RESUMO
Este artigo realiza uma reflexão sobre a trajetória de Natalie Zemon Davis como historiadora social da cultura com perspectiva de gênero. Propõe que, ao nos concentrarmos em três momentos de sua produção: os artigos reunidos no livro traduzido ao português como Culturas do povo: sociedade e cultura no início da França moderna (1990 [1975]), e os livros O retorno de Martin Guerre (1987 [1983]) e Nas margens (1997 [1995]), se vislumbra a conformação de um certo estilo de praticar o ofício da história social que se tornou indissociável da dimensão de gênero. Longe de qualquer sentido programático, sua obra delineia muitas possibilidades de construir mais e melhor perguntas de pesquisa através de um olhar informado pelo caráter relacional que o gênero propicia. Precisamente, a singularidade de Davis foi sempre a capacidade de escuta, surpresa e aprendizado permanente frente à pesquisa histórica meticulosa como na vontade de estabelecer múltiplas interlocuções. O artigo sustenta que examinar o estilo historiográfico feminista de Natalie Zemon Davis em sua própria historicidade continua indicando caminhos para a história social como ofício neste começo de século XXI.
PALAVRAS-CHAVE
Natalie Zemon Davis; gênero; história social
ABSTRACT
This article explores Natalie Zemon Davis’ trajectory as a social historian of culture with a gender perspective. It argues that by focusing on three moments in her production: the articles gathered in the book translated into Portuguese as Cultures of the People: Society and Culture in Early Modern France (1990 [1975]), and the books The Return of Martin Guerre (1987 [1983]) and On the Margins (1997 [1995]), it is possible to glimpse the shaping of a certain style of practicing the craft of social history that has become inseparable from the gender dimension. Far from any programmatic sense, her work delineates many possibilities for constructing more and better research questions through the relational character that gender provides. Davis’ uniqueness has always been her capacity for listening, surprise and permanent learning in the face of meticulous historical research, as well as her willingness to establish multiple interlocutions. The article argues that examining Natalie Zemon Davis’ feminist historiographical style in its historicity continues to point the way for social history as a craft at the beginning of the 21st century.
KEYWORDS
Natalie Zemon Davis; gender; social history
NATALIE ZEMON DAVIS NO BRASIL
Em 1987, a socióloga feminista Elizabeth de Souza Lobo convidou o público brasileiro a conhecer a “aventura de Bertrande de Rols e Martin Guerre”. (Davis, 1987) Na sobrecapa da primeira edição em português de O Retorno de Martin Guerre, Beth Lobo explicava que o livro era resultado de uma pesquisa histórica que terminou transformada em roteiro cinematográfico sobre “uma mulher entre dois homens”. Ao conferir centralidade à protagonista feminina, destacava as “ambiguidades de Bertrande de Rols, o mistério de Martin Guerre”, tal como emergiram “do olhar curioso de um magistrado francês em 1560 e de uma historiadora norte-americana em 1982”. Praticamente desconhecida do público brasileiro, Natalie Zemon Davis era, assim, apresentada como uma historiadora social atenta à experiência das mulheres no passado. Nas palavras de Lobo, uma historiadora que cultivava uma “paixão” por “resgatar as falas de pessoas desconhecidas.”
Embora tenha sido seu segundo livro, O Retorno... foi a primeira obra de Davis traduzida ao português, certamente impulsionada pela transformação da história em filme. Nos anos seguintes, a medida em que foi se tornando cada vez mais reconhecida, outras traduções se seguiram, mas não de todos os livros, e não na ordem em que foram produzidos. Este artigo se propõe a examinar a própria historicidade do estilo historiográfico feminista de Natalie Zemon Davis em duas etapas. Inicialmente, a partir de uma perspectiva situada no caso brasileiro. Para isso, aborda os tempos da circulação de sua obra, os contextos de sua recepção e os sentidos específicos que adquiriram à luz de debates historiográficos e feministas que tiveram ritmos diversos. Em um segundo momento, ao considerar o gênero como abordagem da construção histórica da diferença sexual em termos relacionais, contextuais e simbólicos, passa a averiguar em que medida esta dimensão se tornou parte de sua prática no ofício da história.
Em 1987, O Retorno... foi publicado na coleção “Oficinas do Passado”, da editora Paz e Terra, dirigida pelo professor Edgard de Decca, da Unicamp (Kassab, 2003). Com o propósito de abastecer a audiência acadêmica brasileira com a renovada história social produzida no hemisfério norte durante a segunda metade do século XX, a coleção já tinha publicado os ensaios de Eric Hobsbawm reunidos em Mundos do trabalho: novos estudos sobre história operária, em 1984, e estava em processo de tornar acessível ao público brasileiro o monumental livro de E. P. Thompson, A Formação da Classe Operária Inglesa, que saiu em três volumes, também em 1987. Quando O Retorno... foi publicado, a coleção estava se voltando para a história da escravidão, com a tradução de autores como Eugene Genovese.
No mesmo ano, Maria Stella Bresciani apresentou Michelle Perrot ao público brasileiro. Organizado pelos editores brasileiros, Os Excluídos da História (Perrot, 1988) reuniu artigos dispersos em coletâneas e periódicos franceses ao longo da década anterior. Na introdução, Bresciani apresentou-a como aluna de Ernest Labrousse, historiadora da classe operária, destacando o movimento de ampliação de seu objeto, com o “método rigoroso” da história social, passando a tratar da “massa de obscuros desde sempre excluídos da história”, que incluía operários, prisioneiros, mas também “mulheres do povo” em uma heterogênea experiência urbana (Bresciani, 1988, p. 11).
A coleção também abrigava os primeiros resultados dos recentes programas de pós-graduação locais. A publicação das dissertações de mestrado de Célia Marinho (1987), Maria Auxiliadora Guzzo Decca (1987) e Martha de Abreu (1989), além da tese de doutorado de Silvia Hunold Lara (1988), delineavam os contornos temáticos de uma tendência renovadora no campo historiográfico local: a grande questão das relações de dominação escravistas examinadas a partir da perspectiva dos grupos sociais escravizados, somavam-se os temas do futuro das relações raciais depois da escravidão, o cotidiano operário em São Paulo e o comportamento sexual das jovens populares no Rio de Janeiro.1 Estes foram os anos em que se delinearam os campos de interesse de uma nova geração de historiadores brasileiros formados nos últimos anos da ditadura militar. Com o denominador comum de uma história social definida em termos de um interesse na história do trabalho, emergiam novos campos de interrogação, que incluíam a questão da história das mulheres.
A tradução de Natalie Davis se relacionava, então, com este movimento de ampliação da história social, de temas do trabalho para temas da cultura. Sua análise da estranha história da eficácia do engano de um camponês francês do século XVI, ao se fazer passar por outro homem frente a sua mulher e toda a sua aldeia, refletia sobre a capacidade dos camponeses de se “automodelarem”, uma arte que havia sido estudada para o caso de pessoas “de posição elevada”, mas nunca para camponeses “rústicos” (Davis, 1987b, p. 126). No contexto da coleção em que foi publicado o livro, o interesse de Davis sobre a experiência social camponesa, e principalmente sobre a história social das mulheres, concentrou a atenção do público brasileiro. Suas reflexões sobre o problema da relação entre verdade histórica e o lugar da imaginação e das conjecturas na pesquisa histórica não causaram a controvérsia que marcou o ríspido debate que teria lugar no ano seguinte, a partir da resenha publicada por Robert Finlay (1988). As atenções se concentraram sobre suas estratégias para abordar a forma de pensar e as decisões de Bertrande através do olhar do juiz que produziu a principal fonte sobre o caso.
