Open-access Tecnologias em saúde da enfermagem na prevenção e controle da hepatite A: revisão de escopo

RESUMO

Objetivo:  Mapear evidências científicas sobre as tecnologias em saúde da enfermagem na prevenção e controle da Hepatite A.

Método:  Revisão de escopo conduzida em 2024 de acordo com as recomendações do JBI e relatada seguindo os critérios do PRISMA-ScR. Realizou-se a busca (10/06/2024) em bases de dados e literatura cinzenta. Classificaram-se as tecnologias encontradas em: leves, leve-duras e duras. Os resultados foram analisados descritivamente e sintetizados.

Resultados:  Foram selecionados 10 estudos, todos originados dos EUA. Dentre as tecnologias estão a vacinação; testagem sorológica; educação em saúde; lembretes em sistemas de informação em saúde; formação de peer coaching; gestão de caso; consultas; notificação de doenças e agravos; triagem clínica; e acompanhamento e rastreio. Prevaleceram as tecnologias duras.

Conclusão:  A Atenção Primária à Saúde destacou-se como o principal foco, abordando principalmente a vacinação e a educação em saúde. Já a Atenção Secundária e a Terciária concentraram-se na triagem clínica e na continuidade do cuidado. A concentração dos estudos de origem estadunidense reforça a percepção de insipiência literária e a possível negligência e falta de preparo técnico na prevenção e controle da Hepatite A.

DESCRITORES
Hepatite Viral Humana; Hepatite A; Prevenção de Doenças; Controle de Doenças Transmissíveis; Enfermagem

ABSTRACT

Objective:  To map scientific evidence on nursing health technologies in the prevention and control of Hepatitis A.

Method:  Scoping review conducted in 2024 according to JBI recommendations and reported following PRISMA-ScR criteria. The search was carried out (10/06/2024) in databases and gray literature. The technologies found were classified as: soft, soft-hard, and hard. The results were analyzed descriptively and synthesized.

Results:  Ten studies were selected, all from the USA. Technologies include vaccination; serological testing; health education; reminders in health information systems; peer coaching training; case management; consultations; notification of diseases and injuries; clinical screening; and monitoring and tracking. Hard technologies prevailed.

Conclusion:  Primary Health Care stood out as the main focus, mainly addressing vaccination and health education. Secondary and Tertiary Care, in turn, focused on clinical screening and continuity of care. The concentration of studies of American origin reinforces the perception of literary insipience and possible negligence and lack of technical preparation in the prevention and control of Hepatitis A.

DESCRIPTORS
Hepatitis; Viral; Human; Hepatitis A; Disease Prevention; Communicable Disease Control; Nursing

RESUMEN

Objetivo:  Mapear la evidencia científica sobre las tecnologías de salud de enfermería en la prevención y control de la Hepatitis A.

Método:  Revisión del alcance realizada en 2024 de acuerdo con las recomendaciones del JBI e informada siguiendo los criterios PRISMA-ScR. La búsqueda se realizó (06/10/2024) en bases de datos y literatura gris. Las tecnologías encontradas se clasificaron en: blanda, blanda-dura y dura. Los resultados fueron analizados descriptivamente y sintetizados.

Resultados:  Se seleccionaron diez estudios, todos originarios de los EE.UU. Entre las tecnologías se encuentran la vacunación; pruebas serológicas; educación para la salud; recordatorios en los sistemas de información sanitaria; formación de peer coaching; gestión de casos; consultas; notificación de enfermedades y lesiones; cribado clínico; y seguimiento y vigilancia. Las tecnologías duras prevalecieron.

Conclusión:  La Atención Primaria de Salud se destacó como el foco principal, abordando principalmente la vacunación y la educación para la salud. Atención Secundaria y Terciaria se centraron en el triaje clínico y la continuidad de la atención. La concentración de estudios de origen estadounidense refuerza la percepción de ineptitud literaria y posible negligencia y falta de preparación técnica en la prevención y control de la Hepatitis A.

