RESUMO
Objetivo: Mapear as evidências científicas sobre a assistência ofertada aos usuários dos serviços de saúde com Covid longa.
Método: Trata-se de uma revisão de escopo com base nos métodos do Joanna Briggs Institute. Foram incluídos estudos primários, nos idiomas português, inglês e espanhol, publicados no período de dezembro de 2019 a junho de 2023, nas bases de dados Biblioteca Virtual em Saúde, Web of Science, Scopus, PUBMED, SciELO e LITCOVID LongCovid.
Resultados: Dos 13 artigos analisados, destaca-se que a assistência direcionada a pacientes com Covid longa está associada a prescrição medicamentosa, indicação de exercícios físicos, telerreabilitação e fisioterapia.
Conclusão: Foi identificada uma fragmentação no cuidado prestado aos usuários dos serviços de saúde com Covid longa, com a assistência direcionada apenas a sintomas isolados, sem abordar o cuidado biopsicossocial que as pessoas com essa condição carecem.
DESCRITORES
Síndrome de COVID-19 Pós-Aguda; Avaliação de Resultados em Cuidados de Saúde; Assistência ao Paciente; Serviços de Saúde
ABSTRACT
Objective: To map the scientific evidence on the care offered to health service users with Long Covid-19.
Method: This is a scoping review based on the methods of the Joanna Briggs Institute. Primary studies were included, in Portuguese, English and Spanish, published between December 2019 and June 2023, in the Virtual Health Library, Web of Science, Scopus, PUBMED, SciELO and LITCovid LongCovid databases.
Results: Of the ١٣ articles analyzed, it stands out that the care provided to patients with Long Covid is associated with drug prescription, indication of physical exercises, telerehabilitation and physiotherapy.
Conclusion: A fragmentation was identified in the care provided to users of health services with Long Covid, with care directed only at isolated symptoms, without addressing the biopsychosocial care that people with this condition need.
DESCRIPTORS
COVID-19 Post Acute Syndrome; Evaluation of Results in Health Care; Patient Care; Health Services
RESUMEN
Objetivo: Mapear la evidencia científica sobre la atención ofrecida a los usuarios de los servicios de salud con COVID Larga.
Método: Se trata de una revisión de alcance basada en los métodos del Instituto Joanna Briggs. Se incluyeron estudios primarios, en portugués, inglés y español, publicados entre diciembre de 2019 y junio de 2023, en las bases de datos Virtual Health Library, Web of Science, Scopus, PUBMED, SciELO y LITCOVID LongCovid.
Resultados: De los 13 artículos analizados, destaca que la atención prestada a los pacientes con Covid larga está asociada a la prescripción de fármacos, indicación de ejercicios físicos, telerehabilitación y fisioterapia.
Conclusiones: Se identificó una fragmentación en la atención prestada a los usuarios de los servicios de salud con Covid larga, con una atención dirigida sólo a los síntomas aislados, sin abordar la atención biopsicosocial que necesitan las personas con esta condición.
DESCRIPTORES
Síndrome Post Agudo de COVID-19; Evaluación de Resultado en la Atención de Salud; Atención al Paciente; Servicios de Salud
INTRODUÇÃO
Após a fase aguda da infecção pelo vírus SARS-CoV-2, pessoas acometidas pela doença começaram a relatar a manifestação de sintomas relacionados a complicações multissistêmicas. Esses casos foram considerados pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como Covid longa, ocorrendo, frequentemente, três meses após o início da Covid-19 e os sintomas persistem pelo menos dois meses e não podem ser esclarecidos por um diagnóstico alternativo(1,2).
Os sintomas da Covid longa são de alto grau de heterogeneidade e podem comprometer as atividades diárias e no trabalho, assim como influenciar diretamente na qualidade de vida das pessoas acometidas. Dentre os sintomas mais comuns apresentados estão a tosse persistente, febre, fadiga, dispneia, dor no peito, dores musculares, perda do olfato ou paladar, alterações no padrão de sono, comprometimento cognitivo, ansiedade e depressão(2).
