Open-access Pressão nas proeminências ósseas conforme os decúbitos dorsal, lateral e ventral: ensaio clínico

RESUMO

Objetivo:  Identificar a pressão nas proeminências ósseas nos decúbitos dorsal, lateral e ventral.

Método:  Estudo clínico de fase I, experimental e não randomizado, que comparou as pressões de interface nas proeminências ósseas em três decúbitos (dorsal, lateral e ventral) em indivíduos sadios. A pressão foi medida com o sensor SR Soft Vision® em todos os participantes, posicionados nos três decúbitos e sobre 10 colchões C-CORE®. A comparação da pressão total por decúbito foi realizada por ANOVA.

Resultados:  Foram realizadas 448 avaliações em cada decúbito. A pressão média foi 652,3 (IC 95%: 592,9−711,7) no decúbito dorsal, 1.522,2 (IC 95%: 1.423,0−1.621,4) no lateral e 313,2 (IC 95%: 275,2−351,3) no ventral. Ao estratificar por sexo (p < 0,001), no feminino, a média de pressão foi 540,08 dorsal, 1.200,9 lateral e 169,2 ventral. No sexo masculino, foi 761,3 dorsal, 1.842,0 lateral e 455,3 ventral. A estratificação por peso também apresentou diferenças significativas (p < 0,001) entre os decúbitos.

Conclusão:  Este estudo demonstrou variação significativa nas pressões de interface entre os decúbitos dorsal, lateral e ventral. Registro no ReBEC: RBR-9vsvkn5.

DESCRITORES
Úlcera por Pressão; Pressão; Decúbito Dorsal; Cuidados de Enfermagem; Ensaio Clínico

ABSTRACT

Objective:  To identify pressure on bony prominences in the supine, lateral, and prone positions.

Method:  Phase I, experimental, non-randomized clinical study comparing interface pressures on bony prominences in three positions (dorsal, lateral, and ventral) in healthy individuals. Pressure was measured with the SR Soft Vision® sensor in all participants, positioned in the three decubitus positions and on 10 C-CORE® mattresses. Comparison of total pressure per decubitus position was performed by ANOVA.

Results:  448 assessments were performed in each decubitus position. The mean pressure was 652.3 (95% CI: 592.9–711.7) in the dorsal decubitus, 1.522.2 (95% CI: 1.423.0–1.621.4) in the lateral decubitus, and 313.2 (95% CI: 275.2–351.3) in the ventral decubitus. When stratified by sex (p < 0.001), in females, the mean pressure was 540.08 in the dorsal position, 1.200.9 in the lateral position, and 169.2 in the ventral position. In males, it was 761.3 in the dorsal position, 1.842.0 in the lateral position, and 455.3 in the ventral position. Stratification by weight also showed significant differences (p < 0.001) between decubitus positions.

Conclusion:  This study demonstrated significant variation in interface pressures between dorsal, lateral, and ventral decubitus positions. Registration in ReBEC: RBR-9vsvkn5.

DESCRIPTORS
Pressure ulcer; Pressure; Supine Position; Nursing care; Clinical trial

RESUMEN

Objetivo:  Identificar la presión en las prominencias óseas en las posiciones dorsal, lateral y ventral.

Método:  Estudio clínico de fase I, experimental y no aleatorio, que comparó las presiones de interfaz en las prominencias óseas en tres posiciones (dorsal, lateral y ventral) en individuos sanos. La presión se midió con el sensor SR Soft Vision® en todos los participantes, colocados en las tres posiciones y sobre 10 colchones C-CORE®. La comparación de la presión total por posición se realizó mediante ANOVA.

Resultados:  Se realizaron 448 evaluaciones en cada posición. La presión media fue de 652,3 (IC 95%: 592,9−711,7) en decúbito dorsal, 1522,2 (IC 95%: 1423,0−1621,4) en lateral y 313,2 (IC 95%: 275,2−351,3) en ventral. Al estratificar por sexo (p < 0,001), en las mujeres, la presión media fue de 540,08 en decúbito dorsal, 1200,9 en decúbito lateral y 169,2 en decúbito ventral. En los hombres, fue de 761,3 en decúbito dorsal, 1842,0 en decúbito lateral y 455,3 en decúbito ventral. La estratificación por peso también presentó diferencias significativas (p < 0,001) entre las decúbitos.

