Open-access O método clínico centrado na pessoa: aprendizagem na residência em medicina de família e comunidade

RESUMO

Introdução:   O método clínico centrado na pessoa (MCCP) surgiu em meio a correntes de oposição a uma visão mecanicista da medicina. Hoje, ele integra currículos educacionais de diversos países, com impactos positivos na assistência médica, sendo um elemento central na formação dos médicos de família e comunidade.

Objetivo:  Este estudo teve como objetivo analisar a percepção dos egressos do Programa de Residência em Medicina de Família e Comunidade da Secretaria Municipal de Saúde do Recife sobre os fatores que influenciam a aprendizagem do MCCP.

Método:   O estudo é do tipo descritivo e qualitativo, e foi realizado por meio de grupos focais, com posterior análise temática.

Resultado:  Identificaram-se seis temas no conteúdo dos grupos, sobre os quais a análise foi estruturada: graduação médica, saúde mental, importância do MCCP, ensino prático, ensino teórico e estruturação do programa.

Conclusão:   Entre os fatores que dificultam seu aprendizado, destacaram-se a graduação médica hierarquizada e fragilidades do cenário de prática da residência. Como facilitadores, houve comentários sobre o adequado ensino teórico, a criação de mecanismos reflexivos sobre a prática médica (como grupos Balint, jornais reflexivos e espaços de autocuidado), o ensino centrado no educando e a iniciação à docência. O modelo de preceptoria ombro a ombro e as metodologias ativas de aprendizagem parecem ser benéficos, desde que acompanhados de perto e com abertura para identificação de dificuldades. As discussões fomentadas neste trabalho podem ser levadas em consideração no planejamento pedagógico de programas de residência em MFC, visando à criação de estratégias para minimizar as dificuldades de ensino do MCCP.

Palavras-chave:
Internato e Residência; Medicina de Família e Comunidade; Aprendizagem; Assistência Centrada no Paciente

ABSTRACT

Introduction:   The Patient-Centered Clinical Method (PCCM) emerged amid currents of opposition to a mechanistic view of medicine. Today, it is part of educational curricula in several countries, with positive impacts on medical care, and it’s a central element in the training of Family physicians.

Objective:  This study aimed to analyze the perception of graduates of the Family Medicine Residency Program of the Recife Health Department about the factors that influence learning about the PCCM.

Methods:   The study is descriptive and qualitative and was conducted through focus groups, with subsequent thematic analysis.

Results and discussion:  Six topics were identified in the content of the groups, on which the analysis was structured: Medical graduation; Mental health; Importance of PCCM; Practical teaching; Theoretical teaching and Structuring of the program.

Conclusion:   Among the factors that hinder learning, hierarchical medical graduation and weaknesses in the practice scenario of the residency were highlighted. As facilitators, adequate theoretical teaching, the creation of reflective mechanisms on medical practice (such as Balint Groups, reflective journals and self-care spaces), student-centered teaching and initiation to teaching were discussed. The shoulder-to-shoulder preceptorship model and active learning methodologies appear to be beneficial, as long as they are closely monitored and open to identifying difficulties. The discussions fostered in this study should be taken into consideration in the pedagogical planning of Family Medicine residency programs, aiming at the creation of strategies to minimize the difficulties of teaching the patient-centered clinical method.

Keywords:
Internship and Residency; Family Practice; Learning; Patient-Centered Care

INTRODUÇÃO

Historicamente, o ensino empregado nas escolas de Medicina é pautado no modelo biomédico, no qual o paciente é visto, muitas vezes, não como sujeito autônomo e fortemente envolvido nos seus caminhos de adoecimento e cura, mas como mero objeto de intervenção médica1. Paralelamente ao avanço desse modelo, surgem correntes de oposição a esse modo de exercer a medicina2. Nas últimas décadas do século XX, ocorreram mudanças no ensino médico, surgindo algum interesse na ampliação de sentido dos paradigmas no campo da saúde3. Tal reenquadramento propõe que uma medicina baseada em fontes objetivas de evidências também englobe a subjetividade do paciente na tomada de decisões4.

Em consonância com esse movimento crítico, surgem diversos contrapontos, como a proposta do modelo biopsicossocial de George Engel, que acreditava que uma resposta adequada aos sofrimentos dos pacientes só poderia ser dada se fossem consideradas as diferentes dimensões do adoecimento e não apenas a biológica, sem descartar a importância dos avanços da ciência médica até então5. Nos anos 1970, Balint e colaboradores introduziram a expressão “medicina centrada no paciente”, referindo-se a uma abordagem que se distanciava do modelo biomédico e buscava entender o paciente dentro de um contexto mais amplo. Objetivando articular e sistematizar esses conceitos, pesquisadores da University of Western Ontario, no Canadá, desenvolveram um modelo composto - após revisões - de quatro componentes: explorando a saúde, a doença e a experiência da doença; entendendo a pessoa como um todo; elaborando um plano conjunto de manejo dos problemas; e intensificando a relação entre pessoa e médico6),(7. Esse modelo, denominado método clínico centrado na pessoa (MCCP), foi proposto como elemento central da prática clínica, fundamentado em evidências que comprovam a correlação entre a abordagem centrada no paciente e a melhoria nos desfechos em saúde. Embora essa premissa seja amplamente reconhecida, a literatura identifica persistentes lacunas na formação médica quanto ao desenvolvimento das competências necessárias para essa abordagem, resultando em deficiências assistenciais e redução da satisfação dos pacientes7)-(9. Diante da relação comprovada entre o ensino médico baseado no MCCP e a melhoria dos indicadores de saúde, o método foi incorporado a currículos de graduação em diversos países, tanto pelo impacto positivo nos desfechos clínicos quanto pela racionalização de custos7)-(9.

