Resumo
O crime de extorsão mediante seqüestro, em regra praticado por quadrilhas, tornou-se um problema e desafio para a política de segurança pública e a ação policial. A alta incidência de seqüestros, os efeitos sociais dramáticos que gera e sua repercussão sobre a opinião pública e a imagem da cidade, fizeram dessa prática delituosa um ponto de referência significativo no debate social e político sobre crime organizado. Seqüestros motivaram protestos sociais, inclusive, o movimento Reage Rio (Caminhada pela Paz). Este trabalho tenta contextualizar o problema dos seqüestros. Discute a política de segurança pública do Estado do Rio de Janeiro tendo em vista o projeto de uma cidade voltada aos negócios, uma cidade internacional, que é desejada pelas elites empresariais e políticas dominantes no Rio neste período. Focaliza o ascenso do movimento de "lei e ordem" e as ações anti-seqüestro das polícias. Por fim, apresenta dados coletados, num projeto de pesquisa em andamento, que procura estudar o chamado "crime organizado" e a política de segurança pública, a partir de delitos comumente associados à quadrilhas como seqüestros extorsivos, narcotráfico, assaltos a bancos e outros.
seqüestros; política de segurança pública; política criminal; Rio de Janeiro; criminalidade urbana violenta; crime organizado; direito penal; Operação Rio
Abstract
Abduction and detention of a person for ransom (kidnapping), a crime committed generally by gangs, has become a serious problem and challenge to public safety and police action.The high incidence of kidnappings, their dramatic ocurrence and their repercussions on public opinion and image of the city of Rio, have made this offense an outstanding point of reference for social and political debate on organized crime. Kidnappings have motivated public protests, including in part, the huge demonstration Reage Rio (a peace march). This paper strives to be contextual. It discusses the public safety policy of the State of Rio de Janeiro in view of the project of a business-oriented, international city, desired by the entrepreneurial and political elite. It focuses on the rising"law and order" movement and the anti-kipnapping police efforts. Finally, it reveals data collected in a on-going research project that attempts to study criminal conduct commonly associated with "organized crime", such as kidnappings, illegal drug trafficking and bank robberies, in order to, eventually, help formulating more effective and democratic public safety policy.
kidnappings; public security policy; Rio de Janeiro; urban violence; organized crime; police; criminal law; operation Rio
ESTRATÉGIAS DE INTERVENÇÃO POLICIAL NO ESTADO CONTEMPORÂNEO
Segurança pública e seqüestros no Rio de Janeiro 1995-1996
Public security and kidnappings in Rio de Janeiro (1995-1996)
Cesar Caldeira
Professor da Universidade Federal Fluminense
RESUMO
O crime de extorsão mediante seqüestro, em regra praticado por quadrilhas, tornou-se um problema e desafio para a política de segurança pública e a ação policial. A alta incidência de seqüestros, os efeitos sociais dramáticos que gera e sua repercussão sobre a opinião pública e a imagem da cidade, fizeram dessa prática delituosa um ponto de referência significativo no debate social e político sobre crime organizado. Seqüestros motivaram protestos sociais, inclusive, o movimento Reage Rio (Caminhada pela Paz). Este trabalho tenta contextualizar o problema dos seqüestros. Discute a política de segurança pública do Estado do Rio de Janeiro tendo em vista o projeto de uma cidade voltada aos negócios, uma cidade internacional, que é desejada pelas elites empresariais e políticas dominantes no Rio neste período. Focaliza o ascenso do movimento de "lei e ordem" e as ações anti-seqüestro das polícias. Por fim, apresenta dados coletados, num projeto de pesquisa em andamento, que procura estudar o chamado "crime organizado" e a política de segurança pública, a partir de delitos comumente associados à quadrilhas como seqüestros extorsivos, narcotráfico, assaltos a bancos e outros.
Palavras-chave: seqüestros, política de segurança pública, política criminal, Rio de Janeiro, criminalidade urbana violenta, crime organizado, direito penal, Operação Rio.
ABSTRACT
Abduction and detention of a person for ransom (kidnapping), a crime committed generally by gangs, has become a serious problem and challenge to public safety and police action.The high incidence of kidnappings, their dramatic ocurrence and their repercussions on public opinion and image of the city of Rio, have made this offense an outstanding point of reference for social and political debate on organized crime. Kidnappings have motivated public protests, including in part, the huge demonstration Reage Rio (a peace march). This paper strives to be contextual. It discusses the public safety policy of the State of Rio de Janeiro in view of the project of a business-oriented, international city, desired by the entrepreneurial and political elite. It focuses on the rising"law and order" movement and the anti-kipnapping police efforts. Finally, it reveals data collected in a on-going research project that attempts to study criminal conduct commonly associated with "organized crime", such as kidnappings, illegal drug trafficking and bank robberies, in order to, eventually, help formulating more effective and democratic public safety policy.
Keywords: kidnappings, public security policy, Rio de Janeiro, urban violence, organized crime, police; criminal law, operation Rio.
Este trabalho versa sobre a atuação policial na prevenção e repressão de uma prática delituosa - extorsão mediante seqüestro - durante os primeiros dois anos da administração Marcello Alencar no Rio de Janeiro. Na primeira seção apresenta-se uma reflexão sobre a construção social da imagem da cidade do Rio de Janeiro como um local ideal para investimentos empresariais. Na segunda seção, situa-se a política de segurança pública, iniciada com a chamada Operação Rio, que visa restabelecer a "lei e a ordem" adequada ao projeto-cidade. Destaca-se aí a interpretação dominante sobre a criminalidade urbana violenta e organizada e alguns pontos de referência explicitados pelos operadores oficiais da política de segurança, principalmente o Secretário de Segurança General Nilton Cerqueira. Na terceira seção, descreve-se quem responde pelas ações oficiais na área de segurança pública, em particular na atuação policial anti-seqüestros, durante o período 1995-1996. Na quarta seção, examina-se a política de segurança pública do ponto de vista de seus gestores e críticos, dando-se atenção a um episódio de mobilização pública em torno do problema dos seqüestros: a caminhada Reage Rio. Por fim, são apresentados os resultados preliminares de um levantamento sobre a chamada "indústria de seqüestros" no Rio. Neste texto os dados selecionados referem-se tão-somente a uma parte bastante limitada da pesquisa: a atuação policial anti-seqüestros. A ênfase será, portanto, na ocorrência do delito, perfil da vítima e dos seqüestradores, e detalhamento da investigação policial. Outros aspectos fundamentais para uma avaliação da eficácia da política de segurança pública - como, por exemplo, a atuação do Ministério Público e da Magistratura no processo judicial - serão examinadas em outra oportunidade. Este texto pretende oferecer apenas um mapeamento de problemas e questões que serão abordadas em fases posteriores do estudo.