DESCRIPTORES
Hepatitis Viral Humana; Hepatitis A; Prevención de Enfermedades; Control de Enfermedades Transmisibles; Enfermería

INTRODUÇÃO

A hepatite A é causada pelo vírus A, que pertence à família Picornaviridae e ao gênero Hepatovirus, e é frequentemente chamada de “hepatite infecciosa”(1). Os sintomas, quando presentes, são geralmente inespecíficos, começando com fadiga, mal-estar, febre e dores musculares, seguidos por manifestações gastrointestinais como enjoo, vômitos, dor abdominal, constipação ou diarreia. A urina escura pode aparecer antes da icterícia. Os sintomas costumam surgir de 15 a 50 dias após a infecção e tendem a durar menos de dois meses(2).

Durante a fase aguda, ocorre a replicação viral inicial, acompanhada pela eliminação do vírus nas fezes. A transmissibilidade pode ocorrer a partir de duas semanas antes até pelo menos uma semana após o início da icterícia ou de outros sintomas clínicos, além da elevação das enzimas hepáticas. O vírus pode ser detectado nas fezes cerca de uma a duas semanas após a exposição, persistindo, em média, por 79 dias após o pico da infecção(3,4,5).

A infecção em indivíduos com mais de 50 anos tende a evoluir de forma mais grave e sintomática, com icterícia em mais de 70% dos pacientes. O período de incubação é, em média, de 28 dias, variando de 15 a 50 dias. Embora não haja relatos de hepatite A levando a hepatite crônica ou hepatocarcinoma, podem ocorrer casos de hepatite fulminante(4,5). Raramente, há presença de complicações, sendo a mais grave a insuficiência cardíaca fulminante, que ocorre em 0,5% dos casos, além de manifestações extra-hepáticas, como hemólise, colestase acalculosa, derrames pleurais e pericárdicos, artrite reativa, pancreatite e manifestações neurológicas(1).

A transmissão da hepatite A se dá principalmente pela via oral-fecal, associada ao consumo de alimentos ou água contaminados, e é influenciada por baixos níveis de saneamento básico e higiene pessoal. Outras formas de transmissão incluem o contato pessoal próximo (como entre moradores da mesma casa ou crianças em creches), além de contato sexual, especialmente por vias oro-anal ou dígito-anal(4). Entre as populações com maior risco de contração por via sexual, homens que fazem sexo com homens (HSH) são um grupo que contribui para o aumento da incidência, incluindo homens gays, bissexuais, não-binários e heterossexuais que se relacionam sexualmente com outros homens(6).

Mundialmente, há um aumento significativo na ocorrência de hepatite A aguda transmitida por via sexual, especialmente entre HSH. Na União Europeia, entre 2016 e 2018, foram documentados 19.947 casos, o que representa um aumento de quatro vezes em comparação com o triênio anterior (2012 a 2015)(7). No Brasil, de 2000 a 2021, foram notificados 718.651 casos confirmados de hepatites virais, dos quais 168.175 (23,4%) eram de hepatite A. Apesar da redução geral nas notificações, que alcançou 95,6% entre 2011 e 2021(8), essa queda deve-se em grande parte à ampla cobertura vacinal oferecida gratuitamente para crianças até 4 anos, 11 meses e 29 dias(9). No entanto, em regiões específicas, como o estado do Rio de Janeiro, observou-se um aumento significativo em 2018, com 9 casos por 100.000 habitantes, em contraste com 0,3 casos por 100.000 habitantes no ano anterior. Esse aumento foi especialmente notável entre a população de HSH(10).

Complementarmente, a natureza de transmissão da hepatite A é influenciada por desastres naturais que afetam a distribuição de alimentos e água. A recorrência de enchentes, como as ocorridas no Rio Grande do Sul em maio de 2024, favorece a disseminação da doença, evidenciando fatores sociodemográficos que contribuem para a propagação(11). Isso ressalta a urgência de implementar medidas eficazes de controle e prevenção.

