RESUMO
O objetivo deste trabalho é apresentar a revista Nordeste e analisar seu surgimento em 1945, logo após o fim do Estado Novo e da Segunda Guerra Mundial, assim como alguns aspectos de sua primeira fase, entre 1945 e 1955. Inicia-se pela aproximação à respectiva conjuntura e a reflexão sobre algumas das principais demandas artísticas e intelectuais. Em seguida, busca-se analisar as condições econômicas que possibilitaram a criação desse periódico cultural, ou seja, as relações com o diário recifense Jornal do Commercio. Por fim, discute-se a tipologia da Nordeste, que inicialmente se lançou como um mensário de cultura, e que de fato tinha características próximas a um jornal ou suplemento literário, mas que, no entanto, se entendia como uma revista de cultura, algo corroborado pela respectiva recepção. Destaca-se que, embora a dimensão relativa ao conteúdo desse projeto editorial não seja ignorada aqui, o foco se voltou para as condições de possibilidade que levaram à materialização dessa revista.
PALAVRAS-CHAVE:
revista Nordeste; Aderbal Jurema; Jornal do Commercio
ABSTRACT
This paper aims to present the Nordeste magazine and analyse its emergence in 1945, shortly after the end of the Estado Novo and the Second World War, as well as some aspects of its first phase, between 1945 and 1955. It begins by examining this historical context and reflecting on some of its main artistic and intellectual demands. It then seeks to analyse the economic conditions that made the creation of this cultural periodical possible, particularly its relationship with the Recife daily Jornal do Commercio. Finally, the text discusses the typology of Nordeste, which was initially launched as a monthly cultural periodical. It had characteristics like those of a newspaper or literary supplement, yet it considered itself a cultural magazine, as evidenced by its reception. It should be emphasised that, although the focus here is not solely on the content of this editorial project, attention is given to the conditions that facilitated the actual realisation of this magazine.
KEYWORDS:
Nordeste magazine; Aderbal Jurema; Jornal do Commercio
INTRODUÇÃO
O presente artigo busca apresentar ao leitor a revista de cultura Nordeste, surgida no Recife, no final de 1945. Embora o conteúdo seja fundamental para compreender as linhas editoriais de um periódico como esse, optamos por abordar esse objeto primeiramente pelo que se pode denominar suas condições de possibilidade. Não se desconsidera aqui a base intelectual e artística que pautou a revista, mas se entende que, antes de mais nada, é preciso levar em conta algumas questões que contribuíram para sua materialização. Assim, o percurso se iniciará pela observação da conjuntura de surgimento da Nordeste, destacando elementos que contribuem para explicar o lançamento de um periódico cultural, e as respectivas demandas intelectuais e artísticas. Igualmente, serão analisadas as condições econômicas que a sustentaram, em especial sua relação com o Jornal do Commercio (Recife, 1919). Este trabalho não ignora algumas questões importantes sobre os direcionamentos intelectuais desse periódico, mas se volta principalmente aos elementos relacionados à sua materialidade. Essa será uma base para, futuramente, analisar características internas do conteúdo da Nordeste.1
Se, por um lado, a materialidade dos periódicos se tornou há décadas uma questão relevante para a historiografia, isso é inseparável da abordagem desses artefatos como projetos intelectuais, culturais, artísticos e políticos. O que significa abordá-los levando em conta as dimensões relativas tanto às formas quanto aos significados como partes importantes de um mesmo problema, o que Chartier (2005) destacou justamente como uma das grandes contribuições de Donald Francis McKenzie para as pesquisas sobre impressos.
Conforme Tania Regina de Luca (2008), a ascensão da Nova História Cultural, a partir da década de 1970, trouxe novas problematizações relativas aos periódicos, e implicou a abordagem da imprensa não mais apenas como fonte, mas como objeto historiograficamente legítimo e justificável. Conforme Velloso (2006, p. 316): “Minha proposta é pensar as revistas nesta sua dupla dimensão: fonte e objeto de análise. A avaliação de Chartier é o fio condutor dessa reflexão, permitindo perceber as revistas em sua complexa historicidade e articulações específicas que estabelecem em relação ao moderno”. Assim, abordar revistas como fonte e objeto se alinha ao método que leva em conta não apenas o conteúdo, mas a respectiva forma.
O fato de os periódicos terem sido produzidos com a finalidade de serem lidos coloca em questão tanto o conteúdo quanto o suporte, visto que ele foi o meio pelo qual jornais e revistas de fato circularam e foram recebidos pelo público. O produto final resulta, assim, de diversas condições concretas, e é a materialização de um vetor cultural que, ainda que não necessariamente homogêneo e uníssono, mesmo assim atua em sua contemporaneidade com direcionamentos políticos, intelectuais e artísticos. E os periódicos, antes de mais nada, o fizeram através de sua forma impressa. Por isso, a análise da materialidade suscita maior interesse, visto que a aparência física (formato, papel, qualidade da impressão, capa, ilustrações, publicidade etc.) articula-se diretamente com o público potencial e a respectiva recepção, assim como os objetivos do periódico (Luca, 2008, p. 138).
A “boa e brava NORDESTE”, assim chamada por Gilberto Freyre existiu por duas décadas, entre 1945 e 1965.2 Contemporânea da breve república promulgada pela Constituição de 1946, foi a revista de cultura mais longeva da época no Recife, então epicentro de atração regional, por diversos motivos. No caso de artistas e intelectuais, a centenária Faculdade de Direito foi um dos principais polos de atração, e não por acaso, dali saíram muitos colaboradores da Nordeste, inclusive seu redator-chefe.
Estas premissas dão as linhas metodológicas gerais deste artigo, que busca apresentar e analisar a materialidade da Nordeste. Os elementos que a formataram são aqui entendidos como condições de possibilidade, tal como Le Goff (1990) sugere para a abordagem das fontes como “monumentos”. O objetivo é construir uma base que permita futuramente analisar ideias e projetos políticos e intelectuais que ressoaram nas/das suas páginas; em outras palavras, o que se pode denominar de projeto intelectual.
A análise da materialidade demanda uma discussão sobre a conjuntura na qual se desenharam os aspectos mais gerais da revista, como sua natureza e gênero. Algumas questões internacionais, nacionais e regionais são fundamentais para compreender o contexto pós-1945, o lançamento da revista e seu engajamento em debates culturais, artísticos e intelectuais. Pressupõe-se aqui que os elementos concernentes à materialidade do periódico devem ser abordados em relação à conjuntura, para que se possa estabelecer parte do projeto editorial concretizado pela Nordeste.
Portanto, antes de analisar sua materialidade, é preciso entender algumas questões que angustiavam os contemporâneos, e que estiveram diretamente ligadas às formas de atuação e engajamento de intelectuais e artistas. Essa conjuntura, iniciada em 1945, ano de lançamento do então mensário de cultura Nordeste, exigiu reconfigurações das categorias históricas que Koselleck (2006) denomina espaço de experiência e horizonte de expectativa. O final da Segunda Guerra e suas implicações irremediavelmente colocavam em questão quais seriam ou deveriam ser os legados do período que findava. Observava-se o esboço cada vez mais nítido do que se convencionou chamar de Guerra Fria, com profundas implicações no Brasil, que passava por uma nova experiência democrática. Esse panorama marcou as formas de inserção artísticas e intelectuais e, consequentemente, o lançamento de periódicos como a Nordeste.