Passaram-se três anos até que seus ensaios que haviam sido publicados em inglês, em 1975, sob o título Society and Culture in Early Modern France fossem traduzidos também pela editora Paz e Terra como Culturas do povo: sociedade e cultura no início da França Moderna (Davis, 1990). Desta vez, o antropólogo Antônio Augusto Arantes, também da Unicamp, foi encarregado do texto introdutório, no qual se referia a Davis como uma autora já conhecida do público brasileiro graças ao êxito editorial de O Retorno... Ao enfatizar o cruzamento entre a história e a antropologia em sua obra, apresentava-a como uma historiadora interessada no “papel da cultura [...] na mudança social” (Arantes, 1990, p. 9). Arantes associou-a com a antropologia de Geertz e a inseriu decididamente na tendência da chamada nova história social, incluindo os ingleses Hobsbawm e Thompson e os franceses Le Goff e Ladurie. Com “orientação teórica e temática muito próximas”, mencionava também Carlo Ginzburg e Peter Burke, cujos “estudos da cultura popular” haviam sido publicados em português nos anos anteriores. (Arantes, 1990, p. 11) Embora dois dos oito ensaios reunidos no livro – “Mulheres urbanas e mudança religiosa” e “As mulheres por cima” — fossem dedicados de forma explícita ao tema das mulheres, Arantes tratava esta atenção como parte do interesse geral de Davis sobre a “diversidade de pontos de vista” da “gente modesta” da França quinhentista (Arantes, 1990, p. 10). Neste momento, assim, não houve uma referência específica a Davis como historiadora das mulheres.
Os tempos dessas traduções não só se diferenciam dos tempos da trajetória da autora; também envolvem demoras e ausências que se tornam significativas para compreender os sentidos locais de sua obra. Davis foi recebida como parte de uma historiografia que se voltava para a experiência definida pelas relações de classe em muitas dimensões da vida social, como festas, rituais, cotidiano e, também, as relações de gênero.2 No entanto, Fiction in the Archives (1987) só apareceu em português em 2001, com um título mais descritivo: Histórias de perdão e seus narradores na França do século XVI (Davis, 2001). Antes dele, a editora Companhia das Letras publicou Nas Margens: três mulheres do século XVII (1997), tradução de Women on the Margins: Three Seventeenth Century Lives (1995). Nas Margens foi, então, o livro que chegou mais rapidamente ao público brasileiro. Nele, Davis interpela de forma mais direta a questão em torno da qual havia girado o debate entre a história das mulheres e os estudos de gênero nos anos anteriores. As trajetórias das três mulheres do século XVII, com suas crenças religiosas e trânsitos por mundos distintos, eram o foco de uma análise que partia dos registros históricos produzidos por elas mesmas. A sobrecapa da tradução explicava que esta era uma história de “vidas femininas” em busca do “ansiado autoconhecimento”. Não mencionava as questões mais espinhosas, que Davis explicitava no prólogo, sobre o que aproximava e o que distanciava as mulheres de um mesmo período histórico — pergunta que acompanhava o questionamento de uma “condição feminina” e da homogeneização que envolvia. Em vez disso, a ênfase da sobrecapa recaía sobre como esta história de mulheres contribuía para a compreensão de um problema mais geral, o nascimento do “mundo moderno”.
Em Nas Margens, Davis era apresentada como uma das “mais ousadas e brilhantes intelectuais norte-americanas”. Em Histórias de perdão, “uma das grandes historiadoras da atualidade”, ao lado de “Robert Darnton, Carlo Ginzburg e Keith Thomas”, autores cujas obras estavam sendo traduzidas naqueles anos. Neste caso, o texto explicava que o objeto do livro eram as narrativas de homens e mulheres iletrados do século XVI, condenados por diversos delitos, para solicitar o perdão real ao construir, através de intermediários, uma explicação verossímil para justificar suas ações. Como “excelente narradora” que era, ela se propunha a analisar as cartas de perdão “como ficções [sic] – como construção literária, como artefato linguístico”. Assim, mais além da “verdade dos fatos”, podia buscar os sentidos daquelas histórias “para seus próprios narradores”. O uso de sinônimos, da letra itálica e das aspas pelo autor ou autora desse breve texto introdutório indicava a incomodidade em torno da palavra ficção tão próxima da palavra arquivo. Talvez o título, mais que o conteúdo, tenha sido considerado enganoso ou de difícil recepção naquele contexto. Algo similar parece ter ocorrido no mundo hispânico, já que, só muito recentemente, Ficción en los archivos (Davis, 2024a) foi publicado pela editora Prometeo, da Argentina.
Tanto no Brasil como no mundo hispânico, os ritmos das traduções desses livros em contextos de debates acadêmicos e políticos específicos terminaram ofuscando tanto o percurso da própria autora como suas estratégias para combinar uma abordagem específica de história social com a perspectiva de gênero. Além disso, ganhou importância a crescente dissociação entre a perspectiva de gênero e a história social, que teve lugar a partir dos debates iniciados a partir dos escritos de Joan Scott sobre o gênero como uma categoria de análise, mais próxima da autodenominada Nova História Cultural. Tal como foi formulada por Scott, a categoria de gênero que se tornou predominante e nos balanços historiográficos brasileiros sobre a temática se ancorava em uma crítica à história social das mulheres, entendida como limitada, descritiva e pouco teórica. Deslocada para o campo da teoria da linguagem, a categoria passava a enfatizar mais os processos de produção de diferenças e hierarquias e menos as experiências sociais do passado (Pinsky, 2009; Popinigis; Schettini, 2024; Scott, 2017).
Quase ao mesmo tempo em que o célebre artigo de Scott foi traduzido ao português, foi publicada a coletânea organizada por Lynn Hunt, A Nova História Cultural (1992). Produto de uma conferência em Berkeley com a participação do historiador francês Roger Chartier, o livro reunia uma série de artigos que convergiam em torno do questionamento de que “cultura” fosse simples reflexo do “social”. Valorizando a interdisciplinaridade, o debate teórico, e postulando a centralidade da linguagem nas formas de fazer história cultural, os artigos compartilhavam com Scott um tom fundacional e superador de uma história social que passava, pelo menos nos termos destes debates, a ter cara de velha.
Natalie Zemon Davis não é facilmente classificável nesta polarização entre velhas e novas abordagens. Seus artigos mais reflexivos e dedicados a debater agendas historiográficas são menos conhecidos do público leitor em português. Seu estilo independente e experimental desafiava fronteiras rígidas entre escolas historiográficas. Ela estudava a Europa moderna, junto com boa parte dos historiadores da cultura popular que foram traduzidos ao português, como notou Arantes. Sua dívida com a história social francesa foi reconhecida explicitamente em diversas ocasiões, como em seu agradecimento a Le Roy Ladurie, na introdução de Histórias de perdão, e a Michel de Certeau, na dedicatória de Nas Margens. Ao mesmo tempo, seu estilo de fazer história “desde abaixo”, para Beth Lobo, permitia localizá-la mais próxima da história social inglesa. Seu antigo interesse pela antropologia simbólica e interpretativa se renovou no fim do século XX com o uso de noções como “ficções” e “margens” em tempos de debates pós-modernos, assim como suas leituras pós-coloniais, complicavam ainda mais a situação. Deste modo, frente ao que pode parecer como um ecletismo inclassificável, vale a pena, então, voltar a ler a própria autora no contexto de produção dos seus textos. Em sua trajetória, decisões narrativas e notas de rodapé, distingue-se uma certa concepção do ofício que nunca deixou de estar ancorada na história social, e que registra uma aprendizagem sobre o gênero de forma indissociável desta concepção.
HISTÓRIA SOCIAL COM MULHERES
Em 1975, Natalie Zemon Davis publicou seu primeiro livro, uma coletânea de oito ensaios, entre três inéditos e outros aparecidos de forma dispersa entre 1965 e 1973 (Davis, 1975). Era o resultado de seu trabalho nos anos que se seguiram à sua tese doutoral intitulada “Protestantism and the Printing Workers of Lyon: a Study in the Problem of Religion and Social Class During the Reformation”, defendida em 1959. Na tese, a abordagem da história social tinha servido para reconsiderar os sentidos do protestantismo. Sua primeira estância de pesquisa em Lyon ocorrera em 1952, quando ela passou dois meses descobrindo “o cheiro e o gosto” dos arquivos franceses (Davis, 2010, p. 3). Em seus relatos posteriores, aquela viagem deixou ao menos duas grandes marcas: por um lado, o desafio árduo que significou a leitura de manuscritos notariais do século XVI; por outro, a surpreendente visão de muitas jovens pós-graduandas acompanhadas de filhos pequenos enquanto faziam suas teses (Davis, 2010, p. 4-5; p. 140).