A atenção primária à saúde (APS) tem como um de seus princípios a integralidade, que, entre outros sentidos, busca responder às necessidades das pessoas sem reduzi-las a aparelhos ou sistemas biológicos10. Sendo assim, compreende-se a necessidade de que a formação dos médicos de família e comunidade abarque uma visão integral do ser humano, de forma a fortalecer seu próprio campo de práticas. Em 2014, foi realizada a “I Oficina para construção de um currículo brasileiro baseado em competências”, que contou com a participação de especialistas brasileiros e canadenses e teve como produto a elaboração de um currículo baseado em competências para a especialidade em questão. Esse documento, que objetiva nortear a estruturação de programas de residência, cita a abordagem centrada na pessoa como essencial para o processo formativo, deixando clara a importância dessa competência para os médicos de família e comunidade11.

A residência médica é um modelo de pós-graduação lato sensu, tendo como principal característica o treinamento inserido nos campos de prática. São consequências dessa integração ensino-serviço a extensão da formação do profissional e sua integração à força de trabalho das instituições responsáveis pelos programas. A residência médica traz, então, a teoria como instrumento e a prática como guia12. De acordo com Teixeira13, aprender é “ganhar um modo de agir”, o que ocorre quando conseguimos agir de acordo com aquilo que aprendemos e assimilamos. Nesse sentido, o ensino é um processo ativo de quem aprende não apenas absorvendo, mas também fazendo a transferência dos conteúdos para os processos e da compreensão intelectual para a prática14.

Com base no que foi exposto até então, entende-se que o MCCP é um elemento central na formação dos médicos de família e comunidade. No entanto, há questões nevrálgicas a serem exploradas que incluem os aspectos de como o método se insere na prática dos residentes, como eles o percebem e os efeitos da sua incorporação na prática do cuidado. Para além disso, ainda se discutem muito pouco o conteúdo da formação nas residências médicas, a maneira como os residentes aprendem e o que eles aprendem15.

Por meio dessas questões a serem exploradas e partindo do pressuposto empírico da vivência enquanto residente de medicina de família e comunidade (MFC), foi identificado, no projeto pedagógico do Programa de Residência em Medicina de Família e Comunidade da Secretaria Municipal de Saúde do Recife (PRMFC Sesau-Recife), um posicionamento alinhado com a ideia de que o processo de cuidado deve ser centrado na pessoa que é cuidada. Estruturou-se, então, este estudo, que tem por objetivo analisar a percepção dos egressos do PRMFC Sesau-Recife sobre os fatores que influenciam a aprendizagem do MCCP.

MÉTODO

Trata-se de um estudo qualitativo descritivo, realizado no âmbito do PRMFC Sesau-Recife, com coleta de dados no ano de 2023. Esse trabalho foi realizado após aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa da Faculdade Pernambucana de Saúde: Parecer Consubstanciado nº 6.123.555.

Para o alcance dos objetivos do estudo e considerando a natureza exploratória fenomenológica da pesquisa, foram conduzidos grupos focais de composições homogêneas. A seleção dos sujeitos da pesquisa levou em consideração os pressupostos de seleção de participantes de estudos qualitativos exploratórios de pequeno porte e que utilizam grupos focais como ferramenta de coleta de dados. Partindo-se dessa premissa e para garantir a compatibilidade, “os participantes devem idealmente ter algo a dizer sobre o tema e precisam se sentir confortáveis para dizer isso para outros”23, assim, foram incluídos no estudo médicos egressos do PRMFC Sesau-Recife que houvessem concluído a residência nos anos de 2021, 2022 ou 2023. Excluíram-se os profissionais que estivessem envolvidos em atividades de preceptoria ou ensino do programa de residência abordado, uma vez que isso poderia gerar conflitos de interesses.