1. A cidade do Rio como projeto1
O Rio de Janeiro vem definindo seus rumos como uma "cidade internacional" (cf. Santos, 1993)2. Os resultados das eleições estaduais de 19943 e as municipais de 19964 consagraram discursos políticos que afirmam a reurbanização, a imposição da ordem e segurança pública, o embelezamento da cidade como atributos de uma cidade moderna e competitiva, adequada para atrair investimentos5. Empresários6, políticos7 e organizações não-governamentais8 cooperam na produção de uma imagem positiva do Rio9. A cidade-metrópole tem problemas, mas possui recursos físicos10, econômicos11, culturais12, humanos13 e políticos14 para superar suas dificuldades. Esta é a base do moderado otimismo da elite empresarial e política. Aposta-se na recuperação da indústria fluminense, em novos investimentos estrangeiros e até na implantação de uma grande infra-estrutura esportiva para acolher a desejada Olimpíada de 200415.
A atual fase (1995-1996) de realização do projeto estratégico de inserção do Rio no novo mercado mundial está facilitada devido a alguns fatores. Primeiro, a diminuição notável da inflação depois do Plano Real16, de julho de 1994. Segundo, as derrotas eleitorais sucessivas dos partidos (PT e PDT)17 que se opunham ao projeto neo-liberal no Estado e no município do Rio. Terceiro, a fraqueza do associativismo18 e a expansão da criminalidade urbana violenta19.
2. O plano estratégico do Rio20 e a política de segurança pública
O Projeto-Cidade para ser eficaz depende, entre outros fatores, de 1. construir e/ou modificar a imagem que a cidade guarde de si e revela no exterior (marketing urbano); 2. diagnosticar os problemas que precisam ser resolvidos para efetivar o projeto; 3. mobilizar atores públicos e privados (p. ex. associações de empresários, organizações não-governamentais) e efetivar medidas e campanhas, de imediato, para efetivar o plano.
Um dos problemas mais importantes para a imagem da cidade, e para vida dos cariocas, permanece sendo a criminalidade violenta e a atmosfera de medo coletivo vivenciado pela população21.
A criminalidade urbana violenta foi interpretada, na visão político-social dominante, como gerada e continuamente agravada, pela atuação dos narcotraficantes, pesadamente armados e bastante violentos, que prosperaram e passaram a controlar as favelas cariocas devido à "falência" ou "ausência"22do Estado. Para superar a crise de segurança pública o diagnóstico apontava para a necessidade de mudança política (entenda-se, derrotar o brizolismo e seus aliados), a contenção ou destruição do ator político emergente (o narcotraficante e sua rede de "criminalidade organizada" sediada nas favelas), e a reforma modernizadora do aparato de segurança pública23.
Esta interpretação justifica uma política de segurança linha-dura que passou a ser detalhada no período 1995-96 pelo Secretário de Segurança Pública do Rio de Janeiro General Nilton Cerqueira24. A partir dos seus escritos e declarações pode-se enumerar os seguintes pontos principais da política governamental de segurança pública:
Primeiro, a "estratégia principal é a reativação da ação da polícia em todo o Estado do Rio de Janeiro, não mais se admitindo, como em tempos idos, áreas de exclusão à ação das Forças Públicas"25.
Segundo, a "prioridade é combater os redutos do tráfico, capturando os bandidos e desenvolver programas de natureza cívico social em comunidades carentes"26.
Terceiro," a questão do narcotráfico, talvez a maior preocupação atual dos sistemas de segurança, ultrapassa divisas e fronteiras, tendo sido observado, no Rio de Janeiro de há muito e já em outros estados, que os narcotraficantes vem se utilizando de práticas próprias de guerrilha27 e de terrorismo urbano28 como estratégia para fazer com que os governos recuem da repressão legal, deixando livre o caminho para sua expansão"29.
Quarto, "além da repressão a traficantes e consumidores, é preciso, mais do que nunca, identificar os financiadores e os intermediários do tráfico de drogas, em larga e pequena escala"30.
Quinto, violência se combate com violência. "O policial deve atirar primeiro do que o seu agressor (sic) para não morrer", a afirmação consta de ofício enviado pelo General Cerqueira ao presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados, deputado Nilmário Miranda (PT-MG).O secretário afirma que "a lei não exige que o policial espere o marginal atirar primeiro" e que "basta a iminência de agressão para a defesa ser legítima"31.
Sexto, levar adiante a reforma das polícias civil e militar32. A reforma modernizadora é multifacetada. Entre seus objetivos estão: combater a corrupção interna33, valorizar os policiais combativos com gratificações por ato de bravura (mérito especial)34, reequipar as corporações35.
Sétimo, recuperar "a credibilidade das instituições policiais, obter o apoio da sociedade e a redução a níveis suportáveis dos índices de criminalidade no Estado"36. A participação da sociedade no combate à criminalidade deveria se dar, principalmente, através da colaboração com a polícia por meio de informações anônimas: o Disque-Denúncia37. Criado com ajuda de empresários, este serviço parece ser um caso de sucesso. Entre agosto de 1995 e início de dezembro de 1996, recebeu 67.002 ligações38, tendo contribuído para solução de seqüestros39 e prisões de traficantes.
A política de segurança pública acima delineada tem sido saudada pelo governador como de êxito40. Baseando-se, em grande parte, nas estatísticas da Secretaria de Segurança41 argumenta-se que diminuíram o número de homicídios, seqüestros extorsivos, roubos e furtos de veículos. Por outro lado, aumentaram as apreensões de drogas, prisões em flagrante por tráfico, posse e uso de drogas. Críticas à política de segurança no período 1995-1996 foram recebidas como se fossem ataques políticos, como quando feitas pelo Prefeito César Maia42, por pesquisadores ou penalistas43, ou organizações de defesa de direitos humanos44.
O debate sobre a atual política de segurança está apenas começando45. Por um lado, o governo estadual esforçou-se para demonstrar combatividade e recuperação de controle sobre a situação. No plano psicossocial, provavelmente as expectativas mais negativas, relativas à omissão do Estado, foram revertidas. Mas a credibilidade nas instituições de segurança pública ainda é muito baixa. Pesquisas indicam, por exemplo, que: 1) o sentimento de insegurança do carioca é elevado46 e que ele tem mais medo que confiança na Polícia Civil do Rio47; 2) metade dos cariocas já foi roubado48 e que 77% dos fluminenses nunca registraram queixa na polícia49. O temor dos juizes eleitorais com a segurança nas eleições de 1996 também sugeriram que segmentos importantes da elite fluminense não estão ainda plenamente convencidos do controle policial no Estado50. A preocupação com a segurança está bem presente no planejamento da viagem do Papa ao Rio51 e no projeto de candidatura do Rio para sede das Olimpíadas em 200452. A redução do Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU) de cerca de 300 mil imóveis situados perto de favelas e áreas de violência indica outro desdobramento da deterioração urbana53. Ocorreu, por fim, um certo deslocamento nos temas tratados pela imprensa na área da segurança pública: se em 1995, a questão mais notável talvez tenha sido os casos de seqüestros extorsivos, em 1996, as chamadas "balas perdidas' e o crescente número de vítimas foram um tema constante54.
