RESUMO
O artigo analisa as dinâmicas populacionais indígenas na Amazônia colonial portuguesa entre 1680 e 1750, focando no Estado do Maranhão e Grão-Pará. Utilizando registros de recrutamento de trabalhadores indígenas, relatos de epidemias e estudos demográficos comparativos, estimamos a população indígena incorporada aos espaços coloniais em três momentos-chave: 1700, 1730 e 1750. Apesar das severas epidemias de varíola e sarampo, especialmente entre as décadas de 1730 e 1750, a população indígena colonial cresceu consideravelmente, devido a ciclos de redução demográfica e reposição. As perdas por doenças e exploração eram compensadas por novos recrutamentos do interior, resultando em uma complexa dinâmica de declínio, recuperação e expansão populacional. Mobilidade forçada, escravidão e doenças atuaram conjuntamente, transformando as configurações sociais nas fronteiras coloniais e levando a um crescimento significativo da população indígena incorporada, que pode ter mais do que quadruplicado entre 1700 e 1750.
PALAVRAS-CHAVE
epidemias; escravidão indígena; demografia colonial
ABSTRACT
The article analyzes indigenous population dynamics in the Portuguese colonial Amazon between 1680 and 1750, focusing on the State of Maranhão and Grão-Pará. Using records of indigenous worker recruitment, epidemic reports, and comparative demographic studies, we estimate the indigenous population incorporated into colonial spaces at three key moments: 1700, 1730, and 1750. Despite severe smallpox and measles epidemics, especially in the 1730s and 1750s, the colonial indigenous population grew considerably due to cycles of demographic reduction and replenishment. Losses from diseases and exploitation were offset by new recruitments from the interior, resulting in a complex dynamic of population decline, recovery, and expansion. Forced mobility, slavery, and diseases acted together, transforming social configurations on colonial frontiers and leading to significant growth in the incorporated indigenous population, which may have more than quadrupled between 1700 and 1750.
KEYWORDS
epidemics; indigenous slavery; colonial demography
Há alguns anos, nos propomos o desafio de formular uma metodologia que nos permitisse estimar a população indígena colonial no Estado do Maranhão e Grão-Pará1 para a primeira metade do século XVIII. A dificuldade particular dessa empreitada era a de que estávamos lidando com o período anterior ao chamado “proto-estatístico”, isto é, aquele que se inicia a partir de meados do século XVIII, quando passam a existir dados demográficos relativamente organizados sobre as possessões imperiais ibéricas (Scott; Matos, 2017). No nosso caso, ao contrário, os dados de que dispúnhamos não eram as variáveis clássicas da demografia, isto é, não eram registros de nascimentos, casamentos e óbitos.
Assim, para estimar a população indígena colonial, nós nos propusemos a fazê-lo a partir dos registros de incorporação das populações nativas à sociedade colonial por meio do trabalho, livre ou escravo. Foi analisando as modalidades de arregimentação do trabalho e os registros disponíveis para cada uma delas que chegamos a propor uma ordem de grandeza da população indígena incorporada ao antigo Estado do Grão-Pará e Maranhão entre mais ou menos 1680 e 1750. Isso nos forneceria um grau de cobertura bastante razoável da população incorporada, pois não era outra a forma pela qual os indígenas saíam de seus contextos tradicionais para passar a viver em contexto colonial.
Nosso ponto de partida foi um estudo publicado em 2016, na Revista de História, em que analisamos e quantificamos as licenças emitidas a particulares para o descimento e resgate de trabalhadores indígenas que seriam empregados nas lavouras dos moradores entre finais do século XVII e meados do século XVIII (Dias; Bombardi, 2016). Posteriormente, ampliamos o escopo da pesquisa em um segundo artigo, também publicado na Revista de História (Dias; Bombardi; Costa, 2020), em que propusemos uma estimativa da população indígena incorporada ao contexto colonial amazônico a partir das diversas modalidades de arregimentação do trabalho indígena: resgates oficiais e particulares, descimentos oficiais e particulares, guerras oficiais e formas ilegais.2 Para cada uma dessas modalidades, desenvolvemos métodos específicos de contagem, resultando em uma estimativa da dimensão da incorporação de populações indígenas aos espaços coloniais na Amazônia entre finais do século XVII e a primeira metade do século XVIII, período anterior às primeiras tentativas sistemáticas de censos produzidos pela Coroa portuguesa. Esse estudo nos levou a concluir que a mobilização de pessoas para compor o contingente de trabalhadores indígenas, em termos de ordem de grandeza, era comparável a outros contextos de intensa exploração do trabalho africano na América portuguesa.3
Contudo, dimensionar a incorporação de populações indígenas ao mundo colonial não equivale a dimensionar a população indígena efetivamente presente no período. Esse era o limite do nosso estudo anterior. Além das mortes naturais, diversos outros fatores contribuíam para o decréscimo da população, incluindo as fugas dos espaços coloniais e, de forma mais significativa as epidemias que assolavam as populações. Decidimos àquela altura, nos concentrar na estimativa de uma ordem de grandeza4 da incorporação para refletir, em um momento posterior, sobre os fatores de decréscimo populacional propriamente ditos.5
No presente artigo, completamos essa tarefa. A partir dos dados levantados nos dois estudos anteriores, nosso objetivo aqui é estimar a população indígena nas áreas de colonização portuguesa da Amazônia, nos anos de 1700, 1730 e 1750, para os quais possuímos dados mais ou menos sólidos. Entre esses anos-chave, propomos tanto taxas de crescimento quanto de decréscimo populacional. Dessa forma, pretendemos oferecer uma estimativa mais acurada da população indígena que estava efetivamente integrada aos espaços de colonização nesses momentos e identificar, em grandes traços, as variações populacionais naquele contexto.
Apesar das severas epidemias, a população indígena colonial apresentou um crescimento significativo ao longo do período analisado, crescimento esse delineado por ciclos de recrutamento, morte e novo recrutamento, em que as perdas populacionais devido às epidemias eram seguidas pela intensificação de guerras, resgates e descimentos de novos indivíduos. Esse crescimento demográfico da população indígena incorporada ao contexto colonial esteve diretamente relacionado com o declínio demográfico das regiões que não estavam submetidas ao domínio colonial, seja por guerras, descimentos, escravização, seja pela própria difusão de epidemias. É justamente no início do século XVIII que identificamos nas fontes um progressivo esvaziamento populacional no Alto e Médio Amazonas e a maior abertura dos seus afluentes, como os rios Japurá e Negro, para o crescente recrutamento de população indígena escravizada.6 Assim, os dados apresentados neste artigo refletem também dinâmicas de decréscimo populacional de outros territórios que, apesar de extremamente importantes de serem dimensionados, não serão diretamente objeto do presente artigo.
