Trans/Form/Ação, Volume: 34, Número: spe2, Publicado: 2011
  • Palavra do editor

    Marques, Ubirajara Rancan de Azevedo
  • Universalidade estética e universalidade lógica: notas sobre o §8 da Crítica do Juízo de Kant

    Rego, Pedro Costa

    Resumo em Português:

    A tese fundamental da Estética kantiana contida na Crítica do Juízo é a de que os juízos de gosto, eminentemente subjetivos, proferidos com base num sentimento de prazer desinteressado da existência do objeto julgado e não fundados em conceitos do entendimento ou ideias da razão prática, apresentam validade universal. "Universalidade estética" é o conceito-chave com base no qual a terceira Crítica, que já havia afrontado as estéticas racionalistas com a tese da não-conceptualidade do juízo de gosto, rechaça, no outro flanco, o ceticismo estético dos defensores de um gosto privado e incomunicável. Em sua versão expositiva e analítica, o tema da universalidade do gosto é discutido no segundo momento da Analítica do Belo, que se conclui com a tese de que "belo é o que apraz universalmente sem conceito". A essa conclusão Kant chega, tendo estabelecido no §8, entre outras coisas, a distinção entre a universalidade própria dos juízos reflexionantes estéticos e uma certa universalidade que se deve reconhecer em juízos determinantes de conhecimento teórico ou prático. À primeira, Kant atribui três títulos: o acima referido de "universalidade estética" (ästhetische Allgemeinheit), o de "validade comum" (Gemingültigkeit) e o de "validade universal subjetiva" (subjektive Allgemeingültigkeit). Quanto à segunda, a Analítica parece pretender batizar com os nomes supostamente equivalentes de "universalidade lógica" (logische Allgemeinheit) e "validade universal objetiva" (objektive Allgemeingültigkeit). O que defendo, no presente trabalho, é que a inteligência da noção de universalidade estética fica comprometida por três níveis de ambiguidade presentes no estabelecimento desses conceitos. Primeiramente, discutirei as dificuldades concernentes à apresentação kantiana dos conceitos de "universalidade" (Allgemeinheit) e de "validade universal" (Allgemeingültigkeit). Em seguida, buscarei mostrar o prejuízo da confusão presente no tratamento que o §8 confere às noções de "universalidade estética" e "validade universal subjetiva". Finalmente, vou sugerir que se deva reconhecer a distinção entre universalidade objetiva e universalidade lógica, com o fim de encaminhar a seguinte questão: a universalidade dos juízos de gosto se define prioritariamente no confronto com juízos que são universalmente válidos porque determinantes, dada a presença de conceitos do entendimento ou da razão no seu fundamento de determinação? Ou no confronto com juízos que são universais na medida em que não perdem a determinabilidade de seu valor de verdade quando seu conceito-sujeito vem a ser quantificado universalmente? Em poucas palavras, a universalidade do belo é anticonceptual ou apenas antilógica?

    Resumo em Inglês:

    The main thesis of kantian Critique of Judgment’s Aesthetics sustains that judgments of taste, which are subjective, based on a disinterested pleasure and not grounded on concepts of understanding or ideas of reason, are universally valid. "Aesthetic universality" is the key-concept by means of which the third Critique, having already disenfranchised aesthetic rationalism with the theory of the non-conceptuality of taste, disparage at the other front the aesthetic skepticism from defenders of the incommunicability of the beautiful. The universality-issue is discussed in the second "moment" of the Analytic of the Beautiful, leading to the conclusion that "the beautiful is that which, apart from a concept, pleases universally". Kant draws this conclusion after having established in chapter 8 the distinction between the universality of the aesthetic response and that of determinant judgments of theoretical and practical knowledge. The former is termed "aesthetic universality" (ästhetische Allgemeinheit), "general validity" (Gemingültigkeit), and "subjective universal validity" (subjektive Allgemeingültigkeit), whereas the latter is designated by the presumably equivalent titles of "logical universality" (logische Allgemeinheit) and "objective universal validity" (objektive Allgemeingültigkeit). In this paper, I shall argue that three levels of ambiguity concerning the use of these concepts compromise the distinctness of the notion of aesthetic universality. Firstly, I shall analyze a set of difficulties in Kant’s presentation of the concepts of "universality" (Allgemeinheit) and "universal validity" (Allgemeingültigkeit). Secondly, I shall discuss the damages brought about by the conflation in Kant’s treatment of the notions of "aesthetic universality" and "subjective universal validity". Finally, I shall propose the distinction between objective and logical universality in order to respond to the question: regarding their quantity, judgments of taste are more properly defined in contrast to judgments which are universally valid because they are determinant - given the role of the concept or idea in their determining ground? Or against judgments which are universal insofar their truth-value remain determinable when their subject-concept is universally quantified? More succinctly: the universality of the beautiful is anti-conceptual or only anti-logical?
  • On the Beautiful and the Ugly