Existem diversas hipóteses que explicam o desenvolvimento da Covid longa, e algumas estão relacionadas à existência de reservatórios persistentes de SARS-CoV-2 em tecidos, impactos na microbiota e desregulação imunológica(3). No entanto, devido à sua condição multifatorial e à diversidade de sintomas, não há um protocolo padrão para o atendimento das pessoas acometidas por essa condição, o que torna a doença um desafio para os profissionais de saúde, especialmente, no que se refere ao diagnóstico e manejo(1,4-6).
Atualmente, é ofertada uma combinação de tratamentos, sendo o farmacológico direcionado ao alívio dos sintomas e os tratamentos não farmacológicos aqueles que abrangem a reabilitação para melhora das funções comprometidas, apoio psicoterapêutico e social(3,7,8).
Neste contexto, a literatura tem descrito que, embora o diagnóstico da Covid longa geralmente seja realizado por um clínico geral, o manejo desses pacientes exige a cooperação multiprofissional, abordada de forma individualizada e nos âmbitos biopsicossociais, incluindo a pessoa acometida pela doença na autogestão do cuidado à saúde(8).
A assistência aos pacientes com Covid longa exige uma abordagem multiprofissional com foco no cuidado integral; entretanto, por se tratar uma nova doença, ainda não se sabe como essa assistência está sendo prestada pelos profissionais de saúde, permanecendo uma lacuna no conhecimento. Cabe destacar que além do comprometimento da saúde física e mental, a Covid longa pode impactar diretamente o exercício das atividades diárias, incluindo o trabalho assim como a redução da qualidade de vida, além de representar um incremento na demanda dos serviços de saúde(1,4-6).
Assim, estudos que investiguem a forma como a assistência à saúde está sendo ofertada aos pacientes com Covid longa, ou seja, dentro dos princípios do cuidado integral e centrada na pessoa ou realizada de maneira fragmentada e direcionada apenas pelos sintomas, são essenciais e inovadores visto que contribuem para identificar as potencialidades e fragilidades sobre o cenário atual da assistência às pessoas com a doença, bem como podem servir de subsídios para o fortalecimento e implementação de diretrizes para o manejo clínico dessas pessoas. Assim, este estudo tem o objetivo de mapear evidências científicas sobre a assistência à saúde ofertada aos usuários dos serviços de saúde com Covid longa.
MÉTODO
Trata-se de uma revisão de escopo com base nos princípios delineados pelo Joanna Briggs Institute (JBI), que compreendem as seguintes etapas: (1) formulação da pergunta de pesquisa, (2) identificação de estudos pertinentes, (3) seleção dos estudos, (4) coleta de dados, (5) análise, resumo e relato dos resultados, e (6) divulgação dos achados(9).
Definição da Questão de Pesquisa
Para conduzir a busca na revisão, foi adotada a abordagem do JBI, representada pelo acrônimo “PCC”, que abrange os elementos de “P” (população), “C” (conceito) e “C” (contexto). A questão norteadora da pesquisa foi construída com base na estratégia PCC, sendo “P” (indivíduos com Covid longa), “C” (assistência e manejo) e “C” (serviços de saúde), definida da seguinte forma: Como está sendo direcionada a assistência aos usuários com Covid longa nos serviços de saúde?
Estratégia de Busca e Critérios de Inclusão e Exclusão
A busca dos artigos foi realizada nas bases de dados eletrônicas: Biblioteca Virtual em Saúde, Institute for Scientific Information (Web of Science), Scopus, US National Library of Medicine National Institutes of Health (PUBMED), SciELO e LITCOVID LongCovid. As buscas foram realizadas entre os meses de fevereiro e março de 2023, e conduzidas por meio de descritores e seus sinônimos que constam no Descritor em Ciências da Saúde (DeCS) e no Medical Subject Headings (MeSH), nos diferentes idiomas, a saber: Covid longa, assistência de Enfermagem e Atenção Primária à Saúde; e, em inglês, reabilitação, Covid longa e exercício (Quadro 1).