3. Breve nota sobre os principais operadores na área da segurança pública e combate aos seqüestros no período 1995-1996
O governo Marcello Alencar começa durante a Operação Rio55. Portanto, destaca-se neste período inicial o Comandante da Operação Rio, general Jugurtha Câmara Senna e o Comandante Militar do Leste, general Edson Alves Mey. As tropas militares disponíveis durante a Operação somavam 125.850 homens56 que deveriam combater um contingente estimado, pela 2a Seção da PM-RJ, de 11.340 bandidos-traficantes57.
a. 1o Secretário de Segurança Pública (01/01/95- 16/05/95)
O general-de-brigada do Exército, da reserva, Euclimar Lima da Silva58 foi nomeado pelo Governador Alencar como secretário de Segurança, de um secretaria reorganizada, à qual ficaram subordinadas as chefias de Polícia Civil e de Polícia Militar59. Suas prioridades eram: reorganizar as polícias estaduais, combater a corrupção policial e possibilitar a transferência da Operação Rio para o Estado, tirando, assim, o Exército da linha de frente das ações60. Além dessas, destacavam-se a importância em aumentar o policiamento ostensivo, tornar a polícia judiciária mais atuante e "limpar"61 as favelas para que depois a política social se instaurasse. De fato, o general era o elo de ligação entre os militares que comandavam a Operação Rio "conjuntamente" com o Secretário de Segurança. Na medida que a Operação foi sendo desativada sua importância dentro do governo Alencar foi sendo reduzida.
O delegado-chefe neste período foi Dilermaro Amaro62 e o comandante-geral da Polícia Militar foi Dorasil Castilho Corval63. A partir do final de janeiro, o Exército passou a transferir o comando de operações nas favelas e morros para a polícia militar64.
a1. Durante a Operação Rio houve um recrudescimento dos seqüestros extorsivos. Atenção especial foi dedicada ao problema no início do governo Alencar. O primeiro chefe da Divisão Anti-seqüestro (DAS) foi o delegado Agra Lopes, que havia assumido a direção após o afastamento do delegado Hélio Vigio, ainda no governo de Nilo Batista65. Lopes permaneceu no DAS até 21 de fevereiro de 1995. Durante o período ampliou o quadro da Divisão, tendo conseguido 23 policiais para reforçar a equipe de 70 agentes66.
O delegado Ícaro da Silva67 substituiu Lopes. A atuação da DAS no seu período também não agradou ao governador Marcello Alencar, que havia estabelecido o combate aos seqüestros como uma das prioridades de sua administração. Na época, o general Lima da Silva apresentou ao Ministro da Justiça Nelson Jobim planos de reestruturar a DAS, criando equipes de investigação que contariam até com integrantes das Forças Armadas68. Dois episódios desagradaram particularmente ao governador Alencar. O primeiro, em maio, quando a polícia de Minas Gerais entrou em território fluminense e libertou a estudante Patrícia Zamboni, 13, seqüestrada em Além Paraíba (MG) no dia 24 de abril. A polícia do Rio não atuou nas investigações sobre o caso69.Nem a família da vítima nem a polícia mineira quiseram sua ajuda. O segundo, quando Governador se irritou mais ainda com as críticas de parentes de Juliana Lutterbach, 13, à atuação da DAS na apuração do seqüestro da menina, encerrado à mesma época. Os parentes disseram considerar suspeita a atuação da DAS, devido a uma suposta negligência dos policiais70. Face à crise na DAS, Alencar decidiu extingui-la sem consultar o Secretário de Segurança. Esta decisão precipitou o pedido de demissão de Lima da Silva, que há tempos já não se entendia bem com o governador71.
b. 2oSecretário de Segurança (17/05/95 em diante)
O general Nilton Cerqueira foi escolhido por Alencar e sua nomeação contou com apoio do Executivo federal e das Forças Armadas72. Face aos problemas notórios da DAS, Cerqueira indicou logo o delegado Hélio Luz73 como novo titular da divisão em 27 de maio de 1995. "A partir de agora a Anti-seqüestro não seqüestra mais"74 disse Luz, que teria como uma de suas atribuições principais conduzir uma devassa na DAS. Luz pretendia ainda coibir as atividades de policiais que ofereciam e cobravam por seus serviços a famílias de seqüestrados e não permitir o uso de X-9 (informantes)75.
Cerqueira inicialmente manteve os chefes das polícias Civil e Militar, nomeados pelo ex-secretário Euclimar da Silva76. Depois de um período de avaliação, manteve o comandante da PM Dorasil Dorval77 e resolveu substituir o delegado Dilermano Amaro78 por Hélio Luz, para a Chefia da Polícia Civil. Durante um breve período, o substituto de Luz, delegado Elias Barbosa respondeu pelo DAS (28/06/95 - 04/07/95)79.
b1. Depois de Hélio Luz, a DAS esteve sobre a direção do delegado Alexandre Neto80 durante quatro meses (5/07/95 - 4/11/95). Atuou durante o seqüestro de Eduardo Eugênio Gouveia Vieira, sem sucesso. Supõe-se inclusive que tenha divulgado precipitadamente que Eduardo Eugênio teria sido libertado pela DAS81.
O delegado Paulo Roberto Maiato82 assumiu a chefia da DAS no dia 5 de novembro de 1995. Saiu no dia 25 de janeiro de 96.
O delegado Antônio das Graças Francisco Ragozzo83 assumiu então a Chefia da DAS, permanecendo no cargo de fevereiro de 1996 até 20 de março de 1996. Tentou reduzir as atividades burocráticas na DAS e remanejou para a rua os policiais que estavam na administração. Dos 115 homens que a DAS tinha tido, ele conseguiu reduzir o efetivo para 80.
No dia 21 de março de 1996, o delegado Herald Paquett Spindola Filho84 tomou posse como diretor da DAS. Já trabalhava na divisão há um ano, mas só com a entrada de Ragozzo passou a ocupar o cargo de chefe de operações e coordenar as investigações sobre seqüestros85.
