Open-access Sintomas prevalentes e características da população na COVID Longa: uma revisão de escopo*

Objetivo: mapear a literatura científica sobre as características clínicas e demográficas da COVID Longa.

Método: trata-se de uma revisão de escopo baseada nos princípios preconizados pelo JBI e as diretrizes do PRISMA para a extração dos dados, realizada a partir de quatro bases de dados. Utilizou-se a estratégia PCC para a coleta de dados, sendo os resultados descritos e diagramados. A seleção dos estudos foi realizada após a remoção de duplicatas, avaliação individual e em pares.

Resultados: uma análise dos 13 artigos selecionados mostraram que a COVID Longa atinge todas as faixas etárias e pessoas de ambos os sexos, apresentando uma multiplicidade de sintomas, como fadiga (61,5%), dispneia (46,1%), alterações no olfato e/ou paladar (38,6%), ansiedade (15,3%) e comprometimento cognitivo (30,7%). No sexo feminino foi identificado risco aumentado para desenvolver COVID Longa.

Conclusão: a identificação dos sintomas prevalentes na COVID Longa contribuem na estratégia de saúde pública, para o diagnóstico e assistência às pessoas acometidas pela doença. Recomenda-se estudos futuros sobre a abordagem da persistência dos sintomas na COVID Longa e a relação da adesão ao esquema vacinal contra a COVID-19, sexo, raça/etnia, grau de susceptibilidade nas diferentes faixas etárias, nível de escolaridade e renda além das comorbidades mais recorrentes na população.

Descritores:
Síndrome de COVID-19 Pós-Aguda; COVID-19; Sinais e Sintomas; Características da População; Pandemias; Revisão


Destaques:

(1) Identificou-se que a COVID Longa acomete todas as faixas etárias de ambos os sexos.

(2) Sintomas mais frequentes: fadiga, dispneia e alteração no olfato e/ou paladar.

(3) Fatores de risco: sexo feminino, gravidade de COVID-19 e comorbidades.

Objective: to map the scientific literature on the clinical and demographic characteristics of Long COVID-19.

Method: this is a scoping review based on the principles recommended by the JBI and the PRISMA guidelines for data extraction, carried out on four databases. The PCC strategy was used for data collection, and the results were described and diagrammed. The studies were selected after removing duplicates, individual and peer review.

Results: an analysis of the 13 articles selected showed that Long COVID affects all age groups and people of both sexes, presenting a multiplicity of symptoms, such as fatigue (61.5%), dyspnea (46.1%), changes in smell and/or taste (38.6%), anxiety (15.3%) and cognitive impairment (30.7%). Females were found to be at increased risk of developing Long COVID.

Conclusion: identifying the symptoms prevalent in Long COVID contributes to public health strategies for diagnosing and assisting people affected by the disease. Future studies are recommended on the approach to the persistence of symptoms in Long COVID and the relationship between adherence to the vaccination schedule against COVID-19, gender, race/ethnicity, degree of susceptibility in the different age groups, level of education and income, as well as the most recurrent comorbidities in the population

Descriptors:
Post-acute COVID-19 Syndrome; COVID-19; Signs and Symptoms; Population Characteristics; Pandemics; Review


Highlights:

(1) It was found that Long COVID affects all age groups of both sexes.

(2) Most common symptoms: fatigue, dyspnea and altered sense of smell and/or taste.

(3) Risk factors: female gender, COVID-19 severity and comorbidities.

Objetivo: mapear la literatura científica sobre las características clínicas y demográficas de la COVID prolongada.

Método: se trata de una revisión de alcance basada en los principios recomendados por el JBI y las directrices del PRISMA para la extracción de datos, realizada a partir de cuatro bases de datos. Se utilizó la estrategia PCC para la recolección de datos, siendo los resultados descritos y diagramados. La selección de los estudios se realizó después de la eliminación de duplicados, evaluación individual y en pares.

Resultados: un análisis de los 13 artículos seleccionados mostró que la COVID prolongada afecta a todas las franjas etarias y a personas de ambos sexos, presentando una multiplicidad de síntomas, como fatiga (61,5%), disnea (46,1%), alteraciones en el olfato y/o gusto (38,6%), ansiedad (15,3%) y deterioro cognitivo (30,7%). En el sexo femenino se identificó un mayor riesgo de desarrollar COVID prolongada.

