Open-access Trem para o Juqueri, reminiscências de um jovem estudante de medicina sobre a internação de mulheres em um hospital psiquiátrico na década de 1940 O caso da mulata Judith e da paciente famosa

Train to Juqueri, reminiscences of a young medical student about the internment of women in a psychiatric hospital in the 1940s The case of the mulatto Judith and the famous patient

RESUMO

Este artigo pretende se debruçar sobre as lembranças do psiquiatra Haim Grünspun das viagens que realizava no trem que o levava para o Juqueri nos anos 1940, quando ainda era um jovem estudante de medicina estagiando na instituição, relatadas em um livro chamado Trem para o Hospício publicado em 1980. Neste livro Grünspun relembra suas conversas com pacientes, familiares de pacientes, funcionários, médicos e populares em geral, bem como suas impressões sobre tais personagens e sobre a instituição. Nosso objetivo aqui se propõe a analisar precisamente dois capítulos intitulados “A Mulata Judith” e a “A Cura da Histeria”, em que psiquiatra rememora situações envolvendo a internação de pacientes mulheres, o que nos permite refletir sobre certas questões envolvendo hierarquias médico-sociais, poder manicomial, diagnósticos, tratamentos psiquiátricos e relações de gênero, do modo como o psiquiatra as relatou nos anos de escrita do livro. Com efeito, importa observar que tudo que nosso memorialista apresenta são lembranças suas, passados mais de trinta anos desses eventos. Nesse sentido, embora se proponha a ser um registro referencial, carrega em si um quinhão nada desprezível de invenção ou recriação, constituindo-se de narrativas tais como sua memória presente foi capaz de reconstituir de acontecimentos pretéritos.

PALAVRAS-CHAVE:
história da psiquiatria; memória; gênero

ABSTRACT

This article focuses on the recollections of psychiatrist Haim Grünspun regarding the train journeys he took to the Juqueri asylum in the 1940s, when he was still a young medical student interning at the institution. These memories are recounted in a book titled Trem para o Hospício (“Train to the Asylum”), published in 1980. In the book, Grünspun recalls conversations with patients, their relatives, staff members, doctors, and laypeople, as well as his impressions of these individuals and the institution itself. Our aim here is to analyze specifically two chapters entitled “A Mulata Judith” and “The Cure of Hysteria,” in which the psychiatrist remembers situations involving the internment of female patients. These accounts allow us to reflect on certain issues involving medical and social hierarchies, asylum power, psychiatric diagnoses and treatments, and gender relations, as reported by the psychiatrist during the period in which he wrote the book. Indeed, it is important to note that everything our memoirist presents consists of his memories of events that had occurred more than thirty years earlier. In this sense, although the book aims to be a referential record, it also carries a significant degree of invention or re-creation, comprising narratives reconstructed by the author’s.

KEYWORDS:
history of psychiatry; memory; gender

Rememorando suas viagens no trem que o levava para o Juqueri1 ao tempo em que, na década de 1940, estagiou na instituição como estudante de medicina da Universidade de São Paulo, o psiquiatra Haim Grünspun menciona o cheiro que uma paciente, que retornava ao hospital psiquiátrico para “ver se realmente poderia ter alta” (Grünspun, 1980, p. 73), dizia carregar da instituição2, sendo por este motivo que uma das suas filhas teria recusado inicialmente seu colo, ou seja, por “não reconhecer seu verdadeiro cheiro” (p. 79)3, fato que a preocupava diante do papel de boa mãe que parece ter compreendido que se esperava dela, com possíveis consequências na avaliação de que estaria curada do quadro psiquiátrico que determinou sua internação. Trata-se do caso da paciente identificada como “A mulata Judith”, que o psiquiatra relatou num dos capítulos do seu livro de memórias, Trem para o Hospício, publicado em 1980.

Nesse livro, o psiquiatra Haim Grünspun relata tanto sua vivência ao longo das viagens que realizava na primeira e na segunda classe do trem, quanto sua atuação como estagiário de medicina no Juqueri nos anos de 1940 em diante, mais precisamente a partir de 1947 (Grünspun, 1980, p. 11)4, o que lhe permitiu presenciar situações e estabelecer conversas com pacientes, familiares de pacientes, funcionários, médicos, psiquiatras e populares em geral. Como ele aponta, era por trem que se chegava à instituição, com exceção dos “loucos das cadeias do interior”, os quais vinham em “camburões e caminhões fechados” pelas “estradas esburacadas e atolando na lama dos caminhos tortuosos” (p. 12).

O livro é composto de 16 capítulos, divididos em duas partes, identificados como Segunda classe (11 capítulos) e Primeira classe (5 capítulos), nas quais são descritos e rememorados “diálogos [...] condensados de muitas viagens” e “momentos [...] tal e qual ficaram na lembrança, na memória, no inconsciente, ou em outro local da mente que venha a ser descoberto” (p. 13). Em texto recente (Reis, 2023), me debrucei sobre o referido livro, buscando apresentar alguns aspectos gerais do que ali é relatado. Com efeito, nesse trabalho, analisei diversos capítulos do Trem para o Hospício, de modo a apresentar uma visão de conjunto da proposta memorialística do psiquiatra. Para tanto, tratei de momentos em que Grünspun relata situações de internação e alta de pacientes, outros nas quais são retratadas conversas envolvendo personagens de origem modesta que ele teria encontrado no trem, capítulos também em que o psiquiatra busca reconstituir diálogos que teria presenciado e estabelecido com pacientes e seus familiares, bem como momentos em que ele descreve, em detalhes e manifestando grande admiração, circunstâncias do seu aprendizado com profissionais médicos e psiquiatras atuantes na instituição no período em que por lá estagiou, tudo isso envolvendo situações de encontros tanto no trem como no ambiente do Juqueri. Enfim, um panorama bem amplo do que se apresenta no livro.

De modo diferente, pretendo, nesse artigo, me concentrar especificamente em dois capítulos, intitulados “A Mulata Judith”, caso mencionado acima, e “A Cura da Histeria”, em que o psiquiatra relembra acontecimentos e situações de internação e alta de pacientes mulheres. Embora, no artigo anterior mencionado acima, também tenha me valido da análise esses dois capítulos, minha proposta - tendo em vista a perspectiva de capturar o ambiente manicomial e as conversas e situações vividas no trem e rememoradas no livro como um todo não pretendeu aprofundar o tema sobre a ótica das relações de gênero, apenas pincelando aqui ou ali alguns elementos dessa problemática. Meu objetivo aqui, de modo distinto, intenta refletir e dialogar prioritariamente com certas questões envolvendo relações de gênero, buscando, para tanto, mapear as hierarquias médico-sociais, o ambiente manicomial, os diagnósticos e tratamentos psiquiátricos ali vigentes, evidentemente do modo como eles são apresentados nos relatos do psiquiatra, mormente nos dois capítulos indicados. Dito isto, algumas questões de teor metodológico precisam aqui ser evidenciadas e esclarecidas.

Embora as lembranças do psiquiatra intentem testemunhar, como registro referencial que se propõem a ser, sobre eventos ocorridos em dado tempo e lugar – especificamente o Juqueri e as viagens de trem que o levavam para o hospício nos anos 1940 – estas se constituem de narrativas que sua memória presente foi capaz de reconstituir de acontecimentos pretéritos, tendo em vista o fato de serem lembranças passadas mais de trinta anos de tais eventos, o que nos leva a considerar o inevitável embaralhamento temporal entre o momento da escrita do livro e o momento da recordação pretérita do psiquiatra. Como ele afirma, foram “diálogos ocorridos durante muito tempo [...] não contados para os outros e por isso escritos agora, passados trinta e três anos de sua realização concreta” (p. 103). E, mais adiante, sugere que “não conseg[uiria] reproduzir esses diálogos porque não foram momentos importantes” (p. 106) e “porque foram inúmeros”, e que tais momentos “somente” seriam “válidos em tragédias” e nas “viagens de trem não houve aparentemente nenhuma tragédia” (p. 13). Curiosamente e de modo contraditório, ele também afirma - quando se refere a episódios de ensinamentos que teria recebido dos seus “novos mestres” do Juqueri, os quais na “pujança da [sua] juventude” considerava “geniais” (p. 104) - que “não tom[ou] notas e não grav[ou] [tais momentos] porque nem se imaginava que iria existir gravador” mas que se lembrava “com nitidez de todos os diálogos ocorridos durante muito tempo” (p. 103, grifo meu). Ou seja, diálogos que ele diz que não conseguia reproduzir “porque foram inúmeros” e “não foram momentos importantes”, mas que pouco depois afirma, de modo inverso, se lembrar “com nitidez”, o que, ao meu ver, apenas revela como aquilo que intentamos rememorar de tempos pretéritos comporta sentidos, compreensões e sistematizações de vivências e lembranças, por vezes distintas, quiçá contraditórias.