Conclusión:  Este estudio demostró una variación significativa en las presiones de interfaz entre las decúbitos dorsal, lateral y ventral. Registro en ReBEC: RBR-9vsvkn5.

DESCRIPTORES
Úlcera por Presión; Presión; Posición Supina; Atención de Enfermería; Ensayo Clínico

INTRODUÇÃO

As lesões por pressão são um dos eventos adversos mais frequentes e dispendiosos em hospitais, mas são potencialmente evitáveis. São reconhecidas internacionalmente como um indicador importante da qualidade da prestação de cuidados de saúde(1). A sua prevenção é uma das metas de segurança do paciente e responsabilidade da equipe multidisciplinar em todos os níveis de atenção do sistema de saúde(2). Quando elas se desenvolvem, o custo do tratamento pode variar de uma cobertura de proteção das proeminências ósseas para uma superfície de suporte dinâmica e pode atingir vários milhares de euros, dólares ou reais(3).

As lesões por pressão são um grande desafio de saúde pública com variações entre os países em relação à sua carga em nível global. Os dados do Global Burden of Disease Study 2019 confirmam que houve melhora de alguns indicadores de 1990 a 2019. Globalmente em 2019, o número de casos prevalentes de lesão por pressão foi de 0,85 milhões, a prevalência padronizada por idade, incidência e taxas de anos vividos com incapacidade foram 11,3, 41,8 e 1,7 por 100.000 habitantes. A maior carga de lesão por pressão foi observada em pacientes idosos, especialmente na faixa etária de 80 a 84 anos para homens e 85 a 89 para mulheres(4). Contudo, não houve diferenças estatisticamente significativas para prevalência, incidência e anos vividos com incapacidade entre homens e mulheres. As diferenças regionais significativas foram mantidas entre anos vividos com incapacidade, padronizados por idade e índice sociodemográfico(4).

Da perspectiva do paciente, as lesões por pressão causam perdas físicas, psicológicas, sociais e econômicas. Em termos de serviços de saúde, elas contribuem para perdas trabalhistas e financeiras significativas. Além disso, o custo das estratégias de prevenção de lesão por pressão mantém diferenças estatisticamente significativas(3). Estudo de revisão sistemática sobre o impacto econômico das lesões por pressão em pacientes internados em unidades de terapia intensiva identificou que as quatro principais fontes de custo para a prevenção foram: superfícies de suporte, coberturas para proeminências ósseas, recursos humanos, especialmente de enfermagem e equipamento para a mobilização(5).

O reposicionamento, em horário individualizado, de todos os indivíduos com risco de ocorrência de lesão por pressão está dentre as medidas de prevenção(6). Esta ação visa reduzir a duração e a magnitude da pressão exercida sobre áreas vulneráveis do corpo e contribuir para o conforto, a higiene, a dignidade e a capacidade funcional do indivíduo(6).

A exposição do tecido mole às deformações sustentadas e concentrações de estresse, que normalmente ocorrem nas proximidades das proeminências ósseas tem vinculação com a posição do corpo (decúbito) sobre a superfície de suporte. As relações entre os níveis de concentrações de estresse do tecido mole perto de proeminências ósseas e o grau de envolvimento durante posturas de sustentação de peso são altamente complexas e podem ter ligação com a ocorrência de lesão por pressão. Essas interações dependem das características anatômicas e geométricas do paciente, da composição do material e da estrutura da superfície de suporte, além da posição específica do corpo(7). Alguns estudos avaliaram intensidade da pressão nas proeminências ósseas sob a influência da inclinação do corpo(8) e o seu reposicionamento(9,10).

Não há evidências claras sobre qual posição e cronograma de reposicionamento são os melhores. Uma revisão constatou que, no geral, a qualidade dos estudos é limitada(11). Uma metanálise não identificou evidência conclusiva sobre a eficácia de diferentes frequências e posições de mudança de decúbito na prevenção de lesões por pressão. Entretanto, mudanças a cada 3h ou 4h podem ser mais econômicas do que a cada 2h. Em relação às posições de inclinação (30° vs. 90°), os resultados também foram inconclusivos(10). Embora o reposicionamento seja necessário para prevenir lesão por pressão, mudar o posicionamento com menos frequência pode ser uma realidade na prática clínica, dadas as propriedades das novas tecnologias dos colchões e a falta de concordância nas evidências sobre o reposicionamento(11).

