vassalos rebeldes. Belo Horizonte: C/Arte, 1998; A
geografia do crime. Belo Horizonte: Ed. da UFMG, 2005; ROMEIRO, Adriana. Paulistas e
emboabas no coração das Minas. Belo Horizonte: Ed. da UFMG, 2008. Também sobre as
primeiras décadas de ocupação das Minas, mas numa perspectiva diferente, CAMPOS,
Maria Verônica. Governo de mineiros. Tese (doutorado em história) - Universidade de
São Paulo, São Paulo, 2002. Sobre o exercício da justiça na capitania de Minas Gerais
na segunda metade do XVIII, e especialmente sobre as práticas faccionais dos
advogados, ANTUNES, Álvaro de Araújo. Espelho de cem faces. São Paulo; Belo
Horizonte: Annablume; PPGH/ UFMG, 2004; ANTUNES, Álvaro de Araújo. Fiat justitia: os
advogados e a prática da justiça em Minas Gerais (1750- 1808). Tese (doutorado em
história) - Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2005.
9
LEMOS, Carmem Silvia. A justiça local: os juízes ordinários e as
devassas da Comarca de Vila Rica (1750-1808). Dissertação (mestrado em história) -
Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2003; PIRES, Maria do Carmo.
"Em testemunho da verdade": juízes de vintena e o poder local na
Comarca de Vila Rica (1736-1808). Tese (doutorado em história) - Universidade Federal
de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2005; GOUVEIA, Maria de Fátima. Dos poderes de Vila
Rica do Ouro Preto. Notas preliminares sobre a organização político-administrativa na
primeira metade do século XVIII. Varia Historia, Belo Horizonte, n.
31, p. 120-140, jan. 2004. Para a região de Mariana, TERMO de Mariana: história e
documentação. Ouro Preto: Ed. da Ufop, 1988. v. 1; 2004. v. 2.
10
FIGUEIREDO, Luciano Raposo. O Império em apuros. Notas para o estudo das alterações
ultramarinas e das práticas políticas no Império Colonial Português, séculos XVII e
XVIII. In: FURTADO, Júnia Ferreira. Diálogos oceânicos. Belo
Horizonte: Ed. da UFMG, 2001. p. 197-254; ROMEIRO, Adriana. Um visionário na
corte de d. João V. São Paulo: Companhia das Letras, 2001; e FURTADO,
João Pinto. O manto de Penélope. São Paulo: Companhia das Letras,
2002.
11
ZEMELLA, Mafalda. O abastecimento da capitania de Minas Gerais no século
XVIII. São Paulo: Hucitec, 1990; MAXWELL, Kenneth. A devassa da
devassa, op. cit.; MAGALHÃES, Beatriz Ricardina. La societé
ouropretaine selon les inventaires "post-mortem" (1740-1770). Tese
(doutorado em história) - Universidade Paris VI, Paris, 1985; FIGUEIREDO, Luciano
Raposo. O avesso da memória. Rio de Janeiro; Brasília: José Olympio;
Edunb, 1993; CHAVES, Cláudia Maria das Graças. Perfeitos
negociantes. São Paulo: Annablume, 1999; CARRARA, Angelo Alves.
Minas e currais: produção rural e mercado interno em Minas
Gerais, 1674-1807. Juiz de Fora: Editora da UFJF, 2007.
12
FURTADO, Júnia Ferreira. Homens de negócio, op. cit.;
Diálogos oceânicos, op. cit.
13
LENHARO, Alcir. As tropas da moderação. São Paulo: Símbolo, 1979;
SILVA, Wlamir. Liberais e povo. Tese (doutorado em história) -
Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2002; SILVA, Ana Rosa Cloclet. Identidades
políticas e a emergência do novo Estado nacional: o caso mineiro. In IANCSÒ, István
(Org.). Independência do Brasil: história e historiografia. São
Paulo: Fapesp; Hucitec, 2005. p. 551-555.
14
MARTINS, Roberto Borges. Growing in silence. Tese (doutorado em
história) - Vanderbilt University, 1980; SLENES, Robert. Os múltiplos de porcos e
diamantes: a economia escravista de Minas Gerais no século XIX. Cadernos IFCH,
Unicamp, n. 17, 2005; LIBBY, Douglas Cole. Transformação e trabalho em uma economia
escravista. São Paulo: Brasiliense, 1988; PAIVA, Clotilde Andrade. População e
economia nas Minas Gerais do século XIX. Tese (doutorado em história) - Universidade
de São Paulo, São Paulo, 1996.
15
SOUZA, Manuel Inácio de Mello e. A administração da justiça em Minas Gerais (1827).
Revista do Arquivo Público Mineiro, v. 3, 1898, p. 55-22.
16
MATTOS, Ilmar Rohlof de. O tempo saquarema. São Paulo: Hucitec, 1987. p. 183.
17
CARVALHO, José Murilo de. A construção da ordem. Rio de Janeiro: Campus, 1980. p.