O cuidado de enfermagem é fundamental em todas as ações de controle e prevenção de infecções, abrangendo diversas áreas. Isso inclui o sistema de vigilância das hepatites virais, que monitora as tendências da doença; o planejamento de estratégias de prevenção e controle; a triagem clínica de potenciais doadores de sangue e derivados nos bancos de sangue; a administração de vacinas e campanhas de imunização; a assistência às gestantes para prevenir a transmissão vertical; o rastreamento de casos de hepatites virais; a assistência terciária a indivíduos com formas agudas e crônicas das infecções; e a produção de conhecimentos que possibilitem a realização segura de práticas baseadas em evidências(12).

É importante ressaltar que a hepatite A é menos abordada em comparação com outras infecções, como hepatite B, sífilis e HIV, entre outras infecções sexualmente transmissíveis (IST). Isso resulta em carência significativa de conhecimento técnico-prático e na sistematização da assistência aos pacientes acometidos com essa infecção. Além disso, há falta de protagonismo e participação da enfermagem na abordagem da hepatite A, especialmente considerando sua transmissão sexual e as especificidades de morbimortalidade. Portanto, há necessidade de envolvimento dos profissionais de enfermagem na prevenção e promoção da saúde relacionada à hepatite A.

Assim, este estudo tem como objetivo mapear evidências científicas sobre as tecnologias em saúde da enfermagem na prevenção e controle da hepatite A.

MÉTODO

Desenho do Estudo

Trata-se de uma revisão de escopo conduzida de acordo com as recomendações do Joanna Briggs Institute (JBI) – Manual for Evidence Synthesis for Scoping review(13); e relatada seguindo os critérios do Preferred Reporting Items for Systematic reviews and Meta-Analyses extension for Scoping Reviews (PRISMA-ScR)(14). O protocolo da revisão está registrado no Open Science Framework (OSF) Registries (https://doi.org/10.17605/OSF.IO/MJESK).

Fontes de Dados e Estratégia de Pesquisa

Foi realizada uma busca preliminar, em maio de 2024, nas bases de dados OSF e PROSPERO, do National Institute for Health and Care Research, para mapear e verificar estudos semelhantes em andamento ou concluídos, avaliando a abrangência e a metodologia utilizadas, sem encontrar registros relevantes.

Para definir a questão norteadora, utilizou-se o mnemônico População-Conceito-Contexto (PCC). Considerou-se como população (P) os profissionais de enfermagem; como conceito (C), as tecnologias empregadas na prevenção e controle da hepatite A; e como contexto (C) todos os níveis de atenção à saúde. Consideraram-se tecnologias as diferentes habilidades técnico-práticas utilizadas por profissionais enfermeiros durante a assistência, sejam estas referentes à clínica, educação, vigilância epidemiológica, prevenção e promoção da saúde ou, ainda, tecnologias físicas, materiais. Desta forma, a questão norteadora formulada foi: “Quais são as tecnologias em saúde utilizadas pelos profissionais de enfermagem na prevenção e controle da hepatite A?”

Foram realizadas buscas no Portal da Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), sendo incluídas as bases National Library of Medicine’s (NLM – MEDLINE)/National Library of Medicine and National Institutes of Health (PubMed); Latin American and Caribbean Health Sciences (LILACS); Índice Bibliográfico Español en Ciencias de la Salud (IBECS); e Base de dados de Enfermagem (BDEnf). Ademais, foram verificadas as bases PubMed/Medline; EMBASE; Scopus; Web of Science (WOS); CINAHL Database; e Cochrane Library. Para a literatura cinzenta, foram consultados o Catálogo de Teses e Dissertações da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES); a Theses Canada; e World Cat Dissertations and Theses. Por fim, foram verificadas as referências dos estudos analisados para buscar literatura complementar.

