Resumo
Introdução: A leishmaniose é uma possível preocupação para receptores de transplante de órgãos sólidos (TOS), especialmente aqueles provenientes de regiões endêmicas. Dentre os procedimentos de TOS, o transplante renal (TR) é o mais comum. Este estudo tem como objetivo sintetizar as evidências sobre leishmaniose visceral (LV) em candidatos e receptores de TR, com foco nos fatores de risco e desfechos associados.
Metodos: Esta revisão integrativa analisou estudos dos últimos 20 anos, concentrando-se no perfil da doença, tratamento, prognóstico e risco de infecção assintomática.
Resultados: Foram incluídos 32 artigos. Dos receptores de TR, 85,7% eram do sexo masculino, com idade média de 42,5 anos. O tempo médio desde o início dos sintomas foi de 54,7 meses. O comprometimento da função renal foi relatado em 64% dos pacientes, com uma taxa de mortalidade associada de 15%. A recidiva pós-tratamento ocorreu em 10-37,5% dos pacientes. Entre os candidatos ao TR, 13,9% apresentaram soropositividade para Leishmania spp.
Conclusão: A LV é uma condição pouco frequente entre receptores de TR, o que limita a qualidade das evidências disponíveis. A detecção precoce e o tratamento imediato são cruciais para a melhoria dos desfechos. Embora o comprometimento da função renal seja comum, ele raramente leva à rejeição do enxerto. Nos estudos revisados, a coexistência de LV e formas cutâneas ou mucocutâneas esteve associada a maior mortalidade. As recidivas são comuns e exigem estratégias de manejo individualizadas. A hemotransfusão representa um potencial risco de infecção, embora a triagem de rotina em bancos de sangue ainda não seja recomendada.
Descritores:
Transplante de Rim; Transplante Renal; Leishmaniose Visceral; Doenças Negligenciadas; Hospedeiro Imunocomprometido
Abstract
Introduction: Leishmaniasis is a potential concern for solid organ transplant (SOT) recipients, particularly those from endemic regions. Among SOT procedures, kidney transplantation (KT) is the most common. This study aims to synthesize the evidence about visceral leishmaniasis (VL) in KT candidates and recipients, with a focus on risk factors and associated outcomes.
Methods: This integrative review analyzed studies from the past 20 years, focusing on disease profile, treatment, prognosis, and risk of asymptomatic infection.
Results: A total of 32 articles were included. Of the KT recipients, 85.7% were male, with an average age of 42.5 years. The average timespan since symptom onset was 54.7 months. Renal function impairment was reported in 64% of patients, with an associated mortality rate of 15%. Post-treatment relapse occurred in 10–37.5% of patients. Among KT candidates, 13.9% were seropositive for Leishmania spp.
Conclusion: VL is an infrequent condition among KT recipients, limiting the quality of the available evidence. Early detection and prompt treatment are crucial for improving outcomes. While renal function impairment is common, it rarely leads to graft rejection. In the reviewed studies, the coexistence of VL and cutaneous or mucocutaneous forms was linked to higher mortality. Recurrences are common and require individualized management strategies. Hemotransfusion poses a potential infection risk, although routine screening in blood banks is not yet recommended.
Keywords:
Kidney Transplantation; Leish-maniasis, Visceral; Neglected Diseases; Immunocompromised Host
Introdução
A leishmaniose visceral (LV) é uma doença parasitária tropical negligenciada, causada por um grupo de protozoários intracelulares pertencentes ao complexo Leishmania donovani, também conhecido como “calazar”. Esses agentes patogênicos, transmitidos pela picada da fêmea do mosquito Phlebotomus ou Lutzomyia, apresentam tropismo por células reticuloendoteliais, principalmente as do baço, fígado e medula óssea1.
