Open-access Continuidade do cuidado à pessoa com hipertensão na Atenção Primária à Saúde: uma revisão de escopo

RESUMO

Objetivo:  Mapear as evidências sobre a continuidade do cuidado às pessoas com hipertensão arterial sistêmica na Atenção Primária à Saúde (APS), apontando limites e estratégias para a sua efetivação.

Método:  Revisão de escopo, sem delimitação temporal, a partir das bases de dados Web of Science, PubMed, Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde e a Scientific Electronic Library Online. Foram incluídas teses e dissertações da Biblioteca Digital Brasileira e do Catálogo da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior. A seleção dos trabalhos foi realizada por duas revisoras independentes e às cegas, e as divergências resolvidas por uma terceira, totalizando corpus de 32 estudos. A extração dos dados foi realizada com base na adaptação do instrumento JBI, abrangendo informações sobre os estudos, metodologia e recomendações para a continuidade do cuidado. Os dados foram organizados em planilha Excel e analisados tematicamente, sendo interpretados à luz das dimensões da continuidade do cuidado.

Resultados:  A continuidade do cuidado em hipertensão na APS melhora o controle da pressão arterial, reduzindo morbidade, mortalidade e custos de saúde. Pacientes acompanhados pelo mesmo profissional de saúde apresentam melhor adesão ao tratamento e qualidade de vida. Foram identificados limites como a rotatividade de profissionais, fragilidade na comunicação entre serviços e a ausência de fluxos assistenciais consolidados. Como estratégias, destacam-se o fortalecimento do trabalho em equipe, a articulação interprofissional, o uso de prontuário eletrônico compartilhado e a adoção de fluxos formais de referência e contrarreferência.

Conclusão:  Implementar um cuidado baseado em equipe e promover o compartilhamento das atividades entre os profissionais são estratégias para alcançar a continuidade do cuidado.

DESCRITORES
Hipertensão; Continuidade da Assistência ao Paciente; Atenção Primária à Saúde

ABSTRACT

Objective:  To map the evidence on continuity of care for people with systemic arterial hypertension in Primary Health Care (PHC), pointing out limitations and strategies for its implementation.

Method:  Scope review, without time limits, based on the Web of Science, PubMed, Latin American and Caribbean Health Sciences Literature, and Scientific Electronic Library Online databases. Theses and dissertations from the Brazilian Digital Library and the Catalog of the Coordination for the Improvement of Higher Education Personnel were included. The selection of studies was performed by two independent blind reviewers, and any disagreements were resolved by a third reviewer, resulting in a corpus of 32 studies. Data extraction was performed based on an adaptation of the JBI instrument, covering information on the studies, methodology, and recommendations for continuity of care. The data were organized in an Excel spreadsheet and analyzed thematically, being interpreted in light of the dimensions of continuity of care.

Results:  Continuity of care in hypertension in PHC improves blood pressure control, reducing morbidity, mortality, and health costs. Patients followed by the same health professional show better adherence to treatment and quality of life. Limitations were identified, such as staff turnover, poor communication between services, and the absence of consolidated care flows. Strategies include strengthening teamwork, interprofessional coordination, the use of shared electronic medical records, and the adoption of formal referral and counter-referral flows.

Conclusions:  Implementing team-based care and promoting the sharing of activities among professionals are strategies for achieving continuity of care.

DESCRIPTORS
Hypertension; Continuity of Patient Care; Primary Health Care

RESUMEN

Objetivo:  Mapear las evidencias sobre la continuidad de la atención a las personas con hipertensión arterial sistémica en la Atención Primaria de Salud (APS), señalando los límites y las estrategias para su implementación.

Método:  Revisión de alcance, sin delimitación temporal, a partir de las bases de datos Web of Science, PubMed, Literatura Latinoamericana y del Caribe en Ciencias de la Salud y Scientific Electronic Library Online. Se incluyeron tesis y disertaciones de la Biblioteca Digital Brasileña y del Catálogo de la Coordinación de Perfeccionamiento del Personal de Nivel Superior. La selección de los trabajos fue realizada por dos revisoras independientes y a ciegas, y las divergencias fueron resueltas por una tercera, lo que dio como resultado un corpus de 32 estudios. La extracción de los datos se realizó basándose en la adaptación del instrumento JBI, que abarca información sobre los estudios, la metodología y las recomendaciones para la continuidad de la atención. Los datos se organizaron en una hoja de cálculo Excel y se analizaron temáticamente, interpretándose a la luz de las dimensiones de la continuidad de la atención.

