Objetivo: construir uma Teoria de Médio Alcance para o diagnóstico de baixa autoestima situacional em estudantes de enfermagem, a partir do mapeamento da literatura científica.
Método: estudo metodológico voltado à construção de uma Teoria de Médio Alcance, desenvolvido com base no modelo teórico-causal e fundamentado no Modelo de Adaptação de Roy. O processo foi operacionalizado em seis etapas: (1) definição da abordagem para construção da teoria; (2) definição dos modelos teórico-conceituais; (3) identificação dos conceitos-chave; (4) elaboração de um esquema pictórico; (5) formulação de proposições; e (6) estabelecimento de relações causais e evidências para a prática.
Resultados: foram identificados cinco atributos essenciais, 15 antecedentes e 23 consequentes clínicos. A análise desses elementos possibilitou o desenvolvimento da Teoria de Médio Alcance, composta por um diagrama ilustrativo, oito proposições, 12 relações causais e evidências para a prática.
Conclusão: o pequeno número de estudos mostra a pouca exploração do tema no âmbito nacional e internacional. A Teoria de Médio Alcance ampliou a compreensão do diagnóstico de baixa autoestima situacional, oferecendo subsídios para a atuação do enfermeiro no contexto universitário.
Descritores:
Teoria de Enfermagem; Autoimagem; Estudantes de Enfermagem; Diagnóstico de Enfermagem; Pesquisa em Enfermagem; Processo de Enfermagem
Destaques:
(1) A TMA introduz elementos para o enfermeiro utilizar na prática clínica. (2) Amplia a compreensão sobre o diagnóstico baixa autoestima situacional. (3) Apoia o avanço da prática e da pesquisa relacionada ao processo de cuidar estudantil. (4) Pode servir como recurso orientador para implementar ações frente a baixa autoestima.
Objective: to elaborate a Middle-Range Theory for the diagnosis of situational low self-esteem in nursing students based on the mapping of scientific literature.
Method: methodological study aimed at building a Middle-Range Theory, developed on the basis of the causal-theoretical model and based on Roy’s Adaptation Model. The process was operationalized in six stages: (1) defining the approach to building the theory; (2) defining the theoretical-conceptual models; (3) identifying the key concepts; (4) drawing up a pictorial scheme; (5) formulating propositions; and (6) establishing causal relationships and evidence for practice.
Results: five essential attributes, 15 antecedents and 23 clinical consequents were identified. The analysis of these elements enabled the development of the Middle-Range Theory, consisting of an illustrative diagram, eight propositions, 12 causal relationships and evidence for practice.
Conclusion: the small number of studies shows how little the subject has been explored in national and international contexts. The Middle-Range Theory broadened the understanding of the diagnosis of situational low self-esteem, offering support for nurses’ work in the university context.
Descriptors:
Nursing Theory; Self Concept; Students, Nursing; Nursing Diagnosis; Nursing Research; Nursing Process
Highlights:
(1) MRT introduces elements for nurses to use in clinical practice. (2) Broadens understanding of the diagnosis of situational low self-esteem. (3) Supports the advancement of practice and research related to the student care process. (4) Can serve as a guiding resource for implementing actions to address low self-esteem.
Objetivo: construir una teoría de alcance medio para el diagnóstico de enfermería baja autoestima situacional en estudiantes de enfermería a partir del mapeo de la literatura científica.
Método: estudio metodológico orientado a la construcción de una teoría de alcance medio, desarrollado con base en el modelo teórico-causal y fundamentado en el Modelo de Adaptación de Roy. El proceso se operacionalizó en seis etapas: (1) definición del abordaje para la construcción de la teoría; (2) definición de los modelos teórico-conceptuales; (3) identificación de los conceptos clave; (4) elaboración de un esquema pictórico; (5) formulación de proposiciones; y (6) establecimiento de relaciones causales y evidencias para la práctica.
Resultados: se identificaron cinco atributos esenciales, 15 antecedentes y 23 consecuentes clínicos. El análisis de estos elementos posibilitó el desarrollo de la teoría de alcance medio, compuesta por un diagrama ilustrativo, ocho proposiciones, 12 relaciones causales y evidencias para la práctica.
Conclusión: el reducido número de estudios demuestra la escasa exploración del tema en las realidades nacional e internacional. La teoría de alcance medio amplió la comprensión del diagnóstico baja autoestima situacional, ofreciendo subsidios para la actuación del enfermero en el contexto universitario.