A busca foi dividida em etapas: a) busca preliminar para verificar estudos similares em andamento, juntamente com a identificação de termos de pesquisa e palavras-chave; b) a reunião de termos e palavras-chave, seguida da formulação das estratégias de busca e sua adequação às especificidades das bases consultadas; c) a verificação dos resultados e a seleção dos registros utilizados. As estratégias de busca, ajustadas para cada base, estão publicadas como material suplementar, disponível em https://doi.org/10.17605/OSF.IO/MJESK.

Foi definida a inclusão de artigos originais com abordagens quantitativas, qualitativas ou mistas; disponíveis integralmente; sem restrição temporal; nos idiomas português, inglês e espanhol; que abordassem tecnologias utilizadas por profissionais de enfermagem na prevenção e controle da hepatite A. Também foram incluídos relatos de experiência. Foram excluídas revisões de literatura, protocolos de estudo, cartas, editoriais e pôsteres. Além disso, foram descartados estudos de caráter puramente epidemiológico, estudos não relacionados à população humana e ou que tratassem de produtos alimentícios.

Coleta e Extração dos Dados

Após a consulta às bases de dados, realizada em 10/06/2024, os registros obtidos foram importados para o software Rayyan, que auxilia na seleção, começando pela remoção de duplicatas. Dois revisores independentes realizaram a triagem por título e resumo. Com base nessa seleção, os textos foram analisados na íntegra para verificar a pertinência e o cumprimento dos critérios de elegibilidade, por dois revisores independentes, seguindo-se o método de revisão duplo-cego. Em caso de impasses ou dúvidas, um terceiro revisor foi consultado. Dos registros excluídos pela indisponibilidade integral, realizou-se tentativa de contato com a autoria dos estudos, via e-mail, para solicitação da obra, contudo, sem retorno. O diagrama de fluxo PRISMA-ScR(14) foi utilizado para relatar os resultados de busca e registrar os motivos dos artigos excluídos.

Foi utilizado um instrumento de coleta de dados desenvolvido pelos autores, que foi avaliado por meio de um teste- piloto com a extração de dados de cinco artigos para calibração. As variáveis coletadas incluíram: título, autor(es), país, ano de publicação, objetivo(s), delineamento do estudo, participantes, cenário do estudo, nível de assistência à saúde, tecnologias para prevenção e controle da hepatite A, classificação da tecnologia, além de conclusões e recomendações. Coerente com as recomendações da JBI(15), não foi realizada a análise individual do risco de viés dos estudos selecionados.

Para classificação das tecnologias seguiu-se o referencial teórico descrito por Merhy(16), sendo divididas em tecnologias leves, que indicam aquelas referentes às relações humanas, como a produção de vínculo e das relações, autonomização, acolhimento, gestão de processos de trabalho; leve-duras, como no caso dos saberes bem estruturados, que operam no trabalho em saúde, como a clínica médica, a psicanalítica, a epidemiológica, entre outras; e duras, como no caso de equipamentos tecnológicos, máquinas, normas, estruturas organizacionais.

Síntese dos Resultados

A partir dos dados extraídos, foi elaborado um resumo das evidências, organizado em quadros, juntamente com a interpretação e síntese geral dos achados, destacando lacunas de conhecimento. Também foram levantadas as contribuições das tecnologias disponíveis, além de sugestões para políticas públicas e a evolução da prática clínica de enfermagem.

Aspectos Éticos

Por tratar-se de uma revisão de escopo, não foi necessário submeter o estudo à apreciação de um Comitê de Ética em Pesquisa.

RESULTADOS

A partir das buscas nas bases de dados, foram retornados 3.453 registros. Após a exclusão de 815 duplicatas, restaram 2.638 arquivos possivelmente elegíveis para a revisão. A leitura de títulos e resumos foi realizada para verificar os critérios de elegibilidade, resultando na exclusão de 2.608 publicações e deixando 30 estudos para leitura integral. Por fim, foram selecionados 10 estudos. Os detalhes da etapa de busca, identificação e seleção dos estudos estão descritos na Figura 1.

Figura 1
Fluxograma de identificação, seleção, elegibilidade e inclusão dos estudos, com base nas recomendações do PRISMA – Divinópolis, MG, Brasil, 2024.

