RESUMO
Objetivo: Analisar atitudes de profissionais de enfermagem diante dos fatores de estrutura e processo que podem predispor a eventos adversos em unidades de terapia intensiva neonatal e pediátrica.
Método: Estudo transversal realizado em dois hospitais públicos do Nordeste brasileiro em 2019. Aplicou-se questionário sociodemográfico/profissional e Escala de Predisposição a Eventos Adversos a 100 profissionais de enfermagem. Utilizaram-se os testes ANOVA, Tukey e t de Student para comparação das médias das escalas ideal e real, segundo as variáveis sociodemográficas, adotando-se p < 0,05.
Resultados: A maioria dos profissionais demonstrou baixa e média percepção dos fatores de estrutura e processo. Constatou-se associação estatística significante na dimensão processo com: faixa etária 40–49 anos, unidade neonatal/hospital 2 e vínculo por cooperativa.
Conclusão: Profissionais de enfermagem de unidades de terapias intensivas neonatal/pediátrica apresentam baixa e média percepção dos fatores predisponentes a eventos adversos, o que merece investimento de lideranças para evitar que percepções inadequadas resultem em dano aos pacientes.
DESCRITORES:
Enfermagem; Atitude do Pessoal de Saúde; Unidades de Terapia Intensiva Neonatal; Segurança do Paciente; Dano ao paciente
ABSTRACT
Objective: To analyze the attitudes of nursing professionals towards structural and process factors that may predispose to adverse events in neonatal and pediatric intensive care units.
Method: Cross-sectional study carried out in two public hospitals in Northeast Brazil in 2019. A sociodemographic/professional questionnaire and the Adverse Events Predisposition Scale were applied to 100 nursing professionals. The tests ANOVA, Tukey and of Student’s t were used to compare the means of the ideal and real scales, according to the sociodemographic variables, adopting p < 0.05.
Results: Most professionals demonstrated low and medium perception of structure and process factors. A statistically significant association was found in the process dimension with: age group of 40–49 years, neonatal unit/hospital 2, and relation with a cooperative.
Conclusion: Nursing professionals in neonatal/pediatric intensive care units have low and medium perception of factors predisposing to adverse events, which deserves investment from leaders to avoid that inadequate perceptions result in harm to patients.
DESCRIPTORS
Nursing; Attitude of Health Personnel; Intensive Care Units; Neonatal; Patient Safety; Patient Harm
RESUMEN
Objetivo: Analizar las actitudes de los profesionales de enfermería hacia los factores estructurales y de proceso que pueden predisponer a eventos adversos en unidades de cuidados intensivos neonatales y pediátricos.
Método: Estudio transversal realizado en dos hospitales públicos del Nordeste de Brasil en 2019. Se aplicó un cuestionario sociodemográfico/profesional y la Escala de Predisposición a Eventos Adversos a 100 profesionales de enfermería. Se utilizaron pruebas ANOVA, Tukey y t de Student para comparar los promedios de las escalas ideal y real, según las variables sociodemográficas, adoptando p < 0.05.
Resultados: La mayoría de los profesionales demostraron una percepción baja y media de los factores de estructura y proceso. Se encontró asociación estadísticamente significativa en la dimensión proceso con: grupo etario 40−49 años, unidad neonatal/hospital 2 y vinculación a cooperativa.
Conclusión: Los profesionales de enfermería en unidades de cuidados intensivos neonatales/pediátricos tienen percepción baja y media de los factores predisponentes a eventos adversos, lo que amerita inversión por parte de los líderes para evitar que percepciones inadecuadas resulten en daños a los pacientes.