A posição habitual dos pacientes para distribuir a pressão é a posição dorsal plana, que ajuda a minimizar o cisalhamento e prevenir lesão por pressão nas proeminências sacro/cóccix(12). Contudo, os pacientes não devem ficar todo tempo nesta posição. Eles também são colocados na posição lateral e nos casos de insuficiência respiratória grave, na posição prona.

Considera-se que não é a realidade de grande parte das instituições hospitalares contar com equipamentos sofisticados para a prevenção, como por exemplo, colchões de rotação assistida(13) ou o uso de sensores vestíveis para orientar o reposicionamento de pacientes(14). Uma estratégia popular envolve a rotação e o reposicionamento frequentes dos pacientes(12). Por isso, o conhecimento sobre o valor da pressão nas proeminências ósseas conforme o decúbito pode contribuir para adoção de estratégias de rotação e movimentação dos pacientes na prevenção ou redução de lesões por pressão, especialmente para aqueles com imobilidade ou dificuldades de movimento.

Diante da insuficiência de evidência sobre a intensidade da pressão nas proeminências ósseas e a sua relação com o decúbito, suscitou a questão de pesquisa: qual é a pressão nas proeminências ósseas conforme o decúbito (dorsal, lateral e ventral)? A resposta à questão do estudo pode amparar a revisão de protocolos de prevenção de lesão por pressão no manejo do reposicionamento de paciente em risco. Diante do exposto, o estudo tem o objetivo de identificar a pressão nas proeminências ósseas nos decúbitos dorsal, lateral e ventral.

MÉTODO

Desenho do Estudo

Trata-se da fase I de estudo clínico, do tipo experimental fatorial, não randomizado, comparativo, sem mascaramento para elucidar a hipótese: os decúbitos ventral, lateral e dorsal têm a mesma pressão nas proeminências ósseas (pressão de interface). Para a comunicação do estudo foram considerados os pressupostos do enunciado Consolidated Standards of Reporting Trials (CONSORT)(15). O estudo apresenta Registro Brasileiro de Ensaios Clínicos (ReBEC), com identificador primário RBR-9vsvkn5.

Participantes

Os critérios de elegibilidade foram: participantes de ambos os sexos, idade superior a 18 anos, presença de todos os membros do corpo, independência de movimento, permitindo que a pessoa se mova de forma autônoma e sem restrições e peso de até 180 kg. Os critérios de exclusão foram: relato de incontinência urinária ou fecal, presença de desvio acentuado da coluna à inspeção, doenças dermatológicas do tipo descamativa, feridas cutâneas ou cicatrizes na região glútea ou trocantérica.

O estudo foi realizado no Laboratório de Tecnologia e Inovação (LABTEC C-CORE/UFMG), localizado na Escola de Enfermagem da Universidade Federal de Minas Gerais. No LABTEC foi criado um cenário semelhante à unidade de internação com cama hospitalar da marca Qualitas Plus™ Paramount bed - série A5, com colchão C-CORE®, cuja matéria prima é produzida pela empresa C-CORE Brasil. O colchão é composto por manta reticulada tridimensional de filamentos de polietileno de alta densidade de cadeia longa (3D LOOP), flexível, cuja característica aerada pode potencializar o controle do microclima da pele (temperatura e umidade). A organização dos filamentos cria estrutura que permite alto nível de ventilação. O ambiente durante a coleta de dados foi mantido na temperatura de 23°C.

O recrutamento ocorreu de janeiro a junho de 2024, por meio de um convite, no qual o interessado deveria preencher um formulário no Google Forms com informações pessoais e responder a perguntas conforme os critérios de elegibilidade. Ademais, fez o agendamento do dia e horário para a coleta de dados.

Desfecho

O estudo demandou três intervenções: decúbito dorsal, decúbito ventral e decúbito lateral, formando três grupos distintos para a mensuração do desfecho, pressão de interface nas proeminências ósseas.