ALGUNS ESCLARECIMENTOS DE ORDEM METODOLÓGICA
Dada a complexidade e as limitações das fontes históricas, só é possível realizar a análise que nos propomos na medida em que adotamos uma postura flexível, em que nossa metodologia se adapta à natureza das fontes disponíveis, explorando suas possibilidades, mas reconhecendo também seus limites. Este procedimento, que já empregamos nos dois estudos anteriores, permite que ajustemos nossas análises à medida que novos dados e contextos históricos similares se tornam acessíveis. Se, nos artigos citados, nós desenvolvemos metodologias inteiramente pautadas pela natureza das nossas fontes, porque muito atrelada ao contexto de sua produção, para o presente estudo, mostrou-se conveniente trabalharmos com metodologias de aproximação. Isto é, nos valemos da realização de inferências comparativas com base em estudos realizados para contextos análogos, partindo da hipótese de que há algumas similaridades no comportamento e na movimentação populacional das populações coloniais de fronteira.
Em seguida, cumpre evidenciar que o foco da nossa análise são os indígenas coloniais. Isto é, os cálculos se restringem à população indígena que foi reunida aos espaços coloniais e sobre a qual dispomos dados suficientes para uma abordagem, de certa forma, demográfica. Não faz parte do nosso escopo, aqui, dimensionar o conjunto total da população indígena no período, senão somente daqueles que foram integrados às dinâmicas coloniais. Por um lado, porque esse é um desafio que demanda um esforço interdisciplinar e metodológico de grande fôlego, e que ainda não temos condições de empreender. Por outro, porque nos interessa aqui mensurar em grandes linhas a população indígena colonial, de modo a subsidiar outras investigações de ordem econômica, social e política que incorporem os cálculos propostos, tornando também possível a comparação com outras regiões americanas.
De todo modo, como já foi apontado, nossa análise da população colonial incide sobre a estimativa da população indígena de modo geral. Apesar de não ser possível, a partir dela, propor números, podemos identificar tendências de movimentos populacionais: se constatamos uma intensificação das mortes por epidemias em meados do século XVIII e o intenso movimento de reposição populacional que engendrou, por meio da intensificação das guerras, resgates e descimentos, esse evento impactou justamente as populações de regiões ainda não submetidas ao domínio colonial, drenando comunidades que viviam em seus contextos originais e levando ao declínio demográfico das populações nativas.
Por fim, cumpre um comentário com relação à distribuição espacial dessa população incorporada aos contextos coloniais. Observamos que ela se concentrava especialmente em torno das cidades de Belém e São Luís e em seus arredores, que incluíam áreas urbanas e rurais. Mas, além dessas áreas urbanas, os indígenas compreendidos nos números que estimamos neste estudo estavam também localizados em missões no interior do território, além das fazendas e áreas controladas por colonos. Havia uma expressiva presença indígena nas missões localizadas ao longo do rio Amazonas e na região do Rio Negro, onde aldeias missionárias, mantidas por várias ordens religiosas, abrigavam grupos recrutados por diferentes modalidades. Especialmente no período em que focamos, décadas de 1730 e 1740, há uma concentração grande de movimentação populacional no médio Solimões, médio Rio Negro, Japurá e Rio Branco.
Essas várias localidades não contínuas, situadas tanto nos centros coloniais quanto em regiões interiores, compõem nosso cenário espacial. Os cálculos abrangem, portanto, todos esses espaços, embora sem diferenciá-los aqui. Trata-se de um cálculo geral. Para uma análise que dê conta de diferenças espaciais, seria preciso um outro esforço metodológico, sem a garantia de que isso seja possível para o período anterior à segunda metade do século XVIII. Mas esse é um trabalho que também nos propomos a fazer futuramente.
MOVIMENTOS POPULACIONAIS
Para estimar o decréscimo da população indígena colonial, é útil considerar a vasta bibliografia que busca dimensionar o impacto da chegada dos colonizadores sobre as populações indígenas. A maioria desses estudos destaca o papel preponderante das epidemias como fator de redução populacional. A percepção comum é a de que as doenças trazidas do Velho Mundo provocaram quedas demográficas abruptas e catastróficas, resultando na morte de aproximadamente 90% da população indígena em um curto período, em algumas regiões, já nas primeiras décadas de colonização.7
Contudo, um dos principais autores que discutem esse tema, o demógrafo Massimo Livi-Bacci (2016), argumenta que o declínio populacional indígena não pode ser explicado apenas pelas epidemias, apesar de sua importância. Para Livi-Bacci, é preciso considerar os múltiplos fatores que contribuíram para o colapso demográfico. Em seu trabalho, ele destaca que, além dos patógenos que chegaram com os europeus, as condições ambientais e sociais impostas pela colonização – deslocamentos forçados, guerras e condições de trabalho degradantes – criaram um contexto favorável para a rápida disseminação de doenças e o agravamento das condições de vida das populações indígenas.
Ao analisarmos o caso da Amazônia, nos deparamos também com algumas especificidades. Primeiramente, as estimativas de população indígena pré-colonial para a região variam bastante, devido à diversidade sociopolítica e à extensão territorial da área, que apresentava concentrações populacionais menores e um processo de colonização mais lento e gradual em comparação com outras regiões do continente, como México, Peru ou Antilhas. Nesse sentido, Bacci argumenta que, na Amazônia, os ritmos de decréscimo populacional estariam mais relacionados aos processos de desarticulação social e deslocamentos forçados das populações indígenas do que a surtos epidêmicos isolados. Em sua visão, a colonização não só trouxe doenças, mas também impôs mudanças profundas nas estruturas sociais e territoriais dos povos indígenas, inviabilizando a reprodução física e social dessas populações. Ou seja, a desorganização do modo de vida indígena, através de deslocamentos constantes e da perda de coesão social, teve um impacto demográfico comparável ao das doenças. Ainda que estas sejam hipóteses baseadas mais em teorias do que em evidências concretas, nossa análise da população colonial vai ao encontro das ponderações de Bacci.
O processo de colonização da Amazônia resultou em dois grandes movimentos distintos de declínio populacional indígena: um a leste e outro a oeste. Esses movimentos ocorreram em momentos diferentes e tiveram características próprias, embora ambos tenham contribuído para uma significativa redução demográfica dos povos indígenas na região.
O primeiro grande refluxo demográfico ocorreu no leste amazônico, especialmente por conta das guerras de conquista e associado à produção de tabaco. O jesuíta Antônio Vieira relatou uma devastação populacional da ordem de 2 milhões de indivíduos até meados dos anos 1650, nessa região.8 Embora esse número possa estar exagerado, o missionário testemunha um impacto considerável na população indígena do leste amazônico. De fato, o período de 1600 a 1650 foi marcado por intensos conflitos no litoral do Maranhão e Pará, resultando em fugas e grande mortalidade das sociedades indígenas na região litorânea até a entrada do rio Amazonas. A exploração intensiva do trabalho indígena nas lavouras de tabaco também contribuiu significativamente para esse declínio populacional.
