RESUMO
Os medicamentos, ainda que importantes para a promoção e recuperação da saúde, contêm substâncias potencialmente tóxicas que, quando armazenadas ou descartadas inadequadamente, podem representar riscos ao meio ambiente e à saúde. Este estudo teve como objetivo avaliar as práticas de armazenamento e descarte de medicamentos em domicílios em Niterói (RJ). Foi conduzido um estudo transversal, abrangendo domicílios nas cinco regiões do município, com uma amostra de 290 moradores. Foi utilizado um questionário estruturado, e os dados foram coletados e gerenciados por meio de uma plataforma eletrônica. Os resultados revelaram que 44,5% dos participantes mantêm sobras de medicamentos armazenadas em casa, muitas vezes, sem as devidas condições de segurança. Com relação ao descarte de medicamentos vencidos ou sem uso, observou-se que a maioria dos entrevistados (64,8%) descartou esses produtos no lixo doméstico, enquanto 12,4% optaram por descartá-los no esgoto sanitário. Apenas 9,7% dos 290 entrevistados realizaram o descarte de forma correta em locais destinados para o recolhimento. As práticas inadequadas de armazenamento e descarte de medicamentos em Niterói (RJ) destacam a urgência de intervenções educativas e iniciativas que promovam a conscientização para proteger a saúde e o meio ambiente.
PALAVRAS-CHAVE
Armazenamento de medicamentos; Meio ambiente e saúde pública; Preparações farmacêuticas
ABSTRACT
Medicines, although essential for promoting and recovering health, contain potentially toxic substances that, when stored or discarded improperly, can pose risks to the environment health. This study aimed to evaluate the storage and disposal practices of medicines in households in Niterói (RJ). A crosssectional study was conducted, covering households in all five regions of the city, with a sample of 290 residents. A structured questionnaire was used, and data were collected and managed through an electronic platform. The results showed that 44.5% of participants kept leftover medications stored at home, often, without the proper safety measures. Regarding the disposal of expired or unused medications, most respondents (64.8%) discarded these products in household waste, while 12.4% disposed of them in the sewage system. Only 9.7% of the 290 respondents disposed of them correctly at designated collection sites. Inadequate medication storage and disposal practices in Niterói (RJ) highlight the urgency for educational interventions and initiatives to promote awareness in order to protect health and the environment.
KEYWORDS
Drug storage; Environment and public health; Pharmaceutical preparations
Introdução
O estoque domiciliar de medicamentos fora de uso, normalmente chamado de farmácia caseira, pode ser decorrente de sobras de tratamentos prescritos para doenças crônicas ou agudas e/ou por medicamentos comumente utilizados em automedicação1. As farmácias caseiras podem aumentar a chance do uso indiscriminado dos medicamentos, além de expor indivíduos a intoxicações acidentais - especialmente crianças - ou intencionais, com agravos à saúde, acarretando gastos com atendimentos nos serviços de saúde, internações e óbitos2-4.
A comercialização de medicamentos em quantidades superiores às indicadas pela prescrição também favorece o acúmulo de medicamentos. Além disso, erros na prescrição ou dispensação, bem como alterações sucessivas nos tratamentos, podem levar o paciente a adquirir medicamentos em excesso e a guardá-los, na expectativa de utilizá-los posteriormente ou doá-los5.
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) orienta a não armazenar sobras de medicamentos em casa, considerando que, por vezes, pode ser necessário ter alguns medicamentos para uso emergencial6. Apesar de não haver consenso que determine quais medicamentos devem fazer parte da farmácia caseira, as recomendações apontam os analgésicos, antiácidos, antissépticos, anti-histamínicos, pomadas e materiais para primeiros socorros (álcool 70%, algodão, gaze, esparadrapos), em quantidade mínima, a fim de evitar sobras e facilitar o seu manejo. Nesse caso, é necessária a constante avaliação do estoque, para se desfazer dos medicamentos vencidos ou inadequados ao uso7.
O armazenamento ideal de medicamentos em domicílio deve ser feito em lugares acessíveis, seguros e fora do alcance das crianças. Eles devem ser mantidos em suas embalagens e com a bula, protegidos de umidade, luz e calor. Locais quentes e úmidos, como a cozinha e o banheiro, não são apropriados. Também não se deve armazená-los em locais próximos a aparelhos eletrônicos8,9.
