Open-access O passado é um cenário em disputa Esquecer, lembrar e escrever

The past is a contested space oblivion, remmenbering and writing

TROUILLOT, Michel-Rolph.. Silenciando o passado:. Poder e a produção da história. Rio de Janeiro: Cobogó, 2024

Poucos autores abordam com tanta fluidez a densa teoria acadêmica como Michel-Rolph Trouillot. Obra clássica lançada nos EUA em 1994, teve uma primeira versão em e-book pela Huya em 2016, mas tem sua primeira edição brasileira impressa apenas em 2024 pela editora Cobogó. Apesar do sucesso deste livro, servindo de base para o roteiro da série Exterminem todos os brutos de Raoul Peck (2021) da HBO, Trouillot parece sofrer no Brasil do mal que ele mesmo denuncia: todo o processo de lembrar-e-esquecer existente na História (comumente chamado de “memória”) é organizado por uma relação de poder. Em seu prefácio o autor deixa muito nítido que “este livro é sobre história e poder” (Trouillot, 2024, p.31). Nesta primeira edição impressa, temos uma melhor adequação à fluidez do texto em sua tradução e um prefácio escrito pelo diretor e amigo do autor, Raoul Peck. De forma bastante articulada, Raoul Peck nos conta o quanto os debates apresentados no livro são fruto de longas e importantes discussões acadêmicas e políticas sobre o colonialismo, a escravidão, o racismo e a escrita da História.

Trouillot (2024) torna essa questão muito tátil ao trazer a tradição marxista e nos recordar do controle dos meios de produção do conhecimento e sua propagação. O haitiano observa como, apesar da quantidade respeitável de trabalhos desmitificando o cerco mexicano ao Álamo, a profusão de encenações do episódio mitificado torna a versão idealizada do acontecimento verdadeira para a maioria da população dos EUA. Há toda uma indústria e comércio (como a loja de souvenires no Álamo) que permitem ao episódio ser relembrado de forma mítica. Ao abordar esse evento tão importante para a história dos EUA, Trouillot (2024, p.60) aponta uma série de investimentos em recordar o Álamo através de filmes de John Wayne e acessórios para brincar de cowboy. Esses meios são mais constantes e efetivos para narrativa sobre o passado do que obras sérias de especialistas.

Aqui Trouillot parte da desmitificação de que haveria uma certa capacidade de armazenamento em nossa memória, tal qual haveria em um armário. Temos a apresentação de como a memória se destrincha entre várias coisas distintas como amarrar os sapatos ou alguma conexão com um passado não vivido (como o Quebec e seu lema “eu me lembro”). Tratamos o termo memória como “um amplo rótulo para um grande número de processos que formam as pontes entre o passado e o presente” (Fridlund et al, 2003, p. 344). Porém, a memória não é estática, armazenável, afinal “há provas de que o conteúdo de nosso armário não é fixo e tampouco está à nossa disposição” (Trouillot, 2024, p. 51), logo o esquecimento não seria uma falta de capacidade de memória. A obra faz análise de três casos em específico: a Revolução Haitiana (capítulos 2 e 3), o dia de Colombo (capítulo 4) e a mercantilização turística do passado (capítulo 5), sendo o primeiro capítulo uma apresentação da problemática do Poder na História a partir do principal exemplo que é o do Álamo.

Com origem numa família de intelectuais haitianos, Trouillot deve ser inserido na tradição das figuras caribenhas tão fundamentais para pensarmos o que será mais tarde chamado de decolonialidade e o giro epistemológico atual. Aimé Cesaire e Frantz Fanon são figuras inseridas dentro do mesmo contexto que o de Michel-Rolph Trouillot, porém sua trajetória própria o levou a refugiar-se nos EUA, onde se encantou pelo teatro, para, de forma um tanto tardia, iniciar a construção de sua carreira acadêmica no ambiente universitário dos EUA. Silenciando o passado (2024) é lançado em 1994 nos EUA como obra de uma vida, síntese de uma experiência fundamentada em anos de estudo, ao contrário de clássicos como Discurso Sobre o Colonialismo (Césaire, 2020) ou Pele Negra, Máscaras Brancas (Fanon, 2020), escritos no calor das guerras de descolonização na África e na Ásia como manifestos políticos e ensaios críticos. Nem por isso Trouillot é desprovido de experiência, mas tem como trunfo uma boa maturação alicerçada em sólido referencial teórico. E com uma capacidade de síntese exemplar.