O segundo movimento de decréscimo populacional ocorreu no oeste amazônico, em um período posterior. Este movimento corresponde ao aumento efetivo dos processos de escravização dos povos que se encontravam nessa região, tornando-se mais intenso a partir do final do século XVII e durante o século XVIII.
Entre esses dois momentos, o período de 1650 a 1700 corresponde à consolidação do domínio português sobre o território. Foi um momento de estruturação da rede missionária e das práticas de recrutamento indígena, que preparou o terreno para a intensificação da exploração no oeste. A partir de 1700, observa-se uma intensificação das dinâmicas de descimentos, resgates e guerras no interior. As expedições em busca de trabalhadores indígenas, livres ou escravos, tornaram-se mais frequentes e penetraram mais profundamente no território amazônico.
O auge da busca por indígenas no sertão para incorporação à sociedade colonial ocorreu após a grande guerra contra as populações do Rio Negro (1728-1736). Nesse período, as expedições portuguesas financiadas e comandadas por particulares se regularizaram, focando especialmente no oeste amazônico. Diferentemente do declínio no leste, que foi mais abrupto e concentrado no início da colonização, o declínio populacional no oeste foi mais gradual e intensificou-se principalmente no século XVIII.
Ambos os movimentos de declínio populacional foram influenciados por múltiplos fatores. No entanto, o impacto desses fatores variou entre as regiões e ao longo do tempo. O declínio populacional no oeste amazônico atingiu seu ponto crítico em meados do século XVIII, quando os impactos da colonização – desde a exploração do trabalho indígena até as guerras e epidemias – se intensificaram significativamente. Este período marca uma queda populacional expressiva, reforçando a interpretação de que a desarticulação social e os deslocamentos forçados tiveram um papel determinante no processo de depopulação, atuando em conjunto com os surtos epidêmicos e outras formas de violência colonial.
Não temos dados sobre o primeiro grande declínio demográfico denunciado por Vieira, embora possamos deduzir, pela análise qualitativa das fontes, que, de fato, tenha sido importante, já que, na década de 1660, os moradores exigiam das autoridades coloniais que se realizassem resgates e descimentos na região do Rio Negro, sob o argumento de que não se encontravam mais escravos nas áreas do baixo Amazonas.9 Os dados de que dispomos se referem a este segundo momento de grande declínio populacional, pois, com a intensificação das práticas coloniais de arregimentação do trabalho indígena por meio das guerras, dos descimentos e dos resgates, temos registros desses processos. E temos também testemunhos dos impactos que as epidemias associadas a essas dinâmicas acarretavam.
FATORES DE DECLÍNIO POPULACIONAL
A redução da população indígena durante a colonização foi causada por uma combinação de fatores, que aqui dividimos entre os que são incontáveis e um único contável. Esses fatores, do ponto de vista analítico, são considerados, em nosso estudo, de maneira integrada, haja vista que se reforçavam mutuamente, agravando o decréscimo populacional. Os fatores incontáveis incluem práticas impostas pela colonização que desestabilizavam e desestruturavam as comunidades indígenas, comprometendo sua capacidade de reprodução social, política e demográfica.
A colonização implicou um conjunto de processos contínuos que desarticularam profundamente as estruturas sociais indígenas. A escravização destacou-se como um dos principais mecanismos de ruptura, ao incorporar indígenas à força de trabalho colonial e provocar ciclos recorrentes de captura e fuga. Associada a isso, a mobilidade laboral forçada, tanto nas missões quanto em campanhas extrativistas e militares, afastava sistematicamente os homens de suas comunidades, minando a coesão familiar e comunitária. A imposição da monogamia nas missões, por sua vez, alterava padrões tradicionais de reprodução, contribuindo para a desestruturação dos laços sociais e demográficos.
Esses processos estavam atrelados à transformação forçada do cotidiano indígena, especialmente no que diz respeito à produção e subsistência. As mudanças nas práticas agrícolas impostas pelos colonizadores afetavam a segurança alimentar, comprometendo a saúde e a sobrevivência das populações. O deslocamento compulsório em direção às missões, aos aldeamentos e às fazendas fragmentava ainda mais as redes de pertencimento e de solidariedade interna, fragilizando as bases organizativas das comunidades.
A escravização de pessoas em idade reprodutiva, submetidas a condições exaustivas de trabalho e privadas de seus vínculos comunitários, reduzia drasticamente as possibilidades de formação de famílias e de transmissão de saberes e práticas culturais. Esse conjunto de fatores evidencia que o impacto da colonização sobre as populações indígenas não foi apenas pontual ou biológico, mas estrutural, sustentado por políticas que sistematicamente fragilizaram suas formas de reprodução social, econômica e cultural (Bombardi, 2024, p. 40-53). A concentração populacional em aldeamentos também gerava condições propícias à disseminação de doenças com alto potencial letal, o que agravava ainda mais a dificuldade de recomposição populacional.
O único fator quantificável são as epidemias. Sua importância para a análise do declínio populacional indígena está justamente no fato de elas permitirem a obtenção de dados concretos.10 Por isso, é preciso ter em mente que elas são agravadas pelos fatores incontáveis, que intensificavam a vulnerabilidade às doenças. Esse agravamento conheceu um apogeu em meados do século XVIII, quando houve incremento da entrada de indígenas na sociedade colonial. A combinação de ambas as ordens de fatores gerou um cenário especialmente crítico, culminando em um processo de decréscimo populacional acelerado, associado ao significativo incremento das práticas de arregimentação de trabalho indígena.
As epidemias, no entanto, não afetavam a população de maneira homogênea. Alguns grupos sofriam mais intensamente com seus efeitos, especialmente idosos e crianças, que apresentavam maior vulnerabilidade a diversas doenças infecciosas. O sarampo, por exemplo, impactava de forma mais grave os jovens, comprometendo a taxa de sobrevivência infantil e criando um ciclo difícil de reversão, sobretudo em sociedades já fragilizadas pela colonização. Além disso, ainda que as doenças não distinguissem entre pessoas livres e escravizadas, a condição de vida dos indivíduos fazia diferença. Segundo Dario Scott (2022), analisando o contexto do Sul do Brasil, a vulnerabilidade dos escravizados muitas vezes amplificava o impacto das epidemias, dificultando a recuperação demográfica. No entanto, nossas fontes indicam que a mortalidade era também muito significativa entre os indígenas livres, especialmente os aldeados. Relatos sobre a epidemia de 1726, por exemplo, sugerem que os escravizados foram menos atingidos, pois seus senhores os esconderam em fazendas, reduzindo seu contato com outros indígenas. Enquanto isso, indígenas livres trabalhavam na construção da Sé em meio ao contágio, o que os expôs ainda mais à doença.11
Em seu estudo sobre o impacto das epidemias de varíola em diferentes sociedades americanas pós-conquista, Livi-Bacci (2006) propõe um modelo que considera que a varíola afetava 70% da população não imune, com taxas de mortalidade que variavam entre 30% e 50%, a depender do seu grau de exposição prévio à doença. Isso implica que uma epidemia inicial em uma população totalmente não imune poderia resultar na perda de 35% da população. Embora essas epidemias tenham sido inicialmente devastadoras, o demógrafo argumenta que as populações indígenas, a depender do contexto, possuíam uma notável capacidade de recuperação demográfica, com taxas de natalidade que poderiam alcançar 2% ao ano. Assim, nas epidemias subsequentes, que se dariam em ciclos de 15 anos, a mortalidade tenderia a diminuir, pois ela passaria a incidir sobre 30% dos não afetados nas epidemias anteriores e também sobre os nascidos durante os intervalos.