DESCRIPTORES
Enfermería; Actitud del Personal de Salud; Unidades de Cuidado Intensivo Neonatal; Seguridad del Paciente; Daño del Paciente
INTRODUÇÃO
Um estudo realizado nos Estados Unidos da América (EUA) analisou dados de 244.542 pacientes adultos hospitalizados em 3.156 hospitais e identificou uma redução nas taxas de eventos adversos entre 2010 e 2019. Apesar dessa queda, os índices ainda permanecem elevados, com registros de 139 eventos adversos por 1.000 pacientes com infarto agudo do miocárdio, 116 para insuficiência cardíaca, 119 para pneumonia e 130 para aqueles submetidos a procedimentos cirúrgicos importantes(1). No Brasil, a incidência de eventos adversos foi de 4,4%, em estudo realizado em pronto atendimento, sendo todos considerados como evitáveis(2). Esses dados evidenciam a magnitude do problema e a necessidade de aprofundamento na análise da predisposição a eventos e investigação de estratégias que minimizem os riscos assistenciais, especialmente em ambientes de cuidados intensivos, por reunirem características peculiares que aumentam os riscos para os pacientes, como é o caso das unidades de terapia intensiva pediátrica e neonatal (UTIP e UTIN). A complexidade da assistência destinada a essa clientela, o arsenal terapêutico e a tomada de decisão nas urgências pediátricas tornam o ambiente mais propício a um desgaste da equipe de enfermagem. Diante de tal vulnerabilidade, é cada vez mais crescente o número de publicações relacionadas à segurança de pacientes submetidos a cuidados intensivos(3–5).
Entre os eventos adversos preveníveis, estão os erros de medicação. Erros de medicação podem ser diminuídos pela implantação de várias intervenções utilizando abordagens baseadas em sistemas humanos e tecnologia. Quando se trata de reduzir erros de medicação na UTIP e UTIN, uma abordagem multidisciplinar é primordial(6).
Além da abordagem multidisciplinar, é necessário abordagem multinível para redução de eventos adversos, conforme estudo sobre cultura de segurança, que demonstra que os fatores facilitadores (atividades de nível organizacional ou de gestão) influenciam os fatores de execução (ações da equipe da linha de frente) que, por sua vez, levam a resultados de segurança do paciente. Contudo, a natureza crítica da segurança psicológica entre a equipe de enfermagem tem impacto nesse resultado final(7). Dessa maneira, a perspectiva do profissional e sua percepção da realidade também merece destaque e investigação mais detalhada.
A não ocorrência de eventos adversos tem sido um indicador de resultado da avaliação de qualidade do cuidado em terapia intensiva(8). No entanto, não apenas a identificação dos eventos adversos, mas a percepção do risco deles podem orientar o desenvolvimento de intervenções corretivas e preventivas, por isso é primordial entender a perspectiva de olhar do profissional de enfermagem para que abordagens baseadas em atitudes voltadas para estrutura e para o processo de trabalho sejam formuladas.
Diante do exposto, objetivou-se analisar atitudes de profissionais de enfermagem diante dos fatores de estrutura e de processo que podem predispor a eventos adversos em UTIN e UTIP.
MÉTODO
Desenho do Estudo
Estudo transversal
Local
O estudo foi realizado no período de janeiro a abril de 2019, em dois hospitais de referência no atendimento pediátrico e neonatal, ambos especializados em alta complexidade, pertencentes à rede pública do Ceará. O Hospital 1, com 417 leitos, é reconhecido nacionalmente pelas especialidades de Cardiologia e Pneumologia. Possui duas unidades de terapia intensiva pediátrica (UTIP), totalizando 17 leitos, sendo 8 destinados ao pós-operatório e 9 ao pré-operatório. O Hospital 2 é um centro de referência para cirurgias neonatais, cardíacas, neurológicas e ortopédicas e tratamento do câncer infantil. Sua unidade de terapia intensiva neonatal (UTIN) conta com 12 leitos.
População
A população foi constituída pelos enfermeiros e técnicos de enfermagem das unidades de terapia intensiva neonatal e pediátrica dos dois hospitais, e que correspondiam a um total de 286 profissionais (200 do Hospital 1 e 86 do Hospital 2).
