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A filantropia e o projeto de afirmação do mundo branco: An American Dilemma e o antirracismo liberal

Philanthropy and the Project of the White World Affirmation: An American Dilemma and Liberal Anti-Racism

La Filantropía y el proyecto de afirmación del mundo blanco: An Americam Dilema y el antirracismo liberal

Morey, Maribel. White Philanthropy: Carnegie Corporation’s An American Dilemma and the Making of a White World Order.Chapel Hill: Th e University of North Carolina Press, 2021. 317

White Philanthropy, de Maribel Morey, é um livro ambicioso. A autora, historiadora estadunidense de origem cubana, especialista das grandes fundações e organizações filantrópicas, e também diretora-fundadora do Miami Institute for the Social Sciences, ataca, em seu novo livro, um antigo e ainda vigente primado de leitura de An American Dilemma: The Negro Problem and Modern Democracy, um incontestável clássico das -ciências sociais, publicado em 1944.

Para Morey, esta monumental obra de mais de mil páginas, de responsabilidade do sociólogo e político sueco Gunnar Myrdal - também economista, laureado, posteriormente, com o Prêmio Nobel de Economia (1974) -, foi assumida pelas tendências políticas liberais como um dos símbolos mais adequados da almejada posição dominante dos Estados Unidos no pós-Segunda Guerra Mundial. An American Dilemma evidenciava, segundo essas tendências, a superioridade do projeto democrático estadunidense, sua potencial força hegemônica global, justamente por suas enormes capacidades morais, em particular, para solucionar o “problema negro”. Nesses termos, os Estados Unidos cumpririam, sim, a promessa de uma futura libertação racial, caso se alcançasse uma irrestrita assimilação sociocultural dos negros. Dependeria deste requisito, devido pelos negros, e solicitado aos brancos na forma de pressão e apoio, fazer o país avançar um certo princípio pátrio, supostamente presente no âmago de sua nacionalidade e no seu sentido “missionário” de origem: expandir as condições de igualdade para tornar a sua República sempre um lugar de oportunidades.

Para ela, assim como para a esquerda comunista, nos anos 1940, e para diversos setores da esquerda negra estadunidense, na segunda metade dos anos 1960, An American Dilemma era um livro sobre a reforma, em termos internacionais, dos princípios de dominação racial. Para essa avaliação, a pretensão primordial era aprimorar a administração do “problema negro” frente à democracia estadunidense, um modo de tornar as aspirações morais de liderança internacional do país menos flagrantemente contraditórias. Myrdal estava escrevendo para uma audiência que assistia à emergência de uma nova era de intervenção internacional, na qual a “assimilação” se tornaria um valor antirracista pelas próximas duas décadas, e a “questão racial”, um amplo tema de natureza geopolítica, fundamental para as nascentes instituições de Segurança Nacional, responsáveis pelas respostas à Guerra Fria.

Morey comprova, com o seu trabalho em arquivos da Carnegie Corporation e da grande filantropia e think tanks anglo-estadunidenses dos anos 1910 a 1940, que a percepção negra e de esquerda acerca de An American Dilemma - e que tão pouca relevância teve para a construção da fortuna crítica sobre a obra - estava materialmente correta. Originalmente, a Carnegie orientara o financiamento e a coordenação-geral do projeto para a construção de um ideal “beneficente” de reforma dos princípios de domínio racial, aplicável, de forma extensiva, também ao mundo colonial negro. Myrdal, ressalvadas algumas divergências de conteúdo e de estratégia com a direção do financiador, mantidas na redação final do livro, entregou o solicitado.

An American Dilemma seria parte de um projeto de longa duração de reformas dos princípios de dominação racial, em andamento desde os anos 1920. Para caracterizá-lo, Morey recorreu às teses de Ralph Ellison, célebre escritor negro, autor de O homem invisível (1952). Ellison aguardou vinte anos para publicar, no seu livro de ensaios, Shadow and Act (1964), uma resenha de An American Dilemma recusada, em 1944MYRDAL, Gunnar (with the Assistance of Richard Sterner and Arnold Rose). An American Dilemma: The Negro Problem and Modern Democracy. New York and London: Harper & Brothers Publishing, 1944., pela Antioch Review. A exemplo de outros intelectuais negros, ele tornou pública sua crítica apenas quando o Movimento dos Direitos Civis começava a esgotar sua energia cívica - bastante vinculada à exploração das expectativas de culpa e senso moral dos liberais estadunidenses; esgotamento que começava a levar consigo a excepcional receptividade positiva que An American Dilemma tivera nos anos 1940 e 1950. Para Ellison, Gunnar Myrdal, na construção de soluções sobre como aproximar a “América” do seu ideal democrático, considerava central que fossem observados quatro grandes princípios:

