Resumo
O artigo analisa como frações de elite urbanas em João Pessoa (PB) mobilizam diferencialmente as referências ao “regional” em suas dinâmicas distintivas, considerando seus discursos sobre a casa e sua decoração como acesso a essas tomadas de posição simbólicas. Com base em 32 entrevistas semiestruturadas e extensa análise documental realizadas entre 2021 e 2024, e a partir da construção do “micro espaço social” das elites pessoenses, que as classifica sincrônica e diacronicamente, demonstra-se como a chamada “cultura regional” é integrada em composições simbólicas distintivas que associam diferentes escalas geográficas. Os sentidos atribuídos ao regional variam conforme o volume, a estrutura e a trajetória de acúmulo dos capitais econômico e cultural, evidenciando que a distinção se produz pela capacidade de articular sentidos valorizados do regional a outras instâncias geossimbólicas.
Palavras-chave:
Cultura regional; Elites; Classe social; Distinção; Escalas geossimbólicas, João Pessoa
Abstract
This article analyzes how urban elite fractions in João Pessoa (PB), Brazil, differentially mobilize references to the “regional” within their distinctive dynamics, considering their discourses about their home and its decoration as a means of access to these symbolic position-takings. Based on 32 semi-structured interviews and extensive documentary analysis conducted between 2021 and 2024, and drawing on the construction of the “micro social space” of João Pessoa’s elites, which classifies them both synchronically and diachronically, the study demonstrates how so-called “regional culture” is incorporated into distinctive symbolic compositions that combine different geographic scales. The meanings attributed to the regional vary according to the volume, structure, and trajectories of accumulation of economic and cultural capital, showing that distinction is produced through the capacity to articulate valued meanings of the regional with other geosymbolic instances.
Keywords:
Regional culture; Elites; Social class; Distinction; Geosymbolic scales, João Pessoa
Introdução
No final do século passado, diante da generalização da circulação de capital, pessoas, mercadorias e símbolos, os diagnósticos e prognósticos sobre a cultura na globalização apontavam para os perigos da homogeneização cultural, americanização ou “McDonaldização” do mundo (Phillipson, 1992; Ritzer,1993)1. Também se imaginou a homogeneização do espaço e a preeminência dos “não lugares” na “supermodernidade” (ver Augé, 1994) e assistiu-se ainda a um acalorado debate sobre o fim, o declínio, a persistência ou a transformação do nacional (ver Strange, 1996; Badie, 1999; Habermas, 2000; Sassen, 2007).
Em diagnóstico mais acertado sobre a mesma época, Renato Ortiz apontava que a mundialização da cultura seguia uma lógica diferente em relação à globalização econômica (Ortiz, 1994), o que recolocava ou reposicionava os lugares e transformava justamente a diversidade em valor simbólico (Ortiz, 2007). Para Bauman (2002, p. 171), as pressões no sentido da homogeneização caminhavam de mãos dadas com uma nova diversificação e Mike Featherstone (1997, p. 84) afirma que uma das consequências paradoxais do processo de globalização radicaria no fato de que “a tomada de consciência da existência de limites à escala do planeta e da própria humanidade” teria levado não à “produção de homogeneidade, mas sim a nossa familiarização com uma maior diversidade, com um leque cada vez mais amplo de culturas locais”. Ao mesmo tempo, outros teóricos da cultura latino-americanos e teóricos do pós-colonial e dos Estudos Culturais complexificavam as leituras sobre imperialismo cultural e recolocavam a importância das referências territoriais na globalização. Canclini (2000), por exemplo, recorria ao conceito de “culturas híbridas” para apontar como, na realização latino-americana da modernidade, as culturas não se substituem umas às outras, mas se misturam continuamente, produzindo formas híbridas de identidade, de cultura e de organização social. Caracteriza o que chama de “hibridização” como “processos socioculturais nos quais estruturas ou práticas discretas, que existiam de forma separada, se combinam para gerar novas estruturas, objetos e práticas” (Canclini, 2000, p. XIX). Com isso, a mesma manifestação cultural pode reunir simultaneamente elementos classificados como populares e eruditos; tradicionais e tecnológicos; locais e globais. Entretanto, aponta também que as “estratégias de entrada e saída da modernidade” ocorrem em meio à desigualdade, visto que a possibilidade de apropriação de diferentes repertórios culturais variava conforme as classes e os grupos, evidenciando assimetrias de poder e prestígio. Enquanto, também na América Latina, Jesus-Martin Barbero (1997) apontava os usos sociais e as mediações que tornam dinâmica e ativa a recepção da cultura popular, Homi Bhabha (1994), Stuart Hall (2009) e Arjun Appadurai (1996) também colocavam, na esteira dos Estudos Culturais ingleses e da reflexão sobre as experiências diaspóricas no mundo anglófono, a cultura como um processo e a identidade como uma posição relacional e, portanto, provisória, não fixa. Ao mesmo tempo, autores como Anthony Giddens (2002 [1999]) e Ulrich Beck (2010 [1986]) e Giddens, Lash e Beck (2012 [1995]), ao se debruçar sobre os temas da cultura e da identidade na “alta modernidade” na virada do século, apontavam transformações na ordem estética e identitária na fase mais “reflexiva” da humanidade, em que as identidades se tornariam mais fluidas e reflexivas.
Enquanto parte do debate apostava, com a tese da individualização, no fim da relação entre classe e cultura, surgem pesquisas que, por outro lado, procuravam atualizar a relação e indagavam em que se constituiria o capital cultural na atualidade (ver Wagner, 2002; Buhlmann et al., 2013; Heilbron, 2014; Igarashi; Saito, 2014; Go; Krause, 2016), algumas das quais apontavam para a valorização do “cosmopolitismo” (ver Hannerz, 1990; Calhoun, 2002; Szerszynski; Urry, 2002; Savage et al., 2005; Weenink, 2008). Nessa literatura, destacam-se as formulações de Prieur e Savage (2013), que abordam o declínio da cultura highbrow tradicional como indicativo da emergência de um “capital cultural cosmopolita” associado à conformação de um campo europeu, e de Cicchelli e Octobre (2018), que descrevem o cosmopolitismo estético-cultural como uma abertura a produtos culturais “estrangeiros” e a imaginários globais. Essas abordagens, contudo, tendem a olhar para o chamado “capital cosmopolita” por meio da oposição entre “nacional e estrangeiro”. O apego ao nacional seria oposto ao cosmopolitismo, ao passo que o apreço pelo estrangeiro e/ou pela diversidade era lido como uma atitude cosmopolita2. Tal perspectiva não chega a considerar que a situação de globalização constrói “um outro território”, redefine as fronteiras entre as nações e que a própria nação deixa de ter o monopólio da definição legítima dos símbolos ligados ao território (Ortiz, 1997; Nicolau Netto, 2022).