O que chama atenção nesta obra é a contemporaneidade dos temas e da abordagem de Trouillot. Com uma capacidade ímpar de domínio da historiografia francesa associado a uma linguagem direta, vemos como o que é tratado sobre o passado está diretamente relacionado ao presente, indicando um diálogo possível com a História do Tempo Presente, campo cada vez mais consolidado dentro da historiografia e que lida diretamente com interesses púbicos, ou com uma História Pública. Decolonialidade, História do Tempo Presente e História Pública são entrecruzamentos possíveis ao leitor de um livro que analisa o poder e a produção da História. Conseguimos perceber, como o debate sobre decolonialidade se inicia com a própria observação das experiências de descolonização ocorridas massivamente após a Segunda Guerra (1939-1945) e que, a partir da interrogação de como escrever a História de jovens nações provincializando a Europa – para fazer uso do termo cunhado por Dipesh Chakrabarty, encontrou eco nos intelectuais latino-americanos que alertavam para o presente a partir de sua experiência colonial passada. Aqui devemos citar Aníbal Quijano (1992) ou até mesmo os Teóricos da Dependência (Wasserman, 2017), atentos de alguma forma a essa mesma questão da continuidade colonial mesmo após os processos de independência.

O livro nos leva a observar os processos de produção da verdade e a transformação epistemológica do conhecimento a partir da tradição foucaultiana de interpretação do poder em toda a sua capilaridade, e não como algo verticalizado e centralizado. Notamos isso não só pelo ostracismo ao qual se reservou a Revolução Haitiana, um dos episódios centrais para a compreensão do mundo colonial e moderno daquele momento, assolado desde então pelo medo de uma grande revolta de escravizados, usualmente chamado de haitianismo; como através da análise da própria figura de Cristóvão Colombo e sua chegada à América. Evento tratado como importante desde sempre, Trouillot (2024, p.190) observa como não havia essa abordagem até o século XIX. Colombo e seus contemporâneos não observavam nada de especial no dia 12 de outubro de 1492, a ponto de ser um dia em branco no diário do genovês. A descoberta foi insignificante no período Entretanto, esta situação muda ao longo do tempo. Inicialmente, teremos na chegada de Colombo às Américas uma tentativa de promoção do decadente império espanhol. Porém, o grande feito foi Colombo aparecer na Exposição Universal de Chicago em 1893, onde ele seria o primeiro grande europeu nas Américas e, na metáfora da corrida de bastão, a partir daquele momento seriam os EUA. Essa metáfora foi tomada pelos imigrantes italianos e irlandeses, também por seus descendentes, como um caminho para a redenção dentro de uma sociedade WASP1, que os via no máximo como brancos de segunda classe. A situação muda a partir da década de 1980 com forte contestação de movimentos sociais indígenas e afro-americanos problematizando a figura de Colombo e sua relação com o colonialismo. Haveria na identidade coletiva na população de euro-americanos a interpretação de “Colombo como um ancestral” (Trouillot, 2024, p. 218).

Vemos nesse caso a complexidade das relações de poder envolvendo o passado através do caso de Colombo. Lembrado para justificar impérios, um subterfúgio para grupos subalternizados se inserirem na sociedade estadunidense e a problematização de sua figura diante do passado colonial nas Américas. Na tentação de buscar uma saída diante da dicotomia entre verdade e mentira, a resposta está na observação das relações de poder. Trouillot (2024, p.218) nos lembra o quanto “isso não quer dizer que a história jamais é honesta, mas indica que ela é sempre confusa, precisamente por conta das misturas constitutivas que apresenta”. Aqui fica evidente porque a história não é mais compreendida como linear e desenvolvemos uma busca por representar o melhor possível sua complexidade, afinal não se trata de uma única temporalidade na história, mas sim de diversos Estratos do Tempo (Koselleck, 2014). E, nesse aspecto, Trouillot nos convida a notar o gigantesco pedaço faltando na historiografia: tudo o que não é a Europa Ocidental e os EUA branco.