UM NOVO CENÁRIO: O LUGAR DE INTELECTUAIS E ARTISTAS
A conjuntura a partir de 1945 foi extremamente fértil para o campo cultural brasileiro, marcadamente pelo fim do Estado Novo e da censura, possibilitando maior abertura e engajamento intelectual, processo amplificado pelo fim da Segunda Guerra Mundial.3 Intelectuais do mundo todo buscaram e/ou foram convocados ao engajamento nas mais inquietantes questões contemporâneas, relativas aos horrores vivenciados, às formas de impedir outros desastres e às projeções para o novo período. A urgência do engajamento intelectual foi incisivamente materializada pela revista Les Temps Modernes, lançada no início de outubro de 1945. Direto de Paris libertada, Sartre, Beauvoir, Merleau-Ponty e outros intelectuais divulgaram o que viria a ser uma revista paradigmática, que exigia da intelectualidade o enfrentamento da problemática do pós-guerra. A obrigação de engajamento tornou-se indissociável do nome da revista e do próprio Sartre, consagrando uma abordagem filosófica séria das demandas consideradas mais incisivas (Bouffartigue, 2009, p. 1337-1338).
Em sintonia com essa demanda, vinda daquele que havia sido o epicentro cultural do Ocidente, surgiram periódicos culturais, literários e artísticos em várias regiões do Brasil, tanto de abrangência regional como nacional. Seja a Joaquim (Curitiba, 1946), a Branca (Rio de Janeiro, 1948), a Sul (Florianópolis, 1948) ou a Anhembi (São Paulo, 1950), para citar rapidamente alguns exemplos, o fato é que artistas e intelectuais, jovens ou não, viram a situação como momento potencial de projeção.
Comentando sobre a poesia, Alceu Amoroso Lima viu esse período como marcado pelo arrefecimento da iconoclastia modernista:
A partir de 45, a coisa vem de mansinho, sem grandes chefes, sem manifestos, sem gritos de combate, sem o ‘sus’ aos infiéis, sem o caráter de cruzada que, há 35 anos, ostentava a arrancada dos novos bárbaros de São Paulo e Rio, com revistas que invocavam a “antropofagia, para assustar o povo pacato dos arraiais parnasianos e simbolistas.” (Lima citado por Pierucci et al., 2007, p. 534).
O cenário político nacional, por sua vez, era marcado por novos pactos, negociações e concessões, resultando no pluripartidarismo da Constituição de 1946, o que permitiu inclusive a legalização do PCB, cassado no ano seguinte, haja vista a intensificação da Guerra Fria.
Para Velloso (2006, p. 313-314), desde o início do século XX, grande parte da intelectualidade brasileira envolvera-se no mercado editorial, levando em conta o lugar estratégico de jornais, revistas, livrarias e editoras para a veiculação de ideais. Contudo, essa nova conjuntura sugere uma ampliação do campo cultural como um todo, o que abriu diversos caminhos pelos quais intelectuais poderiam enveredar. Em um caso muito específico e paradigmático, Pontes (1998) analisou como a existência da Revista Clima entre 1941-44 foi fundamental para a construção da carreira intelectual de um grupo que contava, entre outros, com o jovem Antônio Candido.
Destaca-se que esta conjuntura foi um período de transição dentro do campo intelectual brasileiro, com a crescente profissionalização e especialização de funções como a crítica literária, em parte pela consolidação das Universidades e a maior gama de cursos. Predominava anteriormente a formação intelectual via faculdades de Medicina e Direito, modelo que se modifica a partir das décadas de 1930-40, processo no qual a formação da Universidade de São Paulo (USP) foi sintomática. Ao lado da indústria cultural, as universidades se expandiram muito a partir da década de 1940, marcadamente pela federalização de muitas instituições, o que propiciou novos espaços de atuação da intelectualidade.
Em 1946, foi criada a Universidade do Recife, congregando diversas instituições da capital pernambucana, com destaque à Faculdade de Direito. Isso não apenas ampliou a estrutura de ensino como gerou novos espaços de trânsito, encontros e desencontros entre intelectuais e artistas. Um exemplo foi o Teatro do Estudante, que existia na Faculdade de Direito desde 1940 e que passou a ser dirigido por Hermilo Borba Filho em 1945, momento em que o grupo ganhou corpo e projeção, com seu nome de maior sucesso sendo, sem dúvida, Ariano Suassuna. Esses dois fatos, de repercussão muito desigual, servem para mostrar que essa conjuntura foi marcada no Recife como momento de renovação cultural.
O lançamento da Nordeste sintonizava-se com a necessidade de pensar o mundo contemporâneo, ainda mais porque ela surgiu cerca de um mês após a deposição de Vargas. A efervescência cultural recifense é atestada pela criação de muitos periódicos culturais, iniciada em novembro de 1945, com o surgimento oficial da Nordeste e do mensário de divulgação cultural Região. Esse movimento continuou nos anos seguintes, quando vieram a público Contraponto, Estudantes e Letras Pernambucanas (1946), Revista de Cultura (1947) e Resenha Literária, Presença e Verdade e Vida (1948).4
Dentre todos, o mensário de cultura Nordeste, lançado pelo redator-chefe Aderbal Jurema (1912-1986), teve a vida mais duradoura, indício de que conquistou retorno, fosse ele econômico, político ou simbólico. O periódico recifense repercutiu em diversos jornais e revistas pelo Brasil, sobretudo naqueles em que os representantes da Nordeste eram presentes. O carioca Correio da Manhã, que contava com a colaboração de José Condé (1917-1971), e a curitibana Joaquim, liderada por Dalton Trevisan (1925-2024), são alguns exemplos.
É surpreendente que o surgimento de tantos periódicos culturais no Recife nesse período não tenha suscitado pesquisas, o que chama mais atenção ainda em relação à Nordeste, visto que foi a mais longeva. Entre 1945 e 1965, apenas em 1959 não foi publicada nenhuma edição, o que sugere certa acolhida pelo público e relativo sucesso, no mínimo em âmbito regional e com reverberações em outros locais do Brasil.5 Embora a Nordeste tenha sido usada em diversos estudos sobre a cena cultural recifense, como, por exemplo, por Dimitrov (2013) e Teixeira (2016), não foram encontradas pesquisas que a utilizassem como objeto privilegiado, tanto em seu conjunto quanto em relação a números específicos. Na verdade, ainda está por ser escrita a história dessa efervescência de periódicos culturais, artísticos e científicos que marcou a cena cultural pernambucana nessa conjuntura. Nesse sentido, enfocar essa revista, que parece ter sido o projeto editorial de maior sucesso no Recife, é um passo nessa direção.
O periódico liderado pelo redator-chefe Aderbal Jurema, diferente de projetos semelhantes, que apresentavam sua proposta principalmente no editorial inaugural ou manifesto, trouxe na capa um artigo de abertura que evidenciava sua preocupação com a situação internacional. Com Na Porta de Saída das Guerras, de autoria de Luiz Delgado, professor da Faculdade de Direito do Recife, a Nordeste se lançava, em sintonia com as preocupações mundiais, como periódico especializado em cultura engajado no debate sobre a intelectualidade e o pós-guerra, questão essa, então, incontornável.
: Primeira página da edição de lançamento da revista Nordeste, datada de 28 de novembro de 19456
A revista, na verdade, utilizava cores, o que não aparece nessa digitalização. O uso de cores era menos recorrente no início, sendo presente no título ou em algumas imagens. Ao longo de sua trajetória, passou-se a utilizar uma paleta mais variada, como se observa especialmente nas edições da década de 50. A melhoria do papel utilizado se explica pela qualidade necessária para impressões coloridas. Destaque-se que, entre 1954-56, o Jornal do Commercio modernizou seu maquinário, adquirindo impressoras que permitiam o uso de mais cores (Lopes, 1985, p. 106-108).