Emprestando esse modelo para calcularmos os impactos da varíola no Estado do Maranhão, devemos considerar que os altos índices de recrutamento integravam à sociedade colonial constantes levas de indivíduos não imunes.12 De todos os dados que temos sobre taxas de crescimento populacional, o recrutamento é o fator mais agudo. Por essa razão, o número de indígenas recrutados consistiu na base de nossos cálculos de crescimento populacional, enquanto que as mortes por epidemias tornaram-se a base do decréscimo.
DÉCADAS DE 1730 A 1750: UM CONTEXTO DE EPIDEMIAS E INTENSIFICAÇÃO DO RECRUTAMENTO DE TRABALHADORES INDÍGENAS
As décadas de 1730 e 1750 representam um período emblemático, que condensa de forma exemplar os processos em curso. Observamos que, nesse período, houve uma intensificação das guerras, aumento da arregimentação forçada, deslocamentos populacionais em larga escala e a recorrência de epidemias. Esse conjunto de fatores reforçou e retroalimentou um ciclo de devastação das populações indígenas não submetidas, culminando em um cenário demográfico de rápido decréscimo.
Em contexto colonial, ao longo da história das epidemias nas regiões próximas a Belém e no Baixo e Médio Amazonas, há registros de surtos de varíola nos anos de 1661, 1695-1696, 1724-1726, 1742-1743, 1776-1778 e 1793-1800, além de uma grande epidemia de sarampo entre 1748 e 1750. Inicialmente, esses eventos ocorreram em ciclos de aproximadamente três décadas de intervalo, ou a cada geração. Entretanto, observamos uma redução progressiva no tempo entre as epidemias, chegando a ocorrer em um intervalo de apenas cinco anos (1743 e 1748). Essa análise revela uma diminuição dos intervalos entre as epidemias, que deixaram de ser geracionais, afetando simultaneamente a mesma população.
Além do aumento na frequência das epidemias, notamos um crescimento significativo no número de mortes decorrentes de cada uma delas. Contudo, é difícil mensurar com exatidão a intensidade de cada epidemia, pois poucos eventos são bem documentados, e os registros que existem muitas vezes não oferecem taxas de mortalidade definitivas. Por meio de cartas de moradores, administradores régios e relatos de viajantes, sabemos que as epidemias de 1724-1726 e 1748-1750 foram especialmente devastadoras, impactando não apenas as populações indígenas, mas também os africanos escravizados e os colonos brancos. Em 1725, pelo menos 3.000 indígenas sucumbiram à varíola, e a epidemia de sarampo de 1748 a 1750 resultou na morte de 20 mil a 40 mil pessoas (Chambouleyron et al., 2011)13.
Uma das primeiras tentativas de compreender a frequência dessas epidemias na América Portuguesa relacionou o surgimento de surtos com o desembarque de navios carregados de africanos adoecidos, contaminados em um contexto de escassez e doenças na África (Alden; Miller, 1987). Mas, embora a epidemia de 1695 esteja claramente vinculada à chegada de um navio com escravos contaminados, essa correlação não se verifica nas epidemias da primeira metade do século XVIII. Na epidemia de varíola de 1742, a contaminação parece ter se propagado do sertão em direção leste; em outros momentos, as origens do contágio permanecem incertas.
Mais uma vez, uma análise mais detalhada das dinâmicas de recrutamento de trabalhadores indígenas no Estado do Maranhão permite explorar novas perspectivas sobre essas questões. Como demonstramos nos estudos anteriores (Dias; Bombardi, 2016; Dias; Bombardi ; Costa, 2020), o recrutamento atingiu seu auge nas décadas de 1730 e 1740, período em que também se observa um crescimento expressivo nas exportações das drogas do sertão, especialmente cacau (Alden, 1976). Esse paralelo sugere uma relação direta entre a intensificação da produção desses gêneros e o aumento da arregimentação do trabalho indígena.
Enquanto, entre 1700 e 1730, a média anual de indígenas incorporados à sociedade colonial por todas as modalidades de recrutamento legais estaria em torno de 1.500 indivíduos, nas duas décadas seguintes, entre 1731 e 1750, esse número subiria para 2.100, um aumento de 40%. Se considerarmos o número máximo de população recrutada, que levava em conta os dados de indígenas escravizados ilegalmente, esse número anual subiria de 3.500 para 6.600, respectivamente (Dias; Bombardi; Costa, 2020).
Qual a conexão entre os surtos epidêmicos e o aumento do recrutamento de trabalhadores indígenas? A análise das demandas dos colonos por trabalhadores após surtos epidêmicos sugere que as mortes causadas pelas doenças impulsionaram a inserção de mais indígenas nos espaços coloniais, uma perspectiva que já foi explorada por diversos autores (Sweet, 1974; Chambouleyron et al., 2011; Dias, Bombardi, 2016). De fato, há uma clara intensificação no número de indígenas recrutados após as epidemias das décadas de 1720 e 1740.
No entanto, essa hipótese não explica a relação entre o aumento do recrutamento e o surgimento de novas epidemias. Como já mencionamos, a congregação de indígenas em aldeias missionárias, por exemplo, facilitava a propagação de doenças, tornando-se um dos principais cenários de mortalidade por epidemias na América Portuguesa. Por outro lado, se considerarmos que o aumento significativo na média anual de trabalhadores recrutados do sertão nas décadas de 1730 e 1740 refletiu também no aumento do número de indígenas vivendo nas fazendas e residências dos colonos, podemos inferir que as condições de vida desses trabalhadores, especialmente no que diz respeito à moradia e nutrição, deterioraram-se. As denúncias de maus-tratos enfrentadas por indígenas escravizados eram frequentes, especialmente nas ações de liberdade (Prado, 2024). Quando somamos a deterioração das condições de vida à maior suscetibilidade dos recém-chegados às doenças do Velho Mundo, percebemos que, assim como as epidemias impulsionaram os colonos a buscarem mais indígenas nos sertões, o crescimento do comércio de escravos também criou um cenário favorável à propagação de novas epidemias.