Descriptores:
Teoría de Enfermería; Autoimagen; Estudiantes de Enfermería; Diagnóstico de enfermería; Investigación en Enfermería; Proceso de Enfermería
Destacados:
(1) La TMA introduce elementos para que el enfermero los utilice en la práctica clínica. (2) Amplía la comprensión sobre el diagnóstico baja autoestima situacional. (3) Apoya el avance de la práctica y de la investigación relacionada con el proceso de cuidado estudiantil. (4) Puede servir como recurso orientador para implementar acciones ante la baja autoestima.
Introdução
O diagnóstico de enfermagem Baixa autoestima situacional da taxonomia da NANDA International, Inc. (NANDA-I) foi desenvolvido em 1988 e revisado nos anos de 1996, 2000, 2017 e 2020. Em 2023, seu título foi alterado para Autoestima inadequada situacional e, atualmente, possui nível de evidência 3.2. É definido como: “Mudança de percepção positiva para negativa sobre o valor próprio, a autoaceitação, o autorrespeito, a competência e a atitude em relação a si mesmo, em resposta a uma situação atual”(1).
Indivíduos em risco de desenvolver esse diagnóstico vivenciam crises pessoais, espirituais ou financeiras e apresentam características como indecisão, obediência excessiva, falta de propósito e desamparo(1). Além disso, podem apresentar necessidade constante de aprovação, dificuldade em manter contato visual(2), insônia, sintomas depressivos, solidão, ruminação mental, verbalizações de autonegação e incapacidade de lidar com situações adversas(1).
Os estudantes universitários constituem uma população vulnerável ao desequilíbrio mental e às crises geradas pelos estressores acadêmicos(3). A má saúde mental tem sido associada à queda no desempenho acadêmico e ao abandono dos estudos(4), situações especialmente relevantes em cursos da área da saúde, como a enfermagem(5).
Embora a discussão sobre saúde mental na população universitária tenha avançado, ainda há necessidade de aprofundar o conhecimento sobre o tema(6). Ainda que os estudos clínicos mostrem resultados positivos no gerenciamento da ansiedade, depressão e estresse(7-8), as abordagens focadas na autoestima permanecem escassas. Especificamente entre graduandos de enfermagem, evidências sugerem uma correlação entre risco de suicídio e baixa autoestima(9), ressaltando a importância desse constructo para a assistência estudantil.
A investigação se alinha a pesquisas globais voltadas à produção de conhecimento sobre diagnósticos de enfermagem, aprimorando seus componentes e níveis de evidência(1). Além disso, ela converge com estudos que apontam a redução da autoestima entre estudantes de enfermagem ao longo da graduação(9).
Portanto, torna-se essencial aprofundar a compreensão da baixa autoestima situacional, identificando fatores predisponentes e estabelecendo indicadores clínicos para sua detecção precoce em diferentes populações(10). Tal conhecimento pode orientar as ações dos profissionais de enfermagem e a tomada de decisões para a formulação de cuidados qualificados. No caso dos estudantes com esse diagnóstico, a análise deve considerar dificuldades adaptativas, contextos de ensino-aprendizagem, predominância feminina nos cursos de enfermagem e fatores sociais, econômicos e culturais que influenciam sua vulnerabilidade em saúde(11-12).
Atualmente, as Teorias de Médio Alcance (TMA) têm sido amplamente utilizadas na validação de diagnósticos de enfermagem, pois possibilitam uma fundamentação mais robusta e específica para determinadas populações. Elas analisam a estrutura dos diagnósticos, os fatores causais e suas inter-relações, garantindo maior precisão e aplicabilidade na prática clínica(10,13).
Dito isso, acredita-se que o desenvolvimento de uma TMA da baixa autoestima aprimorará o raciocínio diagnóstico e contribuirá para uma assistência de enfermagem mais alinhada às necessidades dos universitários. Além disso, essa teoria poderá subsidiar o aprimoramento da taxonomia da NANDA-I e impulsionar o avanço da ciência da enfermagem.
Assim, este estudo tem como objetivo construir uma Teoria de Médio Alcance para o diagnóstico de enfermagem baixa autoestima situacional em estudantes de enfermagem, fundamentada no Modelo de Adaptação de Roy (MAR), a partir do mapeamento da literatura científica.