Ao mesmo tempo que a mobilidade geográfica é valorizada, ainda que não de forma homogênea, mas atravessada por hierarquias, disputas e relações de poder (ver Nicolau Netto, 2022; Ortiz, Michetti e Nicolau Netto, 2023), a “diversidade cultural” se consolida como valor cultural, político e mercadológico no processo de mundialização da cultura (Ortiz, 2015; Mira, 2016). Em resposta àquela suposta “homogeneização cultural”, passa-se a celebrar o “local”, a “tradição” e a “autenticidade”, valores fortemente associados às “culturas populares” (ver Honor Fagan, 2001; Couche, 2002; Ortiz, 2015). Contudo, não se deve conceber de imediato “culturas populares” como fenômeno próprio das classes populares (Farias e Mira, 2014), pois em uma série de ocasiões, históricas e atuais, as classes dominantes se valeram de representações variadas acerca do que seria mais “tradicional” ou “autêntico” em determinados territórios. A mobilização do “popular” na construção da nação é fenômeno conhecido da literatura internacional (Gellner, 1993; Hobsbawn e Ranger, 1997; Thiesse, 1999; Anderson, 2008). Em “Cultura brasileira e identidade nacional”, Ortiz (2005) traz uma análise emblemática a respeito do pensamento de Gilberto Freyre, argumentando que a oposição entre “cultura” e “técnica” reproduz a polarização entre Nordeste, com seus valores “telúricos e tradicionais”, e São Paulo, com sua “modernidade industrial”. O “popular”, portanto, é reificado como memória e identidade nacionais a serem preservadas da técnica e da cultura de massa, discurso posteriormente incorporado pelo próprio Estado Nacional como legitimação da política cultural. Mecanismo semelhante pode ser observado na construção da mitologia bandeirante na identidade regional paulista do século XX (Ferreira, 2002; Weinstein, 2015), em que a tradição opera como legitimação da pretensão à modernidade e ao progresso; ou, ainda, no contexto nordestino, com a apropriação modernista de certos signos “populares” e sua tradução em uma “cultura nacional erudita”, como ocorre no discurso de Ariano Suassuna e do Movimento Armorial (Dimitrov, 2022; Santos, 2009; Meneses, 2019; 2020).
Diante desse duplo movimento (1- a inadequação da oposição entre “nacional” e “estrangeiro” para dar conta do capital cosmopolita; e 2- a constatação de que a celebração da “tradição” constitui estratégia historicamente recorrente das classes dominantes), a pesquisa aqui apresentada, feita na inflexão entre a sociologia da cultura e a sociologia das classes (cultural class analysis), com foco em posições das classes dominantes, que chamaremos de elite, entende que, na discussão sobre um eventual “capital cultural cosmopolita”, é preciso considerar de que maneira os agentes mobilizam as diferentes nacionalidades e outras referências simbólicas sub ou supranacionais. As pesquisas anteriores de Michetti (2015, 2019, 2022) registram que certas frações de classe combinam instâncias simbólicas locais, regionais, nacionais e supranacionais, resultando em “novas composições distintivas entre diferentes ‘escalas geossimbólicas’”. A distinção aparece na capacidade de articular referências territoriais de maneira estratégica, de acordo com a posição ocupada pelos agentes e das condições do espaço social em questão.
No Brasil, como evocado há pouco, um exemplo notório de referência à “cultura popular” é observado na mobilização do imaginário “nordestino”: o sertão, o cangaço, as festas tradicionais, as narrativas de resistência e de ruralidade compõem uma densa construção simbólica em torno do que vem a ser o Nordeste (ver Alves, 2019; Albuquerque Júnior, 2011; Meneses, 2018; Dimitrov, 2022), e esses símbolos passam a ocupar lugar estratégico em novos nichos de mercado, nos quais a diferença é convertida em valor (ver Farias; Mira, 2014). Dessa forma, o Nordeste não seria apenas uma referência regional ou identitária, mas o lastro de bens simbólicos inseridos em circuitos de produção e consumo, cuja valorização depende das posições ocupadas pelos agentes, das disputas que estruturam os campos de produção cultural (arte, artesanato, moda, turismo etc.) e do espaço das classes de forma mais geral.
É nesse contexto que se insere este artigo. As análises apresentadas resultam de uma pesquisa realizada entre 2021 e 2024 em João Pessoa, capital da Paraíba, sobre os modos de morar de frações de elite urbanas locais, apreendendo aspectos que atravessam a “trialética” (ver Wacquant, 2023) entre os espaços social, simbólico e geográfico. Desse material mais amplo, o presente artigo recorta especificamente a mobilização distintiva do “regional”, apreendida nos discursos dos agentes sobre suas casas, notadamente quanto a artes plásticas e decoração. As práticas relacionadas à moradia atuam como sinais das condições do espaço social (ver Bourdieu, 2006; Pulici, 2022), isto é, aquele das concentrações diferenciais de capitais ou das classes sociais, manifestadas no espaço dos gostos e práticas, ou seja, nas tomadas de posição simbólica.
Conforme será detalhado nas próximas páginas, a pesquisa feita em João Pessoa constatou uma valorização da “cultura regional” como estratégia de legitimação entre algumas das frações de elite moradoras da cidade, mas não em todas e nem de modo homogêneo. O “regional” apareceu como parte de uma composição de diferentes escalas simbólicas consideradas distintivas. Além disso, apareceu mobilizado diferencialmente por diferentes frações de elite. Enquanto, naquelas mais caracterizadas pelo capital cultural, o imaginário das “raízes locais” aparece atrelado à questão da “terra”, da Paraíba, do Nordeste de forma mais geral, nas frações dominantes que concentram mais simetricamente capitais econômico e cultural, e há mais tempo, o regional é enunciado como ligado às “raízes familiares” específicas. Nestas, valoriza-se mais a “história” da família, das gerações passadas, ao invés de referências identitárias mais vagas. Se o “regional” se faz presente entre as frações que concentram capitais em João Pessoa, esta pesquisa revela que elas o fazem diferencialmente conforme as disputas distintivas locais, sendo um elemento heurístico para a compreensão das dinâmicas contemporâneas de elite.