Conclusión: la identificación de los síntomas prevalentes en la COVID prolongada contribuye a la estrategia de salud pública, para el diagnóstico y asistencia a las personas afectadas por la enfermedad. Se recomiendan estudios futuros sobre el abordaje de la persistencia de los síntomas en la COVID prolongada y la relación de la adherencia al esquema de vacunación contra la COVID-19, sexo, raza/etnia, grado de susceptibilidad en las diferentes franjas etarias, nivel educativo e ingresos, además de las comorbilidades más frecuentes en la población.

Descriptores:
Síndrome Post Agudo de COVID-19; COVID-19; Signos y Síntomas; Características de la Población; Pandemias; Revisión


Destacados:

(1) Se identificó que la COVID prolongada afecta a todas las franjas etarias de ambos sexos.

(2) Síntomas más frecuentes: fatiga, disnea y alteración en el olfato y/o gusto.

(3) Factores de riesgo: sexo femenino, gravedad de la COVID-19 y comorbilidades.

Introdução

A doença do novo coronavírus (COVID-19) não se restringe apenas a uma doença aguda, sendo que aproximadamente 10 a 50% dos pacientes infectados podem evoluir para a COVID Longa, sendo caracterizada por uma doença multissistêmica com sintomas heterogêneos(1). A COVID Longa pode ocorrer em indivíduos com infecção provável ou confirmada ocasionada pelo vírus denominado Severe Acute Respiratory Syndrome Coronavirus 2 (SARS-CoV-2)(2).

A COVID Longa comumente é observada após três meses do diagnóstico da infecção na fase aguda e os sintomas persistem por pelo menos dois meses e não podem ser explicados por um diagnóstico alternativo. Além disso, os sintomas podem reaparecer após a recuperação inicial de um episódio agudo de COVID-19 ou persistir desde a doença inicial; ainda, os sintomas podem flutuar ou recidivar entre o período(2).

Nesse cenário, a COVID-19 pode afetar vários sistemas orgânicos e ocasionar uma série de sintomas que não se restringem apenas à região pulmonar. Desse modo, há um número significativo de pessoas que apresentam sintomas que vão desde fadiga grave até distúrbios neurológicos, e vivenciam as consequências negativas desse fenômeno, ao passo que sofrem prejuízos em sua qualidade de vida(3).

Concomitantemente, a COVID Longa apresenta uma maior prevalência entre pacientes comórbidos que relatam fadiga, nevoeiro cerebral e mialgia enquanto principais sintomas, podendo ser múltiplos e de variável intensidade, a depender da área do corpo afetada. Ainda, o profissional de saúde, ao atender um paciente que apresenta tais sintomas, pode associá-los às causas psicossomáticas como depressão e ansiedade, conduta essa que dificulta o diagnóstico de COVID Longa(1).

Sendo assim, os mecanismos fisiopatológicos da COVID Longa ainda não estão totalmente esclarecidos, a diversidade e complexidade dos sintomas dificultam sua categorização, o que contribui para a lacuna do conhecimento quanto ao diagnóstico e ao tratamento da doença. Portanto, são essenciais estudos que abordem essa temática para contribuir na implementação de estratégias de saúde pública e auxiliar os serviços de saúde na identificação dos principais sintomas manifestados e quais pessoas se apresentam mais suscetíveis ao desenvolvimento da COVID Longa.

Portanto, tratar a doença para além de seu curso agudo requer investigações que visem identificar a sintomatologia e a fisiopatologia da COVID Longa, bem como formas de assegurar um diagnóstico preciso com vistas a oferecer uma assistência qualificada e efetiva. Dessa forma, este estudo visa mapear a literatura científica sobre as características clínicas e demográficas na COVID Longa.

Método

Tipo do estudo

Foi realizada uma Scoping Review (SR) com base nos princípios e fases preconizadas pelo Joanna Briggs Institute (JBI), a saber: (1) identificação da questão de pesquisa; (2) identificação de estudos relevantes; (3) seleção dos estudos; (4) extração de dados; (5) separação, sumarização e relatório de resultados; e (6) divulgação dos resultados(4). O protocolo deste estudo está publicado na Open Science Framework: https://doi.org/10.17605/OSF.IO/QRS4J.