Reconhecendo que silêncios também escrevem uma história sobre o passado, Trouillot (2024) apresenta uma série de sínteses para diversas questões historiográficas a partir da afirmação do quanto o que se lembra e o que se esquece é conduzido pelo poder. Tal qual os havaianos após a chegada do Capitão Cook e toda a reviravolta no arranjo daquela sociedade (Sahlins, 1990), não podemos mais ignorar esse fato após a leitura desta obra. Por isso, não é um acaso o livro iniciar com o relato íntimo dos debates historiográficos de seu pai e tio, nos dando a entender que a capacidade analítica e a paixão pelo passado não são exclusividade das universidades europeias ou norte-americanas. Porém, seus entes queridos eram pretos, oriundos de um país empobrecido e ausentes do domínio dos mais poderosos meios de produção historiográfica. Assim, Trouillot nos faz questionar se obras como a dele seriam escritas, publicadas e traduzidas se não fossem produzidas neste espaço de excelência dos meios de produção universitária. Aqui, podemos questionar o quanto nós dos países periféricos convidamos intelectuais desses países centrais para palestras e conferências de destaque mesmo diante de sua ausente reciprocidade. Também sobre a nossa dificuldade de estabelecer conexões acadêmicas no eixo Sul-Sul, apenas recentemente sanada pela CAPES com o programa “Move La America”. Se com Foucault (1979) as análises de poder estavam atentas às suas nuances e capilaridades, Trouillot nos convida a trazer essa questão para dentro de nosso próprio domínio. Temos assim, uma obra que sintetiza de forma bastante direta toda uma gama de problemáticas construídas pela historiografia ao longo do século XX e nos permite traçar uma trajetória historiográfica por meio de concretos exemplos históricos, por meio de uma escrita direta que não abandona em momento algum a densidade desses debates. Em suma, observamos que talvez a questão não seja simplesmente a autorização ou não para que o subalterno fale, mas sim o porquê de ele ser tão sistematicamente ignorado, afinal ele fala.

REFERÊNCIAS

  • CÉSAIRE, Aimé. Discurso sobre o colonialismo. Florianópolis: Letras Contemporâneas/Livros & Livros, 2020.
  • FANON, Frantz. Pele negra, máscaras brancas. São Paulo: Ubu Editora, 2020.
  • FRIDLUND, Alan; GLEITMAN, Henry; REISBERG, Daniel. Psicologia Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2003.
  • FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1979.
  • KOSELLECK, Reinhart. Estratos do tempo: Estudos sobre história. Rio de Janeiro: Contraponto/ PUC-Rio, 2014.
  • SAHLINS, Marshall. Ilhas de história Rio de Janeiro: Zahar, 1990.
  • QUIJANO, Aníbal. Colonialidad y modernidad/racionalidad. Revista del Instituto Indigenista Peruano, v. 13, n. 29, p. 11-20, 1992.
  • TROUILLOT, Michel-Rolph. Silenciando o passado: Poder e a produção da história. Rio de Janeiro: Cobogó, 2024.
  • WASSERMAN, Claudia. A teoria da dependência: Do nacional desenvolvimentismo ao neoliberalismo. Rio de Janeiro: FGV Editora, 2017.
  • 1
    Expressão em língua inglesa para se referir ao tipo ideal de colonizador dos EUA, White Anglo Saxon Protestant (branco, anglo-saxão e protestante) que estaria presente no mito de origem em torno do Mayflower.
  • Editor responsável:
    Nathália Sanglard de Almeida Nogueira

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    08 Dez 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    5 Fev 2025
  • Revisado
    2 Set 2025
  • Aceito
    18 Ago 2025
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Pós-Graduação em História, Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal de Minas Gerais Av. Antônio Carlos, 6627 , Pampulha, Cidade Universitária, Caixa Postal 253 - CEP 31270-901, Tel./Fax: (55 31) 3409-5045, Belo Horizonte - MG, Brasil - Belo Horizonte - MG - Brazil
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