Além disso, a pesquisa indica que a ênfase em aspectos da “cultura paraibana” é legitimada entre os produtores e mediadores simbólicos do mercado imobiliário local que se posiciona como de “alto padrão”, cuja clientela é composta por frações de elite locais, em especial aquelas menos providas de capital cultural e que concentram sobretudo capital econômico, e mais recentemente. Da mesma forma que ocorre nas frações mais “culturalizadas”, esses profissionais mobilizam outras escalas geossimbólicas em suas práticas, inclusive discursivas, com referências mais frequentes a São Paulo e à Europa como balizadores ou lastros simbólicos de sua posição.
Para a apresentação dos achados da pesquisa esboçados até aqui, na sequência: (1) Apresentaremos a sua base metodológica, com foco na construção do “microespaço das elites”, um construto analítico adotado para classificação e compreensão das diversas frações de elite habitantes da cidade, compreendendo as elites em sua pluralidade (ver Hey, 2017); (2) Nas duas seções seguintes, abordaremos a mobilização diferencial do “regional” como símbolo distintivo, sob a perspectiva (a) das frações de elite e (b) dos produtores/mediadores do campo. Por fim, serão abordadas outras escalas geossimbólicas operadas pelos agentes pesquisados, ao que se seguem as considerações finais.
Estratégia metodológica e construção do microespaço das elites em João Pessoa
A pesquisa de caráter qualitativo e exploratório partiu da revisão de literatura e analisou dados sobre a história da ocupação da cidade de João Pessoa, concentrando-se na distribuição atual das classes pelo território municipal. Na sequência, procedeu à análise documental de material produzido por empresas de construção civil e arquitetura, focando-se nas que se posicionam nesse mercado como “de alto padrão”. A produção de dados primários consistiu em observação em mostras de ambientação realizadas na cidade e na realização de 32 entrevistas semiestruturadas, com duração de 22 a 130 minutos, ocorridas entre maio de 2023 e março de 2024, de forma presencial, majoritariamente nas residências dos entrevistados. A seleção dos indivíduos foi feita com base em livros que registram os “protagonistas” locais (Blanke; Vitoriano, 2020; Pereira, 2013) e em revistas e blogs que retratam os circuitos de sociabilidade das elites locais há mais de vinte anos (Bernardo, 2026; Germano, 2026), à semelhança do procedimento adotado por Friedman e Reeves (2020). Dez entrevistas foram realizadas com produtores/mediadores do mercado imobiliário de ‘alto padrão’ local (arquitetos e construtores) e 22 com ‘moradores’ da cidade pertencentes a essas frações, estes anonimizados.
Assim, posicionamos os informantes no chamado “microespaço social”, termo elaborado em virtude da impossibilidade de construí-lo em termos estatísticos no escopo da pesquisa. Logo, as frações de elite encontradas e classificadas são indicativas de um espaço social mais amplo a ser construído sociologicamente com métodos estatísticos, como indica Pierre Bourdieu (2011, p. 19) e atualizado em pesquisas recentes (ver Atkinson, 2016; Flemmen, 2012; Flemmen et al., 2018; Pereira, 2016, 2018). Para construir o microespaço relacional, foram considerados aspectos relacionados ao acúmulo dos capitais econômico e cultural, com base em indicadores que atuaram como proxy desses capitais (ver Atkinson, 2017). Quanto ao capital econômico, pela dificuldade de mapear sua renda mensal, dificuldade própria a pesquisas sobre elites (Pinçon e Pinçon-Charlot, 2007; Pulici, 2011; Sherman, 2017; Maciel, 2018), alguns indícios de sua riqueza foram levados em consideração, quais sejam: formação e profissão exercida, consultados ainda os contracheques dos que ocupam empregos públicos, também aposentadorias e pensões eventuais; área, local e tipo de moradia; número de empregados domésticos contratados; posse/propriedade de outras residências. Quanto ao capital cultural, foram considerados os diplomas detidos, como capital institucionalizado, e a trajetória ocupacional, diferenciando as formações e ocupações “relacionadas à cultura” ou dependentes dela daquelas de orientação técnico-empresarial; e, como capital incorporado, aptidões tais como o domínio de outros idiomas e a familiaridade com referências culturais consagradas.
Cabe esclarecer, ainda, como os indicadores foram operados para distinguir as frações entre si. Por se tratar de um microespaço relacional, os informantes foram posicionados uns em relação aos outros, no interior do próprio conjunto, não com base em valores fixos, definidos a priori. Disso resultou que a classificação sincrônica reflete menos o volume global de capitais, flagrantemente elevado, do que a estrutura dos capitais detidos, isto é, o peso relativo dos capitais econômico e cultural na composição de cada agente (ver Bourdieu, 2013). Nesse sentido, não foram atribuídos pesos fixos para cada indicador, mas foi considerada a configuração dos indicadores em conjunto. Com esse procedimento, a fração dominante simétrica reúne os entrevistados em que ambos os capitais se mostraram fortemente presentes; a fração marcada pelo capital econômico reúne aqueles cujos indícios de riqueza são também elevados, mas cujo capital cultural é comparativamente mais restrito; e a fração marcada pelo capital cultural inverte essa relação.
Assim, as classificações das frações de elite foram realizadas a partir de duas perspectivas: sincrônica e diacrônica. Pela primeira, os informantes foram identificados em três frações, de acordo com o volume e a estrutura específica de seus capitais acumulados. São elas: (1) a fração dominante, com maior volume simétrico de capitais econômico e cultural, (2) a fração com estrutura de capitais mais marcada pelo econômico e (3) a fração com estrutura de capitais mais marcada pelo cultural. Pela segunda perspectiva, considera-se o tempo de acúmulo dos capitais, se mais antigos ou mais recentes, destacando a influência da trajetória dos informantes em suas tomadas de posição. São elas: (1) “elites tradicionais” e (2) “novas elites”3.
Essa “dupla classificação” se mostrou pertinente, pois, nas análises das tomadas de posição dos informantes, as diferenças e semelhanças encontradas ora se manifestam a partir da estrutura/volume de seus capitais, ora da antiguidade/recência do seu acúmulo. Considerar o aspecto diacrônico se faz necessário, por exemplo, para captar diferenças quanto às classificações acerca da cidade, de como percebem e se posicionam frente ao crescimento populacional e ao boom imobiliário que a cidade tem vivenciado4. Por outro lado, o aspecto sincrônico marca, entre outras questões, as condições de moradia. Essas nuances observadas serão ressaltadas ao longo das análises.
