Open-access Cobertura de procedimentos relacionados à assistência à doença renal crônica no Sistema Único de Saúde do Brasil: análise da década 2015–2024

Resumo

Introdução:  Globalmente, informações quantitativas sobre a cobertura assistencial à doença renal crônica (DRC) são escassas. Nosso objetivo foi estimar a razão oferta/necessidade de procedimentos relacionados à DRC no Sistema Único de Saúde do Brasil (SUS) entre 2015 e 2024.

Métodos:  O montante de exames, consultas e tratamentos relacionados à DRC foi consultado no endereço eletrônico do Departamento de Informática do SUS. Os parâmetros de necessidade desses procedimentos foram obtidos em portarias do Ministério da Saúde e revisão de literatura. A cobertura percentual de cada procedimento foi definida pela razão entre montante realizado e estimativa de necessidade.

Resultados:  A cobertura dos seguintes procedimentos aumentou entre 2015-2024: dosagem de creatinina sérica (70% a 122%), proteinúria (4% a 12%), ultrassonografia renal (76% a 107%), consulta ambulatorial com nefrologista (48% a 164%), acompanhamento multiprofissional da DRC pré-diálise (0% a 3%) e diálise crônica (69% a 81%). A cobertura de biópsia renal permaneceu praticamente estável (19% a 21%). Houve redução da cobertura de fístula arteriovenosa para hemodiálise (HD) (66% a 59%) e de transplante renal (46% a 37%). A utilização de diálise peritoneal (DP), entre os métodos de diálise crônica (DP e HD), caiu de 7% para 4%.

Conclusão:  Possíveis explicações para esses resultados são realização excessiva de dosagens de creatinina e de consultas com nefrologista, negligência do rastreamento da DRC por proteinúria, falta de adesão ao acompan­hamento multiprofissional pré-diálise, subutilização de DP e oferta insuficiente de biópsia renal e de terapia renal substitutiva (menor cobertura de transplante renal do que de diálise crônica).

Descritores:
Sistema Único de Saúde; Acesso a Serviços de Saúde; Sistemas de Informação em Saúde; Terapia de Substituição Renal; Doença Renal Crônica; Hemodiálise; Fístula Arteriovenosa

Abstract

Introduction:  Globally, quantitative information on healthcare coverage for chronic kidney disease (CKD) is scarce. Our objective was to estimate the supply/demand ratio for CKD-related procedures in the Brazilian Unified Health System (SUS) between 2015 and 2024.

Methods:  The volume of tests, consultations and treatments related to CKD was retrieved from the website of the SUS Information Technology Department. The requirement parameters of these procedures were obtained from the Ministry of Health ordinances as well as from literature review. The percentage coverage of each procedure was defined by the ratio between the volume performed and the estimated need.

Results:  Coverage of the following procedures increased between 2015 and 2024: serum creatinine dosage (70% to 122%), proteinuria testing (4% to 12%), kidney ultrasonography (76% to 107%), outpatient consultation with a nephrologist (48% to 164%), multidisciplinary care of pre-dialysis CKD (0% to 3%), and chronic dialysis (69% to 81%). Coverage of kidney biopsy remained nearly stable (19% to 21%). There was a reduction in coverage of arteriovenous fistula for hemodialysis (HD) (66% to 59%) and of kidney transplantation (46% to 37%). The use of peritoneal dialysis (PD) among chronic dialysis methods (PD and HD) declined from 7% to 4%.

Conclusion:  Possible explanations for these results include excessive creatinine testing and nephrology consultations, neglect of CKD screening for proteinuria, lack of adherence to multidisciplinary pre-dialysis follow-up, underutilization of PD, and insufficient availability of kidney biopsy and kidney replacement therapy (lower coverage of kidney transplantation compared to chronic dialysis).

Keywords:
Unified Health System; Access to Health Services; Health Information Systems; Kidney Replacement Therapy; Chronic Kidney Disease; Hemodialysis; Arteriovenous Fistula

Introdução

A doença renal crônica (DRC) é um dos melhores modelos de prevenção em saúde, uma vez que seus principais fatores de risco são conhecidos (hipertensão arterial, diabetes mellitus, envelhecimento, obesidade), o diagnóstico precoce é simples e de baixo custo, e muitas ações de prevenção primária, secundária e terciária são factíveis e custo-efetivas1,2.