Resultados:  La continuidad de la atención en la hipertensión en la APS mejora el control de la presión arterial, reduciendo la morbilidad, la mortalidad y los costos de salud. Los pacientes atendidos por el mismo profesional de salud presentan una mejor adherencia al tratamiento y calidad de vida. Se identificaron limitaciones como la rotación de profesionales, la fragilidad en la comunicación entre servicios y la ausencia de flujos de atención consolidados. Como estrategias, destacan el fortalecimiento del trabajo en equipo, la articulación interprofesional, el uso de historias clínicas electrónicas compartidas y la adopción de flujos formales de referencia y contrarreferencia.

Conclusión:  Implementar una atención basada en el equipo y promover el intercambio de actividades entre los profesionales son estrategias para lograr la continuidad de la atención.

DESCRIPTORES
Hipertensión; Continuidad de la Atención al Paciente; Atención Primaria de Salud

INTRODUÇÃO

Nas últimas três décadas, o número de pessoas com Hipertensão Arterial Sistêmica (HAS) no mundo passou de 650 milhões em 1990 para 1,3 bilhão em 2019, com estimativas de prevalência global de 49% entre homens e mulheres de 50 a 79 anos(1), evidenciando sua magnitude. Diante da problemática, é fundamental assegurar a adesão à terapêutica medicamentosa e não-medicamentosa, mediante o acesso aos serviços de saúde, bom relacionamento com os profissionais(2) e continuidade do cuidado para prevenção de riscos e agravos decorrentes da HAS, especialmente, a ocorrência de isquemia miocárdica, doença renal crônica e acidente vascular cerebral.

A Atenção Primária à Saúde (APS), de base territorial e orientação comunitária, apresenta um papel crucial no controle de doenças crônicas não transmissíveis, como no caso da HAS, devendo garantir acesso oportuno e adequado aos serviços da Rede de Atenção à Saúde (RAS), desempenhando a coordenação do cuidado, interligando recursos comunitários e assistenciais, para efetivação da continuidade do cuidado em saúde(3).

Contudo, indivíduos com HAS enfrentam dificuldades de acesso aos serviços de saúde(4,5), inclusive na APS, apesar de sua importância para controle da doença e diminuição de óbitos(68). Os desafios vivenciados incluem desde o acesso restrito e fragmentado aos cuidados(9), falta de recursos materiais e disponibilidade de medicamentos(6), à ausência de comunicação entre os profissionais dos serviços de saúde(10).

Diante destes entraves evidenciados, verifica-se a importância social da discussão ampliada acerca da continuidade do cuidado para criação de estratégias adequadas para sua efetivação na RAS sob coordenação da APS, uma vez que o acompanhamento regular e continuado do paciente com HAS diminui as chances de complicações graves e melhora a adesão terapêutica, autocuidado e qualidade de vida(11), reduz a sobrecarga da média e alta complexidade com internações, exames e consultas(1215).

A continuidade do cuidado, muitas vezes, é confundida com longitudinalidade, coordenação ou mesmo com a integralidade da atenção(16). Contudo, tais conceitos, apesar de relacionados, possuem diferenças. Considera-se a continuidade como oferta de cuidados integrados, coordenados e sequenciais ao longo do tempo, a partir do estabelecimento de vínculo e confiança, centrado em necessidades de saúde do paciente, com gerenciamento de informações clínicas compartilhadas por profissionais e serviços de saúde diferentes, sob coordenação da APS(16,17). Vale salientar que a continuidade está atrelada à experiência individual de cada usuário no transcurso de seu projeto terapêutico relacionado a um problema de saúde específico(18), como a HAS.

O objetivo do artigo é mapear as evidências sobre o desenvolvimento da continuidade do cuidado às pessoas com diagnóstico de HAS pela APS, apontando limites e estratégias para a sua efetivação. Foi realizada busca preliminar com os Medical SubjectHeadings (MeSH) “carecontinuity” e “hypertension” no Open Science Framework, Joanna Briggs Institute Evidence Synthesis não sendo encontrados estudos ou protocolos de revisão de escopo sobre a temática, o que justifica a relevância do artigo.

MÉTODO

Desenho do Estudo

Trata-se de uma revisão de escopo realizada conforme o método recomendado pelo Joanna Briggs Institute (JBI)(19) e apresentada segundo recomendações do checklist Preferred ReportingItems for Systematic reviews and Meta-Analysesextension for Scoping Reviews (PRISMA-ScR)(20).