Nos domicílios, os resíduos farmacêuticos são descartados, principalmente, no lixo comum, na pia ou no vaso sanitário9-14, que são formas de descarte inadequadas, pois os resíduos têm o potencial de atingir o meio ambiente12 e, por consequência, gerar riscos para a saúde humana. O hábito de descarte de medicamentos no lixo comum vem sendo descrito na literatura como o mais frequente no Brasil15.
Na dispensação de medicamentos, as orientações para o descarte seguro de medicamentos não utilizados são frequentemente negligenciadas. Somadas a isso, a falta de conhecimento dos riscos ambientais e de saúde e a ausência de diretrizes claras e instalações adequadas para o descarte contribuem para que a eliminação de medicamentos seja feita, principalmente, de maneira inadequada15,16.
Há uma lacuna de conhecimento sobre as práticas de armazenamento e descarte domiciliar de medicamentos em diferentes contextos, e muitas regiões carecem de sistemas eficientes e de conscientização pública para o descarte adequado17. Nesse sentido, o objetivo deste trabalho é apresentar as práticas de armazenamento e descarte de medicamentos adotadas por munícipes de Niterói (RJ) e discuti-las frente aos riscos que representam para o meio ambiente e para a saúde pública.
Material e métodos
Desenho do estudo
O presente estudo é parte integrante do ‘Projeto Modelo de gestão para o município de Niterói: A Assistência Farmacêutica Que Queremos - Projeto AsFaQQ’, que buscou um diagnóstico da assistência farmacêutica municipal, nos níveis de estrutura, processo e resultado. Para tanto, foi realizado um estudo de corte transversal descritivo que contemplou o componente de serviços de saúde e o componente domiciliar.
Instrumento de coleta de dados
Utilizou-se um questionário estruturado baseado na metodologia da Organização Mundial da Saúde para avaliar a Assistência Farmacêutica18-21 e da Pesquisa Nacional sobre Acesso, Utilização e Promoção do Uso Racional de Medicamentos no Brasil (PNAUM)22. Além disso, incorporaram-se elementos específicos sobre armazenamento e descarte de medicamentos definidos com base na literatura1-5,7,9-14. O instrumento de coleta de dados domiciliares é composto por três blocos, a saber: aspectos demográficos e socioeconômicos; práticas de armazenamento de medicamentos; práticas de descarte de medicamentos.
Antes de iniciar a coleta de dados nos domicílios, foi realizado um pré-teste do questionário em duas etapas. Na primeira, oito munícipes de Niterói foram entrevistados no sentido de identificar possíveis incompletudes ou falta de clareza das perguntas. Foram feitos os ajustes necessários, e, na sequência, outros oito munícipes foram entrevistados, com inclusão da cronometragem do tempo de aplicação do questionário. Não foi identificada necessidade de qualquer alteração no questionário, que foi considerado adequado para a pesquisa de campo para alcançar a amostra do presente estudo. Após o pré-teste, foi realizado um estudo piloto, onde cada dupla de pesquisadores de campo entrevistou dois participantes, totalizando dez entrevistas. Essa etapa serviu, também, como parte do treinamento dos pesquisadores de campo.
Coleta e gerenciamento e análise dos dados
No projeto AsFaQQ, foram incluídas todas as unidades de saúde com dispensação de medicamentos do município, um total de 72 unidades identificadas no período da pesquisa de campo, que serviram como ponto de referência para a identificação dos domicílios. A amostra foi definida por conveniência, incluindo no mínimo quatro e no máximo seis domicílios no entorno de cada unidade de saúde, o que resultou em um número de pelo menos 288 domicílios a serem incluídos.
Niterói faz parte da Região de Saúde Metropolitana II do Rio de Janeiro, tem 481.758 habitantes e densidade demográfica de 3.601,74 hab/km2. A cidade é composta por cinco regiões administrativas (Região Norte, Praias da Bahia, Oceânica, Pendotiba e Leste)23. Uma vez definido o número mínimo de domicílios no estudo (288), fez-se um cálculo para distribuir a amostra de maneira proporcional à população de cada região administrativa, assim, o número de habitantes em cada região embasou a amostra de domicílios pesquisados em dada região.
Em cada domicílio, foi entrevistado um participante. Os critérios de inclusão foram pessoas com idade acima de 18 anos, aptas a responder perguntas relacionadas ao armazenamento e descarte de medicamentos. Antes da aplicação do instrumento de coleta de dados, os objetivos da pesquisa e o caráter voluntário da participação no estudo foram explicados. Em caso de concordância, foi solicitada a assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.