Extração e Seleção dos Estudos
Foram incluídos estudos primários, nos idiomas português, inglês e espanhol, publicados no período de dezembro de 2019 a junho de 2023, presentes nas bases de dados anteriormente citadas. Foram excluídos estudos de revisão, editoriais, protocolos, artigos de opinião, estudos cujo título e resumo não responderam à pergunta-problema, informações de websites e veiculadas em mídia. Também, foram examinadas as listas de referências de todos os estudos encontrados.
As referências encontradas foram importadas para o aplicativo StArt (State of the Art through Systematic Review) e selecionadas em dois níveis: sendo a primeira etapa de seleção a análise por meio da leitura de títulos e resumos, e posteriormente, a leitura do artigo na íntegra. A ferramenta de revisão StArt foi desenvolvida pelo Laboratório de Pesquisa em Engenharia de Software (LaPES) da Universidade Federal de São Carlos(10). Os estudos elegíveis foram recuperados na íntegra e avaliados por três pesquisadores. Em ambas as etapas, as divergências foram debatidas até chegar a um consenso.
Elaboração da Revisão
A elaboração desta revisão também aderiu às recomendações do PRISMA-ScR (extension for scoping reviews) para a extração dos dados(11). Foram obtidos dados pertinentes de cada artigo escolhido, incluindo autores, nome do periódico, país onde o estudo foi realizado, país de publicação, desenho do estudo e principais resultados. Esses resultados são apresentados em quadros e em formato descritivo, abordando aspectos bibliométricos e respondendo à questão central que guiou esta revisão de escopo.
RESULTADOS
Foram identificados 1645 artigos obtidos nas bases de dados. Nesta fase, o total de artigos duplicados foi de 78, sendo selecionados 1567 estudos para análise do título e resumo. A partir desta análise, foram excluídos 1501 estudos, por se tratarem de artigos de opinião, editoriais, revisões e manuais ou não responderem à questão norteadora de pesquisa. Para a leitura completa, foram incluídos 66 artigos, e por fim, foram selecionados 10 estudos para a síntese qualitativa, enquanto 3 artigos foram selecionados a partir das referências dos estudos selecionados (Figura 1).
A priori, foram selecionados estudos sobre assistência de enfermagem oferecida aos pacientes com Covid longa na Atenção Primária à Saúde (APS), no entanto, após o retorno de um número reduzido de estudos que abordavam o tema, ampliou-se o conceito e contexto, respectivamente, para assistência geral e serviços de saúde, sendo acrescentados 3 artigos, sendo 1 retirado, diretamente, das referências dos estudos selecionados e 2 da plataforma US National Library of Medicine National Institutes of Health (PUBMED).
Os estudos incluídos nesta revisão foram publicados entre 1 de dezembro de 2019 e 2 de junho de 2023, sendo que 4 (30,8%) foram realizados no Reino Unido e 1 (7,7%) em cada um desses países, a saber: Estados Unidos, Chile, em diversos países, Alemanha, Ucrânia, Espanha, Portugal, França e Áustria; e os 13 (100%) artigos foram publicados em inglês.
Dentre os 13 estudos selecionados, destacam-se 3 (23,1%), respectivamente, estudos descritivos e ensaios clínicos randomizados (Quadro 2).
Estudos selecionados na revisão, segundo objetivo, tipo de estudo, principais resultados e estratégias e práticas utilizadas pelos estudos para realizar o manejo da Covid longa.
Os artigos analisados neste estudo verificaram o manejo clínico de pacientes com Covid longa, sendo que 10 (77%) estudos observaram a eficácia de exercício físico e fisioterapia para a melhora dos sinais e sintomas.
Os estudos ressaltaram a adoção, por parte dos serviços de saúde, de uma abordagem de cuidado pontual, focada nos sinais e sintomas da Covid longa e com um enfoque biomédico. Neste contexto, 6 (46,2%) estudos avaliaram o conhecimento clínico para o manejo das condições pós-Covid; e apenas 3 (23,1%) abordaram o encaminhamento a serviços especializados.