A coleta de dados foi no período de junho a dezembro de 2024. Os participantes receberam explicações sobre o estudo e tiveram a oportunidade de esclarecer eventuais dúvidas. Além disso, foi mensurado o peso corporal.

A variável dependente (desfecho) foi pressão de interface e a variável independente o tipo de decúbito (dorsal, lateral e ventral). Também foram consideradas as variáveis: idade, sexo e peso (em quilos) categorizado em < 50 Kg, ≥ 50 Kg e ≤ 80 Kg, > 80 Kg e ≤ 100 Kg, > 100 Kg e ≤ 180kg.

Para avaliação da pressão de interface foi utilizado um sensor SR Soft Vision®, que é uma manta feita de minúsculas células que captam a magnitude da pressão e a área de contato da superfície do corpo da pessoa, convertendo em dados por um software compatível com Windows®. A manta foi colocada sobre cada colchão e o cabo do sensor, conectado no computador, fazia a captação da imagem. Para este estudo foram considerados os pontos de pressão igual e acima de 79 mmHg, classificados como elevados. Para o cálculo da pressão total foram somados todos os pontos de pressão elevada.

Para o estudo foram utilizados 10 tipos de colchões C-CORE® de altura de 15cm, com densidade distinta. O resultado do teste piloto nos decúbitos dorsal, lateral e ventral, envolvendo os 10 colchões, permitiu considerar os colchões como variável única, sem categorias.

Cada participante vestiu roupa leve, tipo legging com camiseta, sem bolso ou laço ou costura para evitar pontos de pressão. A pessoa foi colocada na posição deitada sem o travesseiro e a pressão foi avaliada, especialmente nas áreas das proeminências ósseas. Todos os participantes foram posicionados nos três decúbitos e sobre os 10 colchões da tecnologia C-CORE®, respeitando a sequência de agendamento no LABTEC.

Na posição dorsal mediu-se a pressão nas regiões da cabeça, do dorso, cubital posterior, coccígea e calcanhar. Na posição lateral foram as regiões da face, do dorso, trocantérica, patela e lateral do pé. Na posição ventral (prona) avaliou-se as regiões da orelha, da face, cubital posterior, mama, pelve, patela e dedos do pé. As posições foram parametrizadas com auxílio do goniômetro e trena para manter a angulação de determinadas articulações e o alinhamento do corpo. O alinhamento do corpo proporcionou a capacidade de cada indivíduo reproduzir a posição orientada pelo avaliador, para que não ocorresse desvio do posicionamento. A coleta de dados com cada participante nos três decúbitos (dorsal, lateral e ventral) demandou em torno de 30 minutos. O registro da foto gerada pelo sensor do software foi realizado um minuto após cada posicionamento.

Tamanho da Amostra

Neste estudo a unidade de análise foi o posicionamento em decúbito. Para o cálculo amostral foram considerados os parâmetros estimados no estudo piloto realizado previamente, com uma diferença na pressão entre as posições (dorsal, lateral, ventral) de 60% (tamanho do efeito de 0,60). Para um nível de significância de 5% e poder de 80%, estimou-se uma amostra de 45 indivíduos por grupo, com cada indivíduo sendo testado em 10 diferentes colchões o que resultou em um total de 450 avaliações. O cálculo foi realizado utilizando o programa GPower 3.1.9.7.

O tamanho da amostra, calculada a partir do resultado do piloto, foi superior à referência da fase I de estudo clínico, cujo produto desenvolvido é testado em um grupo de 20 a 100 voluntários sem comorbidades ou complicações, com o objetivo de avaliar a segurança, compatibilidade e eficácia do produto(16).

Métodos Estatísticos

Para a análise de dados foi utilizado o software SPSS versão 21.0. Foi realizada uma comparação da pressão total por decúbito, considerando o colchão C-CORE®, por meio de uma Análise de Variâncias (ANOVA) com um fator. Nesse caso, o desfecho considerado foi a pressão total e a variável de análise (grupo de estudo) o tipo de decúbito (dorsal, lateral e ventral). Essa análise foi estratificada por sexo e peso corporal. O teste de comparação múltipla de Tukey foi realizado quando detectadas diferenças significativas entre os grupos. Em todas as análises foi considerado um nível de significância de 5%.