A dificuldade de ler manuscritos indica uma experiência similar àquela relatada por Carlo Ginzburg sobre suas primeiras incursões aos arquivos inquisitoriais no mesmo período (Ginzburg, 2007). Ambos eram parte de uma geração de historiadores que se depararam com um tipo de documentação histórica desconhecida dos seus professores. Nada os preparou para a euforia e os desafios deste encontro. Era nos arquivos, mais que nas bibliotecas, em que pululavam as vidas de camponeses, artesãos e o menu peuple. Com poucos anos de diferença, tanto Davis como Ginzburg se dedicaram a discutir a história das religiões a partir do foco sobre grupos pouco ou nada letrados. Para ela, o caso lionês permitiu construir um problema de pesquisa em torno a dimensão social da Reforma. Esta abordagem a levou a problematizar a visão sociológica de inspiração weberiana sobre o papel unívoco do protestantismo para o desenvolvimento do capitalismo.
O segundo aspecto que se destaca de sua primeira viagem francesa foi o conhecimento da possibilidade concreta de combinar vida familiar e profissional. “Pela primeira vez na vida”, ela viu estudantes que também eram mães, o que lhe sugeriu que a sobreposição de papéis de esposa, mãe e doutoranda podia ser viável (Davis, 2010, p. 140). Seus três filhos nasceram ao longo da década de 1950, enquanto escrevia a tese doutoral e dava aulas noturnas. O período também apresentou outras dificuldades. Em 1954, ela e seu marido, o matemático Chandler Davis, tiveram seus passaportes confiscados pelo F.B.I. e ele chegou a ser preso, acusado de comunista (Davis, 2013a).
Nos relatos que ela construiu com a distância do tempo, estas circunstâncias foram consideradas úteis para sua formação como historiadora: por um lado, a experiência da maternidade durante a tese conduziu sua atenção e empatia às mulheres e à organização familiar no passado, levando-a a formular questões sobre “o corpo” e as “necessidades materiais” (Davis, 1997a, p. 10). Por outro, o isolamento acadêmico derivado de sua condição de mulher casada e mãe, menos comum no mundo universitário estadunidense, somado à perseguição macartista, teria propiciado uma liberdade intelectual única em sua leitura de fontes literárias e outros impressos nas bibliotecas locais (Davis, 2013a). Neste caminho, ela foi tecendo uma “rede informal” de intercâmbios e vínculos muito mais horizontais que hierárquicos. Nancy Roelker, por exemplo, também historiadora do século XVI francês, estava estudando as mulheres protestantes (Davis, 2010, p. 40). Por sua vez, seus encontros com a especialista em literatura Rosalie Colie a alimentaram, tanto literalmente, antes das aulas noturnas, como com novas ideias e autores. Colie foi responsável por apresentá-la aos escritos do russo Mijaíl Bakhtin, que se tornou fundamental para o lugar crucial da literatura em sua produção sobre a cultura popular (Davis, 2010, p. 40; p. 150).
Estas circunstâncias contextualizam o formato de coletânea deste primeiro livro, que podia ser expressão da necessidade de escrever de forma intermitente ao longo da década de 1960, pressionada pelas demandas de cuidados de outros, especialmente no exercício da maternidade, além da docência noturna: “a interrupção se transformou em uma forma de vida”, recordou ela depois (Davis, 2010, p. 10). Passados muitos anos , com sua carreira já consolidada, Davis converteu estes percalços em relatos de oportunidades e experiências formativas (Davis, 1997a, 2010). Para aquela Natalie Davis que recém se doutorava, no entanto, a visão pode ter sido outra: talvez, como evidências de que as condições materiais incidem e restringem de muitas formas na produção do conhecimento (Abelove et al., 1983; Davis, 1980). Nestes anos, além de ler Bakhtin, ela também se aproximou da antropologia em sua busca por decifrar os sentidos sociais de provérbios, rituais e práticas populares (O´Donnell; Pereira, 2016). Em termos intelectuais, então, seu contato com o emergente campo de estudos sobre as mulheres se deu no meio desta atenção a outras disciplinas. Some-se a isso a importância, em sua própria vida, do fortalecimento do movimento feminista naqueles anos.
Em 1971, como resposta à crescente demanda por temas de história das mulheres no mundo acadêmico, ela organizou com Jill Conway, sua colega na universidade de Toronto, um dos primeiros programas de cursos em história das mulheres intitulado “Society and the sexes” que se tornou uma referência nas universidades estadunidenses (Conway; Davis, 2008; Smith, 2010). Foi neste contexto que ela escreveu “City women and religious change”, um dos dois artigos dedicados de forma explícita a temas de gênero em seu primeiro livro. O artigo foi publicado na coletânea A sample of women´s studies (Davis, 1973), que reuniu artigos de muitas disciplinas, como história da dança, antropologia, ciência política, estudos clássicos, sociologia e educação.3 O livro era resultado da conferência “Women in perspective”, que teve lugar entre 1971 e 1972, na Universidade de Michigan, onde Davis defendera seu doutorado. Em vez de introdução, cada capítulo era precedido de um resumo, em uma organização que sugeria a urgência de seu uso em sala de aula. O texto final, assinado por Sheila Tobias, destacava os programas inovadores de “estudos femininos” (female studies program).4
O resumo do capítulo de Davis indica a chave de leitura esperada naquele contexto: com dados sobre mortalidade, vida familiar e taxas de alfabetização, Davis mostrava que “mulheres urbanas na França já estavam participando intensamente da vida econômica das cidades” no tempo da Reforma. Além disso, a “dra. Davis” estudou como o protestantismo afetava as vidas das mulheres, “concluindo que a solução da Reforma ainda deixava as mulheres em situação de desigualdade e sem poder” (Davis, 1973, p. 17). O resumo, assim, ressaltava tanto o protagonismo como a subordinação das mulheres. Por um lado, confirmava que havia uma história social das mulheres a ser conhecida; por outro, mostrava que, mesmo em posições subordinadas, as mulheres estavam em todas as partes: encontravam formas de viver sob crenças religiosas distintas e estabeleciam relações diversas com as autoridades. A questão da subordinação das mulheres era, portanto, histórica. Podia ser analisada de forma relacional e contextualizada.
Como os outros capítulos, o dela também era acompanhado de ilustrações de mulheres. Uma pintura de Margarida de Navarra vinha com a explicação de que sua poesia e mecenato cumpriram um papel importante no começo da Reforma. Ela confirmava que as mulheres eram parte da grande história. Em segundo lugar, um retrato de Louise Labé, jovem artesã, que conclamou as mulheres a “erguerem suas mentes acima de suas rocas e fusos”. Ela confirmava que outras mulheres tinham uma história própria. Navarra continuaria sendo uma fonte de incomensurável valor para Davis na década seguinte – seu “Heptameron” foi fundamental para compreender as cartas de perdão analisadas em Fiction... (1987). Neste momento, no entanto, era a voz plebeia da poeta Louise Labé a que provavelmente mais entusiasmava Davis e suas colegas: católica e trabalhadora, seus escritos provavam que não era preciso ser nobre nem protestante para escrever suas ideias. Mais que isso, mostrava que as mulheres urbanas podiam ter algo a nos ensinar sobre o problema mais geral do impacto do protestantismo em uma sociedade hierárquica (Davis, 2013b).
Ao reaparecer em Society and culture, em 1975, o ensaio adquiria outro público, do campo da história. Assim, especialistas sobre o século XVI e da nascente história social podiam apreciar as contundentes evidências da onipresença das mulheres na vida urbana francesa e seu diálogo com Keith Thomas, Lawrence Stone e Robert Mandrou, além de sua colega Nancy Roelker. No contexto do debate da história social, o texto fazia uma pergunta inovadora sobre mulheres urbanas que formavam parte do menu peuple, mas não se confundiam totalmente com ele. A pesquisa em documentação notarial, visual, e aquela produzida sobre e por mulheres sustentavam a indagação sobre o que as aproximava e as distanciava de outros grupos de trabalhadores qualificados e de grupos sociais alfabetizados. Além disso, o exercício de história social a levava a contrastar as imagens de terceiros sobre as mulheres com as das próprias mulheres, e ambas com as evidências sobre seus mundos do trabalho, “no mercado e na rua”.