A telerreabilitação, frequentemente discutida, foi uma estratégia adotada pelos serviços de saúde para o manejo e o acompanhamento de condições biopsicossociais associadas à condição da Covid longa, por 3 (23,1%) estudos. O enfoque das demandas psicológicas foi melhor abordado em 1 (7,7%) estudo, embora estas demandas sejam citadas em outros estudos, que referem uma melhora considerável nesta variável, após as intervenções propostas. Ademais, as pesquisas selecionadas não forneceram orientações específicas para o manejo de pacientes com Covid longa, apenas analisaram ações direcionadas a um campo de atuação delimitado e não direcionaram para a análise da assistência aos sinais e sintomas de forma mais abrangente.
DISCUSSÃO
Os estudos analisados nesta revisão enfatizam os esforços para identificar as ações da assistência à saúde direcionadas a compreender os fatores etiológicos e sanitários da Covid longa, considerando a avaliação clínica e as formas de tratamento oferecidas aos pacientes.
Os sintomas persistentes da Covid-19 apresentados com maior frequência entre os estudos avaliados são afecções respiratórias, como dispneia, dificuldade respiratória e tosse; além de comprometimento da memória, menor capacidade de lidar com frustrações, ansiedade, depressão, ataques de pânico, transtorno obsessivo-compulsivo e confusão mental. Além disso, muitos dos indivíduos apresentam fadiga, fraqueza, mialgia, capacidade física diminuída, disgeusia e anosmia(12–20).
No entanto, a conduta e o manejo da Covid longa ainda são considerados imprecisos, uma vez que há uma incerteza clínica no que refere, principalmente, à identificação desses casos, que se relaciona à hesitação dos profissionais de saúde ao diagnosticar sinais e sintomas específicos associados à condição clínica. Isso impacta a conduta médica, principalmente, à multiplicidade etiológica subjacente à condição pós-Covid, à variedade de tratamentos ofertados aos usuários dos serviços de saúde, aos efeitos adversos à saúde que não são relacionados à Covid-19, à falta de confiança médica quanto ao estado clínico do paciente e às dificuldades de monitoramento dos indivíduos afetados pela Covid longa(17).
Dessa forma, sendo a averiguação de possíveis diagnósticos alternativos à Covid longa limitada, nos serviços de saúde, o profissional de saúde deve considerar a ocorrência de acometimentos multissistêmicos, sendo pertinente a investigação de possíveis causas subjacentes aos sintomas desta condição clínica(21–23). Portanto, destaca-se a importância de realizar uma triagem inicial atentando-se aos diversos sinais e sintomas e considerar a possibilidade de diagnóstico da Covid longa em pacientes que tiveram a confirmação clínica de Covid-19 ou o histórico de teste positivo com sintomas novos ou em evolução(13,21).
Destaca-se que indivíduos com Covid longa sem diagnóstico laboratorial prévio de Covid-19 representam um desafio na prática clínica, uma vez que muitos atingidos pelo SARS-CoV-2 são assintomáticos ou não realizaram o teste RT-PCR, o que torna o diagnóstico da Covid longa mais difícil de ser realizado. Além disso, a variedade de sintomas também interfere no diagnóstico da Covid longa, uma vez que os pacientes podem apresentar desde sintomas mais comuns, como fadiga, dificuldade respiratória, tosse, desconforto nas articulações, dor no peito, dores musculares e cefaleias, até outros sintomas mais raros(25).
Não obstante, devido ao prolongamento da incerteza sobre a causa dos sintomas, a evolução e o tratamento clínico dos sintomas da Covid longa, alguns profissionais de saúde adotam a realização de testes adicionais e o encaminhamento para especialistas, a fim de obter uma avaliação mais detalhada. Tais abordagens podem incluir exames de imagem ou testes diagnósticos para monitorar a recuperação do usuário do serviço e explorar possíveis causas alternativas para a sintomatologia, bem como o seguimento em serviços especializados(17,21,22).