Aspectos Éticos

O estudo atendeu às Resoluções nº 466/12 do Conselho Nacional de Saúde. Foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa sob o parecer nº 6.853.674, Certificado de Apresentação para Apreciação Ética (CAAE) 78828624.3.0000.5149. Ressalta-se que a participação foi condicionada à assinatura do Termo de Consentimento Livre Esclarecido pela participante.

Em respeito ao preconizado pela Ciência Aberta é informado que no momento os dados não estão disponíveis, uma vez que o estudo é fruto do Projeto de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PD&I), uma parceria público-privada com a empresa C-CORE Brasil.

RESULTADOS

A Figura 1 apresenta o diagrama Consort de seleção dos participantes do estudo(15). Foram recrutados 100 participantes para o estudo com alocação de 48. O estudo resultou em 464 avaliações em cada decúbito, considerando que esta é a unidade de análise, perfazendo o total de 1.392 decúbitos.

Figura 1
Diagrama Consort. Belo Horizonte, MG, Brasil, 2024.

Em relação as características dos participantes, 24 (50%) eram do sexo masculino e 24 (50%) feminino. O peso médio foi 69,7Kg (DP 24,3), com variação de 40,0Kg a 113,5Kg. A idade mínima foi 19 anos e máxima 53 anos, com média de 32,2 anos (DP 11,7).

Quando comparadas as médias de pressão exercida de acordo com os decúbitos dorsal, lateral e ventral (Figura 2), constatou- se pressão média na posição dorsal de 652,3 ± 30,2 (intervalo de confiança [IC] de 95%: 592,9–711,70), lateral de 1.522,2 ± 50,5(IC 95%:1.423,0–1.621,4) e ventral 313,2 ± 19,4 (IC 95%: 275,2–351,3).

Figura 2
Gráfico dos valores médios da pressão por posição.

Em relação as comparações múltiplas do total da pressão entre os decúbitos analisados, considerando os testes de comparações múltiplas (Tabela 1), houve diferença significativa entre eles (valor-p < 0,001).

Tabela 1
Comparações múltiplas da pressão entre os decúbitos analisados – Belo Horizonte, MG, Brasil, 2024.

Quando estratificado por sexo (Figura 3), a diferença entre os decúbitos se mantém significativa (valores-p < 0,001). No sexo feminino, a média de pressão em decúbito dorsal foi de 540,08 ± 35,7 (IC 95%: 470,4–611,2). No decúbito lateral a pressão média foi 1.200,9 ± 61,7 (IC 95%: 1.079,2–1.322,6), enquanto no decúbito ventral foi 169,2 ± 15,5 (IC 95%: 138,7–199,6). Para o grupo do sexo masculino a pressão média no decúbito dorsal foi 761,3 ± 47,5 (IC 95%: 667,8–854,9). No decúbito lateral a média foi 1.842,0 ± 73,8 (IC 95%: 169,5–1.987,6) e no decúbito ventral foi 455,3 ± 32,7 (IC 95%: 390,9–519,7).

Figura 3
Valores médios da pressão por decúbito estratificado por sexo e peso.

A magnitude das diferenças entre a posição lateral e as demais posições mantem a diferença estatística em relação ao sexo. Também, quanto maior o peso, maiores as pressões no decúbito lateral em relação aos demais

Nos testes de comparações múltiplas (Tabela 2) houve diferença significativa entre todos os decúbitos para ambos os sexos. Observa-se, no entanto, que a magnitude das diferenças entre os decúbitos dorsal e lateral, e ventral e lateral são maiores entre os homens (efeito de 1.080,7 e 1.386,7, respectivamente) que entre as mulheres (efeito de 660,1 e 1.031,7, respectivamente).

Tabela 2
Comparações múltiplas da pressão (mmHg) entre os decúbitos por sexo e peso – Belo Horizonte, MG, Brasil, 2024.

A diferença entre os decúbitos é também significativa (valores-p < 0,001) na estratificação por peso, com menores níveis de pressão para o decúbito ventral e maiores para o decúbito lateral, para as quatro categorias de peso (Tabela 2).