Paradoxalmente, a DRC é a doença crônica não transmissível mais negligenciada do mundo, sobretudo em países de rendas baixa e média3. Dentre essas nações, destaca-se o Brasil, país latino-americano em franca transição epidemiológica e demográfica e com a quarta maior população em programas de diálise crônica do mundo4. Nas últimas décadas, a prevalência dos principais fatores de risco para DRC apresentou elevação significativa no Brasil: obesidade, de 12% para 23%; hipertensão arterial (HA), de 20% para 28%; diabetes (DM), de 5 para 8%; e idade acima de 60 anos, de 9 para 13%5,6.

A agenda global de enfrentamento da DRC envolve, além do treinamento profissional e de campanhas de conscientização de pacientes, a ampliação da cobertura assistencial1,3. Para essa última ação, determinar as estimativas de necessidade de cada população e monitorar a oferta de serviços de saúde é fundamental.

No Brasil, a metodologia de cálculo de necessidade de serviços no Sistema Único de Saúde (SUS) utilizou como base evidências científicas nacionais e internacionais, pareceres de especialistas e consulta pública, culminando na Portaria de Parâmetros Assistenciais para Planejamento e Programação de Ações e Serviços de Saúde no SUS7. Globalmente, informações quantitativas sobre a cobertura da assistência à DRC são escassas. Assim, o objetivo deste estudo foi estimar a razão oferta/necessidade de procedimentos relacionados à DRC no Sistema Único de Saúde do Brasil (SUS) entre 2015 e 2024.

Métodos

Delineamento do Estudo

Trata-se de estudo descritivo realizado com base nos sistemas de informações ambulatoriais (SIA/SUS) e hospitalares (SIH/SUS) do SUS8. O SIA e o SIH são bases de dados secundários que armazenam informações de procedimentos relacionados à assistência à saúde (consultas, exames, medicamentos de alto custo, cirurgias e outras terapias, internações, entre outros). Esses sistemas têm abrangência nacional, englobam todos os estabelecimentos de saúde habilitados para prestar serviço ao SUS, e seu objetivo é de cobrança. As informações sobre o montante de procedimentos realizados são enviadas mensalmente, por via eletrônica, pelos estabelecimentos de saúde ao Ministério da Saúde, o qual consolida e publica os dados no site do DATASUS em 60–90 dias. Esses dados são de domínio público e permitem estratificações por município, micro e macrorregiões de saúde dos estados e regiões do Brasil.

O período analisado foi de 01/01/2015 a 31/12/2024, tendo como local o Brasil, estratificado por regiões geográficas. A extração dos dados dos sistemas de informação ocorreu entre os meses de janeiro e março de 2025. Este estudo está isento de apreciação por Comitê de Ética em Pesquisa por utilizar exclusivamente dados secundários, de acesso público, com informações agrupadas e sem possibilidade de acesso a dados individuais.

Variáveis de Interesse

Os procedimentos relacionados à assistência à DRC consultados para este estudo foram: dosagem de creatinina sérica, dosagem de albumina na urina, dosagem de proteinúria de 24 horas, ultrassonografia renal, consulta médica com nefrologista, biópsia renal, acompanhamento multiprofissional da DRC, confecção de fístula arteriovenosa, hemodiálise, diálise peritoneal e transplante renal8. A escolha desses procedimentos foi realizada de acordo com os seguintes critérios: relevância científica, disponibilidade das informações em bancos de dados secundários do SUS e presença de estimativa de necessidade em diretrizes vigentes, portarias mini­steriais ou em revisões de literatura (Tabela 1)712. A lista detalhada desses procedimentos, com os respectivos códigos do Sistema de Gerenciamento da Tabela de Procedimentos, Medicamentos e OPM (Órteses, Próteses e Materiais) do SUS (SIGTAP)13, está apresentada na Tabela S1.

