A ditadura nas representações verbais e visuais da grande imprensa: 1964-1969

Rodrigo Patto Sá Motta Sobre o autor

Resumos

O artigo consiste em estudo das representações divulgadas pela grande imprensa do eixo Rio-São Paulo sobre o regime militar em sua fase inicial, o período entre 1964 e 1969. Para analisar os discursos emitidos pelos seis diários enfocados na pesquisa foram privilegiados os textos dos editoriais e as caricaturas políticas, elementos que se destacam em meio às representações visuais e verbais dos jornais. O propó- sito é perceber melhor as ambiguidades da imprensa que, cindida entre o amor à liberdade e a devoção à ordem, adotou atitudes tanto de apoio quanto de crítica ao Estado autoritário.

ditadura; imprensa; caricatura; representações; política.


The article focuses on Rio and São Paulo media representations concerning the military regime in its initial phase, from 1964 to 1969. e analysis takes into consideration the editorials and the political cartoons published by six daily newspapers examined in the research. is study o-ers a better understanding of the paradoxical attitudes of the daily press. Split between love for liberty and devotion to social order, the newspapers were both supportive and critical of the dictatorship.

dictatorship; press; caricature; representations; politics.


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    1 A pesquisa é financiada pelo CNPq (Bolsa de Produtividade) e pela Fapemig (Programa Pesquisador Mineiro). Agradeço a contribuição dos bolsistas de Iniciação Científica que trabalharam no projeto (Aline Lemos, Izadora Fernando e Getúlio Mendes) e a dos que se engajaram nele recentemente ( aís Junqueira e Camila Monção).
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    2 Sobre tiragens, circulação e reformas na grande imprensa do período, BAHIA, Juarez. Jornal, história e técnica. História da imprensa brasileira. 4. ed. São Paulo: Ática, 1990; BARBOSA, Marialva. História cultural da imprensa no Brasil, 1900- 2000. Rio de Janeiro: Mauad X, 2007; ABREU, Alzira A. de. A imprensa em transição: o jornalismo brasileiro nos anos 50. Rio de Janeiro: FGV, 1996; RIBEIRO, Ana Paula Goulart. Modernização e concentração: a imprensa carioca nos anos 1950- 1970. In: NEVES, Lúcia M. B.; MOREL, Marco; FERREIRA, Tania M. B. (Org.). História e imprensa: representações culturais e práticas de poder. Rio de Janeiro: Faperj; DP&A, 2006. p. 426-435.
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    3 REIS FILHO, Daniel Aarão. Ditadura militar, esquerdas e sociedade. 2. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2002, e também os trabalhos reunidos na coletânea organizada por Denise Rolemberg e Samantha Quadrat: A construção social dos regimes autoritários: legitimidade, consenso e consentimento no século XX. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010.
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    4 BAHIA, Juarez. Jornal, história e técnica, op. cit. p. 372.
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    5 No entanto, ambos abordaram a fase da ditadura super cialmente, já que foram escritos em fins dos anos 1960. SODRÉ, Nelson Werneck. História da imprensa no Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1966 e BAHIA, Juarez. Jornal, história e técnica, op. cit.
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    6 Eis as referências completas: CAPELATO, Maria Helena. Os arautos do liberalismo: 1920-45. São Paulo: Brasiliense, 1989; CAPELATO, Maria Helena; PRADO, Maria Lígia. O bravo matutino: imprensa e ideologia no jornal O Estado de S. Paulo. São Paulo: Alfa-Ômega, 1980; MOTA, Carlos Guilherme; CAPELATO, Maria Helena. História da Folha de S.Paulo (1921- 1981). São Paulo, 1980; KUSHNIR, Beatriz. Cães de guarda. Jornalistas e censores, do AI-5 à Constituição de 1988. São Paulo: Boitempo, 2004; AQUINO, Maria Aparecida. Censura, imprensa, Estado autoritário (1968-1978): o exercício cotidiano da dominação e da resistência: O Estado de S. Paulo e Movimento. Bauru: Edusc, 1999. Aquino foi uma das poucas autoras a analisar mais de um periódico.
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    7 ABREU, Alzira Alves de; LATTMAN-WELTMAN, Fernando; KORNIS, Monica. Mídia e política no Brasil: jornalismo e ficção. Rio de Janeiro: FGV, 2003; ABREU, Alzira A. de. A imprensa em transição, op. cit.; BARBOSA, Marialva. História cultural da imprensa no Brasil, 1900-2000, op. cit.; RIBEIRO, Ana Paula Goulart. Modernização e concentração, op. cit.
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    8 Não se questiona a importância das pesquisas sobre a imprensa alternativa, e neste campo há trabalhos muito bons, listados a seguir. No entanto, a grande imprensa deveria receber igual ou maior atenção, devido ao fato de atingir público maior. BRAGA, José Luiz. O Pasquim e os anos 70: mais pra epa que pra oba... Brasília: Ed. UnB, 1991; CHINEM, Rivaldo. Imprensa alternativa: jornalismo de oposição e inovação. São Paulo: Ática, 1995; KUCINSKI, Bernardo. Jornalistas e revolucionários, nos tempos da imprensa alternativa. 2 ed. São Paulo: Edusp, 2003.