O número 2, ainda em 1945, e o número 3, no início de 1946, trouxeram a enquete “O Intelectual e o Após-Guerra”, entrevistas concedidas por Odilon Nestor, catedrático da Faculdade de Direito do Recife, e Viana Moog, da Academia Brasileira de Letras. Seguem as perguntas do “Inquérito da Nordeste”: “A) Qual deve ser a posição do intelectual numa nação democrática? B) Qual a sua concepção da Arte em face da Política? C) Quais as relações que devem existir entre o intelectual e o povo? D) Quais os mais prementes problemas que precisam de solução? E) Quais as principais correntes políticas do após-guerra?”. Essas perguntas pautavam a necessidade de engajamento dos intelectuais nos problemas e demandas da nova conjuntura mundial.
Embora não fosse um editorial, o texto de capa da primeira edição acabou ocupando materialmente o que seria seu lugar. Luiz Delgado (1906-1974) faz ali um diagnóstico do contexto pós-1919 até a Segunda Guerra Mundial, apresentando o cenário pós-1945 como vivendo os mesmos problemas da conjuntura anterior. A inquietude com o futuro aparece como central para a reconstrução do mundo pós-Segunda Guerra, junto aos dilemas da potencial Guerra Fria: “os problemas do futuro inquietam-nos ainda mais do que nos inquietavam ontem.”. (Delgado, 1945, p. 02). Observa-se como a Nordeste colocava como urgente justamente a reflexão sobre as heranças do passado e as projeções de futuro, ou seja, a reconfiguração do espaço de experiência e do horizonte de expectativa, conforme as categorias de Koselleck (2006). Fosse em Paris ou no Recife, havia a necessidade de engajamento nesses debates para se lançar no campo cultural. Utilizando as discussões de Bourdieu (2005) sobre o campo literário e artístico, pode-se dizer que essa demanda pelo engajamento era uma espécie de regra nessa conjuntura.
Seja como for, Na Porta de Saída das Guerras foi a primeira identidade intelectual que a Nordeste mostrou ao público, indicando questões que considerava urgentes. O primeiro número também trazia textos em que a revista abordava e articulava questões regionais, nacionais e internacionais. Justificavam-se, dessa forma, tanto o seu lançamento quanto a centralidade da figura de intelectual. Diferente da abordagem que podemos chamar de internacionalista do texto de Delgado, o número 2 trazia um texto de capa de Gilberto Freyre (1900-1987), que indica o que podemos chamar de posicionamento regionalista da revista: Povo, província, estudante e arte.
De forma crítica, Antônio Candido apontou que a tendência regionalista ganhava destaque nessa conjuntura, em um texto de 1946 que aponta Guimarães Rosa como autor que ensaiou superar o regionalismo com a obra Sagarana: “agora a moda é ser bairrista, e o porta-voz mais autorizado da tendência é o sr. Gilberto Freyre, pai da voga atual da palavra ‘província’.” (2002, p. 184). Essa tendência criticada por Cândido era, por sua vez, cara à Nordeste, que deu ampla abordagem para questões regionais, o que equivale a dizer que tinha uma certa postura regionalista.
Mas a capa ou primeira página da primeira edição trazia também um poema do consagrado modernista recifense Manuel Bandeira (1886-1968), impresso a partir do manuscrito, acompanhado de uma ilustração de Portinari. O texto se intitulava Poema só para Jaime Ovalle, o que é omitido na Nordeste, e foi publicado originalmente nesse mesmo formato no livro das Edições Condé chamado 10 poemas manuscritos e ilustrados (1945). A obra contava com diversas autorias, tanto em relação aos textos quanto às ilustrações. Foi daí que a Nordeste extraiu o manuscrito do poeta e a ilustração de Portinari, recebendo ambos os devidos créditos em seu sumário, que apresentou Bandeira como colaborador. Segue a transcrição do poema:
Quando hoje acordei,
ainda fazia escuro
(Embora a manhã já estivesse avançada).
Chovia.
Chovia uma triste chuva de resignação
Como contraste e consolo ao calor tempestuoso da noite.
Então me levantei,
Bebi o café que eu mesmo preparei,
Depois me deitei novamente, acendi um cigarro e fiquei pensando...
— Humildemente pensando na vida e nas mulheres que amei.
Independente da intenção original do poeta, o uso do poema pela Nordeste ao lado de um texto falando do mundo pós-guerra indica uma analogia entre o antes e o depois, passível de diversas interpretações, como o mundo pós-guerra e pós-Estado Novo, e a nova situação que se abria, o ontem e o hoje. Se o texto de Delgado usou a porta como metáfora, a ilustração do poema apresentava uma janela como figura de fundo. Ambas as representações de acessos, entradas e saídas aparecem como marcos entre o passado tragicamente vivido e o futuro esperado de forma ansiosa e angustiante.
Este artigo não busca analisar a fundo essas primeiras figurações das linhas editoriais da Nordeste, visto estar mais centrado na sua materialidade. Contudo, a necessidade de pensar o surgimento dessa revista exige que se considerem essas questões. Assim, a primeira impressão que o periódico causou ao leitorado se deu através dessa primeira página, com um texto discutindo o mundo pós-guerra junto a um poema que parece abordar questão semelhante. São indícios de um programa implícito: falar de arte e cultura, publicizar obras e artistas, sem se esquecer das obrigações contemporâneas da intelectualidade. A presença, ainda neste número, dos textos Democracia e Planificação (do redator-chefe Aderbal Jurema) e A Democracia Socialista (do colaborador Pinto Ferreira) evidencia o interesse do recém-lançado mensário de cultura em articular debates sobre os antigos e novos paradigmas políticos, econômicos e sociais. Assim como nas enquetes dos números seguintes, vemos delineadas as principais temáticas que preocupavam a Nordeste: os lugares e as relações entre intelectuais, democracia, arte, política, povo, ideologias e questões contemporâneas.
O layout da capa ou primeira página, cuja identidade visual criava o contato inicial com o público, foi o mesmo durante anos, variando apenas no uso de cores. Esta foi uma das principais permanências da primeira fase, entre 1945-55, sob a liderança intelectual de Aderbal Jurema. Sem capa de anteparo, o leitorado tinha diante de si uma identidade que possivelmente tornou-se familiar, o que se soma ao seu formato, tamanho e número de páginas. O nome, centralizado em caixa alta acima da página, e divisado aos lados por imagens que remetem ao litoral e ao sertão, indica sua inserção regional. A epígrafe, pelo tom provocativo, possibilita uma leitura mais complexa: “São os do Norte que veem…”.
Essa apresentação permaneceu inalterada inclusive nos primeiros anos da entrada de Ladjane Bandeira como figura importante na revista, o que se deu a partir de 1956. A primeira mudança, sutil, aparece na segunda edição desse ano, com a inversão do lugar das imagens do litoral e do sertão, o que permaneceu até o número 5, de 1957, último com esse layout. Assim, durante mais de doze anos, essa foi a primeira página invariável. A revista que buscava culturalmente materializar o Nordeste, cujo epicentro seria Recife, se situava entre o mar e os sertões, como lugar que prometia a redenção desses herdeiros do antigo norte forjado agora em nordeste (Albuquerque Júnior, 2011, p. 57-77). Não necessariamente apenas como discurso vitimista, como considera Albuquerque Júnior, mas também como promessa de porvir. Futuro para a região construída pela imagem recente de decadência, miséria e seca, mas que ali, entre o interior e a orla marítima, acreditava ver e poder seguir rumo a destinos melhores.