Antecipou-se a quantidade de grupos focais com base na homogeneidade dos participantes, na natureza exploratória do tópico e na repetitividade das descobertas. Em um estudo exploratório, os autores indicaram que um ou dois grupos focais seriam suficientes, ou que, em questões de pesquisa relativamente simples com população de interesse homogênea, um único grupo poderia ser suficiente16. Antecipou-se um total de três grupos focais, sendo, por fim, conduzidos apenas dois pela repetitividade alcançada na análise. A quantidade de participantes por grupo focal seguiu a recomendação de que o tamanho do grupo deveria garantir a discussão adequada do tema. Estimou-se dessa forma que os participantes fossem em número de seis a oito pessoas. O recrutamento incluiu convite para um número maior de pessoas, que possibilitasse o alcance do quantitativo. Mesmo com essa hiperestimação, o número de participantes no dia da condução dos grupos focais foi de quatro e cinco, respectivamente, aproximando-se da recomendação de outros autores quanto ao número total17),(18. Para a condução dos grupos focais, foi estruturado um roteiro que passou por etapas de refinamento, contando com o auxílio de voluntários com perfil semelhante aos potenciais sujeitos da pesquisa. Essa etapa de refinamento do instrumento de coleta de dados cumpre os pressupostos para garantir que a pesquisa de natureza exploratória alcance seus objetivos com os grupos19.

O PRMFC Sesau-Recife foi aprovado pela Comissão de Residência Médica municipal em maio de 2013 e iniciou sua primeira turma de residentes em março de 2014. O programa foi implementado a partir da adesão ao edital do Ministério da Saúde do Pró-Residências, como parte do projeto de expansão para a formação de especialistas em áreas estratégicas. O programa se insere na rede de atenção à saúde do Recife com residentes vinculados a uma equipe de saúde da família no primeiro ano e outra no segundo. Os estágios realizados em outros pontos da rede de atenção, sejam eles na média complexidade ou mesmo em serviços hospitalares parceiros, complementam-se ao estágio longitudinal para que os residentes garantam integralidade e coordenação do cuidado. Os preceptores que realizam supervisão direta aos residentes nas equipes de saúde da família são, em sua totalidade, especialistas em MFC por meio de residência médica. O PRMFC Sesau-Recife é um dos três programas de residência médica vinculados a uma coordenação municipal de residências, que inclui mais 11 programas em área uni ou multiprofissional. A estruturação teórica e avaliativa do programa se embasa em três eixos - comunicacional, clínico e de bases, e ferramentas - entrelaçados para garantir a aquisição de competências de maneira integral.

Todos os médicos elegíveis foram convidados a participar por meio de texto enviado por aplicativo de mensagens eletrônicas. Das 24 pessoas que se enquadravam nos critérios de inclusão, cinco foram excluídas por envolvimento em atividades de ensino ou preceptoria no programa estudado, três se recusaram a participar e duas não responderam ao contato. Das restantes, cinco não conseguiram participar por incompatibilidade de horários. A amostra final foi composta de nove egressos, sendo quatro mulheres e cinco homens. Dentre os participantes, dois concluíram a residência de MFC em 2021, quatro em 2022 e três em 2023.

A coleta de dados foi realizada por meio de dois grupos focais online, via plataforma de videoconferências. Os grupos foram compostos de participantes diferentes, sendo quatro no primeiro grupo e cinco no segundo, conforme explicitado no Quadro 1.

Quadro 1
Perfil dos participantes dos grupos focais.

Inicialmente, o pesquisador fez uma introdução, na qual explicou os objetivos do encontro e como se daria a condução da discussão. Durante a coleta, o moderador fez a condução a partir de um roteiro semiestruturado (Figura 1) elaborado previamente, de forma a guiar o debate para temas que contemplassem os objetivos da pesquisa. Os tópicos do roteiro foram lidos como disparadores, e, a partir deles, permitiu-se o livre encadeamento de ideias dos participantes. Ao final, fez-se o encerramento, e esclareceram-se as possíveis dúvidas pendentes20. O primeiro grupo teve duração aproximada de uma hora e 25 minutos, e o segundo, de uma hora e 15 minutos.

Figura 1
Roteiro semiestruturado para condução dos grupos focais.

Os grupos focais foram gravados em áudio e vídeo, e as falas, transcritas para arquivos de texto por meio do software Cockatoo, resultando em um total de 27 laudas de transcrição para os dois grupos. Com o material gerado, realizou-se uma análise temática de caráter indutivo a partir de uma perspectiva construcionista21),(22. Para isso, foi feita repetidamente a leitura das transcrições, permitindo o contato direto e intenso do pesquisador com o material, tendo sempre como parâmetros da leitura a hipótese e os objetivos do trabalho, e sendo produzidos códigos a partir dos seus trechos23. Posteriormente, de acordo com suas interrelações, agruparam-se os códigos em temas e categorias, a partir dos quais foram geradas inferências e interpretações acerca dos assuntos discutidos22. O material elaborado na análise temática foi revisado por um segundo pesquisador que não participou da condução dos grupos focais.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

O processo de análise identificou seis temas, dentro dos quais foram estruturados os resultados deste trabalho, com oito categorias, conforme descrito no Quadro 2.

Quadro 2
Temas e categorias dos grupos focais.