Nesse sentido, atento a esse conjunto de observações e problematizações e inspirado na perspectiva analítica de Michael Pollak (1992), o qual propõe que, por ser seletiva, socialmente construída e por ter de lidar com acontecimentos, pessoas e lugares muito distantes no tempo, a memória necessariamente se organiza muito influenciada pelas preocupações pessoais e políticas do momento presente, entendemos que as reminiscências do psiquiatra, relatadas no livro Trem para o Hospício, envolvem inevitavelmente um tanto de invenção ou imaginação, podendo ser compreendidas como “ficções baseadas em fatos reais” (Freire, 2025), além de subjetivas e atravessadas por um olhar e um memorialismo em boa medida comprometidos com o tempo próprio à sua escrita. Essa constatação nos leva a indagar acerca dos fundamentos e cuidados metodológicos necessários pra que se possa considerar tais rememorações narrativas, em boa medida, verossímeis sobre o Juqueri nos anos 1940/1950. Entendo, nesse caso, que uma importante estratégia analítica exige cotejar os relatos do psiquiatra com trabalhos de estudiosos que se debruçaram sobre as instituições manicomiais do período, de modo a observar se o que é rememorado expressa um olhar e uma experiência em alguma medida plausível sobre o que se passava no mundo dos hospícios, especificamente sobre o Juqueri. Se, no seu relato, por exemplo, a instituição estiver sendo descrita como um lugar vibrante, benfazejo e admirado por todos que por ali transitaram - pacientes, familiares, profissionais - algo de suspeito e inquietante emergiria, tendo em vista o contraste dessa visão idílica e enaltecedora com o conjunto de trabalhos historiográficos sobre as instituições de confinamento no período em questão.

De qualquer forma, o que é importante ser dito aqui é que nos interessa menos saber se o que está sendo relatado e rememorado pelo psiquiatra no livro Trem para o Hospício é fruto da sua imaginação, suas impressões e invenções sobre episódios passados tantos anos de eles terem acontecido, ou se tais diálogos e reminiscências expressam realidades de fato ocorridas, registros fidedignos, ou próximos disso, de eventos sucedidos no trem ou no Juqueri. Com efeito, do meu ponto de vista, o que efetivamente importa considerar são as condições de plausibilidade dos seus relatos no que tange a dura realidade do ambiente manicomial e das vidas vividas no Juqueri nos anos 1940-1950, ou seja, como o psiquiatra “representa para si mesmo [no livro Trem para o Hospício] as relações entre aquilo que diz e o real”, o que “testemunha sem ter a intenção de fazê-lo” (Chalhoub; Pereira, 1998, p. 8).

E, nesse sentido, acompanho aqui, em termos de inspiração metodológica, as proposições e provocações de Chalhoub e Pereira (1998) na análise que fazem de obras literárias de caráter ficcional, tendo em vista a intenção dos autores de “dessacraliza-la[s]” “historiciza[-las]” e compreendê-las como “testemunho histórico”, de modo a capturarem suas “redes de interlocução social” (Chalhoub; Pereira, 1998, p. 7) - o que, no meu entender, se aplica muito bem a um texto de teor memorialístico como Trem para o Hospício. Com efeito, de acordo com Chalhoub e Pereira, cabe ao historiador, na análise de tais obras,

o mesmo interrogatório sobre as intenções do sujeito, sobre como este representa para si mesmo a relações entre aquilo que diz e o real, cabe desvendar aquilo que o sujeito testemunha sem ter a intenção de fazê-lo, investigar as interpretações ou leituras suscitadas pela intervenção (isto é a obra) do autor; enfim, é preciso buscar a lógica social do texto. O bê-á-bá do ofício do historiador social é o mesmo, na análise da fonte literária, parlamentar, jornalística, jurídica, iconográfica, médica, ou seja lá o que mais (Chalhoub; Pereira, 1998, p. 8).

Ao que eu acrescentaria, nesse “seja lá o que mais”, também as fontes de caráter memorialístico, como as que compõem a matéria-prima do livro Trem para o Hospício, que aqui nos propomos a analisar.

Sendo assim, atentos a este conjunto de precauções e orientações metodológicas, entendemos que as memórias de Grünspun relatadas no livro Trem para o Hospício, vistas na condição de “testemunho histórico”, nos permitem falar sim do Juqueri nos anos 1940, embora o façam incontornavelmente pela voz do psiquiatra e seu modo de ver e compreender tudo que ali se passava - a loucura, o suposto louco/louca, a internação, os cuidados e tratamentos médicos, os diagnósticos psiquiátricos, a condição feminina, as hierarquias internas, as lógicas de poder vigentes, a instituição asilar com suas agruras e violências - tal como ele as sentiu, vivenciou e anos depois imaginou em seu processo de rememoração, o que, ao meu ver, só enriquece as possibilidades de leitura e análise.

Notadamente no caso dos dois capítulos que aqui pretendemos analisar, saltam aos olhos certas revelações e problematizações instigantes sobre as maneiras como internas do sexo feminino eram tratadas e consideradas em termos morais, sociais e médicos, podendo ser observado isso através dos ditos mais explícitos do memorialista, mas, por vezes, à sua revelia, nas entrelinhas e nas formas mais invisibilizadas das suas recordações, ou seja, naquilo “que o sujeito testemunha sem ter a intenção de fazê-lo”, como dito por Chalhoub e Pereira (1998, p. 8). Creio mesmo que uma das contribuições mais importantes do artigo se encontra justamente no fato de se valer de tais memórias como forma de acessar o ambiente manicomial e certas relações de gênero e de poder ali estabelecidas, notadamente, no caso deste artigo, envolvendo as formas e modos de lidar com pacientes femininos, o que, do meu ponto de vista, agrega certa contribuição original ao tema, bem como, em alguma medida, me diferencia dos valiosos estudos já realizados sobre o Juqueri, como os de Tarelow (2012, 2019), Toledo (2015, 2019, 2023), Pereira (2002) e Masiero (2003), estudos esses que, ao longo deste artigo, serão utilizados e com os quais buscaremos, sempre que necessário, dialogar.

Assim, com base nessa perspectiva metodológica, nossa proposta é dialogar com as reminiscências do psiquiatra relatadas nos dois capítulos acima citados, notadamente em torno de certas questões envolvendo relações de gênero, internação feminina e poder médico, passíveis de vislumbrar nas entrelinhas ou mesmo de forma mais explícita nos referidos capítulos, mas também observar algumas condições gerais envolvendo tratamento e dinâmica institucional do modo como estavam estabelecidas num grande hospital psiquiátrico, como era o Juqueri nos anos 1940.

Por fim, faz-se necessária uma breve reflexão sobre a noção de gênero do modo como será aqui compreendida, tendo em vista certa pluralidade de significados atribuídos ao conceito. Nesse caso, sem maiores problematizações teóricas, nossa perspectiva basicamente acompanha a proposta que observa as diferenças entre sexos, entre homens e mulheres - vale dizer, as noções de masculino e feminino - como relacionais e histórica e socialmente instituídas, o que as desnaturaliza e as considera como processos relacionados a interações “construída[s] e remodelada[s] incessantemente nas diferentes sociedades e períodos históricos” (Gonçalves, 2006, p. 72-78). Assim, tendo por inspiração tal perspectiva, que reconhece como premissas teóricas centrais a desnaturalização e remodelação das noções de masculino e feminino em “diferentes sociedades e períodos históricos”, que pretendemos, com base nos dois capítulos já referidos, analisar e problematizar as reminiscências do psiquiatra sobre a internação e tratamento de mulheres nos anos 1940, evidentemente a partir do modo como ele as descreveu e rememorou nos anos de escrita do livro.