A inspiração marxista que atraíra sua atenção para a análise do conflito de classe no doutorado continuava sendo crucial para conceber a experiência coletiva das mulheres urbanas em termos de poder. Ela permitia que Davis matizasse o esquema weberiano sobre o protestantismo também quando se tratava da religiosidade das mulheres. O capítulo sugeria que as mulheres que se convertiam ao protestantismo eram viúvas e negociantes, portanto, já eram relativamente independentes. Sua conclusão se inspirava explicitamente na analogia com as “relações de classe”: se bem o calvinismo podia ter contribuído para reduzir os níveis da hierarquia social, em nenhum momento se questionou a própria concepção de hierarquia que organizava aquela sociedade, o que ajudava a entender a persistência da dominação sobre as mulheres (Davis, 1990, p. 84-85).
A conclusão do artigo chama a atenção para as muitas vozes de homens e mulheres que emergiam em um ruidoso conflito e revelavam o “espectro amplo do afeto e da experiência” em torno da religiosidade naquela sociedade em transformação (Davis, 1990, p. 85). Nos termos de Joan Scott, em sua resenha do livro, em 1978, Davis insistia na “complexidade da interação entre ideias e estruturas sociais”, ao mesmo tempo em que enfatizava como a “experiência social modela a utilidade e o significado das ideias religiosas” (Scott, 1978, p. 101). Era neste sentido, e não tanto na determinação social da classe, que se fazia observar a influência da reflexão marxista em seu texto: contribuía para uma análise relacional, permitia contextualizar a experiência social das mulheres em disputas sociais e no processo histórico mais amplo. Ou, nas palavras da própria Davis, na introdução do livro, “hierarquias distintas podem se relacionar de várias maneiras, mas não são redutíveis umas às outras sem alguma transformação social importante”. O livro queria ser uma espécie de “mapa de muitas dimensões”, a partir de diversas coordenadas (Davis, 1990, p. 9).
MULHERES POR CIMA
O segundo ensaio publicado em 1975 que tratava de mulheres era inédito, abordando o tema que atraíra toda sua atenção depois do doutorado, as festas e os rituais populares. Ao examinar os sentidos do simbolismo nas inversões de gênero para homens e mulheres, “Women on top” teve uma ampla repercussão. Pouco mais de uma década depois de sua publicação, a mesma Joan Scott, já distanciada da história social, encontrou nele um exemplo virtuoso que mostrava como os sentidos atribuídos ao masculino e feminino expressavam formas de pensar sobre as regras da ordem social. Citada ao lado de Pierre Bourdieu, Gayatri Spivak, e da medievalista Carolyne Bynum, Davis teria adiantado , de acordo com Scott, sua ideia de que “linguagens conceituais empregam diferenciação para estabelecer significado e que a diferença sexual é uma forma primária de estabelecer diferenciação” (Scott, 2017, p. 45).
Muito distante das críticas que Scott realizaria durante os anos de 1980 sobre a história social de inspiração thompsoniana e a história das mulheres, o capítulo se nutriu das duas perspectivas, além da antropologia. Sua primeira versão foi resultado de um convite de Victor Turner para um congresso de antropologia. Turner lera seu ensaio sobre as abadias do desgoverno publicado em 1971, na revista inglesa Past and Present, em que Davis analisava as festividades e costumes que incluíam rituais de inversão social e o tema do mundo de cabeça para baixo. Davis, por sua vez, leu O processo ritual (1974) e apostou no diálogo com a antropologia simbólica para aprofundar o conhecimento das classes populares na França moderna (Davis, 2010, p. 46).
Na busca por uma análise histórica de fenômenos que até então haviam sido objeto de uma antropologia mais próxima do folclore do que da história, ela estava acompanhada de outros historiadores sociais, incluindo E. P. Thompson (Walsham, 2017). Para ambos, as expressões populares conhecidas como charivari ou rough music, ao envolverem formas festivas de punir violações de normas comunitárias, não podiam ser interpretadas em termos de sobrevivências antigas, nem como válvulas de escape da vida cotidiana (O´Donnell; Pereira, 2016). Ao contrário, estavam profundamente relacionadas a ela. Seu intercâmbio epistolar com Thompson mostra que ambos intercambiaram ideias sobre o que estas manifestações revelavam sobre a vida matrimonial e comunitária na sociedade francesa do século XVI e na sociedade inglesa do século XVIII, respectivamente. A punição de segundas núpcias, as diferenças de idade entre casais, ou os casamentos fora da comunidade eram algumas das possibilidades que levavam aos charivaris, mas que deviam ser testadas em seus respectivos contextos históricos. Ambos concordavam com a centralidade do que agora chamamos relações de gênero para abordar transformações sociais mais amplas no passado. No entanto, para Thompson, esta era uma questão subordinada à sua pergunta sobre as relações de classe no capitalismo; para Davis, a dimensão de gênero tendia a ganhar um peso cada vez mais próprio.
Para Davis, o contraste com os casos estudados por Thompson, referidos em notas de rodapé dedicadas aos artigos sobre rough music e a economia moral da multidão, permitia o exercício da analogia histórica para evidenciar a importância do contexto. Em sua visão, não era nada casual que as imagens da “mulher por cima” tenham florescido na Europa pré-industrial e no período de transição para a sociedade industrial” (Davis, 1990, p. 127). Era neste processo histórico que usos inesperados e criativos da inversão da ordem de gênero tinham lugar na literatura e nos rituais, por parte de homens e mulheres populares. Por isso, em certas situações, elas podiam até “oferecer novas formas de pensar sobre o sistema e de reagir a ele” (Davis, 1990, p. 121).
Nos anos seguintes, o amistoso diálogo epistolar em torno da interpretação de fontes e do processo histórico daria lugar às diferenças entre ambos, atravessadas pelo debate político com o movimento feminista estadunidense. E. P. Thompson expressou como este debate o afetou em seu artigo “A venda de esposas” e na reescrita de “Rough music” (Thompson, 1998). Ao apresentar a um público estadunidense seu argumento de que o ritual de “venda de esposas” podia envolver separações negociadas, ele relata ter sido objeto de um verdadeiro charivari de feministas indignadas porque seu artigo não era uma “denúncia erudita das formas de opressão que recaíam sobre as mulheres”. Para se defender, contaria com o apoio de seu colega Herbert Gutman, que teria identificado um paralelismo entre historiadoras das mulheres e os das relações raciais que tendiam a ver, erroneamente, seus sujeitos como vítimas. No mesmo sentido, em Rough music, recorreu à historiadora marxista Sheila Rowbotham para questionar a utilidade de uma categoria que ele considerava a-histórica como o patriarcado. Para Thompson, suas oponentes não entenderiam os sentidos daqueles eventos para as próprias mulheres do passado. Tal como observadores moralistas da classe média, as feministas imporiam seus próprios valores sobre os grupos que estudavam. Eram, por isso, incapazes de perceber que os rituais de vendas de esposas deviam ser vistos naquilo que revelavam de negociação social para terminar um casamento, com a participação das próprias mulheres.
Por sua vez, Natalie Davis se lembrava de um debate em Paris, em que “Joan Scott, Louise Tilly e eu enfrentamos a E. P. Thompson nisso — queríamos que gênero fosse parte da história junto com a classe — e sentimos que ganhamos o dia” (Davis, 2010, p. 125; Scott, 2014, p. 115). A frase pode ser lida para reiterar a mesma percepção de Thompson de um antagonismo entre quem achava que a classe era o vetor central da história, e que as questões de gênero eram meras distrações, e quem buscava formas de pensar historicamente em perspectiva de gênero. Mas, no final das contas, esta interpretação que separa feministas e historiadores sociais marxistas não contempla a importância que Davis deu ao conflito social e à dominação de classe, nem a atenção de Thompson às mulheres e às reconfigurações familiares para a compreensão da comunidade e do conflito de classe. Sobretudo, ambos compartilhavam uma mesma chave de leitura de suas fontes. Não é surpreendente, então, que mesmo adotando estilos diferentes (Davis mais dialógica, Thompson mais confrontacional), os dois estabeleceram um respeitoso diálogo que enriqueceu suas hipóteses. O conhecimento histórico, então, era construído graças a (e não apesar de) um debate historiográfico e político que incluía o rigor da pesquisa, o gosto pelos detalhes para a interpretação histórica, e o respeito pela interpretação divergente – um registro de seus próprios textos que vai além de rótulos e acusações mútuas.
