Open-access Análise de eosinófilos na urina e achados de biópsia renal

Prezado Editor,

A nefrite intersticial aguda (NIA) é responsável por 10 a 15% dos casos de injúria renal aguda (IRA) de causa desconhecida em pacientes hospitalizados; o padrão-ouro para o diagnóstico requer biópsia renal com infiltrados inflamatórios difusos1. Em 1978, Galpin et al. sugeriram a associação entre eosinofilúria e NIA2; entretanto, à medida que o número de estudos e relatos clínicos aumentou, tornou-se evidente que os eosinófilos urinários (EU) poderiam ser encontrados em diversas outras doenças renais e não renais3, tornando incerto o valor dos EU no diagnóstico da NIA. Além do desempenho do teste, a maioria dos estudos utilizou diagnósticos baseados na opinião de especialistas, em vez de NIA comprovada por biópsia, reduzindo a confiabilidade diagnóstica. Apesar dessas evidências, relatos de casos e a prática clínica demonstram que a eosinofilúria ainda é utilizada em alguns centros como marcador de NIA, especialmente quando a biópsia não é factível.

Para reforçar as evidências existentes, realizamos um estudo retrospectivo com pacientes adultos que foram submetidos tanto à triagem de EU quanto à biópsia renal nativa, executadas em um intervalo máximo de sete dias, na Unidade Local de Saúde de Santo António, entre 2010 e 2020. Também consideramos triagem positiva para EU quando >1% de eosinófilos foram observados em esfregaços de cytospin de sedimento urinário, utilizando coloração de Leishman. Consideramos os pacientes com triagem para eosinofilúria sem biópsia, a fim de compreender o impacto desse achado na decisão de realizar a biópsia. Os dados foram analisados utilizando o Microsoft Excel© e o teste qui-quadrado foi empregado para determinar associações, com um valor de p < 0,01.

Incluímos 1686 pacientes com exames de eosinofilúria. Destes, 180 (10,7%) apresentaram resultado positivo e 105 (6,2%) foram submetidos à biópsia renal nativa. Considerando os doentes submetidos a biópsia, 18 apresentavam eosinofilúria (17,1%) e 15 aprsentava NIA (14.3%). Três desses pacientes apresentaram NIA (16,6%) (Tabela 1). A sensibilidade da eosinofilúria foi de 20,2%, a especificidade foi de 83,3%, o valor preditivo positivo (VPP) foi de 16,7% e o valor preditivo negativo (VPN) foi de 86,2%. Não foi observada nenhuma associação entre a presença desse marcador e a decisão de realizar biópsia (p = 0,027).

Tabela 1
Diagnóstico por biópsia renal em pacientes com eosinofilúria

Nossa pesquisa sustenta que a eosinofilúria apresenta baixo desempenho no diagnóstico de NIA e não deve ser utilizada como marcador, devido ao risco de levar à suspensão inadequada de medicamentos e à introdução indevida de esteroides. Além disso, verificamos que a presença desse achado não teve impacto na decisão de realizar a biópsia.

Muriithi et al.4 publicaram, em 2013, o estudo mais recente e robusto sobre esse tema, incluindo 566 pacientes com biópsia renal nativa. Utilizando um ponto de corte de 1%, a eosinofilúria apresentou sensibilidade de 30,8%, especificidade de 68,2%, VPP de 15,6% e VPN de 83,7% para NIA. De forma semelhante ao que observamos, os autores constataram que a eosinofilúria esteve presente em diversos diagnósticos. A menor sensibilidade encontrada em nossa análise pode ser atribuída às diferenças na coloração utilizada ou a variações sutis nas indicações para biópsia renal.

Em conclusão, acreditamos que, quase 50 anos após a sugestão da associação entre eosinofilúria e NIA, há evidências suficientes para refutá-la.

Quando a biópsia renal não é viável, a pesquisa de novos biomarcadores provavelmente complementará o julgamento clínico e enriquecerá a estrutura da tomada de decisão, permitindo uma abordagem mais segura para o diagnóstico e tratamento da NIA.

Disponibilidade de Dados

Os conjuntos de dados gerados e/ou analisados durante o presente estudo estão disponíveis mediante solicitação razoável ao autor correspondente.

  • Financiamento
    Este estudo não recebeu financiamento específico.

Referências bibliográficas

  • 1. Navarro D, Fonseca NM, Garigali G, Fogazzi GB. Urinalysis. In: Johnson RJ, Flöge J, Tonelli M, editors. Comprehensive clinical nephrology. 7th ed. Philadelphia: Elsevier; 2024. p. 37–50.e2.
  • 2. Galpin JE, Shinaberger JH, Stanley TM, Blumenkrantz MJ, Bayer AS, Friedman GS, et al. Acute interstitial nephritis due to methicillin. Am J Med. 1978;65(5):756–65. doi: https://doi.org/10.1016/0002-9343(78)90793-3. PubMed PMID: 707534.
    » https://doi.org/10.1016/0002-9343(78)90793-3
  • 3. Nussbaum EZ, Perazella MA. Diagnosing acute interstitial nephritis: considerations for clinicians. Clin Kidney J. 2019;12(6):808–13. doi: https://doi.org/10.1093/ckj/sfz080.
    » https://doi.org/10.1093/ckj/sfz080
  • 4. Muriithi AK, Nasr SH, Leung N. Utility of urine eosinophils in the diagnosis of acute interstitial nephritis. Clin J Am Soc Nephrol. 2013;8(11):1857–62. doi: https://doi.org/10.2215/CJN.01330213. PubMed PMID: 24052222.
    » https://doi.org/10.2215/CJN.01330213

Editado por

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    06 Fev 2026
  • Data do Fascículo
    Apr-Jun 2026

Histórico

  • Recebido
    25 Out 2025
  • Aceito
    17 Nov 2025
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