Critérios de Seleção
Os critérios de inclusão adotados foram: ser profissional de enfermagem em função assistencial na unidade há, pelo menos, seis meses. Foram excluídos os que estavam de férias ou de licença/afastados no período da coleta de dados.
Definição da Amostra
Para o cálculo da amostra, utilizou-se a fórmula da população finita, sendo estimada em 164 profissionais. A amostragem foi por conveniência, tendo sido distribuídos questionários aos profissionais que atenderam aos critérios de inclusão. Ao final do período de coleta dos dados, chegou-se a um total de 100 participantes, correspondendo a 61% da amostra estimada.
Coleta de Dados
Aplicaram-se dois instrumentos de coleta dos dados: um questionário sociodemográfico e profissional e a Escala de Predisposição a Eventos Adversos – EPEA. O primeiro reuniu variáveis preditoras contemplando características demográficas e ocupacionais dos participantes (idade, tempo de formação, tempo de atividade no serviço, categoria, quantidade de empregos, carga horária semanal de trabalho, tipo de vínculo empregatício e turno de trabalho). A EPEA é uma escala do tipo Likert de concordância com dois fatores que busca avaliar as atitudes dos enfermeiros sobre os aspectos da estrutura e processos que podem comprometer a qualidade do cuidado de enfermagem em Unidade de Terapia Intensiva (UTI), tendo como indicador de resultado o evento adverso (EA). Contém 46 itens agrupados em duas dimensões: estrutura (12 itens) e processo (34 itens)(9).
A escala avalia o nível de importância que os enfermeiros atribuem aos aspectos da estrutura e processo (nível ideal), bem como a percepção sobre a existência desses aspectos no seu ambiente de trabalho (nível real), os quais podem comprometer a qualidade do cuidado de enfermagem em Unidade de Terapia Intensiva (UTI)(9).
A dimensão estrutura corresponde aos insumos, recursos físicos e financeiros, localização geográfica, equipamentos, acessibilidade e a qualificação/especialização da mão de obra que possibilitam a prestação do serviço. A dimensão processos trata da execução de ações mediante um conjunto pressuposto de critérios, regras, padrões, procedimentos e protocolos, a partir de uma imagem objetiva, para alcançar a melhor assistência(9). A diferença entre a escala ideal e a real representa um escore para cada assertiva.
Os questionários foram autoaplicados e os profissionais abordados em seus locais de trabalho, podendo devolver posteriormente, em data acordada com as pesquisadoras.
Análise e Tratamento dos Dados
Os dados foram analisados no Software estatístico IBM SPSS Statistics 23.0. Utilizou-se estatística descritiva com frequência simples e percentual para os dados categóricos, e média e desvio padrão para os dados quantitativos contínuos.
Para possibilitar a avaliação do desempenho do indivíduo em termos do desempenho do grupo, foram definidas três faixas percentílicas. A definição dos valores associados às faixas percentílicas foi, então, realizada a partir da frequência acumulada dessa variável. Sendo assim, valores abaixo do percentil 50 representam uma baixa percepção sobre as condições que podem predispor à ocorrência de eventos adversos; entre os percentis 50 e 75, uma média percepção; e, acima do percentil 75, uma elevada percepção Tabela 1.
Para comparação das médias da diferença entre as escalas ideal e real para cada item das dimensões estudadas, segundo as variáveis sociodemográficas, foi utilizada a ANOVA, seguida do teste de Tukey; o teste t de Student foi utilizado para comparação da diferença entre as médias ideal e real em relação à atitude dos enfermeiros. Considerou-se um nível de significância de 0,05 (p < 0,05).
Aspectos Éticos
O projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa das duas instituições (Instituição 1 – Parecer nº 2.953.470/2018) e (Instituição 2 – Parecer nº 3.023.603/2018). Os participantes foram informados sobre o caráter da pesquisa, recebendo informações claras sobre ela, e assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE).