DISCUSSÃO

Houve diferença significativa da pressão entre os decúbitos dorsal, lateral e ventral, com menores níveis de pressão para a posição ventral. O decúbito lateral foi a posição que gerou maiores pressões nas proeminências ósseas, principalmente na região trocantérica. Entender o resultado da pressão decorrente do posicionamento pode amparar estratégias para minimizar deformações nos tecidos, reduzindo os valores de pico de tensão e estresse ou diminuindo o tempo de exposição e, consequentemente, prevenindo a lesão por pressão.

Os resultados de uma revisão sistemática indicam que o reposicionamento mais frequente e o uso de uma equipe de rotação reduzem a incidência de lesão por pressão. No entanto, houve baixa certeza das evidências, por isso, os resultados devem ser interpretados com cautela(17). Estes resultados aliados ao achado de que a posição lateral provoca maiores pressões nas proeminências ósseas de pessoas saudáveis, podem subsidiar os profissionais da prática clínica na definição do tempo de permanência do paciente neste decúbito. A tomada de decisão deve considerar a capacidade da superfície de suporte (colchão) em redistribuir a pressão.

Em condições normais, a pressão capilar máxima é de aproximadamente 20 mmHg e a pressão média tecidual varia entre 16 e 33 mmHg. No entanto, quando pressões superiores são desencadeadas por longos períodos do corpo na mesma posição, há um risco aumentado de evoluir para necrose tecidual. A compressão prolongada dos tecidos leva à redução do fluxo sanguíneo, ocasionando dano microcirculatório e diminuição na entrega de oxigênio, resultando em isquemia e lesão por pressão(9). Quando comparadas as médias de pressão exercida de acordo com os decúbitos, constatou-se pressão média na posição ventral de 313,2 mmHg, dorsal de 652,3 mmHg e lateral de 1.522,2 mmHg. Estes valores são superiores à pressão capilar máxima. Por isso, é preciso garantir o regime de mudança de decúbito e superfície de suporte compatível com a necessidade.

Altas deformações do tecido resultam em danos celulares em um nível microscópico em apenas alguns minutos, embora possa levar horas de carga sustentada para que o dano se torne clinicamente visível. Danos superficiais à pele parecem ser causados principalmente por exposições excessivas de tensão. Contudo, lesões por pressão mais profundas resultam predominantemente de altas pressões em combinação com cisalhamento sobre proeminências ósseas(18).

Nas últimas duas décadas tornou-se evidente que a deformação sustentada das células leva diretamente a danos e morte celular. As vias propostas incluem alterações no citoesqueleto e um aumento da permeabilidade das membranas celulares, excedendo o limiar para a homeostase celular normal. Sob alta deformação tecidual, quando o limiar de dano individual é excedido, acredita-se que esse processo seja rápido, em minutos(19).

Considerando todas as camadas de tecido comprometidas, as evidências indicam que sinais de desenvolvimento de lesão por pressão podem ser detectáveis em todos os tecidos envolvidos, incluindo pele, gordura subcutânea ou músculo(20) A localização anatômica, a morfologia (por exemplo, geometria óssea, espessura do tecido), as propriedades dos tecidos moles e rígidos, o grau de deformação do tecido, o microclima da pele, a tolerância individual e a capacidade de reparo determinam se os limiares de dano são excedidos ou não, levando a lesões por pressão mais profundas ou superficiais(21).

Em 2005, pesquisadores investigaram quatro regimes preventivos envolvendo mudanças de decúbito frequentes (2, 3 horas) ou menos frequentes (4, 6 horas) em colchões diferentes. Durante 28 dias, foram utilizados quatro esquemas diferentes: mudança a cada 2 h em um colchão institucional padrão, mudança a cada 3 h em um colchão padrão, mudança a cada 4 h em um colchão de espuma viscoelástica e mudança a cada 6 h em um colchão de espuma viscoelástica. Estes grupos tinham 65 ou 67 pacientes. Os pesquisadores concluíram que fazer mudança de decúbito no colchão viscoelástico a cada 4 horas resultou em uma redução significativa no número de lesões por pressão(22). Contudo, uma recente revisão sistemática da Cochrane evidenciou que o reposicionamento pode ser útil para reduzir o risco de lesões por pressão. Entretanto, sua eficácia depende de fatores, como a superfície de suporte utilizada e o estado clínico do paciente. Além disso, não foi possível determinar com certeza qual tempo é mais eficaz para o reposicionamento, a cada 2, 3 ou 4 horas. Inclusive, quando se trata do decúbito lateral, não há forte evidência apontando que a inclinação de 30° ou 90° seja uma estratégia efetiva para reduzir a pressão em áreas vulneráveis(10).