Análogo a isso, a fim de otimizar a assistência à Covid longa, é fundamental valorizar o conhecimento clínico da causa subjacente. Neste contexto, destaca-se que muitos usuários dos serviços sentem que as orientações dos profissionais de saúde são insuficientes ou mesmo não se enquadram no que desejam ouvir e buscam informações na internet, nem sempre em páginas com conteúdos confiáveis, implicando em consequências para a saúde dos mesmos. Em decorrência disso, a capacitação dos profissionais de saúde se faz essencial, especialmente no que se refere à identificação e gestão clínica da Covid longa, de forma a oferecer uma assistência integral e eficaz(22).
Portanto, os serviços de saúde analisados por este estudo referem a importância do diagnóstico com base em critérios científicos e definidos, avaliações clínicas “personalizadas” para cada usuário, encaminhamentos adequados aos especialistas, investigação completa por meio de exames específicos, educação e incentivo da pessoa à participação ativa no gerenciamento da própria saúde, e do profissional de saúde, para que seja capaz de oferecer orientações confiáveis, práticas e de fácil entendimento(21).
Assim, as condutas de diagnóstico da Covid longa vão de acordo com os sintomas apresentados pelo indivíduo. Dessa forma, em manifestações pulmonares deve-se seguir a avaliação clínica, testes de função pulmonar e radiografia de tórax, com a recomendação de tomografia computadorizada em casos de alterações na radiografia ou comprometimento clínico dos pulmões. Além disso, é necessário examinar o usuário e realizar exames não-invasivos (tomografia computadorizada, ecocardiografia ou ressonância magnética) para as complicações cardíacas, realizar hemogramas para as vasculares, testes de sangue e de urina e, em casos abdominais, considerar a necessidade de tomografia computadorizada ou ressonância magnética. Já em condições neuropsiquiátricas, a investigação é realizada por meio de triagem de sinais de estresse, ansiedade e depressão, e, caso necessário, por tomografia computadorizada, eletroencefalograma ou ressonância magnética(26).
Apesar disso, os encaminhamentos para esses serviços especializados enfrentam desafios de coordenação e comunicação entre os níveis de assistência à saúde, especialmente em casos de sintomas mais complexos(18,20). Os cuidados ofertados pelos serviços de saúde são frequentemente associados às terapêuticas anteriormente utilizadas pelos usuários, sem uma integração com outros aspectos do tratamento. Além disso, há uma delimitação de difícil compreensão dos diferentes papéis entre a equipe multidisciplinar e médicos especialistas, o que dificulta a colaboração efetiva entre eles(17).
Dessa forma, por meio da análise dos estudos selecionados nesta revisão, é perceptível a fragmentação do cuidado relacionada ao manejo clínico da Covid longa, em que a assistência oferecida aos usuários é realizada de maneira isolada e com coordenação inadequada entre a articulação dos serviços sanitários. Isso ocorre devido às abordagens assistenciais que não se preocupam com a integralidade em saúde e as aflições individuais dos pacientes, e, muito menos, com a dificuldade da implementação de abordagens multidisciplinares e as orientações clínicas que podem ser indesejáveis ou onerosas para eles(17).
Nesse cenário, estudo realizado em serviços da APS de Portugal mostrou que as enfermeiras buscavam garantir a continuidade do cuidado aos usuários com Covid longa por meio da coordenação entre os níveis de cuidado (assistência hospitalar e APS), incluindo visitas antes da alta hospitalar para avaliar contextos relacionados ao processo saúde-doença, bem como para preparar a família para a alta, a fim de evitar fragmentação do cuidado e interrupções no programa de reabilitação(18).
Contudo, no Brasil, pelo Sistema Único de Saúde (SUS), a continuidade do cuidado e o encaminhamento ao serviço especializado enfrenta diversos desafios, como a demora nos serviços secundários e o longo tempo de espera para consultas de referenciamento, que causam ineficiência no atendimento clínico e agravamento da situação clínica do usuário destes serviços de saúde. Ainda, a baixa frequência de visitas domiciliares a pacientes incapacitados, a falta de uma relação médico-paciente sólida e a comunicação deficiente entre profissionais de saúde impactam negativamente na qualidade do cuidado prestado aos usuários da APS. Além disso, também se destacam os fatores biopsicossociais, que incluem condições incapacitantes que tornam o deslocamento difícil, dores que dificultam a locomoção, dependência de familiares para acesso às consultas, dificuldade de acesso ao transporte coletivo, baixa renda familiar e ausência de apoio financeiro e logístico da família(27).