Em receptores de transplante, o uso de agentes imunossupressores é essencial para prevenir a rejei-ção do enxerto, que está associada à manifestação sintomática da infecção por mecanismos ainda não totalmente elucidados e que podem reativar infecções assintomáticas2, 3, 4. Os receptores de transplante renal (TR) podem ser infectados por meio de transfusão sanguínea, transmissão pelo aloenxerto ou exposição posterior a flebotomíneos infectados4. Informações sobre a LV assintomática em candidatos a transplante são escassas, e o reconhecimento da doença no receptor do transplante pode, portanto, sofrer atrasos5.
O diagnóstico envolve a identificação de parasitas principalmente por microscopia (da medula óssea e, menos frequentemente, do baço). Também podem ser utilizados o isolamento da cultura, o teste imunocromatográfico rápido com rK39 (detecção de antígeno) e a reação em cadeia da polimerase (PCR) a partir do sangue periférico ou da medula óssea6. A sorologia, por meio do teste de imunofluorescência indireta (IFI), do ensaio de imunoabsorção enzimática (ELISA) e do teste de aglutinação direta (TAD), é uma opção, embora cada teste possa apresentar diferentes níveis de sensibilidade e especificidade6. O tratamento preferido para esses pacientes requer uma abordagem sistêmica, sendo geralmente recomendável uma redução da dose de imunossupressão. O medicamento de escolha é a anfotericina B lipossomal (L-AmB) e, alternativamente, os antimoniais pentavalentes, que podem causar danos renais. Outras opções menos comuns incluem a miltefosina, pentamidina e paromomicina7.
A LV é uma infecção incomum no período pós-transplante, mesmo em regiões endêmicas. Entre os receptores de transplante de órgãos sólidos (TOS), a LV é relatada com mais frequência no TR, sendo responsável por 77% dos casos1. Esse achado provavelmente reflete a maior prevalência desse tipo de transplante entre os TOS4, 8. Normalmente, a infecção por LV causa febre, pancitopenia, hepatoesplenomegalia e perda de peso. No entanto, essas são as manifestações clássicas, mas não universais, da LV. Em alguns casos, a doença também pode levar à nefropatia, causada por infiltração inflamatória e esclerose glomerular, o que pode levar à disfunção do enxerto em receptores de TR1, 5, 9.
Este estudo teve como objetivo elucidar o conhecimento científico atual sobre a infecção por leishmaniose e os desfechos entre candidatos e receptores de TR, enfatizando os efeitos adversos relacionados ao tratamento e à saúde renal nessa população.
Métodos
Foi realizada uma revisão integrativa para discutir o perfil clínico e o diagnóstico da infecção por LV em candidatos e receptores de transplante renal, além de delinear os tratamentos e fatores prognósticos.
A pesquisa foi realizada usando os descritores “(‘Leishmaniose Visceral’) E (‘Transplante de Rim’ OU ‘Transplante Renal’)” em três bancos de dados (PubMed, Google Scholar e MEDLINE) em março de 2024. A busca abrangeu o período de 2004 a 2024, selecionando apenas artigos em inglês. Foram incluídos relatos e séries de casos, coortes retrospectivas e revisões sistemáticas. As duplicatas foram removidas manualmente e os resumos de conferências foram excluídos.
Os critérios de inclusão foram estudos que descrevessem pacientes com LV ou infecção assintomática por Leishmania spp. diagnosticadas em receptores e candidatos a TR, publicados em periódicos indexados. Os critérios de exclusão foram estudos focados em formas não viscerais de leishmaniose (cutânea e mucocutânea), aqueles envolvendo pacientes não receptores de TR ou outros tipos de transplante que não o TR (por exemplo, transplantes de fígado ou de células-tronco hematopoiéticas) e manuscritos que não especificaram o tipo de transplante.
O processo de seleção de artigos foi realizado por dois autores (OMVN e PYLM), e quaisquer incertezas quanto à inclusão ou exclusão foram discutidas no grupo de autores para consenso. A lista final de artigos selecionados foi documentada em uma planilha, que foi gerenciada pelos autores, para análise de dados subsequente.
Resultados
Estudos Incluídos
A Figura 1 mostra um fluxograma que detalha o processo de seleção dos estudos incluídos nesta revisão.