Cenário

A pesquisa bibliográfica foi conduzida nas bases de dados eletrônicas: LILACS, PubMed, Scopus e Web of Science. As buscas foram conduzidas pelos descritores e/ou termos alternativos: síndrome pós-COVID-19 aguda, sequela pós-infecção por SARS-CoV-2, COVID de longo curso, sintomas clínicos e sinais e sintomas; conforme consta no Descritores em Ciências da Saúde (DeCS) e no Medical Subject Headings (MeSH) (Figura 1).

Figura 1 -
Estratégias de busca utilizadas nas bases de dados. São Carlos, SP, Brasil, 2023

Período

As buscas dos dados ocorreram entre os meses de maio a junho de 2023.

Critérios de seleção

Os critérios de inclusão aplicados foram: artigos originais, publicados no período compreendido de janeiro de 2020 a janeiro de 2023 e nos idiomas português, inglês e/ou espanhol. Foram excluídos artigos não disponíveis na íntegra, cujo títulos e resumos não respondiam à questão norteadora, além de artigos de opiniões, editoriais, revisões e capítulos de livros. O período do estudo se refere ao início da pandemia por COVID-19 e, consequentemente, de publicações relacionadas à persistência dos sintomas dessa doença.

Coleta de dados

A fim de conduzir o presente estudo, utilizou-se a estratégia PCC (População, Conceito e Contexto), sendo “P” pessoas com COVID Longa; “C” sintomas e “C” pandemia de COVID-19, sendo definida a seguinte questão norteadora: “Quais os sintomas de COVID Longa são apresentados pelas pessoas, considerando as características clínicas e demográficas?”.

Instrumentos utilizados para a coleta de dados das informações

Para a seleção dos estudos, após implementação da estratégia de busca nas bases eletrônicas citadas, os artigos foram importados para o aplicativo web StArt (State of the Art through Systematic Review), a fim de se realizar a seleção dos estudos em dois níveis. Essa ferramenta de revisão foi desenvolvida pelo Laboratório de Pesquisa em Engenharia de Software (LaPES) da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar)(5). Assim, durante a primeira etapa da seleção, realizou-se a leitura de títulos e resumos, seguida da leitura na íntegra das referências. Ainda, foram verificadas as listas de referências de todos os estudos encontrados.

Tratamento e análise dos dados

Os estudos elegíveis foram recuperados na íntegra e avaliados por três pesquisadores, sendo que as divergências foram discutidas até se chegar a um consenso e, então, realizar-se a seleção final. Foram seguidas as diretrizes do PRISMA (extension for scoping reviews) para a extração e apresentação dos dados(6). O processo de seleção dos estudos e as informações relevantes extraídas de cada artigo selecionado estão apresentados em figuras, no formato descritivo.

Aspectos éticos

Por se tratar de um estudo de revisão de escopo, é dispensado a aprovação pelo Comitê de Ética em Pesquisa.

Resultados

Foram importados para o StArt 536 artigos, dos quais quatro foram excluídos por serem duplicados. Assim, considerou-se 532 artigos para análise de título e resumo, destes, 498 estudos foram excluídos por não se enquadrar nos critérios de inclusão. Dessa forma, 34 artigos foram incluídos para a leitura na íntegra. Após a leitura, excluíram-se 21 estudos por não responderem à questão norteadora, sendo selecionados, ao final 13, estudos (Figura 1).

Em relação aos tipos de estudos incluídos nesta revisão, conforme a Figura 3, destacam-se 8 (61,5%) estudos de coorte, 3 (23,0%) estudos de caso, 1 (7,6%) caso-controle e 1 (7,6%) estudo descritivo. Ainda, quanto aos países de estudos 2 (15%) foram realizados nos Estados Unidos; ademais, países como Arábia Saudita, Bélgica, Brasil, China, Egito, Espanha, França, Grécia, Itália, Londres e Suíça aparecem com apenas 1 (7,6%) estudo cada.

Figura 2 -
Diagrama de fluxo do processo de seleção dos artigos, PRISMA-ScR. São Carlos, SP, Brasil, 2023

Figura 3 -
Descrição dos artigos, segundo autor, ano, local, objetivo, tipo de estudo, amostra e principais resultados. São Carlos, SP, Brasil, 2023

Em relação aos dados demográficos, verificou-se que em cinco (38,4%) estudos a faixa etária média de casos de COVID Longa variou entre 42,4 e 55,5 anos, nos estudos em que a amostra foi composta por ambos os sexos, quatro descreveram suas amostras com os maiores percentuais correspondentes aos homens e em três estudos predominavam o sexo feminino.