Os dados do estudo foram coletados por meio de formulários eletrônicos e gerenciados pela ferramenta eletrônica de captura de dados Research Electronic Data Capture (REDCap) versão 12.4.16, hospedada na Universidade Federal Fluminense (UFF)24. Dez pesquisadores de campo treinados fizeram a coleta de dados nas cinco regiões do município de maneira concomitante ao longo de duas semanas consecutivas.
As informações obtidas foram apresentadas por meio de gráficos e tabelas confeccionadas no Excel 2013. A média dos dados e as porcentagens ponderadas foram calculadas para a análise dos dados da pesquisa.
Aspectos éticos
Este estudo atendeu à Resolução nº 466/2012 da Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep)25 e foi previamente aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Faculdade de Medicina da UFF, por se tratar de pesquisa com humanos. Processo de Certificado de Apresentação de Apreciação Ética (CAAE) 38353120.1.0000.5243, aprovado sob o parecer no 5.569.440.
Resultados
Devido à inoperância no período da coleta de dados e a barreiras relacionadas ao território que impediram o acesso, 11 unidades de saúde foram excluídas da amostra, e a pesquisa domiciliar foi realizada no entorno de 61 unidades. Para cada unidade visitada, foram selecionados de quatro a seis domicílios, resultando na inclusão de 290 participantes. A proporção de domicílios por região foi mantida, apesar de o número de unidades visitadas ter sido menor que o planejado.
A amostra incluiu 66,9% de mulheres e 33,1% de homens. Os participantes tinham idades entre 18 e 87 anos, com maior concentração na faixa etária de 55 a 64 anos. Com relação a cor ou raça, 37,6% se identificaram como brancos e 34,5% como pardos. No que se refere ao estado civil, a maioria era solteira (49,7%), seguida por casados (27,6%) e viúvos (11%). Quanto à escolaridade, 34,1% dos participantes concluíram o ensino médio, seguido por ensino superior completo (12,1%). Sobre a renda familiar, 34,5% relataram receber até 1 salário-mínimo (até R$ 1.302,00 no momento do estudo), 3,4% não tinham renda e 5,9% não informaram esse dado. A maioria dos domicílios era composta por 3 moradores.
A tabela 1 exibe as respostas obtidas com relação a diferentes aspectos demográficos e socioeconômicos.
Perfil demográfico e socioeconômico dos participantes. Rio de Janeiro, Niterói, Brasil, 2023
Práticas de armazenamento
A tabela 2 fornece uma análise dos resultados obtidos nas perguntas relacionadas às práticas de armazenamento de medicamentos pelos entrevistados.
Sobre a leitura da bula dos medicamentos, 36,6% dos usuários afirmaram que sempre a leem, enquanto 21,4% nunca a leem. Com relação ao armazenamento dos medicamentos, 42,1% dos participantes guardam os medicamentos no quarto, 36,2% na cozinha, e 7,6% no banheiro.
Quando questionados sobre se o local de armazenamento está acessível às crianças, 72,4% garantiram que não. No entanto, cerca de 24% não adotam essa medida de segurança. Sobre a forma de armazenamento, 70% dos entrevistados mantêm os medicamentos em suas caixas originais com bula, o que facilita a identificação e o acesso às informações. Entretanto, 5,2% utilizam ‘organizadores ou porta-comprimidos’, uma prática menos segura.
No que tange à checagem do estado dos medicamentos (cor, odor, integridade) antes do uso, 51,4% dos entrevistados sempre realizavam essa verificação. Em contraste, quase 28% nunca checavam.
Destaca-se que quase metade dos usuários (47,6%) declarou nunca receber orientações sobre como guardar os medicamentos em casa. Adicionalmente, 19,7% dos entrevistados não souberam informar sobre essa questão.
Práticas de descarte de medicamentos
Sobre o destino das sobras de medicamentos, 44,5% dos participantes guardam ou planejam guardar para uso futuro. O descarte adequado era realizado por 25,5% dos entrevistados, enquanto a maioria (64,8%) descarta no lixo doméstico. Além disso, 12,4% descartam os medicamentos no esgoto sanitário. Digno de nota é o fato de que 66,9% dos participantes desconhecem as implicações das consequências do descarte inadequado de medicamentos.