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    9 SILVA, Marcos. Caricata República. São Paulo: Marco Zero, 1990; LUSTOSA, Isabel. Histórias de presidentes: a República no Catete. Petrópolis: Vozes, 1989. Em anos recentes, alguns historiadores produziram teses sobre o tema, como Elio Flores (República às avessas: narradores do cômico, cultura política e coisa pública no Brasil contemporâneo) e Maria Francisca Pires (Cultura e política: entre Fradins, Zeferinos, Graúnas e Orelanas).
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    10 HABERMAS, Jürgen. Mudança estrutural da esfera pública. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1984.
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    11 No caso das caricaturas, sua influência efetiva sobre o debate político se verifica nos casos de figuras inventadas para atacar, respectivamente, Carlos Lacerda e a direita militar: o "corvo" e o "gorila". Essas duas construções caricaturais produziram resultados profundos e duradouros, ao ponto de os grupos atingidos pela zombaria terem se mobilizado para dar resposta aos atacantes, principalmente por meio da estratégia de se apropriar daquelas representações para alterar seu conteúdo crítico. MOTTA, Rodrigo Patto Sá. Jango e o golpe de 1964 na caricatura. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2006.
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    12 O caso mais célebre ocorreu em 1970, quando uma edição d'O Pasquim estampou, na capa, charge que fazia troça de D. Pedro I e do 7 de Setembro. A edição foi recolhida e os jornalistas permaneceram na cadeia por alguns dias. Em 1964, o chargista Claudius também foi detido, em represália a suas críticas contra os militares.
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    13 BAHIA, Juarez. Jornal, história e técnica, op. cit. p. 372-373. Deve-se abrir exceção para o caso de Última Hora, que tinha grande penetração popular, embora fosse lido por segmentos de elite também.
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    14 GOMBRICH, Ernst. O arsenal do cartunista. In: GOMBRICH, Ernst. Meditações sobre um cavalinho de pau e outros ensaios sobre teoria da arte. São Paulo: Edusp, 1999. A filiação de Gombrich à escola da iconologia pode ser questionada, mas, de qualquer forma, ele pertencia ao Instituto Warburg, local onde ela se originou.
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    15 PANOFSKY, Erwin. Estudos de iconologia. Lisboa: Estampa, 1986. Além de Panofsky, outros nomes do Instituto Warburg são referências importantes para estas reflexões, como Ernst Gombrich e Michael Baxandall. Para um balanço sobre os mé- ritos e limites da iconologia e da semiologia, ver: BURKE, Peter. Testemunha ocular. História e imagem. Bauru, SP: Edusc, 2004. p. 213-223.
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    16 O conceito de ancoragem foi desenvolvido por BARTHES, Roland. Rhétorique de l'image. In: BARTHES, Roland. Oeuvres complètes. Tome II. Paris: Éditions du Seuil, 2002. p. 573-588.
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    17 LIMA, Herman. História da caricatura no Brasil. Rio de Janeiro: José Olympio, 1963. p. 6-9.
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    18 Ver editoriais das seguintes edições: 11/4, 14/4 e 14/5/1964.
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    19 MOTTA, Rodrigo Patto Sá. Jango e o golpe de 1964 na caricatura, op. cit.
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    20 Editorial de 21/4/1964, "Os postulados da Revolução".
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    21 A interpretação de que os pinos de boliche derrubados na figura 11 representam os professores e cientistas aposentados na USP e no Instituto Butantã deve-se à data, à menção ao art. 7o do Ato Institucional (na bola), e também ao uso de convenções gráficas para representar homens do saber (os óculos, as barbas). Note-se que havia também alguns ratos negros entre os pinos derrubados, provavelmente para sugerir a presença de corruptos entre os expurgados.
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    22 Em uma de suas raras críticas a Castelo Branco, o jornal demandou maior cuidado do governo para trabalhar a opinião em favor do regime, sob o risco de perder a batalha para os propagandistas da oposição. A iniciativa de publicar matérias sensacionalistas sobre os derrotados de 1964 leva à conclusão de que o jornal resolveu fazer sua parte nesse combate.