    Parret, Herman

    Resumo em Francês:

    L’esthétique classique considère l’expérience du beau comme une nécessité anthropologique. Mais, il faut constater que le beau est surtout une catégorie qui désigne l’art classique, et on peut même poser la question si elle est pertinente pour l’art contemporain. Le terme de référence le plus employé pour évoquer l’art contemporain est celui de l’intéressant : les œuvres d’art sollicitent les intérêts de mes facultés (les facultés cognitivo-intellectuelle, pragmatique et moral orientée par l’insertion dans la communauté, et esthético-affective. Il est bien de noter que les catégories du beau et du laid ont une valeur axiologique et morale. Il semble que les qualités de l’art contemporain sont jugées à partir de l’intensité de l’impact sur les intérêts de nos facultés. Il se révèle important, de ce point de vue, de distinguer le laid d’une part et le sublime et le monstrueux d’autre part. La Troisième Critique de Kant est importante pour la définition de ces catégories.

    Resumo em Inglês:

    Classical aesthetics sees the experience of the beautiful as an anthropological necessity. But, in fact, the beautiful is rather the central category designating classical art, and one can question the relevance of this category considering contemporary art. The reference term most frequently used for contemporary art is interesting: works of art solicit the interests of my faculties (the cognitive-intellectual, the pragmatic community-oriented moral, the affective aesthetic faculties). It is interesting to notice that the categories of the beautiful and the ugly have an axiological-moral value. It looks as if the qualities of contemporary art works are judged according to the intensity of the impact on the interests of our faculties. It reveals important, in this respect, to distinguish the ugly from the sublime and the monstrous. Kant’s Third Critique is of some importance in defining these categories.
  • O Sublime explicado às crianças

    Figueiredo, Virginia

    Resumo em Português:

    Como o próprio título indica, este ensaio pretende dialogar com a recepção do sublime kantiano pela filosofia francesa contemporânea, sobretudo com Jean-François Lyotard. Dessa forma, ao invés de ressaltar as consequências inevitável ou sistematicamente morais do sublime kantiano, como fez, de um modo geral, o comentário mais tradicional da filosofia crítica de Kant, este ensaio tenta interpretar o sublime como sendo essencialmente uma experiência da arte, seguindo assim de perto aquela tradição francesa. Mas, ao mesmo tempo, tomando alguma distância, este texto quer fazer uma objeção ao fundamento exclusivamente burkiano da concepção de sublime de Lyotard. Em suma, quero defender que é possível privilegiar o tempo (aspecto central do sublime de Edmund Burke, segundo Lyotard) também na experiência do sublime kantiano.

    Resumo em Inglês:

    As indicated by its title, the aim of this essay is debating with the contemporary French philosophy reception of Kant’s concept of the sublime, particularly with Jean-François Lyotard. As a consequence of this French influence, instead of highlighting, as traditional commentators tend to do, the moral and systematic implications of Kantian sublime, this essay takes Kant’s notion as intended in the first place to account for an essential aspect of our experience of art. But, at the same time, I want to distance myself from Lyotard’s interpretation and object to his view that Burke’s notion of the sublime is more adequate than Kant’s conception for understanding contemporary art. In particular, I want to hold that it is possible to understand time (that Lyotard takes to be the central aspect of Burke’s notion) as being also a key feature of Kantian sublime.
  • Filosofia e literatura no iluminismo alemão: a questão da tolerância religiosa no Nathan der Weise, de Lessing

    Videira, Mario

    Resumo em Português:

    O presente artigo aborda a questão da tolerância religiosa no Iluminismo alemão, por meio da análise e interpretação de trechos selecionados da peça Nathan der Weise (1779), de Lessing. Pretende-se mostrar que essa obra tem sua origem intimamente ligada ao debate teológico ("Fragmentenstreit") entre Lessing e o pastor Johann Melchior Goeze, de Hamburgo, podendo ser lida como uma reação e uma resposta às críticas e objeções deste último.