Quanto aos sintomas mais frequentemente observados, destacou-se a fadiga (61,5%)(1,7,9,11,13-16), dispneia (46,1%)(1,8-9,11,13,17), alterações no olfato e/ou paladar (38,6)(1,7,9,13,17), ansiedade (15,3%)(1,15) e comprometimento cognitivo (30,7%)(1,13-14,16).

Em relação às características clínicas quanto à presença de doenças preexistentes nas pessoas que manifestaram sinais e sintomas sugestivos de COVID Longa, apenas cinco (38,4%) estudos descreveram as comorbidades mais frequentes observadas em suas amostras, sendo predominante o relato de diabetes mellitus e hipertensão(9,11,15-17).

Uma variável clínica pouco abordada nos estudos foi a relação do esquema vacinal contra COVID-19 e o desenvolvimento da COVID Longa. Verificou-se que nove (69,24%) estudos não mencionaram sobre a situação vacinal(7-9,11,13-16,18), dois (15,3%) afirmaram que a população do estudo não foi vacinada(12,17) e 1(7,6%) mostrou que aproximadamente 12% da população investigada não foi vacinada durante o período do estudo(1). Nenhum dos estudos analisou a associação da vacinação com o desenvolvimento de sintomas da COVID Longa.

Outras lacunas identificadas nos estudos selecionados referem-se à ausência da análise da associação da COVID Longa às variáveis demográficas, como escolaridade e renda(1,7-18) ou de variáveis clínicas sobre o histórico de hospitalização por COVID-19(1,7,12-14,18).

No que se refere aos fatores de risco associados ao desenvolvimento da COVID Longa, apenas dois estudos descreveram uma associação positiva relacionada à gravidade na fase aguda na doença COVID-19, à presença de comorbidades, ao maior tempo de internação e internação em Unidade de Terapia Intensiva, à idade avançada e o sexo feminino ao risco aumentado de manifestar alguns sintomas da COVID Longa(8,11,15). Por outro lado, um estudo apontou que a presença de anosmia-disgeusia foi associada à idade mais jovem (menores de 65 anos)(9).

Discussão

A partir da análise dos estudos selecionados nesta revisão, identificou-se uma ampla gama de sintomas relatados em pessoas que desenvolveram a doença COVID Longa, dentre os mais frequentementes estavam a fadiga, dispneia, alterações no olfato e paladar e distúrbios cognitivos relacionados à memória. Além disso, foi apontado que doenças como hipertensão arterial e diabetes mellitus foram comorbidades comumente encontradas nas pessoas. Nesta análise, observou-se uma maior prevalência de COVID Longa nas amostras em pessoas correspondentes à faixa etária pertencente aos adultos e em ambos os sexos. No entanto, alguns estudos associaram o sexo feminino como um fator de risco para o desenvolvimento da doença, outros fatores associados ao risco aumentado de desenvolver a COVID Longa foram relacionados à gravidade da infecção COVID-19, ao maior tempo de internação e à idade avançada. Ainda, em relação ao esquema vacinal contra a COVID-19, foi observada a ausência da abordagem dessa temática na maioria dos estudos analisados sobre a manifestação dos sintomas na doença COVID Longa.

Ressalta-se que no primeiro ano da pandemia, em 2020, o termo “Long COVID” foi utilizado para descrever os pacientes que se recuperaram da doença, mas que ainda apresentavam efeitos duradouros da infecção por mais tempo do que o esperado(19). Ainda, o grau de infecção por COVID-19 pode estar relacionado a diferentes sintomas manifestados no desenvolvimento da COVID Longa. Assim, a COVID Longa foi observada com maior frequência nas pessoas que desenvolveram a forma grave da COVID-19 em comparação aos casos menos graves(20). Ainda, o risco de desenvolver a COVID Longa aumenta com a idade, mas pode acometer toda a população, incluindo o público infantil(21-22).

Embora a fisiopatologia da COVID Longa não esteja totalmente esclarecida, as hipóteses para a explicação da doença podem estar relacionadas à presença de reservatórios persistentes de SARS-CoV-2 em tecidos, desregulação imunológica, impactos do vírus na microbiota, autoimunidade, preparação do sistema imunológico a partir do mimetismo molecular, coagulação sanguínea microvascular com disfunção endotelial e sinalização disfuncional no tronco cerebral e/ou nervo vago(22-23).

