Open-access Associação entre hiperglicemia de estresse e injúria renal aguda dialítica em pacientes críticos com sepse: coorte de base hospitalar

Resumo

Introdução:  A hiperglicemia de estresse em pacientes com sepse não tem sido consistentemente associada a um risco aumentado de injúria renal aguda (IRA).

Objetivo:  Avaliar o efeito dos níveis glicêmicos na ocorrência de IRA com necessidade dialítica em pacientes críticos com sepse.

Métodos:  Coorte histórica de pacientes com sepse, admitidos na UTI de um hospital privado entre dezembro de 2017 e agosto de 2021. Foram coletadas variáveis clínicas, laboratoriais e de gravidade. Os valores médios da glicemia na primeira semana de UTI (variável de exposição principal) foram estratificados pelos seus tercis. Avaliou-se o efeito da glicemia para a ocorrência de IRA dialítica por meio de regressão logística multivariada.

Resultados:  Dos 1317 pacientes avaliados, 86,6% apresentaram situações clínicas como causa de sepse. IRA com necessidade de hemodiálise ocorreu em 12,2% da amostra. Pacientes com médias de glicemia acima do terceiro tercil (≥160 mg/dl), em comparação àqueles com médias de glicemia abaixo dos dois primeiros tercis (<160 mg/dl), tinham maior prevalência de diabetes (69,1% vs. 7,1%; p < 0,001). Pacientes com médias de glicemia ≥160 mg/dl apresentaram uma chance 62% maior de desenvolver IRA com necessidade dialítica, em comparação àqueles com médias de glicemia <160 mg/dl (OR bruto = 1,62; IC 95% 1,16–2,26; p = 0,005). Após ajuste para as demais variáveis, valores médios de glicemia ≥180 mg/dl não aumentaram a chance de ocorrência de IRA (OR = 1,27; IC 95% 0,76–2,12; p = 0,359).

Conclusão:  Neste grupo de pacientes, a sepse e níveis médios de glicemia ≥160 mg/dl não foram independentemente associados à ocorrência de IRA dialítica.

Descritores:
Insuficiência Renal; Hiperglicemia; Sepse; Fatores de Risco

Abstract

Introduction:  Stress hyperglycemia in patients with sepsis has not been consistently associated with an increased risk of acute kidney injury (AKI).

Objective:  To evaluate the effect of blood glucose levels on the occurrence of AKI requiring dialysis in critically ill patients with sepsis.

Methods:  Retrospective cohort study of patients with sepsis admitted to the ICU of a private hospital between December 2017 and August 2021. Clinical, laboratory, and severity variables were collected. Mean blood glucose levels in the first week of ICU stay (primary exposure variable) were stratified into tertiles. The effect of blood glucose on the occurrence of dialysis-requiring AKI was assessed using multivariate logistic regression.

Results:  Of the 1,317 patients evaluated, 86.6% had clinical conditions as the underlying cause of sepsis. AKI requiring hemodialysis occurred in 12.2% of the sample. Patients with mean blood glucose levels above the third tertile (≥160 mg/dl), compared to those with mean blood glucose levels below the first two tertiles (<160 mg/dl), had a higher prevalence of diabetes (69.1% vs. 7.1%; p < 0.001). Patients with mean blood glucose levels ≥160 mg/dl had a 62% higher odds of developing AKI requiring dialysis compared to those with mean blood glucose levels < 160 mg/dl (crude OR = 1.62; 95% CI 1.16–2.26; p = 0.005). After adjustment for other variables, mean blood glucose levels ≥180 mg/dl did not increase the likelihood of AKI (OR = 1.27; 95% CI 0.76–2.12; p = 0.359).

Conclusion:  In this patient group, sepsis and mean blood glucose levels ≥160 mg/dl were not independently associated with the occurrence of dialysis-requiring AKI.

Keywords:
Renal Failure; Hyperglycemia; Sepsis; Risk Factors.

Introdução

Estima-se que 30% das internações em unidades de terapia intensiva (UTI) no Brasil sejam decorrentes de sepse1. Dentre as complicações relacionadas à sepse, a hiperglicemia do estresse e a injúria renal aguda (IRA) são frequentemente encontradas nesses pacientes2,3. No entanto, o efeito dos valores elevados de glicemia, associado ao estresse, ainda não foi completamente avaliado em relação ao risco de ocorrência de IRA de forma independente.