a) os Estados Unidos são e devem ser um país branco;

b) a negritude, consequentemente, deve ser extirpada da sociedade estadunidense, inclusive, por materializar uma “patologia social”, suscitada e sustentada pela exclusão;

c) a elevação do senso moral dos brancos em face dos ideais democráticos nacionais é necessária à integração racial, e os negros são dependentes desse aprimoramento moral, estando, portanto, alheios à sua própria liberação;

d) nos Estados Unidos, a cidadania é um efeito da assimilação ao ideal cultural nacional, à tradicionalidade WASP (branca, anglo-saxã e protestante).

Realizado durante a longa presidência (1922-1941) de Frederick P. Keppel na Carnegie Corporation, o projeto que deu origem a An American Dilemma era parte de um conjunto mais antigo de projetos colaborativos em ciências sociais que Keppel promoveu em resposta às metas expressas do fundador, Andrew Carnegie. Para este magnata, falecido em 1919, a meta permanente de seu complexo de organizações filantrópicas, sediadas nos EUA e na Inglaterra, seria assegurar a esses países e, particularmente, à sua população branca, um lugar de domínio estável e seguro na organização do mundo atlântico. A missão de Keppel, sob a estrita avaliação do conselho de curadores do complexo filantrópico Carnegie, era ajudar a engendrar uma ordem global de controle imperial e também doméstico, que respondesse a expectativas e ansiedades do mundo de elites anglo-estadunidenses de seu tempo. Em destaque, a busca por um modo de melhor administrar e sanar, através de formas limitadas de assimilação e poder, a crescente “consciência negra”, temida em suas demandas e por seu potencial efeito disruptivo, por autonomia e liberdade, tanto em África quanto nos Estados Unidos.

Na rede anglo-estadunidense da Carnegie, elites governamentais, dos serviços de inteligência, intelectuais e filantrópicas tentavam responder, insistindo na urgência de soluções “científicas”, às suas projeções de guerra racial, bem como aos desafios à supremacia branca e ao imperialismo europeu, presentes, para eles, na crescente consciência racial dos povos negros de ambos os lados do Atlântico. Por científicas entendia-se, sobretudo, as ciências sociais e seu aprimoramento técnico e teórico. Nessas disciplinas, esperava-se encontrar uma resposta para como educar a população negra no sentido da estabilidade e do consentimento com o poder, por meio de formas de dominação mais sofisticadas, a serem organizadas por uma renovada moralidade, paternalista e beneficente. A Carnegie, acompanhando a grande filantropia estadunidense de seu tempo, investiu pesadamente em um modelo educacional desenhado a partir do exemplo do Instituto Tuskegee, fundado em 1881 no Alabama e dirigido por Booker T. Washington. Essa instituição modelar estava devotada à formação técnica agrícola, industrial e de negócios para as massas, e em áreas de atividade em que os negros não ferissem as regras de segregação racial, nem ameaçassem as suas condições mais estruturais de submissão. A expectativa desses principais financiadores era formar uma classe de trabalhadores e uma pequena burguesia, nos EUA, acomodadas ao Jim Crow, e na África Colonial Britânica - como sugestão do que poderia ser realizado no restante do continente africano - formar esses mesmos segmentos para assegurar a vitalidade econômica e política da vida colonial entre os povos nativos.

Ao mesmo tempo em que a educação dos negros era um tópico de preocupação, a condição de vida dos brancos em África também; temia-se, especialmente, o enfraquecimento das capacidades de governo dessa população. É nesses termos, para Maribel Morey, que foram realizados os dois principais trabalhos precursores de An American Dilemma financiados pela Carnegie Corporation: The Poor White Problem in South Africa (1932) e An African Survey (1938). The Poor White, um grande inventário social das condições de vida dos brancos pobres sul-africanos, era parte de um esforço pelo controle do futuro da África do Sul. Para limitar e controlar as expectativas de poder e liberdade dos negros do país, pretendia-se, partindo da premissa de que a pobreza branca era um obstáculo ao argumento da superioridade racial, suscitar a elevação social dos brancos pobres, de maioria africâner. A aposta na ascensão social africâner tinha em vista dois objetivos: gerar aproximação social e aliança política com a população de origem inglesa e, assim, formar um bloco político branco unido - preferencialmente, sob liderança inglesa; em contrapartida a esse fortalecimento, e como alternativa aos emergentes projetos de apartheid, abrir concessões legais e sociais às demais populações não brancas da África do Sul.