Graduação médica: desconexão entre futuros médicos e seus pacientes

Nos grupos focais, a discussão foi inicialmente impulsionada pela leitura da seguinte frase: “O método clínico centrado na pessoa descreve uma forma diferente de ser médico; em consequência, a educação para o método exige uma forma diferente de ensino”7, após a qual os participantes foram incentivados a evocar vivências de suas residências que se relacionassem ao trecho. Tais evocações trouxeram espontaneamente consigo um caráter comparativo da residência com a graduação, sendo destacado por alguns participantes um traço hierárquico do ensino experienciado por eles antes do ingresso na residência.

Eu saí de uma vivência na faculdade em que nós trazíamos tudo muito pronto para o paciente. Então não era aquela coisa de tipo você esperar a pessoa trazer a vivência e a experiência dela com a doença para depois você tentar, junto com ela, conduzir o caso. Era muito uma coisa assim vertical do médico para o paciente (Participante 1).

Para além dos impactos profissionais, as relações verticalizadas no curso médico podem interferir no próprio processo de aprendizagem, fazendo aflorar nos estudantes sentimentos de insegurança, negação das dúvidas e incertezas, medo de errar e sensação de inadequação ou não pertencimento24. Entre os participantes dos grupos focais, essa percepção de inadequação nos seus ambientes formativos prévios foi rememorada como elemento gerador de sofrimento e dificuldades.

O ensino do MCCP nas graduações em Medicina ainda parece ser incipiente. Percebe-se que o ensino do MCCP é tratado como secundário ao de conhecimentos biomédicos para lidar com doenças, fazendo indiretamente com que os graduandos minimizem as necessidades de comunicar-se bem, demonstrar empatia e reconhecer os pacientes como um todo para além de suas patologias7.

De acordo com os relatos dos egressos, o curso de Medicina estimula um distanciamento hierárquico entre médicos e pacientes, principalmente pelo seu currículo oculto, seja pela forma como se aprende e como as pessoas se relacionam dentro do curso, seja pela não valorização de alguns tópicos (como o MCCP), que ficam às margens do currículo e daquilo que é repassado nas salas de aula, cabendo ao próprio aprendiz ou aos seus caminhos de pós-graduação construir ou resgatar essa visão compreensiva, integral e vicinal que o médico deve ter sobre seus consultantes. Uma vez que a graduação é a fundação sobre a qual serão erguidos os conhecimentos especializados da residência, pode-se inferir que as fragilidades dessa base trarão profundas repercussões na construção posterior de novos aprendizados. É necessário que a graduação forneça maior espaço e atenção para o MCCP, tendo em vista a magnitude das transformações geradas por ele na prática clínica, por se tratar não somente de uma nova técnica ou particularidade curricular, mas também de uma redefinição do que significa ser médico25.

Foi possível notar, durante os grupos focais, que a falta de contato anterior com o MCCP ao entrar na residência pode aumentar a complexidade desse processo de ensino, visto que o ponto de partida não será um conceito prévio de medicina centrada na pessoa, mas sim toda uma bagagem de conhecimentos clínicos centrados na doença. Perceber essas fragilidades no arsenal teórico-prático de seus residentes pode e deve fazer parte das atribuições avaliativas de um bom programa de residência em MFC, para que sejam construídas estratégias de remediação daquilo que foi negligenciado na faculdade.

Ensino prático

Considerando suas particularidades educacionais, é inequívoca a necessidade, dentro do contexto das residências médicas, de se discutir o processo de ensino-aprendizagem nos campos de prática, tanto a partir do campo em si e de sua estrutura e organização para um bom aprendizado quanto a partir da preceptoria, que exerce a função de ensino em serviço. Nos grupos focais, ambos os tópicos emergiram das discussões: a função das unidades básicas de saúde (UBS) na formação dos profissionais e a relevância dos preceptores e de suas habilidades pedagógicas no alcance dos objetivos educacionais.

Articulação teórico-prática: aquisição e aplicação de competências nas UBS

Para os participantes dos grupos focais, a relação entre a atuação prática nas UBS e o aprendizado do MCCP é estreita. No conteúdo de suas falas, foi possível perceber que consideram o ensino meramente teórico insuficiente para absorção do método, sendo a aplicação na clínica real um componente essencial para essa construção.

Eu acho que ela precisa dessa vivência de você estar ali no dia a dia empregando aquilo. Se você for só na teoria, só no estudo, eu acho que não dá certo. Você precisa vivenciar aquilo, porque depois aquilo ali acaba ficando uma coisa mecânica (Participante 1).

Entender um contexto, ampliar aquele olhar que a gente tem, e isso às vezes no contexto caótico [da UBS] que a gente está não rola (Participante 3).

Nesse sentido, destacaram que algumas particularidades dos seus cenários de prática na APS, como sobrecarga de trabalho, comunicação frágil com a gestão, alta demanda da população e adversidade na implementação de mudanças, podem dificultar a abordagem centrada na pessoa por parte dos residentes. Estudos já sugerem que fragilidades do cenário de ensino estão entre os principais dificultadores da aprendizagem do MCCP no contexto da residência médica, incluindo aspectos como equipes superlotadas, pressão assistencial, falta de insumos e estrutura precária26.