A sepse é uma importante causa de internação de pacientes adultos em UTIs em todo o mundo1,2,3,4. Um estudo conduzido em 730 UTIs, distribuídas em mais de 80 países, demonstrou que a ocorrência de sepse ao longo da internação na UTI foi de 30%, sendo 18% já no momento da admissão4. A desregulação do controle glicêmico, denominada hiperglicemia de estresse ou do doente crítico, está presente em 40 a 60% dos pacientes com sepse internados na UTI3 e está associada a um maior risco de mortalidade em 30 dias, independentemente da presença de diabetes prévio5.

Além da desregulação da glicemia, a sepse está associada a 40 a 70% dos casos de IRA em pacientes admitidos em UTIs2, sendo uma importante causa de mortalidade e de aumento do tempo de internação2,3,4,5,6,7. Van de Berghe et al.8 evidenciaram a importância do tratamento mais restritivo da hiperglicemia (80–110mg/dl), em comparação ao controle glicêmico convencional (180–200mg/dl) em pacientes críticos de uma UTI cirúrgica, na redução das taxas de mortalidade, do tempo de ventilação mecânica e da permanência na UTI, bem como da ocorrência de IRA com necessidade de terapia renal dialítica. O mesmo estudo foi replicado em uma UTI clínica e, apesar da menor ocorrência de IRA nesse cenário, o controle glicêmico mais rigoroso não se mostrou associado a uma menor necessidade de diálise9. Estudos em modelos animais têm demonstrado o efeito deletério dos níveis agudamente elevados de glicemia sobre a arquitetura e a homeostase das células tubulares renais, bem como na ativação de mediadores inflamatórios diversos10. Estudos envolvendo pacientes críticos internados por insuficiência cardíaca ou infarto têm identificado uma associação entre valores elevados de glicemia, relacionados ao estresse, e a ocorrência de IRA11,12. No entanto, essa associação entre hiperglicemia aguda e maior risco de IRA, principalmente no contexto de sepse, não tem sido observada de forma consistente em estudos envolvendo pacientes internados em UTIs9,10,11,12,13.

Assim, considerando que a IRA é uma complicação frequente em pacientes internados em UTI, especialmente naqueles cujo motivo de internação foi sepse, o presente estudo teve como objetivo avaliar a associação de hiperglicemia aguda com a ocorrência de IRA com necessidade dialítica em pacientes críticos com critérios bem definidos de sepse.

Métodos

Delineamento, Local e Amostragem

Trata-se de uma coorte histórica cujos dados foram obtidos dos prontuários eletrônicos de pacientes internados nas UTIs do Centro Hospitalar Unimed (CHU) de Joinville, SC, no período de dezembro de 2017 a agosto de 2021. O CHU é um hospital geral privado, que atende beneficiários da saúde suplementar Unimed da região. O hospital conta com 152 leitos de enfermaria geral e 19 leitos de UTI geral adulta. Além disso, o CHU oferece programa de residência médica em terapia intensiva, e todos os profissionais médicos que atuam na UTI possuem título de especialização em terapia intensiva. Foram incluídos todos os pacientes com idade igual ou superior a 18 anos, admitidos em uma das UTIs do CHU, com diagnóstico de sepse e/ou choque séptico, com base no critério SEPSE-314. Excluiu-se do estudo pacientes em programa de cuidados paliativos, pacientes com doença renal crônica (história prévia de falência renal crônica já em programa dialítico ou aqueles com creatinina na admissão hospitalar igual ou superior a 3 mg/dl), pacientes com IRA com necessidade dialítica antes da admissão na UTI e aqueles com estadiamento de IRA leve (estágio 1) após a admissão na UTI. Optou-se por excluir pacientes com IRA estágio 1 para focar exclusivamente naqueles com IRA com necessidade dialítica, uma vez que não houve, na amostra estudada, pacientes com IRA estágios 2 ou 3 sem necessidade dialítica. O presente estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética da Univille, sob parecer CAAE 51034021.2.0000.5366. O Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) foi dispensado, considerando-se a natureza retrospectiva e observacional do estudo.

Variáveis Coletadas

Foram consideradas as variáveis idade, sexo, diagnóstico prévio de diabetes mellitus (DM) informado pelo paciente e motivo de admissão na UTI (causas clínicas ou cirúrgicas). Além disso, considerou-se a necessidade de hemodiálise aguda, o escore de gravidade SAPS 3 (Simplified Acute Physiology Score 3) na admissão na UTI, o tempo de ventilação mecânica e o tempo de internação na UTI, bem como o uso de drogas vasopressoras, corticoides e antibióticos nefrotóxicos (vancomicina, anfotericina, aminoglicosídeos e/ou Polimixina B). O uso de insulina também foi considerado, conforme o protocolo institucional de hiperglicemia, no qual dois episódios de hiperglicemia > 180mg/dl são indicativos para o início de insulina endovenosa.