Importa destacar também que todos moram na região litorânea da cidade, em bairros que possuem os metros quadrados mais valorizados, em casas ou apartamentos amplos, à beira-mar, na orla ou em ruas próximas (ver Figura 1).
A idade dos entrevistados variou entre 46 e 81 anos; a maioria possui alguma ocupação estabelecida, mas alguns declararam não trabalhar formalmente (por opção)5.
Usos do “regional” como estratégias distintivas posicionais
Esse caminho metodológico permitiu apreender, entre outras coisas, como a valorização do “regional” aparece nas tomadas de posição simbólicas das diferentes frações de elite, o que ocorre quando falam especificamente da decoração de suas residências e enunciam suas histórias de vida. Portanto, as análises que seguem não tratam da arquitetura ou da decoração das residências em si, mas das tomadas de posição simbólicas enunciadas a propósito delas.
O primeiro elemento a ser destacado é que a referência a aspectos da “cultura regional” não é adotada por todos os informantes entrevistados, mas apenas por aqueles das frações dominantes de capitais simétricos e de maior capital cultural, as quais também guardam diferenças entre si na maneira como o fazem.
Na fração com estrutura simétrica de capitais, todos os informantes pertencem às “elites tradicionais”, e trazem consigo tanto o discurso da valorização da “arte” local quanto o das raízes “na família”. Perguntados sobre suas preferências na decoração de suas residências, os entrevistados(as) davam ênfase às obras de arte de artistas plásticos paraibanos consagrados localmente, demonstrando conhecerem não só as peças, mas também os próprios artistas. “Nós temos Flávio Tavares, nós temos Clóvis Júnior, nós temos Elpídio, nós temos Júnior Diniz, nós temos Gina Dantas, nós temos Maria dos Mares”, falou uma das entrevistadas, enquanto apontava para as obras expostas em seu apartamento. Em outro momento, elogiou as decorações dos novos edifícios de “alto padrão” construídos em seu bairro, justamente por disporem de obras desses artistas: “são prédios que têm obras de arte muito significativas, porque nós sabemos que a lei [local] determina que toda construção tenha uma obra de arte, mas existem algumas obras de arte que nós respeitamos com toda certeza”. Para essa fração, os objetos herdados de suas famílias também importam. Além das peças artísticas, esses informantes têm em suas casas objetos decorativos e mobiliários destacados como atinentes à memória e à história de cada um e de suas famílias, como se vê a seguir.
Casa é memória afetiva. O lar onde a gente entra e vê tudo que a gente criou, a gente vê uma raquete de tênis, a gente encontra uma fotografia desbotada ainda no porta- retrato dos nossos avós. É muito bonito isso. É memória. […] Então tem móveis assim que têm história e que têm muito valor. Se eu for vender num antiquário, são móveis de valor. E eu poderia trocar por qualquer móvel moderno, mas eu creio que esses móveis antigos que têm história são móveis que a gente deve conservar, sabe? (Helena, alto escalão do Poder Judiciário).
Percebe-se certo apego à história e às “raízes” como algo que parece estar atrelado ao fato de pertencerem às elites/famílias tradicionais, com sobrenomes que ocuparam e/ou ocupam posições no campo do poder em mais de uma frente no Estado. Ao falarem sobre seus ascendentes, prolongam-se ao contar histórias vividas pelos pais e avós, enfatizando minúcias:
Meu pai foi fazer medicina em Recife, naquela época, nos anos 50. […] E encontrou mamãe recém-chegada dos Estados Unidos, que tinha ido com um primo dela estudar inglês; passaram dois anos passeando e estudando […]. Quando ela volta da América, encontra aquele jovem, aquele belo jovem de vinte anos, sonhador. Foram dançar em uma bela festa e começaram a namorar. Daí veio o namoro, o noivado e o casamento, em dois anos. […] Papai era mais vaidoso com quadros. Papai viajava, papai gostava de… tocava bem piano, sabe? Papai era uma pessoa, assim, ele não nasceu para ser médico. Ele nasceu pra ser, eu acho, um diplomata. Ele gostava de línguas, falava bem espanhol, viajava muito. Gostava muito de cultura, tinha muito bom gosto. Papai era uma pessoa, assim, esplêndida (Catarina, herdeira e aposentada).
Na fração com estrutura de capitais mais marcada pelo cultural, o apego às raízes também aparece, mas guarda diferenças com relação à fração de capitais simétricos, a começar pelo fato de que a maioria com maior capital cultural exerce profissões e/ou possui diplomas relacionados à cultura, com práticas e produções ligadas ao cenário artístico local, e dá destaque ao artesanato paraibano. De maneira semelhante e mais veemente, esses agentes também enaltecem os artistas plásticos locais consagrados6 e cultivam relações de amizade com alguns desses artistas, que por vezes são mencionados sem os respectivos sobrenomes ou mesmo por apelidos, aludindo a essa proximidade.
É uma casa brasileira. Eu acho que minha casa é muito brasileira. As coisas que têm, é madeira, artistas locais, aqui do Nordeste… É o meu retrato. […] Tem muita arte popular. Artistas locais, aqui do Nordeste. Tem aqui de Brennand. Aqui tem um desenho de Miguel […]. Aqui é Gina; esse aqui foi do irmão de Miguel dos Santos […]. Isso aqui foi Flávio que fez, isso aqui é de Helô. Isso aqui foi Flávio que me deu também (Julia, pesquisadora e curadora de artesanato/arte popular).
Quanto ao artesanato, uma das informantes, pesquisadora e “curadora de arte popular” (entre outros ofícios pelos quais se apresenta), afirmou, em tomada de posição bastante coerente com sua posição social, não diferenciar o artesanato de outras artes plásticas: “A arte popular, que eu gosto, na minha cabeça, a gente diz assim, ‘arte popular, artesanato’, isso não existe. Arte é arte. A arte erudita, a arte contemporânea”. Outra informante, que também se classifica como “ativista do artesanato”7, destaca as peças expostas em sua casa.
Eu valorizo, tenho várias peças de artesanato aqui na minha casa, eu sou comprometida também com o design local, com o desenvolvimento local, a produção de arte que a gente chama popular, porque eu acho que essas peças aí são peças de arte contemporânea, só que feitas com recursos muito simples e com vocabulário, vamos dizer assim, né, um referencial de certo modo limitado, né? Não é uma pessoa que entrou na faculdade, que teve contato com não sei quantas outras culturas, então ele fala daquela realidade ali que cerca ele, né? Considero uma arte, assim, de grande valor. […] Uma arte original, uma coisa muito original, muito verdadeira (Isadora, arquiteta e designer de moda).