4. Breve comentário sobre a política de segurança pública (1995-1996): gestores, críticos e crises
Analisando-se, a atuação dos gestores do aparato de segurança pública estadual no período 1995-1996 constatam-se algumas continuidades. Primeiro, os dois Secretários de Segurança Pública - generais Da Silva e Cerqueira - comungaram com os objetivos gerais da política de "lei e ordem" exposta pelo candidato a governador Marcello Alencar, conduzida durante a Operação Rio e mantida durante o biênio inicial de seu governo. Os dois generais promoveram ações na área de segurança pública interna orientados por valores, crenças e concepções oriundas da doutrina militar86. Ambos partilham da percepção que estão comandando ações numa guerra interna. Usam de táticas militares como "blitzes", "cercos", "tomadas", "ocupações" de morros e favelas onde se encontra o "inimigo" (o narcotraficante pesadamente armado). A diferença no período do General Cerqueira está em que nas ações empregam-se apenas as polícias estaduais e não mais as Forças Armadas87. É importante frisar que essa notável militarização da política de segurança pública parece encontrar amplo apoio na população88 e na imprensa89, pelo menos, por enquanto. A oposição política mais notável é do ex-prefeito César Maia que critica, principalmente, o Chefe de Polícia Hélio Luz por defender direitos humanos90. Organizações não governamentais, em particular de defesa de direitos humanos, não fazem críticas e/ou não têm expressão pública, com algumas poucas exceções91, além de mostrarem-se incapazes de formular alternativas de políticas democráticas de segurança pública92. A formulação de propostas alternativas veio, sem grande impacto político prático, do Legislativo estadual, através de uma Comissão Mista de Segurança Pública93. Apenas uma revista - Discursos Sediciosos - dirigida pelo ex-governador e jurista Nilo Batista, vem combatendo sistematicamente, no plano doutrinário, a política de segurança do governo Marcello Alencar94.
a. Caminhada Reage Rio
A ampla mobilização contra a violência, efetuada no final de novembro de 1995, evidencia as ambigüidades e contradições entre os atores políticos e sociais que participam do debate público sobre a questão da segurança.
Em primeiro lugar, o governo estadual afirmava na época que havia restabelecido controle sobre a violência urbana, o que era desmentido pelos fatos95.
O Secretário de Segurança ordenava que se destacassem os aspectos positivos das ações policiais, evitando-se críticas às polícias civis e militares96, principalmente em relação aos insucessos no combate aos seqüestros extorsivos. Naquela conjuntura, imediatamente posterior às ameaças do general Cerqueira de acabar com a Polícia Civil97, havia um clima de contestação e indisciplina98 na corporação, além de grande insatisfação salarial99. Esses fatores fomentavam uma crise interna na polícia, que só foi parcialmente contornada quando o governador Marcello Alencar reafirmou sua total confiança política no Secretário de Segurança100. Mesmo assim, a questão salarial permaneceu na ordem do dia, dando origem, inclusive, a uma das propostas mais bizarras do governador para resolver o problema da falta de recursos - o chamado "imposto caça-bandido"101 a ser cobrado apenas de empresários. E também nesse período que é decidida, e começa a ser implementada, a estratégia de premiações de policiais civis por bons serviços, como um mecanismo de pacificação interna102.
Em suma, no período que antecede a caminhada Reage Rio, ocorre um esforço deliberado do Secretário de Segurança, e do Chefe da Polícia Civil, em ganhar efetivo controle sobre setores do aparato de segurança103 e implementar minimamente uma "limpeza". Episódios divulgados pela imprensa sinalizam que esta tarefa era (e continua a ser) muito difícil, sendo que importantes aliados na Polícia Civil talvez tenham sido alijados104. Este tipo de problema interno na área estadual pode ter incentivado uma postura que encarava campanhas e mobilizações como potencialmente hostis e desestabilizadoras para chefias institucionais. Porém, havia simultaneamente interesse governamental105 em obter apoio na opinião pública para legitimar sua política de segurança pública. Para as autoridades estaduais, era preciso avaliar se a campanha Reage Rio seria percebida como uma colaboração social com o governo ou como uma contestação da sua política. Mais precisamente, as questões principais seriam como a campanha abordaria (ou omitiria) a violência policial contra os segmentos pobres e favelados da população, a participação criminosa de policiais em seqüestros e outros delitos, e a corrupção policial. Na reta final de organização da caminhada, o Governador passou a criticar o evento e, particularmente, os seus organizadores, como o Viva Rio106. A partir da descoberta de um esconderijo de cocaína na Fábrica de Esperança, projeto patrocinado pelo Viva Rio, cinco dias antes da caminhada, as autoridades passaram a sugerir a conivência das ONGs com o narcotráfico107.
Em segundo lugar, o Presidente Fernando Henrique contribuiu também para a mobilização do Reage Rio. Mostrou apoio à iniciativa, recebeu seus organizadores e prometeu recursos especiais para combater a violência no Rio de Janeiro108. A federalização da questão da segurança no Rio é um aspecto bastante importante na discussão pública109. Em parte devido à Operação Rio, o envolvimento direto de forças militares na segurança pública interna já havia evidenciado o interesse federal no problema. Além disso, as elites cariocas sempre apontaram a ineficácia da Polícia Federal no combate ao tráfico internacional de drogas e contrabando de armas no Rio110, principalmente pelo aeroporto do Galeão. Isto sem contar que a PF é tida como uma instituição marcada pela corrupção111.
Em terceiro lugar, os organizadores da caminhada Reage Rio eram bastante heterogêneos. Entre os grupos que lideraram publicamente a mobilização destacaram-se os dirigentes de ONGs (como Rubem César, Betinho e o pastor Caio Fábio), e os empresários (como donos de jornais, publicitários, dirigentes de associações empresariais).
Pela perspectiva de Rubem César, o evento seria "um imenso desabafo do Rio de Janeiro". E teria dois temas centrais para o dia seguinte: "integração da favela à cidade e reforma da polícia"112.
Do ponto de vista dos empresários, especialmente os proprietários dos jornais113, a caminhada foi interpretada como um protesto contra a "onda de seqüestros"114e uma reivindicação de maior proteção policial e repressão aos narcotraficantes nos morros e favelas115.
Esta discrepância de significados para a caminhada pela Paz entre dois dos principais grupos organizadores evidencia os próprios limites aliança mobilizadora. Perante a divergência de agendas, o que se tornou ponto comum foi a demanda por mais recursos, que afinal virou slogan da passeata: "Um milhão de pessoas por um bilhão de reais116.
Em quarto lugar, entre aqueles que criticaram a caminhada Reage Rio, além do Governador, destacaram-se o Prefeito César Maia117 que afirmou que o ato provocava expectativa e depois frustração pela impossibilidade de viabilizar os pleitos, e a CUT-RJ que cunhou a expressão Reage Rico para designar a caminhada.
b. Reage Rio e os seqüestros extorsivos
A caminhada de 28 de novembro focalizou a atenção dos meios de comunicação de massa e da opinião pública no combate aos seqüestros transformando-os numa prioridade política indiscutível para as autoridades governamentais e, em particular, as da área de segurança. Tornou-se urgente obter sucesso em termos de prisão de supostos seqüestradores. Mas, a mobilização do Reage Rio impulsionou também os ímpetos reformistas em relação às polícias estaduais. Por outro lado, o governo estadual passou a fustigar mais sistematicamente as ONGs, principalmente o VIVA RIO118, questionando sua liderança e atuação. Em resumo, as autoridades acolheram como significado da caminhada a demanda prioritária por mais vigor na ação policial contra traficantes e seqüestradores nas favelas e morros. Reformas nas polícias precisariam ser realizadas para torná-las mais eficazes no combate a esses criminosos.