À vista disso, como uma alternativa para lidar com as necessidades em saúde que surgiram com o aparecimento da Covid longa, passou-se a evidenciar a importância da telerreabilitação. Assim, a reabilitação à distância mostrou sua relevância na mobilidade e no deslocamento dos indivíduos, permitindo o gerenciamento das condições de saúde a partir do conforto de suas casas e com o suporte da equipe de saúde. Desse modo, para pessoas que enfrentam dificuldades de mobilidade, a acessibilidade a cuidados especializados pode ser de difícil gerenciamento e a telerreabilitação emerge como uma solução, utilizando tecnologias de comunicação para oferecer suporte contínuo e reabilitação a pessoas em áreas geograficamente distantes. Ressalta-se que este método não visa substituir as avaliações tradicionais, mas proporcionar uma abordagem alternativa para a assistência em saúde, sendo que já era utilizado no período pré-pandêmico, mas foi amplamente difundido durante e após a fase crítica da Covid-19(12,18,22,28).
Em relação às vantagens, a telerreabilitação domiciliar é uma opção adotada pelos serviços de saúde, quando usada para monitorar ou avaliar usuários destes serviços durante a terapia corretiva, o que é benéfico para indivíduos com condições graves, proporcionando a realização da fisioterapia em casa e evitando o deslocamento até uma unidade de saúde. Apesar disso, a desigualdade no acesso a essa tecnologia é um problema significativo, especialmente em países de baixa e média renda, além de poder ocorrer, também, a falta de contato humano direto com o médico, uma vez que a interação clínica é realizada por meio de tecnologia. Além disso, para cada usuário, os profissionais de saúde precisam adaptar a intervenção à distância para atender às necessidades individuais de tratamento(29,30).
Anteriormente à pandemia de Covid-19, um estudo realizado nos Estados Unidos, com indivíduos em uso de cadeira de rodas, evidenciou que um programa de telerreabilitação atenuou obstáculos associados aos cuidados convencionais, como o deslocamento de suas próprias casas e o acesso a especialistas. Por meio de sessões interativas e avaliações em tempo real, o programa ofereceu uma educação de autogestão eficaz. Ademais, a observação dos participantes em seus ambientes domiciliares favoreceu a identificação e o manejo de prováveis obstáculos que, potencialmente, poderiam afetar o seu tratamento, resultando em abordagens mais rápidas(31).
Igualmente, as abordagens de telerreabilitação são tão eficazes quanto as presenciais, principalmente em programas de gerenciamento de condições crônicas(32). A telerreabilitação favorece os cuidados transitórios, uma vez que é possível manter as intervenções assistenciais em uma modalidade de e-saúde, embora ocorram momentos em que a interação presencial é necessária, principalmente para avaliar e realizar programas de reabilitação respiratória e motora(18).
Assim, a telerreabilitação melhora o acesso aos programas de reabilitação, oferecendo maior conforto aos pacientes com Covid longa e proporcionando a continuidade do cuidado. Cabe ressaltar, que a fase crítica da pandemia impulsionou a adoção das soluções remotas de saúde, permitindo que os profissionais de saúde se adaptassem à nova realidade e oferecessem um suporte mais abrangente e acessível aos usuários dos serviços de saúde, incluindo os programas de reabilitação de acordo com as necessidades individuais. Ainda, no contexto da Covid longa, a telerreabilitação incentiva uma maior autonomia e controle do próprio processo saúde-doença, incluindo estratégias de autogestão. Nessa perspectiva, a inserção de um programa de telerreabilitação, incluindo a autogestão pelos serviços de saúde, pode proporcionar uma melhora na capacidade física, saúde geral, vitalidade, função social e saúde mental em parte dos pacientes acometidos com a Covid longa, bem como a melhoria da fadiga e da dispneia(12,18).