De toda sorte, a estratégia de legitimar-se pela história ou memória, isto é, a ideia de uma “casa de memórias”, é comum às duas frações que concentram capital cultural, mas ela também aparece diferencialmente conforme a trajetória de acúmulo, se antiga ou recente (ver Maciel, 2018). Os pertencentes às “elites tradicionais” evocavam as reminiscências e heranças de suas famílias ao falarem de suas casas, como se vê abaixo:
A mãe da minha mãe, que era a minha grande influência cultural, vamos dizer, artística, de toda essa percepção estética do mundo […] Vovó usava a casa inteira, que é uma coisa que eu faço até hoje. […] A casa dela foi a primeira casa na região a ser decorada e reformada por um arquiteto […]. A casa era decorada de maneira diferente e eu sei disso porque também diziam que quando chegava alguém importante na cidade, eles não mandavam para o hotel. Dependendo da importância da pessoa, como a filha do primeiro-ministro inglês, sei lá que época que veio, vovó que recebia. […] É, tem muitos móveis antigos aqui, que vieram de gerações. […] Os quadros, uns eu adquiri, outros eu herdei de família […]. É o lugar decorado para acolher as coisas que a gente juntou a vida toda. As nossas memórias. E segue minha crítica dessas casas que não têm memória (Isadora, arquiteta e designer).
Aí depois a gente veio morar na casa da Epitácio Pessoa, que vovô construiu quando saiu do Palácio, porque eles ainda moraram no Palácio […]. Sabe, eu tenho uma coisa, vou até lhe mostrar. Eu botei num quadrinho um cartãozinho, que Manoel Bandeira fez para papai, […] papai era diretor [de um dos jornais locais], num quadrinho desses transparentes, sabe, o envelopezinho, com a letra dele, manuscrito, Manoel Bandeira, olha que coisa maravilhosa! Para mim tem o valor de uma barra de ouro, entendeu? Então essa seria a decoração. Livros, coisas bem preciosas, assim, pra minha vida” (Heloísa, alto escalão do Judiciário).
Já os pertencentes às “novas elites” apontam para a própria trajetória de vida, na geração atual, a exemplo de objetos adquiridos em viagens:
Minha casa sou eu. É meu estilo. É o estilo do intelectual, que vive com suas memórias, tem seus livros […]. Tudo tem um significado, né? […] Eu vivia atrás de um pilão, que foi lá da minha infância… Então assim, essas coisas velhas que remontam a própria história. Eu acho que é por isso que a gente não gosta do moderno, porque o moderno não tem história, né? (Elisa, professora e proprietária de instituição de ensino cultural).
Um dos entrevistados, advogado e empresário, das elites tradicionais, que, embora dotado de capital cultural, detém maior concentração de capital econômico, enfatiza seu gosto pelas artes plásticas regionais, herdado de sua mãe e objetivado em diversas telas e peças de artistas plásticos paraibanos e nordestinos que possui. Questionado sobre o estilo do seu apartamento, fala sobre “ter identidade”, remetendo às “raízes nordestinas”, ao mesmo tempo que critica decorações que considera cópias de “apartamentos em São Paulo”.
E a gente, nordestino, né? A gente tem uma cultura muito rica. Eu não entendo uma casa de um nordestino que não tem os nossos elementos da terra, que não tem… Olha o cangaceiro, está vendo? Tem dois cangaceiros. Esse é um pintor muito conhecido, Ademir Martins, que é cearense e que é muito conhecido pelos gatos. Mas, os gatos eu não gosto. Você deve ter visto alguma vez um gato dele aí. Mas eu gosto do cangaceiro. Na minha sala tem um dele pegando uma arma e tal. Então, assim, essa identidade nossa, cultural, às vezes você vai aqui nas casas de João Pessoa que querem imitar um apartamento de São Paulo (Renato, advogado e empresário).
Por mais que este trabalho não analise a trajetória e a produção dos artistas mencionados pelos informantes, mas sim como estes mobilizam o discurso “regional”, a fala de Renato, reproduzida acima (ainda que única em relação à seleção interna de uma mesma obra), sugere um mecanismo semelhante ao identificado por Dimitrov (2022) na análise das trajetórias de artistas modernistas pernambucanos, na qual não é propriamente o artista que é valorizado, mas elementos específicos de sua obra reconhecidos como signos “da terra”. O autor aborda o “regionalismo” como uma “régua” através da qual os artistas eram mensurados: “o grau de autenticidade e de pertinência das obras era, a todo momento, aferido pela relação que o artista ou a obra estabeleciam com a região” (p. 25). É o que se vê no caso de Renato: o cangaceiro permanece e os gatos são recusados.
Por outro lado, os outros informantes da fração com estrutura de capitais marcada pelo capital econômico não apresentaram o mesmo discurso: de forma geral, não há a mesma valorização dos artistas plásticos locais/regionais, do artesanato, ou das “raízes nordestinas”. A maioria das residências visitadas possuía um estilo mais clean: cores claras, móveis “com brilho”, lustres, vasos de cristal, tapeçaria clara, pisos de granito etc., em oposição ao estilo observado nas outras frações.
Eu não gosto de coisa antiga. Nem de clássica. Não gosto de coisa clássica. Gosto de uma coisa mais clean. Mais claro. Linhas mais retas, sabe? Sem muito estardalhaço. Sem muito efeito. Sem muita cor. Sou mais clarinha. Não gosto de muita coisa clássica não (Manuela, médica).
Hoje em dia, a melhor coisa que tem, você pega o YouTube e você vai começar a ver, né? Apartamentos decorados não sei onde, Balneário Camboriú… tem muita coisa bonita. Aí você começa a ir vendo, e aí você começa a ir pinçando alguns elementos (Pedro, empresário).
Interessante observar que os informantes dessa fração são aqueles que afirmaram contratar arquitetos para auxiliarem na decoração de suas residências e, como será abordado adiante, esses profissionais mobilizam e legitimam as referências aos artistas e à cultura regional. Uma das entrevistadas, por exemplo, possui um quadro de Clóvis Jr., artista plástico paraibano consagrado, em meio a seu apartamento predominantemente branco, ao qual se referiu como “o quadro rosa”: “eu não gostava muito do colorido, sabe? Mas, até que hoje eu gosto de alguns toques de cor […]. Aquele quadro todo colorido, tá vendo?”. Em seguida, provocada pela pesquisadora, mencionou o nome do artista, sem demonstrar, contudo, o mesmo entusiasmo dos entrevistados das outras frações: “é, é de Clóvis Jr.”.