No presente estudo, a magnitude das diferenças entre os decúbitos dorsal e lateral e, ventral e lateral são maiores entre os homens que entre as mulheres, isso pode ser justificado pela diferença anatômica da estrutura óssea de cada sexo. Esse fato tem relação com o resultado de um estudo que identificou que a inclinação ideal para reposicionamento pode depender do sexo e do índice de massa corporal(8).

Em contrapartida, estudos mostram que o paciente posicionado no decúbito lateral, com um ângulo de 90° em relação a superfície de suporte por mais de 2 horas pode reduzir o fluxo sanguíneo a níveis próximos da anoxia, enquanto uma inclinação de 30° melhora a oxigenação e reduz complicações(9). Embora o reposicionamento do paciente seja aplicado no cotidiano hospitalar, extra-hospitalar e recomendado por diretrizes de boas práticas, ainda há necessidade de estudos robustos sobre o melhor intervalo de tempo para o reposicionamento do paciente.

As diferenças anatômicas entre os homens e mulheres evidencia que homens podem estar mais predispostos a lesões por pressão devido à maior concentração de forças em áreas específicas da pelve. A pelve masculina possui um ângulo subpúbico mais fechado e acetábulos mais próximos, resultando em uma estrutura mais compacta e rígida. Essa configuração pode concentrar o peso corporal em áreas menores, como as tuberosidades isquiáticas, gerando maior pressão nessas regiões, especialmente durante a posição sentada ou decúbito lateral(23). Embora o sexo possa influenciar nas características anatômicas e fisiológicas, deve-se considerar que ele não é um fator determinante isolado para o surgimento de lesões por pressão(24). As divergências reforçam a necessidade de estudos sobre o tema.

Um estudo realizado com indivíduos saudáveis constatou que aqueles com obesidade exerceram maior pressão na região trocantérica a uma inclinação corporal de 30°, quando comparados a indivíduos com sobrepeso, peso normal e baixo peso, respectivamente(8). O estudo realizado identificou que o peso corporal tem relação significativa com a pressão de interface no decúbito lateral. Quanto maior o peso, maior é a pressão nas proeminências ósseas. O achado apoia os enfermeiros na definição de tempo para o reposicionamento. Portanto, o tempo para manter o paciente na posição lateral deve ser menor para aqueles com maior peso corporal, uma vez que a possibilidade de ocorrência de lesão por pressão aumenta proporcionalmente com o aumento do peso. Diante desses achados, sugere-se a necessidade de considerar, além do fator sexo, a influência do peso corporal na pressão exercida, o que pode impactar na formulação de estratégias para a prevenção de lesões por pressão.

No estudo, a posição ventral foi aquela com menor pressão nas proeminências ósseas. O decúbito ventral, conhecido como posição prona, ficou em evidência no manejo da síndrome do desconforto respiratório agudo em pacientes com COVID-19 no período de pandemia. Ele trouxe como principal benefício a redução da mortalidade. Porém, essa posição também apresentou algumas desvantagens. Uma delas foi o aumento do risco da ocorrência da lesão por pressão em regiões corporais atípicas, devido ao contato contínuo com a superfície de suporte, como por exemplo face (testa, asa do nariz, bochecha, lábio, mento), peito, joelho, região pré-tibial e dedos do pé(25).

Além do reposicionamento, a superfície de suporte deve ser ajustada para atender às necessidades individuais do paciente, considerando fatores como o estado da pele e a estratificação do risco de lesões. Porém, há falta de evidências que amparam que uma superfície de suporte seja indicada como padrão ouro na distribuição correta do peso e alívio da pressão(26). Identificar a frequência ideal de mudança de decúbito e reposicionamento é fundamental para a prevenção de lesão por pressão em ambientes de saúde. Além disso, pesquisadores de enfermagem devem ser incentivados a realizar pesquisas adicionais para investigar os fatores que influenciam a eficácia da frequência de mudança no desenvolvimento de lesão por pressão(12.).