    Resumo em Inglês:

    This article addresses the issue of religious tolerance in the German Enlightenment through the analysis and interpretation of selected excerpts of Lessing’s Nathan der Weise (1779). It aims to point out that the origins of this play are closely related to the theological debate ("Fragmentenstreit") between Lessing and Johann Melchior Goeze (chief pastor of the Church of St. Catharine in Hamburg), therefore making the play possible to be read as a reaction and a response to the criticisms and objections of the latter.
  • O Interessante em Friedrich Schlegel

    Silva, Arlenice Almeida da

    Resumo em Português:

    Busca-se neste artigo, em primeiro lugar, examinar a originalidade do conceito de interessante na obra Sobre o estudo da poesia antiga, do jovem Friedrich Schlegel, tendo em vista a singularidade da análise e do método empregados pelo autor para fundamentar a crítica de arte. Em segundo lugar, o texto procura ressaltar como, ao diferenciar a poesia grega da moderna, Schlegel constitui uma singular interpretação da poesia em geral, em diálogo aberto com Winckelmann e Schiller. E, finalmente, avaliar se, ao articular um discurso que aproxima história da arte e filosofia da arte, Schlegel logra superar definitivamente a "querela entre antigos e modernos".

    Resumo em Inglês:

    This paper aims at, firstly, examining the originality of the concept of "interesting" in the young Friedrich Schlegel’s "On the study of ancient poetry", in view of the uniqueness of the analysis and the method employed by the author to substantiate art critique. Secondly, highlighting how, when differentiating the Modern Greek poetry, Schlegel establishes a singular interpretation of poetry in general, in an open dialogue with Winckelmann and Schiller. And finally, evaluating whether Schlegel succeeds to definitely overcome the "quarrel between ancient and modern" when he articulates a speech that brings together art history and philosophy of art.
  • Heidegger e a produção técnica e artística da natureza

    Werle, Marco Aurélio

    Resumo em Português:

    O artigo examina como Heidegger pensa, a partir da natureza, o "produzir" técnico e artístico, tendo como referência certas noções centrais da história do pensamento, desde o registro inaugural dos termos gregos techné, poiesis e physis, e seus desdobramentos por meio da tradução latina, até seu reordenamento na metafísica da época moderna.

    Resumo em Inglês:

    The article examines how Heidegger, by looking at nature, considers the technical and artistic ‘act of production’ (Stellen) regarding certain crucial notions in the history of thought, from the foundational Greek terms as techné, poíesis and physis, and its equivalent in Latin translation, to its rearrangement in modern metaphysics.
  • "Etica ed Estetica sono tutt’uno" Riflessioni su TLP 6.421

    Tomasi, Gabriele

    Resumo em Italiano:

    Per il primo Wittgenstein etica ed estetica erano tutt’uno. Scopo del saggio è fornire un’interpretazione di questa concezione. Esaminando il modo in cui è proposta nel Tractatus e considerando alcune annotazioni dei Quaderni 1914-1916 si evidenzia che l’unità di etica ed estetica è in un modo di vedere il mondo per cui esso non appare come fonte di limitazione. L’etica è un’estensione al mondo - alla vita - della capacità di conferire significato che nell’arte si realizza nei riguardi di oggetti particolari. Affermando l’unità di etica ed estetica Wittgenstein attira l’attenzione sul fatto che la radice dell’etica è in un certo modo di vedere le cose, in un atteggiamento verso la vita. Si tratta della prospettiva di un valore non connesso a come il mondo è e che è evocato dalla meraviglia per l’esistenza del mondo.

    Resumo em Inglês:

    The early Wittgenstein conceived of ethics and aesthetics as one and the same. This essay aims to provide an interpretation of this idea. It examines the way it is put forward in the Tractatus and in some remarks from the Tagebücher 1914-1916, and argues that the unity of ethics and aesthetics is for Wittgenstein a way of looking at the world in such a way that the world does not appear to set limits for human life. Ethics extends the ability to confer meaning that men and women use in the realm of art-making, dealing with particular objects, to the realm of life and of the world taken as a whole. Claiming that ethics and aesthetics are one Wittgenstein points out that at the roots of ethics there is a certain way of looking at the world, a certain disposition towards life. This point of view on the world does not attribute value to the world because of the way it is. The world is seen, instead, as a source of wonder, and it is this fact that makes it valuable.
  • Comentário filológico e crítica materialista

    Gagnebin, Jeanne Marie

    Resumo em Português:

    A partir do ensaio (1922) de Walter Benjamin sobre as Afinidades Eletivas de Goethe, o artigo tenta mostrar como Benjamin, desde esse ensaio de juventude até seu último texto, as teses "Sobre o conceito de história" (1940), defende uma noção de filologia crítica, capaz de evidenciar no detalhe material a distância histórica que separa a obra, em sua concretude histórica, do momento histórico do intérprete ou historiador. Somente o reconhecimento desse distanciamento permite não cair nas armadilhas da Einfühlung (identificação afetiva, empatia) hermenêutica e possibilita elaborar um posicionamento histórico e crítico.