Principal Variável de Exposição e Desfecho

A glicemia capilar foi verificada por meio do hemoglicoteste (HGT), realizado com medidor de glicose por fita, ambos da empresa G-Tech®. Pacientes em uso de insulina endovenosa tinham HGT verificados a cada hora, enquanto, para os demais, as medições eram realizadas conforme rotina (quatro vezes ao dia). Os valores médios de glicemia na primeira semana na UTI foram considerados como a variável de exposição principal do estudo. A variável de desfecho avaliada foi a ocorrência de IRA estágios 2 ou 3, com ou sem necessidade dialítica de urgência. A definição de IRA foi baseada nos critérios do KDIGO, considerando o aumento da creatinina em relação ao valor basal na admissão na UTI. A indicação de diálise foi definida pelo nefrologista, conforme parâmetros clínicos.

Análise Estatística

As variáveis categóricas são apresentadas como frequência absoluta e porcentagem. As variáveis numéricas são expressas como média e desvio padrão, ou mediana e variação interquartil. Os valores médios de hiperglicemia na primeira semana de UTI foram estratificados por tercis. Após a verificação de distribuição não normal pelo teste de Kolmogorov-Smirnov, as variáveis quantitativas foram comparadas pelos testes U de Mann-Whitney e Kruskal-Wallis, e as variáveis categóricas, pelo teste qui-quadrado, estratificadas pela exposição principal de interesse e desfecho. Posteriormente, buscou-se comparar, de forma bivariada, o efeito bruto e ajustado de pacientes com valores médios de glicemia na primeira semana acima do terceiro tercil (≥ 160 mg/dl), em relação àqueles com valores entre o primeiro e o segundo tercis (< 160 mg/dl) para ocorrência de IRA com necessidade dialítica. Essa análise foi realizada por meio de regressão logística, considerando as variáveis potencialmente confundidoras. Foram incluídas no modelo multivariado final, por regressão logística, todas as variáveis que modificaram o efeito principal estudado em 5% ou mais, bem como todas aquelas reconhecidamente associadas à exposição principal ou consideradas fatores de risco para o desfecho. Considerou-se o valor de p < 0,05 como estatisticamente significativo. As análises foram realizadas por meio do software estatístico STATA/IC, versão 15.

RESULTADOS

Dos 3093 pacientes admitidos na UTI no período estudado, 1317 atenderam aos critérios de inclusão e foram considerados na análise, conforme a Figura 1. Desses, 57,6% tinham idade igual ou superior a 60 anos e 53,3% eram homens. A presença de IRA estágio 3 foi encontrada em 12,2% dos pacientes, sendo que todos necessitaram de hemodiálise de urgência. A principal causa de internação na UTI (86,6%) esteve relacionada a condições clínicas. Quando estratificados pela presença ou não de IRA com necessidade de diálise, observou-se que, em comparação aos pacientes sem IRA dialítica, aqueles com IRA dialítica apresentaram maior frequência de idade superior a 44 anos (88,1% vs. 79,7%; p = 0,021) e maior prevalência de homens (66,9% vs. 51,4%; p < 0,001). Além disso, apresentaram valores medianos mais elevados de proteína C reativa (237 mg/dl vs. 183 mg/dl; p < 0,001), creatinina na admissão hospitalar (1,0 mg/dl vs. 0,8 mg/dl; p < 0,001) e na admissão na UTI (1,0 mg/dl vs. 0,7 mg/dl; p < 0,001). Os pacientes com IRA dialítica também necessitaram de maior uso de drogas vasoativas e corticoides, além de apresentarem maior mediana de tempo em ventilação mecânica e de internação hospitalar. As demais características são apresentadas na Tabela 1.