TREM PARA O JUQUERI, HOSPITAL DE LOUCOS

Inicio, então, com uma rápida identificação biográfica do psiquiatra Haim Grünspun: nascido na Romênia, em 1927, emigra para São Paulo na década de 1930, com apenas 5 anos de idade. Em 1952, forma-se em medicina pela USP, especializando-se em psiquiatria infantil. Foi professor da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo e diretor e fundador da clínica psicológica do Instituto Sedes Sapientiae, voltada ao atendimento de crianças, onde atuou por mais de 30 anos. Autor de diversos livros e artigos na área de psiquiatria e psicologia infantil, publicou, além do livro de memórias Trem para o Hospício aqui abordado, o volume de reminiscências e crônicas intitulado Anatomia de um Bairro: o Bexiga e Meu pai me matou, baseado num caso que testemunhou como psiquiatra na década 1950. Faleceu em 2006.

Em relação ao hospital psiquiátrico de Juqueri, sua criação ocorreu em 1898, por iniciativa do psiquiatra Franco da Rocha, com o nome de Asylo de Alienados do Juquery e, de acordo com Cunha, desde sua fundação, pretendeu se apresentar como a “mais moderna instituição de ‘tratamento’ da loucura do país”, com “capacidade prevista inicialmente [...] de 1.000 internos” mas “cuja lotação esgotava-se rapidamente” (1980, p. 44). Assim, desde seu início, o Juqueri apresenta problemas de superlotação, problemas que, ao longo do tempo, só se agravam, chegando a ter, na década de 1960 e no começo da década de 1970, 16 mil pacientes, o que evidencia um cenário de crescente deterioração da instituição (Tarelow, 2013; Marques Filho, 2004). Em 20055, começa efetivamente a ser desativado, encerrando de fato suas atividades em abril de 2021, quando seus nove últimos pacientes/moradores deixam a instituição.

Com o objetivo de apresentar inicialmente algumas questões gerais relatadas por Grünspun no livro Trem para o Hospício, de modo a situar o olhar memorialístico mais amplo do psiquiatra em torno do Juqueri6 e das viagens no trem que o levava para a instituição, começo por salientar o comentário de que os médicos se reuniam num único vagão, evidentemente na primeira classe, todo ele ocupado pelos doutores, o que gerava um sentimento de marginalização nos outros viajantes que adentravam tal vagão, um clima “repelente de intrusos” por força de uma “corrente magnética repulsora que emanava do grupo” (p. 97), nas palavras dele, bastante reveladoras de um certo padrão de autoridade e de poder dos médicos que se manifestava desde o trem que se dirigia para o hospício, a ponto de incomodar e repelir todos aqueles que não eram médicos. Nesse caso, nenhuma surpresa se consideramos que o psiquiatra comenta que, no hospital das clínicas da USP, onde estudava, os estagiários eram tratados ou identificados como escravos dos seus professores: “Quando um colega perguntava ao outro, escravo de quem você é? Dava um título de respeito e até de inveja por saber que fulano te aceitou como ‘escravo’” (p. 99), o que é sintomático da forte noção de poder, hierarquia e autoridade que os médicos manifestavam e que evidentemente repercutia no dia-a-dia da sua atuação profissional, com importante potencial de transmissão entre gerações e certamente com efeitos no público mais amplo, vale dizer, na população em geral, o que, de certo modo, explica o “sentimento de marginalização” e o “clima repelente de intrusos” observados por Grünspun.

Outro comentário que chama a atenção é a distinção estabelecida por Grüspun entre suas viagens na primeira classe do trem onde convivia com médicos e psiquiatras e aquelas na segunda classe, quando o contato se estabelecia com familiares de pacientes em visita a seus parentes e mesmo com pacientes retornando para alguma consulta ou deixando o hospício, além de professoras, funcionários do Juqueri e trabalhadores em geral. Na primeira classe, na qual o jovem estudante de medicina afirma ter tido contato com os “mestres do Juqueri, sem dúvida o grupo brasileiro de maior conhecimento psiquiátrico” (p. 99-100), palavras dele, e outros especialistas médicos de “elevado conhecimento”, descritos frequentemente como sábios, gênios, sua admiração é inconteste. Com efeito, teria sido por intermédio da convivência com tais profissionais que ele pôde receber os “cursos mais extraordinários sobre desenvolvimento humano, sobre psicologia normal e patológica, sobre arte, psiquiatria de adultos e crianças, sobre tratamento” (p. 103), o que o levava a “queimar pestanas durante a noite debruçado sobre livros”, de modo a conseguir manter “a continuidade das interlocuções” (p. 103). Como Haim relata, “nas viagens para o Juqueri, eu não podia dizer besteira e muito menos perguntar tolices” (p. 99). O entusiasmo que o psiquiatra manifesta com tal convivência evidentemente se estendia ao próprio ambiente científico do Juqueri, onde vicejava, nos termos dele, “uma gladiatura de alto nível de pensamentos, conjecturas e convicções fundamentadas em profundos conhecimentos de especialista” (p. 150).

No caso da segunda classe do trem, Grünspun relata conviver com pacientes e familiares de pacientes e com pessoas de origem modesta que por vezes descreve com respeito e empatia, outras com ironia e desconfiança. Apesar disso, as descrições que apresenta de pacientes retornando ou deixando o Juqueri acompanhados de algum familiar, bem como sobre suas trajetórias na instituição, são muito reveladoras, porquanto minuciosas e cuidadosas, o que não deixa de expressar certa sensibilidade do memorialista com a vida frequentemente penosa de muitos dos que pelo Juqueri transitaram como internos, bem como das inquietações e sofrimento dos seus familiares, e talvez por isso os tenha retratado, o que resulta em um instigante registro da instituição nos idos da década de 1940, com a descrição viva e comovente de tais personagens, evidentemente atravessada pelo memorialismo nunca desinteressado do psiquiatra a que ele se dedica no final dos anos 19707.

Quanto ao que se passava no Juqueri, seja em termos do tratamento e terapêutica da loucura ou sobre o conhecimento psiquiátrico que ali circulava, bem como a respeito da instituição como dispositivo voltado ao confinamento dos acometidos por sofrimento psíquico, o que me foi possível inferir das indagações e rememorações do então jovem estudante de medicina, sinteticamente, foi:

  1. primeiro, o forte incômodo com o quadro de superlotação do hospital, devendo-se isso, de acordo com Haim, à “demagogia democrática” do governador Ademar de Barros, que teria ordenado “que nenhum louco fosse mantido nas cadeias públicas como até então era praxe na ditadura”, resultando na chegada de “levas de doentes mentais maltrapilhos carreados para os pavilhões” do hospício, “onde uma população de quinze mil dementes locupletava um hospital que estaria repleto com um terço destes pacientes” (p. 11). Medida que o psiquiatra considera um dos principais motivos para o quadro caótico da instituição8, sobretudo se considerarmos as descrições tão encantadas do psiquiatra no que se refere aos médicos e profissionais com quem ele teria convivido por lá - “grupo brasileiro de maior conhecimento psiquiátrico”, como já acima - assim como ao ambiente de alto nível científico que ele dizia existir no Juqueri.

  2. segundo, o silêncio do psiquiatra no que se refere à denúncia ou crítica mais aguda, pelo menos de uma forma mais explícita, aos tratamentos observados no hospício nos anos 1940/1950, nos quais certas práticas terapêuticas bastante violentas estavam absolutamente estabelecidas no Juqueri, de acordo com vários estudiosos, tais como: choque cardiazólico (convulsoterapia pelo Cardiazol); eletroconvulsoterapia (vulgo eletrochoque); insulinoterapia e psicocirurgia9 - leia-se lobotomia e/ou leucotomia pré-frontal10 (Masiero, 2003; Pereira, 2002; Tarelow, 2012, 2019; Toledo, 2015, 2019, 2023). Se o eletrochoque e a psicocirurgia eram considerados, à época, como parte dos “modernos recursos de tratamento de cunho biologizante” então em voga na terapêutica psiquiátrica” (Venâncio, 2011, p. 48), no final dos anos 1970 e em 1980, quando Haim escreve e publica Trem para o Hospício, tais tratamentos já eram identificados e bastante denunciados como violentos, porém não observamos nenhum olhar mais duro e crítico do psiquiatra a tais práticas.