A tabela 3 apresenta hábitos de descarte de medicamentos que podem impactar a segurança e o meio ambiente:
Discussão
O estudo domiciliar, conduzido a partir de uma amostra de 290 moradores do município de Niterói, Rio de Janeiro, lança luz às práticas inadequadas de armazenamento e descarte de medicamentos no âmbito domiciliar, o que configura um problema de saúde pública. Os resultados obtidos revelam um cenário em que uma parcela considerável dos participantes mantém sobras de medicamentos armazenados inadequadamente e realiza o descarte, majoritariamente, no lixo comum ou na rede de esgoto.
O perfil dos participantes foi de maioria autodeclarada branca, em contraposição à proporção da população nacional, que é composta por uma maioria de pretos e pardos23. Com relação à escolaridade, 34,1% possuem ensino médio completo, entretanto, 2,4% não apresentam instrução formal. Uma parcela de 34,5% declarou renda familiar mensal de até 1 salário-mínimo, e, ainda, 26,2% dos participantes relataram receber auxílio governamental, pertencendo a um grupo potencialmente vulnerável.
Observou-se, com relação às práticas de armazenamento de medicamentos, que 36,6% dos participantes afirmaram que sempre leem a bula, prática essencial para saber a temperatura adequada de armazenamento, bem como a dosagem, o uso e possíveis efeitos adversos dos medicamentos26. O armazenamento inadequado pode causar a degradação dos medicamentos, tornando-os ineficazes ou até prejudiciais. Para garantir a segurança e a eficácia dos medicamentos, é preciso evitar condições como exposição direta à luz solar, umidade ou temperaturas altas27.
Quanto ao local de armazenamento, a maioria dos entrevistados (42,1%) disse que guarda no quarto, enquanto 36,2% optam pela cozinha, e 7,6% dos participantes informaram que guardam os medicamentos no banheiro, ambientes cujas variações de temperatura e umidade podem prejudicar a estabilidade e, consequentemente, a eficácia e a segurança28. Nesse contexto, os achados corroboram a pesquisa conduzida por Gonçalves29, na qual foi observado que 44,59% dos participantes armazenavam medicamentos no quarto, 31,17% na cozinha, 13,85% no banheiro e 5,19% na sala. Ou seja, ambos os estudos destacam a prevalência do armazenamento de medicamentos em locais inapropriados, embora haja variações nas porcentagens encontradas.
Outro ponto a ser debatido é o armazenamento de medicamentos ao alcance de crianças, visto que este é o principal fator relacionado à intoxicação humana no Brasil30,31. Quando questionados se o local de armazenamento dos medicamentos fica ao alcance das crianças, a maioria dos entrevistados (72,4%) garantiu que não. No entanto, cerca de 24% responderam que não implantam essa medida de segurança. A intoxicação não intencional em crianças é uma das principais causas de atendimentos na emergência pediátrica e tem os medicamentos entre os principais agentes32,33. Portanto, há espaço para melhorias nesse campo, com o objetivo de prevenir acidentes e intoxicações relacionadas a medicamentos.
Os medicamentos acondicionados fora de suas embalagens secundárias também constituem potencial risco para a saúde. A falta de informações pode levar ao mau uso, trocas, confusão com relação à indicação e desvio de qualidade e segurança (reações adversas ou ineficácia terapêutica). Ainda, a rastreabilidade do produto pode ser comprometida, uma vez que a identificação do lote e do fabricante pode ser impossível de ser feita3,34. Aproximadamente 5% dos entrevistados misturam os medicamentos fora da cartela em ‘organizadores ou porta-comprimidos’, enquanto 70% disseram armazenar medicamentos em suas caixas originais com bula, prática recomendada para manter a identificação e informações importantes.
No que diz respeito à verificação do prazo de validade de medicamentos guardados, antes do uso, uma parcela de 76,9% dos entrevistados sempre realiza essa verificação. Esse achado revela uma proporção ainda maior do que o estudo realizado por Jha35, nas comunidades de Kathmandu, Nepal, em que 59,5% dos participantes disseram sempre verificar o prazo de validade dos medicamentos que mantêm nos domicílios. Entretanto, o mais apropriado para evitar o uso de medicamentos vencidos ou inadequados é realizar o descarte das sobras, o que é feito por 25,5% dos participantes. A reutilização de medicamentos pode ser perigosa e só deve ser feita sob orientação de um profissional de saúde e observando-se a validade e o estado dos medicamentos36.