Os estudos foram publicados entre os anos de 2004 e 2022, com maior ocorrência em 2015 (n = 2; 20%) e 2020 (n = 2; 20%). No que tange à nacionalidade, no total, as publicações ocorreram nos Estados Unidos, com destaque para os estados da Pensilvânia (n = 3; 30%) e Califórnia (n = 2; 20%). Quanto ao delineamento dos estudos, quatro (40%) tratavam-se de relatos de experiência; dois (20%) estudos transversais; um (10%) estudo quase experimental; um (10%) ensaio clínico randomizado; um (10%) estudo descritivo qualitativo; e um (10%) estudo de coorte retrospectivo. Em relação aos níveis de atenção à saúde, destacou-se a Atenção Primária à Saúde (APS) (n = 5; 50%) e a Atenção Secundária à Saúde (n = 2; 20%). Além disso, foi observada a interseção entre APS e Secundária (n = 1; 10%) e APS e Terciária (n = 1; 10%). Apenas um estudo (10%) foi conduzido tendo como cenário um meio de comunicação popular: a televisão (Quadro 1).

Quadro 1
Tecnologias em saúde da enfermagem na prevenção e controle da Hepatite A – Divinópolis, MG, Brasil, 2024.

Tocante às tecnologias analisadas, formou-se um grupo diverso, considerando as diferentes áreas de atuação dos profissionais de enfermagem, a saber: vacinação(19,20,21,24,25,26); testagem sorológica(19,20,21,23,24,26); educação em saúde(17,18,20,21,24); uso de lembretes em sistemas de informação em saúde(25,26); formação de peer coaching em residências de tratamento contra uso crônico de drogas(22); gestão de caso(22); consultas(24); notificação de doenças e agravos(24); triagem clínica(19); e acompanhamento e rastreio(20) (Figura 2).

Figura 2
Tecnologias em saúde da enfermagem na prevenção e controle da hepatite A – Divinópolis, MG, Brasil, 2024.

Acerca da classificação das tecnologias, dentre as tecnologias duras evidenciou-se a vacinação; testagem; triagem clínica; e uso de Best Practice Advisory (BPA), um lembrete eletrônico nos sistemas de informação de saúde. As tecnologias leves-duras verificadas permearam a educação em saúde; produção de checklist para nortear o processo educativo em saúde; acompanhamento e rastreio populacional geral e de risco; gestão de caso realizada pelo profissional enfermeiro; notificação aos sistemas de vigilância epidemiológica; e consultas para grupos propensos à contração. Por conseguinte, as tecnologias leves, por sua caracterização social e relacional, denotaram a formação de peer coaching, descritas como duplas de apoio mútuo (Quadro 1).

DISCUSSÃO

Foram abrangidas as tecnologias disponíveis na literatura, as quais os profissionais de enfermagem têm por competência legal e prática na prevenção e controle da hepatite A, em todos os âmbitos de assistência à saúde. Observou-se heterogeneidade nas tecnologias utilizadas, bem como em seu emprego nos distintos níveis de atenção à saúde, destacando-se o uso predominante de tecnologias classificadas como duras.

Dentre as tecnologias duras, destacou-se, com maior recorrência e utilização, a vacinação. Foram descritos dois tipos de imunizantes utilizados: a vacina adsorvida combinada contra hepatite A e B (Twinrix©), e as vacinas adsorvidas inativadas contra hepatite A (Vaqta© e Havrix©), recomendadas e disponibilizadas pelo Conselho Consultivo das Práticas de Imunização, do Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos(24,27). Para Soares et al.(28), a enfermagem detém saberes acerca do armazenamento, distribuição, administração, efeitos adversos e medidas de descartes de resíduos, protagonizando e tornando-se indispensável em todo o processo de vacinação.