No caso da lobotomia e leucotomia pré-frontal, tidas nesse período como “procedimento[s] cirúrgico[s] de ponta em muitos países”, “nova[s] esperança[s] na especialidade psiquiátrica” (Toledo, 2019, p. 19; p. 49), tais intervenções estranhamente não são mencionadas em nenhum momento no livro, embora fossem bastante empregadas na instituição no período em que Grünspun por lá esteve, de acordo com os estudiosos já citados. Entretanto, no caso do eletrochoque, são inúmeras as referências a tal intervenção, frequentemente sem expressar qualquer constrangimento, tendo em vista que de fato essa prática passou a ser usada em “larga escala” no Juqueri a partir de 1942, de acordo com Tarelow, “substituindo gradativamente o método baseado no uso do Cardiazol” (2019, p. 14). Segundo esse autor,

por ser aplicado facilmente com um pequeno aparelho [...] o eletrochoque passou a ser a principal ferramenta terapêutica utilizada no Juquery a partir da década de 1940. A sua praticidade, aliada ao baixo custo e ao pessoal reduzido que esta técnica demandava fez da ECT (mesmo com o advento dos medicamentos neurolépticos ) o maior símbolo da psiquiatria asilar até, pelo menos, a década de 1980 (Tarelow, 2019, p. 15) 11.

Se aqui e ali nos relatos de Grünspun se observam referências a maus-tratos, sobretudo por parte de enfermeiros, bem como internações em “quarto-fortes iguais à prisão”, nada mais crítico do hospício como dispositivo institucional pode ser identificado. Com efeito, ao lado da sempre mencionada superlotação, a própria condição degradante da loucura, doença, como ele diz, de “entes subhumanos” (sic) que “não exibe a dor do exterior, mas que faz sofrer de mágoas, aflições e tristezas maiores do que a dor física e mais difíceis de suportar” (p. 92) e o perfil da população que ali se encontrava, composta de toda sorte de doentes mentais e de indivíduos “desnutridos fisicamente e esvaziados mentalmente” (p. 12), como “alcoólatras, histéricos, agitados, furiosos, alucinados, delirantes até simples maltrapilhos, mendigos que não tinham outro diagnóstico senão fome” (p. 66), são apresentados como principais motivos pelas condições degradantes do Juqueri, “miséria das misérias” (p. 11), como ele o descreve em dado momento nas suas memórias.

A MULATA JUDITH E A PACIENTE FAMOSA: SOBRE MULHERES, LOUCURA E GÊNERO NUM GRANDE HOSPITAL PSIQUIÁTRICO COMO O JUQUERI NOS ANOS 1940

Um dos capítulos mais instigantes do livro é o que Haim Grünspun intitulou como “A mulata Judith”, mencionado na introdução deste artigo e que ele relata ter encontrado no trem no instante em que a ex-interna retornava ao Juqueri para avaliação e possível alta, curiosamente a única paciente nomeada em todo o livro12. Título que faz uso da expressão mulata, passível de problematizações e críticas nos dias atuais, embora não na época de escrita do livro, mas, de qualquer modo, reveladora de um horizonte analítico de forte viés racializado. Com efeito, a descrição física de Judith é expressiva de um olhar atravessado por certa objetificação sexual e/ou estereotipação sexual típica de um padrão masculino dominante e inequivocamente racialista, porquanto dirigido a supostas características corporais da mulher negra: “Mulata linda, com o corpo escultural no seu vestido de seda – somente os seios fornidos após o parto ainda recente - cabelo brilhante, estirado com um coque atrás...” É verdade, para não ser injusto com o psiquiatra, que essa descrição é apresentada para se contrapor ao modo como Judith havia chegado à sua internação ao Juqueri: “[...] paciente desgrenhada, amarfanhada e confusa que a faria anônima entre muitas brancas, negras e mulatas mambicas,” (p. 73).

Conforme o relato de Haim Grünspun, sua internação foi diagnosticada como uma “psicose pós-parto, num quadro confusional muito grave e que melhorou após um tempo de tratamento” (p. 74). Por indicação do médico que a atendeu, a paciente deveria passar uma semana em casa, convivendo “com a família, com a filha de três anos e com o filho recém-nascido, que nem chegara a conhecer devido à doença que a acometera” para ver “se realmente poderia ter alta” (p. 73). Segundo o psiquiatra, por saber que ele era “ajudante do doutor” que cuidava do seu caso “e que tomava notas mas também era doutor” (p. 74) que Judith, nesse momento no trem, teria puxado “o marido para sentar junto” do jovem estudante de medicina: “Ela falava, dialogava um pouco forçada com o marido, na minha frente para eu ser testemunha e ajudá-la com meu chefe, para lhe dar alta e não fazê-la voltar para o pavilhão” (p. 74). Tal comentário, desde já, nos instiga a uma primeira observação: a estratégia nada ingênua de Judith de se sentar próxima de Grüspun, então estagiário de psiquiatria, mas que ela reconhece como ajudante do médico que a tratou e que também responderia por sua alta, de modo a envolvê-lo no reconhecimento da sua cura, o qual aponta para certo modo de agenciamento da situação de vulnerabilidade e fragilidade em que se encontrava, tendo em vista sua dupla condição de mulher negra e paciente frente ao poder médico e masculino que imperava na instituição.

Em relação aos diálogos, dois quais Haim afirma ter sido ouvinte, e até certo ponto, cúmplice involuntário, muitas são as impressões reveladoras das preocupações e receios de Judith em retornar ao hospício diante da sua penosa experiência de internação, obviamente atravessados pelo modo como a imaginação do psiquiatra os rememorou:

- Minha Santa, dizia o marido, não precisa se afligir tanto. Você está bem. Eu vou explicar tudo direitinho ao médico, e ele vai dizer que você está curada.

- Você viu como consegui cuidar do nenê e que até o seio eu dei para mamar e que não precisei de socorro de ninguém, que saí sozinha, que fiz compras, dei banho na menina e no nenê e nem tua mãe ficou alarmada e ficou até admirada com o que eu consegui fazer?

- Mas é lógico, minha Santa, igual como você sempre fez e nunca se importou nem com o julgamento de tua mãe nem com a ranzinzice e resmungos da minha.

- E você conta para o doutor que posso até ficar sozinha sem a ajuda das velhas. Que não tem perigo de eu ficar nervosa como fiquei [...]. Sabe, bem, que não me lembro quase nada do que aconteceu?

- Mas, minha Santa, o doutor já disse para mim que você ia esquecer muita coisa por causa dos eletrochoques que você tomou e que não tem importância, com o tempo volta (Grünspun, 1980) .

A conversa prossegue com a preocupação de Judith em mostrar que estava recuperada e que tinha se comportado muito bem em casa, cobrando do marido que confirmasse isso, como se a sua palavra, a de uma ex-interna em recuperação, e sobretudo mulher, pouco valesse:

- Você conta pra ele que dormi todas as noites e que nem precisei tomar os comprimidos. Ele disse para não tomar se eu dormisse direitinho [...]

- Mas Minha Santa, dizia o marido, isto era da tua doença. O médico explicou que era como uma febre, uma intoxicação do puerpério que ataca a cabeça. Você não tinha culpa [...]

- Você viu bem que eu não gritei nenhuma vez em casa (Grünspun, 1980 p. 76).

E o marido, sempre no relato de Grünspun, observa:

- Não preciso dizer nada, Minha Santa, acho que basta você falar com o médico. Não preciso fazer a sua defesa. Você não é acusada de nada. Você só esteve doente e agora está ficando boa (Grünspun, 1980, p. 79).

Nesse momento, Judith põe em dúvida a própria cumplicidade e confiança do seu marido:

- Viu, mesmo você, que gosta de mim, acha que estou ficando, não disse que já estou (Grünspun, 1980, p.79)

E o marido responde:

- Mas eu não sou médico, por isso é que nós vamos ao médico. Você é que não está com confiança. Eu confio muito” (Grünspun, 1980, p. 79).

Dentre o conjunto de indagações que chamam a atenção nestes diálogos, salta aos olhos o modo como Judith pretende se defender de uma nova internação, buscando se apresentar não apenas como uma pessoa equilibrada, saudável, ponderada, mas sobretudo responsável em termos do seu papel de esposa e mãe. No estudo que Elisa Toledo realizou no Juqueri a respeito das psicocirurgias em mulheres, a “despreocupação com o lar e a tarefa marital” aparece em relatórios de diversas internas diagnosticadas como esquizofrênicas: “após a moléstia”, a “paciente ‘desinteressou-se pelos afazeres domésticos’”. Em outros casos, são apontados o “‘desinteresse pelo asseio corporal e afazeres domésticos’” e ainda o “‘desinteresse pelos seus deveres de esposa e mãe’” (2015, p. 23).