Fluxograma de seleção dos estudos. Fluxograma do Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses (PRISMA) adaptado para revisões integrativas.
Os autores categorizaram os manuscritos em subgrupos da seguinte forma: relatos ou séries de casos sobre receptores de TR9, 10, 11, 12, 13, 14, 15, 16, 17, 18, 19, 20, 21, 22, 23, 24, 25, 26, 27, 28; estudos observacionais sobre infecção assintomática em candidatos a TR5, 29, 30, 31, 32, 33; estudos observacionais sobre pacientes de TR que desenvolveram LV34, 35, 36, 37, 38 e uma revisão sistemática da LV em receptores de TR1.
A epidemiologia da LV em receptores de TR, a prevalência de infecção assintomática em candidatos a TR, os dados clínicos e laboratoriais, os achados de biópsia, o manejo terapêutico e as recidivas foram observados em cada um dos estudos incluídos.
Epidemiologia
A seleção de artigos resultou em 20 publicações de relatos de casos e séries de casos contendo dados de 25 pacientes (Tabela 1). A maioria dos relatos é originária de países endêmicos, como os da Bacia do Mediterrâneo, Brasil, Índia, Arábia Saudita e Irã13. Três pacientes relataram viagens: um para a Espanha e Tunísia12, um para a França e Marrocos19 e um para o Brasil e Tailândia25.
Dados de relatos de caso e pequenas séries de caso (< 8 pacientes) de leishmaniose visceral em transplantados renais.
Além disso, os quatro estudos observacionais documentados na literatura, reunidos na Tabela 2, fornecem dados de um total de 66 pacientes. Os pacientes das Tabelas 1 e 2 apresentavam uma idade média de 42,52 (18-75) anos; 78 deles (85,71%) eram do sexo masculino.
Dados de estudos observacionais (≥8 pacientes) de leishmaniose visceral em receptores de transplante de rim.
Infecção Assintomática por Leishmania spp. em Candidatos a TR
No total, 1.348 candidatos a TR foram incluídos nos estudos exibidos na Tabela 3, todos provenientes de áreas endêmicas para LV. Estudos que compararam os métodos diagnósticos apresentaram resultados conflitantes5, 29, 30. Além disso, entre os 1.348 pacientes, 188 (13,9%) testaram positivo em pelo menos um dos testes diagnósticos. Três estudos investigaram a exposição dos pacientes a transfusões sanguíneas29, 30, 32. Nesses estudos, 34,8% dos 89 pacientes infectados haviam recebido transfusões de sangue anteriores, e 14,1% dos 240 pacientes que receberam transfusões apresentaram sorologia positiva para Leishmania spp.
Dados de estudos observacionais sobre infecção assintomática por Leishmania spp. em candidatos ao transplante renal
Dados Clínicos e Laboratoriais
Conforme observado na Tabela 1, o tempo médio para o início dos sintomas foi de 54,7 meses após o transplante. A maioria dos casos manifestou sintomas em menos de 5 anos pós-transplante (60,6%). Somente quatro casos relataram o intervalo entre o início dos sintomas e o diagnóstico de LV, com uma média de 16 dias (variação de 7 a 28 dias)9, 25, 26, 27.
Nos 25 relatos de casos, os principais testes diagnósticos utilizados foram: microscopia de medula óssea (73,9% de positividade - ilustrado na Figura 2); PCR (100%); e métodos sorológicos (77,8%). Apenas um estudo empregou o teste rK3929. Esses dados não são apresentados na Tabela 1.
Biópsia de medula óssea (A) e aspirado (B) (hematoxilina-eosina (H&E), 1000x) mostrando macrófagos intersticiais contendo numerosos microrganismos arredondados (amastigotas) no citoplasma (setas), compatíveis com Leishmania spp. (Fazzio CSJ e Farias LABG com permissão).