Preceptoria: papel estruturante no aprendizado do residente

No PRMFC Sesau-Recife, utiliza-se o modelo de preceptoria “ombro a ombro”, no qual o preceptor é o médico de referência da equipe e o residente é inserido nessa mesma equipe27. Nos grupos focais, algumas falas destacaram aspectos positivos desse modelo de preceptoria, tais como maior horizontalidade na relação preceptor-residente, maior segurança e até mesmo maior facilidade para trabalhar e aprofundar as questões que surgem quando se está desenvolvendo uma forma de atendimento baseada no MCCP.

A preceptoria, na medida em que ela está mais horizontal, mais próxima ali da gente, eu acho que ela facilita a gente conseguir lidar com essas questões nossas que são evocadas durante o nosso processo, e as questões do paciente também, eu acho que esse modelo de preceptoria especificamente facilita esse contato, essa... orquestrar melhor essa situação, sabe? (Participante 3).

A construção de aprendizado do residente deve contar com um clima de cooperação preceptor-residente e com um grau adequado de independência: não em demasia ao ponto de o residente sentir-se desamparado, nem em escassez, prejudicando o desenvolvimento de habilidades28. Esse delicado balanço deve ser sempre reavaliado e calibrado, fazendo parte de um processo contínuo de análise por parte do preceptor e da supervisão do programa, levando sempre em consideração as necessidades educacionais particulares de cada residente.

Como aspectos potencialmente negativos da preceptoria ombro a ombro, os participantes dos grupos focais destacaram que o relacionamento intenso entre preceptor e residente que esse modelo propicia pode gerar dificuldades, principalmente quando há ruídos na convivência. Saber relacionar-se é um dos maiores desafios do preceptor, tendo a necessidade de enxergar o outro, autoavaliar-se e construir vínculos de cooperação que favoreçam o desenvolvimento pessoal de ambos29. Os aspectos relacionais da função de preceptoria também devem ser constantemente revistos e fazer parte da formação apropriada de quem vai exercer tal cargo:

“Mas aí também tem essa parte do desafio. A preceptoria ombro a ombro é uma relação bastante intensa, diária. E quando não bate, não existe essa sintonia, fica difícil” (Participante 4).

As atribuições de uma boa preceptoria requerem habilidades específicas que geralmente não foram desenvolvidas durante a graduação, na qual as competências didático-pedagógicas são relegadas a um plano secundário. Sendo assim, os programas de formação pedagógica (cursos e oficinas de preceptoria) podem representar um aparato que busque a diferença entre uma preceptoria satisfatória e uma preceptoria mediana ou ruim30. Falhas de preceptoria foram relatadas nos grupos focais deste estudo, mesmo que não fossem a maioria. Uma aproximação da coordenação para avaliar o andamento e a qualidade da preceptoria foi levantada como importante para que tais situações sejam rapidamente corrigidas e que o devido suporte seja dado àqueles que precisam, buscando sanar, por exemplo, os déficits didáticos que forem identificados.

Outra sugestão aventada durante os grupos focais foi o estabelecimento de critérios mais claros para seleção de preceptores para o programa. A falta de incentivos financeiros para a preceptoria do PRMFC Sesau-Recife e a carga de trabalho extra foram destacadas como questões que dificultam essa seleção, visto que o cargo se torna menos atrativo, podendo limitar o número de interessados.

Ensino teórico: metodologias de ensino para a construção de conhecimentos

No PRMFC Sesau-Recife, as bases teóricas do MCCP são trabalhadas em um espaço chamado “Como Eu Faço”, voltado ao conhecimento das bases técnicas e filosóficas da MFC. No programa, existe o incentivo para a utilização de metodologias ativas de aprendizagem31. Sobre essa temática, os participantes dos grupos focais divergiram. Embora muitos tenham elencado as metodologias ativas como facilitadoras do aprendizado, alguns chegaram a discordar. Apesar de a literatura sugerir que um processo mais ativo, incorporando ideias e aspirações dos educandos quanto ao que querem aprender, seja mais adequado para o ensino do MCCP, os participantes do presente estudo relataram dificuldades em lidar com esse tipo de espaço7.

Algo destacado como positivo de forma unânime nos grupos focais foi a abertura do coletivo de residência para debates dentro dos espaços de discussão teórica. As discordâncias ou os acréscimos feitos de maneira respeitosa e construtiva parecem contribuir para enriquecimento das argumentações e dos conhecimentos divididos.

Outro espaço teórico realizado pelo PRMFC Sesau-Recife no qual o MCCP é intensamente trabalhado é o Laboratório de Comunicação (LabCom), onde os residentes exibem consultas reais que foram gravadas com a devida autorização, para que outros residentes e preceptores possam avaliar e tecer feedbacks sobre aspectos comunicacionais das consultas utilizando o método de visualização global32),(33. Nos grupos focais, os egressos salientaram o potencial do LabCom no aperfeiçoamento de habilidades e na contribuição para suas formações.