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    23 Edições de 9/5, 16/5, 23/5, 25/5, 18/6 e 23/6/1964. Embora não tenha a intenção de analisar a fundo o tema da recep- ção/apropriação das representações jornalísticas, vale a pena citar o resultado de uma pesquisa de opinião feita pelo Ibope em São Paulo, em maio de 1964. Ante a pergunta se achavam acertada ou errada a cassação de mandato dos deputados comunistas, 74% dos entrevistados responderam afirmativamente. Ao mesmo grupo foi perguntado se achava acertada ou errada a prisão de sindicalistas ligados aos comunistas, e a resposta de 72% dos entrevistados foi positiva. Os resultados da pesquisa estão no acervo do Arquivo Edgar Leuenroth (Unicamp).
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    24 Publicado em 18/4/1964.
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    25 Edições de 23/5/1964 e 8/1/1969.
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    26 Editoriais de 8/10 e 19/10/1965. Importante aduzir que O Globo havia rompido violentamente com Carlos Lacerda, cuja imagem procurava demolir por essa época (1965 e 1966) ao publicar matérias acusando-o de corrupção. Portanto, para esse jornal não existia a opção eleitoral do líder civil mais identi cado com o golpe de 1964, de modo que as eleições diretas significavam derrota certa para O Globo.
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    27 Editorial de 20/3/1967.
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    28 LAURENZA, Ana Maria de Abreu. Batalhas em letra de forma: Chatô, Wainer e Lacerda. In: LUCA, Tania Regina de; MARTINS, Ana Luiza (Org.). História da imprensa no Brasil. São Paulo: Contexto, 2008. p. 203.
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    29 WAINER, Samuel. Minha razão de viver. Rio de Janeiro: Record, 1980. Alguns editoriais de UH em 1964 mostraram, efetivamente, uma disposição para acomodação com o novo regime. Wainer viveu no exílio durante vários anos depois do Golpe, de modo que não era tão simples controlar a linha editorial de seu jornal, já que não podia acompanhar o dia a dia da redação.
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    30 No caso da figura 22, note-se que o troglodita/gorila "cassa" com dois "s" em vez do "ç".
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    31 Vale notar a suástica no braço do delegado e seu bigodinho ao estilo de Hitler (na figura 25) e a referência ao Esquadrão da Morte (EM) no camburão policial que aparece na figura 24.
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    32 Na figura 27, o baixinho de costas é Castelo Branco (por causa do pescoço atarracado) e também pela ironia com "Castle Filmes". A ironia é sutil, mas o conteúdo político é grave, a sugestão de que o presidente tinha relações estreitas com os norte-americanos e seus dólares.
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    33 O deputado federal Márcio Moreira Alves, do MDB, fez um discurso agressivo contra o Exército na Câmara dos Deputados, por isso a tentativa do governo de puni-lo, o que demandava a suspensão das imunidades parlamentares com aprovação do Congresso. Os textos a mencionarem o caso, em geral, destacam que a parte mais polêmica do discurso foi quando sugeriu às mulheres boicotarem os jovens oficiais. No entanto, o ponto que realmente desagradou os militares foi a afirmação de que o Exército havia se transformado em "valhacouto de torturadores". Editorial de O Estado de S. Paulo, 5/11/1968.
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    34 O cuidado em cultivar bom relacionamento com os governos autoritários, provavelmente, tinha relação com o período estrategicamente importante vivido pela empresa, que, então, construía seu império midiático.
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    35 Logo a seguir entrariam em ação os censores profissionais da Divisão de Censura da Polícia Federal, embora o governo sempre negasse a existência de censura de natureza política. Formalmente, a legislação do regime militar garantia a liberdade de imprensa, salvo em situações de atentado à moral e aos bons costumes e de propaganda de ideias visando à subversão da ordem. Na prática, a censura à imprensa foi realizada de maneira informal, ao arrepio do aparato legal.
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    36 O Estadão defendia que o deputado merecia punição para desagravar a honra militar (editorial de 5/11/1968) e, com isso, pagava tributo a suas ligações nos meios castrenses. Mas o jornal entendia que o caso não justificava o choque com o Congresso e uma crise de tamanhas proporções.
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    37 Editoriais de 11/2 e 25/1/1969.
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    38 ANDRADE, Je-erson de; SILVEIRA, Joel. Um jornal assassinado: a última batalha do Correio da Manhã. Rio de Janeiro: José Olympio, 1991. p. 42-44.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    Jan-Jun 2013

Histórico

  • Recebido
    19 Dez 2012
  • Aceito
    26 Mar 2013
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