Não foi incorporada a demanda de uma agenda social visando superar a "cidade partida" ou de se repensar qual a polícia e política de segurança pública que a sociedade civil quer. Essas discussões fundamentais parecem adiadas até a próxima grande crise, ou restrita a pequenos grupos de estudiosos e pesquisadores119.
Porém, a incorporação das demandas empresariais de resultados na atuação policial serviu para fortalecer o secretário de segurança, general Cerqueira, e o Chefe de Polícia Civil, Hélio Luz, que ao longo de 1996 conseguiram remanejar pessoal e retirar obstáculos internos à implementação da política de segurança pública120. Houve centralização de poder decisório121e o orçamento da Secretaria de Segurança - o terceiro maior do Estado - cresceu122. A exigência de "mostrar serviço" para obter premiações e promoções influiu no número crescente de prisões, que já parecem ter esgotado o espaço nos presídios e delegacias123. Tentou-se também acabar com os aspectos mais públicos e notáveis de impunidade policial: havendo escândalo, consegue-se punições. A partir dos seus próprios objetivos, a política de segurança implementada foi bem sucedida124.
O quadro geral, no entanto, mudou pouco. O combate ao tráfico de drogas e a seqüestradores se dá nas favelas e morros125. Na zona Sul do Rio compra-se drogas sem dificuldades com flanelinhas, camelôs126 e outros que suprem o mercado consumidor de classe média alta127. O jogo do bicho permaneceu funcionando regularmente durante todo o período, inclusive quando toda a cúpula delinqüente estava encarcerada128. Em 1997, os bicheiros que lideram o setor mais organizado do crime carioca retomaram o controle do Carnaval129. Continuam a existir áreas da cidade em que correios e coletores de lixo, por exemplo, não tem acesso porque os traficantes não permitem130. Seguranças particulares, predominantemente vinculados à empresas de segurança clandestinas, continuam a proliferar por toda a cidade131, sinalizando um processo de privatização da segurança. Armas cada vez mais sofisticadas132são empunhadas por narcotraficantes.
Por fim, deve-se insistir neste ponto: não surgiram ainda na agenda pública carioca alternativas substantivas de políticas de segurança pública com maior articulação social e apelo popular. Mesmo o Viva Rio, que foi duramente criticado pelos governantes estaduais e municipais, propõe como medidas para "integrar a cidade partida"133 basicamente programas sociais oficiais do Estado (Baixada Viva, Centros Comunitários de Defesa da Cidadania), do município (Favela-Bairro) e do governo federal (Comunidade Solidária).
5. Seqüestros extorsivos no Rio: 1995-1996
a. História recente dos seqüestros134
O seqüestro político do embaixador norte-americano Charles Burke Elbrick, no dia 4 de setembro de 1969135, é um marco na história dessa prática delituosa no Rio. Duas organizações de esquerda - o MR-8 e a ALN - seqüestraram o embaixador e exigiram a libertação de opositores do regime militar. Dois dias depois, 15 presos políticos saíram do País. O embaixador foi solto no dia seguinte.
Na década de 80, o número de seqüestros no estado do Rio de Janeiro aumentou consideravelmente: foram 24 casos de extorsão mediante seqüestro136. Estes seqüestros não têm mais fundo ideológico e político. São seqüestros com intuito de lucro.
Apesar do crescimento dos seqüestros no Estado do Rio, este número era ainda inferior ao total do Estado de S. Paulo: 38 casos de seqüestro na década de 80.
1. fonte: Gomes (1993)137
Dez anos atrás, o Estado de S. Paulo tinha 9 entre os 12 doze seqüestros registrados no Brasil138.
Em 1989139 ocorreu o pico da onda de seqüestros na década: registraram-se 40 seqüestros. É neste ano que, no Rio de Janeiro, surge a chamada "indústria de seqüestros" (15 casos). Em 1988/1989 se deu também uma difusão dos seqüestros por outros estados da federação brasileira, principalmente na Bahia (6), Minas Gerais (4) e Paraná (4).
Na década de 80, foram registrados 94 casos de seqüestros extorsivos: 40 % deles ocorreram no Estado de S. Paulo e 26 % no Rio. No entanto, o fato é que na década seguinte a " indústria dos seqüestros" veio a se instalar no Estado do Rio de Janeiro devido a fatores que ainda carecem de estudo adequado, não tendo a mesma prosperado na primeira parte da década de 90 em São Paulo.
Na década de 90 ocorre uma escalada de ocorrências de seqüestros no Estado do Rio de Janeiro. Entre 1990 e 1995 foram oficialmente registradas 479 ocorrências de extorsão mediante seqüestro.
Entre 1991 e 1992 140, os dois primeiros anos da administração Brizola, ocorre um aumento acelerado de seqüestros acumulando-se 119 casos só em 1992. Ou seja, em um ano apenas, um acúmulo maior de casos que em toda a década passada em todo o Brasil. Em 1993 há uma queda para um patamar ainda elevado: 62 casos, ou, em média cinco seqüestros por mês. E, no último ano de sua administração, que sofreu uma intervenção "branca" na área de segurança pelo governo federal (a Operação Rio), os seqüestros voltaram a crescer.
2. fonte: Secretaria de Estado de Segurança Pública (SESP). Chefia de Polícia Civil
Em 1995, na administração Marcello Alencar - apoiada pelo governo federal do correligionário tucano Fernando Henrique Cardoso e pela atuação das forças armadas nas questões de segurança interna do Rio - os seqüestros extorsivos atingiram o mesmo pico da administração brizolista -119 casos. Até 16 de dezembro de 1996, 65 pessoas haviam sido reconhecidas como seqüestradas no Rio, segundo a Divisão Anti-seqüestro141.
b. Seqüestros no rio: a justificativa do levantamento de dados
Durante a elaboração de um trabalho sobre a chamada Operação Rio142procurei estudos que abordassem a chamada "indústria de seqüestros" no Rio de Janeiro. Um dos raros estudos sociológicos sobre seqüestros na sociedade brasileira encontrado foi feito por um pesquisador ligado ao NEV (USP), Glaúber Silva de Carvalho (1994)143. Mas, para participar da discussão sobre aspectos jurídicos do "crime organizado" - uma categoria nova no direito positivo brasileiro144 que vem gerando muitas polêmicas145 - precisava-se de informações mais precisas sobre o novo padrão de criminal idade no Rio. Mais ainda, para se fazer um exame crítico das opções de política de segurança pública são necessárias mais informações sobre as práticas delituosas realmente existentes146.