Os sintomas e os exames laboratoriais foram analisados em cada paciente da Tabela 1: trombocitopenia (84%), leucopenia (84%), bicitopenia (84%), anemia (80%), pancitopenia (80%), febre (65,7%), esplenomegalia (64%), fadiga (44%), perda de peso (40%)10, 12, 13, 14, 18, 22, 25, 28, hepatomegalia (24%), anorexia (20%), diarreia (16%)10, 19, 22, 38 e linfadenopatia (16%)12, 16, 17, 24, 28 foram achados comuns. A prevalência dos principais sintomas mencionados nas grandes coortes está detalhada na Tabela 2. Além disso, em alguns casos, houve associações entre LV e formas cutâneas (12%)11, 17, 20 e/ou mucocutâneas (16%)11, 15, 17, 24.
Com relação à mortalidade associada à LV, considerando um intervalo máximo de 2 anos entre o primeiro diagnóstico e o óbito, foi encontrada uma taxa de 20% para os casos da Tabela 1, variando de 0 a 16,7% para os casos da Tabela 2. Na Tabela 1, entre os pacientes que desenvolveram somente LV, a taxa de mortalidade foi de 15%, enquanto para aqueles que apresentaram a forma cutânea ou mucocutânea, a taxa de mortalidade encontrada foi de 33,3%.
Achados de Biópsia Renal
Apenas 5 (20,0%) dos 25 pacientes da Tabela 1 foram submetidos à biópsia renal, e dois desses casos foram devidos a lesões renais não associadas à LV17, 19. Entre os três pacientes com dano renal atribuível à LV, foram observados os seguintes achados: fibrose intersticial difusa com atrofia tubular, inflamação intersticial crônica moderada, glomeruloesclerose, dano vascular crônico e identificação de DNA do cinetoplasto (kDNA) de Leishmania spp., sem presença de amastigotas9; glomeruloesclerose associada à inflamação difusa moderada, além de amastigotas dentro de macrófagos12; e nefropatia crônica, fibrose intersticial e atrofia tubular, juntamente com glomeruloesclerose segmentar e focal (GESF)23.
Manejo
Como demonstrado na Tabela 1, o tratamento de escolha para LV em receptores de TR foi a L-AmB, devido à sua eficácia e ao menor risco de nefrotoxicidade18, com doses que variam de 3 a 5 mg/kg e duração de 5 a 10 dias. Apenas um paciente recebeu profilaxia secundária após o diagnóstico inicial com dose mensal de L-AmB de 3 mg/kg12. Em casos de recidiva, um novo regime com L-AmB foi iniciado. Caso houvesse intolerância ou falha terapêutica, os pacientes trocavam o tratamento por medicamentos alternativos (glucantime, penta-midina ou miltefosina)12, 17, 19, 23. Nos demais casos, o tratamento foi iniciado com medicamentos de segunda escolha, devido à indisponibilidade da L-AmB (custo mais elevado)26, 38. A L-AmB geralmente provoca um aumento transitório na CrS36. Entre os pacientes da Tabela 1 (que relataram a função renal), 72% apresentaram um aumento na CrS durante ou após o tratamento com L-AmB. No entanto, alguns pacientes já tinham alterações na função renal com sintomas desde a admissão e, em alguns casos, não houve relato sobre a função renal após a terapia adotada.
Seis (24%) dos 25 pacientes da Tabela 1 relataram nefrotoxicidade9, 12, 19, 21, 23, 25. Quatro deles foram tratados principalmente com L-AmB. Em um caso, o uso de L-AmB foi adiado25 e, em outro, o glucantime foi utilizado como profilaxia23. Dois pacientes apresentaram pancreatite atribuída ao antimônio pentavalente13, 23.
Recidivas
A recidiva foi definida como a recorrência de sinais e sintomas de 1 a 24 meses após a conclusão bem-sucedida da terapia39. Dos 25 casos da Tabela 1, foram observadas recidivas em 3 casos (12%). Entre esses, 1 (33,3%) evoluiu para óbito21. Notavelmente, um caso apresentou cinco recidivas23, que acabaram resultando em óbito18. Apenas um dos pacientes com recidivas iniciou a profilaxia secundária, com L-Amb na dose de 4 mg/kg por 4 semanas após o primeiro episódio18. Na Tabela 2, relata-se um total de 66 pacientes, com uma taxa de recidiva que variou de 10 a 37,5%.