Tabela 1
Parâmetros de necessidade de procedimentos relacionados à assistência à doença renal crônica

O percentual de cobertura de cada procedimento foi definido pela razão entre o montante realizado e a estimativa de necessidade. Os resultados de cobertura dos exames, consultas e tratamentos avaliados foram calculados anualmente e estratificados segundo a região geográfica do Brasil. A variação (Δ) entre o montante realizado e as coberturas de cada procedimento foi calculada em dois momentos (anos 2015 e 2024), de modo relativo (Δ relativa, em %) e por meio da fórmula:

Δ (%) = (resultado de 2024 – resultado de 2015)* 100/resultado de 2015

População de Referência

A população de referência para as estimativas das coberturas de dosagem de creatinina sérica, proteinúria, ultrassonografia renal, consultas com nefrologista, biópsia renal e acompanhamento multiprofissional da DRC foi composta pelos indivíduos que dependem exclusivamente do SUS. Essa população foi calculada pela diferença entre a população total e o percentual de cobertura de saúde suplementar em cada região do Brasil14.

A população de referência para a estimativa das coberturas de diálise crônica e transplante renal foi o número de indivíduos que dependem exclusivamente do SUS, acrescido do percentual da população com cobertura de saúde suplementar que utilizou o SUS para esses procedimentos em cada região do Brasil. Esse fator de correção foi estimado a partir de informações de ressarcimento ao SUS fornecidas pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS)14,15 (Tabela S2). Para a diálise crônica, o uso do SUS por beneficiários de planos privados foi estimado em: 60% na Região Norte, 25% na Região Nordeste, 20% nas Regiões Sudeste e Sul, 15% na Região Centro-Oeste e 20% no Brasil como um todo; para os transplantes renais, o percentual estimado foi: 90% na Região Norte, 70% na Região Nordeste, 40% na Regiões Sudeste e Sul, 45% na Região Centro-Oeste e 45% no Brasil como um todo.

A população de adultos com hipertensão arterial e/ou diabetes mellitus, utilizada na análise de cobertura de dosagens de creatinina sérica e proteinúria, foi estimada em 30%, a partir de uma prevalência de HA de 29%, DM de 9% e da combinação de ambas, de 8%5. Os indivíduos com DRC estágios 4 e 5 não dialítica foram estimados em 0,2% da população de adultos7.

A população de referência para a estimativa da cobertura de fístula arteriovenosa foi o número de indivíduos em hemodiálise. O número médio de pessoas prevalentes em diálise (HD e DP) em cada ano foi estimado a partir do montante de procedimentos realizados no SUS8 (Tabela S3). Especificamente, no caso da diálise peritoneal (DP), estimou-se sua utilização no SUS (%) por meio da fórmula: número de pessoas em DP*100/número total de pessoas em diálise crônica (HD + DP).

Análise Estatística

As variáveis de interesse, extraídas dos sistemas de informações do SUS, foram registradas em programa de planilhas (software Microsoft Excel, versão 2019). Nesse mesmo programa, foram calculados o número de adultos com HA e/ou DM, o número de procedimentos necessários (de acordo com os parâmetros pré-estabelecidos) e as respectivas coberturas (razões de oferta/necessidade).

Resultados

Entre 2015 e 2024, a população total brasileira passou de 202.403.642 para 212.583.750, o que correspondeu a um aumento de 5,0%. O maior aumento populacional foi observado na Região Centro-Oeste (+10,8%) e o menor, na Região Nordeste (+3,5%). No mesmo período, o número de habitantes com idade igual ou superior a 20 anos apresentou elevação de 11,3% no Brasil, sendo a maior elevação na Região Norte (+18,6%) e a menor, na Região Sudeste (+8,8%). A população de indivíduos com idade ≥ 60 anos aumentou 37,1% no Brasil, sendo o maior aumento na Região Centro-Oeste (+48,6%) e o menor, na Região Nordeste (+32,7%). A cobertura de saúde suplementar no Brasil apresentou ligeira queda entre 2015 e 2024, passando de 24,7% para 24,0% (redução de 2,8%). As maiores reduções aconteceram nas regiões Norte (10,5%) e Sudeste (7,8%) (Tabela S4).