ESTRATÉGIAS DE CÁLCULO
Neste estudo, buscamos estimar a população indígena presente nas vilas, casas, aldeamentos e cidades do Estado do Maranhão e Grão-Pará entre final do século XVII e primeira metade do XVIII. Para isso, consideramos a incorporação populacional ocorrida ao longo do período, com base em cálculos já realizados em estudo anterior (Dias; Bombardi; Costa, 2020), e dimensionamos o impacto das epidemias de varíola e sarampo. Em termos práticos, estimamos a população indígena nos anos de 1700, 1730 e 1750 levando em conta os efeitos das epidemias sobre os fluxos populacionais resultantes de descimentos, resgates, capturas em guerras e amarrações ilegais. Assim, os resultados foram obtidos a partir da soma de registros e estimativas de deslocamentos populacionais compilados em pesquisas anteriores, aos quais aplicamos taxas de mortalidade incidentes sobre os grupos atingidos pelas epidemias.
Trabalhamos com três categorias de dados e cálculos para estimar o crescimento da população indígena colonial. Os dados mais consistentes apontam para registros populacionais das aldeias jesuíticas (modalidade 1) nos anos de 1696 e 1730, ambos os momentos posteriores a grandes epidemias de varíola. A partir deles, propusemos um ritmo de crescimento populacional para todos os aldeamentos missionários e, então, chegamos ao número de moradores indígenas que existiria nos anos imediatamente anteriores à eclosão de cada epidemia da década de 1740. Em seguida, aplicamos taxas de mortalidade baseadas em fontes documentais, como se verá a seguir, garantindo que o impacto das epidemias seja adequadamente representado. As reduções demográficas foram calculadas considerando que cada epidemia permaneceu ativa por aproximadamente dois anos, ao fim dos quais seus impactos são mais visíveis na população sobrevivente.
A segunda categoria de dados consiste na somatória simples da população recrutada em três modalidades legais de arregimentação de trabalho: descimentos e resgates privados (modalidade 2), resgates oficiais (modalidade 3) e guerras (modalidade 4). Enquanto, na modalidade 2, somamos o número de registros de autorização de resgates e descimentos privados, para as modalidades 3 e 4, estimamos uma média de indígenas recrutados anualmente (no caso dos resgates oficiais) e dos escravizados a cada conflito (no caso das guerras). Os dados foram levantados fundamentalmente nas Atas das Juntas das Missões, nos Anais da Biblioteca Nacional do Maranhão e na documentação avulsa do Arquivo Histórico Ultramarino (capitanias do Pará e Maranhão). Então, somamos esses números e chegamos aos resultados do volume de população recrutada ano a ano.14
A terceira categoria se refere à população indígena recrutada por meios ilegais e, por isso mesmo, difícil de estimar. Um relato do período indica que, a cada 50 escravos, apenas de 10 a 12 possuíam registros formais de escravidão15. Após determinar essa proporção para estimar o volume provável de população indígena escravizada ilegalmente, aplicamos as mesmas taxas de mortalidade derivadas das epidemias de varíola e sarampo para ajustar as estimativas populacionais finais. Esses cálculos ajudam a compreender o impacto cumulativo das epidemias e das práticas de exploração sobre a população indígena.
Para calcular o impacto da varíola (nas epidemias de 1696, 1725 e 1742), aplicamos a proporção 70%/30% proposta por Livi-Bacci (2006)16 e Livi-Bacci e Maeder (2004). No caso da epidemia de sarampo, ocorrida entre 1748 e 1749, dispomos de algumas possibilidades de análise e, por isso, utilizamos diferentes estratégias para estimar seu impacto.
Estratégia 1: inicialmente, aplicamos também a proporção 70%/30% proposta por Livi-Bacci para as epidemias de varíola. Estratégia 2: em seguida, avançamos sobre dados mais concretos: um registro absoluto indicava 10.435 mortes em 43 aldeamentos, um hospício e cinco conventos missionários17.Para estimar o impacto do sarampo em 1750, deduzimos esse valor absoluto de mortos do total da população em 1748, distribuindo o número de mortos entre as localidades conhecidas e ajustando para o total provável de aldeamentos no período.
Estratégia 3: aplicamos taxas de mortalidade de 27% sobre a população indígena projetada, baseada em registros do Convento de Nossa Senhora da Conceição de Guarapiranga dos padres de Santo Antônio. Estratégia 4: outra taxa de mortalidade era de 48%18, resultante da média do número de mortos em nove aldeias ou conventos. Aplicamos também esse percentual de mortalidade sobre a população indígena projetada.
Assim, a segunda estratégia distribui o número absoluto de mortos entre as localidades conhecidas e ajusta para o total provável de aldeamentos no período, enquanto a terceira e a quarta aplicam os percentuais de mortalidade sobre a população indígena projetada. Apresentamos, no quadro 1, os resultados dessas quatro estratégias para demonstrar que, mesmo utilizando diferentes métodos para o sarampo, os cálculos finais tendem a corroborar a tendência geral de mortes e crescimento da população indígena do Estado do Maranhão e Grão-Pará. Três dessas estratégias resultam em números bastante parecidos, tendo destoado apenas a estratégia em que aplicamos um percentual de 48% de número de mortos. Apesar de ter destoado das outras estratégias de cálculo, essa proporção é a que coincide com o relato do governador sobre terem morrido cerca de 40 mil indígenas.19
Finalmente, estimamos os números mínimo e máximo da população indígena recrutada e, consequentemente, da população indígena colonial existente nos três anos-chave e nos anos anteriores e posteriores a cada epidemia. O número mínimo considerou a somatória dos cálculos das modalidades legais de recrutamento, enquanto o número máximo incluiu também a estimativa de indígenas recrutados por meios ilegais.
O gráfico, que apresenta o número da população indígena do Estado do Maranhão e Grão-Pará segundo os cálculos mínimo e máximo, revela uma dinâmica de “recrutamento – morte – recrutamento” de forma mais detalhada ao longo do período analisado. Observa-se que as quedas populacionais significativas geralmente coincidem com períodos posteriores a grandes epidemias. Entre 1694 e 1696, o gráfico mostra uma queda relevante na população mínima (de 29.790 para 24.370) e máxima (de 40.590 para 33.850). Este período corresponde à epidemia de varíola de 1695-1696. A magnitude dessa queda, de aproximadamente 18% na estimativa mínima e 16% na máxima, demonstra o impacto letal da doença.
Entre 1723 e 1726, nota-se outra redução populacional significativa, tanto na estimativa mínima (de 65.075 para 56.155) quanto na máxima (de 140.043 para 126.055). Este período é posterior à epidemia de varíola de 1724-1726. As quedas de cerca de 14% na estimativa mínima e de 10% na máxima ilustram novamente o efeito das epidemias.