21.
18
DOLHNIKOFF, Miriam. O pacto imperial. São Paulo: Globo, 2005. p. 11.
19
VELLASCO, Ivan de Andrade. As seduções da ordem. Bauru (SP): Edusc,
2004.
20
O presente artigo traz alguns dados do projeto "Notificações de Mariana e Ouro Preto
(1711-1888): banco de dados e inventário analítico". O projeto recebeu apoio da
Fapemig e foi coordenado pelos professores Álvaro de Araujo Antunes e Marco Antonio
Silveira. Atualmente, Silveira desenvolve com o apoio do CNPq uma análise das
notificações em perspectiva comparada.
21
Para uma investigação mais profunda sobre as notificações, ver COSTA, Wellington
Júnio Guimarães da. As tramas do poder: as notificações e a prática
da justiça nas Minas setecentistas. Dissertação (mestrado em história) - Universidade
Federal de Ouro Preto, Mariana, 2011.
22
A querela consistia numa investigação criminal originada pela denúncia de um ou mais
ofendidos. Correspondia, na verdade, a uma primeira fase de investigação, baseada na
escuta de algumas poucas testemunhas, podendo redundar, em caso de pronúncia, na
instauração de um libelo-crime, processo aprofundado no qual o réu seria livrado ou
condenado. A devassa, por sua vez, consistia numa investigação criminal que não se
originava da denúncia de um ou mais ofendidos, mas, sim, da obrigação
ex-oficio que o juiz tinha de conhecer dos casos que lhe eram
noticiados. Normalmente, após a escuta de trinta testemunhas, havendo pronunciado,
dava-se início ao libelo-crime. Na prática, portanto, querelas e devassas
correspondiam à fase de investigação que posteriormente foi atribuída aos delegados
de polícia.
23
Como se sabe, os testamentos implicavam a descrição relativamente sumária dos bens e
das vontades de legação de uma determinada pessoa, tendo como fundamento a legislação
vigente. Nesse sentido, visavam legalizar a transferência do patrimônio de uma
geração a outra por ocasião dos falecimentos. Os inventários, por seu turno,
consistiam na listagem e avaliação dos bens de um defunto ou de alguém desprovido da
capacidade de administrá-los, visando o cumprimento dos títulos estabelecidos nos
testamentos e a distribuição adequada da herança e do patrimônio.
24
Os libelos cíveis eram ações centradas em matérias variadas, geralmente de caráter
patrimonial. Constituíam-se, em linhas gerais, pela exposição articulada de motivos,
feita tanto por autor quanto por réu, pela anexação de documentos, pelas razões dos
advogados das partes e pela sentença final.
25
O termo "camadas intermediárias" é genérico e, por isso mesmo, insuficiente. No
entanto, é utilizado neste artigo para designar grupos e indivíduos que tinham acesso
a formas de propriedade, fossem terras ou escravos, distinguindo-se, por um lado, dos
setores efetivamente abastados e, por outro, daqueles desprovidos de bens. Embora
seja difícil circunscrever empiricamente, através das notificações, os limites das
"camadas intermediárias", a recorrência com que os autos se referem a testamentos,
inventários e dívidas sinaliza a atuação neles de pequenos e médios
proprietários.
26
AHCS, 2o ofício, códice 178, auto 4.414, ano 1743, fl. 3. Optou-se por
atualizar a grafia e a pontuação dos documentos citados.
27
AHCS, 2o ofício, códice 171, auto 4.158, ano 1730.
28
AHCS, 2o ofício, códice 175, auto 4.290, ano 1819, fl. 4.
29
Arquivo Histórico da Casa Setecentista (AHCS), 2º ofício, códice 174, auto 4255, ano
1825.
30
Sobre as "sobreposições possessórias", ver SILVEIRA, Marco Antonio. Fama
pública. Tese (Doutorado em História) - Universidade de São Paulo, São
Paulo, 2000, em particular o cap. "Os bens da viúva: patrimônio, troca e magia".
31
Sobre os juízes de fora de Mariana, ver SOUZA, Débora Cazelato. Administração
e poder local: a Câmara de Mariana e seus juízes de fora (1730-1777).
Dissertação (mestrado em história) - Universidade Federal de Ouro Preto, Mariana,
2011.
32
Carmem Silvia Lemos apurou que, num total de 122 devassas, 82 (67,20%) foram
procedidas por juízes ordinários não letrados, mas somente dez deles, ou seja, 8,19%,
não fizeram uso explícito de um assessor letrado. LEMOS, Carmem Silvia. A
justiça local: os juízes ordinários e as devassas da Comarca de Vila Rica
(1750-1808), op. cit. p. 68-71.
33
ANTUNES, Álvaro de Araújo. Fiat justitia: os advogados e a prática
da justiça em Minas Gerais (1750-1808). Tese (doutorado em história) - Universidade
Estadual de Campinas, Campinas, 2005.