Método
Desenho do estudo
Trata-se de um estudo metodológico, orientado para a construção de uma TMA, desenvolvido a partir do modelo teórico-causal(13) e fundamentado no MAR(14).
As TMA são o método mais robusto para validação teórico-causal(1), orientando as ações do enfermeiro, fortalecendo o conhecimento científico e aprimorando a qualificação profissional. Seu uso tornou-se um método rigoroso na validação de diagnósticos de enfermagem, pois visa reduzir a lacuna entre teoria e prática clínica, estruturando um gradiente teórico(13).
O MAR(14) fornece a base para compreender o indivíduo como um sistema capaz de se adaptar. Nesse modelo: a) A pessoa é a receptora dos cuidados de enfermagem. b) A saúde é um estado e um processo contínuo de integração e totalidade. c) O ambiente abrange todas as condições e circunstâncias que influenciam o comportamento e o desenvolvimento humano. d) A meta da enfermagem é promover respostas adaptativas nos quatro modos adaptativos: fisiológico, autoconceito, função de papel e interdependência(14).
Nesse sentindo, a pessoa é vista como um sistema holístico e adaptável. Roy ainda abordou que os estímulos internos e externos ativam mecanismos reguladores e cognitivos que atuam para manter a adaptação. As respostas comportamentais resultantes desse processo fornecem retroalimentação ao indivíduo e ao ambiente, sendo categorizadas ou como respostas adaptativas, que promovem a integridade, ou como respostas inefetivas, que não sustentam essas metas e, portanto, exigem ação diagnóstica da enfermagem(10).
Com base na identificação desses comportamentos e reações aos estímulos ambientais, o enfermeiro determina os diagnósticos de enfermagem (DE)(14). O DE é uma tecnologia em saúde que possibilita a elaboração e implementação de um plano de cuidados, refletindo com precisão a situação clínica do paciente. Para garantir sua eficácia, os diagnósticos precisam ser validados(13).
Dessa forma, os referenciais adotados são complementares, fornecendo estrutura conceitual suficiente para descrever, explicar e fundamentar o diagnóstico de baixa autoestima situacional, estabelecendo um vínculo sólido entre teoria e prática.
Para a construção da TMA, o estudo seguiu seis etapas: 1. Definição da abordagem para construção da teoria. 2. Definição dos modelos teórico-conceituais. 3. Identificação de conceitos-chave. 4. Elaboração de um esquema pictórico. 5. Formulação de proposições e 6. Estabelecimento de relações causais e evidências para a prática.
Coleta, organização e análise dos dados
Definição da abordagem para a construção da teoria
A presente TMA foi construída a partir dos resultados de uma revisão de escopo. Para isso, elaborou-se inicialmente o protocolo de pesquisa, seguindo as diretrizes do JBI - Manual for Evidence Synthesis(15) e as recomendações do Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses extension for Scoping Reviews (PRISMA-ScR): Checklist and Explanation(16). O protocolo foi registrado na base de dados Open Science Framework, sob o identificador DOI 10.17605/OSF.IO/4YRCT.
As questões de pesquisa foram estruturadas com base no mnemônico PCC: P (População): estudantes de graduação em enfermagem. C (Conceito): baixa autoestima situacional. C (Contexto): diagnóstico de enfermagem.
Com isso, definiram-se as seguintes perguntas norteadoras: 1. Quais são os indicadores clínicos (consequentes), os fatores causais (antecedentes) e os atributos essenciais do diagnóstico de enfermagem de baixa autoestima situacional em estudantes de graduação em enfermagem? 2. Quais são as definições conceituais e operacionais dos indicadores clínicos (consequentes) e dos fatores causais (antecedentes) desse diagnóstico? 3. Quais são as relações causais do diagnóstico baixa autoestima situacional em estudantes de graduação em enfermagem?
Para a busca inicial, consultaram-se as bases de dados PubMed, CINAHL e The Cochrane Library, a fim de identificar os principais descritores e palavras-chave relacionadas ao tema. A estratégia de busca foi formulada a partir da combinação dos Descritores em Ciências da Saúde (DeCS) e dos Medical Subject Headings (MeSH), resultando na seguinte chave de pesquisa: Students Nursing OR Student Nursing AND Self Concept OR Self Esteem AND Nursing Diagnosis AND Education Nursing AND Graduation. Adaptações foram realizadas conforme a base de dados utilizada, com o objetivo de ampliar a abrangência da pesquisa.