São os do Norte que veem, lema da Nordeste, figurou na primeira página até o início de 1958, quando cedeu às transformações por que a revista passava desde a transição representada pela saída de Aderbal Jurema e a ascensão de Ladjane Bandeira, entre 1955-56. Essa epígrafe é um trecho de Tobias Barreto retomado no poema Voluntários do Norte, de Manuel Bandeira. Deve-se lembrar que este autor foi figura central do modernismo, tendo seu poema Os Sapos inclusive declamado na Semana de 1922, por Ronald de Carvalho. Ou seja, era uma figura consagrada da literatura brasileira, cuja autoridade era mobilizada pela revista.
Em entrevista concedida à revista Província de São Pedro, em 1949, Bandeira afirmou que Voluntários do Norte havia sido escrito como uma brincadeira sobre a “suposta rivalidade entre literatos do sul e literatos do norte.” (Bandeira; Campos, 1986, p. 135). Segue a íntegra do poema, originalmente lançado no livro Estrela da Manhã, de 1936:
São os do Norte que vêm!
Tobias Barreto
Quando o menino de engenho
Chegou exclamando: — “Eu tenho,
Ó Sul, talento também!”,
Faria, gesticulando,
Saiu à rua gritando:
— “São os do Norte que vêm!”
Era um tumulto horroroso!
— “Que foi?” indagou Cardoso
- Desembarcando de um trem.
E inteirou-se. Senão quando,
Os dois saíram gritando:
— “Ê vêm os do Norte! Ê vêm!…”
Aos dois juntou-se o Vinícius
De Morais, flor dos Vinícius
E Melo Morais também!
— “Que foi?” as gentes falavam…
E os três amigos bradavam:
— “São os do Norte que vêm!”
Nisso aparece em cabelo
O novelista Rebelo,
Que é Dias da Cruz também!
Mais uma voz para o coro!
E foi um tremendo choro:
— “Ê vêm os do Norte! É vêm!…”
E o clamor ia engrossando
Num retumbar formidando
Pelas cidades além…
— “Que foi?” as gentes falavam,
E eles pálidos bradavam:
— “São os do Norte que vêm!” (Bandeira, 2012, p. 41-42).
Diferente da famosa Revista do Norte, que preconizou os debates sobre regionalismo e modernismo no Recife dos anos 20, percebe-se que a Nordeste encarnava essa região análoga, mas discursivamente nova, segundo Durval Muniz Albuquerque Júnior (2011).7 Não como uma genérica Província, jornal no qual Gilberto Freyre foi redator em 1929. A escolha do nome e a configuração de sua identidade gráfica, com suas escolhas intelectuais, poéticas e imagéticas, lançou, à primeira vista, um periódico regionalista, um dos principais nessa conjuntura, mas projetando os olhos para o mundo, partindo daquele centro cultural historicamente importante: o Recife.
A NORDESTE E A EMPRESA JORNAL DO COMMERCIO
Não há como abordar a Nordeste sem considerar a empresa Jornal do Commercio (JC), vinculada à família Pessoa de Queiroz, uma das mais poderosas da região, cujo diário matutino ainda circula no Recife. A revista nasceu através de intelectuais ali inseridos, o que demanda apresentar o grupo que, justamente nesse período, estava em vias de se tornar um grande conglomerado de comunicações. Entre 1945-46, os números da Nordeste informavam apenas seu endereço da redação e gerência, a Rua do Imperador 346, prédio do jornal recifense. O primeiro número de 1947, sem alterar o endereço, passou a informar que o mensário de cultura era “editado pela Empresa Jornal do Commercio S. A.” (Nordeste, 1947, n. 7, p. 02).
Em 1919, o jornal A Ordem foi adquirido e transformado no Jornal do Commercio por João Pessoa de Queiroz (1880-1962) (Nascimento, 1967, p. 145). Interessante observar que A Ordem havia feito oposição aos Pessoa de Queiroz por conta de rixas políticas regionais, em defesa do governador de Pernambuco, Manuel Borba (Lopes, 1985, p. 40). O novo matutino se tornou um grande grupo de comunicações ao longo das décadas seguintes, congregando outros periódicos, rádios e emissoras de televisão. A empresa, de João e José, passou à direção do terceiro irmão, Francisco (muitas vezes referenciado como F.) Pessoa de Queiroz, em 1921, quando este era deputado federal. Segundo Alcides Lopes, o jornal tinha prejuízos, que eram cobertos pelos lucros que os irmãos conseguiam com um armazém de miudezas no mesmo endereço. Em 1927, temendo que os irmãos fechassem o diário, F. Pessoa de Queiroz comprou-o a crédito (Lopes, 1985, p. 66-67), passo decisivo para se consolidar mais tarde como empresário central das comunicações na região Nordeste.
Quando foi lançado, em 1919, o novo jornal apresentou-se em editorial como representante das classes conservadoras. Sua criação objetivava alavancar a candidatura à presidência de Epitácio Pessoa, tio dos irmãos Pessoa de Queiroz (Barros, 2009, p. 51-52). De fato, o matutino começou a circular em 3 de abril, poucos dias antes da eleição que deu a vitória a Epitácio. O jornal foi muito atuante nas querelas políticas regionais e nacionais nas décadas de 1920-30, o que levou inclusive ao seu empastelamento em 1930, após Francisco tê-lo usado a favor de Júlio Prestes (Lopes, 1985). Isso acarretou na fuga de várias pessoas envolvidas no periódico, inclusive o próprio Francisco, que deixou o país, sendo que o JC só voltou a circular em 1934, como “órgão independente e noticioso” (Nascimento, 1967, p. 172). Nessa nova fase, o matutino se tornou um dos mais importantes do Nordeste, com ampla circulação não só em Pernambuco como na Paraíba, Alagoas e Rio Grande do Norte (Lopes, 1985, p. 86).
Isso mostra, ao menos inicialmente, uma relação conturbada entre o grupo Pessoa de Queiroz e o governo Vargas. Contudo, após reabrir, o JC conseguiu crescer, incisivamente a partir da segunda metade da década de 1940. Em 1945, criou a agência de notícias Radiopress e, no ano seguinte, o Diário da Noite. Segundo Lopes (1985), a agência foi criada para suprir a demanda por notícias para a região Nordeste, pouco contemplada pelos órgãos da capital federal. A Radiopress passou a fornecer noticiário também para outros periódicos das regiões Norte e Nordeste.
Segundo Barros (2009, p. 65), o chefe do grupo de comunicações teria estabelecido amizade com o presidente Dutra, o que resultou inclusive em concessões de emissoras de rádio. Sem precisar datas ou maiores detalhes, Alcides Lopes (1912-2004) transcreveu, em seu livro, um trecho por ele mesmo publicado no JC, no Caderno Especial dedicado a F. Pessoa de Queiroz. Nesse trecho, ele destaca que o slogan da rádio (“voz mais potente do Brasil”): “ficou consagrado e confirmado em âmbito nacional quando o Presidente Eurico Gaspar Dutra pretendeu mandar fazer um programa para o Exterior ou, mais precisamente, para a América do Norte, e teve de utilizar as ondas curtas da Rádio Jornal do Commercio, por serem as únicas do País capazes de atingir o objetivo desejado” (Lopes, 1985, p. 138).
A Rádio Jornal do Commercio surgira em 1948, seguida por mais quatro emissoras nos anos seguintes, para concorrer com a Rádio Clube. O presidente Dutra foi à inauguração, no Recife, sendo também convidados os governadores de Pernambuco, Alagoas, Paraíba e Rio Grande do Norte (Lopes, 1985, p. 94).8
Nesse período, entre 1947-49, a Nordeste publicou textos que abordavam justamente obras do governo federal, noticiando, por exemplo, inaugurações feitas pelo presidente. O terceiro número de 1949 trouxe inclusive uma foto da comitiva de Dutra em visita ao presidente Truman, conforme a legenda:
Entre os jornalistas brasileiros, da comitiva do Presidente Eurico Dutra, recebidos na Casa Branca pelo Presidente Truman, encontravam-se o nosso companheiro Esmaragdo Marroquim, diretor de NORDESTE e diretor-secretário da Empresa Jornal do Commercio S. A. e Aníbal Fernandes, diretor do “Diário de Pernambuco” (Nordeste, 1949, n. 3, p. 04).