RESULTADOS
Participaram do estudo 100 trabalhadores de enfermagem, pois cerca de 20 trabalhadores estavam de férias ou afastados e o restante recusou-se a participar da pesquisa.
A equipe de enfermagem participante é em sua totalidade feminina. A média de idade foi de 37,4 ± 9,2 anos, a maioria era funcionária pública (68,0%) e não casada (68,0%), com tempo de formação e tempo de serviço variando de 1 a 44 anos, com médias de 7,9 ± 6,8 e 11 ± 7,9 anos, respectivamente. O tempo de atuação na área neonatal e/ou pediátrica é muito semelhante ao tempo de serviço, com média 7,4 ± 5,9 anos. As profissionais apresentaram carga horária semanal muito elevada (52,7 ± 14,9), 22% delas trabalhavam entre 61 e 96 horas por semana, devido a 49% terem dois ou mais empregos.
No que diz respeito aos resultados da aplicação da EPEA, a Tabela 2 reúne os achados do nível de percepção das participantes quanto aos fatores predisponentes à ocorrência de eventos adversos nas unidades de trabalho. A maioria das profissionais demonstrou nível baixo e médio de percepção dos fatores de estrutura e processo (78%), havendo mais dificuldade do nível de percepção na dimensão processo.
Distribuição do número de participantes segundo nível de percepção dos fatores predisponentes a eventos adversos nas unidades – Fortaleza, CE, Brasil, 2019.
A Tabela 3 apresenta a comparação das médias dos escores das dimensões estrutura e processo, de acordo com as características das participantes do estudo. Na dimensão processo, a faixa etária de 40–49 anos apresentou a maior média de escore (1,33) em comparação com as outras faixas etárias (p = 0,040). Em relação à unidade de trabalho, a média de escore da UTIN do hospital 2 (1,52) foi superior à das demais unidades (p = 0,007). Quanto ao vínculo empregatício, a média de escore de 1,31 entre os cooperados foi maior do que a dos servidores públicos (p = 0,027). Já na dimensão estrutura, não foram observadas diferenças significativas nas médias dos escores.
Comparação das médias dos escores, segundo a dimensão e as variáveis demográficas/ocupacionais – Fortaleza, CE, Brasil, 2019.
A Tabela 4 apresenta as médias de cada um dos itens da escala na percepção dos enfermeiros do ideal e do real na dimensão estrutura. As médias das assertivas “ideal” foram sempre acima de 4,0 e todas maiores do que as assertivas “real” (p < 0,0001).
Comparação das médias das assertivas ideal e real da dimensão estrutura da EPEA – Fortaleza, CE, Brasil, 2019.
Alguns aspectos destacaram-se como de maior divergência (ideal × real). Os itens mais bem avaliados na prática real das participantes envolveram a presença de dispensadores de álcool gel na unidade (4,70), padronização de soluções e diluição de drogas (4,39) e formulários para notificação de eventos adversos (4,21), p < 0,0001 para todos os itens.
Já os mais mal avaliados foram: capacitação permanente da equipe de enfermagem no uso dos equipamentos biomédicos (3,49), iluminação adequada (3,37), dispor de um programa de qualidade do cuidado no hospital (3,28) e sistema de monitorização multiparamétrica com acompanhamento por meio de central no balcão de enfermagem (2,78), todos com significância estatística (p < 0,0001).
A Tabela 5 apresenta as médias de cada um dos itens da escala na percepção dos enfermeiros do real e do ideal no processo. As médias das assertivas “ideal” foram sempre acima de 4,0 e todas maiores do que as assertivas “real” (p < 0,0001). Houve grandes divergências entre real e ideal na avaliação das participantes na maioria dos itens.
Comparação das médias das assertivas ideal e real da dimensão processo da EPEA – Fortaleza, CE, Brasil, 2019.