Figura 1
Fluxograma da amostra.
Tabela 1
Características gerais da amostra, estratificada pela presença ou não de injúria renal aguda (estágio 3)

A Tabela 2 apresenta as características da amostra, estratificada pelos tercis da média das glicemias na primeira semana na UTI. Houve variação na distribuição etária entre as médias dos tercis de glicemia da primeira semana. Pacientes no terceiro tercil, em comparação ao primeiro tercil, apresentaram maior prevalência de idade acima de 60 anos (70,8 vs. 43,1; p < 0,001), história prévia de diabetes (69,1% vs. 7,1%; p < 0,001) e menor prevalência de internação por causa cirúrgica (8,3% vs. 18,5%; p < 0,001). Além disso, os pacientes no último tercil apresentaram valores mais elevados da mediana da creatinina na admissão hospitalar e na UTI, maior pontuação no escore SAPS-3 de gravidade, maior tempo de internação hospitalar e de permanência na UTI, maior tempo de ventilação mecânica, bem como maior necessidade de uso de drogas vasoativas, corticoides e insulina EV. A presença de IRA com necessidade dialítica também foi maior no grupo com valores médios de glicemia mais elevados na primeira semana, em comparação ao primeiro tercil (15,6% vs. 9,4%; p = 0,015).

Tabela 2
Características da amostra estratificada segundo a média dos tercis de glicemia na primeira semana de UTI

Quando avaliado o efeito da presença de médias mais elevadas de glicemia na primeira semana (terceiro tercil, ≥160 mg/dl), em comparação aos dois primeiros tercis (<160 mg/dl), quanto à ocorrência de IRA dialítica (Tabela 3), observou-se que pacientes dentro desse cenário apresentaram uma chance 62% maior de desenvolver IRA (OR = 1,62; IC 95% 1,16–2,26; p = 0,005). Após o ajuste de tal efeito sobre a ocorrência de IRA pelas demais variáveis, de forma bivariada, identificou-se que o tempo de ventilação mecânica, o uso de drogas vasoativas, corticoides e drogas nefrotóxicas modificaram esse efeito em 5% ou mais. Quando ajustado para SAPS-3 e necessidade de uso de insulina endovenosa, embora também com mudança do efeito em 5% ou mais, houve perda da associação entre valores médios mais elevados de glicemia na primeira semana acima do terceiro tercil – em comparação aos primeiros dois tercis – e a ocorrência de IRA com necessidade de diálise.

Tabela 3
Razão de chance bruta e ajustada (análise bivariada) do efeito das médias de hiperglicemia ≥160mg/dl na ocorrência de IRA dialítica por regressão logística

A Tabela 4 apresenta o efeito final da presença de médias glicêmicas acima do terceiro tercil sobre a ocorrência de IRA dialítica. Todas as variáveis previamente analisadas de forma bivariada foram incluídas no modelo, por serem consideradas potenciais confundidoras para a associação principal estudada. Após ajuste para as demais variáveis, a presença de valores médios de glicemia na primeira semana acima do terceiro tercil (≥160mg/dl) não aumentou a chance de ocorrência de IRA com necessidade de diálise (OR = 1,27; IC 95% 0,76–2,12; p = 0,359).

Table 4
Análise multivariada do efeito das médias de hiperglicemia ≥160 mg/dl na ocorrência de injúria renal aguda dialítica por regressão logística

Discussão

O presente estudo, baseado em uma coorte histórica de pacientes críticos com critérios bem definidos de sepse, não encontrou associação entre valores médios de glicemia na primeira semana de internação na UTI, iguais ou superiores a 160 mg/dl, e a ocorrência de IRA com necessidade dialítica, após ajuste para outras variáveis de confusão.

Estima-se que cerca de 50% dos pacientes admitidos na UTI apresentem hiperglicemia de estresse, também denominada hiperglicemia da doença crítica3. Os mecanismos envolvidos no aumento da glicemia em situações de estresse são diversos. Além do estresse metabólico provocado pela inflamação sistêmica decorrente da sepse, há também elevação dos níveis de hormônios contrarreguladores da insulina, resultando em hiperglicemia15. Essa condição pode ser potencializada por comorbidades prévias, como diabetes mellitus, obesidade e uso de glicocorticoides, aumentando a morbimortalidade desses pacientes15. No presente estudo, 63% dos pacientes com sepse apresentaram valores elevados de glicemia, necessitando de insulinoterapia endovenosa, embora apenas um terço da amostra tivesse histórico prévio de diabetes. As características dos pacientes com média de glicemia mais elevada na primeira semana foram semelhantes às descritas em outros estudos envolvendo pacientes críticos, nos quais a hiperglicemia de estresse foi mais frequente entre aqueles com DM prévio, maior gravidade e uso de corticoides e de drogas vasoativas durante a internação na UTI1,2,3,4,15.