Nessa conjuntura, conforme destaca Barros (2009, p. 54), o mercado das comunicações locais polarizava-se entre dois grupos, representados pelo Jornal do Commercio, dos Pessoa de Queiroz, e pelo Diário de Pernambuco, dos Diários Associados de Assis Chateaubriand. Ambos precisavam de boas relações com o governo, sobretudo pela isenção das taxas de importação de papel, o que contribuiu para o fortalecimento do grupo Jornal do Commercio e, consequentemente, para o primeiro momento de maior ímpeto editorial da Nordeste.
Em entrevista publicada no Diário de Pernambuco, em 1949 (edição 60, suplemento), Eduardo Campos identificou três grupos intelectuais no Recife na época: um em torno do Diário de Pernambuco e seu Suplemento Cultural; outro com o “pessoal” das revistas Nordeste e Região, junto ao suplemento do JC; e um terceiro vinculado à revista Resenha Literária. Aderbal Jurema, no número de 1949 que noticiava a comitiva de Dutra, respondeu a Campos negando a existência desses grupos (Jurema, 1949, p. 9; p. 18).
Matérias referentes ao governo (federal, estadual e municipal) ocuparam regularmente páginas de todos os números da Nordeste entre 1945-55, e podem ser caracterizadas, por ora, como textos interessados e/ou encomendados. Essa opção de nomenclatura, no limite indefinida, resulta da impossibilidade de afirmar categoricamente que esse material fosse publicidade disfarçada, ou seja, tenha sido encomendado. Esses textos abordavam tanto o setor privado (empresas, indústrias, pessoas etc.) quanto o público.
A família Pessoa de Queiroz estava envolvida em vários ramos da indústria e comércio, o que fez do grupo um dos principais anunciantes do próprio jornal. Conforme Barros (2009, p. 60-61):
Apesar dos anúncios […] o Jornal do Commercio sobrevivia de investimentos próprios dos seus proprietários ou recursos da família, pois o jornal enchia páginas e páginas com anúncios do automóvel Overland. O representante da fábrica no Recife era Antônio Pessoa de Queiroz, irmão de Pessoa de Queiroz.
Segundo a autora, F. Pessoa de Queiroz tentava, em seus discursos, se desvincular das origens usineiras da família, negando influências no JC por conta de interesses de grupos econômicos locais e nacionais.
A Nordeste não escapou dessa dinâmica: muitos dos textos interessados, alguns possivelmente encomendados (ou seja, anúncios disfarçados), vieram de empresas, grupos, associações etc., vinculados à família. A Cooperativa dos Usineiros de Pernambuco, presidida durante anos por José Pessoa de Queiroz, é um dos exemplos mais flagrantes. O primeiro material dessa natureza, na edição de lançamento, se intitulava “Os grandes problemas econômicos, políticos e sociais da hora que passa: Ideia e sugestões de um grande industrial pernambucano”. Ele é paradigmático de algumas práticas da revista: a publicação de um texto interessado, transcrito do JC, cujo autor era justamente José Pessoa de Queiroz.
A já indicada postura regionalista da Nordeste alinhava-se com a guinada do grupo de comunicação nessa conjuntura, resumida pelo slogan da Rádio Jornal do Commercio: “Pernambuco falando para o mundo”. Observa-se a defesa do regional como possibilidade de se lançar nos espaços mais amplos, em âmbito nacional ou internacional. Recife e Pernambuco eram, assim, projetados como janelas para o Brasil e o Mundo pelos veículos de imprensa da empresa Jornal do Commercio.
A Nordeste nasceu, portanto, nesse momento de expansão da empresa Jornal do Commercio, marcado pela disputa com o Diário de Pernambuco. Os Diários Associados tinham lugar garantido na imprensa nordestina através desse jornal, braço regional do maior conglomerado nacional de comunicações. Já o grupo Pessoa de Queiroz, em sua expansão dos anos 1940-60, buscava ir além do espaço recifense/pernambucano. Ou seja, a revista pode ser entendida como uma espécie de investimento em capital simbólico, pelo qual o grupo tentava demarcar espaço com alguns dos seus principais representantes intelectuais, sobretudo a equipe que materializava esse projeto. Ainda segundo Barros (2009, p. 61), é preciso destacar que a empresa Jornal do Commercio publicava folhetins e outros materiais literários, o que atraía colecionadores, como estratégia para criar laços sociais e culturais com a sociedade, o que teria sido, muitas vezes, mais importante que a própria sustentabilidade financeira do produto.
A expansão do grupo seguiu com força até a década de 1960, considerada seu auge, quando fundou uma emissora de telecomunicações, poucos dias depois da inauguração do canal da Rádio Clube (atrelada à TV Tupi e aos Diários Associados), o que manteve a rivalidade acesa. Conforme destaca Lopes (1985, p. 109), a nova emissora fortalecia e ampliava a repercussão da Empresa Jornal do Commercio na região Nordeste: “atingindo Maceió e João Pessoa e sendo captada em vastas regiões dos Estados do Ceará, Rio Grande do Norte, Alagoas, Paraíba e Bahia, sem nenhuma torre de transmissão”. Contudo, para Barros (2009, p. 73), a crise da empresa vincula-se às tentativas de expansão da TV, sobretudo para Salvador.9
Os textos interessados da Nordeste possuem algumas características alinhadas com as formas de atuação do grupo de comunicações. Muitas vezes afetando ar editorial ou de reportagem, o fato é que, ao longo da primeira fase da revista, foram recorrentes esses materiais que traziam ao público informações sobre setores industriais e comerciais, públicos e privados. Pode-se afirmar que eles evidenciavam claramente elos entre as elites econômicas, políticas e intelectuais da região. Para Barros (2009, p. 70), esse tipo de “clientelismo” contribuiu inclusive para a crise do grupo: “A empresa Jornal do Commercio expandia seus negócios sem uma economia planejada, tendo como ponto-chave do seu desenvolvimento a aliança, principalmente com os políticos”. Não por acaso, as gestões municipais, estaduais e federais foram agraciadas com diversos textos, sendo que o próprio Partido Social Democrático (PSD), do qual Aderbal Jurema era filiado desde 1946, foi responsável por algumas publicações.
Assim, a Nordeste participou desse momento de expansão e diversificação da empresa Jornal do Commercio, mesmo que de forma discreta, em comparação com o potencial alcance de emissoras de rádio e TV. Contudo, o valor simbólico de uma revista literária ou cultural não deve ser menosprezado, ainda mais para um grupo originalmente de alcance regional que buscava projeção nacional.
O grupo atuou também como editora, mas, infelizmente, há pouquíssima informação sobre isso. O primeiro livro que parece ter publicado é Democracia e Planificação, de Aderbal Jurema, em 1946. Embora tenha lançado mais algumas obras na década de 40, a maioria das publicações data, ao que tudo indica, da primeira metade dos anos 50. A editora não pode ser ignorada porque também está enquadrada nesse projeto de expansão do JC. Mais do que isso, ela pode ser vista como forma de amplificação de voz para a Nordeste e seus colaboradores e colaboradoras, uma outra maneira de conquistar repercussão e sucesso.