Critérios de inclusão e exclusão
Foram incluídos: a) Publicações que abordassem o fenômeno baixa autoestima situacional em estudantes de graduação em enfermagem. b) Estudos com delineamento quantitativo, qualitativo ou mistos disponíveis integralmente em formato eletrônico.
Foram excluídos: a) Os tipos: resumos, cartas ao editor, editoriais e artigos de opinião. b) Os estudos duplicados em bases de dados. Não houve limite temporal ou de idioma, visando a inclusão do maior número possível de trabalhos.
Procedimentos de busca e seleção dos estudos
A busca pelos estudos foi realizada entre 22 de março a 24 de outubro de 2022, com uma atualização entre 03 a 12 de fevereiro de 2025, nas seguintes bases de dados: Web of Science, Scopus, PubMed, MEDLINE (Sistema Online de Busca e Análise de Literatura Médica), Science Direct e Google Scholar. O acesso às bases foi realizado via Portal CAPES, utilizando a plataforma Comunidade Acadêmica Federada (CAFe) e credenciais da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.
Inicialmente, os títulos e resumos dos estudos identificados foram avaliados com base nos critérios de inclusão e exclusão. Quando havia dúvidas quanto à elegibilidade, o estudo era mantido para análise na etapa subsequente. Os estudos pré-selecionados tiveram seus textos completos recuperados para leitura integral e análise detalhada. A remoção de duplicatas foi realizada nesta fase. Todo o processo foi conduzido por três pesquisadores de forma independente.
A Figura 1 apresenta o fluxograma detalhado do processo de busca e seleção da amostra.
Fluxograma do processo de seleção dos estudos de acordo com o PRISMA-ScR. Natal, RN, Brasil, 2025
Após a seleção e inclusão dos estudos na revisão, a pesquisadora principal realizou a extração dos dados, os quais foram registrados em planilhas no Microsoft Excel. O roteiro de extração incluiu informações para a caracterização das publicações (título, autores, ano de publicação, periódico e nível de evidência) e para a análise do tema (objetivo, conceitos de autoestima e baixa autoestima). Além disso, coletou-se aspectos relacionados ao diagnóstico de enfermagem baixa autoestima situacional: atributos essenciais, indicadores clínicos (consequentes), fatores causais (antecedentes) e suas respectivas definições.
A partir dessa análise, foi desenvolvido um gradiente teórico, permitindo a identificação dos elementos etiológicos e dos indicadores clínicos do diagnóstico baixa autoestima situacional. Ainda, estabeleceu-se relações causais que explicam a ocorrência desse diagnóstico em estudantes de enfermagem.
Definição dos modelos teórico-conceituais
A revisão permitiu identificar elementos específicos da baixa autoestima situacional em estudantes de enfermagem durante a graduação. Esses elementos foram analisados com base no MAR(14) e no diagnóstico baixa autoestima situacional da NANDA-I(1), fornecendo a base para a construção da TMA.
Definição dos principais conceitos
Após a definição operacional dos conceitos, os conteúdos foram analisados e integrados para estruturar a TMA, considerando três componentes principais: 1- Antecedentes: fatores que influenciam o desenvolvimento da baixa autoestima situacional; 2- Consequentes: comportamentos ou reações decorrentes desse diagnóstico. 3- Atributos essenciais: características fundamentais do fenômeno.
Foram selecionados conceitos-chave relacionados ao tema, categorizando-os como estímulos (antecedentes) e comportamentos (consequentes), além de definir suas respectivas conceituações e operacionalizações.
Construção de um esquema pictorial
Para facilitar a compreensão das relações entre os conceitos, foi elaborado um diagrama pictórico que ilustra as conexões entre atributos, antecedentes e consequentes identificados na revisão de escopo, permitindo uma melhor visualização das relações causais no público estudado.
Construção de proposições
As proposições são afirmações que descrevem relações entre conceitos dentro de uma teoria, permitindo a formulação de hipóteses testáveis empiricamente(17). Na referida etapa, foram elaboradas proposições explicativas sobre as conexões entre atributos essenciais, antecedentes e consequentes clínicos, com base nos achados da revisão de escopo e na interpretação da autoria.