Destaca-se que quase metade dos participantes (47,6%) nunca recebeu orientações nas farmácias públicas sobre como armazenar os medicamentos em casa. Essa falta de informação representa um limite para o uso racional de medicamentos37,38, bem como para assegurar a efetividade dos tratamentos e a segurança dos pacientes. Em contraposição a esse contexto, há um crescente aumento do mercado farmacêutico, sem que se observe, na mesma proporção, a implementação de medidas para a devida garantia da informação para o uso seguro de medicamentos. O anuário estatístico do mercado farmacêutico, realizado pela Secretaria-Executiva da Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (SCMED), registrou um faturamento de aproximadamente R$142,43 bilhões desse setor em 2023, um crescimento de 8,53% em relação ao ano anterior. No período, foram comercializadas 5,77 bilhões de embalagens, um aumento de 1,03% em comparação a 202239.
O consumo exacerbado de medicamentos, por vezes motivado pelo estímulo à automedicação e pela facilitação da compra40-42, amplifica os desafios para a destinação correta dos resíduos. Os achados deste estudo evidenciam a necessidade de ações educativas sobre o armazenamento e o descarte corretos de medicamentos, bem como de programas específicos que promovam o manejo adequado de resíduos medicamentosos e mitiguem os impactos negativos na saúde pública e no meio ambiente43.
A publicidade e a propaganda de medicamentos contribuem para a disseminação de informações44,45 e o empoderamento do consumidor nas decisões sobre sua saúde46, mas há deficiências na qualidade do conteúdo veiculado47. A supervalorização das propriedades dos medicamentos e a minimização dos riscos comprometem a confiabilidade das informações47-49.
Nesse contexto, em 2024, o Superior Tribunal de Justiça (STF) decidiu que a Anvisa tem competência para fiscalizar a propaganda de medicamentos, mas não para impor restrições além da Lei nº 9.294/199650, que dispõe sobre as restrições ao uso e à propaganda de produtos com impactos na saúde. Com isso, invalidou exigências da RDC nº 96/200851, como a proibição de algumas estratégias promocionais e a imposição de alertas (como a indicação do efeito de sedação)52. Há uma estreita relação entre a publicidade de medicamentos e a automedicação, o uso inadequado de medicamentos, a medicalização, e o crescente volume de medicamentos, que acabam tendo que ser descartados47.
A maioria dos entrevistados (64,8%) relatou descartar medicamentos vencidos no lixo doméstico, além disso, 12,4% relataram descartar os medicamentos no esgoto sanitário. Essas práticas resultam em resíduos de medicamentos no solo, lenções freáticos e nas Estações de Tratamento de Esgoto (ETE). Além do resíduo doméstico, as ETEs recebem os efluentes de hospitais e de áreas agrícolas, favorecendo o aumento da resistência de microrganismos9,29,53 aos antimicrobianos. Outras classes de medicamentos também possuem componentes capazes de se acumular no meio ambiente. No Brasil, a Resolução nº 430/201154 define parâmetros para tratamento e lançamento de efluentes, mas não estabelece padrões máximos para micropoluentes, como os fármacos. Por outro lado, os sistemas de tratamento de água não conseguem efetuar a remoção desses resíduos por completo43,55-58, o que pode comprometer a qualidade da água destinada ao abastecimento urbano2,29.
Dos 290 entrevistados, 9,7% afirmaram realizar o descarte em locais designados para recolhimento. Ao analisar a relação entre escolaridade e descarte correto de medicamentos, destaca-se que a maioria dos entrevistados que adota essa prática consciente possui ensino médio completo ou superior incompleto. Nenhum participante com o nível de escolaridade ensino fundamental I e II, ou sem instrução, indicou adotar o descarte adequado. No que diz respeito à renda familiar desses 28 entrevistados que realizam o descarte correto, os dados revelam uma distribuição variada. Contudo, a prática é mais frequente entre aqueles com renda entre 3 a 6 salários-mínimos (n = 13). A falta de informação e a insuficiente divulgação dos impactos ambientais e riscos à saúde pública podem resultar em práticas inadequadas de descarte5,57. Além disso, a quantidade de pontos de recolhimento de medicamentos ainda é insuficiente em algumas cidades, e, por vezes, os pontos estão localizados longe dos domicílios59-61. Desse modo, apesar do Decreto nº 10.388/202062, o estabelecimento da logística reversa com compromisso e protagonismo das farmácias e da indústria farmacêutica ainda é incipiente, o que agrava a questão63.