Entre 1742 e 1745, observa-se uma pequena queda na população mínima (de 93.837 para 86.395) e um leve aumento seguido de uma pequena diminuição na população máxima (de 228.577 para 231.111, e depois para 245.629, em 1747, caindo para 206.580, em 1750). Este período compreende a epidemia de varíola de 1743-1744 e a epidemia de sarampo de 1748-1750. A menor queda na estimativa mínima para a varíola de 1742-1744 pode indicar um possível surto mais localizado. A queda mais expressiva na estimativa máxima em 1750 pode refletir o impacto da grande epidemia de sarampo.20
Por outro lado, os períodos de crescimento populacional nos gráficos estão alinhados com a intensificação do recrutamento de trabalhadores indígenas. Entre 1696 e 1700, o gráfico mostra um aumento populacional (de 24.370 para 28.257 na mínima e de 33.850 para 43.017 na máxima), sugerindo um esforço de reposição da população após a epidemia de 1695-1696. Um crescimento mais expressivo ocorre entre 1726 e 1730, com um aumento significativo na população mínima (de 56.155 para 67.395) e máxima (de 126.055 para 164.175). Este período sucede a epidemia de varíola de 1724-1726, indicando um período de recrutamento intenso para superar as perdas. De fato, estimamos que o recrutamento anual de indígenas dos sertões quase dobrou entre a primeira e a segunda parte do século XVIII (Dias; Bombardi, 2016; Dias; Bombardi; Costa, 2020).
O período entre 1730 e 1742 também apresenta um crescimento considerável nas duas estimativas (de 67.395 para 93.837 na mínima e de 164.175 para 228.577 na máxima), coincidindo com o pico do recrutamento de trabalhadores indígenas nas décadas de 1730 e 1740, relacionado ao aumento das exportações das drogas do sertão (Alden, 1976; Dias, 2014).
Em relação às tendências ao longo do período, observa-se que a magnitude dos ciclos parece aumentar, especialmente na estimativa máxima. Os períodos de crescimento se tornam mais acentuados, assim como as quedas, em alguns momentos, refletindo tanto o aumento da escala do recrutamento quanto o impacto das grandes epidemias, particularmente a de sarampo (supostamente) no final do período analisado. A frequência das epidemias também se intensifica ao longo do tempo, o que contribui para a natureza cíclica da dinâmica populacional.
Em suma, o gráfico ilustra visualmente a intrínseca relação entre o recrutamento forçado de indígenas e as epidemias no Maranhão e Grão-Pará. As quedas abruptas na população são seguidas por períodos de crescimento impulsionados pela busca colonial por repor a força de trabalho perdida, criando um ciclo contínuo de exploração e devastação, com uma tendência de aumento na escala dessas flutuações ao longo do tempo.
No entanto, mesmo diante de profundos ciclos epidêmicos, nossos cálculos indicam que, entre 1700 e 1750, a população indígena da Amazônia sob colonização portuguesa cresceu de maneira significativa. Ela teria mais que duplicado em 50 anos, se consideramos apenas as modalidades legais de recrutamento. Mas, como sabemos por meio de insistentes denúncias, sejam de agentes coloniais, como dos próprios indígenas escravizados, a escravização ilegal era largamente empregada. Dessa forma, se consideramos também o número de indígenas recrutados por meios ilícitos, a população indígena poderia ter mais do que quadruplicado, saindo de 43 mil indígenas, em 1700, e chegado a compor um quadro de cerca de 200 mil indígenas, em 1750. Trata-se de uma expansão vertiginosa, que fica ainda mais evidente se compararmos a outros contextos americanos, dos quais o mais significativo são as missões jesuíticas do Paraguai. Estima-se que, no ano de 1700, havia, nas trinta reduções, cerca de 86 mil indígenas. Essa população chegou ao seu auge em 1732, atingindo 140 mil indígenas e, após uma sequência de epidemias devastadoras entre 1733 e 1739, chegou de 95 a 100 mil no ano de 1750 (Jackson, 2004; Livi-Bacci; Maeder, 2004).
Se, no Paraguai, esse crescimento populacional é atribuído à organização e estabilidade do sistema missionário, associadas às altas taxas de fecundidade (Livi-Bacci; Maeder, 2004), no contexto amazônico, esses ciclos de expansão são resultado do processo de flexibilização do recrutamento e acesso ao trabalho indígena, que se aprofundou a partir da década de 1720. Processo esse que acompanhou o aumento da produção de gêneros da terra ao comércio de exportação, inserindo a Amazônia colonial no comércio transoceânico a partir da exploração massiva do trabalho indígena livre e escravizado. O comércio de cativos constituiu-se como uma atividade intensa e economicamente lucrativa que, tendo em vista a sua dimensão, contornos e particularidades, não pode deixar de ser explorada de maneira mais detida pelos estudos sobre a escravidão e trabalho no Brasil.
CONCLUSÕES
A análise das dinâmicas populacionais indígenas na Amazônia colonial portuguesa entre 1680 e 1750 revela um quadro complexo de decréscimo populacional e reposição, marcado pela severidade das epidemias de varíola e sarampo e pela intensa mobilização de trabalhadores indígenas. Apesar dos impactos significativos dos deslocamentos forçados, da escravização e das doenças, identificamos que a população indígena integrada ao contexto colonial apresentou um crescimento considerável.
Esse crescimento estava intrinsecamente ligado aos ciclos de recrutamento intensificados após os surtos epidêmicos, visando repor a força de trabalho perdida. As estimativas apresentadas, que consideram tanto as modalidades legais quanto ilegais de arregimentação de trabalhadores, sugerem um aumento populacional significativo ao longo do período analisado, com a população podendo ter mais do que quadruplicado entre 1700 e 1750.
Embora bastante significativos, é importante ressaltar que os métodos apresentados possuem limitações. Em primeiro lugar, é crucial lembrar que os dados disponíveis para esse período em análise não são os registros demográficos clássicos, o que exigiu a formulação de uma metodologia baseada na análise das modalidades de arregimentação do trabalho indígena. As estimativas foram construídas a partir dos registros de incorporação de indígenas à sociedade colonial e inferências comparativas com contextos análogos. Em segundo lugar, a estimativa do número de indígenas recrutados por meios ilegais é particularmente complicada, dependendo de relatos da época, que indicam uma proporção de escravizados ilegais significativamente maior do que os legais. Essa é, por natureza, uma aproximação com uma margem de incerteza considerável.
Em terceiro lugar, as taxas de mortalidade aplicadas, especialmente para o sarampo, podem variar dependendo da fonte utilizada, como a estimativa do governador Francisco Gurjão, que indica 40 mil mortos, enquanto registros missionários do Arquivo Histórico Ultramarino indicam 18 mil mortos entre indígenas missionados e sob controle dos moradores. Além disso, a terceira epidemia de varíola pode ter tido impacto menor do que as anteriores, sugerindo um possível surto mais localizado. Outra limitação importante é a impossibilidade de incluir nas análises o impacto de nascimentos, mortes por causas naturais e o perfil etário e de gênero das vítimas, resultando em números aproximados, não absolutos. Isso demonstra a natureza aproximada do cálculo do impacto das epidemias.