Não é possível afirmar categoricamente que a intenção era lançar a revista para consolidar de fato uma editora no Recife, mas é plausível, em vista da perspectiva de expansão nacional do grupo Pessoa de Queiroz. Contudo, analisando o que de fato foi publicado, parece que, nem de longe, a Editora Nordeste conseguiu projeção além do regional; pelo contrário, tudo indica que a revista teve mais repercussão e impacto. Segundo Teixeira (2016), havia, há décadas, demandas por uma editora de maior porte no Recife que pudesse sanar as expectativas de intelectuais com poucas possibilidades de projeção nacional. Esse é inclusive um tema recorrente na revista: as dificuldades vividas pelos intelectuais provincianos, como normalmente são ali identificados, em alcançar projeção.
Observa-se, portanto, um tripé econômico, político e cultural que foi responsável pela criação da Nordeste. Ela esteve atrelada inevitavelmente a grupos políticos regionais e nacionais, aos interesses econômicos não só da empresa de comunicações, mas das outras bases econômicas do grupo Pessoa de Queiroz, sobretudo as usinas de açúcar, que ocuparam tanto espaço em suas páginas. Se a empresa Jornal do Commercio buscou ampliar seu público criando jornais, rádios e canais televisivos, ela também tentou incrementar qualitativamente sua carta de produtos com um periódico cultural que exigia um leitorado com outra disposição. A já citada revista Presença, cuja sede também se localizava no prédio da empresa e era dirigida por colaboradores da Nordeste, indica que essa estratégia não era exclusividade do mensário de cultura liderado por Aderbal Jurema.
Esmaragdo Marroquim, diretor da revista, é um personagem intrigante, haja vista a desproporção entre sua importância na imprensa e meio intelectual recifense na época e a respectiva ausência de registros e testemunhos, tanto sobre sua biografia em geral quanto em relação à sua trajetória específica nesses espaços culturais. Há muitas informações fragmentadas, insuficientes para estabelecer uma trajetória biográfica mais detalhada.
Não foi encontrada biografia alguma sobre Marroquim. As muitas informações esparsas na Internet e alguns textos que o citam de passagem nos permitem estabelecer um perfil rápido. Nascido em Alagoas, em 4 de novembro de 1912, faleceu em 16 de dezembro de 1987. Há relatos de que ele foi responsável pelos editoriais do Jornal do Commercio nos anos 1950, bem como pelo Suplemento Cultural do Diário de Pernambuco, entre 1986-87. Em entrevista à Tribuna da Imprensa (RJ / Tribuna Bis) publicada no n. 28-29, de julho de 1990, Ariano Suassuna disse que seu primeiro poema publicado, em 1945, o foi por intermédio de Tadeu Rocha e Esmaragdo Marroquim.10 Pesquisas na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional apresentaram também algumas informações fragmentadas, mas nada como um necrológio, por exemplo, foi encontrado.
Há mais informações sobre sua trajetória no JC, graças principalmente ao trabalho impressionante de Luiz do Nascimento e sua longa obra sobre a História da Imprensa em Pernambuco, publicada em quatorze volumes.11 Marroquim entrou para o respectivo corpo redacional em 1938, como redator-secretário, passando a diretor-secretário por volta de 1940. As informações de Nascimento vão até 1954, quando encontramos Marroquim ainda no mesmo cargo. Segundo Lopes (1985, p. 84):
Em 1938, ao decidir aceitar o insistente convite que, havia seis meses, lhe vinha sendo feito, para ocupar um alto cargo no recém-criado IBGE, no Rio de Janeiro, Waldemar Lopes, autorizado pelo Dr. Pessoa de Queiroz, convidou para substituí-lo a Esmaragdo Marroquim, então redator do Diário da Manhã, e que, com a sua reconhecida capacidade profissional, manteve o jornal dentro da mesma linha de serenidade e isenção, além de imprimir-lhe um cunho de modernidade que modificou sensivelmente o antigo padrão gráfico e editorial. Vencendo as resistências do Dr. Pessoa, conseguiu até modificar a tradicional feição da primeira página e introduzir a fotografia no jornal. Até então, nele não se publicavam clichês, a menos que se tratasse de publicidade, isto é, “matéria paga”.
Portanto, durante a primeira fase da Nordeste, Esmaragdo Marroquim fez parte do tripé de sustentação da Empresa Jornal do Commercio, ao lado do diretor-geral e do diretor comercial de rádio e televisão (Barros, 2009, p. 73). As relações com colaboradoras e colaboradores da revista, se não foram originadas, seguramente foram aí fortalecidas, como, por exemplo, com Luiz Delgado, que era o editorialista do JC quando Marroquim virou secretário do corpo redacional, em 1940.
Já sobre Aderbal Jurema, há muito mais informações, especialmente sobre sua atividade política a partir de 1958.12 O redator-chefe da Nordeste atuou em diversas áreas além do jornalismo e da política, como a literatura, o magistério e a administração pública. De origem paraibana, nascido em 1912, na então cidade da Paraíba (depois João Pessoa), Jurema se formou na Faculdade de Direito do Recife em 1935. Atuou em seguida no magistério, até ingressar em 1944, no corpo docente da mesma Faculdade onde se formou.
Com pouco mais de 30 anos e se estabelecendo profissionalmente no campo intelectual recifense, Jurema apareceu como principal liderança do novo periódico, quando do seu lançamento, em 1945. Nos dois primeiros números, Esmaragdo Marroquim não constava na direção, cargo que inclusive não aparecia no expediente, só surgindo no terceiro número, já em 1946. Engajado assim no mundo cultural, não tardou um ano para que Jurema se filiasse ao PSD, fato com grandes repercussões em sua trajetória.
Na prática, são duas trajetórias com muitas semelhanças, mas com distâncias ao mesmo tempo. Marroquim foi figura central na redação do JC, onde permaneceu durante décadas, o que possibilitou sua atuação como diretor da revista, mas não se envolveu oficialmente na política. Em termos de projeto e liderança intelectual, sua atuação parece ter sido pequena. A falta de informações limita as conjecturas, mas tudo indica que foi uma espécie de eminência parda, presente em muitos lugares, mas de pouca projeção como intelectual. Já Jurema não aparece no grupo Jornal do Commercio antes da criação da Nordeste, sendo sua presença apontada por Luiz do Nascimento apenas por volta de 1948/49, como responsável pelo rodapé literário do suplemento semanal. Seu irmão, Abelardo Jurema, já participava do JC desde 1938 (Nascimento, 1967, p. 190). Segundo Maranhão (1990, p. 17), Jurema teria assinado os textos desse caderno entre 1949-54, o que reforça seu afastamento oficial da Nordeste em 1956.
Como redator-chefe e principal definidor das linhas editoriais da Nordeste, Aderbal Jurema é central para identificar e compreender a primeira fase da revista, entre 1945-1955. Já Esmaragdo Marroquim, embora tenha ocupado cargo importante no periódico até 1965, em relação ao que se pode denominar de ato editorial e projeto intelectual, tem importância bem menor. Isso não apenas em relação à primeira fase, mas também a partir de 1956, quando a condução de Ladjane Bandeira mudou radicalmente a identidade visual da Nordeste, processo materializado de fato nas edições da década de 1960.