Estabelecimento das relações de causalidade e evidências para a prática
Foram descritas as relações de causalidade entre os elementos da teoria, que, nem sempre, podem ser completamente visualizadas no diagrama. Essas relações foram estruturadas por meio de declarações assertivas, possibilitando um raciocínio clínico lógico e verificável(13).
Aspectos éticos
Por se tratar de uma revisão de escopo baseada em fontes secundárias de acesso público, o estudo dispensa aprovação pelo Comitê de Ética em Pesquisa. Não obstante, os aspectos éticos foram rigorosamente respeitados, sobretudo considerando os direitos autorais dos estudos, com a devida citação e referenciamento das produções científicas utilizadas.
Resultados
A Teoria de Médio Alcance para o diagnóstico de enfermagem baixa autoestima situacional de estudantes de enfermagem apresentou cinco atributos, 15 antecedentes e 23 consequentes clínicos. Nesse sentido, foi desenvolvido um pictograma, oito proposições e 12 relações causais e evidências para a prática, sob a ótica do MAR, em uma conexão entre teoria e prática. Essa articulação contribui na tradução do conhecimento em ações pertinentes para os graduandos em enfermagem, de maneira mais holística.
Definição da abordagem para a construção de teoria
A TMA do diagnóstico de enfermagem baixa autoestima situacional de estudantes de enfermagem é prescritiva e conjugou a orientação dedutiva, pois foi construída a partir dos resultados do mapeamento da literatura.
Assim, obteve-se uma amostra de 29 estudos. A maior concentração de publicações foi no período de 2016 a 2020 (44,8%). Identificou-se uma distribuição geográfica com maior frequência de estudos sobre o assunto no continente asiático (41,3%), seguido do europeu (31,0%; n=9).
Quanto ao idioma, 79,3% dos artigos estavam em inglês. O método mais frequente das pesquisas foi o transversal, com 48,2%, refletindo-se na classificação de evidência nível 4b(17). As pesquisas envolveram estudantes de enfermagem em diferentes períodos dos cursos de graduação. A escala de Autoestima de Rosenberg foi o instrumento para avaliação da autoestima mais adotado.
Definição dos modelos teórico-conceituais e conceitos-chave
Os atributos essenciais identificados foram: sentimentos negativos (48,3%); avaliações negativas do valor de si (27,6%); percepções pessimistas (17,2%); bem-estar psicossocial prejudicado (10,3%); e, nível de autoestima (6,9%). Assim, esses atributos foram agrupados pela pesquisadora principal e constitui-se a definição do diagnóstico em estudo: “Nível da autoestima expresso por sentimentos negativos, percepções pessimistas e avaliações negativas do valor de si, que reflete no bem-estar psicossocial prejudicado”.
Na sequência, foram identificados 15 antecedentes, também denominados de fatores causais. Estes foram subdivididos e organizados conforme o MAR, nomeando-os de estímulo e classificando-os em focal, contextual e residual, conforme Tabela 1.
Por conseguinte, verificou-se a presença de 23 consequentes, também denominados indicadores clínicos. Esses foram organizados como comportamentos conforme os modos adaptativos do MAR, como apresentado na Tabela 2.
Esquema pictorial (pictograma)
Para explanar a relação entre os conceitos-chave da TMA (atributos, antecedentes e consequentes) com os conceitos do MAR (estímulos e comportamentos), construiu-se o pictograma apresentado na Figura 2.
O pictograma construído representa a jornada do estudante de enfermagem, carregando consigo as suas experiências pessoais. Durante essa caminhada, o aluno é exposto a estímulos que ativam mecanismos de enfrentamento. No entanto, quando esses mecanismos são comprometidos, eles podem levar ao desenvolvimento da baixa autoestima situacional, afetando os modos adaptativos — autoconceito, desempenho de papel, fisiológico e interdependência — e desencadeando reações isoladas ou combinadas.
Na Teoria de Médio Alcance proposta, os elementos do Modelo de Adaptação de Roy(14) são aplicados da seguinte forma:
-
Pessoa: Representada pelo estudante de graduação em enfermagem com baixa autoestima situacional, considerado um sistema holístico e adaptativo.
-
Ambiente: Inclui tanto o mundo interno (percepções, emoções e crenças do estudante) quanto o mundo externo (contexto acadêmico, social e cultural).
-
Saúde: Refere-se à capacidade de adaptação do estudante frente às constantes mudanças nos ambientes interno e externo.