Assim, embora Judith não tenha sido diagnosticada como esquizofrênica, sua internação - que ocorreu, como vimos, diante de uma crise após o nascimento da sua segunda filha, recebendo o diagnóstico de “psicose pós-parto, num quadro confusional muito grave”, a chamada loucura puerperal (aliás muito salientada pelo discurso médico como um dos desequilíbrios potencialmente favoráveis à internação de mulheres) - com certeza se inscreve no registro que, acompanhando Rohden, considera a condição feminina como “governada pelos ciclos relacionados à reprodução, desde a puberdade, gravidez e amamentação até a menopausa” (2008, p. 135). Sendo assim, parece adequado sugerir que de Judith se esperava, para ver “se realmente poderia ter alta” (p. 73), que não manifestasse desinteressasse “pelos seus deveres de esposa e mãe” (Toledo, 2015, p. 23).

Nada surpreende aqui se considerarmos que, em geral, a condição feminina, dada a sua fisiologia/ biologia desde o século XIX, aparece como “perspectiva dominante na cena médica brasileira”, identificando “nos órgãos sexuais/reprodutivos o centro da economia corporal feminina” (Rohden, 2008, p. 135). Segundo a mesma Rohden, “na produção médica editada no Brasil, a associação entre órgãos genitais femininos e suas funções e perturbações mentais aparece sob diversas formas, desde a histeria até a loucura puerperal” (2008, p. 135). E mais adiante, afirma: “E quase como se a mulher, por sua própria natureza, beirasse a patologia” (p. 136). De modo semelhante, Fachinetti, Ribeiro e Muñoz (2008, p. 238), afirmam que, desde o século XVIII, ocorre um processo de reelaboração das predisposições mórbidas das mulheres, no qual os temperamentos femininos passam a ser hierarquizados e “no ápice dessa hierarquia, considerada o modelo de saúde e encarnação mesma da feminilidade, estava a maternidade”.

Voltando à Judith, vale destacar, então, como ela, estrategicamente, podemos dizer assim, busca reforçar junto ao seu marido que cuidou muito bem do seu bebê e que nem precisou da ajuda de ninguém, que saiu sozinha, fez compras, deu banho em ambas as crianças, obtendo com isso até a admiração da sua sogra. Em outro momento, Judith salienta que, em casa, se lembrou “da maternidade, do parto, da alegria de dar um filho homem pro meu marido” e solicita que este conte “que gostou até do cheiro da [sua] comida” e que se saiu bem “cozinhando sozinha”. Que, como boa mãe, se preocupou com o afastamento da criança mais velha e com a possibilidade de esta não a reconhecer mais, e que ela “precisa” mais da mãe “do que das avós”. E em seguida, afirma:

Você viu; quando cheguei em casa, a menina não queria vir para o meu colo e depois me disse que eu não cheirava como a mãe dela. Agora ela já acostumou e tenho medo que depois possa estranhar (Grünspun, 1980, p. 78).

Como se vê, parece claro que Judith compreendeu muito bem o papel que se esperava dela de mãe e esposa zelosa, o que também explica as súplicas recorrentes ao marido por cumplicidade diante da percepção de que sua palavra de mulher pouco valesse ou valesse menos frente ao poder médico e masculino. Não à toa, Haim menciona que o médico que a tratou “impregnado de psicanálise e agora interessado em existencialismo” sugeriu “que talvez o filho nascido não fosse do marido e por isso ela teria o quadro estereotipado de xingar [de] ‘puta’”, em uma demonstração explícita de desconfiança, preconceito e misoginia por parte de tal médico, além de ser revelador da vigência de princípios racistas na sociedade, com seus diagnósticos e visões ancoradas em noções hipersexualizadas de mulheres negras. Diante disso, Haim conclui: “talvez valesse apenas chamá-lo para assistir ao relacionamento do casal”. E logo em seguida, acrescenta: “Não! Não valia a pena; eu antegozava o encontro no hospital. Sabia que ele daria alta depois de ouvir a Judith.” (Grünspun, 1980, p. 75).

Sobre esse comentário de que Judith “teria o quadro estereotipado [de] xingar de ‘puta’”, interessante observar, como manifestação de certa postura de rebeldia e insubmissão da paciente frente ao aparato de poder e controle médico e institucional vigente no hospício, que Grüsnpun relata que, nos seus momentos iniciais de crise no Juqueri, ela “andava pelo pavilhão cantando hinos”, mas “não hinos de Igreja”, e sim o “Hino Nacional e o Hino da Independência”, e no meio disso “mandava todos para a puta que o pariu, aos berros”, isto é, “mandava a enfermeira, os médicos, os vizinhos de cama”, e como “conhecia o nome de cada um, cantava várias vezes o nome e terminava: vá pra puta que o pariu” (p. 75). A mesma atitude de rebeldia se observa quando, atuando como ajudante na cozinha, por orientação do médico que a tratou, por divagar muito e demorar a pôr o feijão no prato, era cobrada pelo chefe da dispensa: “para apressar” então, ela, um dia “pegou o caldeirão pesadíssimo de feijão e derramou tudo no de arroz, e foi uma gritaria para Judith voltar para o escovão” (Grünspun, 1980, p. 78).

Chama a atenção também o receio de Judith de ter que permanecer no Juqueri, receio que a leva inclusive a considerar a possibilidade de ir ao hospício apenas para tomar o eletrochoque, desde que voltasse para casa:

E se eu precisar de choque outra vez, se o médico achar que falta ainda para eu me curar? Acho que não aguento ficar mais naquele pavilhão. Eu soube que tinha gente que vinha uma vez por semana só tomar o choque e voltar para casa. Você fala com o doutor que você me traz e que você pode perder um dia por semana o trabalho, para me trazer” (Grünspun, 1980, p. 74-75).

Aqui, vale observar a naturalidade com que o tratamento de eletrochoque e seus efeitos negativos sobre as lembranças dos pacientes são apresentados, “infelizmente”, segundo Grünspun, “uma consequência do tratamento” a exigir “só um pouco de paciência”, (1980, p. 77). Com efeito, surpreende o fato de ele mencionar o emprego corriqueiro do eletrochoque sem expressar nenhum incômodo, sobretudo se consideramos que, nos anos de escrita do livro, final dos anos 1970, ainda que tal terapêutica permanecesse bastante empregada, efetivamente já não obtinha o mesmo reconhecimento. No entanto, não se observa nenhum comentário mais crítico do psiquiatra a tal prática.

Digna de registro também é a virada corajosa de Judith que, em dado momento, segundo Haim, se dispõe a enfrentar, por conta própria e sem “sucumbir ao medo”, o aparato de controle médico e institucional então vigente:

“É verdade, a empreitada é minha, eu é que vou falar. Não vou sucumbir ao medo, não vou me abater como covarde. Não vou fazer alarma (sic), não vou gritar nem chorar. Vou simplesmente contar como passei desde o dia que saí, e ele, se quiser que acredite” (Grünspun, 1980, p. 19).

Não sem que Grüsnpun, ao fim desse capítulo, deixe no ar a dúvida: “Chegamos ao Juqueri, que era minha viagem de ida e, para Judith, a ameaça de ser a viagem de volta” (p. 79, grifo meu). Creio que, aqui, o termo “ameaça” empregado pelo psiquiatra para expressar a possibilidade de Judith voltar a ser internada, é mais do que adequado e revelador do modo como a instituição provavelmente era vista pela maioria dos seus frequentadores e familiares13, inclusive por futuros médicos/psiquiatras, como o jovem estagiário de medicina Haim Grüsnpun, em que pesem os relatos tão encantados do nosso memorialista com a plêiade de notáveis especialistas e mestres com que ele asseverava ter convivido na instituição.