Este tipo de pesquisa consiste em uma revisão exploratória destinada a mapear a literatura relevante na área de interesse e os seus conceitos-chave, bem como identificar lacunas na literatura científica que auxiliem na definição de questões de investigação(21). As etapas da revisão de escopo incluem: formulação da questão e objetivo da pesquisa; identificação de documentos relevantes que estejam de acordo com a amplitude e abrangência dos propósitos da revisão; seleção dos estudos conforme os critérios predefinidos; mapeamento de dados; sumarização dos resultados, por meio de análise temática qualitativa em relação ao objetivo e pergunta; e apresentação dos resultados(19).

O protocolo desta revisão, delineado a partir da questão de pesquisa, foi registrado na plataforma para registro de trabalhos científicos Open Science Framework por meio do link osf.io/tdr6y.

Pergunta Norteadora

Delineou-se a questão de pesquisa com base na estratégia mnemônica Problema, Conceito e Contexto (PCC). Tal metodologia auxilia na identificação dos tópicos chaves para nortear a coleta de dados.

No que tange aos Participantes (P) foram definidos como pessoas com diagnóstico de HAS. No que diz respeito ao Conceito (C) foram incluídos nesta revisão estudos que abordem a continuidade do cuidado à pessoa com Hipertensão Arterial Sistêmica (HAS). O conceito de continuidade do cuidado envolve a relação estabelecida entre o profissional de saúde e o paciente que se prolonga para além dos episódios de adoecimento, sendo considerado um “reflexo de um senso de afiliação, frequentemente expresso em termos de contrato implícito de lealdade por parte do paciente e responsabilidade clínica por parte do médico”, tendo como pré-requisito o acesso aos serviços de saúde e a coordenação do cuidado como agente facilitador(17). E, por sua vez, no que concerne ao Contexto (C) foram selecionados estudos realizados na Atenção Primária à Saúde, com abrangências nacionais, regionais, municipais, distritais ou locais.

Desse modo, conciliando os tópicos chaves do PCC e o objetivo do estudo, tem-se como pergunta de investigação: Como se desenvolve a continuidade do cuidado às pessoas com diagnóstico de HAS pela APS?

Estratégias de Busca

Esta revisão foi realizada nas seguintes bases de dados: Web of Science Core Collection, PubMed via National Library of Medicine/The National Center for BiotechnologyInformation (NLM/NCBI), Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS) via Biblioteca Virtual em Saúde e a ScientificElectronic Library Online (SciELO). A busca da literatura cinzenta foi executada através da Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações e Catálogo CAPES.

Foram utilizados termos livres associados aos descritores do Medical SubjectHeadings (MeSH) e os Descritores em Ciências da Saúde (DeCS): Primary Health Care, Hypertension e Continuityofpatientcare. As estratégias de busca seguiram as definições da base de dados correspondente e foram desenvolvidas com apoio de um bibliotecário especializado em revisões. A coleta de dados foi realizada em janeiro de 2024.

Critérios de Elegibilidade

Conforme recomendações(22), foram definidos critérios de inclusão e exclusão para seleção dos artigos. Assim, as fontes de evidências desta revisão foram textos completos de estudos primários, teses e dissertações, todos publicados em bases de dados da área da saúde. Foram incluídos estudos que abordassem a continuidade do cuidado à pessoa com HAS, com documentos disponíveis na íntegra, publicados em português, espanhol ou inglês, sem limites temporais definidos, com intuito de recuperar o maior número possível de publicações relacionadas à questão de pesquisa. Não foram incluídos artigos de revisão, protocolos de estudos de revisão, artigos de opinião, anais de congresso, comentários, editoriais, capítulos de livros.

Extração dos Dados

Os artigos encontrados na busca foram agrupados e importados para a ferramenta RayyanIntelligentSystematic Review para exclusão de duplicatas e seleção dos trabalhos. Em seguida, realizou-se de forma independente e às cegas a seleção das fontes de evidências por duas revisoras a partir da leitura dos títulos e resumos. As divergências encontradas foram resolvidas por uma terceira revisora e os motivos para exclusão dos manuscritos foram justificados. Posteriormente, os estudos que atenderam aos critérios foram avaliados na íntegra para uma completa apreciação do material retido e composição da amostra final para a extração dos dados.