Por outro lado, um estudo enfatizou a necessidade de atendimentos presenciais de pessoas com Covid longa, devido a exigência de monitoramento contínuo, assistência integral e análise de sinais e sintomas, bem como pela dificuldade de realização da avaliação clínica e comunicação, ocasionada pela modalidade remota(22).
Concomitantemente, reabilitações de exercícios físicos moderados são frequentemente indicadas, com a finalidade de aliviar os sintomas e melhorar o desempenho físico (embora seja necessário considerar as limitações e possíveis recidivas de manifestações clínicas da Covid longa, exigindo planos de ações individualizados, a fim de evitar a volta de sinais e sintomas). Nesse sentido, a abordagem multidisciplinar de reabilitação é a ideal, contemplando uma perspectiva holística que abrange as complexas sequelas da infecção por SARS-CoV-2(20).
Estudos sobre a reabilitação da Covid longa por meio da realização de exercícios físicos também evidenciaram redução de sentimentos negativos, como a ansiedade e a depressão, melhoras significativas na qualidade de vida, retorno às atividades diárias e redução de sintomas como tosse, fadiga, comprometimento de memória e dispneia. Destaca-se que exercícios de alta intensidade (isto é, sessões mais longas com exercícios-alvo de maior intensidade) são considerados o tipo de tratamento de reabilitação mais apropriado para indivíduos com falta de ar após a Covid-19, uma vez que a qualidade de vida relacionada à saúde fisiológica apresenta melhora, quando associada a esta variável(13,19).
Em uma intervenção de 8 semanas em um serviço ambulatorial, foi verificada uma redução no número de pessoas que relataram sintomas moderados e graves da Covid longa, especialmente entre aqueles que praticaram exercícios físicos(23). Ainda, as condições funcionais dos pacientes pós-Covid do serviço em reabilitação física melhoraram, com diminuição de sintomas prevalentes da condição como a dispneia, a fadiga, a ansiedade e a depressão, aumento da capacidade de resistência, da composição corporal e na qualidade de vida, e, também, houve uma recuperação significativa na função pulmonar e na força muscular respiratória(14,16).
A fadiga resultante de atividades físicas ou cognitivas pode limitar a participação em tarefas cotidianas, levando a uma sensação de perda de liberdade. Assim, apesar de recaídas com exercícios físicos, a maioria considera o esforço físico compensatório, pelo senso de normalidade e controle, buscando atividades para contrabalançar os efeitos adversos(24).
Nesse contexto, associados à reabilitação física, há a adoção do uso de medicamentos como uma estratégia de manejo da Covid longa, como os analgésicos não opioides (paracetamol e o ibuprofeno) para o alívio de dores de cabeça, além do emprego de corticoides ou broncodilatadores, a fim de tratar alguns sintomas respiratórios(20). Além disso, há considerações sobre o uso de antidepressivos para aliviar os sintomas persistentes de caráter inflamatório, com foco na redução de marcadores inflamatórios e na restauração da função imunológica(33). Outrossim, com o propósito de reduzir a persistência de sinais e sintomas flogísticos, pacientes com Doença Pulmonar Intersticial (DPI) ocasionada pela Covid longa têm utilizado prednisona, que leva a uma melhora rápida e significativa na falta de ar e na função pulmonar(34).
Recomendam-se, também, suplementos vitamínicos, principalmente a vitamina D e vitaminas do complexo B(20). Portanto, é fundamental realizar uma avaliação completa por meio da anamnese, do histórico médico e de exames, a fim de obter uma avaliação abrangente, incluindo análises de sangue, função renal, proteína C-reativa, função hepática, tireoide, hemoglobina A1c (HbA1c), vitaminas D e B12, magnésio, folato e níveis de ferritina(33).
No contexto brasileiro, evidencia-se a importância da APS no que diz respeito ao manejo da Covid longa, uma vez que indivíduos que apresentam sintomas persistentes da Covid-19 tendem a buscar atendimento nesse nível de assistência para avaliação clínica, realização de exames e, se for o caso, indicação de reabilitação por outras especialidades, assim como o encaminhamento para a atenção especializada ou hospitalar(35).