Outro capítulo bastante interessante apresentado pelo psiquiatra no livro se refere ao caso de uma paciente internada com o diagnóstico de histérica e que ele identifica como “famosa” pela celebridade que veio a obter com suas pinturas realizadas no ateliê do Juqueri e apresentadas no “Congresso Mundial de Psiquiatria na França e em várias exposições na Europa” 14. Trata-se de uma balconista das Lojas Brasileiras – Lojas Americanas, que o psiquiatra descreve no capítulo intitulado “A Cura da Histeria”, e que ele encontra na segunda classe do trem, acompanhada de seus familiares, no momento em que deixava o Juqueri por ter obtido alta: “no trem ela me apresentou à sua família. O que o senhor acha Doutor, ela fica boa em definitivo e não faz mais besteira?, perguntava o pai” (p. 63). Sua internação na instituição se deu porque havia tentado o suicídio, cortando os pulsos: “Na hora do almoço, no banheiro, ela cortou os pulsos com gilete. Sangrou muito, foi levada para a Santa Casa, estancaram o sangue e a própria firma providenciou o transporte para o Juqueri’ (p. 65). O momento de chegada no Juqueri ocorreu quando o estudante-estagiário estava de plantão, plantão este que acontecia todas “às sextas-feiras à noite” (p. 65):

Numa destas sextas-feiras, examinei a moça com ataduras nos pulsos. Todas as suposições foram por mim levantadas. Vai tentar suicídio novamente? Ponho em um quarto-forte? Não era possível fazer vigilância contínua num hospital como o Juqueri. A desgraçada, negativista, não querendo colaborar, oposicionista sistemática, furiosa. Resolvi ser sincero com ela. Se você não colabora, você vai acabar indo para o quarto-forte como proteção. Não era um exame ortodoxo, mas deu resultado e consegui escrever na ficha: histeria (Grünspun, 1980, p. 67).

Interessante observar que o diagnóstico de histeria teria sido, ao que parece, estabelecido inicialmente por Haim, ainda um estudante estagiário na instituição, num tempo em que tal diagnóstico, segundo alguns estudos, já não era muito comum (Facchinetti; Ribeiro; Muñoz, 2008; Miranda, 2022)15. Como ele afirma um pouco à frente, “esse caso, apesar de patético, não era de loucura, era de histeria, neurose histérica dissociativa, e na discussão havia sido aventada a necessidade de se fazer psicoterapia” (p. 63).

Aqui, uma rápida digressão a respeito da definição de Histeria, com uma longa história que remonta à antiguidade ocidental. Vinculada etimologicamente à palavra útero, teria sido referenciada por Hipócrates “como aparelho reprodutor feminino que [...] levava mulheres à sufocação da matriz ou hystero”, mas que só veio a ganhar “estatuto de doença e epidemia depois do século XVII”, quando “entra no discurso médico” (Botton, 2019, p. 109). A partir daí, segundo Botton,

a histeria se estabelece como enfermidade a ser separada, assim como outras manifestações de desordem da razão. O que diferenciou a histeria de outras doenças especificas da desrazão, ao menos num primeiro momento, foi o marcador de gênero, já que apesar de ser estendível aos homens, era uma doença de mulheres (Botton, 2019, p. 110).

Assim, embora, durante muito tempo, permaneça, em certas correntes da medicina, vinculada ao útero, as “teorias neurológicas mais modernas que foram se tornando cada vez mais difundidas entre os médicos” e passaram a considerá-la um problema psíquico, o qual, mesmo não sendo mais identificado ao útero, continua visto como mais frequente em mulheres (Botton, 2019, p. 111). Devia-se isso, segundo Nunes, ao fato de o corpo, nervos e temperamento femininos serem tidos pelo discurso médico como “mais frágeis, o que as tornaria mais suscetíveis de adoecer” (Nunes, 2010, p. 375). De acordo com essa autora,

Essa manutenção da histeria no território feminino foi reforçada ao longo dos séculos XVIII e XIX, fazendo parte da construção de uma determinada concepção de diferença entre sexos articulada na modernidade, segundo a qual, homens e mulheres seriam dotados de características físicas e morais diferentes e complementares. Os discursos médicos procuravam delinear minuciosamente as diferenças entre os sexos supondo também patologias diferentes (Nunes, 2010, p. 375-376).

Nesse caso, isto é, por permanecer sendo uma doença mais frequente em mulheres, se relaciona, por contraste, com o comportamento de mulheres não histéricas e se vincula moralmente a padrões de conduta idealizados característicos de uma suposta natureza feminina (Botton, 2019, p. 111):

A histeria ocupou esse lugar de doença que (provavelmente) não teria atingido tantas mulheres se não resultasse de ser um diagnóstico de contraste com o ideal social de mulher e de sexualidade feminina naturalizada por uma ciência que aliava saberes e valores, que prescreviam desde formas de reprodução até comportamentos familiares... (Botton, 2019, p. 111).

Dito isso, é interessante observar que Haim indica que as manifestações iniciais da doença na referida paciente teriam ocorrido no trabalho, quando ela apresenta alguns comportamentos impulsivos e descontrolados, nos quais rasga a blusa, deixa “combinação e sutiã à mostra”, se debate e grita muito, isso tudo na frente dos fregueses, configurando um verdadeiro “escândalo”, nos termos do psiquiatra, sendo, por essa razão, encaminhada diversas vezes para a Santa Casa (p. 64). Ou seja, condutas vistas moralmente como inapropriadas para uma mulher, com manifestações públicas de descontrole e de evidente conotação sexual, ao rasgar a blusa e deixar combinação e sutiã à mostra, comportamento que com certeza colaborou para o seu diagnóstico de histeria. Os sintomas teriam começado “quando ela achou que a irmã mais velha” havia roubado seu namorado “por mais que se explicasse que o rapaz nunca tinha sido seu namorado, que sempre se interessara pela irmã maior” e que sua atenção a ela era basicamente por “delicadeza”. De acordo com Haim, a paciente “encafifou que ela é que tinha conhecido o rapaz antes e que ela é que gostava dele e que a irmã só era interesseira [...] que tinha medo de ficar solteirona porque era feia, não tinha corpo bem feito e era uma fingida, uma falsa e uma hipócrita” (p. 64-65).

Aqui, certa postura bastante imprópria é realçada, com acusações ao caráter da irmã - interesseira, hipócrita e fingida -, disputas em torno da beleza física – a irmã seria “feia” -, e indiretamente envolvendo certa moralidade sexista, tendo em vista a referência ao fato de a irmã não possuir “um corpo bem-feito”, contrastando, em tese, com o dela. Como se pode notar, anotações e registros do comportamento da paciente relacionados a valores supostamente tidos ou reconhecidos socialmente como inadequados a certa condição e/ ou natureza feminina, em contraste com a expectativa ideal de um temperamento submisso e moralmente bem comportado, o qual novamente, creio ser correto sugerir, parece ter colaborado para o referido diagnóstico de histeria.

Interessante também observar o registro que Haim faz a respeito da sua fuga do Juqueri - fugas que, aliás, ele relata serem muito comuns -, motivada, nesse caso, por uma discussão da paciente com uma das atendentes do hospital e que teria ocorrido antes que ela passasse a frequentar o salão de pintura que a tornaria famosa:

Muitos dos que fugiam voltavam sozinhos, ou trazidos pela família. Mas a sociedade fora não esperava que os doentes pudessem escapar do Juqueri. Se foram para lá, era porque ali era o seu lugar. Mesmo a família entendia assim. A direção ficava então preocupada com a repercussão na imprensa. Loucos fogem do Juqueri! O problema para os médicos era quando fugiam mulheres, especialmente como esta, moça, bonitinha e virgem. A preocupação era de que não sofressem novos traumas capazes de agravar o estado de sua mente perturbada. Saíam, então, peruas, do hospital, com enfermeiros, porteiros e até os médicos. Não era para perseguir um condenado mas para proteger um coitado (p. 67, grifos meus)

Aqui, salta aos olhos o fato de a paciente ser uma jovem “bonitinha e virgem”, portanto, sujeita, diante de certos padrões sexistas característicos de uma sociedade patriarcal, tal como tantas outras mulheres, ao risco, bastante naturalizado, mas, ao mesmo tempo, provavelmente realista, diante de certos quadros historicamente constituídos, de investidas sexuais violentas dirigidas às mulheres notadamente envolvendo meninas jovens e virgens16, que, nos termos de Haim, agravariam seu quadro.