Assim, surgiu a idéia de montar um bancos de dados informatizado e geo-referenciado sobre os vários delitos que aparecem comumente associados às organizações criminosas. O levantamento sobre seqüestros é apenas uma das práticas delituosas que precisa ser mais sistematicamente examinada.
Este levantamento preliminar partiu das notícias sobre seqüestros extorsivos publicadas em três jornais cariocas (O Globo, Jornal do Brasil e O Dia), dois jornais paulistas (O Estado de S. Paulo e a Folha de S. Paulo) e duas revistas nacionais (Veja e IstoÉ)147 num período de 17 meses (01/01/95 a 31/12/96). O objetivo básico do levantamento está em obter dados não oficiais que possibilitem: 1) contextualizar as práticas delituosas e as respostas institucionais, 2) contrastar, numa etapa posterior do estudo, esses dados não oficiais com as estatísticas e documentos produzidos oficialmente.
Seqüestro extorsivo é crime de ação pública incondicionada148. A autoridade policial que dele tomar conhecimento deve instaurar o inquérito policial (art. 5o do CPP). A notitia criminis (o fato infringente da norma) publicada no jornal é notícia do crime de "cognição imediata"149. Cabe à autoridade, portanto, o dever jurídico de fazer as investigações para apurar o fato infringente da norma e sua autoria, e isto por iniciativa própria, sem a necessidade de qualquer ofício nesse sentido150.
c. Resultados preliminares do levantamento sobre seqüestros extorsivos no estado do Rio de Janeiro (01/01/95 a 31/12/96)
No período de dois anos do levantamento foram noticiados 188 ocorrências de seqüestros extorsivos na imprensa. Nota-se, de início, que o presente levantamento exibe um número menor de casos que aquele reconhecido oficialmente pelas autoridades policiais. Em 1995, foram encontrados 102 casos na imprensa. Menos, portanto, que os 119 seqüestros que a Secretaria de Segurança divulgou151. Em 1996, foram colhidas 63 ocorrências de seqüestros na imprensa, um total, portanto, um pouco menor do que reconhece o DAS oficialmente152. A imprensa aparentemente não exagerou no número de casos; e talvez tenha até omitido alguns seqüestros.
O acompanhamento da imprensa é bastante seletivo - dando ênfase aos casos que envolvem grandes empresários e notáveis - e parcial - em relação aos seqüestros de bagatela ou de indivíduos de menos projeção social. Além disso, a própria polícia estima que 33% dos casos não foram comunicados às delegacias153. Tudo isso nos leva a concluir que o número de seqüestros realmente ocorridos no Rio deve ser bem mais elevado. Por outro lado, é através da imprensa que a opinião pública informada toma conhecimento dos seqüestros e forma, em parte, sua imagem deles.
d. Vítimas de seqüestros extorsivos
O perfil das vítimas no período do levantamento é o do gráfico 3.
A proporção de seqüestrados do sexo masculino é de cerca de 79%154. A observação básica é de que, aproximadamente, 4 em cada 5 seqüestrados são homens.
3.
4.
Neste período, em 41 dos 188 casos não havia a idade da vítima na notícia. Dentre os restantes, a faixa etária de maior risco é a entre 31 e 40 anos, com 31 ocorrências. Logo em seguida, vem a faixa dos 21 aos 30 anos, com 29 vítimas155. Ocorreram seqüestros de 14 pessoas com menos de 18 anos de idade.
Verifica-se que o "seqüestrável" na faixa de 41 a 50 anos é o menos atingido: 19 casos. Isto pode surpreender quem esperava que o empresário financeiramente consolidado na faixa de 40 anos fosse o alvo preferencial dos seqüestradores.
5.
Quanto ao perfil profissional da vítima, o empresário é o mais freqüente: 43 % dos casos de seqüestros noticiados. Foram 81 empresários seqüestrados em 2 anos. Ou seja, na média, um empresário é seqüestrado a cada 9 dias. Os parentes de empresários são o segundo grupo mais capturado pelos seqüestradores. 31 filhos de empresários foram levados pelos criminosos. Entre os profissionais liberais, a preferência é pelos médicos (8 vítimas) - quatro vezes mais seqüestrados que os advogados.
Deve-se assinalar que apenas 5 executivos foram capturados. Este parece ser um número baixo, para uma categoria relativamente numerosa no Rio.
Por fim, temos também um caso de 2 seqüestradores que foram seqüestrados por policiais: foram "mineirados", como se diz na gíria policial156.
6.
Dentre os setores econômicos mais visados pelos seqüestradores estão, em primeiro lugar, os lojistas, com 15 vítimas. Em segundo, encontram-se os empresários da área de transporte, com 11 seqüestrados. De acordo com levantamento do Jornal do Brasil, de 1990 até 1996, 37 donos de empresas de ônibus ou seus familiares foram seqüestrados157. O setor de serviços teve 9 vítimas e os donos de hospitais estavam em 8 ocorrências. Com 7 seqüestrados ficam os moveleiros, o setor de confecções, industrial e metal-mecânico. Por fim, destacam-se com 6 vítimas o donos de redes de supermercados do Rio. Deve-se salientar que o presidente da Bolsa de Gêneros Alimentícios (BGA) afirma que, em dois anos e meio, cerca de 40 donos de supermercados foram seqüestrados158. Se isto puder ser evidenciado, ter-se-á um claro indício de como ocorrem inúmeros seqüestros extorsivos que não são reportados pela imprensa ou levados ao conhecimento da polícia.
Um outro problema sério com as notícias sobre seqüestros está no fato de que a cobertura trata prioritariamente do momento de sua ocorrência. Existe um número bastante elevado de casos em que o leitor desconhecerá o desenlace do seqüestro. Isto ocorre mais freqüentemente com vítimas que têm menor projeção social. Mas é provável que pedidos da família e dos negociadores de manter afastada a imprensa e a polícia dos casos contribua para essa situação.
7.
A precariedade das informações a respeito do desenlace fica patente quando se constata que em 98 ocorrências - mais da metade dos casos - não se sabe com detalhes como terminou a história. Dos 188 casos, 60 vítimas foram libertadas e 14 fugiram do cativeiro.
e. Seqüestradores
A dificuldade em inventariar os supostos seqüestradores presos no período foi grande. O primeiro problema está em que várias notícias indicam o nome do suspeito preso, porém não mencionam o nome da vítima. O segundo problema está em que as megaoperações policiais nos morros e favelas - muito freqüentes no período - voltadas à captura de narcotraficantes e apreensão de drogas e armas também resultam em prisões de supostos seqüestradores envolvidos com ocorrências anteriores a 1995.