An African Survey, desenvolvido para ser uma densa enciclopédia de nível acadêmico, um acervo de conhecimento técnico, cultural e político das Áfricas colonial britânica, francesa, belga e portuguesa, assim como Poor White, tinha como público-alvo formuladores de políticas e lideranças. An African Survey foi planejado pela Carnegie, com a redação final de Lord Hailey, a partir dos trabalhos da equipe da Chatham House, de Londres, para convencer os poderes coloniais de que eles partilhavam de problemáticas comuns que demandavam soluções comuns para a sobrevivência do imperialismo de seus estados na região; consideradas suas formas de dominação, que deveriam, especialmente, alcançar meios mais equilibrados e indiretos de obtenção do consentimento negro. An American Dilemma, destinado originalmente a convencer os formuladores políticos de seu papel “missionário” em desfazer o lugar do poder dos estados frente ao poder da União, uma tensão da política nacional desde a Guerra de Secessão, tomava de An African Survey seu modelo executivo e ético: de um lado, tratava-se de um grande projeto colaborativo de investigação em ciências sociais, formado por grandes equipes de trabalho, coordenado por um redator-final com credibilidade intelectual, experiência política e aceitação pelo establishment; de outro, tratava-se de convencer o público sobre os negros como um “problema social”, que os brancos estadunidenses, já reconciliados com a moralidade democrática pátria, poderiam resolver, finalmente produzindo uma solução federal para a questão, obtendo, assim, a concórdia entre os próprios brancos do país.

Gunnar Myrdal e Frederick Keppel discordavam sobre a melhor abordagem para alcançar essa concórdia. Keppel considerava imprescindível que a sensibilidade sulista fosse levada em consideração na construção de uma abordagem nacional para o “problema negro”, para ele, inefetiva sem a plena participação do Sul. Já Myrdal, considerava haver condições políticas para pressionar o Sul e esta seria a razão porque o livro, no tom e nas propostas, deveria se dirigir primordialmente aos New Dealers de Washington, bem como à “América não-sulista”. Embora An American Dilemma tenha sido escrito por Myrdal segundo a intenção de alcançar mais esse público, a obra incorporou parte dos alertas e exigências do financiador, especialmente na proposta de quais deveriam ser as prioridades dos formuladores políticos. O sociólogo sueco construiu toda uma classificação das formas de discriminação praticadas pelos brancos nos Estados Unidos, por ordem de dificuldade e facilidade em serem enfrentadas, especialmente considerados os limites de intervenção na política e no modo de vida sulista. Assim, Myrdal consolidou a posição de que a dessegregação dos espaços sociais e a mudança das regras de casamento deveriam estar entre as últimas prioridades, cabendo, em um primeiro momento, apostar na queda das restrições para o livre emprego e o acesso a crédito no mercado nacional.

Um enorme - e inesperado - sucesso editorial, An American Dilemma trouxe como sua grande aposta, na expressão feliz de David Lewering Lewis, o premiado bió-grafo de W.E.B. Du Bois, aquilo que seus críticos negros e de esquerda viram tornar-se rapidamente um verdadeiro “ópio dos liberais brancos”: a convicção de que os EUA são compostos por um povo profundamente moral, marcado pela culpa, por não fazerem justiça ao credo igualitário nacional com relação aos negros; e que o mínimo de coerência com esse credo poria o país, naturalmente, na condição ética superior de liderança de um mundo que assistia à degeneração dos projetos imperiais e do nazismo. Para essa mesma tendência de crítica, produto de uma nova era de florescimento do poder global dos Estados Unidos, An American Dilemma representava uma proposta de controle do potencial de violência e de instabilidade dos negros, cuja solução passaria pelo rebaixamento das suas pretensões culturais e políticas. Deveria haver assimilação à cultura WASP e sintonia com o gradualismo proposto no livro, considerado aceitável e socialmente seguro para a população branca crítica e indisposta, para se realizar a entrada negra no universo da cidadania e da cultura estadunidense.