A imunização com a vacina Twinrix© demonstra-se vantajosa em relação aos demais imunizantes utilizados, dado o mantenimento do esquema padrão de seis meses, no qual administra-se a dose inicial, e dois reforços, passados 30 e 180 dias da primeira dose. Ademais, destaca-se, também, a imunização contra as hepatites A e B com apenas um imunizante(20). Complementarmente, Nyamathi et al.(22) descrevem a possibilidade de abreviação do esquema vacinal, ainda com três administrações do imunizante, com os reforços após 7 e entre 21 e 30 dias à dose inicial. Havrix© e Vaqta©, vacinas inati­vadas, apresentam equivalência entre si, sendo recomendadas a depender da faixa etária, observando-se, também, esquema específico por idade(24,27).

Em referência à recomendação vacinal, no contexto analisado, sobressaiu-se a inclusão de grupos alvos, ademais às indicações vacinais em massa de faixas etárias específicas. Dentre as populações, citam-se pessoas em situação de rua; indivíduos restritos de liberdade; população LGBTQIAPN+, sobretudo HSH e mulheres transsexuais; usuários de drogas injetáveis; profissionais do sexo; viajantes a áreas de risco; trabalhadores do esgoto; e trabalhadores de creches(19,22,24,29). Salienta-se que, no cenário brasileiro, a vacina contra a hepatite A é disponibilizada pelo Sistema Único de Saúde (SUS), enfocando a população-alvo de crianças entre 15 meses e cinco anos, em dose única(30); também são imunizados grupos específicos, como imunodeprimidos, pacientes crônicos de hepatite B, pessoas vivendo com HIV ou AIDS e outras condições pontuais, a partir da referenciação aos Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais(31,32).

Também se realça a influência de um fenômeno conhecido como hesitação vacinal, ou o conjunto de variáveis que acarreta em atrasos e recusa vacinal, na vacinação contra hepatite A, tendo em vista baixos índices de cobertura e epidemias da doença. Magyar et al.(33) descrevem, no contexto austríaco, a hesitação vacinal parental de crianças entre zero e dois anos, observando-se maior recusa ao imunizante contra hepatite A em relação aos demais. Para o estudo, destacam-se fatores econômicos, mormente, tendo em vista a necessidade de adquirir financeiramente a vacina, ademais a motivos logísticos e ideológicos, tendendo a validar as ocorrências de infecções pelo vírus da hepatite A.

Nesta perspectiva, ainda em referência às tecnologias duras, foi verificada relevância da testagem sorológica, ou rastreio sorológico, para hepatite A e demais IST, com enfoque em populações chaves(19,20,21,23,24,26). Embora haja escassez significativa na literatura sobre o rastreio sorológico da hepatite A, Bukhsh et al.(26) descrevem o processo de testagem obrigatória em um departamento de emergência para indivíduos com maior susceptibilidade à infecção pelo vírus, além de proporem a criação de uma ferramenta eletrônica para lembretes sobre a imunização.

As ferramentas eletrônicas, como descrito por Kaigh et al.(25) e Bukhsh et al.(26), atuam mediante lembretes nos sistemas de informação em saúde, a partir de prompts, ou mecanismos automáticos decorrentes de uma alimentação inicial ao sistema, verificando a indicação vacinal. O BPA realiza o cruzamento de dados sorológicos com variáveis sociodemográficas, articulando a pertinência da administração de imunizante, caso o indivíduo apresente indicação, bem como fornecendo informações sobre doses de reforço, se necessário(25,26).

Complementarmente, o estudo conduzido por Ford et al.(34) demonstra o uso de BPA para rastreio sorológico, verificando a ocorrência de indivíduos infectados pelo vírus da hepatite C, bem como a carga viral, objetivando assertividade na testagem de pacientes em um departamento de emergência. A associação, por conseguinte, entre o uso de BPA para rastreio de populações em risco de contração do vírus da hepatite A e a vacinação indicada a partir do status sorológico, favorece o controle transmissivo, imunização inicial e verificação da completude vacinal, integrando ferramenta propícia para o manejo da doença em todos os âmbitos de saúde.