Da mesma forma, o contexto global também não é positivo, no entanto, é mais crítico em países de baixa e média renda. Um estudo abrangendo 104 países revelou níveis altos de Ingredientes Farmacêuticos Ativos (IFA) em 258 rios, principalmente na África Subsaariana, sul da Ásia e América do Sul. Os compostos frequentemente detectados foram carbamazepina, metformina e cafeína, presentes em mais da metade dos locais da amostra. Em 25,7% dos pontos de coleta, ao menos um IFA ultrapassou os limites estabelecidos para a proteção da biota aquática ou apresentou potencial de indução à resistência antimicrobiana64.
Em Kuala Lumpur, na Malásia, foi observado que 90,6% dos 317 participantes de um estudo, que pesquisou práticas de descarte de medicamentos, declararam adotar métodos inadequados65. Em Krowor, Gana, foi observada uma situação ainda mais crítica, em que 98% das 400 pessoas entrevistadas informaram descartar medicamentos de maneiras prejudiciais ao meio ambiente66, possivelmente, por desconhecimento dos riscos. No presente estudo, as consequências do descarte inadequado de medicamentos são desconhecidas pela maior parte dos participantes. Em estudos realizados no Paquistão e nos Emirados Árabes, o mesmo foi constatado com relação a 80% e 68% dos entrevistados, respectivamente67,68.
Os fármacos podem gerar impactos ambientais mais intensos do que outros contaminantes, pois são formulados para causar efeitos biológicos em concentrações reduzidas. Esses impactos incluem alterações histológicas, comportamentais e fisiológicas nos organismos vivos. Além disso, a transmissão na cadeia alimentar e a bioacumulação representam uma ameaça10,29. Nesse sentido, a tomada de decisão para estabelecer uma estrutura efetiva de descarte correto de medicamentos, com a expansão da quantidade de locais de recolhimento, é urgente para a efetivação da logística reversa.
Embora tenha sido possível obter um panorama sobre o armazenamento e descarte domiciliar de medicamentos, este estudo possui limitações. Considera-se que a variabilidade na estrutura para o descarte de medicamentos, nas políticas de gestão de resíduos e nas condições socioeconômicas locais, pode influenciar as percepções e os comportamentos dos participantes. Uma limitação deste estudo, realizado em uma cidade do estado do Rio de Janeiro, é que os resultados obtidos podem não ser generalizáveis para outras cidades e regiões do Brasil. Além disso, o tamanho da amostra, embora razoável para um estudo municipal, pode não representar toda a diversidade do município. No entanto, trata-se de um dos poucos estudos conduzidos no Brasil sobre o tema e evidencia um problema relevante na perspectiva da saúde pública.
Conclusões
Foram analisados o armazenamento e o descarte de medicamentos nos domicílios em Niterói (RJ), resultando na compreensão das práticas e dos conhecimentos da população sobre esses temas. O trabalho evidenciou a necessidade de medidas voltadas à melhoria das práticas de manejo de medicamentos.
Observou-se a guarda de medicamentos para uso futuro, o descarte no lixo doméstico e no esgoto sanitário. Além disso, nota-se a falta de orientações sobre armazenamento por parte dos profissionais de saúde, o que compromete a segurança no uso de medicamentos e aponta para a urgência da promoção de estratégias educativas para o uso racional de medicamentos, para práticas de armazenamento e descarte adequadas nos domicílios, visando à proteção da saúde pública e à preservação ambiental.
Considerando o cenário brasileiro, estudos futuros sobre as motivações e barreiras para o descarte correto, bem como a análise da infraestrutura de coleta e descarte de medicamentos em diversos contextos podem ser úteis para aprofundar o conhecimento sobre as práticas de armazenamento e descarte de medicamentos, de modo a subsidiar estratégias para promover melhorias.
Agradecimentos
Aos pesquisadores de campo e aos participantes da pesquisa, assim como ao apoio da Prefeitura Municipal de Niterói, da Fundação Euclides de Cunha (FEC) e da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) - pela bolsa de doutorado de Castro LF (código de financiamento 001).
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Suporte financeiro: o projeto que deu origem a este artigo foi financiando pela Prefeitura de Niterói (Secretaria de Saúde) por meio do Programa de Desenvolvimento de Projetos Aplicados (PDPA)
Disponibilidade de dados:
os dados de pesquisa estão contidos no próprio manuscrito
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Editora responsável:
Jamilli Silva Santos
