Prezado Editor,
Lemos com grande interesse o artigo de Marques et al. intitulado “Os efeitos da gravidez na progressão da doença glomerular materna”1. O estudo fornece informações significativas sobre os riscos maternos e fetais entre mulheres com doença glomerular (DG). No entanto, diversas questões metodológicas merecem atenção.
Esta pesquisa destaca a hipertensão crônica (HC) como um fator de risco para desfechos adversos. No entanto, os resultados sugerem que essa condição não levou diretamente a um declínio acelerado na taxa de filtração glomerular (TFG). Em vez disso, a HC aumentou principalmente a probabilidade de desenvolvimento de pré-eclâmpsia sobreposta, responsável pela perda da TFG, estabelecendo-se assim uma relação indireta. Estudos anteriores também enfatizam que os distúrbios hipertensivos afetam os desfechos renais principalmente por meio de lesões endoteliais e podocitárias associadas à pré-eclâmpsia2.
Além disso, a decisão de excluir a nefropatia diabética merece destaque. A nefropatia diabética representa a principal causa global de doença renal crônica (DRC) e está intimamente relacionada a complicações durante a gravidez. Gestantes com DRC diabética enfrentam maior risco de pré-eclâmpsia, parto prematuro e necessidade de terapia intensiva neonatal em comparação àquelas com diabetes, mas sem DRC3.
Ademais, o desenho retrospectivo levanta preocupações quanto à confiabilidade. Coortes retrospectivas são propensas a vieses de memória e relato, uma vez que os desfechos são predeterminados. Em contrapartida, desenhos prospectivos permitem a coleta padronizada de dados e conclusões causais mais robustas. Essa distinção é especialmente vital para populações de alto risco, como gestantes com DRC4.
Por fim, a ausência de um grupo controle dificulta a atribuição dos efeitos adversos exclusivamente à DG. Condições como pré-eclâmpsia, parto prematuro e baixo peso ao nascer também podem ocorrer em gestações saudáveis. A inclusão de grupos de comparação fortaleceria os achados e ajudaria a esclarecer se os resultados estão especificamente relacionados à DG5.
Em resumo, Marques et al.1 fornecem informações importantes sobre a gestação em mulheres com DG. No entanto, estudos futuros devem (i) esclarecer os mecanismos de risco diretos versus indiretos; (ii) incluir pacientes com nefropatia diabética; (iii) utilizar desenhos prospectivos; e (iv) incorporar grupos controle.
Disponibilidade de Dados
Este manuscrito é uma Carta ao Editor e não envolve a geração ou análise de dados de pesquisa originais. Como resultado, nenhum conjunto de dados foi criado ou analisado.
Referências bibliográficas
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1. Marques LP, Salla LM, Rioja LD, Rocco R, Madeira EP, Vieira LM. The effects of pregnancy on the progression of maternal glomerular disease. Braz J Nephrol. 2025;47(4):e20240205. doi: https://doi.org/10.1590/2175-8239-jbn-2024-0205en. PubMed PMID: 40758977.
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2. Wiles K, Webster P, Seed PT, Bennett-Richards K, Bramham K, Brunskill N, et al. The impact of chronic kidney disease stages 3–5 on pregnancy outcomes. Nephrol Dial Transplant. 2021;36(11):2008–17. doi: https://doi.org/10.1093/ndt/gfaa247. PubMed PMID: 33313680.
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3. Banerjee A, Brackenridge A. Managing diabetic chronic kidney disease in pregnancy: current clinical practice and uncertainties. Diabet Med. 2025;42(2):e15460. doi: https://doi.org/10.1111/dme.15460. PubMed PMID: 39568375.
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4. Bramham K, Briley AL, Seed PT, Poston L, Shennan AH, Chappell LC. Pregnancy outcome in women with chronic kidney disease: a prospective cohort study. Reprod Sci. 2011;18(7):623–30. doi: https://doi.org/10.1177/1933719110395403. PubMed PMID: 2128 5450.
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5. Kendrick J, Sharma S, Holmen J, Palit S, Nuccio E, Chonchol M. Kidney disease and maternal and fetal outcomes in pregnancy. Am J Kidney Dis. 2015;66(1):55–9. doi: https://doi.org/10.1053/j.ajkd.2014.11.019. PubMed PMID: 25600490.
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