Esses dados permitem compreender as aproximações e os distanciamentos entre as classificações realizadas pelas diferentes frações de elite pesquisadas. Se as tomadas de posição simbólicas apresentadas ressoam a tendência de valorização da diversidade cultural e do “local” implicada no processo de mundialização da cultura (Mira, 2016, p. 48), uma análise de classes mais atenta à pluralidade das elites demonstra que tal valorização não é homogênea nem homogeneíza. Se, por um lado, a diversidade torna-se uma anti-commodity no mercado de bens simbólicos (ver Michetti, 2013), por outro, apropriada diferencialmente em dinâmicas de classe, ela pode estar na base de novas distinções e hierarquias.
A pedagogia do regional nas instâncias de consagração: produtores e mediadores do mercado imobiliário local
Os usos do regional como prática distintiva se dão a ver também nas instâncias de consagração do setor imobiliário de “alto padrão” de João Pessoa, o que foi verificado por meio de observações em mostras de ambientação realizadas na cidade, entrevistas realizadas com arquitetos e construtores do mercado local e análise de suas estratégias publicitárias. Uma convergência entre produção artística, arquitetura e mercado imobiliário, contudo, já foi observada anteriormente no contexto local. Em fins dos anos 1970, por exemplo, a Galeria Batik foi inaugurada como um espaço que contemplava um escritório de arquitetura atrelado à comercialização de obras de artistas plásticos locais (Zaccara, 2009, p. 39), e outras tentativas também foram realizadas nas décadas seguintes, a maioria delas sem sucesso, ainda que algumas permaneçam até hoje, como a Galeria Gamela (Chaves, 2013). Vale destacar, ainda, que arranjos análogos, embora historicamente anteriores e de configuração distinta, foram registrados por Dimitrov (2022) em Recife-PE, como o “circuito de lojas de decoração” (p. 359), ou mesmo a “Lei Abelardo da Hora”, de 1961, que obriga as empreiteiras a instalarem obra de arte em suas edificações, como painéis ou esculturas (p. 290). Em 1988, em João Pessoa, a Lei Municipal 5.738 foi aprovada, inspirada na da capital vizinha8.
Nesse sentido, o cenário pessoense contemporâneo de valorização do “regional” por essas instâncias de legitimação se inscreve em uma trajetória local mais ampla, de “idas e vindas”, “tentativas e erros”. Contudo, ele não se confunde com o fenômeno pernambucano analisado por Dimitrov (2022), uma vez que, historicamente, a posição e as tomadas de posição políticas e estéticas em relação a centros sudestinos foram bastante distintas na Paraíba e em Pernambuco, algo que não cabe desenvolver no escopo deste artigo.
Atualmente, na capital paraibana, as duas principais mostras de arquitetura são a Casa Cor Paraíba9 e a Mostra Artefacto10. Em maior ou menor grau, todas as edições em análise na pesquisa evocam a “cultura regional” como legítima. Na primeira edição da Casa Cor Paraíba, realizada em 2016, foi anunciado “um encontro entre o regional e estilos em evidência no mundo inteiro” (Casa Cor, 2016). Já em 2023, os organizadores deram maior ênfase aos “artistas plásticos locais” e suas obras.
Artistas locais marcam presença.
A criação dos ambientes também demanda uma criteriosa curadoria de obras de artes de forma a permitir que o público veja de perto peças de nomes premiados internacionalmente, como Sérgio Rodrigues, Francisco Brennand e José Rufino, e também descubram novos talentos. Todos os ambientes trazem pelo menos um toque de artistas da região. O espaço Sala da Serra da Borborema, por exemplo, foi criado a partir de uma rede de tressê, que encantou o arquiteto Henrique Santiago (Catálogo Casa Cor Paraíba, 2023, destaques das autoras).
É certo que essa valorização não se limita ao discurso da organização das mostras, sendo enunciada também nas concepções dos próprios arquitetos expositores nesses eventos. O que se percebe em seus projetos é o imaginário do “regional” sendo novamente associado aos artistas plásticos locais consagrados, que têm suas obras expostas na decoração dos ambientes criados, além de várias referências ao artesanato local. Na Casa Cor Paraíba 2018, por exemplo, Leila Azzouz, arquiteta entrevistada pela pesquisa, projetou o ambiente chamado “Celeiro Criativo”, espaço em parceria com o Executivo Municipal, onde comercializava artigos de artesãos.
Sandra Moura, outra arquiteta entrevistada, participou em 2017 da Casa Cor São Paulo com projeto denominado “Estúdio do Artista”, quando homenageou o artista plástico paraibano José Rufino, afirmando unir o “regionalismo com contemporaneidade”11. Mais recentemente, participou do “Casa Vogue Experience 2024”, também em São Paulo, falando sobre “perspectivas para o mercado de arquitetura e design de luxo nas regiões Norte e Nordeste” (Casa Vogue, 2024).
É interessante observar que o projeto de Moura na Casa Cor Paraíba 2018 foi uma homenagem ao chef paulistano Alex Atala, com referências à Amazônia e à “brasilidade” (Casa Cor, 2018). Visto em contraste com o trabalho realizado na edição paulistana do evento, evidencia-se uma inversão nas escalas espaciais mobilizadas: quando em São Paulo, o repertório aludia ao “regional” nordestino; quando em João Pessoa, apontava para o nacional, composto, no caso, pela referência ou “homenagem” a um chefe consagrado radicado em São Paulo e seu renome mundial recente, baseado na divulgação do que seria a culinária amazônica. Esse cenário remete às análises de Michetti sobre a moda brasileira (2015), que percebeu uma flexibilização dos usos das escalas geossimbólicas pelas marcas de moda consagradas como estratégia a depender do contexto em que se dão as tomadas de posição (além da própria posição ocupada pelos agentes no campo).
Outro aspecto importante observado foi uma espécie de esforço pedagógico por parte desses profissionais em relação a parte de sua clientela. O arquiteto Leonardo Maia afirmou que “em João Pessoa ainda tem um paradigma para quebrar: o cliente tem um pé atrás para dar 20, 30 mil em uma obra de arte, mas eu acredito que há um trabalho educativo por parte dos arquitetos que trabalham nesse alto padrão”. A pesquisa sugere que esse discurso é mais direcionado para as elites com estrutura de capitais marcada pelo capital econômico, não só pela menor presença do “regional” nas falas desses informantes, mas também pela maioria ter contratado algum dos arquitetos para auxiliar na decoração de suas residências. Por oposição, as frações dominantes simétrica e a de maior capital cultural costumam contratar arquitetos para projetos pontuais, não para decoração, da qual, como fazem questão de frisar, preferem se incumbir pessoalmente.