-
Meta da enfermagem: Promover respostas adaptativas que auxiliem o estudante a equilibrar os modos adaptativos, favorecendo a adaptação e o bem-estar.
Formulação de proposições
As proposições formuladas na TMA foram:
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O estudante de enfermagem recebe estímulos resultantes da sua imersão nos contextos de vida (pessoal, familiar, social, profissional), os quais podem proporcionar a baixa autoestima situacional, resultando em comportamentos não assertivos.
-
A baixa autoestima situacional pode ocorrer por ação de um ou mais estímulos/antecedente (focais, contextuais, residuais), produzindo um ou mais comportamentos/consequentes.
-
Se o estudante está em sofrimento psíquico, vivenciou experiências traumáticas; recebeu e/ou verbalizou palavras negativas e teve desequilíbrio no seu papel, então está mais suscetível a desenvolver a baixa autoestima situacional.
-
O estudante de enfermagem apresenta aspectos pessoais, que em conjunto aos contextuais, potencializam o autoconceito negativo e o desequilíbrio na atenção à saúde, resultando em depressão, estresse, ansiedade e até ideação suicida.
-
O estudante de enfermagem com baixa autoestima situacional poderá apresentar instabilidade no seu desempenho de papel ao apresentar comportamentos não assertivos, falhas na comunicação, baixo desempenho e até evasão dos estudos.
-
O estudante de enfermagem com baixa autoestima situacional possui fatores pessoais, que em conjunto a exposição de determinantes sociais de saúde, influenciam o modo fisiológico, causando má qualidade do sono, distúrbios alimentares e desequilíbrio biopsicossocial.
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O estudante com baixa autoestima situacional, por compreender as relações e julgamentos dos outros como negativas para si, apresenta dificuldades em estabelecer vínculos.
-
O enfermeiro deverá contribuir com o equilíbrio do enfrentamento do estudante, promovendo a integração da autoestima.
Relações causais e evidências para a prática
Com vistas à ampliação da fundamentação teórica da TMA, estabeleceram-se as relações causais entre os fatores etiológicos e indicadores clínicos da baixa autoestima situacional em estudantes de enfermagem, conforme apresenta a Figura 3.
Relações causais estabelecidas entre os fatores etiológicos e indicadores clínicos da baixa autoestima situacional. Natal, RN, Brasil, 2025
Dessa maneira, para o diagnóstico de baixa autoestima situacional em estudantes de graduação em Enfermagem, a construção da TMA possibilitou o estudo das suas principais causas e consequências, para que o enfermeiro possua ferramentas adequadas e com níveis de evidência para favorecer a assistência à saúde aos estudantes de enfermagem.
Discussão
A TMA do diagnóstico de interesse foi composta por cinco atributos, 15 antecedentes e 23 consequentes clínicos, um pictograma, oito proposições e 12 relações causais e evidências para a prática, sob a ótica do Modelo de Adaptação de Roy, em uma conexão entre teoria e prática. Essa articulação contribui na tradução do conhecimento em ações pertinentes para os graduandos em enfermagem, de maneira mais holística, bem como para o avanço do conhecimento na Enfermagem.
A autoestima é um indicador que reflete a saúde mental, pois mede a estabilidade psíquica diante de vários aspectos desafiadores da vida(29). Dentre os fatores etiológicos (antecedentes) identificados nesta pesquisa, prevaleceram: ambientes de aprendizagem estressantes, as experiências ineficazes, os relacionamentos problemáticos, vulnerabilidade socioeconômica e baixa percepção de apoio familiar.
Os ambientes de aprendizagem estressantes podem ser entendidos como os cenários educacionais nas instituições de ensino e práticas profissionais nos serviços de saúde, as quais favorecem o aparecimento do estresse nos estudantes de enfermagem(30). Tal fator tem relevância, pois tanto os diferentes ambientes e contextos quanto o envolvimento em processos e resultados que afetam os indivíduos (como emoções e sentimentos) repercutem na baixa autoestima dos estudantes(31).
Os universitários podem vir a reagir de maneira heterogênea às experiências acadêmicas: alguns vão adaptar-se rápida e eficientemente; outros vão percorrer esse caminho lentamente; outros não se adaptarão completamente, ocasionando evasões(32). A falta de recursos financeiros e as expectativas em relação à formação são fatores que podem dificultar e desestimular o discente a priorizar a conclusão do curso(33). Relacionamentos interpessoais podem ser determinantes para a decisão de abandono do curso universitário, bem como inadaptação às estratégias de ensino(34).