Sendo o diagnóstico de hepatites virais realizado a partir da testagem, indivíduos incluídos em grupos com risco aumentado ou que apresentem sintomatologia sugestiva necessitam de rastreamento sorológico. A verificação de imunoglobulinas específicas para hepatite A possibilita, não somente, o diagnóstico preciso (IgM), como também a imunização adquirida (IgG), seja por meio de vacinação ou de infecção prévia, apoiando, não obstante, a indicação vacinal(24).

De modo similar à vacinação e testagem, o processo educativo em saúde caracterizado como tecnologia leve-dura, pelo agregamento de saberes e execuções é integrante da rotina dos profissionais de enfermagem, constituindo importante artifício para a promoção e prevenção da saúde, mediante a orientação, esclarecimentos de dúvidas, e ainda, adaptação de estilos e hábitos de vida à condição de saúde(35).

Tal tecnologia é percebida pela massiva influência nos meios de controle transmissivo e preventivo de hepatite A. Ficam descritos diferentes modos e cenários para a promoção educativa, abarcando os diferentes grupos propensos à patologia. Evidenciou-se a utilização das mídias sociais à época a televisão como meio de comunicação acerca de métodos de contágio, imunização, sintomatologia, condutas e tratamentos existentes para hepatite A. O uso do meio comunicativo em massa, como a rede televisiva, promovendo a temática de modo popular e direcionado, demonstrou-se não exclusivamente pertinente ao esclarecimento acerca do vírus e possíveis repercussões, sendo explícito, também, o protagonismo de profissionais enfermeiros como detentores de conhecimentos e capacitados à ministração deste(17).

Atendendo às necessidades da porção acadêmica e geral da população, simultaneamente, Gilbert et al.(18) discorrem acerca da prospecção de conceitos-chave, essenciais à vivência dos grupos de profissionais da saúde, promotores de assistência, e de cidadãos, relacionados à hepatite A. Para tal, fora realizada a estratificação dos grupos, sendo estes interrogados sobre os conceitos ditos de maior importância, adjuntos a um grupo de experts na doença. Ficou clarificado o ligeiro despreparo do nível assistencial sobre determinados conceitos, os quais a população demonstrou indispensáveis, havendo, posteriormente, a proposição de uma checklist para produção de material educativo(18).

Na observância da diversidade das práticas educacionais, individuais e coletivas, Nyamathi et al.(20) descreveram o impacto de sessões expositivas, ministradas por enfermeiros, sobre hepatite A e outras IST, além de efeitos adversos à vacinação e frequência vacinal em um programa de imunização de pessoas em situação de rua. Ademais às sessões sobre prevenção e promoção de saúde, temáticas comportamentais e psicossociais demonstraram-se influentes na aceitação e completude do esquema vacinal proposto(20), novamente verificando a pertinência do profissional enfermeiro em atividades educativas e imunizadoras.

O gerenciamento individual de casos conduzido por profissionais de enfermagem e associado a práticas educativas, classificado como tecnologia leve-dura, mostrou-se benéfico para promover comportamentos de saúde, como a vacinação e a regularização do esquema vacinal, a testagem sorológica, a adoção de práticas sexuais seguras e a adesão a programas de tratamento para o uso de drogas(22). Neste âmbito, é demonstrada a capacidade educativa da enfermagem, com abrangências individuais ou massivas. Complementarmente ao gerenciamento individual de caso, a formação de peer coaching, consideradas duplas de apoio mútuo, demonstrou-se de imensurável valia em um programa de controle de uso crônico de drogas, sobre o qual objetivava-se verificar a propensão à completude vacinal contra hepatite A(22).