Entre 2015 e 2024, o montante de dosagens de creatinina sérica apresentou elevação de 31.341.496 para 55.671.370 (+77,6%); a maior elevação relativa ocorreu na Região Norte (+110,1%) e a menor, na Região Sudeste (+66,7%). No mesmo período, o número de dosagens de proteinúria (albumina urinária e proteinúria de 24 horas) aumentou de 1.246.144 para 4.069.988 (+226,6%); o maior aumento relativo foi na Região Sudeste (+316,3%) e o menor, na Região Norte (+66,4%). O montante de ultrassonografias renais apresentou elevação de 928.175 para 1.384.854 (+49,2%); a maior elevação se deu na Região Nordeste (+92,7%) e a menor, na Região Sul (+30,8%). Entre 2015 e 2024, as consultas médicas com nefrologista aumentaram de 1.159.174 para 4.246.100 (elevação de 266,3%); o maior aumento relativo foi na Região Nordeste (+535,0%) e o menor, na Região Norte (+72,2%). No mesmo período, o montante de biópsias renais apresentou elevação de 2.834 para 3.393 (+19,7%); o maior aumento ocorreu na Região Norte (+218,2%) e houve queda desse número na Região Centro-Oeste (25,3%). As fístulas arteriovenosas confeccionadas foram 34.430 em 2015 e 40.334 em 2024 (+17,1%); a maior elevação relativa foi na Região Norte (+57,0%) e a menor, na Região Sul (+1,6%). O número de transplantes renais realizados em 2015 foi 4.925 e em 2024, 5.065 (+2,8%); o maior aumento relativo ocorreu na Região Centro-Oeste (+112,7%), e duas regiões apresentaram queda desse número: Nordeste (5,9%) e Sudeste (2,1%) (Tabela 2).

Tabela 2
Número de procedimentos relacionados à assistência à DRC financiados pelo SUS, segundo regiões do Brasil (2015–2024)

Entre 2015 e 2024, a população em diálise crônica no SUS passou de 93.085 pessoas para 121.914 (+31,0%); a maior elevação relativa foi na Região Norte (+60,4%) e a menor, na Região Sudeste (+19,0%). O número de pessoas na modalidade de HD aumentou de 86.755 para 116.658 (+34,5%) no SUS; o maior aumento relativo foi na Região Norte (+70,8%) e o menor, na Região Sudeste (+22,0%). No mesmo período, o número de pacientes em DP no SUS caiu de 6.331 para 5.256 (17,0%); o local com a maior queda relativa foi a Região Nordeste (59,4%), e a Região Centro-Oeste apresentou o maior aumento do número de pessoas em DP (+102,1%) (Tabela 3).

Tabela 3
Estimativa de pacientes em diálise crônica financiada pelo SUS, segundo regiões do Brasil (2015–2024)