Discussão
Nesta revisão, os receptores de TR com LV eram provenientes de países classificados como endêmicos para leishmaniose pela Organização Mundial da Saúde (OMS) ou haviam viajado para essas regiões40. No entanto, com as mudanças climáticas, o conceito de “país endêmico” pode variar41. Em pacientes transplantados, a LV pode se desenvolver por meio de três mecanismos principais: (1) nova infecção em um receptor imunocomprometido, especialmente após viagens a regiões endêmicas; (2) reativação de uma infecção assintomática desencadeada por medicamentos imunossupressores; e (3) transmissão iatrogênica por meio do órgão transplantado42, 43 ou de hemoderivados4.
A Tabela 3 apresenta a prevalência de portadores assintomáticos entre os candidatos ao TR8. No presente estudo, a frequência de infecção assintomática em candidatos ao TR não foi significativamente superior à da população em geral (13,9% na Tabela 3vs. 11,2% na meta-análise44). As diretrizes atuais não recomendam a triagem sorológica para infecção assintomática em doadores de órgãos, receptores ou candidatos ao transplante, incluindo aqueles em países endêmicos6, 45, 46, 47. No entanto, esse é um tópico controverso, e a falta de consenso sobre os métodos, a incapacidade de distinguir exposição prévia de infecção ativa e a possível reação cruzada com outros protozoários limitam o uso da triagem sorológica6. Não obstante, caso um doador disponível seja soropositivo, recomenda-se o monitoramento clínico e laboratorial do receptor no período pós-transplante em vez da rejeição do órgão para transplante (Tabela 4)45. A Tabela 3 também apresenta os resultados dos testes (sorológicos e moleculares) utilizados para triagem, sendo notável a discrepância existente entre os métodos e os resultados5, 31. Por esse motivo, esta revisão não foi desenhada para comparar métodos de triagem. A sensibilidade e a especificidade variam de acordo com os métodos escolhidos, os antígenos utilizados e a região geográfica6, 51. No entanto, diferentes métodos têm sido propostos31, 52 e os resultados geralmente apresentam alta positividade4, embora ainda sejam necessários estudos prospectivos com um número maior de pacientes de áreas endêmicas e não endêmicas.
Os ensaios de liberação de citocinas (como o ensaio de liberação de interferon gama - IGRA) têm sido cada vez mais estudados para detectar infecção assintomática e para a cura clínica após o tratamento de pacientes sob o uso de agentes imunossupressores53. Até onde temos conhecimento, apenas um desses estudos demonstrou precisão promissora para esse método de triagem, e sua aplicabilidade clínica permanece incerta54.
Uma coorte prospectiva sugere que a triagem de doadores e receptores poderia ser realizada em casos com alto risco de transmissão ou reativação, e a PCR poderia, portanto, ser uma ferramenta com maior especificidade46. No entanto, esse estudo possui uma amostra pequena, a positividade da PCR pode ser transitória e um resultado positivo no receptor não necessariamente prevê o desenvolvimento da doença46. Um relato de caso de um receptor de transplante pulmonar mostra que a LV poderia ter sido diagnosticada meses antes do desenvolvimento dos sintomas por meio da PCR quantitativa, sugerindo seu papel no diagnóstico precoce55.
Em três coortes (ver Tabela 3), 34,8% dos candidatos ao TR infectados tinham histórico de transfusão e 14,1% dos pacientes transfundidos testaram positivo para Leishmania spp29, 30, 32. Embora rara, a leishmaniose transmitida por transfusão foi descrita anteriormente na literatura56, 57, 58 e as transfusões de sangue podem ser uma fonte de infecção para os candidatos e receptores de TR13. A ocorrência de transfusões anteriores nesses estudos ainda precisa ser detalhada, dado seu papel bem estabelecido na patogênese da leishmaniose4, 57. As diretrizes atuais, incluindo as da OMS, não recomendam universalmente a triagem para LV em bancos de sangue, mesmo em regiões endêmicas (Tabela 4)48.