Em relação à primeira fase, Jurema foi inquestionavelmente quem mais colaborou com a revista, não sendo encontrado texto algum de Marroquim. Além disso, uma carta de Gilberto Freyre de 1950, publicada na Nordeste, na qual solicitava que a revista não fizesse uma edição em homenagem ao seu cinquentenário, corrobora isso, visto que foi endereçada a Jurema.13
O surgimento desse periódico se insere em um momento de proliferação de impressos culturais, artísticos e literários em diversos centros urbanos no Brasil. Wilson Martins, na edição de setembro de 1947 da curitibana Joaquim, abordou o assunto no texto As novas gerações e as revoluções literárias, considerando que era, então, o momento de a metrópole se curvar às produções das províncias, dentre as quais a Nordeste:
Os documentos dessa difusa revolução chamam-se o “Suplemento” da “Folha do Norte”, em Belém; “José” e as Edições Clã, no Ceará; “Nordeste”, em Recife; “Agora”, em Goiaz; “Edifício” e suas edições, em Minas; “Magog”, “Fonte”, “A Época”, a futura “Orfeu” e os suplementos literários dos jornais no Distrito Federal; “Paralelos” em São Paulo, como também a inesquecível “Clima”, iniciadora dessa renovação e um nome que por isso não podemos esquecer; “Joaquim” no Paraná; “Uirapuru”, em Santa Catarina; a incomparável “Província de S. Pedro”, no Rio Grande do Sul; e quem sabe quantos outros existem no desconhecimento dêste crítico de província (Joaquim, n. 13, p. 6, 1947).
A Joaquim publicou durante sua existência - 1946-48 - diversas notas sobre a Nordeste, sobretudo destacando o lançamento de novos números. Dalton Trevisan, um dos diretores da revista curitibana, passou a constar no expediente da Nordeste como seu representante no Paraná a partir da edição de abril/julho de 1948.
O primeiro número da Nordeste de 1949 também destacou essa regionalização que se manifestava pela proliferação de periódicos. Sua página Bibliografia trouxe, entre as pequenas seções que a formavam, “Revistas Literárias do Brasil”. O texto não assinado destacava como o aumento do número destes periódicos sinalizava a vitalidade criadora de diversos centros de cultura: “Uma verdadeira descentralização da cultura, está sendo realizada, e hoje os escritores da província não precisam mais recorrer aos órgãos da metrópole, a fim de que se tornem conhecidos” (Nordeste, n. 1, p. 10, 1949). Eis aqui a já destacada ênfase na situação dos escritores da província, que, no caso dos periódicos, teriam supostamente superado um obstáculo.
Originalmente apresentado como “mensário de cultura”, o periódico manteve essa nomenclatura até o final de 1948; no ano seguinte, passou a se apresentar como “revista de cultura”, identidade que manteve até o último número encontrado, de 1958.14 Após um ano de hiato, voltou a circular em 1960, com novo formato e sem subtítulo. A Nordeste se manteve como publicação de fato mensal por pouco tempo, mais precisamente até seu quarto número, de fevereiro de 1946, visto que a edição seguinte só saiu em abril. A primeira grande lacuna ocorreu entre os números 7 e 8, tendo decorrido quase um ano entre seus lançamentos, em julho de 1946 e junho de 1947. A partir daí, sua regularidade tornou-se muito variável.
Conforme Martins (2001, p. 46), é difícil definir um periódico como revista, considerando a potencial confusão com um jornal, ainda mais quando se trata de impressos in folio: “O que os distingue com frequência é a existência da capa na revista, acabamento que não ocorre no jornal; mais do que isso, é a formulação de seu programa de revista, divulgando no artigo de fundo que esclarece o propósito e as características da publicação”.
O fato de a Nordeste não surgir com um editorial pode estar relacionado às tendências de 1945, como já apontado a partir de Alceu Amoroso Lima, mas possivelmente isso se soma ao fato de ela ter uma postura eclética, simbolizada pelo amplo entendimento da noção de “cultura” e pela publicização de posições políticas e ideológicas diversas. Isso coloca em questão sua tipologia como revista, visto que também não possuía capa propriamente dita como elemento pré-textual, mas sim uma página inicial como um jornal, na maioria dos casos, com imagens e textos.
Apenas em 1958, ainda no formato próximo ao jornal, com 32 cm de largura e 47 cm de altura, a Nordeste se apresentou com uma capa de abertura somente com ilustrações, sem texto. E apenas no início de 1960, em novo formato, com tamanho e papel radicalmente diferentes, ela reapareceu com uma apresentação que pode ser mais tradicionalmente classificada como revista.
A reflexão sobre sua tipologia não se resume à mera classificação, pois indica caminhos para compreender sua autoimagem e difusão, bem como sua apropriação pelo público. Ela foi um periódico especializado e de público restrito? Ou uma espécie de suplemento do JC, tendo assim alcance maior? Pela tipologia de Velloso (2006, p. 312-331), podemos considerar um meio termo, pois a Nordeste possuía tanto elementos do moderno na vida cotidiana (como a familiarização com novas coordenadas modernistas) quanto discutia o moderno no universo filosófico/conceitual, através de debates culturais gerais e específicos. A presença de outros temas, como esportes e página feminina nos primeiros números, sugere que a revista não foi estritamente literária ou artística. Sua alcunha de cultura encarna uma noção ampla e não especializada, muito inspirada em Freyre, nome central para entender suas linhas editoriais, embora não haja espaço aqui para esta análise.
A Nordeste circulou in folio até o final de 1958, trazendo, como um jornal, o material que mais devia chamar a atenção em sua primeira página, sendo que, somente em 1960, apareceu encadernada. Não há notícias de números em 1959, o que sugere, mas não garante, que tenha sido um hiato editorial. Mesmo sem os elementos elencados por Martins, ela ainda pode ser entendida como revista. Embora os expedientes iniciais a denominassem um “mensário de cultura”, o impresso recifense era entendido pelos produtores como uma revista, como foi oficializado em 1949, com a denominação de “revista de cultura”. Note-se que, quando a Nordeste comemorou dois anos, ela chamou a si mesma de revista na seção Tópicos, em número em que o expediente ainda a apresentava como mensário de cultura.
Outros periódicos já citados reforçam essa imagem, como o Correio da Manhã e as revistas Cruzeiro e Joaquim, visto que noticiaram o lançamento de novos números do que denominavam uma revista. Outras revistas culturais do Recife, contemporâneas da Nordeste, também se denominaram mensários, como Região e Resenha Literária. De outro período e outras dimensões, consagradas revistas modernistas paulistas da década de 1920 surgiram em formato semelhante ao jornal, sem capa como elemento pré-textual, como, por exemplo, Terra Roxa e Outras Terras (1926) e a Revista de Antropofagia (1928). Portanto, o uso do termo mensário nos primeiros anos da Nordeste parece estar muito mais relacionado à busca de periodicidade mensal do que exatamente à natureza do periódico, ainda que, no limite, essas duas coisas estejam relacionadas.
O formato, o papel e a ligação com o JC sugerem, em um primeiro momento, a hipótese de que ela tenha sido um suplemento cultural ou literário. Contudo, a existência de suplementos dominicais voltados à cultura, moda, cinema, artes etc. no jornal, bem como a venda avulsa da Nordeste, apresentada em seu expediente, indicam sua relativa separação. Relativa porque tanto sua equipe principal como diversos colaboradores eram presenças constantes, em maior ou menor medida, no diário matutino. Ainda assim, embora fosse um produto da empresa, havia uma separação pelo menos formal entre esse periódico cultural e os jornais do grupo. É possível que a Nordeste tenha sido, em algum momento, distribuída junto com o jornal ao leitorado; contudo, a revista como suporte material manteve uma separação, o que nos impede de vê-la como um suplemento. Destaque-se novamente que os primeiros números não traziam nenhuma referência direta à empresa, exceto o endereço que sediava a revista.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Este artigo buscou discutir o surgimento da revista Nordeste na conjuntura iniciada em 1945, após o fim da Segunda Guerra Mundial e do Estado Novo. Seu foco principal foi a primeira fase (1945-55), quando foi lançado e liderado intelectualmente por Aderbal Jurema. Durante essa fase, Jurema só esteve ausente da chefia da redação nos números 5 e 6, quando se afastou para exercer cargo público no Rio de Janeiro junto ao Ministério da Agricultura, e ainda assim, não deixou de colaborar com a revista. Sua permanência se destaca como característica central da primeira fase da revista, e justifica tomar sua saída, a partir de 1956, como critério de corte para os caminhos tomados pelo periódico nos anos seguintes. As feições que a Nordeste ganhou a partir de então evidenciam uma mudança em sua materialidade e identidade gráfica.