Em relação aos sintomas manifestados na COVID Longa, tem sido descrito que podem estar sobrepostos a diversas condições que não estejam relacionadas à própria infecção de COVID-19, como, por exemplo, uma síndrome pós cuidados intensivos nos casos que necessitaram de internação ou até mesmo a exacerbação de condições de saúde preexistentes(24-25).

Nesse contexto, os sintomas manifestados na COVID Longa podem ter etiologias distintas. Sendo assim, na abordagem dos sintomas respiratórios de longo prazo, estes podem ser causados por distúrbios vasculares pulmonares resultantes do dano vascular pulmonar nos microvasos sofridos na infecção aguda do vírus SARS-CoV-2. Um dos sintomas mais relatados, a dispneia, na ausência de lesão pulmonar, poderia estar relacionada à regulação inadequada da ventilação resultante de distúrbios do sistema nervoso autônomo, com potenciais danos nos receptores reflexos intratorácicos ou no tronco cerebral/zonas corticais cerebrais(23,26). Já no que se refere à manifestação de dores, incluindo dores articulares e musculares, elas poderiam ser atribuídas a mecanismos tromboinflamatórios em relação a lesões teciduais e processos autoimunes(27-28).

Quanto aos sintomas neurológicos apresentados na COVID Longa, uma análise apontou que sequelas persistentes poderiam estar relacionadas a complicações neurológicas agudas na infecção pelo vírus SARS-CoV-2, resultantes de danos cerebrais ou de outros fatores relacionados à hospitalização. Dessa maneira, a manifestação dos distúrbios cognitivos, cefaleia e alterações olfativa e/ou gustativa poderiam depender de uma fisiopatologia independente da fase aguda. Uma explicação seria que a propagação do vírus SARS-CoV-2 no cérebro, por meio da cavidade nasal ou da corrente sanguínea, resultaria em uma neuroinflamação, e esta, sendo persistente, poderia ser responsável por comprometimento neurocognitivo ou distúrbios de saúde mental(23).

Desse modo, exames clínicos de pessoas com COVID Longa apresentam uma diminuição de serotonina causada pela infecção de COVID-19 devido à redução da absorção de triptofano, trombocitopenia e aumento da expressão da flavoenzima monoaminoxidase, que resulta na diminuição da ativação vagal e hipocampal e, também, no considerável comprometimento cognitivo. Ainda, foi constatado que a redução da serotonina e a disfunção do nervo vago podem ser associadas à COVID Longa, pois são sugestivas de um trajeto posterior à infecção viral(29).

Contudo, a partir da ideia de que a fenotipagem metabolômica, proteômica e imunológica de pacientes que contraíram o SARS-CoV-2 combinou com uma diversidade de sintomas clínicos com potenciais biomarcadores para a COVID-19, o metabolismo desregulado e a inflamação podem contribuir para os sintomas da COVID Longa. Nesse contexto, destaca-se que os triglicerídeos sanguíneos totais e os metabólitos lactato e piruvato foram mais elevados e as lipoproteínas foram mais baixas em pacientes com COVID Longa quando comparado com os controles saudáveis(30).

Outrossim, foi possível verificar que as citocinas ou o sexo feminino e/ou masculino estão relacionados com os metabólitos, como citrato, glutamato e histidina, em pacientes que apresentaram os sintomas como fadiga crônica, dispneia e confusão mental no curso longo da doença. Enfim, várias citocinas e quimiocinas foram correlacionadas com metabólitos e lipoproteínas, sendo a desregulação no metabolismo e a inflamação consideradas como potenciais fatores para o desenvolvimento de COVID Longa(30).

Dentre os fatores de risco para o desenvolvimento da COVID Longa, foram descritos a hospitalização em decorrência da infecção, o aumento da idade, ser do sexo feminino e portador de comorbidades(31). Nesta conjuntura, sabe-se que doenças comumente encontradas na população, como diabetes mellitus quando mal controladas causam danos aos órgãos, ocasionando, especificamente, lesões microvasculares que podem ser exacerbadas na infecção por SARS-CoV-2 em sua forma grave. Além disso, o estado inflamatório pré-existente pode se manter exacerbado e agravado após a infecção(32).