A extração dos dados foi organizada a partir da adaptação do instrumento desenvolvido pelo JBI(20) para atender aos objetivos deste estudo, contendo informações a respeito da identificação dos autores, título completo, ano de publicação, objetivos, metodologia (tipo de estudo, métodos adotados, participantes e/ou fontes de dados, cenário, abrangência), síntese dos resultados, dificuldades e facilidades para desenvolvimento da continuidade do cuidado a pessoas com HAS no âmbito da APS e recomendações do estudo para alcance da continuidade do cuidado. Todas as etapas da extração dos dados dos estudos selecionados foram feitas com uso de planilha Excel.

Análise e Apresentação dos Dados

Para descrição dos resultados da busca e seleção dos estudos, foi utilizado o fluxograma de identificação, escaneamento e processo de inclusão adaptado do PreferredReportingItems for Systematic Review and Meta-analyses (PRISMA-ScR)(19).

Após a seleção dos estudos, os dados extraídos foram organizados em um instrumento de coleta adaptado(20), contendo informações como autores, ano, país, objetivos, desenho metodológico, principais achados e aspectos relacionados à continuidade do cuidado. A análise dos dados foi conduzida por meio da análise temática de conteúdo(23), aplicada de forma sistemática aos dados qualitativos e quantitativos.

Nos estudos quantitativos, os achados numéricos foram interpretados à luz de seus significados e implicações descritas nos próprios artigos, sendo categorizados de acordo com as dimensões temáticas emergentes, tais como barreiras, efeitos e estratégias associadas à continuidade do cuidado. Assim, os dados quantitativos não foram analisados estatisticamente, mas integrados à análise qualitativa com base em seu conteúdo interpretativo, conforme sua relevância para o objeto deste estudo.

O processo de análise seguiu as seguintes etapas: (1) leitura flutuante dos textos completos; (2) codificação dos dados extraídos no instrumento de coleta; (3) categorização dos conteúdos por similaridade temática; (4) identificação de temas centrais relacionados ao objeto da revisão, especialmente os que tratavam dos limites, efeitos e estratégias para efetivação da continuidade do cuidado.

Os resultados da análise foram organizados e apresentados em quadros explicativos, com sínteses narrativas, e interpretados à luz das dimensões da continuidade do cuidado(17). A continuidade do cuidado pode ser compreendida a partir de três dimensões principais: gerencial, informacional e relacional. A continuidade gerencial refere-se à gestão do cuidado ao longo do tempo e dos diferentes pontos da rede de atenção à saúde, exigindo a articulação entre serviços e a gestão clínica adequada às necessidades do usuário(17,18). A continuidade informacional possibilita o compartilhamento efetivo de informações relevantes sobre o histórico, o contexto e os cuidados de saúde do usuário entre os profissionais e os serviços(16,17). Por fim, a continuidade relacional envolve o estabelecimento de vínculos terapêuticos duradouros entre usuários e profissionais de saúde, sustentando a confiança, o acolhimento e a percepção de cuidado contínuo ao longo do tempo(17,18).

Aspectos Éticos

Os dados utilizados possuem acesso público, deste modo, não houve necessidade de submissão ao Comitê de Ética em Pesquisa.

RESULTADOS

Inicialmente, foram identificados 230 estudos, sendo 214 artigos nas bases de dados e 16 dissertações e teses. Destes estudos, 75 eram duplicados e por isso foram removidos. Após leitura dos títulos e resumos realizada por duas pesquisadoras de modo duplo cego, 89 estudos foram excluídos, por não tratarem da temática ou não atenderem aos critérios estabelecidos. Procedeu-se à leitura na íntegra de 66 estudos, sendo excluídos 34, dois por não estarem disponíveis na íntegra, sete pelo tipo de publicação (anais, protocolos de estudos e diretrizes terapêuticas), 22 por não responderem à pergunta de pesquisa, dois não tratavam da população em questão, e um não tinha relação com o conceito de continuidade do cuidado.

Assim, a amostra final foi constituída por 32 estudos, sendo 20 artigos científicos e 12 teses e dissertações. No intuito de sistematizar o processo de seleção dos estudos, utilizou-se o PRISMA-SrC(20) (Figura 1).

Figura 1
Fluxograma do processo de seleção dos estudos sobre continuidade do cuidado à pessoa com HAS no contexto da Atenção Primária à Saúde.

A seguir, buscou-se apresentar a caracterização dos estudos analisados e a síntese dos achados a partir de duas categorias abrangentes identificadas a partir da análise de conteúdo: efeitos da continuidade no cuidado em saúde das pessoas com HAS e desafios no desenvolvimento da continuidade do cuidado ao paciente com HAS na APS.