MCCP e comunicação clínica: desconstrução da visão médico-centrada

O MCCP, que tem como segundo componente “entendendo a pessoa como um todo”7, é uma potente ferramenta de legitimação da integralidade do indivíduo, uma vez que indica a necessidade de compreensão do contexto familiar, do ciclo de vida, das crenças, dos costumes, do histórico de saúde, entre outros fatores34. O método busca superar a noção hierárquica de que o médico é o único responsável pela tomada de decisões, propondo um estilo de consulta com decisões compartilhadas em prol de objetivos em comum35. Conforme já discutido, os residentes comumente possuem lacunas da graduação em relação à integralidade e vêm de um ensino médico extremamente hierarquizado. Sendo assim, os participantes relataram que o contato intenso com o MCCP na residência pode se configurar como uma situação completamente nova, exigindo uma mudança de postura ou até mesmo de visão sobre o fazer médico por parte dos residentes. Os participantes dos grupos focais foram capazes de perceber, para além da importância do MCCP, seu impacto positivo na qualidade de suas consultas, seja na estruturação dos atendimentos, seja na contextualização dos casos:

“Eu acho que o contato com o MCCP traz uma nova perspectiva de tratar a realidade, de enxergar a realidade” (Participante 4).

A aplicação prática do MCCP converge para a retirada do poder centralizado na figura médica, buscando a autonomia do indivíduo e sua inclusão como protagonista do processo de cuidado, o que, de certa forma, vai contra o paradigma biomédico tão arraigado em nossa sociedade25. A compreensão, por parte dos egressos, de que o MCCP é não apenas importante mas essencial para suas vidas profissionais e dos benefícios que estão atrelados à sua utilização demonstra que, a despeito de suas formações prévias serem ou não deficitárias nesse quesito, a passagem pelo PRMFC Sesau-Recife conseguiu gerar uma mudança em suas atuações no sentido de construir um cuidado verdadeiramente centrado na pessoa, o que está em consonância com o projeto pedagógico do programa.

Angústias da MFC: processamento das vivências

Sabe-se que existem diversas formas de adoecer e de relatar o adoecimento. Quando o MCCP é utilizado, espera-se que seja aberto um espaço para que esses relatos surjam da forma mais completa possível, o que permite que aspectos do campo emocional se manifestem com maior facilidade, reverberando não apenas no paciente, mas também no profissional36. Durante os grupos focais, os participantes relataram que o contato mais intenso com o sofrimento humano e a ampliação da clínica para um olhar integral, levados a cabo pela utilização do MCCP, atuam como geradores de angústias e de desgaste:

“Quando a gente vem com um pensamento muito centrado em doenças, patologias, resolução daqueles problemas, e aí a complexidade das pessoas e famílias meio que destrói isso. Você fica sem chão, fica perdido” (Participante 8).

Desenvolver a autopercepção do residente quanto aos fatores que possam interferir na sua atuação é importante dentro do processo de aprendizado do MCCP. A calibragem da consciência pessoal, por meio da discussão de crenças e atitudes, das respostas emocionais, das situações clínicas desafiadoras e do autocuidado, pode melhorar seus cuidados clínicos e elevar sua satisfação com o trabalho e com seus relacionamentos7),(37. Nos grupos focais, foi citada a necessidade de espaços institucionais voltados ao compartilhamento de experiências e à autopercepção para ajudar os residentes a lidar com esses anseios e questionamentos. Entre os participantes deste estudo, foram citados três formatos de espaço com essa finalidade: a tenda do conto, o grupo Balint e o espaço de autocuidado.

A tenda do conto configura-se como uma prática integrativa em saúde que parte do incentivo à autonomia por meio do encontro de narrativas singulares. Nela, os participantes são convidados a relatar fatos ou histórias relacionados a experiências de vida a partir de objetos disparadores38. O grupo Balint, por sua vez, é um modelo de prática grupal no qual se trabalham a relação médico-paciente e as emoções atreladas a ela por meio do relato e da discussão de casos reais39. O espaço de autocuidado foi implementado no PRMFC Sesau-Recife em 2022, por sugestão dos próprios residentes. Trata-se de um turno mensal organizado pelos residentes para práticas de autocuidado, dinâmicas grupais de relaxamento ou reflexão e discussão sobre o andamento da residência. Algo destacado pelos participantes foi o fato de que, durante suas residências, esse tipo de espaço não ocorreu de maneira uniforme. Durante os períodos nos quais não houve espaços de partilha, os residentes sentiram falta desses momentos.

Para além dos momentos coletivos, ferramentas mais individuais de reflexão e autoconhecimento também foram sugeridas durante os grupos focais, como a psicoterapia individual e o jornal reflexivo. Cabe frisar que o segundo constitui um dos métodos obrigatórios de avaliação do PRMFC Sesau-Recife; trata-se de um portfólio de textos escritos pelo residente acerca dos processos vividos na sua formação, incluindo situações do exercício profissional, relação com a equipe, os colegas e os pacientes31.