Ladjane Bandeira (1927-1999) efetuou uma guinada cada vez maior em direção às artes plásticas, elemento não tão central na primeira fase. Se as mudanças na identidade visual mostram isso de maneira gradativa desde 1956, o lançamento do Nordeste Artístico como espécie de suplemento da própria revista escancara a transformação no último número de 1958. Além das tradicionais vinte páginas, a Nordeste apresentou, então, de maneira inédita, um caderno com “direção e redação de ladjane”, apresentando, em suas oito páginas, notas e obras de cerca de trinta artistas da cena recifense. Quando a revista de cultura reaparece, em 1960, embora ainda traga o mesmo nome e a continuidade na sequência de anos, a impressão é de que se trata de outro material. Durante os seis anos que possivelmente foram os últimos, até 1965, esse formato e padrão foram mantidos.
Como destacado, Aderbal Jurema foi, sem dúvida, a liderança intelectual que guiou a Nordeste em sua primeira fase, o que se demonstra facilmente pelo grande volume de textos com sua autoria manifesta, ou mesmo pelas páginas sem rubrica, mas que estavam sob sua responsabilidade. Tudo indica que ele usou a revista como parte de uma estratégia de projeção intelectual, exemplificada, nessa conjuntura, por sua eleição, em 1948, como presidente da seção pernambucana da Associação Brasileira de Escritores. Sua atuação na revista inclusive mostra uma divisão entre dois momentos nessa primeira fase: os anos entre 1945-49, com uma intensidade muito maior de números publicados (em média mais de 4 edições por ano) e com muitos textos assinados por Jurema; e o período entre 1950-55 (média de pouco mais de 2 edições por ano), e com raros textos com o nome estampado do redator-chefe.15
De fato, o afastamento de Jurema da Nordeste se oficializou a partir de 1956, quando seu nome não só saiu do expediente da revista, como também desapareceu das suas páginas. Contudo, desde o início da década, já havia indícios desse processo, marcado, ao mesmo tempo, pela cada vez maior inserção do intelectual paraibano na política. Nota-se, assim, que, para Aderbal Jurema, a revista de cultura Nordeste contribuiu (ao que tudo indica, de forma muito eficiente,) na publicização da figura de intelectual e homem público que estava em vias de se tornar uma liderança política.
REFERÊNCIAS
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DECLARAÇÃO DE DISPONIBILIDADE DE DADOS:
Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.
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1
O trabalho resulta do Pós-Doutorado realizado entre 2023 e 2024 junto à UNESP, campus de Assis, sob a supervisão da Prof.ª Dra. Tania Regina de Luca, que teve como objeto principal a pesquisa da revista Nordeste. O presente artigo será parte do primeiro capítulo de um livro sobre o periódico recifense.
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2
Citação de Gilberto Freyre, em carta publicada pela Nordeste na segunda edição de 1950.
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3
Nota-se o enfraquecimento da censura já em 1943, com o Manifesto dos Mineiros, e sobretudo em 1945, com o Primeiro Congresso de Escritores Brasileiros e a entrevista de José Américo de Almeida criticando o regime Vargas (Delgado, 2008, p. 136).
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4
Segundo Nascimento (1997), Contraponto, Resenha Literária e Presença foram impressas pelo Jornal do Commercio. Presença tinha sua redação no mesmo local da Nordeste, e seu gerente Fernando de Barros Lima trabalhou nos dois periódicos.
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5
É fácil encontrar referências à Nordeste em diários e revistas como a Cruzeiro, de circulação nacional. Outro indício de sua repercussão é o número de seus representantes em outras cidades, apresentado em seu expediente.
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6
Disponível em https://www.gov.br/fundaj/pt-br/composicao/dimeca/biblioteca/acervos/publicacoes-digitalizadas/nordeste-pdf/a1_n1_1945.pdf. Acesso em: 9 jun. 2025. A imagem está disponível em pdf no site da Fundaj, instituição do Governo Federal, caracterizando domínio público. Os originais da revista usavam alguns tons de cores; no caso dessa primeira edição o título vinha em azul, mas a digitalização foi feita em preto e branco.
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7
A Revista do Norte surgiu no final do século XIX, e teve várias fases até a década de 1950. Disponível em: https://antigo.fundaj.gov.br/index.php/publicacoes-digitalizadas/10034-revista-do-norte. Acesso em: 9 jun. 2025.
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8
Os Diários Associados, proprietários do outro grande jornal recifense, o Diário de Pernambuco, tentavam desde 1944 adquirir a Rádio Clube; contudo, somente em 1952 o conglomerado de Chateaubriand assumiu a emissora.
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9
Segundo Barros, a tentativa de estabelecer uma rede nacional de telecomunicações, com filiais no Rio de Janeiro e em Salvador, acabou fracassando. Após recusar a incorporação pela Globo, o canal de TV acabou se filiando à Bandeirantes, e por fim ao SBT.
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10
Disponível em: https://memoria.bn.gov.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=154083_05&pesq=%22esmaragdo%20marroquim%22&pasta=ano%20199&hf=memoria.bn.gov.br&pagfis=3182. Acesso em: 9 jun. 2025.
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11
A obra de Nascimento está disponível em: https://www.gov.br/fundaj/pt-br/composicao/dimeca-1/biblioteca/acervos/publicacoes-digitalizadas/historia-da-imprensa-de-pernambuco-3. Acesso em: 9 jun. 2025.
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A maioria das informações sobre Jurema foram retiradas de Maranhão, 1990; e do Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro, disponível em: https://www18.fgv.br/CPDOC/acervo/dicionarios/verbete-biografico/aderbal-de-araujo-jurema. Acesso em: 20 jan. 2025.
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A Fundação Gilberto Freyre guarda a respectiva correspondência com Aderbal Jurema. As cartas indicam que era o redator-chefe quem negociava as direções editoriais da revista, nesse caso de forma subserviente a Freyre, que definiu a não publicação da homenagem.
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A noção de “cultura” adotada pela revista era bem ampla e eclética, tendo inclusive abarcado questões sobre futebol em seus primeiros números, tema que depois desapareceu das páginas da Nordeste. Em linhas gerais, pode-se afirmar que a revista deu muito espaço para gêneros canonizados como a literatura, mas também para questões que poderiam ser chamadas de cultura regional, como textos sobre modos de pesca e caça no sertão. Pela posição de Gilberto Freyre, percebe-se uma relação direta entre o sociólogo e a noção de cultura adotada pelo periódico.
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Destaque-se que a revista apareceu apenas em novembro de 1945 e publicou mais um número nesse ano, o que reforça ainda mais o contraste entre os dois momentos. Além disso, a revista voltou a publicar 5 edições ao longo de 1955, o que não ocorria desde 1949, sendo que os anos de 1950-54 tiveram uma ou duas edições anuais, o que sugere que uma mudança já se operava nos bastidores.
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Editor responsável :
Ely Bergo de Carvalho
Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.



Fonte: Acervo Digital da Fundação Joaquim Nabuco (FUNDAJ).
Fonte: Acervo Digital da Fundação Joaquim Nabuco – FUNDAJ.