O estilo de vida do estudante universitário pode ser influenciado pelo ambiente universitário e as experiências vividas nele, com adoção de práticas saudáveis ou prejudiciais à saúde(35). Essas experiências são influenciadas por um estado emocional transitório. Enfatiza-se que níveis elevados de afetos negativos indicam a maior frequência e intensidade de experiências desagradáveis e de desprazer, e pessoas nessa condição consideram-se tristes, desanimadas e preocupadas(36).
Os alunos com baixa autoestima situacional tendem a possuir interferências na qualidade dos relacionamentos(37). Os estudantes de enfermagem com baixa autoestima apresentam repercussões significativas nos resultados sociais, tendo piora quando relacionado ao baixo apoio social e suporte familiar(38). O apoio social percebido pode funcionar como amortecedor para baixa autoestima situacional e outras condições de saúde mental, pois sua percepção positiva proporciona um senso de pertencimento e fortalece a saúde mental dos estudantes universitários, permitindo-lhes lidar com as exigências habituais da vida cotidiana(39).
Em relação à saúde mental dos estudantes universitários, nota-se que é um tema cada vez mais recorrente no mundo, sendo apontado como um importante problema de saúde pública. Um estudo identificou alta prevalência de sofrimento psicológico em estudantes no primeiro ano de faculdade ciências da saúde comparado aos alunos de outras áreas(40). O sofrimento psíquico entre estudantes universitários está relacionado a vários fatores, como: pressão acadêmica, habilidades de enfrentamento, economia e comunicação social. Por sua vez, os sujeitos suscetíveis a problemas mentais apresentam maior probabilidade de auto avaliações negativas(41).
Quanto aos indicadores consequentes do diagnóstico de baixa autoestima situacional em Enfermagem, o presente estudo mostrou características relacionais referentes à má adaptação de vida acadêmica e a aspectos psicossociais dos graduandos em enfermagem, destacando-se a prevalência de: comportamentos não assertivos, emoções negativas, depressão, baixo desempenho acadêmico, estresse e má adaptação à universidade.
Para autores(42), a autoestima corresponde a um fenômeno psicológico com íntima relação entre as dimensões emocionais e cognitivas, cada vez que existe reforço negativo face às ações pessoais, maior propensão para o declínio da autoestima. Logo, pessoas com baixa autoestima situacional apresentam-se insatisfeitos consigo, possuem instabilidade emocional, prejuízo no desempenho da sua vida pessoal, familiar, social, escolar, profissional, na compreensão de si e dos outros, na aceitação de autocrítica e tolerância aos problemas(43).
Uma investigação revelou que todos os participantes com uso excessivo de internet apresentaram uma frequência significativamente maior de sintomas de depressão, ansiedade e estresse(44). Os resultados de uma revisão de literatura também sinalizaram que o bullying se configura como um importante desencadeador da baixa autoestima na enfermagem em seus contextos acadêmicos(45).
Ademais, poderão ser identificados, nesse diagnóstico de enfermagem, características pessoais como: avaliação negativa de si; comportamento indeciso; comportamento não assertivo; verbalização de sentimentos de inutilidade, procura excessiva de reafirmação; excessivo conformismo; dependência da opinião de terceiros; passividade; verbalização de sentimento de culpa; verbalização de sentimentos de vergonha(46).
A interface da baixa autoestima com outros diagnósticos de enfermagem foi referida em outro estudo tais como a ansiedade; comunicação ineficaz; coping não eficaz; depressão, envolvimento em atividades de recreação diminuída; estresse, isolamento social; relacionamento ineficaz(1). Ressalta-se a importância da identificação das relações de condições associadas ao diagnósticos de enfermagem da baixa autoestima, facilitando a definição de intervenções direcionadas às necessidades dos clientes(10).
Um estudo classificou fatores que afetaram a autoestima de estudantes de enfermagem em dois grupos, a saber: um positivo chamado de proteção, e outro negativo chamado de pressão. Dentre os fatores de pressão foram destacados: baixa autoeficácia dos alunos, senso de trivialidade, interação ineficaz entre professor e aluno e baixa autoconfiança. Já os fatores de proteção incluíram aquisição de conhecimento, autonomia profissional, crenças religiosas e o interesse ao escolher a área de enfermagem(9).