A partir das tecnologias identificadas, denota-se a incipiência da produção literária nacional, evidenciando a escassez de abordagens voltadas a populações alvos, como a comunidade LGBTQIAPN+, trabalhadores expostos a riscos e pessoas em situação de rua, como verificado internacionalmente. Propõem-se, assim, iniciativas para a imunização em massa desses grupos vulneráveis, e evidencia-se a necessidade de desenvolvimento de um arcabouço científico e econômico, especialmente no âmbito da Atenção Primária à Saúde, visando à criação de campanhas educativas tanto direcionadas quanto gerais. Para a práxis clínica de enfermagem, ações como o rastreamento e triagem sorológica de indivíduos com risco iminente de infecção, a verificação da imunização atual e o tratamento adequado a partir do diagnóstico devem ser parte das medidas essenciais para o controle e prevenção da hepatite A.

Puderam-se perceber possíveis limitações acerca da pesquisa, como a escassez de amostras acerca do tema supracitado, restringindo a análise e comprometendo os resultados; a diversidade de metodologias, dificultando a análise e interpretação dos dados, o que gera uma dependência de materiais complementares e literatura cinzenta, reduzindo o acesso às informações não publicadas, confirmando-se então, a necessidade de investigações futuras a fim de fortalecer e ampliar os resultados.

A insipiência literária relacionada às competências legais e práticas do profissional enfermeiro na abordagem da hepatite A, sobretudo no cenário nacional, incita a prospecção da aplicação e documentação de tecnologias em saúde ligadas à doença. Produções literárias tocantes à temática não somente favorecem a adoção de modelos assistenciais e ações cientificamente embasadas, como também atestam sua legalidade durante o exercício e utilização por profissionais de enfermagem.

O mapeamento das tecnologias em saúde oferece amplo espectro de benefícios: ao grupo de profissionais enfermeiros, a partir da divulgação científica de práticas para adoção e aplicação; à comunidade acadêmica, decorrente da verificação da literatura existente, levantando hipóteses e conclusões acerca do tema; à população geral, pelo aprimoramento das ações assistenciais relacionadas à doença. Dessa forma, o estudo conduzido cumpre as necessidades das populações supracitadas, promovendo a visão concisa das tecnologias verificadas.

CONCLUSÃO

O presente estudo destaca as intervenções voltadas à prevenção e controle da hepatite A, com ênfase nos diferentes níveis de atenção à saúde. A Atenção Primária se destaca como o principal foco, abordando principalmente a vacinação e a educação em saúde. Já a Atenção Secundária e Terciária concentram-se na triagem clínica e na continuidade do cuidado, incluindo a implementação de lembretes eletrônicos e protocolos sistematizados para testes e monitoramento da vacinação em pacientes institucionalizados. Nesse contexto, é importante ressaltar o papel das tecnologias de saúde utilizadas pela enfermagem, que envolvem tanto as tecnologias leves (como o suporte e a promoção de interações), quanto as leves-duras e duras (como a vacinação e os lembretes eletrônicos).

A concentração dos estudos de origem estadunidense reforça a percepção de insipiência literária, contrastando sistemas de saúde e Atenção Primária à Saúde capazes de abarcar demandas de rastreio, prevenção e tratamento da doença em suas incumbências como o SUS – e a possível negligência e falta de preparo técnico na prevenção e controle da Hepatite A.

No que se refere aos aspectos sociodemográficos, o estudo destaca estratégias direcionadas ao público LGBTQIAPN+, pessoas em situação de rua e trabalhadores expostos a condições de risco ou vulnerabilidade. Por fim, no âmbito cultural, enfatizam-se as campanhas educativas com o objetivo de conscientizar a população sobre práticas sexuais seguras e medidas preventivas. Essa abordagem integrada visa melhorar a cobertura e a eficácia das ações de saúde, promovendo um cuidado mais acessível e eficaz para as populações chaves.

Disponibilidade de Dados

Os dados encontram-se disponíveis no OSF: https://www.doi.org/10.17605/OSF.IO/MJESK.

  • Apoio financeiro
    O presente trabalho foi realizado em parte com apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – Brasil (CNPq) processo: 401923/2024-0 (versão em língua espanhola).

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Editado por

  • EDITORA ASSOCIADA
    Márcia Regina Cubas

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    12 Maio 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    11 Fev 2025
  • Aceito
    24 Fev 2025
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