De fato, havia uma grande coincidência nos termos em que cada um formulava suas perguntas. Ambos buscavam a lógica da chamada cultura popular, desconfiando de observadores contemporâneos ilustrados, homens e mulheres. Lendo-os a contrapelo, buscaram indícios da participação das mulheres no processo histórico. Evitaram a dicotomia entre heroínas ou vítimas, e entre normatividades e resistências: cada documento era analisado em sua interlocução social, à luz do que era habitual para aqueles sujeitos históricos. Além disso, ambos estavam atentos a analogias entre a dominação de classe, a de gênero, e as raciais. Suas respostas, no entanto, os levaram a debates distintos. Posteriormente, Davis chamou atenção para a diferença de interpretação sobre os sentidos dos rituais de inversão: Thompson teria um diagnóstico “mais sombrio”, que enfatizava os procedimentos rituais de exclusão comunitária, enquanto ela sublinhava a dimensão cômica e a reintegração das pessoas humilhadas (Davis, 2010, p. 44). Poderíamos continuar nos perguntando, como eles mesmos fizeram, quanto dessa diferença se deve ao tipo de fontes a que tiveram acesso, ao contexto histórico que trataram, ou a suas leituras distintas de registros literários, folclóricos e antropológicos.
OS MISTÉRIOS DE BERTRANDE
Os ensaios de Society and Culture foram muito bem recebidos, levando a um extenso reconhecimento do talento de Davis como historiadora social. O historiador Christopher Friedrichs dá uma medida desse reconhecimento ao observar que, ao ocupar a presidência da American Historical Association, em 1987, ela foi celebrada por ter sido a segunda mulher a ocupar o cargo; mais destacável ainda, observa ele, é que tenha sido a primeira pessoa que chegou a ele sem ter um grande livro autoral. Seu nome cresceu com base no impacto que seus artigos haviam tido na década anterior e com um livro sui generis, O Retorno de Martin Guerre, em 1983 (Friedrichs, 2009, p. 68-70).
A dificuldade de classificar este livro, os debates que suscitou, além do grande sucesso editorial que a levou a ser conhecida dos públicos de língua portuguesa e hispânica, dão a medida dos deslocamentos, ou descentramentos, como ela diria depois, realizados naqueles anos (Davis, 2013b). Sua carreira acadêmica nas universidades de Toronto, Berkeley, e finalmente, Princeton, um centro nodal dos debates sobre as aproximações entre a disciplina histórica e a antropologia, principalmente em função da figura de Clifford Geertz, terminaram por levá-la a uma sofisticada atenção à própria produção do conhecimento histórico. Distante da postura cética frente à história social que começou a ganhar força nesses anos, ela não se voltou ao debate teórico, mas se aprofundou no ofício da história. Como escutar melhor as vozes dos homens e das mulheres camponesas do século XVI? Tal como ela havia descoberto naqueles anos, a antropologia e a crítica literária prometiam ajudar a afinar as perguntas e a ler suas fontes de formas mais sofisticadas.
O livro surgiu de sua intervenção como consultora histórica do filme de Daniel Vigne (Davis, 1987b, p. 9-11). No começo, a rodagem parecia ser a possibilidade de ter seu próprio “laboratório histórico”, de ver como os atores davam vida aos personagens que ela tinha conhecido nas fontes. A aproximação com outra forma de narrar a levou a uma reflexão sobre o lugar das incertezas, das conjecturas, especulações e das provas na história. Mais especialmente, seu incômodo com a construção da imagem cinematográfica de Bertrande a motivou a escrever o livro. No filme, Bertrande parecia uma heroína romântica do século XIX, opacando a lógica de suas decisões como uma mulher camponesa do século XVI (Davis, 1988c, p. 584; Davis, 1997a, p. 18). É por isso que O Retorno... pode ser lido como uma reflexão metodológica sobre os desafios de uma história social das mulheres, o risco dos anacronismos, e as especificidades das formas históricas da subordinação de gênero. De fato, em torno a Bertrande se desatou o debate mais intenso que o livro provocou.
Entre os ensaios de 1975 e O Retorno..., em 1983, seu compromisso com o campo da história das mulheres foi constante. Em um conhecido artigo de 1976, ela explicitou sua concepção de uma história relacional das mulheres, inseparável das grandes perguntas da história social (Davis, 1976). O artigo sistematizava sua prática como historiadora: os registros produzidos por umas poucas mulheres nobres e ilustradas eram formas valiosas, mas insuficientes, para conhecer a experiência social heterogênea das mulheres. Margarida de Navarra e Louise Labé tinham perspectivas muito diferentes sobre o mundo em que viviam. Este foi o caminho da história social das mulheres nos anos seguintes: a aposta na heterogeneidade social das mulheres, mais do que em seus pontos em comum, devia estar no centro da atenção das historiadoras (Bock, 1991; Scott, 2014).
O artigo propunha, para o debate feminista, o valor da história rigorosa. A abordagem histórica matizava uma perspectiva autocentrada que circulava naqueles momentos, como se tudo tivesse começado com aquele impulso feminista entre os anos de 1960 e 1970. As preocupações das historiadoras das mulheres, sublinhava Davis, tinham uma longa história; memorialistas, folcloristas e outros observadores, homens e mulheres do século XIX, e inclusive antes, registraram o comportamento sexual e organizações sociais do casamento e da família de grupos populares (Davis, 1976, 1980, 1992a). No começo do século XX, outras estudiosas fizeram perguntas similares às da história social e pesquisaram em documentos também similares, indo aos arquivos em busca de respostas. Não caíram na armadilha de achar que imagens normativas sobre as mulheres se confundiam com o que elas realmente faziam. Muitas de suas conclusões podiam ser discutíveis, observou Davis, mas seus métodos continuavam sendo inovadores.
À luz dos ensinamentos das que vieram antes, e das perguntas do seu presente, Davis sustentava que conhecer a variabilidade histórica das relações de gênero era fundamental para entender as formas de disputar poder na organização social de homens e mulheres de carne e osso, assim como para enfrentar questões de estrutura social, símbolos, propriedade e periodização. Assim, é significativo que sua discussão gire em torno das fontes e das abordagens para fazer história das mulheres (e que a palavra gênero já aparecesse em seus textos ao lado da referência mais habitual aos “papeis sexuais” para se referir à vida social das mulheres, à relação entre homens e mulheres, e aos sentidos simbólicos do masculino e do feminino) (Davis, 1976, p. 90). A expectativa, então, era de que mais pesquisas de história das mulheres nos levariam a uma história com mais ferramentas para distinguir entre generalizações a partir de evidências históricas e especulações inadequadas. A análise de Bertrande em O Retorno... nasce dessas preocupações.
Ao mesmo tempo, em termos historiográficos, O Retorno..., assim como Fiction..., publicado pouco depois, refletem a importância da tradição dos Annales para ela. No começo de Histórias de perdão, Davis menciona o impacto da leitura de Montaillou, de Emmanuel Le Roy Ladurie (Davis, 1979). Ladurie havia lido, em uma chave etnográfica, os registros produzidos pela inquisição no século XIV sobre aquela aldeia occitana. Com o auxílio da antropologia de Victor Turner e de Marshall Sahlins, interpretou os testemunhos inquisitoriais para revelar sentimentos, gestos e palavras cotidianas (Ladurie, 2021). Na resenha intitulada “os contadores de histórias de Montaillou”, Davis considerava aquela uma história local que buscava ser total: as diversas dimensões da vida social eram integradas em suas relações mútuas e permitiam pôr a prova grandes teorias sobre relações familiares, organização social e crenças dos camponeses (Davis, 1979, p. 61). Depois de recuperar o argumento do livro em sua complexidade, Davis questionou a excessiva coerência e a terminologia empregada por Ladurie para construir aquela “história total” de Montaillou a partir de um único documento – o registro inquisitorial. No final, ela chamou a atenção para a estrutura narrativa e estilística daquela fonte singular. O inquisidor parecer ter registrado não só formas de viver e de sentir, mas também as habilidades narrativas dos habitantes de Montaillou.