Os mais bem avaliados na prática real das participantes foram: identificação dos equipos com rótulo das soluções e data das trocas (4,68), higienização das mãos (4,54), identificação das bombas de infusão (4,50), uso de dois identificadores para identificação do paciente (4,40), protocolo de dupla checagem na administração de medicamento (4,37), indicador de incidência de infecção hospitalar (4,36), proteção da pele (4,34), realização de mudança sistemática de decúbito a cada 2 horas nos pacientes com Braden <17 (4,17) e infusão de hemoderivado em via exclusiva ou com o SF 0,9% (4,19), todos com significância estatística (p < 0,0001).
Já os piores itens avaliados incluíram: utilizar a escala de avaliação de risco de queda (3,00); utilizar a escala de sedação de Ramsay ou RASS (3,03); utilizar protocolo de insulinoterapia (3,08); sistema de dispensação de medicamentos por dose unitária e identificada por paciente (3,16); utilizar índice de gravidade ou índice prognóstico (3,18); aplicar protocolos para identificação de pacientes com identidade desconhecida, comatosos, confusos ou sob sedação (3,25); utilizar a escala de coma de Glasgow (3,25); utilizar a dor como 5º sinal vital (3,42); utilizar escala de avaliação da intensidade da dor (3,49), todos com significância estatística (p < 0,0001).
DISCUSSÃO
O perfil de participantes é um retrato da Enfermagem mundial e brasileira, principalmente quanto à predominância de mulheres jovens, com cargas de trabalho elevadas e tempo razoável de experiência na unidade e na área de atuação. Outras pesquisas realizadas com a equipe de enfermagem já encontraram resultados semelhantes quanto ao perfil apresentado(10–12).
O baixo nível de percepção dos fatores de estrutura e processo corroboram os resultados do estudo dos autores da escala. Eles encontraram 48,8% dos profissionais com baixo nível de percepção, 26% com médio nível e 25,2% com alto nível de percepção na dimensão estrutura. Quanto à dimensão processo, 48% dos profissionais possuíam baixo nível de percepção, 24,4% médio nível e 27,6% alto nível de percepção(9), dados semelhantes aos desta pesquisa. Esses dados indicam que a percepção dos profissionais sobre esses fatores não é isolada, mas sim um reflexo de um fenômeno mais amplo.
O baixo nível de percepção na EPEA pode representar uma grande preocupação na UTI, visto que percepções inadequadas podem resultar em atitudes com danos aos pacientes. Essa percepção pode estar comprometida devido ao fato de os profissionais de saúde serem permeados de multitarefas, sobrecarregados de informações e, frequentemente, com um fluxo de trabalho interruptivo em UTI. Um ambiente de trabalho tão estressante reduz sua conscientização sobre potenciais riscos de segurança. É necessário, portanto, investimento da gestão no conhecimento de enfermeiros sobre prevenção de eventos adversos(13).
O baixo nível de percepção na dimensão estrutura, identificado nesta pesquisa, contrasta com os resultados de um estudo anterior realizado em UTI adulta, no qual a percepção dos enfermeiros sobre a presença de aspectos estruturais que podem influenciar na ocorrência de eventos adversos foi maior, com concordância de mais de 50% em itens como iluminação adequada para a execução das atividades, distribuição dos leitos de forma que favoreça a visualização direta dos pacientes, disponibilidade no posto de Enfermagem de manual de normas, rotinas e procedimentos atualizados anualmente, de padronização de soluções e diluição de drogas, de dispensadores de álcool gel entre os leitos e na entrada da UTI e de equipos de cores diferentes de acordo com a finalidade, além de possuir formulário próprio para notificação de eventos adversos(14).