A inauguração da loja Espaço Arte Brasil, em 2022, também ressalta esse esforço de promoção da “cultura regional”, criada com o propósito de “ampliar o acesso à arte” através da comercialização e exposição de obras de arte de artistas plásticos nordestinos (Paraíba Total, 2022). Um dos sócios declarou que o projeto surgiu da “percepção de que muitos dos nossos artistas, que não deixam em nada a dever aos melhores do mundo, viviam quase que isolados em seus ateliês” (Fatos PB, 2023). A loja é classificada como “ponto de encontro entre gerações e estilos, reunindo obras que vão da arte popular à produção contemporânea”, resultando em um “mosaico rico e plural” (Nóbrega, 2023).
Diante disso, compreende-se como o discurso de valorização e promoção do “regional” pelas instâncias consagradoras é enunciado, tendo ficado patente que boa parte desse esforço é relativamente recente, apesar das tentativas pontuais de outrora, o que parece acompanhar o crescimento imobiliário da capital paraibana. De toda forma, em que pese a centralidade das estratégias de mobilização do “regional”, outras escalas geossimbólicas também compõem seus discursos, como demonstrado a seguir.
Para além do “regional”: a composição de escalas simbólicas
As análises realizadas permitiram perceber que escalas subnacionais, nacionais, internacionais e supranacionais servem de referência “cultural” tanto para os produtores/mediadores quanto para os moradores entrevistados. Vale ressaltar, entretanto, que as dinâmicas observadas dizem respeito a disputas distintivas internas, locais, é dizer, ao mobilizarem o “regional” ou outras escalas geossimbólicas, as elites em questão buscam se distinguir em seu próprio espaço social, não frente a São Paulo, por exemplo. Assim, a cidade de São Paulo é mobilizada como trunfo nas disputas classificatórias locais: “tudo acontece depois de São Paulo”, afirmou Sandra Moura durante a entrevista. A arquiteta contou que é proprietária de um flat em São Paulo, pois viaja frequentemente “para estar em conexão com o mundo”. A capital paulistana aparece ora como ponte para o mundo ora como o próprio mundo.
Leonardo Maia, ao comentar sua participação em 2018 na Mostra Artefacto São Paulo. afirmou se tratar do ápice da carreira de arquitetos que trabalham com design de interiores. Atualmente, ele possui também um escritório em São Paulo, na Av. Faria Lima, e alega que desde a instalação desse escritório “se tornou um player que consegue estar posicionado junto a outros grandes escritórios no Brasil quando o assunto é empreendimento” (Forbes, 2024).
Entre os empresários, Evandro Palhano, sócio da construtora Alliance, ao explicar o crescimento e o sucesso atual de sua construtora, alude ao fato de que desde o início buscou pautar sua atuação observando “grandes empresas do país e do mundo”, com destaque para a capital paulistana. No mesmo sentido, Marcos Ramos, da Planc, declarou que alterou o modelo de negócios de sua construtora inspirado em empresas de São Paulo.
As falas e estratégias adotadas refletem como a cidade de São Paulo é referenciada pelos produtores como instância valorizadora das posições no mercado imobiliário local, seja ditando tendências a serem seguidas ou legitimando suas tomadas de posição. Não é surpresa, então, que essa instância também se faça presente nas falas dos informantes entrevistados, considerando as homologias observadas entre os produtores/mediadores do campo e seus consumidores (Bourdieu, 2013, p. 168; 2015, p. 53). Assim, dois informantes possuem flats na capital, outros têm filhos que estudam e/ou trabalham na cidade, com residência permanente, quando não eles próprios já estudaram e/ou trabalharam lá no passado. Há um investimento realizado em torno do capital cultural institucionalizado, com diplomas obtidos pela FGV e de residência médica pelo Hospital da Beneficência Portuguesa, por exemplo, o que aponta novamente para a legitimidade da capital paulista nas classificações locais.
Em escala internacional, a Europa ganha destaque, passando também por outros lugares pontuais. As referências são mobilizadas sob duas perspectivas: como símbolos de distinção das posições tomadas, notadamente entre os produtores/mediadores entrevistados, e como prática cultural distintiva, quando as viagens internacionais aparecem como marcadoras de “aquisição cultural”, prática historicamente característica de posições de elite (Wagner, 2007; Almeida et al., 2004).
Entre os empresários da construção civil, o CEO da Alliance fala de sua “Loja Conceito”, um espaço que comercializa “produtos exclusivos” com a “marca” da empresa (Alliance, 2025), comparando-a às flagships de alto luxo localizadas em Paris. Já Guedes Pereira, CEO da Setai, afirma que seus projetos “realmente poderiam estar em qualquer lugar do mundo” e ressalta a influência das tendências mundiais em suas criações, alegando ser a única construtora de João Pessoa que transita nesse campo12 (ClickPB, 2025).
Essa estratégia simbólica baseada na mobilidade e no conhecimento sobre lugares considerados distintivos também é observada entre os arquitetos. A presença em feiras internacionais se faz premente, a exemplo do Salone del Mobile, em Milão, apontado por Maia como “balizador das tendências do mercado da arquitetura”. Premiações internacionais também são convertidas em trunfos para sua atuação no mercado local, a exemplo de Moura e Maia, que destacam seus projetos reconhecidos em diferentes locais13: o International Property Awards (2024), sediado em Los Angeles; o Outstanding Property Awards London (2023); o DNA Paris Design Awards (2024); e o LIV Hospitality Design Awards (2020), em Xangai.
Ainda, as viagens a outros países são indicadores de “bagagem cultural” e são mobilizadas pelos arquitetos como “fontes de inspiração” e referências na decoração das casas, como se vê abaixo.
Eu tenho um livro sobre geometria árabe que eu comprei em Paris, num museu islâmico que retrata exatamente todos os desenhos, todos os desenhos. E o princípio básico são os círculos entrelaçados. Então assim, quando eu viajo e vou para o mundo, eu vou primeiro ao mercado para conhecer a cultura do local, eu vou entender um pouco a história, a geografia e depois a arquitetura. Eu só digo uma coisa a você: a arquitetura não me inspira muito não; o que me inspira muito é a arte, é a história, é a música, é a poesia, é a natureza […] (destaques das autoras).