Esta resenha inspirou sua estratégia de pesquisa e a importância que as mulheres adquirem em O Retorno.... e em Fiction.... Uma leitura da documentação histórica atenta à sua dimensão narrativa tornou-se uma estratégia para examinar a experiência social das mulheres. As particularidades de suas vidas e de suas formas de contar histórias são uma parte central da polifonia que a documentação deixa entrever em suas parcialidades. Estas reflexões não só deram lugar à releitura de uma fonte com que a Davis vinha trabalhando há tempos em suas pesquisas sobre Lyon, os pedidos de perdão produzidos no século XVI, mas também lhe deram uma chave para abordar a estranha história de Martin Guerre.
Não estamos frente a uma história das mulheres habitual. Mas o livro não seria possível sem a atenção ao gênero. A questão da construção da identidade individual e seus percalços no século XVI foi o problema de pesquisa que a guiou na tarefa de conectar as histórias individuais de Martin, Bertrande e o juiz Jean de Coras, e estas com a experiência coletiva no século XVI. A verdade que Jean de Coras buscava foi encontrada no desenlace da história, quando o Martin Guerre original desmascara Pansette, o impostor. Mas a verdade mais profunda, a verdade histórica, aquela que não admite respostas imediatas ou contundentes, se refere à eficácia do engano. Neste ponto, a figura de Bertrande passa a ocupar o centro do problema: afinal, ela (e, junto com ela, toda a aldeia, e inclusive o próprio juiz) foi enganada ou foi cúmplice do impostor? Todo o procedimento da história social está em jogo nesta pergunta: como conhecer a perspectiva de grupos subalternos quando o próprio processo histórico impede que as fontes registrem em termos “positivos”, indiscutíveis, a percepção de quem se encontra em relações de subordinação? Na documentação do século XVI, camponeses sempre serão registrados como “rústicos”; mulheres sempre serão enganáveis — ou senão, serão bruxas.
Em 1982, quando o debate historiográfico começava a refletir um crescente questionamento da possibilidade de conhecer estas dimensões do passado através de fontes produzidas por terceiros, a estratégia de Davis foi a contracorrente. Por um lado, demandava voltar aos arquivos: para construir contextos adequados ao problema, havia que ampliar exaustivamente a busca por documentos históricos. Por outro, envolvia enfocar as narrativas disponíveis em sua complexidade. Neste caso, o relato de Coras: à falta do próprio processo judicial, este se tornou a principal fonte sobre o episódio; mas jamais a única fonte. O procedimento para caracterizar Bertrande e seu dilema é exemplar das duas estratégias. Aos seus 54 anos, com uma vida de conhecimento acumulado dos arquivos franceses em busca da vida de camponeses e artesãos, Davis estava em boa situação para contrastar o que o juiz dizia com uma infinidade de documentos e inclusive com o que ele não dizia. Os temores de Coras frente à possibilidade de que sua própria mulher o enganasse, ou que agisse de forma independente dele, expressavam sua insegurança sobre o comportamento de outros sujeitos e sobre a impossibilidade da certeza.
Para construir um campo de possibilidades sólidas para compreender Bertrande, Davis percorreu um caminho minucioso que pode ser reconstruído nas notas de rodapé do capítulo dedicado a apresentar a protagonista feminina: a cada passo de Bertrande, a cada decisão sua registrada pelo juiz, especialmente no que se refere a casamentos, maternidade, relação com outras mulheres, propriedade e linhagens familiares, Davis recupera o que era habitual na sociedade camponesa francesa do século XVI a partir de casos similares, em registros judiciais, notariais e literários. Neste contexto de muitas histórias, a “verdadeira”, a que serve de guia, torna-se a mais improvável, como quando Bertrande se recusou a voltar a se casar frente à ausência prolongada de seu marido. Ancorada na documentação sobre o que as mulheres camponesas faziam no século XVI, Davis constrói uma Bertrande possível: longe de ser uma camponesa ignorante ou uma personagem excepcional, fora da história; longe de alternar entre atitudes de submissão ou de resistência, o mais provável é que a camponesa tivesse uma leitura específica sobre sua margem de ação em diferentes situações, aprendida à luz de sua própria noção de honra e das relações sociais que sustentavam sua vida, com a família, com outras mulheres e com seu novo marido. Esta é uma Bertrande que o juiz Jean de Coras não podia entender, apesar de seu amor pela verdade, estudos sobre a justiça, erudição e possibilidade de interrogá-la de forma direta. Em suma, Davis leu o relato de Coras e suas decisões retóricas como um registro relacional, que, quando devidamente interrogado, revela sobre a experiência social dos camponeses, sobre a visão de mundo do próprio Coras, e sobre o improvável, mas real encontro entre dois mundos, separados por um abismo social.
A grande repercussão de O retorno... como um livro experimental afiançou o nome de Natalie Davis no campo da história social. Poucos anos depois, a ríspida crítica de Robert Finlay impugnou a validez da pesquisa de Davis, especialmente sua construção de Bertrande (Finlay, 1988; Davis, 1988c). Para o historiador do estado veneziano, Davis “impôs” sua noção de mulheres camponesas sobre Bertrande, criando uma personagem que não existiu na documentação histórica: uma mulher calculadora e manipuladora, uma verdadeira “proto-feminista” (Finlay, 1988, p. 557; p. 570). Novamente, ganhava a cena a acusação de que historiadoras feministas buscam no passado mulheres que elas gostariam de encontrar, tornando-se cegas para o rigor da pesquisa. Davis a conhecia bem. Embora fosse o primeiro a defender a compatibilidade entre uma visão politicamente comprometida do processo histórico e o rigor da pesquisa, E. P. Thompson já tinha acusado as historiadoras feministas estadunidenses de não perceberem a agência histórica das trabalhadoras do passado. Anos depois, o historiador cultural Robert Darnton, colega de Davis em Princeton, buscou se diferenciar das interpretações feministas radicais quando examinou os sentidos historicamente específicos das narrativas pornográficas nos últimos anos do antigo regime (Darnton, 1996). Darnton escolheu como interlocutoras autoras que consideravam toda pornografia como objetificação de corpos femininos, em uma interpretação nas antípodas da forma histórica de pensar. Esta busca por interpretações feministas a-históricas como uma espécie de espantalho que os permitiam afirmar seus próprios argumentos terminou recaindo diretamente sobre a própria Davis.
Ao menos neste caso, a resposta foi contundente. Davis não só explicitou as falácias de um pensamento que se apresentava como o paladino do rigor histórico, mas também seu próprio método de pesquisa para construir uma Bertrande verossímil. A formulação crítica de Finlay opunha rigor e imaginação. No entanto, explicou Davis, as duas dimensões estavam conectadas na prática histórica, pondo constantemente em questão quais perguntas são mais adequadas para a análise das fontes e qual a verdade que buscamos, a do juiz ou a dos valores sociais em jogo no passado. Finalmente, Davis evidenciou o classismo que acompanhava o machismo da crítica: compreender um mundo mental de camponeses “rústicos” e de uma mulher analfabeta pode ser parte de um problema de pesquisa sério de história? Para o deleite de muitos estudantes de pós-graduação, passou a explicitar seu método de construir contextos adequados à sua pergunta a través dos “círculos concêntricos de pesquisa”, descrito acima para o caso de Bertrande. Não é um método para encontrar evidências positivas, mas um arcabouço de possibilidades historicamente específicas que permitem sustentar perguntas difíceis de responder, reconhecendo que não há fontes diretas para bons problemas históricos (Davis, 1988c, p. 575).