Sua volta, segundo o psiquiatra, foi difícil, pois ela só concordou em retornar se a atendente lhe pedisse desculpas e “lá foi a atendente, por ordem médica, pedir desculpas para uma paciente” (p. 68). Como relata Haim,

atendentes, enfermeiros, porteiros, pessoal da limpeza, pessoal da cozinha eram, na maioria, gente primitiva, mas estavam do lado de cá da doença mental, e o médico sempre foi a figura carismática para os funcionários. Se o doutor ou doutora pediam, até as desavenças pessoais eram desfeitas (p. 68, grifo meu).

Como registro do dia a dia no Juqueri, interessante observar o comentário sobre quem de fato reinava na instituição, que obviamente eram os doutores, descritos como “carismáticos” que exerciam forte ascendência sobre os funcionários subalternos, mencionados ademais como “gente primitiva”. Citando os enfermeiros, diz que eles “evidentemente” “batiam em doentes” e que os médicos “fazia[m] vistas grossas” a isso, consequência da necessidade de conviver “com uma superpopulação de doentes mentais” e da “sobrecarga de trabalho” (p. 68).

De acordo com o registro de Haim, a alta da paciente teria resultado da massagem com orientação reichiana, para “desfazer a couraça corporal” (p. 69), empregada pelo médico que a tratou, “aluno dos mais brilhantes da faculdade de Pinheiros”, “inovador contínuo”, “espírito brilhante e inquieto”. Apesar da anotação irônica de Haim sobre a postura volúvel do referido médico que, nos termos do nosso memorialista, migrava de uma orientação teórica para outra ao sabor das circunstâncias, teria sido esse médico, com toda sua “fidelidade e ortodoxia sucessivas”, o responsável pelo êxito do tratamento e, de modo “extraordinário”, quem teria previsto “o que a moça iria produzir no ateliê de arte” – o qual, como dissemos, possibilitou até que a paciente se tornasse “célebre” (p. 69):

como a mocinha tinha defesas corporais, o sucesso [se refere à psicoterapia com orientação reichiana a que ela foi submetida] foi rápido para o diagnóstico severo quando da entrada no hospital [...] Outros ortodoxos poderão dizer que o tratamento não foi em profundidade, mas para a população do hospital era realmente um sucesso. (Grünspun, 1980, p. 69).

Por fim, cabe mencionar a dita subserviência dos funcionários aos médicos da instituição, tendo em vista a afirmação de Grünspun de que “se o doutor ou a doutora pediam, até as desavenças pessoais eram desfeitas”(p. 68, grifo meu). No entanto, nas lembranças expostas no livro, as mulheres, quando aparecem, ou são enfermeiras ou pacientes, ou então professoras primárias (hoje do ensino fundamental) em viagem no trem. Ou seja, sempre em condição de certa subalternidade ou exercendo profissões tidas em geral como prioritariamente femininas. No livro inteiro, nenhuma doutora é citada, apenas médicos homens, em geral descritos como sábios ou gênios, como vimos, o que nos leva à seguinte constatação: ou de fato nos anos 1940 não se observa, ou era insignificante a presença de médicas e psiquiatras mulheres trabalhando no Juqueri17, o que apenas corrobora certo padrão ocupacional com suas hierarquias e naturalizações entre profissões masculinas e femininas - particularmente no período em questão -, ou invisibilizadas nos relatos do psiquiatra, tal ausência basicamente expressa uma narrativa que repercute certas relações de poder e subordinação entre homens e mulheres.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Em matéria publicada na Revista Piauí nº 219 (2025, p. 78-83), sobre o processo de criação do seu filme, Malu, que tem por tema a história da sua mãe, atriz cujo nome dá título ao filme, o diretor Pedro Freire, num jogo provocativo de palavras, sustenta que ficção é memória (título da matéria), bem como, ao inverso, que memória é ficção, compreendendo, ao fim e ao cabo, seu filme como uma ficção baseada em fatos reais. Tais definições, a meu ver, servem muito bem para caracterizar as reminiscências do psiquiatra Haim Grünspun sobre as viagens de trem que o levavam, nos anos 1940, quando ainda era um jovem estudante de medicina, ao hospital do Juqueri, narradas no livro Trem para o Hospício aqui analisado. Com efeito, como dito na introdução deste artigo, tais reminiscências muito adequadamente podem ser vistas como ficções baseadas em fatos reais, ficções essas que sua memória intentou reconstituir de episódios reais vivenciados há mais de trintas anos, o que me levou a considerá-las como imaginações ou invenções contextualizadas.

No entanto, tal compreensão não significa, como dito e analisado em outro momento desse trabalho, que as lembranças trazidas à tona no referido livro, porquanto subjetivas e atravessadas por um memorialismo em alguma medida comprometido com o tempo relativo à sua escrita, não possam ser tratadas ou vistas como valiosas fontes de informação sobre o ambiente científico, terapêutico e institucional do hospital psiquiátrico do Juqueri nos anos 1940, se revelando – e foi o que buscamos mostrar ao longo do artigo - um relato bastante fecundo das práticas, teorias e tratamentos ali vigentes.

Sendo assim, para além das inúmeras questões passíveis de serem observadas nos relatos e reminiscências do psiquiatra - os quais, ao longo desse artigo, buscamos expor e problematizar - gostaríamos de ressaltar, à guisa de conclusão, basicamente dois pontos: i) primeiro, e isso vale explicitamente para o caso da “mulata Judith”, é possível apontar que, apesar da condição de vulnerabilidade e fragilidade em que se encontrava, buscou articular estratégias e estabelecer cumplicidades que, de algum modo, favorecessem um olhar conivente do poder médico com suas demandas de saída do hospício. Para tanto, buscou expressar plena adesão a certo papel social e/ou comportamento feminino compatível com o de boa esposa e de boa mãe, os quais ela parece ter claramente compreendido que se esperava dela, tal como aparece nos diálogos descritos ou imaginados por Haim no encontro que teve com Judith no trem e nas lembranças da presença dela no Juqueri; ii) segundo, creio ser correto afirmar que ambas as pacientes sentiram suas respectivas passagens pela instituição como experiências excepcionais e temporárias, sobremaneira dolorosas, experiências, portanto, que gostariam, acima de tudo, de esquecer e se distanciar. No caso da Judith, por exemplo, ela se mostra disposta inclusive a negociar sua ida ao hospício só para tomar eletrochoque, desde que isso fosse uma exigência necessária para sua alta e, por conseguinte, garantia de retorno para casa. Em relação à paciente diagnosticada como histérica, que Haim encontrara no trem deixando o Juqueri, interessante observar, como importante evidência de que pretendia de fato olvidar sua passagem pela instituição, que ela não se interessou em levar nenhum quadro seu consigo, em que pese o sucesso que obteve com as pinturas feitas no ateliê da instituição e apresentadas no Congresso Mundial de Psiquiatria, na França e em várias exposições na Europa, como já dito, e que a teria deixado, nos termos do psiquiatra, “célebre”, o que, ao meu ver, é sintomático de uma experiência sentida como exclusivamente negativa, cujo tempo vivido no hospício nada teria acontecido que valesse a pena ser lembrado: “No trem ainda brincando, eu disse que ela não me tinha presenteado com nenhum quadro. Ela também não levou nenhum quadro com ela. Foi a fase do Juqueri da vida dela” (p. 69).

Fase, pelo visto, que a “paciente famosa”, que “ninguém, acredita[ria] que não fosse profissional notável”, mas que, “antes de ser internada e talvez depois de sair, nunca tinha pintado, nunca usara o pincel” (p. 63), optou por esquecer, preferindo, segundo relata Haim, ficar “no anonimato”, porque nem mesmo suas “telas foram assinadas” (p. 63).