Caracterização dos Estudos

A dimensão temporal dos estudos correspondeu ao período entre 2005 e 2023, conforme Quadro 1. Observa-se um incremento gradativo de publicações a partir de 2019, com cerca de 52,94% dos estudos publicados entre os anos de 2019 e 2023. Houve predominância de estudos quantitativos (18 trabalhos), especialmente transversais (10 trabalhos).

Quadro 1
Caracterização dos estudos selecionados segundo objetivos, metodologia, idioma e ano de publicação – Niterói, RJ, Brasil, 2025.

Dentre os estudos analisados, a maioria possuía abrangência municipal (25 estudos), seguido por estudos nacionais (4 estudos) e locais (3 estudos). No que tange ao local de realização das pesquisas, apesar do maior quantitativo de estudos encontrados em países da América do Sul (Brasil, Chile, Colômbia), com 17 produções, apenas cinco eram artigos científicos e 12 teses e dissertações. O continente asiático destacou-se na produção científica analisada, com 9 artigos (Arábia Saudita, China, Coreia do Sul, Índia, Irã, Hong Kong, Tajiquistão, Malásia), seguido de um elaborado na América do Norte (Canadá), um na Europa (Escócia), três na Oceania (Austrália e Samoa), e um no continente africano (África do Sul).

Efeitos da Continuidade no Cuidado em Saúde das Pessoas com Hipertensão Arterial Sistêmica

Os efeitos da continuidade do cuidado em saúde das pessoas com HAS, segundo categorias analíticas emergidas da análise de conteúdo, são apresentados no Quadro 2.

Quadro 2
Síntese dos efeitos da continuidade do cuidado da pessoa com hipertensão arterial sistêmica – Niterói, RJ, Brasil, 2025

Limites no Desenvolvimento da Continuidade do Cuidado ao Paciente com HAS na APS

Os limites da continuidade do cuidado ao paciente com HAS segundo cada dimensão da continuidade(17) estão sistematizados no Quadro 3.

Quadro 3
Fatores que limitam a continuidade do cuidado à pessoa com hipertensão arterial sistêmica – Niterói, RJ, Brasil, 2025.

Estratégias Para a Efetivação da Continuidade do Cuidado ao Paciente com HAS

Embora em quantidade limitada frente à complexidade do tema, as estratégias identificadas na literatura para a efetivação da continuidade do cuidado ao paciente com HAS foram agrupadas segundo as dimensões do cuidado, conforme sistematizado no Quadro 4. Tais estratégias refletem iniciativas voltadas à organização do cuidado, à qualificação da comunicação entre os serviços e ao fortalecimento dos vínculos entre usuários e profissionais.

Quadro 4
Estratégias para efetivação da continuidade do cuidado segundo suas dimensões – Niterói, RJ, Brasil, 2025.

DISCUSSÃO

Os resultados deste estudo sinalizam a importância da continuidade do cuidado(56) para as pessoas com diagnóstico de HAS. A continuidade do cuidado não só melhora a experiência do paciente, mas também possui o potencial de mitigar disparidades regionais nas taxas de morbimortalidade. Isso é especialmente relevante em contextos urbanos e rurais, onde as taxas de hospitalização relacionadas à HAS podem variar consideravelmente(14).

Foram identificadas diversas limitações no processo de continuidade do cuidado, especialmente na integração entre os diferentes níveis de atenção e a gestão de recursos(6,27,34,36,43,54). A ausência de estratégias eficazes de comunicação(9) e pactuação entre os serviços e profissionais, desconhecimento dos fluxos assistenciais(33,38), e a insuficiência de recursos materiais e humanos(27) comprometem a qualidade do cuidado às pessoas com HAS.

Nesse sentido, aponta-se a necessidade de estratégias comunicacionais para fortalecimento do sistema de referência e contrarreferência e fluxos assistenciais, o fortalecimento da integração entre serviços e profissionais da assistência e implementação de um planejamento integrado(9). Atrelado a isso, a baixa integração entre profissionais da APS e hospitais para construção de estratégias de controle da HAS evidencia a ausência de colaboração interprofissional(30). O processo de cuidado concentrado na figura do médico, além de dificultar a interação e abordagem do tratamento da HAS, provoca frequentemente grande sobrecarga de atendimento aos profissionais médicos, dificultando o envolvimento do paciente na tomada de decisão acerca do tratamento e a divisão de tarefas entre membros da equipe(34,52,55).