Este é um estudo de desenho experimental fatorial sem randomização o que pode introduzir vieses, pois a alocação dos participantes nas diferentes posições não foi aleatória, o que pode afetar a validade interna. Como o estudo foi conduzido em um ambiente laboratorial com 10 colchões da mesma tecnologia, os achados podem não ser diretamente aplicáveis a outras populações, contextos clínicos ou superfícies de suporte diferentes. Destaca-se que a avaliação da pressão de interface foi realizada exclusivamente com o software do sensor SR Soft Vision®, o que pode limitar a comparação com outras tecnologias ou métodos de mensuração da interface paciente-colchão. O estudo analisou 1.392 posicionamentos obtidos de 48 participantes, o que pode comprometer a representatividade e a correlação entre medidas repetidas dentro do mesmo indivíduo. Embora o estudo tenha estratificado por idade, sexo e peso corporal, outras variáveis, como tônus muscular, índice de massa corporal ou distribuição da gordura corporal, não foram consideradas, o que pode influenciar os resultados.

A intervenção (tipo de decúbito) apresentou resultados relevantes para os profissionais, principalmente os de enfermagem, na definição do decúbito para o posicionamento dos pacientes em risco de lesão por pressão, especialmente para aqueles com comprometimento da mobilidade. Os achados amparam a prescrição de enfermagem quanto ao decúbito e recomendam que seja dada maior atenção ao decúbito lateral, por desencadear maior pressão na interface das regiões de proeminências ósseas.

Os resultados embasam a necessidade de revisar o tempo para o reposicionamento dos homens e aqueles com maior peso corporal, independentemente da superfície de suporte em uso. Por fim, indica-se que a equipe de enfermagem empregue escalas de avaliação de risco para lesão por pressão, estabeleça intervenções assertivas e monitore a ocorrência de lesão por pressão, como por exemplo, instrumentos que podem avaliar a qualidade e efetividade das abordagens na rotina de prevenção de lesão por pressão. Outra potencialidade do estudo é a utilização dos resultados para a revisão de protocolos de prevenção de lesão por pressão, com destaque para a revisão do tempo de reposicionamento considerando os decúbitos dorsal, lateral e ventral, conforme o escore de risco dos pacientes, sexo e peso corporal.

O estudo oferece subsídios para futuras investigações clínicas em cenário hospitalar, com o objetivo de avaliar, no contexto real, as pressões exercidas nos decúbitos lateral, ventral e dorsal de pacientes em risco para o desenvolvimento de lesões por pressão.

CONCLUSÃO

O estudo refutou a hipótese que os decúbitos ventral, lateral e dorsal têm a mesma pressão nas proeminências ósseas (pressão de interface), uma vez que houve menores níveis de pressão para o decúbito ventral e maiores para o decúbito lateral em ambos os sexos e peso corporal. O fato sustenta a opção pelo decúbito ventral para os pacientes com restrição no reposicionamento. A magnitude das diferenças entre os decúbitos dorsal e lateral, ventral e lateral são maiores entre os homens e a magnitude das diferenças entre os decúbitos aumenta conforme a elevação do peso, isto é, quanto maior o peso, maior a pressão na posição lateral em relação às demais. Os achados reforçam a necessidade de rever protocolos de mudança de decúbito, minimizando os picos de pressão em áreas vulneráveis.

DISPONIBILIDADE DE DADOS

Os dados que embasam este estudo são confidenciais e não estão disponíveis publicamente, pois derivam de um Projeto de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PD&I) realizado em parceria público-privada com a empresa C-CORE Brasil.

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  • Apoio financeiro
    O presente trabalho foi realizado com apoio da Empresa C_CORE Indústria e comércio de artefatos plásticos Ltda – Minas Gerais - Brasil. DOU número 73 de 17 de abril de 2023.

Editado por

  • EDITORA ASSOCIADA
    Márcia Regina Martins Alvarenga

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    29 Ago 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    28 Fev 2025
  • Aceito
    14 Jun 2025
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