Por outro lado, ela também tomou a oportunidade do debate para, em tempos de intensificação de embates polarizados em torno das teorias pós-estruturalistas, formular uma visão de história em termos de humildade, empatia e respeito aos homens e mulheres do passado. Isso significava incorporar, na narrativa histórica, as ambiguidades, as incertezas e os dilemas das pessoas que estudamos, assim como os da própria historiadora. Passados poucos meses da publicação da crítica de Finlay e de sua resposta, Davis escreveu, em um número especial de Feminist Studies, uma reflexão sobre como enfrentar divergências “em situações em que toda a natureza de uma comunidade parece estar em questão”, em referência à comunidade de historiadoras feministas. Ao refletir sobre a ética da resenha, o texto é uma defesa contundente de um “discurso civil” para que diferentes posturas possam não só conviver, mas também se nutrir das diferenças, em que a crítica dura possa estar aliada à tarefa comum de cuidar da comunidade. Quando as diferenças entre as feministas estavam começando a se tornar cada vez mais fortes, ela conclamou a todas a “lembrar-se que o gênero não precisa estar limitado a simbolizar e legitimar poder e hierarquia, mas também pode ser uma forma de representar cooperação e colaboração” (Davis, 1988b, p. 64).
Poucos meses antes, em seu discurso presidencial na American Historical Association, ela havia proposto uma aproximação similar à comunidade de historiadores. Ao refletir sobre as imagens que nossos antepassados cultivaram sobre a história, Davis expressou uma série de valores que perpassam esta comunidade: o valor de uma história corporificada; a importância dos dilemas e da incerteza para o conhecimento; a dimensão solitária do trabalho; principalmente, a busca por conferir um sentido verdadeiro ao passado. Sua própria imagem da história, herdada dos homens e mulheres que vieram antes dela, e renovada em sua própria experiência no ofício, não era aquela mais habitualmente associada com a história social, a do anjo da história descrito por Walter Benjamin a partir do quadro de Paul Klee, vendo as ruínas amontoarem-se sobre seus pés enquanto a tormenta do progresso empurrava-o de costas para o futuro. Em vez dessa imagem que considerou demasiado solene, trágica e assexuada, ela propôs outra, relacional, dialógica e cômica: dois corpos distintos em diálogo, dispostos a discordar e a escutar, ora comovidos, ora atônitos, ora rindo com prazer (Davis, 1988a, p. 30).
Assim, o gênero tornou-se um dos componentes centrais de sua imagem da história social, de uma comunidade de historiadores dispostos a não se levar tanto a sério, a não ter a última palavra e a não se deixar dominar pela busca frenética das publicações, mas ao mesmo tempo, comprometidos com uma dupla interlocução, com seus pares no presente e com as pessoas do passado. Os dois ensaios denotam que, a esta altura de sua trajetória, esta dimensão condensava o deslocamento rumo a uma história mais dialógica, centrada em encontros, tornando-se fundamental repensar como contar a história rigorosamente pesquisada. Davis passou, então, a recorrer a trajetórias individuais para abordar a articulação entre relações sociais e relações íntimas, como a vida familiar, o amor, a amizade, e o sentido de individualidade, tanto entre “camponeses rústicos” como entre grupos ilustrados. Seu livro seguinte, então, abordou a trajetória de mulheres ilustradas, aquelas que tinham atraído menos sua atenção nos primeiros tempos de sua carreira.
MULHERES DAS MARGENS
É precisamente esta característica que se tornou tão própria de Davis, uma postura respeitosa, humilde e, ao mesmo tempo, nada solene da historiadora frente ao passado, que emergiu de forma decisiva em sua obra mais explicitamente dedicada à história das mulheres, Women on the Margins. Publicado em 1995, quando ela chegava aos 67 anos, o livro retomava suas temáticas conhecidas, como a escritura feminina e as identidades religiosas de mulheres no passado, revisitando-as com novas perguntas (Davis, 1995). O impacto deste exercício de pesquisa sobre a interpretação de sua própria trajetória como historiadora é visível em seus escritores posteriores, especialmente naqueles que talvez sejam os três textos principais nos quais ela revê sua trajetória: na conferência publicada na série A Life of Learning, em 1997, na conversa com o historiador francês Dennis Crouzet, em A Passion for history, em 2003 e, no mesmo ano, seu discurso de aceitação do prêmio Holberg, na Noruega, “Descentering history” (Davis, 1997a, 2010, 2013b). Estes textos se tornaram referência sobre sua produção porque desenvolvem sua própria proposta de ordenar sua trajetória no tempo (Amelang; Garrayo, 2013). Enquanto era consagrada como uma das melhores historiadoras deste tempo, ocupando um lugar central na comunidade da história, ela elaborou a ideia de que, como as mulheres do século XVII que estudou, ela também foi, toda a sua vida, uma historiadora “das margens”.
Em A life of learning, Davis afirma que o projeto deste livro tomou forma entre 1989-1990. No entanto, suas protagonistas, as três mulheres europeias: a judia Glikl bas Judah Leib, a católica Marie de L´Incarnation e a protestante Maria Sybilla Meriam, já eram suas velhas conhecidas, do tempo em que ela buscava fontes para o curso “Sexes and Society”, com Jill Conway, em 1971. Naquele momento, como se viu, a necessidade de encontrar fontes históricas, em especial de identificar as vozes próprias das mulheres no passado, adquiria um sentido político e historiográfico fundamental. Delas dependia a possibilidade mesma de uma história social das mulheres.
A pergunta sobre o sentido da religiosidade em suas vidas também era antiga. Mais de duas décadas depois daquele ensaio sobre mulheres urbanas e mudança religiosa, no entanto, as vozes e trajetórias individuais de mulheres escritoras abriram as portas para outro experimento. Se, antes, as mulheres individuais eram importantes na medida em que expressavam uma experiência coletiva e se conectavam a um processo histórico mais amplo, em Women..., Davis construiu as trajetórias de três mulheres como problema, ou seja, como casos. Isso não quer dizer que sua atenção aos grandes problemas da transformação histórica deixou de existir, mas que, em lugar de pensar a expressão individual como prisma para a experiência coletiva, passou também a examinar a dimensão social da experiência individual. Com este deslocamento, ela ganhou liberdade para examinar as vidas dessas mulheres naquilo que tinham de singulares.
Foi um longo caminho desde a primeira vez que enfrentou o desafio de escrever sobre Christine de Pizan para um trabalho final em sua pós-graduação, em uma dupla incomodidade, tanto por se tratar de uma mulher como por ser uma nobre, até chegar a este recorte inusitado sobre três mulheres muito diferentes que viveram no mesmo tempo (Davis, 1991). A aparente arbitrariedade do objeto é o tema de um extraordinário prólogo experimental. Trata-se de um diálogo imaginado entre a autora e as três personagens que segue sua imagem da história formulada em 1987: com momentos ora tensos, ora cômicos, em que a autora se explica e procura convencer suas interlocutoras do passado, profundamente insatisfeitas com o livro que as reuniu, de dar uma segunda oportunidade a ela, a autora. No diálogo, ela enumera seus objetivos, inscrevendo-os nos debates do feminismo, e volta a responder à habitual acusação de anacronismo, que continuava recaindo sobre as historiadoras feministas. A operação retórica que traz as mulheres estudadas ao tempo mental da autora destaca o gênero e a idade similar de todas – “quatro mulheres de mais de sessenta anos”. Com isso, a autora também se torna parte da história: “na minha época se diz as vezes que as mulheres se parecem umas às outras, sobretudo se viveram em um lugar similar”, conta a autora a suas incrédulas interlocutoras. Descobrir se esta afirmação é pertinente, como, até que ponto, é a pergunta. Para enfrentá-la, busca reconhecer as diferenças entre as mulheres estudadas, e entre ela e as mulheres, o que ocorre de maneira cômica quando o caráter metafórico e implicações teóricas de suas próprias categorias – “hierarquias de gênero” e “margens” — mostram-se incompreensíveis para as mulheres estudadas. Para elas, as margens são as dos livros ou as dos rios.5 Finalmente, o formato dialógico sugere as implicações teóricas de sua forma de fazer história: a expectativa de ampliar o conhecimento do passado a partir da metáfora da escuta atenta para se referir à pesquisa rigorosa.