Um processo de cuidado ofertado por equipe multiprofissional pode promover a melhoria da continuidade do cuidado, por meio de melhor coordenação e articulação entre seus membros durante a prática clínica(42), além de promover compartilhamento e divisão de tarefas(53).

Destaca-se ainda a falta de sistematização e organização das informações sobre os pacientes na APS, ou até mesmo incompletude das informações clínicas. Em muitos casos, os profissionais orientam os usuários a registrar manualmente o uso de medicamentos, monitoramento da PA e outras informações importantes ao acompanhamento, delegando ao próprio indivíduo a responsabilidade pela continuidade informacional(34).

Uma estratégia relevante que pode ser adotada é a elaboração de planos de cuidado compartilhados entre os diferentes níveis de atenção, com uso de tecnologias de informação e comunicação que facilitem a transição do cuidado e o compartilhamento de informações clínicas. Ferramentas como os prontuários eletrônicos possibilitam o acesso integrado ao projeto terapêutico por parte dos profissionais, favorecendo a corresponsabilização pelo cuidado, melhor divisão de tarefas na equipe e articulação entre os serviços(27,46). Para sua aplicação no cotidiano dos serviços, recomenda-se a institucionalização de reuniões periódicas das equipes multiprofissionais com momentos dedicados à construção conjunta dos planos, definição das metas assistenciais e acompanhamento dos casos.

A experiência canadense com as enfermeiras de ligação, evidencia a importância de profissionais com atribuições específicas voltadas à transição do cuidado, como o planejamento da alta hospitalar e a transferência segura de informações clínicas entre serviços. Essas enfermeiras desenvolvem competências como julgamento clínico, liderança e comunicação, atuando como facilitadoras da continuidade do cuidado, sobretudo nos casos mais complexos, e apoiando uma prática centrada nas necessidades e potencialidades dos pacientes. Por sua vez, a experiência de Portugal destaca o fortalecimento da articulação interprofissional e o foco na continuidade do cuidadopor meio da implementação de planos individualizados, construídos com a participação dos usuários e baseados na comunicação eficiente entre os diferentes níveis de atenção(57).

Ademais, a frágil comunicação entre profissionais de saúde e pacientes apresentou implicações diretas à continuidade, adesão ao tratamento e controle da HAS(6). Deve-se almejar a melhoria da comunicação com adoção de linguagem mais simples, sem terminologias técnicas para facilitar a compreensão por parte dos usuários(29).

A inexistência de categorização de risco e monitoramento adequado da pressão arterial(43) atrelada aos longos tempos de espera revela barreiras significativas para a continuidade e resolutividade do cuidado, reverberando em agravamento da doença, restrição do acesso, dificuldades na avaliação da adesão ao tratamento e ausência de acolhimento. Estes fatores culminam em insegurança, descontinuidade e gastos financeiros excessivos para usuários e suas famílias(58).

Tais achados refletem dificuldades amplas na implementação do modelo assistencial baseado na APS, em virtude da valorização do modelo de atenção programática, ainda predominante nos serviços de saúde, com foco na doença e tratamento de condições agudas ou agudização de doenças crônicas, na demanda espontânea e em ações curativistas reabilitadoras. Neste contexto, o trabalho dos profissionais incide sobre a doença, a incapacidade e o óbito(59,60) e, desse modo, dificulta a continuidade e coordenação do cuidado, atenção integral e promoção de saúde.

Dificuldades de acesso aos serviços de saúde podem limitar a continuidade do cuidado à pessoa com HAS, seja pelas distâncias geográficas que dificultam a realização de consultas e aferição da pressão arterial(9,43), seja pelas barreiras encontradaspara realização de exames e consultas para seguimento(9,38). Neste cenário, é fundamental adotar estratégias que otimizem o acesso e organização da agenda assistencial, principalmente com uso das tecnologias digitais(51). A incorporação das tecnologias digitais, por exemplo, mostrou-se eficaz no contexto pandêmico e pode ser mantida como recurso complementar para o acompanhamento de pessoas com HAS, especialmente em áreas remotas ou com escassez de profissionais(31). Além disso, o uso de aplicativos de agendamento online, envio de lembretes automatizados de consultas para redução do absenteísmo(61), e a ampliação da oferta de horários alternativos de atendimento são medidas que podem ser implementadas na prática da APS, contribuindo para reduzir barreiras de acesso e fortalecer a continuidade do cuidado.