As Tabelas 1 e 2 concentram-se nos dados clínicos. Febre, perda de peso, esplenomegalia e pancitopenia são considerados sintomas clássicos de LV, mas nem sempre estão presentes. Manifestações atípicas podem atrasar o diagnóstico46. Em uma ampla e recente revisão sistemática sobre a infecção por Leishmania em receptores de TR, as manifestações clássicas estiveram presentes em mais de 90% dos pacientes1. No entanto, o clínico precisa estar ciente das apresentações atípicas. Além disso, a sorologia deve sempre ser utilizada, pelo menos como método diagnóstico de primeira linha em receptores de transplante, sempre que houver suspeita de LV4. É possível que a inibição da imunidade celular possa afetar a apresentação clínica e os desfechos, conforme sugerido em pacientes com coinfecção por LV e vírus da imunodeficiência adquirida (HIV)59, 60, mas estudos experimentais para apoiar essa hipótese são seriamente escassos na população de TOS. Apesar disso, sugere-se formalmente a redução da imunossupressão durante o tratamento da LV1, 45, como ocorre com qualquer infecção oportunista. Uma maior mortalidade é observada nesse grupo de pacientes. A taxa pode ser aumentada quando a LV estiver associada a uma apresentação cutânea ou mucosa (33,3% vs. 15% de mortalidade na LV isolada, conforme Tabela 1). A razão para isso não é totalmente compreendida, mas é razoável considerar uma doença mais grave e disseminada.
O impacto da LV na função renal é apresentado nas Tabelas 1 e 2, com níveis aumentados de CrS no momento do diagnóstico. Um estudo retrospectivo encontrou um aumento de mais de 30% na CrS em 95% dos receptores de TR com LV36. A disfunção renal irreversível foi um evento raro, ocorrendo em apenas um paciente, e também foi associada à nefrotoxicidade do antimônio23. O dano renal possui uma fisiopatologia complexa. Francesco Daher et al.61 descrevem a formação de complexos imunes sistêmicos e in situ na nefropatia por leishmaniose, enfatizando sua interação com antígenos glomerulares e o envolvimento de células inflamatórias. A Figura 3 mostra alguns padrões da nefropatia por leishmaniose. A biópsia tem como objetivo determinar a causa da injúria renal, mas é desafiador distinguir entre os efeitos da infecção parasitária, da nefrotoxicidade induzida por medicamentos ou da rejeição do enxerto. As lesões glomerulares (especialmente a GESF) e a nefrite tubulointersticial são padrões comuns na nefropatia por LV62. Além disso, nessa revisão, o envolvimento intersticial também foi comum e associado a infiltrado mononuclear e atrofia tubular61. Embora incomum63, parasitas foram observados em uma biópsia renal de um dos casos12.
Biópsia renal mostrando nefropatia associada à leishmaniose visceral (metenamina de prata, 400x). Túbulo e interstício com infiltrado inflamatório, composto principalmente de linfócitos e macrófagos (setas maiores); alterações degenerativas epiteliais tubulares agudas e tubulite (setas menores). (Baptista MASF com permissão).
De modo geral, a imunossupressão deve ser reduzida durante o tratamento anti-LV, mas isso depende de uma avaliação caso a caso7, 45. As indicações para profilaxia primária e secundária ainda não estão definidas, mas possíveis abordagens são apresentadas na Tabela 445, 50. Existe uma escassez de ensaios clínicos randomizados e meta-análises sobre o tratamento da LV, especialmente em populações imunossuprimidas sem HIV, e as diretrizes são baseadas em extrapolações de relatos e pequenas séries de casos50. As recomendações atuais de tratamento baseiam-se majoritariamente na opinião de especialistas, mas a opção de tratamento preferida é a L-AmB (Tabela 4)7, 45, 50. Entretanto, ocasionalmente, é necessário recorrer a medicamentos alternativos devido à intolerância ou à indisponibilidade de L-AmB, devendo os pacientes ser cuidadosamente monitorados7, 45, 50. A nefrotoxicidade é uma preocupação importante nesses pacientes devido ao comprometimento preexistente da função renal. A L-AmB é preferível ao desoxicolato de anfotericina por sua menor toxicidade7, 45. O manejo e o monitoramento da nefrotoxicidade da L-AmB são mostrados na Tabela 47, 19. Podem ser consideradas outras opções de medicamentos7.
