O artigo analisa a imaginação de futuro de Charles Fourier, pensador comumente alocado na tradição utópica da primeira metade do século XIX. Minha hipótese é que essa imaginação é extravagante à luz do contexto intelectual de seu tempo, marcado pela temporalização da história a partir de uma ideia de futuro como produto da consciência. Essa fora a marca, por exemplo, de epistemologias iluministas e das filosofias da história então nascentes. Meu argumento específico é que Fourier, notadamente no livro Teoria dos quatro movimentos, de 1808, desenha uma paixão pelo porvir (enraizada nas paixões humanas) que resiste a ser integrada à ideia reguladora da razão prática ou ao labor do espírito hegeliano no processo dialético de sua formação. Antes de inventar conteúdos utópicos ou ideias reguladoras para os progressos da civilização, fora autor de um particular “discurso em estado utópico”. Esse discurso não é enquadrável na ordem de conceitos tão encadeados quanto o curso da história que epistemologias progressistas buscavam representar. Por isso, concluo que Fourier fora um pensador incomum, embora muito lido em contextos de crise das filosofias da história – não como precursor de regimes de historicidade presentistas, mas como pensador de uma imaginação de futuro articulada à multiplicidade das paixões.
Fourier; Futuro; Utopia