O banco de dados registra atualmente o conjunto de suspeitos presos no período, inclusive aqueles que cometeram delitos em relação às vítimas de antes de 1995. Adotou-se este critério por duas razões principais: 1) foi feito um levantamento dos casos de seqüestros desde 1989 noticiados na imprensa. Por isso interessa registrar todos os suspeitos presos para etapas futuras da pesquisa que está sendo feita sobre a "indústria de seqüestros". 2) foi preciso evitar uma grande distorção entre o grande número de prisões de seqüestradores efetuadas e os casos que não foram noticiados como elucidados pela polícia. Para se ter a dimensão deste problema, oficialmente, constam 146 prisões de supostos seqüestradores em 1995; 116 prisões até o final de outubro de 1996159. Seriam, pelo menos, 262 suspeitos presos no período estudado.
O presente banco de dados registra 240 supostos seqüestradores presos segundo as notícias da imprensa no período 1995-1996.
Dos supostos seqüestradores 78 % são do sexo masculino. Portanto, quase 8 entre 10 seqüestradores detidos são do sexo masculino (212 homens).
8. Sexo dos seqüestradores
A faixa etária de maior incidência de seqüestradores está entre 21 e 30 anos - 67 seqüestradores. Se esta faixa for somada àquela dos 31 aos 40 anos (42 seqüestradores), teremos 80% dos seqüestradores cuja idade foi divulgada pela imprensa.
9. Idade dos seqüestradores
10. Funções dos seqüestradores
Entre os seqüestradores apanhados pela polícia predominam aqueles que desempenhavam a função de carcereiros (59 pessoas). Depois seguem os supostos "chefes da quadrilha" (31 pessoas) que, de fato, tendem a ser os planejadores e chefes das operações realizadas relativas ao seqüestro. E, em terceiro lugar, estão os captores das vítimas (21).
A tendência é a polícia capturar aqueles que atuam na parte operacional dos seqüestros extorsivos. O carcereiro deve ficar imobilizado vigiando a vítima e poderá ser preso quando se "estourar" o cativeiro. Os "chefes de quadrilha" freqüentemente estão envolvidos diretamente com os captores na linha de frente das operações de seqüestro. Aparentemente, houve um crescimento considerável de capturas de "chefes" no ano de 1996, algo que precisa ser examinado mais adiante na pesquisa.
O perfil dos supostos seqüestradores talvez resulte da seletividade da persecução policial que se volta quase que exclusivamente para as favelas e zonas carentes do Rio.
A hipótese é de que os seqüestradores detidos aparentam constituir um segmento de intermediário para baixo (setor de operações) da estrutura do crime organizado no Rio.
À cúpula desta estrutura de crime organizado talvez caiba escolher a pessoa a ser seqüestrada, fixar o valor do resgate e estipular a quantia mínima que poderá ser aceita durante as negociações. Diretamente ligados à cúpula podem estar outras conexões com o contrabando de armas e narcotráfico de ramificações nacionais e internacionais, lavagem do dinheiro proveniente dos resgates e, talvez, até grupos de extermínio para realizar "queimas de arquivos"161.
11. Profissão dos seqüestradores
Nesta tabela vale a pena frisar o peso de policiais e militares da ativa, além de informantes da polícia, entre os seqüestradores: 11 % do total, ou seja, 29 pessoas.
A presença significativa de agentes policiais como seqüestradores pode ser um indicador de um traço típico do "crime organizado". Este padrão de criminalidade sempre contou com a participação e cumplicidade de autoridades e agentes de autoridade pública, como policiais, políticos, militares e outros.
Entre os supostos seqüestradores presos estão 40 traficantes de drogas e 21 suspeitos cuja atividade principal parece ser seqüestrar. Aparece também um suspeito que é engenheiro e analista de sistemas, e é tido como um importante planejador de seqüestros.
ƒ. Ocorrências de seqüestros extorsivos
12. Locais mais visados para capturar vítimas de seqüestros161
As capturas de vítimas de seqüestros extorsivos, cuja precisa localização foi obtida no levantamento, concentram-se no município do Rio de Janeiro (99 casos), e nos seus bairros da zona Sul.
A Barra da Tijuca lidera com 13 ocorrências162. Depois surgem os bairros de Botafogo (6 casos) e Copacabana e Leblon (5 casos), todos na zona Sul. Na zona Norte, lidera o bairro de Madureira com 5 ocorrências. Duas vias se destacam como área de risco: a avenida Brasil (4 casos) e a via Dutra (3 casos). A Ilha do Governador, composta de vários bairros, é também uma área de expressivo número de casos (pelo menos 5 casos), de localização menos precisa, talvez devido à facilidade de acesso e fuga numa área inadequadamente policiada.
Quando a atenção é focalizada no Estado do Rio, percebe-se que em torno do município do Rio estão alguns municípios industriais ou áreas de dormitório onde significativo número de capturas ocorrem.
Duque de Caxias163 lidera com 10 ocorrências. São Gonçalo, Itaboraí, Petrópolis e Nova Iguaçu tiveram 4 casos; Niterói e Magé, três capturas.
13. Capturas de vitimas nos municípios
Os "cativeiros" - locais onde as vítimas do seqüestro são mantidas - apresentam outra espacialização. Favelas e morros destacam-se como locais de cativeiro (7 casos). Os "motéis" também aparecem com freqüência (4 casos), o que poderá sugerir hipóteses de investigação futura. São Cristóvão com 4 cativeiros e Padre Miguel, Madureira e Campo Grande (3 cativeiros) dão destaque à zona Norte nas áreas de cativeiro. A Floresta da Tijuca aparece como área de 3 cativeiros.
O mapa de cativeiros do Estado do Rio revela que, apesar das capturas se concentrarem no município do Rio (99 casos), os locais de guarda das vítimas estão um pouco mais equilibrados. Duque de Caxias lidera também como área de cativeiros (9 casos)164 seguido de Magé e São João de Meriti (3 casos). Por fim, cativeiros de vítimas do Rio foram encontradas em três outros estados federados.
14. Locais de cativeiros nos bairros do Rio
15. Locais de cativeiros nos municípios fluminenses
g. Atuação policial
A atuação das polícias nos casos de seqüestros extorsivos é marcada, pelo menos, por alguns fatores fundamentais: 1) existe uma Divisão Anti-seqüestro (DAS) especializada em investigações sobre esse delito; 2) dependendo do perfil socioeconômico da vítima e da conjuntura política, vários recursos policiais são simultaneamente mobilizados para resolver casos determinados, e; 3) ocorre notável competição entre as polícias, e setores da mesma polícia, em certos casos. Face a um conjunto grande de casos de características diversas, como ocorre no presente levantamento, as generalizações não são, em regra, adequadas. O estudo de cada caso concreto é evidentemente possível. Mas, na presente fase exploratória do projeto de pesquisa, será mais econômico, e prudente, manter uma perspectiva descritiva.