A percepção positiva sobre esses itens específicos pode contribuir para que os trabalhadores adotem práticas mais cuidadosas, pois um ambiente bem estruturado e com recursos adequados reforça a conscientização e a atenção para os riscos. A percepção mais baixa observada nesta pesquisa pode, portanto, indicar uma falta de conhecimento ou uma carência de treinamento adequada sobre a importância desses aspectos.
Não houve significância estatística do domínio estrutura de acordo com a classificação das variáveis sociodemográficas. Já no estudo realizado em UTI adulta, constatou-se uma relação significativa entre a jornada de trabalho dos profissionais e a dimensão estrutura (p = 0,084)(14). Tal fato pode ser influenciado pela não obtenção da amostra estimada, podendo ter diminuído o seu poder de representatividade neste aspecto. Contudo, a comparação entre UTI adulta e neonatal/pediátrica é um ponto de divergência que merece investigação.
Os itens mais bem avaliados na prática real das participantes na dimensão estrutura, com médias acima de quatro, foram poucos, envolvendo presença de dispensadores de álcool gel na unidade, padronização de soluções e diluição de drogas e formulários para notificação de eventos adversos. Os piores avaliados (capacitação permanente da equipe de enfermagem no uso dos equipamentos biomédicos, iluminação adequada, dispor de um programa de qualidade do cuidado no hospital e sistema de monitorização multiparamétrica com acompanhamento por meio de central no balcão de enfermagem) indicam uma necessidade urgente de mudança, estando dentre os itens com maiores divergências entre o ideal e o real.
Esses itens são os que mais merecem atenção, visto que uma maior divergência entre o ideal e o real pode ser um preditor do evento adverso. A percepção do enfermeiro sobre isso, contudo, pode mobilizar fatores de prevenção. E quanto menor o valor da diferença entre o ideal e o real, mais próximo o cenário real está do ideal.
Em relação aos itens mais discrepantes, como sistema de monitorização multiparamétrica com acompanhamento por meio de central no balcão de enfermagem, assim como distribuição dos leitos que favoreça a visualização direta dos pacientes, parece algo simples e padronizado, visto que as UTIs são programadas para terem esse formato. No entanto, algumas UTIs que são improvisadas em locais que não foram estruturados com essa finalidade carecem dessa estrutura básica. Isso representa um grande risco para pacientes graves, podendo resultar em eventos adversos (EA) com óbitos, no caso de uma parada cardiorrespiratória (PCR) não identificada, a exemplo.
Outros itens tidos como bastante discrepantes foram: existência de programas de qualidade e educação permanente. O alinhamento entre programas de qualidade nos hospitais e educação permanente permite monitoramento e capacitação da equipe para melhoria na assistência. A mudança do processo educacional implementada numa UTIN reduziu efetivamente a taxa de doses não mensuráveis prescritas na alta de 1 em 4 para 1 em 25, revelando a importância destes processos educativos para a melhoria da prática profissional e para a segurança do paciente(15).
Quanto à iluminação, em estudo observacional em UTI australiana sobre o ambiente de luz, som e acústica, todos os espaços do leito apresentaram intensidades de luz bem abaixo da iluminação externa. Soluções de iluminação programadas e automatizadas estão disponíveis, mas a equipe pode anular isso se não for educada sobre o papel essencial que a luz desempenha no controle dos ritmos circadianos e no suporte ao sono. Mais pesquisas são necessárias para determinar como a iluminação melhorada impacta na saúde e no desempenho da equipe, e na experiência e nos resultados dos pacientes(16).
Em relação aos dispositivos, item também discrepante entre ideal e real, estudo realizado na Espanha sobre a aquisição de bombas de infusão considera a usabilidade como um critério relevante para seleção dos dispositivos, sendo apontada a importância de refinar a seleção de tecnologia de saúde para melhorar a segurança do paciente(17).
Outro item que merece destaque em divergência é o de disponibilidade no posto de enfermagem de manual de normas, rotinas e procedimentos atualizados anualmente. As escalas, aliadas aos protocolos e checklists, são ferramentas utilizadas para auxiliar na realização de rotinas complexas, aumentando a segurança, diminuindo gastos e otimizando o tempo da equipe(18).