An American Dilemma, porém, ficaria marcado sobretudo por acontecimentos que contrariavam essa perspectiva de um ataque gradual e crescente ao “problema negro”, adequado à sensibilidade racista da época. Assim, apesar dos esforços para que a sociedade reconhecesse que os esforços deveriam priorizar a abertura de espaços no mercado de trabalho e na esfera do consumo, o livro seria enfaticamente lembrado por estar entre as principais referências da decisão de 1954 da Suprema Corte sobre a legalidade da dessegregação escolar, um tema considerado menos prioritário segundo a proposta de Myrdal e da Carnegie Corporation. -Aliás, ainda mais enfaticamente lembrada seria a profunda exploração política que Martin Luther King fez da atribuída culpa moral estadunidense tratada no livro. Entretanto, mobilizando essa sensibilidade pública para temas, mais uma vez, menos prioritários em An American Dilemma. Primeiramente, abrindo uma frente de lutas contra a segregação de espaços públicos. E, posteriormente, reorientando o foco de todo um movimento de massas para os direitos civis e de voto, temas considerados entre os mais sensíveis e perigosos.

Aparentemente, em toda essa movimentação que tomava An American Dilemma como argumento, não havia uma crença consistente na “culpa moral branca” - seu uso era de natureza apenas tática. King, ao contrário de Myrdal, considerava o negro o verdadeiro compasso moral da sociedade estadunidense. E, como era a opinião de Ralph Ellison, duvidava-se que o racismo pudesse suscitar verdadeira culpa nas massas; daí, necessário recusar que o branco fosse o parâmetro moral e político da integração negra à sociedade dos Estados Unidos, conforme acreditava Myrdal - o tipo de conclusão, aliás, que ajudaria a inaugurar o movimento do Poder Negro.

White Philanthropy, de Maribel Morey, publicado somente após várias recusas de editoras, e que surgiu de uma pesquisa de dois anos de trabalho sabático sustentado por uma bolsa concedida pela Carnegie Corporation, insere-se em uma tradição, recentemente renovada, de trabalhos que investigam a dimensão geopolítica de projeto em que se realiza o racismo, ou, como ela prefere, na qual se promove a supremacia branca. Morey recupera e explica o desconforto que o fenômeno An American Dilemma causou no meio negro estadunidense, mal-estar que demandou duas décadas para começar a se liberar. E documenta como o projeto da Carnegie, em uma era de baixo financiamento, nos anos 1930, galvanizou, em um eixo unificado e com vultosos recursos, todo o campo especializado, reorientando-o politicamente ao, por exemplo, deslocar lideranças reconhecidas como W.E.B. Du Bois, cuja “Enciclopédia do negro” permaneceu, em razão de rompimentos pessoais e falta de recursos, inacabada.

O livro de Maribel Morey, enfim, é um desafio à contínua relevância de An American Dilemma dentro e também fora dos Estados Unidos - posto ter se tornado uma obra global, em suas aplicações por pesquisadores, políticos e financiadores internacionais -, particularmente enquanto uma referência de realização antirracista. Bem compreensível que seja essa a tônica. Afinal, White Philanthropy trata de como esse texto seminal foi construído a partir de duas posições gêmeas, que persistem no tempo. De um lado, a crença na superioridade moral do sistema democrático dos EUA e, ao mesmo tempo, uma declaração sobre a predestinada liderança internacional do país e uma oposição a qualquer forma doméstica de ruptura com as tradições nacionais. De outro, a convicção - não importa se inadvertidamente paternalista - de que é uma prerrogativa missionária “branca” sempre estar entre os fiadores da liberdade e dignidade alheias.

Referências

  • MOREY, Maribel. White Philanthropy: Carnegie Corporation’s An American Dilemma and the Making of a White World Order. Chapel Hill: The University of North Carolina Press, 2021.
  • MYRDAL, Gunnar (with the Assistance of Richard Sterner and Arnold Rose). An American Dilemma: The Negro Problem and Modern Democracy. New York and London: Harper & Brothers Publishing, 1944.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    15 Dez 2023
  • Data do Fascículo
    Sep-Dec 2023

Histórico

  • Recebido
    02 Dez 2022
  • Recebido
    02 Maio 2023
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