    Resumo em Francês:

    Partant de l’essai (1922) de Walter Benjamin sur les Affinités électives de Goethe, cet article essaie de montrer que Benjamin, depuis cet essai de jeunesse et jusqu’à son dernier texte, les thèses "Sur le concept d’histoire" (1940), défend une conception de philologie critique, qui sache rendre evidente, dans le détail matériel, la distance historique qui separe l’oeuvre, dans sa concretude historique, du moment historique de l’interprète ou de l’historien. Seule, la reconnaissance de cette prise de distance, permet de ne pas tomber dans les pièges de l’Einfühlung (identification affective, empathie) herméneutique et rend possible l’élaboration d’une prise de position historique et critique.
  • A plausibilidade da pós-história no sentido estético

    Duarte, Rodrigo

    Resumo em Português:

    A ideia do "fim da história", subentendida no capítulo final da Fenomenologia do espírito, serviu de base para o início de uma discussão, feita a partir das posições assumidas por Alexandre Kojève nos seus cursos sobre Hegel em Paris, na década de 1930, e em sua publicação no final dos anos 1940 (com reedição em 1968), voltou à baila com o artigo de Francis Fukuyama, de 1989, sobre o "fim da história", no qual ele comemorava o fim do "socialismo real" e a hegemonia mundial completa dos Estados Unidos da América. Passada a euforia sobre a "nova ordem mundial", inclusive em virtude de sucessivas crises econômicas, é interessante recolocar a questão sobre as condições sob as quais são aceitáveis conceitos associados a esse tema, especialmente o substantivo "pós-história" e o adjetivo "pós-histórico". A tese a ser defendida nesse artigo é a de que o campo da estética é um âmbito em que esses conceitos são defensáveis. Como exemplos de reflexões estéticas frutíferas que deles se valem, são consideradas a noção de "arte pós-histórica", de Arthur Danto, e os desdobramentos estéticos do conceito de "pós-história", tal como sustentado por Vilém Flusser.

    Resumo em Inglês:

    The idea of the "end of history", posited in the final chapter of Hegel’s Phenomenology of Mind, grounded the beginning of a discussion unleashed by the position assumed by Alexandre Kojève in his courses on Hegel in Paris, in the 1930s, and by their publication at the end of the 1940s (being reedited in 1968). This point of view reappeared with Francis Fukuyama’s article on the "end of history", published in 1989, in which he commemorated the end of the "real socialism" and the rise of The United States of America’s complete world hegemony. Now that the euphoria about the "new world order" subsided, also in virtue of successive major economic crisis, it is interesting to turn back to the question of the conditions under which concepts associated to that theme, especially the noun "post-history" and the adjective "post-historical" are acceptable. My point in this article is that aesthetics is a field in which these concepts are defensible. As examples of fruitful aesthetic reflections that take advantage of these concepts, I point out the notion of "post-historical art", by Arthur Danto, and the aesthetic unfoldings of the "post-history" issue, just as sustained by Vilém Flusser.
  • Postulados inciertos para una praxis estético-política deconstructiva

    Rampérez, Fernando

    Resumo em Espanhol:

    La deconstrucción, precisamente porque no prescribe una estética ni una política, actúa como estrategia de apertura a/de lo diferente y la alteridad, y opera de este modo una propuesta nómada de pensamiento y acción. Algunas categorías que han canalizado la reflexión en estética y política durante siglos, como representación, juicio, interpretación, sentido, firma, secreto, etc. se encuentran con sus impotencias o su lado oscuro o simplemente una nueva lectura "inadecuada" a través de un análisis deconstructivo; este análisis contribuye, así, a pensar de otro modo una estética y una política por venir.

    Resumo em Inglês:

    Deconstruction, precisely because it doesn’t prescribe neither an aesthetics nor a policy, acts as an aperture strategy to/of the different and the alterity, producing in this way a nomadic proposal about thinking and action. Several categories that have focused the reflection in aesthetics and in politics for centuries, such as representation, judgment, interpretation, sense, signature, secret, etc, they met their own powerlessness or their dark side or just a new "inappropriate" reading trough a deconstructive analysis. This analysis contributes to think otherwise an aesthetics and a politics to come.
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