Na dimensão processo, os melhores resultados foram: identificação dos equipos com rótulo das soluções e data das trocas, higienização das mãos, identificação das bombas de infusão, uso de dois identificadores para identificação do paciente, protocolo de dupla checagem na administração de medicamento, indicador de incidência de infecção hospitalar, proteção da pele, realização de mudança sistemática de decúbito a cada 2 horas nos pacientes com Braden <17 e infusão de hemoderivado em via exclusiva ou com o SF 0,9%.
Já no estudo em UTI adulta, destacam-se, com alto nível de percepção de EA, aspectos como utilização do indicador de incidência de lesão por pressão, higienização das mãos, utilização de no mínimo dois identificadores para identificação do paciente, monitorização frequente do paciente analisando a compatibilidade com os dados obtidos pelos monitores multiparamétricos, identificação dos equipos com o rótulo das soluções e data de troca, e as bombas de infusão, aplicação das etapas da SAE, além da utilização de protocolos clínicos baseados em evidência, de insulinoterapia, escala de coma de Glasgow e escala de Braden no diagnóstico de risco para o desenvolvimento de úlcera por decúbito, apresentando algumas semelhanças com os resultados desta pesquisa(14).
Os piores itens avaliados coincidiram, em sua maioria, com os de maiores divergências entre ideal e real: utilizar a escala de avaliação de risco de queda; utilizar a escala de sedação de Ramsay ou RASS; utilizar protocolo de insulinoterapia; sistema de dispensação de medicamentos por dose unitária e identificada por paciente; utilizar índice de gravidade ou índice prognóstico; aplicar protocolos para identificação de pacientes com identidade desconhecida, comatosos, confusos ou sob sedação; utilizar a escala de coma de Glasgow; utilizar a dor como 5º sinal vital; utilizar escala de avaliação da intensidade da dor.
Esses itens, em sua maioria, referem-se à utilização de escalas, índices ou protocolos mais elaborados, além de itens referentes à dor. A utilização de protocolos, entretanto, é extremamente necessária no ambiente hospitalar, especialmente na UTI, seja no cenário adulto ou pediátrico(19−21).
Um exemplo de como a melhoria dos processos, utilizando protocolos na avaliação e conduta, pode influenciar a segurança do paciente, foi apresentado em estudo sobre extubações não planejadas(22), as quais têm sido associadas ao aumento de dias no ventilador, risco de infecção, ressuscitação cardiopulmonar e uso de medicamentos para ressuscitação. Na pesquisa, os autores abordaram as etapas instituídas em uma UTIN para eliminar este EA e a iniciativa de melhoria da qualidade representou diminuição de 64% no total de eventos de extubação (de 46 para 21) (p < 0,001).
Quanto à importância da avaliação da dor em UTIN, um estudo de coorte de bebês muito prematuros evidenciou que maior exposição à dor no início da vida foi associada à maturação alterada da conectividade estrutural neonatal(23). Para essa população, protocolos para analgesia constituem um desafio, pois em neonatos muito prematuros, tanto a exposição precoce à dor quanto a analgesia medicamentosa estão associadas ao neurodesenvolvimento adverso e à maturação cerebral alterada, sem diretrizes claras para o tratamento da dor neonatal(24).
Foram considerados estatisticamente significantes as diferenças de médias entre real e ideal na estrutura processo nas variáveis idade, unidade e vínculo. Ou seja, em relação à idade, as participantes de 40 a 49 anos manifestaram média percepção dos fatores de processo em detrimento das mais jovens e mais velhas, que demonstraram baixa percepção. Isso pode ser justificado pelo fato de que pessoas na faixa etária de 40–49 anos são consideradas experientes e geralmente possuem outros vínculos empregatícios, podendo realizar comparações com outros cenários mais próximos do ideal e obter uma média percepção do EA, diferentemente dos mais jovens ou mais velhos, próximos da aposentadoria, que estão iniciando ou desacelerando do ritmo no ambiente hospitalar.