Sendo a prática clínica, ainda mais quando centrada na pessoa, extremamente demandante emocional e cognitivamente, os relatos apontam para a importância de haver, no contexto das residências em MFC, a incorporação de ferramentas para reflexão sobre aquilo que é vivenciado e aquilo que causa angústia e inquietação. Diversos estudos já demonstraram que “a promoção de sentido no trabalho aumenta a satisfação do médico e reduz seu esgotamento”. Espaços sobre atenção e consciência promovem significativa melhora no humor, no esgotamento e nas atitudes ligadas ao cuidado centrado na pessoa7. Seja por meio de métodos individuais ou coletivos, autogeridos ou mediados, a institucionalização desses espaços parece ser benéfica para a qualidade de vida e para o desempenho acadêmico dos residentes.

Estruturação do programa

Sobre a estruturação do PRMFC da Sesau-Recife, os participantes dos grupos focais do presente estudo teceram comentários sobre o ensino centrado no residente, as constantes reavaliações e reformulações às quais o programa está sujeito e a iniciação à docência dentro do programa, o que foi posteriormente estruturado nas seguintes categorias: “Residência centrada no educando: o caminho se faz ao caminhar” e “Residência: caminho e finalidade”.

Residência centrada no educando: o caminho se faz ao caminhar

No livro Medicina centrada na pessoa: transformando o método clínico7, há uma seção dedicada ao ensino do MCCP. Nela, os autores traçam um paralelo entre o MCCP e a forma mais adequada de ensiná-lo. Se o método busca centrar a consulta naquele que precisa dela, também assim deve ser o seu ensino: centrado naquele que aprende e levando em consideração os aspectos relacionais entre aprendiz e educador. Esse mesmo paralelo surgiu espontaneamente em falas dos grupos focais, sugerindo um alinhamento do PRMFC Sesau-Recife com aquilo que é preconizado na literatura para o ensino do MCCP.

Eu fico pensando que, do mesmo jeito que quando a gente aplica o método clínico centrado na pessoa, você está buscando uma visão positiva da pessoa ali na sua frente, quando a gente ensina ou aprende esse método a gente também coloca essa visão no estudante, no aprendiz, digamos assim. E aí meio que ao mesmo tempo traz uma carga teórica pra gente ler e se modelar a partir daquilo, mas tem uma parte empírica e prática em que nunca era dispensado nossa própria experiência, assim: “Como é que eu vou ignorar a existência daquele aprendiz e ensinar ele a não fazer isso com a pessoa que ele está atendendo?”. Não faz sentido, seria meio dissonante (Participante 8).

Os participantes dos grupos focais destacaram a percepção de um ensino centrado no residente dentro do PRMFC Sesau-Recife e a visão de que isso é benéfico para o programa. Um dos fatores que contribuem para essa percepção é a proximidade e abertura da coordenação, permitindo uma constante avaliação da efetividade pedagógica e reestruturação dos espaços formativos de acordo com o entendimento do coletivo de residentes sobre o que funciona e o que deve melhorar.

Outro fator citado foi o alinhamento da preceptoria com aquilo que o programa preconiza e a relação entre preceptores e residentes, desde a divisão dos residentes até a vivência prática. A maior horizontalidade entre esses dois atores parece fomentar um espaço mais propício para a percepção das necessidades de aprendizado e para o desenvolvimento de estratégias para sua resolução.

Um ensino centrado no aprendiz parece fazer sentido quando se discutem formas de aprender o MCCP. A prática real do método e o seu ensino devem ser alinhados, de forma que o processo faça sentido. O aprendizado do método, assim como de qualquer outro conhecimento, é gradativo e não necessariamente linear. Uma trajetória dinâmica e sempre aberta a ser modificada de acordo com avaliações constantes é necessária para que o residente possa fazer parte da construção de sua própria formação profissional, tornando-a mais efetiva e satisfatória.

Residência: caminho e finalidade

O PRMFC Sesau-Recife traz o desenvolvimento de habilidades docentes pelos egressos como um dos objetivos gerais de seu projeto pedagógico. Um de seus espaços teóricos, o “Como Eu Faço”, tem as aulas planejadas e executadas por residentes, sob a orientação de preceptores predefinidos, possibilitando o contato dos residentes com ferramentas pedagógicas que eles poderão utilizar futuramente, seja na função de professores, seja no papel de preceptoria31. Para além dos espaços teóricos, foi relatado pelos participantes que a convivência com internos e até com outros residentes nos campos de prática também é um momento propício para exercitar as habilidades de ensino. A observação de atendimentos, a discussão de casos e as trocas de experiência são um rico substrato para trabalhar essas habilidades, sendo a aprendizagem por modelos o principal método observado quando os residentes estão ensinando40.

CONCLUSÃO

Destaca-se que o presente estudo, apesar de levantar importantes discussões sobre seu tema, tem a limitação de um número total de participantes reduzido, principalmente pela pouca disponibilidade de tempo dos egressos para que pudessem participar, resultando em grupos focais com menos integrantes que o preconizado como ideal41. Além da mencionada limitação, vale destacar que o estudo deu enfoque à autoanálise e ao confronto interno da proposta, podendo ser aplicado a programas que se baseiam no mesmo referencial do MCCP, com uma possibilidade limitada de extrapolação.