Entre 2014 e 2025, o percentual de cobertura de dosagem de creatinina sérica aumentou de 69,6% para 121,8% no Brasil (elevação de 75,0%); o aumento relativo foi maior na Região Sul (+74,8%) e menor na Região Nordeste (+46,7%). No mesmo período, a cobertura de dosagem de proteinúria apresentou elevação de 3,9% para 11,5% no país (aumento de 190,9%); essa elevação foi maior na Região Sudeste (+266,1%) e menor na Região Norte (+38,5%). O percentual de cobertura de ultrassonografia renal aumentou de 76,1% para 107,1% no Brasil (elevação de 40,8%); o aumento relativo foi maior na Região Nordeste (+86,9%) e menor na Região Sul (+20,9%). A cobertura de consultas médicas com nefrologista apresentou elevação de 47,5% para 164,3% entre 2015 e 2024 (aumento de 245,6%); essa elevação foi maior na Região Nordeste (+515,9%) e menor na Região Norte (+57,0%). O percentual de cobertura de biópsias renais aumentou de 18,6% para 21,0% no país (elevação de 13,0%); esse aumento foi maior na Região Norte (+190,1%) e a região Centro-Oeste apresentou queda desse indicador em 32,3%. Em 2024, a cobertura do acompanhamento multiprofissional da DRC alcançou 3,3% no Brasil, sendo maior na Região Sul (6,4%), seguida pelas coberturas nas Regiões Sudeste (4,6%), Nordeste (1,5%), Centro-Oeste (1,2%) e Norte (0,2%). O percentual de cobertura de FAV caiu de 66,1% para 58,7% no país (redução de 11,3%); essa queda foi maior na Região Sul (21,2%), e apenas uma região apresentou valor positivo desse indicador (Centro-Oeste, com +0,5%). Entre 2015 e 2024, a cobertura de diálise crônica no Brasil apresentou elevação de 69,1% para 80,8% (aumento de 16,9%); essa elevação foi maior na Região Nordeste (+35,8%) e menor na Região Sudeste (+5,9%). No mesmo período, o percentual de cobertura de transplantes renais caiu de 45,6% para 36,9% (redução de 19,2%); essa queda foi maior na Região Nordeste (36,2%), e duas regiões tiveram aumento desse indicador: Centro-Oeste (+67,1%) e Norte (+18,8%) ( Figura 1 e Tabela S5).

Figura 1
Cobertura de procedimentos relacionados à assistência à DRC no SUS, segundo regiões do Brasil (2015–2024).

Entre 2015 e 2024, o uso de DP no SUS caiu de 6,8% para 4,3% no Brasil. As seguintes regiões apresentaram a mesma tendência de queda: Norte (73,2%), Nordeste (3,0%), Sudeste (30,7%) e Sul (17,3%). A única região com aumento desse indicador foi a Região Centro-Oeste (+57,3%) (Tabela 4).

Tabela 4
Percentual de utilização de diálise peritoneal no SUS, segundo regiões do Brasil (2015–2024)

Discussão

Este estudo mostrou que, entre 2015 e 2024, houve elevação expressiva da cobertura de dosagem de creatinina sérica, ultrassonografia renal, consultas com nefrologista e diálise crônica no SUS. Em 2024, ainda persistiram déficits importantes nas coberturas de dosagem de proteinúria, acompanhamento multiprofissional da DRC pré-diálise, realização de biópsia renal, fístula arteriovenosa e transplante renal. As regiões Norte, Centro-Oeste e Nordeste, comparadas às regiões Sudeste e Sul, apresentaram maior carência de quase todos os procedimentos avaliados.

Avanços do SUS

O SUS é uma das políticas públicas mais abrangentes do mundo16. Muitas ações do SUS são reconhecidas pela Organização Mundial da Saúde como exemplos para outros países, como o Programa Saúde da Família, o Programa Nacional de Imunizações, o acesso à terapia contra o vírus da imunodeficiência humana, entre outras1719. Na assistência à DRC, o Brasil é um dos poucos países com cobertura universal de diálise crônica e transplante renal20. Entretanto, estudos brasileiros têm demonstrado que ainda existem falhas importantes no cuidado integral às pessoas sob risco de ou com DRC2123.

Diferenças Regionais

As diferenças regionais de cobertura da assistência em DRC observadas neste estudo possivelmente sofrem influência de condições sociais, econômicas, demográficas e epidemiológicas existentes em cada uma das regiões do país24. Sabe-se que idade avançada, HA, DM e obesidade são fatores de risco para DRC1,9,25. O percentual de idosos nas Regiões Norte, Centro-Oeste e Nordeste é menor que no Sudeste e no Sul6, o que implicaria menor demanda de saúde dessa população e, portanto, menores resultados calculados de cobertura. Considerando somente as capitais dos estados brasileiros, as prevalências de obesidade e DM apresentam menor variação regional, enquanto a prevalência de HA é, em geral, maior no Sudeste e Sul5. Infelizmente, não foi possível ajustar nossos resultados de cobertura por idade e perfil de comorbidades. Entretanto, fatores como renda, educação, saneamento básico, habitação, transporte, entre outros, são determinantes de saúde e de acesso a serviços de saúde tão ou mais importantes que a idade e o perfil de comorbidades26.