Quanto às unidades, as profissionais de enfermagem da UTIN do hospital 2 mostraram melhor percepção dos fatores de processo, enquanto que as dos demais hospitais demonstraram baixa percepção. A UTIN é um ambiente extremamente especializado e geralmente conta com profissionais com formações específicas, fato que pode ter contribuído para a melhor percepção.
E, no que diz respeito ao vínculo empregatício, os cooperados mostraram melhor percepção dos fatores processuais do que os servidores públicos. Isso pode ser explicado pela rotatividade dos cooperados e possibilidade de conhecimento de diferentes realidades. O servidor público, muitas vezes, só conhece a realidade do mesmo setor de trabalho. No entanto, estudos sobre a diferença de vínculos precisam ser realizados em relação ao impacto na assistência, uma vez que é sabido que a qualidade de vida do trabalhador sem vínculo é menor do que a do concursado(25). Portanto, os itens relatados com maiores divergências precisam de maiores investigações e intervenções programadas para a prevenção dos EA.
Profissionais de enfermagem percebem que os eventos adversos em terapia intensiva são notificados espontaneamente e que há necessidade de capacitar a equipe em uma cultura de segurança do paciente e desenhar um sistema de vigilância de eventos adversos(26).
Os resultados deste estudo oferecem importantes implicações para a prática assistencial, especialmente no que se refere à segurança do paciente e à melhoria contínua da qualidade da assistência. A percepção das enfermeiras sobre os fatores predisponentes a eventos adversos nas unidades de trabalho, como a estrutura e o processo assistencial, revelou áreas de melhoria significativa. A identificação de lacunas entre o ideal e o real, particularmente em relação a aspectos como capacitação permanente, infraestrutura adequada e protocolos de segurança, aponta para a necessidade de intervenções direcionadas à qualificação contínua da equipe e à otimização dos recursos disponíveis.
Além disso, os achados sobre a carga horária de trabalho elevada e a atuação em múltiplos vínculos empregatícios ressaltam a importância de estratégias que promovam o equilíbrio entre o bem-estar dos profissionais e a segurança do paciente, para garantir uma assistência de qualidade e com menor risco de erros. Essas contribuições podem subsidiar ações de gestão e de formação, além de orientar políticas institucionais voltadas para a melhoria das condições de trabalho e a redução dos eventos adversos nas unidades de saúde.
Como limitação do estudo, ressalta-se a utilização da EPEA apenas no cenário adulto, impossibilitando comparações e análises mais aproximadas. Além disso, a amostra calculada para o estudo foi de 164 participantes, considerando um nível de confiança de 95% para garantir a representatividade dos dados. No entanto, apenas 100 profissionais participaram efetivamente da pesquisa, o que pode impactar a generalização dos resultados.
CONCLUSÕES
Encontrou-se predominância de baixo e médio nível de percepção quanto aos fatores de estrutura e processo que predispõem a ocorrência de eventos adversos nas unidades investigadas. Tal resultado pode sugerir que os profissionais têm uma percepção inadequada quanto à qualidade no processo de trabalho, em que as falhas podem se tornar frequentes e rotineiras, resultando em indicadores negativos para o ambiente de trabalho e a segurança do paciente.
O resultado aponta para a necessidade de lançar um olhar para os itens mais mal avaliados em cada dimensão da EPEA, para que gestores e líderes consigam implementar medidas de melhoria nas estruturas e nos processos de suas unidades pediátricas e neonatais.
Diante do exposto, tem-se um panorama sobre que fatores podem ser priorizados nas duas instituições para melhorar estrutura e processos capazes de proporcionar a segurança de crianças e neonatos ali internados.
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