Ao mesmo tempo, as discussões produzidas nos grupos focais deste estudo apontam para os limites e as potencialidades do MCCP dentro de um programa que o reconhece como estruturante à formação de qualidade. Dentre os achados, os participantes têm uma visão positiva sobre o MCCP, considerando-o um elemento central na estruturação da formação especializada em MFC. Para além disso, essa visão positiva também se estende ao papel do MCCP na formação geral em medicina e na boa atuação médica. Esse posicionamento pode indicar um alinhamento entre o projeto pedagógico do PRMFC Sesau-Recife (pautado no cuidado centrado na pessoa) e aquilo que é vivenciado na prática pelos seus residentes, sendo incorporado à sua visão profissional e atuação clínica. Os principais obstáculos ao aprendizado do MCCP referem-se a fatores externos ao programa de residência. A graduação médica hierarquizada, pouco marcada pela integralidade e que incentiva (direta ou indiretamente) o distanciamento entre médicos e pacientes já é um dificultador a priori, visto que alguns médicos podem chegar à residência com uma bagagem pobre em ferramentas para uma abordagem centrada na pessoa.

Quanto ao principal cenário de prática, foi comentado que as UBS com estrutura inadequada, profissionais sobrecarregados, equipe resistente a mudanças e uma comunicação falha com a gestão fragilizam a articulação teórico-prática e, consequentemente, o aprendizado. Sendo assim, sugere-se que melhorias estruturais e gerenciais nas UBS poderiam contribuir para um maior aprendizado dos residentes. Os preceptores que atuam nesse cenário também foram ressaltados como tendo um papel fundamental. Os participantes consideraram que a preceptoria ombro a ombro pode facilitar o processo de ensino, desde que haja formação adequada para isso e a relação preceptor-residente esteja sempre sendo avaliada, visto que há um contato muito mais intenso nesse modelo de preceptoria do que em outros27. A implementação de incentivo financeiro à preceptoria foi ponderada como algo que pode favorecer a adequada seleção de profissionais para ocuparem esse papel e viabilizar a imposição de maiores exigências para o cargo.

As angústias que tendem a despontar durante o processo de desenvolvimento profissional e pessoal da residência e, principalmente, durante o amadurecimento de uma prática baseada no MCCP podem tornar essa caminhada mais árdua e, até mesmo, infrutífera. Para contornar essa questão, é primordial que o programa de residência propicie mecanismos crítico-reflexivos e de autoconhecimento, como os grupos Balint, a tenda do conto, os espaços de autocuidado e os portfólios (escrita reflexiva).

Nos grupos focais, considerou-se que um adequado embasamento teórico é importante para o desenvolvimento de uma medicina centrada na pessoa. As metodologias ativas de aprendizagem podem facilitar esse processo, mas é necessário dar especial atenção aos residentes que tiverem maiores dificuldades com tais métodos, já que alguns estão habituados a metodologias mais tradicionais e expositivas. A abertura para discussões e debates nos espaços teóricos e a elaboração de feedbacks sobre consultas gravadas também podem ser incentivadas para a construção desses alicerces teóricos.

Os participantes expressaram a relevância de um ensino centrado no educando para o adequado aprendizado do MCCP, conforme já preconizado pela literatura7. A comunicação aberta entre residentes, preceptores e coordenação permite um processo contínuo de reavaliação e reformulação, gerando um andamento mais fluido e mais facilmente adequável às necessidades educacionais particulares de cada residente. A iniciação à docência dentro do programa de residência, para além de ser benéfica à formação clínica dos residentes, estimula a disseminação de conhecimentos sobre o MCCP, facilitando o seu ensino e a sua incorporação à prática. Optou-se por delimitar o escopo deste estudo a aspectos fundamentais da análise, abstendo-se de incluir comparações sistemáticas entre métodos ou modelos diversos de atenção integral - tanto em nível individual quanto comunitário - para manter o foco na abordagem proposta. Tal delimitação metodológica abre espaço para investigações futuras dedicadas especificamente a análises comparativas entre estratégias, além de reflexões sobre as limitações e discrepâncias de tempo histórico do MCCP. Novos estudos com mais participantes, foco mais aprofundado em cada tema analisado ou debate mais abrangente, com comparações com outras formas de promover atenção integral, são sugeridos para maior aprofundamento do tema. Entende-se que as discussões fomentadas neste trabalho devem ser levadas em consideração no planejamento pedagógico de programas de residência em MFC, visando à criação de estratégias para minimizar as dificuldades de ensino do MCCP. Pondera-se, também, que as considerações feitas podem ser utilizadas como geradoras de reflexão na análise e reestruturação da formação médica como um todo, não apenas na residência.

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    Avaliado pelo processo de double blind review.
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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    13 Fev 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    18 Out 2024
  • Aceito
    04 Set 2025
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