Exames Complementares

Este estudo demonstrou que a cobertura de exames de proteinúria no Brasil (somatória das dosagens de albuminúria e proteinúria de 24 horas) é de apenas 12%, resultado corroborado por pesquisas anteriores2123,27. Globalmente, a principal barreira para a melhora desse indicador é a falta de conhecimento da importância desse exame por parte dos profissionais de saúde e da população1,3,28. No caso do Brasil, trata-se de exame de baixo custo, amplamente disponível, cuja recomendação para ser realizado em pessoas de risco consta em diretrizes ministeriais há mais de uma década9,13,29. A presente análise mostrou taxas de cobertura de creatinina sérica e ultrassonografia renal acima de 100% em algumas regiões, o que poderia ser explicado, em parte, por repetição de exames em um mesmo indivíduo. É possível que esse aparente desperdício de dosagens de creatinina sérica e de ultrassonografia renal se deva à falta de integração entre os sistemas de informação e à fragmentação do cuidado à saúde no SUS30. Outro motivo seria a realização de exames desnecessários em pacientes sem fatores de risco para DRC; de fato, o conhecimento dos profissionais de saúde e da população sobre as fases iniciais da DRC é inferior a 20% e 5%, respectivamente1,3,28.

A baixa cobertura de biópsia renal observada neste estudo possivelmente se justifica pela baixa remuneração e oferta insuficiente, pois se trata de procedimento que demanda recursos físicos e humanos frequentemente indisponíveis em muitas regiões do Brasil (técnicas de imunofluorescência e microscopia eletrônica, médico especializado em patologia renal, entre outros)10,13. Considerando que a biópsia renal é solicitada por médico nefrologista, a referência tardia a este profissional contribui para menor solicitação desse exame, uma vez que a biópsia renal não é indicada para casos avançados de DRC29,31.

Consultas com Nefrologista

É provável que o aumento expressivo da cobertura de consulta médica com nefrologista a partir de 2022 se deva parcialmente à autorização de alguns gestores estaduais para que os serviços de TRS cobrem do SUS uma consulta médica em cada sessão de hemodiálise realizada32. Assim, esse indicador deixaria de refletir as consultas ambulatoriais realizadas em pacientes do SUS que não estão em diálise. Além disso, o aparente excesso de consultas poderia ser explicado pelo encaminhamento de pacientes que poderiam estar sendo acompanhados somente na atenção primária à saúde1,23. Embora a densidade de nefrologistas tenha aumentado em todas as regiões do Brasil (número de profissionais por 100.000 habitantes), os percentuais desses profissionais que atuam no SUS e em instituições de ensino têm diminuído33. Essa tendência sugere um aumento da atuação dos médicos nefrologistas em serviços de saúde que atendem pessoas com cobertura de saúde privada (planos de saúde e/ou pagamento direto pelo paciente) (Tabela S6).

Acompanhamento Multiprofissional da DRC

Os procedimentos de acompanhamento multiprofissional da DRC pré-diálise foram criados pelo Ministério da Saúde em 2014 com o objetivo de estimular clínicas de diálise a assistir esse grupo de pacientes, considerando a presença de profissionais especializados nesses locais29. Todavia, o financiamento federal para essa ação tem sido insuficiente10, e apenas poucos estados, que optaram por incentivos locais, têm obtido aumento de cobertura desses procedimentos34,35.

Terapia Renal Substitutiva

A população em diálise estimada neste estudo é inferior aos dados dos inquéritos brasileiros de diálise da Sociedade Brasileira de Nefrologia (SBN)36. A principal explicação é que nosso estudo considerou somente procedimentos realizados no SUS, enquanto os censos da SBN incluíram indivíduos em diálise no SUS e na saúde suplementar. Além disso, este estudo baseou-se em procedimentos de TRS realizados apenas em serviços habilitados pelo Ministério da Saúde, podendo haver outros financiados exclusivamente com recursos estaduais ou municipais. O parâmetro de necessidade de diálise crônica utilizado considerou os indivíduos prevalentes em diálise, não os distinguindo, portanto, daqueles que iniciaram TRS recentemente.