16. Atuação policial: prisões
A Divisão Anti-seqüestro efetuou 77 prisões de supostos seqüestradores, de acordo com as notícias publicadas. A Polícia Civil prendeu 35; 20 foram presos pela PM; 11 por outras polícias especializadas e 5 pelas polícias de outros Estados da federação. A precariedade desses números é devida, em parte, à não identificação clara de quem atuou na ação policial. Pois, é certo que aparecem listados 240 nomes de seqüestradores capturados no período. Aliás, repita-se o que já foi escrito anteriormente, o número de suspeitos presos pode ser consideravelmente maior, devido à dificuldade de reunir notícias de capturas de suspeitos de envolvimento em seqüestros nas múltiplas ações policiais em morros e favelas. É comum ler que alguém é traficante, mas que possivelmente também está envolvido em um ou outro seqüestro.
A tendência observada, a partir dos dados coletados em que aparece a identificação de quem fez a captura, é de que a DAS elevou consideravelmente o número de prisões de suspeitos no ano de 1996, o que pode ser um indício de maior eficácia policial165.
A tabela seguinte, que deve ser interpretada com a muita prudência devido à precariedade dos dados obtidos da imprensa em relação aos seqüestradores, sugere algum avanço em termos de quantidade de suspeitos presos, que coincide com o período da caminhada Reage Rio e a concessão de premiações por atos de bravura (novembro de 1995), e talvez a atuação do DAS num período de maior estabilidade (segundo semestre de 1996).
17. Ocorrências de seqüestro e capturas de suspeitos
É difícil perceber, a partir das notícias da imprensa, se a atuação policial foi, de fato, aprimorada. Quando se examina como a polícia obteve as informações sobre os seqüestradores, nota-se que a investigação policial não parece ser importante. As denúncias, a obtenção de confissão de uma pessoa supostamente envolvida no delito, testemunhas continuam a prevalecer sobre técnicas investigativas mais modernas166
18. Apuração do seqüestro
Por fim, num período de intenso combate policial a imprensa registrou um número relativamente pequeno de seqüestradores mortos.
19.
6. Observações finais
a) A política de segurança pública no Rio de Janeiro foi abordada neste trabalho como um conjunto de procedimentos, de caráter preventivo e repressivo, através dos quais autoridades governamentais e elites do poder negociam e organizam respostas ao fenômeno criminal167. Tentou-se situar esta política governamental do Estado do Rio dentro de uma discussão sobre o projeto da cidade-metrópole do Rio. Pretendeu-se descrever a política de "lei e ordem" adotada nos dois primeiros anos do Governo Marcello Alencar, destacando a política anti-seqüestros extorsivos. Foram relatadas as críticas e recomendações dos oponentes da política governamental. Deu-se ênfase à caminhada Reage Rio como mobilização pública centrada no problema dos seqüestros. Por fim, foram mostrados dados levantados pela nossa pesquisa exploratória sobre seqüestros extorsivos168.
b) Nas próximas etapas do levantamento haverá, principalmente, maior atenção para: 1) o levantamento de dados sobre os supostos seqüestradores e suas organizações; 2) mudanças nos padrões de seqüestros (seqüestros relâmpagos, terceirização das atividades criminosas, etc); 3) fugas de seqüestradores de presídios e delegacias; 4) relação entre seqüestros extorsivos e outras práticas delituosas associadas ao chamado crime organizado169, como o narcotráfico e assaltos a bancos no Rio de Janeiro.
c) Por fim, é preciso estudar experiências de formulação e implementação de políticas democráticas de segurança pública que possibilitem uma atuação policial eficaz, menos corrupta e que garanta os direitos do cidadão170.
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Recebido para publicação em março/1997
Notas:
O associativismo religioso, no entanto, não parece estar enfraquecido no Rio de Janeiro. O potencial da dinâmica de criação de identidades coletivas e ajuda recíproca abre portas para emergência de comunidades parciais e movimentos sociais (cf. Novaes, Catela & Nascimento, 1996).
Cf. Fernandes c Carneiro (1995, p. 42) e também "Crescem assaltos a banco e seqüestros", (Folha de S. Paulo, 18/ 08/95. p. 3-3).
Pena - reclusão, de oito a quinze anos.
§ 1o-. (...)
Pena - reclusão de doze a vinte anos.
2o - (...)
Pena - reclusão, de dezesseis a vinte e quatro anos.
§3° - (...)
Pena - reclusão, de vinte e quatro a trinta anos.
Observe-se que a exclusão da pena de multa deu origem a uma regra penal mais favorável que tem aplicação retroativa. Assim, a pena pecuniária não poderá ser aplicada aos seqüestros extorsivos aplicados praticados antes da Lei 8.072/90 e ainda não julgados, nem poderá ser executada se já tiver sido aplicada (cf. Franco, 1994, p. 268). A Constituição de 1988 faz restrições, no art. 5o, XLIII. a direitos e garantias que ela própria afirma ao estabelecer que "a lei considerará inafiançáveis e insuscetíveis de graça ou anistia a prática de tortura, o tráfico ilícito de entorpecentes e drogas afins, o terrorismo e os definidos como crimes hediondos, por eles respondendo os mandantes, os executores e os que, podendo evitá-los, se omitirem". A Constituição afirma que serão alcançados pela Lei dos Crimes Hediondos os autores e todos os que concorrerem, por ação e por omissão, para a prática desses delitos. Mas o texto usa uma noção de omissão muito ampla para ser penalmente relevante. "Esse 'poder fazer algo', que não foi feito, para evitar a prática delituosa só terá interesse, de conotação penal, quando é também imposto ao omitente, o 'dever fazer algo' para obstar a concretização delituosa. A omissão só tem relevância penal quando o omitente devia e podia agir para evitar o resultado ou de uma situação de ingerência, em obstar o advento do resultado típico. Só, portanto, nas hipóteses fáticas em que cabia, ao omitente, com base nas fontes geradoras de um especial dever de agir, o papel de garante do bem jurídico, é que se pode vislumbrar, no seu procedimento, uma omissão criminosa" (Franco, 1994, p. 31).
A Lei 8.072/90 estabelece que os crimes hediondos são insuscetíveis de anistia, graça e indulto (art. 2o, I) e de fiança e liberdade provisória (art. 2o). A pena por "extorsão mediante seqüestro" será cumprida integralmente em regime fechado (art. 2o, § 1o) e em presídio de segurança máxima (art. 3o).
Jurisprudência:
a) "A efetiva obtenção do benefício ou proveito, neste como no crime de extorsão simples, é irrelevante para a configuração jurídica da infração penal, podendo apenas, ser considerada como medida da pena" (JTA Crim 81/501).
b) "A extorsão mediante seqüestro é crime pluriofensivo, uma vez que envolve ofensa à liberdade individual e ao patrimônio. Consuma-se, porém, com a efetivação do seqüestro, independentemente da obtenção da vantagem indevida. Trata-se de crime permanente, iniciando-se a execução com o seqüestro"(RT 595/374).
Cf. ainda, "Polícia emperra as investigações" (O Globo, Rio, 19/11/95, p. 32).
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