A presença de IRA é altamente incidente em pacientes críticos com sepse, atingindo de 40% a 70% dos casos2,3,4,5,6,7. Nesse contexto, a IRA está associada ao aumento da taxa de mortalidade, da necessidade de ventilação mecânica e do tempo de internação2. Em um estudo multicêntrico, realizado em 730 UTIs de mais de 80 países4, aproximadamente 12% dos pacientes com sepse desenvolveram IRA com necessidade dialítica – proporção semelhante à encontrada no presente estudo. O mecanismo exato e as características dos pacientes que evoluem com IRA no contexto de sepse ainda representam um desafio, uma vez que podem envolver mecanismos fisiopatológicos distintos, com diferentes prognósticos2. Além disso, alterações encontradas na hiperglicemia induzida pelo estresse também são observadas em pacientes com IRA associada à sepse, como desregulação da resposta inflamatória e aumento da produção de espécies reativas de oxigênio15,16.

No presente estudo, pacientes com média de glicemia na primeira semana ≥160 mg/dL (terceiro tercil) apresentaram maior risco de IRA com necessidade de diálise na análise bruta; porém, essa associação perdeu significância estatística após ajuste pelo uso de insulinoterapia endovenosa e maior gravidade do quadro clínico (SAPS-3). Após ajuste para as demais variáveis de confusão, não foi encontrada associação entre níveis elevados de glicemia e a ocorrência de IRA dialítica. Um estudo envolvendo pacientes internados em enfermaria por diferentes causas encontrou associação entre níveis elevados de glicemia na admissão e maior risco de IRA. No entanto, grande parte desses pacientes apresentava diabetes não controlado, sendo que mais de 70% tinham diagnóstico prévio de DM17. De forma semelhante, um estudo com 1200 pacientes diabéticos internados por infarto agudo do miocárdio encontrou um risco três vezes maior para IRA entre aqueles com níveis mais elevados de glicemia12. Por outro lado, um ensaio clínico que avaliou um controle glicêmico mais rigoroso em pacientes críticos com hiperglicemia de estresse não demonstrou efeito protetor para a ocorrência de IRA com necessidade de diálise9. Sabe-se que a IRA é uma síndrome multifatorial, envolvendo diferentes patologias, fatores desencadeantes e perfis de pacientes2. Dessa forma, acredita-se que o possível efeito deletério dos níveis agudamente elevados de glicemia sobre as células tubulares e sobre a resposta inflamatória10,11,12,13,14,15,16 pode ter sido mascarado por outros fatores, como a própria gravidade da sepse. Pacientes com sepse e maior comprometimento de outros órgãos podem apresentar maior necessidade de drogas vasoativas, ventilação mecânica e antibióticos nefrotóxicos, o que potencializa o risco de IRA, independentemente dos níveis glicêmicos.

Este estudo apresenta limitações que devem ser consideradas. Primeiramente, por se tratar de um estudo retrospectivo, baseado em dados de prontuário, não é possível afastar o risco de viés de informação decorrente de possíveis falhas no registro médico. No entanto, a UTI estudada conta com programa de residência médica e com protocolos bem definidos para coleta e registro de dados, tanto por parte da equipe médica quanto por meio de entrevistas com familiares. Além disso, as medicações de uso contínuo dos pacientes são revisadas por farmacêuticos hospitalares, o que minimiza o risco de omissão de informações clínicas associadas ao uso prévio de medicamentos. Devido ao número limitado de pacientes com outros estágios de DRC, não foi possível avaliar o efeito da exposição estudada na ocorrência de IRA em estágios mais leves, o que pode limitar a generalização dos resultados. Outra limitação do estudo foi a impossibilidade de considerar a dose total de insulina ou de drogas vasoativas administradas durante a internação na UTI, o que poderia influenciar a análise do efeito desses fatores sobre a ocorrência de IRA com necessidade dialítica.

Ainda assim, trata-se de um estudo que avaliou o efeito da hiperglicemia de estresse em uma população bem definida de pacientes com sepse, segundo critérios atualizados, e que considerou múltiplos fatores envolvidos na ocorrência de IRA com necessidade dialítica. Essa abordagem pode ter permitido uma caracterização mais precisa da relação entre hiperglicemia e IRA no contexto da sepse.

Conclusão

Conclui-se que valores médios elevados de glicemia na primeira semana de internação na UTI, em pacientes críticos com sepse, não foram associados à ocorrência de IRA com necessidade dialítica, após ajuste para gravidade da doença e outros fatores de confusão.

DISPONIBILIDADE DE DADOS

Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo está disponível mediante solicitação ao autor correspondente Helbert do Nascimento Lima.

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Editado por

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    08 Ago 2025
  • Data do Fascículo
    Oct-Dec 2025

Histórico

  • Recebido
    11 Fev 2025
  • Aceito
    25 Maio 2025
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