Um estudo com 569 universitários peruanos mostrou alterações quando foram comparadas as variáveis como esgotamento emocional e autoestima relacionados à satisfação acadêmica(47). Uma outra investigação realizada com estudantes de graduação em enfermagem no Paquistão(48) apresentou que há, em indivíduos com baixa autoestima, a presença de níveis de comportamento suicida associados à depressão e ansiedade. Dentre os principais fatores que levaram a esses achados estão o excesso de carga horária, contato íntimo com professores, colegas e pacientes, insegurança e medo no momento do atendimento do paciente, baixa autoestima e outros sentimentos.
Portanto, as situações acadêmicas vivenciadas pelos estudantes de enfermagem apresentam potencial de desenvolvimento para a baixa autoestima que possuem impacto no estresse e a má qualidade do sono, bem como seus desfechos negativos à saúde física e emocional(26).
A compreensão das relações entre antecedentes e consequentes do diagnóstico foi essencial para construção da estrutura teórica preditiva das relações causais estabelecidas nesses componentes. A TMA baixa autoestima situacional em estudantes de enfermagem pode contribuir na inferência diagnóstica dos enfermeiros na assistência à saúde estudantil.
Como limitações do estudo, destacam-se: a extração dos conceitos-chave (atributos, antecedentes e consequentes) apenas pelo pesquisador principal, sem o auxílio de outros pesquisadores, o tema ser pouco explorado, bem como pequeno número de pesquisas prévias sobre o diagnóstico baixa autoestima situacional, o que mostra que este estudo vem preencher uma lacuna e servir de fundamentação para o surgimento de novas investigações para aprofundamento temático.
A TMA construída neste estudo poderá contribuir para a prática do enfermeiro, possibilitando a identificação dos fatores, dentre os apresentados pelo estudante, que provavelmente causaram o diagnóstico. Essa informação poderá fornecer subsídios para a elaboração de um plano de cuidados individualizado e eficiente com foco em fatores etiológicos sensíveis às intervenções de enfermagem.
Outrossim, o pictograma simboliza as relações de causalidade estabelecidas entre os antecedentes e os consequentes do diagnóstico. Essa representação auxilia na verificação eficaz da distribuição dos indicadores clínicos nas dimensões do diagnóstico, assim como a hierarquia causal dos fatores etiológicos.
Conclusão
O mapeamento das produções científicas no contexto dos diagnósticos de enfermagem sobre a baixa autoestima em estudantes de enfermagem mostrou pouca exploração do tema, tanto em âmbito nacional quanto internacionalmente.
A TMA desenvolvida para o diagnóstico de enfermagem baixa autoestima situacional em estudantes de enfermagem apresentou 5 atributos, 15 antecedentes e 23 consequentes clínicos. Além disso, elaborou-se um pictograma ilustrativo, 8 proposições e 12 relações causais e evidências para a prática, fundamentadas no MAR, promovendo a conexão entre teoria e prática. Tal abordagem permite traduzir o conhecimento científico em ações concretas, possibilitando uma assistência mais holística e direcionada aos graduandos em enfermagem.
A construção da TMA possibilitou uma compreensão aprofundada das principais causas e consequências do diagnóstico de baixa autoestima situacional em estudantes de enfermagem. Dessa forma, os enfermeiros passam a dispor de ferramentas validadas e baseadas em evidências para qualificar a assistência à saúde desse público e fortalecer a Ciência da Enfermagem.
Ademais, incentiva-se o desenvolvimento de estudos futuros voltados à validação empírica deste diagnóstico, garantindo sua aplicabilidade e eficácia na prática clínica.
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Artigo extraído da tese de doutorado “Validação do diagnóstico baixa autoestima situacional em estudantes de enfermagem”, apresentada à Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Natal, RN, Brasil.
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Como citar este artigo
Santos LV, Souza LRS, Silva MMS, Lopes MVO, Lira ALBC. Middle-range theory of the diagnosis of low situational self-esteem in undergraduate nursing students. Rev.Latino-Am. Enfermagem. 2025;33:e4650 [cited]. Available from: . https://doi.org/10.1590/1518-8345.7662.4650
Editado por
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Editora Associada:
Maria Lúcia Zanetti




*TMA = Teoria de Médio Alcance