REFERÊNCIAS

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  • DECLARAÇÃO DE DISPONIBILIDADE DE DADOS:
    Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.
  • 1
    Utilizarei Juqueri (com i) e não Juquery (com y), porquanto essa foi a forma como Haim Grünspun a grafou no livro Trem para o Hospício.
  • 2
    O psiquiatra também aponta seu incômodo com o cheiro que sentia existir no Juqueri e o modo como ele parecia ficar entranhado nas pessoas e no ambiente: “O problema do cheiro era também meu.[...] O Juqueri tinha um cheiro próprio de cinquentenário, que entranhava e embebia suas paredes, suas camas, seus tetos, até os assoalhos brilhantes. Antes de sair do plantão, eu tomava banho; chegando em são Paulo, tomava novo banho. E de repente, em lugares imprevistos, eu sentia bruscamente que precisava tomar um banho. E esta mulata, agora perfumada, falava do medo de recender a Juqueri e sua filha não reconhecer seu verdadeiro cheiro” (Grünspun, 1980, p. 78-79).
  • 3
    As referências para Grünspun, 1980, passarão a ser indicadas apenas com o número da/s página/s do/s trecho/s mencionados, tendo em vista o elevado número de citações dessa obra.
  • 4
    Haim Grünspun comenta que seu primeiro contato com o Juqueri teria ocorrido precisamente “no ano de 1947”, embora não mencione por quanto tempo o frequentou (Grünspun, 1980, p. 11).
  • 5
    No ano de 2005 ocorre um grave incêndio no Juqueri, que atinge o setor administrativo do prédio e destrói parte importante do seu acervo (Farias; Sonim, 2014; Sonim; Conceição, 2021).
  • 6
    Aqui me benefício de algumas análises e avaliações realizadas no meu artigo já publicado sobre o livro Trem para o Hospício (Reis, 2023).
  • 7
    Nesse período, anos finais de 1970 e começo dos anos 1980, quando Grünspun escreve o livro, o movimento de Reforma Psiquiátrica começava a dar seus primeiros passos e muito provavelmente o psiquiatra tinha informação disso. Nesse sentido, nos parece bastante plausível perguntar se o memorialista pretenderia dizer algo também sobre as condições degradantes dos hospícios nos anos 1980, das quais o Juqueri e outros estabelecimentos, como o Hospício de Barbacena, são exemplos inquestionáveis de tal degradação. Como dito pelo psiquiatra Marcos Ferraz, integrante do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp) de 1978 a 1983, presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria (1980-1983) e coordenador de Saúde Mental durante o governo Franco Montoro (1982-1986), “pode ter havido instituições médicas tão caóticas quanto o Juqueri, mas não piores” (Marques Filho, 2004, p. 56).
  • 8
    A questão da superlotação, evidentemente um problema real, pode ser identificado desde o final dos anos 1920, se agravando nos anos 1930, conforme salienta Tarelow, tornando o Juqueri, “um grande depósito de doentes o que impossibilitava a atenção médica necessária a todos os pacientes” (Tarelow, 2013, p. 109-110). O psiquiatra Anibal Silveira, que atuou no Juqueri nos anos em que Grünspun por lá esteve, assim descreve a situação em 1947: “Essa situação se grava ainda com o reduzido número de médicos para atender à grande massa de doentes. Êste aspecto do problema tem sido até sistematicamente desprezado pelas autoridades públicas para ampliar a assistência aos doentes mentais cuidam sempre i quase (sic) exclusivamente das instalações para acomodação material dos doentes” (citado por Tarelow, 2013, p. 110)
  • 9
    Segundo estudos de Toledo (2019) e Masiero (2003), a prática da psicocirurgia (leucotomia pré-frontal e lobotomia), envolvia prioritariamente mulheres.
  • 10
    Apesar de frequentemente confundidas, existem diferenças entre Leucotomia pré-frontal e a Lobotomia, ambas empregadas no Juqueri: “A leucotomia, desenvolvida pelo neurologista português Egas Moniz em 1935, extrai, na substância branca do cérebro, feixes de associação com centros afetivos diencefálicos. Apesar dos termos serem muitas vezes utilizados como sinônimos, a lobotomia elaborada por Walter Freeman, que começa a utilizá-la em 1936, é uma incisão cirúrgica praticada num dos lobos dos hemisférios cerebrais. Tanto a primeira quanto a segunda eram praticas neurocirúrgicas cuja finalidade era a modificação de comportamento ou eliminação de sintomas psicopatológicos” (Toledo, 2015, p. 22-23)
  • 11
    A difusão da eletrochoque nos manicômios de “várias partes do mundo”, se tornou comum, acompanhando estudo de Tarelow, porque se mostrou mais eficiente tanto economicamente quanto em termos de método, além de provocar “uma perda de memória nos pacientes, de modo que eles não lembravam do choque sofrido após terem a sua consciência restabelecida”, o que parece ser visto como uma vantagem, servindo, na medida em que passa a englobar o “tratamento de praticamente todas as doenças mentais”, muito mais como “elemento de manutenção da ordem asilar” (Tarelow, 2019, p. 13; p. 15). De acordo com o psiquiatra Henrique M. de Carvalho num artigo de 1942, citado pelo mesmo Tarelow, “o método pode ser empregado em larga escala e em muitos doentes no mesmo dia, com muito menos trabalho e o mesmo pessoal exigido para o Cardiazol. Os doentes não se queixam e facilitam o tratamento, tendo desaparecido aquelas dramáticas cenas comuns com o emprego do Cardiazol, em que o paciente se debatia, reagia, tentava fugir, tornando por vezes impossível a prática da injeção endovenosa. Hoje há silêncio e ordem entre os pacientes que vão tomar o eletrochoque e são raros os que reagem, lutam e tentam fugir no momento em vão fazer as aplicações” (Tarelow, 2019, p. 13-14, grifo meu). No entanto, parece que as coisas não se passaram bem assim, tendo em vista que, acompanhando o mesmo autor, o “terror causado pelo ECT não era diferente daquele que o Cardiazol provocava”, sendo “frequentemente descrit[o] como motivo de angústia e autovigilância” (Tarelow , 2019, p. 15). E cita, como evidência desse profundo desconforto, os relatos pungentes de Austregésilo Carrano Bueno, ex-interno dessas instituições, que em seu Canto dos Malditos, descreve o pavor e o sofrimento que sentia diante das sessões de eletrochoque.
  • 12
    Haim Grünspun diz que no trem lhe veio, “com um estrondo”, a seguinte ideia: “será que a Judith da Bíblia era mulata linda como esta e por isso foi capaz de seduzir o general assírio Holofernes e depois lhe cortar a cabeça, salvando seu povo” (p. 73), dando a entender que por se chamar Judith, tal como o personagem bíblico, se tornara conhecida e por ele identificada pelo nome: “somente se tornara mais conhecida porque se chamava Judith’ (p. 73).
  • 13
    Num outro caso apresentado por Haim Grünspun no livro ele menciona o desespero de um pai de ter que internar seu filho no Juqueri, o qual para ele equivaleria a “entregá-lo voracidade dos inimigos”: “Eu já tinha ouvido falar do Juqueri mas, na minha cabeça, este era o último lugar do mundo para onde eu levaria meu filho’ (p. 47)
  • 14
    O Congresso Mundial de Psiquiatria ocorrido na França, mais exatamente na cidade de Paris, mencionado por Haim Grünspun, teria sido o 1º e não 2º, como dito por ele (p. 63) e se chamou mais precisamente Congresso Internacional de Psiquiatria, no qual teria acontecido a Exposição Mundial de Arte Psicopatológica. O 2º Congresso Mundial de Psiquiatria ocorreu em Zurique na Suíça em 1957.
  • 15
    Segundo estudo de Facchinetti, Ribeiro e Muñoz, no Hospício Nacional de Alienados do Rio de Janeiro, até “1919, grande parte das mulheres era diagnosticada com histérica. A partir de 1920, os diagnósticos de histeria rareiam, chegando a menos de 2% na década de 1930” (2008, p. 239)
  • 16
    Os dados do que se pode chamar de “cultura do estupro no Brasil” são realmente alarmantes e assustadores. Ver a este respeito Schwarcz (2019, p. 188-197).
  • 17
    Eliza Toledo, que estudou em profundidade o Juqueri nos anos 1940, só conseguiu identificar uma única médica nos prontuários que consultou sobre esse período, conforme informação pessoal obtida junto à pesquisadora.
  • Editor responsável:
    Ely Bergo de Carvalho

Disponibilidade de dados

Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    08 Maio 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    15 Maio 2025
  • Revisado
    5 Dez 2025
  • Aceito
    22 Set 2025
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Pós-Graduação em História, Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal de Minas Gerais Av. Antônio Carlos, 6627 , Pampulha, Cidade Universitária, Caixa Postal 253 - CEP 31270-901, Tel./Fax: (55 31) 3409-5045, Belo Horizonte - MG, Brasil - Belo Horizonte - MG - Brazil
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