A escolha retórica, tal como se explicita nas conclusões, escritas de forma mais convencional, se inspira na recente produção dos estudos pós-coloniais e retoma uma discussão inspirada pela postura feminista na antropologia e em outros campos dos estudos feministas sobre como o caráter situado de quem produz o conhecimento e sobre as estratégias de construção de autoria/ autoridade incidem no próprio conhecimento produzido (Abu-Lughod, 1991; Haraway, 1995; O´Donnell; Pereira, 2016). Estas já eram questões familiares em sua trajetória. Mas o contexto dos embates pós-estruturalistas a habilitou a se posicionar frente a um possível distanciamento entre a perspectiva de gênero e a história social. Longe de supor um sentido evolutivo desde a “história social clássica” a uma “nova” história que, de resto, ela continuava considerando social, por mais que se voltasse para temas “culturais”, sua reflexão recaiu sobre a potencialidade das misturas e dos intercâmbios entre diferentes tradições e diálogos fronteiriços que conformaram a disciplina ao longo do século XX (Davis, 1979, 1980). O desafio fundamental continuava sendo como articular entre as muitas hierarquias sociais, mas, neste caso, conferindo ao gênero um lugar central. Neste sentido, seu interesse pelas “misturas” e “margens” passou a ser formulado em termos de uma série de deslocamentos geográficos e conceituais (Davis, 1992b, 2010).
Ao longo dos três capítulos, a estratégia de pesquisa expande o exercício realizado em O Retorno.... Neste caso, a trajetória de vida de cada mulher, a partir dos registros de cada uma, se transforma no eixo central – com a complexidade extra de que, no caso de Sybilla Meriam, não há um relato autobiográfico, mas seus desenhos de plantas e insetos. A escolha por trajetórias individuais, em contraste com a abordagem dos grupos sociais, abre a possibilidade de uma melhor aproximação dos tempos, hierarquias e relações sociais tal como se articularam em vidas singulares, sem abdicar da pretensão de explicar. Alguns anos depois, ao aplaudir a renovação que os estudos queer significavam para a história e para os estudos feministas ao desmontar binarismos, ela retoma a importância de integrar “como a cultura e a experiência social interagem para definir as possibilidades de um certo período”. Este era o diferencial da abordagem histórica (Davis, 2010, p. 124). Em tempos de explosão de temas e de um questionamento radical das hierarquias culturais, ela insiste na pergunta sobre o que se reitera nas singularidades e propõe que debates insolúveis, desacordos profundos e incertezas podem ser o diferencial de um certo período (Davis, 1992b).
A conclusão do livro indica os deslocamentos geográficos pelos quais ela começava a se aventurar. Assim como antes havia ocorrido com a noção relacional de classe, a ideia de margens como um lugar fronteiriço e criativo para quem se encontra em posições subordinadas torna-se fundamental para sua concepção do gênero na história. Ela adquire uma formulação explícita em Women..., mas já tinha sido sugerida em um ensaio bem anterior sobre mulheres que se ocuparam da escrita da história (Davis, 1980). A tensão entre uma história escrita de acordo com as regras do campo, a ampliação do campo às reflexões produzidas por mulheres, e a possibilidade de que esta escrita expresse algo próprio, se resolveu naquele momento através da noção de que as mulheres “ampliam os círculos da verdade”, expressão tomada da duquesa de Newcastle ao escrever a biografia de seu marido. Em outras palavras, as histórias escritas por mulheres têm o duplo efeito de serem histórias particulares e, ao mesmo tempo, de incidir na verdade da história, ampliando-a. Pouco mais de uma década depois, as margens se tornam uma boa perspectiva para articular a criatividade no marco de relações de poder. Não por acaso, o livro é dedicado a Rosalie Colie e a Michel De Certeau, quem melhor desenvolveram e condensaram este percurso (Scott, 2011).
A ideia de que mulheres nas margens podem revelar com claridade o que estava em questão para outros grupos é fundamental para compreender o lugar do gênero na pesquisa histórica de Davis. Se o foco na relação de classe a ensinou a pensar o conflito no tempo e hierarquizá-lo, reconhecendo sua heterogeneidade, a perspectiva centrada no gênero não indica uma organização analítica definida de antemão; antes, permite abordar as zonas de interação cujos sentidos são desconhecidos antes da pesquisa. Longe de substituir uma perspectiva por outra, sua própria trajetória foi se construindo e se ampliando a partir dos passos prévios. É neste sentido que ela afirmou que a perspectiva de gênero pode ser um tema de pesquisa, mas também pode ser algo que “surge” (Spijkerman; Greetje, 2016, p. 32). Quando é um tema, como qualquer outro, precisa ser contextualizado e interrogado com as ferramentas habituais da história. Quando “surge”, permite estabelecer conexões ignoradas no começo de um projeto. Assim, é compreensível que a noção de margem que emerge de sua análise sobre as mulheres seja a inspiração para o estudo de trajetórias tão diversas como a do diplomático Wassan Al Hassan ou do linguista romeno Lazăr Șăineanu (Davis, 2008, 2022).
Talvez Natalie Zemon Davis tenha se divertido ao conhecer a heterogeneidade das leituras e da recepção de sua obra. Apesar de seus esforços em sistematizar sua trajetória em uma narrativa coerente, sua obra foi lida em múltiplas chaves. Como historiadora social feminista, construiu uma perspectiva de gênero singular: além de relacional e simbólica, também uma que resulta das conexões com as ideias de quem veio antes, que depende de intercâmbios horizontais e que se nutre da interdisciplinaridade. Não é uma perspectiva para buscar respostas ou comprovações, e sim melhores perguntas. Concebido assim, o gênero alimentou sua atenção entre experiência coletiva e trajetória individual; renovou a perspectiva relacional adquirida com o enfoque de classe; inspirou a formulação das margens como espaço de criatividade a partir do “descentramento” da história, tanto em termos espaciais como em suas teleologias; chamou a atenção para o lugar da escrita histórica e, finalmente, articulou a reflexão sobre as formas de continuar reinventando este ofício.
REFERÊNCIAS
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DECLARAÇÃO DE DISPONIBILIDADE DE DADOS:
Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.
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1
Há diversos balanços sobre o debate historiográfico do período (Chalhoub; Silva, 2010); sobre a relação entre história das mulheres e a história do trabalho nesses momentos (Popinigis; Schettini, 2024).
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2
Ao analisar o caso espanhol, Anaclet Pons e Justo Serna También observaram que O retorno... chegou primeiro ao espanhol que os ensaios de Sociedade e cultura, e que também nesse caso, não foi dada maior atenção ao fato de que as duas obras haviam sido produzidas em ordem inversa (Pons; Serna, 2013). Ademais, Sociedad y Cultura (Davis, 1993 –) foi traduzido na Espanha sem os dois artigos mencionados sobre a história das mulheres. Ambos haviam sido publicados antes em uma coletânea organizada por James Ameland e Mary Nash (1990).
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3
Dorothy McGuigan (1914-1982) era formada em literatura comparada, tendo estudado a escrita de mulheres durante a restauração inglesa. Professora da Universidade de Michigan desde 1955, era autora de A Dangerous Experiment: 100 Years of Women at the University of Michigan (1970). Dorothy Gies McGuigan Papers, Bentley Historical Library, University of Michigan. Disponível em: https://findingaids.lib.umich.edu/catalog/umich-bhl-0223. Acesso em: 10 abr. 2025.
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4
Sheila Tobias (1935-2021), administradora universitária com formação em história e literatura; em 1978, publicou estudos sobre as razoes que afastavam as mulheres do estudo da matemática. Sheila Tobias Papers. Schlesinger Library, Radcliffe Institute, Harvard University, Cambridge, Mass.
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5
Na Espanha, a conversa entre três historiadoras converge em reconhecer que Women é um livro modelar em sua escritura acessível, especialmente em tempos em que as intervenções feministas estão rodeadas por uma “aura de ininteligibilidade” (Balco; Ramos; Nash, 2016, p. 259)
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Editor responsável:
Ely Bergo de Carvalho.
Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.