Este estudo mostrou que, no Brasil, a cobertura de diálise crônica no ano de 2024 foi mais que o dobro da cobertura de transplante renal. Na última década, a oferta de assistência em diálise apresentou tendência de elevação em todas as regiões do Brasil, comparada à queda ou estagnação da cobertura de transplantes renais. Destaca-se que as desigualdades regionais têm sido progressivamente corrigidas na diálise crônica, mas que as diferenças de cobertura de transplante renal entre as regiões do país permanecem elevadas37.

Na última década, o aumento observado na cobertura de diálise crônica no Brasil deu-se exclusivamente às custas da elevação da prevalência de pessoas em HD. Esse resultado coincidiu temporalmente com a abertura do capital estrangeiro para investimentos na saúde38. Diferentemente do transplante renal, os serviços de diálise no Brasil têm como natureza jurídica predominante a de empresas privadas com fins lucrativos8,36,39. O uso da DP caiu em todas as regiões, exceto no Centro-Oeste, graças a incentivos locais40. Possíveis explicações são o subfinanciamento público em nível federal, a maior lucratividade para provedores de HD em relação à DP, a ausência de centros produtores de equipamentos e insumos distribuídos nas diferentes regiões do país, os custos excessivos com logística, a falta de serviços e de profissionais capacitados, entre outras39.

Limitações

As limitações deste estudo devem ser reconhecidas. Primeiramente, os resultados não podem ser generalizados para indivíduos com saúde suplementar, os quais hoje são cerca de um quarto da população brasileira. Em segundo lugar, a utilização do SUS por pessoas com saúde suplementar foi considerada apenas para os procedimentos de TRS (diálise e transplante renal), não sendo possível obter informações sobre o número de pessoas com saúde privada que usaram o SUS para procedimentos de baixa e média complexidade (exames e consultas). Terceiro, os sistemas de informação não nos permitiram estratificar a cobertura de saúde suplementar e o montante de procedimentos de acordo com faixa etária e perfil de comorbidades. Em quarto lugar, não foi considerada a variação dos parâmetros de necessidade ao longo do tempo. Por fim, a metodologia empregada não nos permitiu avaliar eventuais duplicidades de procedimentos em um mesmo indivíduo.

Conclusões

Este estudo utilizou essencialmente instrumentos que fazem parte da rotina de trabalho dos gestores do SUS. Foi possível identificar e quantificar diversas falhas na assistência pública e integral à DRC. Ao mesmo tempo em que se reconhece a demanda por novos recursos tecnológicos e pelo aperfeiçoamento e integração das bases de dados do SUS, as informações hoje disponíveis podem guiar ações para a ampliação da rede de serviços e corrigir as discrepâncias observadas.

Material Suplementar

Tabela S1 – Códigos SIGTAP dos procedimentos relacionados à assistência à doença renal crônica consultados neste estudo.

Tabela S2 – Número de sessões de hemodiálise e de transplantes renais realizados no SUS por beneficiários de saúde suplementar (2013–2022).

Tabela S3 – Fórmulas de cálculo das estimativas de pessoas em diálise crônica, a partir do montante de procedimentos realizados.

Tabela S4 – Dados demográficos e cobertura de saúde suplementar, segundo regiões do Brasil (2015–2024).

Tabela S5 – Cobertura de procedimentos relacionados à assistência à DRC no SUS, segundo regiões do Brasil (2015–2024).

Tabela S6 – Densidade de nefrologistas e percentuais de atendimento desses profissionais no SUS e em instituições de ensino, segundo regiões do Brasil (2015–2024).

Disponibilidade de Dados

Os dados que suportam esse artigo estão disponíveis mediante solicitação com justificativa razoável ao autor correspondente.

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  • Financiamento
    O estudo foi financiado com recursos próprios dos autores.

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    23 Jan 2026
  • Data do Fascículo
    Apr-Jun 2026

Histórico

  • Recebido
    04 Maio 2025
  • Aceito
    03 Out 2025
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