Portanto, embora a estimativa de um crescimento populacional considerável, chegando a mais do que quadruplicar na estimativa máxima, seja um resultado importante, ele deve ser interpretado à luz dessas limitações metodológicas. Os números apresentados oferecem uma ordem de grandeza e indicam tendências significativas, mas não representam uma contagem exata da população indígena na Amazônia colonial entre 1700 e 1750. As estratégias utilizadas fornecem uma base para interpretações mais amplas, mas investigações futuras com dados adicionais poderiam refinar essas estimativas.
Apesar de todas essas limitações metodológicas e da natureza aproximada dos números, foi possível projetar um panorama da demografia indígena amazônica nesse período, evidenciando a relação entre a exploração colonial, os eventos sanitários e as dinâmicas populacionais. Duas importantes conclusões podem ser extraídas desse panorama: a primeira diz respeito à enorme dimensão da exploração do trabalho indígena, cuja intensidade e abrangência se mostram comparáveis a alguns contextos de escravização africana na América portuguesa, conforme apontamos em estudos anteriores; a segunda refere-se aos profundos impactos populacionais dos ciclos de recrutamento, morte e novo recrutamento que atingiram duramente as regiões não submetidas ao domínio colonial, impulsionando a expansão territorial portuguesa, e promovendo a intensa movimentação populacional na Amazônia do século XVIII.
REFERÊNCIAS
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Estado do Maranhão (1621), Estado do Maranhão e Grão-Pará (1654) ou Estado do Grão-Pará e Maranhão (1751) constituiu-se enquanto uma colônia diretamente subordinada à metrópole portuguesa. Sua jurisdição chegou a abranger, ainda que de maneira irregular e por vezes descontínua, os territórios correspondentes à atual região Norte, ao Estado do Maranhão e ao Estado do Piauí.
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Os resgates oficiais e particulares consistiam na aquisição de prisioneiros indígenas de outros grupos em troca de mercadorias, reduzindo-os à escravidão. Eram realizados no contexto de expedições ao sertão do rio Amazonas. Os resgates oficiais eram autorizados e, a partir de 1688, financiados pela Coroa e acompanhados por missionários para legitimar a aquisição. Os resgates particulares surgiram com a flexibilização das leis, permitindo que colonos os financiassem e realizassem diretamente para suas fazendas. Os descimentos oficiais envolviam o deslocamento consensual de aldeias indígenas inteiras para aldeamentos missionários, onde os indígenas se estabeleceriam como “livres”, mas com obrigações de trabalho. Já os descimentos particulares permitiam a colonos financiar o recrutamento de indígenas, levando-os diretamente para suas propriedades para trabalho exclusivo, podendo, inclusive, com a flexibilização da legislação, serem realizados à força.
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3
Adotamos, na nossa abordagem, uma perspectiva abrangente da noção de trabalho indígena, que inclui as múltiplas e diversas modalidades de arregimentação do trabalho às quais os indígenas estavam submetidos. Esta abordagem metodológica está fundamentada em discussões como as apresentadas no artigo de Dias (2019), onde se defende a análise do trabalho indígena a partir de uma pluralidade de experiências e de formas de subjugação que não se limitam ao modelo de escravidão africana.
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Referimo-nos a cálculos que buscam definir números aproximados, em vez de nos concentrar na definição de números exatos. Sem perder a rigidez do levantamento de registros e estabelecimento de cuidadosas estimativas de recrutamento e mortes, a carência de dados demográficos clássicos apresenta-se como um grande desafio a qualquer pesquisador que se proponha a estimar a população colonial amazônica até primeira metade do século XVIII. Por isso, tivemos que lançar mão de aproximações, inferências e métodos comparativos para conseguir chegar aos resultados apresentados (Dias; Bombardi; Costa, 2020).
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5
Há importantes estudos sobre as epidemias no Estado do Maranhão. Podemos citar os trabalhos de Raminelli (1998), Chambouleyron et al. (2011), Sousa (2011) e Martins (2017). Entretanto, pela diversidade da natureza e lacunas dos dados, poucos foram aqueles que arriscaram propor cálculos que esclareçam os impactos das epidemias, com destaque ao importante artigo de Vieira Jr. e Martins (2015).
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Bombardi (2024) argumenta que o processo de avanço colonial sobre o Alto e Médio Amazonas ocorreu em três conjunturas (1686-1700; 1701-1721; 1722-1757). Inicialmente, as territorialidades indígenas foram preservadas graças às redes comerciais de longa distância mantidas pelos nativos. Depois, o equilíbrio de poder se rompeu devido às disputas entre missionários jesuítas, ligados à Quito, e os missionários carmelitas, ligados ao Estado do Maranhão, processo esse que afetou, sobretudo, os territórios ocupados pelos omáguas, yurimáguas e aysuares no rio Solimões. Por fim, a grande guerra contra os manaos e mayapenas (1728-1736), no Médio Amazonas, desmantelou o que seria o epicentro das redes comerciais indígenas e abriu, a partir de 1737, “as cachoeiras do Rio Negro” às sistemáticas tropas de resgates privadas que permaneceram ativas por mais de uma década escravizando milhares de indígenas. Ver também Dias, 2014.
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O texto que inaugura o debate é o artigo de Alfred Crosby (1976). Conforme ressalta o autor, além da vulnerabilidade biológica que os indígenas americanos tinham diante da inserção de patógenos do Velho ao Novo Mundo, as condições materiais de moradia, alimentação, trabalho e o uso da violência também foram fatores que ensejaram um maior alastramento das doenças entre os nativos. Entretanto, segundo David Jones (2003), sua produção foi apropriada de maneira conveniente por parte da historiografia, que passou a tratar como única causa da catástrofe demográfica a ausência de anticorpos nos indígenas para as novas doenças. Para o aprofundamento das discussões sobre a entrada dos patógenos no Novo Mundo e seus impactos, ver: Dobyns (1996, p. 162-165), Alchon (2003, p. 83-108), Metcalf (2004, p. 119-156), Waizbort e Porto (2018), Waizbort (2019).
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8
Carta a d. Afonso, Maranhão, 20 de abril de 1657. In: FRANCO, José Eduardo. CALAFATE, Pedro (dir.). Obra completa Padre António Vieira. Tomo I, vol. II. São Paulo: Loyola, 2014, p. 226.
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Conferir o debate entre a Câmara de Belém e Antônio Vieira, entre janeiro e fevereiro de 1661: “Representação da Câmara de Belém ao padre Vieira a expor as limitações em que vivem pela falta de escravos para os servir”.15 de janeiro de 1661. Biblioteca Ajuda. 54-XI-27, n. 12a, f.1-2; “Carta com a resposta do padre Vieira à representação da Câmara de Belém”. 12 fevereiro1661. Biblioteca Ajuda. 54-XI-27, n.12b, f.2-3v; “Carta da Câmara de Belém ao padre Vieira com resposta à sua carta”. Biblioteca Ajuda. 54-XI-27, n.12c, f. 3v-5 (Berredo, 1988, p. 251-257).