Destaca-se, nesse contexto, a possibilidade de uso do sistema de agendamento online do Prontuário Eletrônico do Cidadão (PEC e-SUS APS), integrado ao aplicativo conecte SUS cidadão, que permite aos pacientes a visualização dos horários disponíveis, agendas de consultas e até cancelamentos sem a necessidade de deslocamento até a UBS. Esta ferramenta tem potencial para redução do absenteísmo, melhoria da gestão da agenda assistencial e ampliação do acesso e resolutividade(61).

Um estudo(62) demonstrou que unidades com prontuário eletrônico têm maior chance de funcionar como primeiro ponto de contato e de atender demandas urgentes, evidenciando que a informatização favorece o acesso e o acolhimento. Ainda assim, a adoção dessas tecnologias requer atenção aos aspectos organizacionais e formativos. Dados indicam um uso crescente de telessaúde e plataformas como a Rede Universitária de Telemedicina (RUTE) e o Sistema Universidade Aberta do Sistema Único de Saúde (UNA-SUS), mas também revelam que menos da metade das UBS possuem infraestrutura física adequada para uso efetivo dessas ferramentas. Isso reforça a necessidade de investimento em equipamentos, conectividade e formação contínua dos profissionais para implementar com sucesso as tecnologias digitais em estratégias de continuidade do cuidado(62). Assim, esta abordagem poderá contribuir para o gerenciamento longitudinal do cuidado, promover a continuidade informacional e fortalecer a coordenação entre os pontos da rede.

Apresentam-se, também, desafios relacionados ao vínculo paciente-profissional(42,54), responsabilização das equipes da APS(43) e envolvimento do paciente com seu projeto terapêutico(27). Estes elementos estão imbricados, posto que o vínculo viabiliza a corresponsabilidade e a continuidade do cuidado, constituindo uma estratégia fundamental para fortalecer a relação terapêutica(63).

A experiência de organização das RAS da região leste do Distrito Federal, a partir da Planificação da Atenção à Saúde, demonstrou que práticas colaborativas, escuta qualificada e valorização do saber do usuário são condições necessárias para a corresponsabilização no cuidado. Isso exige desenvolvimento de competências além do domínio técnico, incluindo a habilidade de dialogar, negociar metas e envolver o paciente no processo de tomada de decisão(64).

A insuficiência e rotatividade de profissionais médicos na APS apresenta efeitos negativos no estabelecimento de vínculo com os usuários e continuidade do cuidado(48,52,63). Por outro lado, pacientes hipertensos que mantêm acompanhamento com o mesmo médico por um período de dois anos apresentam uma qualidade de vida significativamente superior em comparação àqueles que recebem cuidados de múltiplos profissionais. O vínculo entre paciente e o profissional não apenas favorece uma maior adesão ao tratamento, mas também aumenta a disposição em seguir as orientações fornecidas(11).

Os achados ainda destacam que visitas de pacientes a profissionais não habituais podem representar perda da continuidade e da coordenação do cuidado, além de frequentemente aumentar o quantitativo de encaminhamentos para a atenção especializada, uma vez que estes profissionais não conhecem o histórico clínico e não desenvolveram uma relação de cuidado continuado(10).

Apesar disso, a elevada rotatividade dos profissionais, observada com frequência, limita a qualidade e disponibilidade do atendimento, constituindo barreira ao acesso e fragilizando o vínculo profissional-usuário(65,6667). Destaca-se, então, a necessidade de políticas que priorizem a estabilidade do profissional na APS e sua fixação no território.

A ausência de uma carreira estruturada, com estabilidade e progressão funcional consolidadas, aprofunda a rotatividade profissional, fragiliza o vínculo com os usuários e desarticula a lógica das RAS, além de reforçar relações precárias e terceirizadas de trabalho na saúde, com forte impacto na descontinuidade do cuidado(68).

Frente a isso, reforça-se a necessidade de fortalecimento da APS, com investimentos estruturantes que envolvam o financiamento adequado, estímulo às ações intersetoriais, valorização do trabalho em saúde, implementação de políticas de manutenção de profissionais qualificados – como a instituição de uma carreira pública no SUS, medida defendida por movimentos sociais e pesquisadores do campo da Reforma Sanitária como essencial para valorização do trabalho com vistas à consolidação de um SUS universal e de qualidade. Assim, uma APS forte é capaz de garantir a continuidade do cuidado aos seus usuários(68).