Além disso, 12% dos pacientes apresentaram recidivas, com uma taxa de mortalidade de 33,3% (Tabela 1). Em séries maiores, as taxas de recidiva foram semelhantes, variando de 10% a 37,5% (Tabela 2)4. Recomenda-se o monitoramento de recidivas em pacientes imunossuprimidos com LV por pelo menos um ano após o diagnóstico4, 45. Esse acompanhamento deve ser orientado por avaliações clínicas e laboratoriais, dependendo da disponibilidade45, 50.
Esta revisão apresenta limitações inerentes devido à sua natureza retrospectiva e à dependência da qualidade dos registros clínicos para a precisão dos dados. Os estudos incluídos foram realizados durante um longo período, o que pode levar a uma variabilidade nos achados. Além disso, alguns casos podem ter sido duplicados em relatos de casos individuais e séries maiores. O objetivo desta revisão foi focar na LV no contexto do TR, mas existe uma escassez de estudos sobre candidatos assintomáticos e o impacto de infecções prévias. A falta de uniformidade entre esses estudos limita comparações diretas. O papel da imunossupressão no diagnóstico sorológico e nos desfechos da LV em receptores de TOS também representa um desafio, especialmente devido à ausência de estudos imunológicos. Por fim, considerando que a LV em receptores de TR é uma ocorrência rara, mesmo em regiões endêmicas, o poder estatístico das conclusões desta revisão é significativamente limitado. No entanto, o estudo destaca considerações importantes sobre a triagem e o risco de desenvolvimento da doença nesse grupo específico de pacientes. Embora a LV seja rara entre os receptores de transplante e frequentemente negligenciada, mesmo em áreas endêmicas, a identificação precoce e o tratamento adequado são cruciais para melhorar os desfechos de sobrevida.
Conclusão
Esta revisão integrativa avaliou o perfil clínico da LV em receptores e candidatos ao TR, enfatizando a limitação de dados disponíveis para esse grupo. A maioria dos casos de LV exibiu apresentações típicas, embora as formas atípicas tenham representa-do um desafio para o diagnóstico. O envolvimento mucocutâneo concomitante foi associado a taxas de mortalidade mais elevadas. Os testes sorológicos não são realizados rotineiramente para a triagem de infecção assintomática, e os candidatos a TR não apresentaram uma prevalência maior de infecção latente em compa-ração com a população em geral. Embora a função renal possa declinar devido à doença ou ao seu tratamento, a perda do enxerto permanece incomum. Transfusões sanguíneas podem aumentar o risco de infecção, porém a triagem de rotina em bancos de sangue para doadores ou receptores não é recomendada atualmente. São necessários estudos adicionais para uma melhor compreensão do papel da imunossupressão e da profilaxia secundária no manejo da LV.
Agradecimentos
O grupo gostaria de agradecer à estimada equipe de professores e funcionários da Universidade Federal do Ceará, do Hospital de Base de São José do Rio Preto e da Universidade Federal de Minas Gerais por suas inestimáveis contribuições e ampla expertise, que foram fundamentais para o desenvolvimento deste trabalho. Agradecimentos especiais ao ilustre Dr. Luís Arthur Brasil Gadelha Farias por fornecer generosamente a Figura 2, a qual enriqueceu significativamente este estudo.
Disponibilidade de Dados
Os dados que sustentam as conclusões deste estudo estão disponíveis mediante solicitação, bem como nas tabelas do manuscrito.
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