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Pode-se argumentar que as guerras são fatores para os quais se podem extrair alguns dados, pois, de fato, alguns registros de guerras trazem estimativas de mortos. Contudo, as guerras eram realizadas contra populações ainda não incorporadas à sociedade colonial e, por isso, não entram no escopo deste estudo.
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“Carta do governador, João da Maia da Gama, para o rei”. 10/09/1726. AHU (Avulsos), Pará, Caixa 9, Documento 838.
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Na elaboração de proposta metodológica deste artigo, assumimos a estratégia de verificar a viabilidade de aproximação de realidades populacionais análogas a das missões amazônicas. O estudo mais profícuo encontrado foi de Livi-Bacci e Maeder (2004) sobre as missões do Paraguai. Verificamos que a análise da experiência guarani nos ajuda compreender a demografia do período colonial de forma geral, pois as missões jesuíticas do Paraguai oferecem uma particularidade fundamental: a existência de dados seriados, contínuos e relativamente precisos, que permitem análises demográficas segundo padrões clássicos, possibilitando inferências confiáveis sobre mortalidade e crescimento populacional. De fato, trata-se de um contexto distinto, mas que, ao mesmo tempo, nos permite estabelecer paralelos, pois o crescimento que quadruplicou a população das trinta missões paraguaias entre 1643 e 1732 resultou majoritariamente do crescimento natural de pessoas não imunes, enquanto no Maranhão a expansão demográfica se deveu, sobretudo, à incorporação de novos indivíduos recrutados no interior, igualmente não imunes. Embora deva ser realizada com cautela, a aproximação dos dois contextos demográficos não pode ser simplesmente descartada, já que constitui o único recurso possível para propor alguma ordem de grandeza comparativa, que é o objetivo deste trabalho. Além disso, o confronto dos resultados dos cálculos estabelecidos a partir da estratégia dos autores sobre as epidemias de varíola com dados encontrados nas fontes permitiu que confirmássemos a viabilidade o uso da proporção 70% de infectados e 30% de mortos para as epidemias de 1696, 1725-1726 e 1742 (ver Apêndice).
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Sobre a epidemia de 1725-26: “Carta do governador João da Maia da Gama, para o rei, sobre as consequências do contágio das populações dacapitania do Maranhão com a doença das bexigas, logo após a chegada do Bispo do Pará e dos índios que oacompanhavam já por si adoentados.” 2/09/1725. AHU (Avulsos), Pará, caixa 9, documento 757. Importante frisar que a carta de João da Maia da Gama traz dados das mortes até agosto de 1725. A epidemia continuou produzindo vítimas até 1726, ainda que de maneira menos intensa. Sobre a epidemia de 1748-49: “Cartados oficiais da Câmara da cidade de Belém do Pará, para o rei D. José I.” 15/09/1750. AHU (Avulsos), Pará, caixa 32, documento 3001.
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Termos das Juntas das Missões que Setariam nesta Cappitania do Pará em que sepulgavamas Liberdades dos Indios, cujas Juntas foram extintas com a Ley das Liberdades que sepublicou nesta Cidade aos 29 de Mayo de 1756. In: Wojtalewicz, Paul David. The ‘Junta de Missões’: themissions in the Portuguese Amazon. Dissertação de Mestrado, University of Minnesota, 1993; Livro de Termos da Junta das Missões (1736-1740), Arquivo Público do Estado do Pará, Códice 23; Livros de assentos, despachos e sentenças que se determinaram em cada Junta de Missões na Cidade de São Luís do Maranhão – 1738-1777, Arquivo Público do Estado do Maranhão, Códice 1; Anais da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Biblioteca Nacional (Divisão de obras raras e publicações), volume 66, 1948; Anais da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Biblioteca Nacional (Divisão de obras raras e publicações), volume 67, 1948. A sistematização desses dados se encontra em Dias, Bombardi, Costa, 2020.
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Francisco Duarte dos Santos. Pará, 15 de julho de 1735 Moraes 1860, IV, 123-150 (nota).
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16
Em estudo demográfico sobre as missões jesuíticas do Sul, o autor propôs que a cada epidemia 70% da população não imune era infectada, com 30% a 50% destes sucumbindo à doença. Desse intervalo, adotamos a relação 70%/30%, tendo em vista a proximidade e recorrência das epidemias. Consideramos a população não imune os indígenas recrutados dos sertões e aqueles nascidos no intervalo entre as epidemias.
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17
“Carta dos oficiais da Câmara da cidade de Belém do Pará, para o rei D. José I.” 15/09/1750. AHU (Avulsos), Pará, caixa 32, documento 3001.
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Os 27% de mortos foi registrado no Convento de Nossa Senhora da Conceição de Guarapiranga dos padres de Santo Antônio e os 48% de mortos consiste na média do número de mortos em nove aldeias ou conventos onde temos os registros da população anterior à epidemia de sarampo, assim como o número de indígenas vitimados por ela (AHU, PA, 3001).
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Se considerarmos o número máximo, os mortos estão na casa de 40 mil indivíduos usando as estratégias 1, 2 e 3, pois teriam 245 mil indivíduos em 1747 e 206 mil em 1750. Só se considerarmos o número mínimo que esse dado diminui, saindo a população de 91 mil pra 73 a 76 mil, coincidindo com o levantamento que se encontra no documento AHU, PA, 3001, que fala de 18 mil mortos.
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A significativa morte de indígenas nesta última epidemia nos leva ao questionamento se o contágio teria sido mesmo de sarampo. As próprias investigações de Livi-Bacci (2003) apontam para taxas muito menores de mortes pela doença, gerando em torno de 10%. Como a documentação, em geral, faz referência ao termo “mal das bexigas” ou ao “mal contagioso”, fica também difícil saber com exatidão qual o tipo de contágio, sendo possível, talvez, imaginar uma sobreposição de epidemias de sarampo e varíola ocorrendo de maneira concomitante. De todos os modos, para esta epidemia, seja ela de sarampo, varíola, ou as duas, temos dados mais sistemáticos que nos permitiram propor estratégias de cálculos desenvolvidas a partir das fontes investigadas.
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DECLARAÇÃO DE DISPONIBILIDADE DE DADOS:
O conjunto de dados que sustenta os resultados deste estudo deriva do material originalmente publicador por Dias, Bombardi e Costa (2020) e foi posteriormente ampliado com novas informações apresentadas nesta publicação. Dados e fórmulas que embasaram os cálculos constam essencialmente nos apêndices de ambos os artigos.
Apêndice Dinâmicas populacionais indígenas na Amazônia colonial: Escravização e epidemias em ordens de grandeza (1680-1750)
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Editor responsável:
Ely Bergo de Carvalho
O conjunto de dados que sustenta os resultados deste estudo deriva do material originalmente publicador por Dias, Bombardi e Costa (2020) e foi posteriormente ampliado com novas informações apresentadas nesta publicação. Dados e fórmulas que embasaram os cálculos constam essencialmente nos apêndices de ambos os artigos.