Apesar disso, verifica-se uma minoria de pacientes conseguindo acessar os serviços de reabilitação em saúde. Assim, é preciso garantir o acesso às ações de intervenção, tangendo aos princípios do SUS, e, também, mantendo a continuidade do cuidado. Outro desafio relaciona-se à falta de conhecimento sobre a Covid longa, que pode favorecer a baixa adesão aos serviços de reabilitação, visto que muitos usuários dos serviços podem negligenciar os sintomas. Outrossim, evidencia-se uma falta de preparo e organização dos serviços de saúde brasileiros durante a fase de emergência sanitária imposta pela Covid-19, bem como verifica-se uma falta de conhecimento e padronização da assistência às pessoas que apresentam sintomas característicos da Covid longa(36).
Além disso, é necessário manter um atendimento interdisciplinar, com a finalidade de realizar não apenas a reabilitação física, mas a mental e a social(37). A reabilitação psíquica de sintomas persistentes da Covid-19 nos serviços de saúde que a adotam refere-se a um tratamento baseado na abordagem cognitivo-comportamental e complementado por antidepressivos e tranquilizantes não-benzodiazepínicos, que enfatiza uma melhora dos níveis de estresse, ansiedade e depressão, apesar de, em situações de complicações cardiovasculares, excretoras ou outras manifestações sistêmicas durante a fase aguda da Covid-19, ocorrer maior complexidade cognitiva, demandando suporte psicológico mais profundo(15). Dessa forma, a perspectiva biopsicossocial da saúde é a estratégia mais eficaz para fornecer a assistência em toda a sua integralidade, considerando os fatores psicológicos e sociais do usuário dos serviços, não apenas os aspectos biomédicos(38).
Apesar disso, o exercício físico, principalmente o aeróbico, adotado como estratégia pelos serviços de saúde, apresenta melhorias substanciais na saúde mental de indivíduos com Covid longa, em comparação com os submetidos a tratamentos tradicionais ou que não praticam atividades. Isto ocorre porque a prática de exercícios pode desencadear uma série de alterações interligadas no encéfalo, resultando em um ambiente que oferece proteção contra a depressão e a ansiedade(39).
Portanto, torna-se essencial assegurar o acesso aos serviços que promovem a saúde mental para os pacientes com Covid longa, sendo necessário identificar aqueles que requerem suporte adicional, encaminhando-os ao tratamento especializado. Contanto, é importante evitar a patologização do indivíduo, considerando que os sintomas físicos da Covid-19 podem influenciar na avaliação(40). Dessa forma, apesar de haver protocolos para estratégias isoladas, como reabilitação física, faz-se necessário o desenvolvimento e a implementação de diretrizes específicas de manejo que considerem a integralidade em saúde de pacientes acometidos pela Covid longa(13).
Nesta pesquisa, os resultados evidenciam a reverberação a longo prazo da pandemia da Covid-19 e o impacto nos serviços de saúde, exigindo a formulação de diretivas relacionadas ao cuidado e ao tratamento da Covid longa, além da necessidade do direcionamento de recursos e esforços para abordagens mais eficazes, visto que há uma evidente lacuna na literatura sobre a forma de identificação e manejo clínico das pessoas com essa condição.
CONCLUSÃO
Essa revisão de escopo permitiu identificar que a assistência aos pacientes com Covid longa nos serviços de saúde tem sido direcionada significativamente aos sinais e sintomas da doença, permeada pelo modelo biomédico, evidenciando assim, a ausência do cuidado integral de que a pessoa que desenvolve a doença necessita, visto que os impactos da doença vão muito além da saúde física.
Portanto, este estudo contribui para fortalecer o arcabouço teórico sobre a fragilidade no que tange uma assistência integral direcionada aos pacientes com Covid longa nos serviços de saúde bem como para a elaboração e implementação de protocolos de manejo clínico da doença que orientem à importância de uma coordenação multiprofissional no cuidado integral dessas pessoas. Por fim, sugere-se que estudos futuros trabalhem na identificação das dificuldades dos profissionais de saúde para oferecer um cuidado integral aos usuários dos serviços de saúde com Covid longa.
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