Diante do exposto, observa-se que a efetivação da continuidade do cuidado na APS ao usuário com HAS está diretamente relacionada às questões macropolíticas que direcionam desde a organização, funcionamento e gestão dos sistemas de saúde(69). Na realidade brasileira, a persistência do modelo biomédico hegemônico - centrado em procedimentos, doença e condições agudas- desconsidera a epidemia das condições crônicas em todo o mundo, e a APS reproduz a prática clínica de urgências e emergências(69,70). Este cenário é agravado pelo subfinanciamento crônico e o desfinanciamento do SUS imposto pela Emenda Constitucional n° 95/2016(70), que compromete a alocação eficiente de recursos e a sustentabilidade das ações(67). Além disso, a formação dos profissionais de saúde, frequentemente pautada por abordagens fragmentadas do conhecimento, mecanicista e baseada no paradigma positivista(71), dificulta a adoção e a consolidação depráticas interdisciplinares, centrada na pessoa, contínuas e coordenadas no sistema de saúde. Ademais, as desigualdades regionais e a ausência de políticas efetivas de fixação de profissionais nas regiões mais vulneráveis amplificam as iniquidades no acesso a serviços de qualidade.

A qualificação permanente das equipes da APS para desenvolvimento de um cuidado continuado e centrado na pessoa, pautada em diretrizes alinhadas aos princípios do SUS, deve promover o uso de protocolos clínicos atualizados, mas, sobretudo, do desenvolvimento de vínculo e responsabilização. Tais estratégias são indispensáveis para a superação da fragmentação do cuidado e mudança assistencial, contribuindo para a consolidação de práticas integrais e coordenadas e, por conseguinte, promovendo melhores condições de saúde à pessoa com HAS.

Como limites do estudo, destaca-se a heterogeneidade metodológica dos estudos incluídos, que impôs desafios à análise dos dados. Por outro lado, a escassez de estudos com experiências positivas da efetivação da continuidade limitou a identificação de facilitadores para o desenvolvimento da continuidade do cuidado.

CONCLUSÃO

Este estudo mapeou a produção científica relacionada ao cuidado às pessoas com diagnóstico de HAS, identificando efeitos, limites e estratégias para efetivação da continuidade do cuidado, no contexto da APS.

Revelou-se a importância da continuidade do cuidado na APS para pessoas com HAS, destacando efeitos positivos no controle da pressão arterial, adesão ao tratamento, redução da morbidade e mortalidade, diminuição do uso de serviços hospitalares e dos custos com saúde. Pacientes acompanhados pelo mesmo profissional têm maior probabilidade de alcançar controle da pressão arterial e aderir ao tratamento, reduzindo o risco de doenças cardiovasculares e a frequência de hospitalizações. Além disso, a continuidade do cuidado melhora a qualidade de vida dos pacientes hipertensos, pois o vínculo com o mesmo profissional de saúde facilita a adesão ao tratamento e a aceitação das orientações.

Os estudos mapeados sinalizam a existência de limites importantes para garantir a continuidade do cuidado na APS. Entre os fatores limitantes estão a falta ou descontinuidade na oferta de medicamentos, equipamentos para rastreamento da HAS, como esfigmomanômetro, a fragmentação do cuidado, a comunicação ineficaz entre profissionais, além da ausência de estratégias para a organização do cuidado para atender às necessidades clínicas dos pacientes. A rotatividade dos profissionais de saúde e a falta de envolvimento dos pacientes no planejamento terapêutico dificultam a formação de vínculos e a responsabilização das equipes de saúde.

A compreensão desses limites e das estratégias identificadas possibilita o reconhecimento das fragilidades e a orientação de ajustes necessários para a melhoria da continuidade do cuidado à pessoa HAS na APS. Além disso, pode subsidiar propostas de intervenção nos territórios, visando à implementação de estratégias para o enfrentamento dos desafios identificados, bem como estimular novas investigações — especialmente estudos longitudinais — que analisem os efeitos das estratégias adotadas na continuidade do cuidado e explicitem experiências exitosas relacionadas à prática da continuidade do cuidado na APS.

DISPONIBILIDADE DE DADOS

Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi disponibilizado e publicado no próprio artigo.

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Editado por

  • EDITORA ASSOCIADA
    Marcia Regina Martins Alvarenga

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    09 Jan 2026
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    25 Fev 2025
  • Aceito
    18 Set 2025
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