Em sua pedagogia do gosto, os arquitetos aconselham seus clientes a trazerem objetos de viagens, tokens, para decorarem suas residências, para tornar a casa um “um retrato” do seu dono.
É nessa busca por acumular capital cultural ligado ao internacional que se inserem as falas dos informantes pertencentes às frações de elite estudadas. As referências a outros países aparecem, contudo, de duas formas diferentes. Uma delas é arraigada na trajetória de vida dos agentes há várias gerações, notadamente entre os que pertencem às elites tradicionais, com viagens e diplomas de pais e avós, intercâmbios, viagens frequentes, aprendizados de outras línguas etc.14:
Porque vovô dizia que eu ia ser a primeira bailarina do balé de Stuttgart. Imagina, eu cresci com isso na cabeça, né? […] E vovô, que a vida toda morou, vovô morou não sei quantos anos, a primeira guerra toda, fez agronomia em Reading, aí a universidade fechou na guerra, ele foi pra Foxton, ali no Sul. […] Aí pronto, não fui bailarina, mas fiz uns piruetes, porque eu estudei em Covent Garden. Não no Balé de Covent Garden, mas no bairro, uma escola de dança bem legal. […] Eu gosto de lugar que tem mais história. Louca por história. A cultura, né? Saio daqui pra longe já com tudo comprado. Gauguin… balé pra ir com as meninas… (Heloísa, alto escalão do Judiciário; maior capital cultural/elites tradicionais).
A outra lança mão da mobilidade como prática cultural e de lazer correntes, “desse ano” inclusive:
Esse ano a gente foi pra um monte de cantos. A gente foi pra dois shows em São Paulo, foi pra jogo no Rio, foi pra Alemanha, […] rodou a Alemanha inteira. Nova York, Mendoza, tudo esse ano. Eu digo, meu filho, pelo amor de Deus, ano que vem vamos economizar (Talita, odontóloga; maior capital econômico/novas elites).
Assim, tal como as escalas geossimbólicas locais (paraibana/nordestina) são mobilizadas diferencialmente por diferentes frações de elite, as referências a centros de consagração nacionais e internacionais são manejadas de acordo com as posições ocupadas e estratégias dos entrevistados, evidenciando a composição de escalas geossimbólicas nas disputas distintivas entre diferentes frações de elite no contexto estudado. O “regional”, portanto, não é o que resta para essas elites, mas mais um dos elementos que compõem suas estratégias distintivas multirrecursivas. Ao mesmo tempo, essas, mais do que flexíveis, são circunstanciadas, mobilizadas por um “senso de posição”. No Nordeste, a referência a São Paulo pode ser distintiva. Numa mostra nacional realizada em São Paulo, a referência ao regional pode ser distintiva. E nas disputas entre frações de elite locais, ambos podem ser distintivos a depender dos capitais detidos e das composições realizadas.
Considerações finais
A análise sociológica da mobilização distintiva de referências da “cultura regional” entre frações de elite de João Pessoa demonstrou que não estamos diante de um movimento própria ou primeiramente identitário, mas de estratégias distintivas atinentes ao microespaço social observado. Ao explorar as trajetórias, gostos e práticas dos informantes, bem como as estratégias dos produtores e mediadores do mercado imobiliário de “alto padrão” local, evidenciou-se que a referência ao “regional” integra uma composição mais ampla de escalas geossimbólicas, nas quais o local, o nacional e o internacional operam de forma diferencial conforme posições de classe.
Os resultados indicam que o “regional” assume diferentes sentidos conforme o volume, a estrutura e a trajetória de acúmulo dos capitais econômico e cultural. Na fração com estrutura simétrica de capitais, o “regional” aparece como herança ligada à família e à antiguidade na terra, enquanto as referências ao internacional tendem a sublinhar uma linhagem afeita à circulação internacional há várias gerações. A composição entre enraizamento e mobilidade aparece como distintiva. Já na fração com estrutura caracterizada pelo acúmulo de capital cultural, a valorização do regional ocorre de forma mais geral, ligada ao Estado e/ou ao Nordeste como referência ampla e “raízes” esparsas, e não como uma herança familiar designada. Já entre aqueles com estrutura de capitais mais marcada pelo capital econômico, a valorização do “regional”, quando ocorre, tende a ser mediada por arquitetos, construtores e instâncias de consagração que atuam na pedagogia e na legitimação desse discurso. No que diz respeito à dimensão diacrônica, as “novas elites”, especialmente as caracterizadas pelo capital econômico, são as que enunciam mais a mobilidade nacional e internacional como algo corrente.
Nos casos das frações de capital simétrico e de capital cultural, as referências ao local não aparecem isoladamente, mas junto a referências a São Paulo e à Europa, principalmente, revelando a importância de se compor diferentes escalas para a produção da distinção. Nesse sentido, os resultados da pesquisa aqui exposta tensionam leituras que consideram a ideia de um capital cultural cosmopolita como algo relacionado à circulação internacional ou à oposição entre “nacional” e “estrangeiro” (ver Prieur; Savage 2013; Chicchelli; October; Riegel, 2020; Hanquinet; Taylor, 2025) ou, ainda, a teses mais simplistas e datadas que opunham local a global. Em João Pessoa, a distinção não se realiza pela simples adesão a referências locais ou pelas práticas ligadas ao internacional, mas pela capacidade socialmente reconhecida – ou symbolic mastery (ver Atkinson, 2017) – de compor escalas, de modo a, de acordo também com os recursos necessários, converter diversidade cultural, pertencimento e mobilidade geográficos em capital simbólico.
Desse modo, ao buscar compreender as hierarquias sociais contemporâneas por meio da articulação entre estudos de classe e sociologia da cultura (cultural class analysis), a análise das dinâmicas distintivas entre frações de elite, para além dos grandes centros urbanos mais consagrados do país, em uma capital nordestina em processo recente de valorização imobiliária e simbólica, contribui com os estudos sobre a situação de mundialização, avançando no debate sobre cosmopolitismo e capitais culturais emergentes, em especial com a ideia de composição de múltiplas escalas geossimbólicas. Além disso, soma-se aos estudos atuais sobre elites e distinção, avançando na compreensão da pluralidade das elites em disputa em determinado espaço social, dando a ver algumas das vicissitudes menos evidentes do regional quando empunhado nos termos de uma sociedade desigual.
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Destaques das autoras: local de moradia dos entrevistados de acordo com as frações: dominante simétrico [azul]; maior econômico [verde]; maior cultural [roxo]Fonte: Wikipedia, com edição das autoras.