As síndromes coronarianas agudas, insuficiência cardíaca, arritmias, acidente vascular cerebral e tromboembolismo também perduram além do estágio inicial da infecção por SARS-CoV-2, prolongando-se por vários meses. Sintomas cardiopulmonares como dor no peito, falta de ar, fadiga e taquicardia ortostática postural podem ser comuns na COVID Longa e associados à incapacidade significativa e ao aumento da ansiedade. Contudo, os mecanismos fisiopatológicos para as complicações cardiovasculares tardias não estão bem compreendidos(33).

A literatura aponta divergências em relação à prevalência de COVID Longa. Um estudo que analisou a população do norte dos Países Baixos descreveu que a doença pode ocorrer em cerca de uma a cada oito pessoas com a doença na população geral, enquanto outra pesquisa na Itália relatou que nove em cada dez pacientes, após se recuperarem da doença, ainda apresentavam pelo menos um sintoma depois de 60 dias do início(19,34).

Além disso, a prevalência de COVID Longa difere entre homens e mulheres, considerando as diferenças fisiológicas e hormonais que influenciam no sistema imunológico. Dessa forma, as mulheres possuem níveis mais elevados de imunoglobulina, fazendo com que desenvolvam respostas imunológicas mais fortes após a imunização ou infecção quando comparadas aos homens, ao passo em que apresentam maior suscetibilidade às doenças autoimunes(35).

Assim, as mulheres podem apresentar diferentes fatores de risco para a COVID Longa a depender do estado hormonal. Nesse contexto, a menopausa é um fenômeno que está associado a um risco aumentado para a doença, sendo que mulheres na pós-menopausa apresentaram maior incidência de COVID-19 quando comparadas com mulheres na pré-menopausa. Desse modo, é sugestivo que o estrogênio possa estar associado à gravidade da doença; também, destaca-se que a ECA2 é encontrada no cromossomo X, sendo o estrogênio um regulador negativo da expressão de ECA2. Ainda, o receptor Toll-like 7 (TLR7), regulador da produção de interferon (IFN), é considerado um gene imune do cromossomo X que ocasiona maior sinalização de IFN na COVID-19 e melhor depuração viral em mulheres, contudo, a sinalização contínua as predispõe a um maior risco de desenvolver um quadro de COVID Longa(36).

Entretanto, em ambos os sexos, nos achados clínicos, as alterações nas células T, o número reduzido de células de memória efetoras cluster of differention 4+ (CD4+) e cluster of differention 8+ (CD8+) e a expressão elevada da proteína PD1 em células de memória central persistiram por pelo menos 13 meses em indivíduos com COVID Longa que tiveram COVID-19 leve(22,37).

Em indivíduos que desenvolveram a COVID Longa, detectou-se uma diminuição de imunoglobulina M (IgM) desde a infecção primária até o acompanhamento de seis meses. Ainda, enquanto a imunoglobulina G1 (IgG1) ficou inalterada, a imunoglobulina G3 (IgG3) foi menor em pacientes com COVID Longa, ocorrendo o contrário nas concentrações de IgG3 em casos leves e graves da COVID-19. Dessa forma, foi possível observar uma assinatura da imunoglobulina que, combinada com a idade, história de asma brônquica e cinco sintomas durante a infecção primária, pode prever o risco de COVID Longa independentemente do período em que foi realizada a coleta de sangue(38).

Por meio de títulos de imunoglobulina G (IgG) específicos para SARS-CoV-2 distribuídos igualmente por um período conforme a idade, sexo e ausência/presença de sintomas longas, os pacientes foram vacinados entre o 10º e 15º meses após a infecção, identificando que a administração da vacinação precoce é mais eficaz que a tardia. Ainda, a vacinação administrada antes das infecções por SARS-CoV-2 está associada com uma menor prevalência dos sintomas persistentes(39).

Nesse contexto, embora a vacinação contra a COVID-19 tenha sido uma variável clínica não analisada nos estudos selecionados nesta revisão, a sua relação com a COVID Longa merece destaque. A literatura aponta que a vacinação dupla culminou em efeito benéfico temporário nos sintomas longos com duração de 21 a 67 dias(39). Em uma revisão sistemática que analisou dados sobre a vacinação antes e após a infecção pelo vírus SARS-CoV-2, em relação à vacinação contra a COVID-19 antes da infecção, mostrou-se que os indivíduos apresentaram uma redução significativa na incidência de COVID Longa. Por outro lado, ao se analisar a remissão e a recuperação da COVID Longa, há chances de não recuperação quando os pacientes foram vacinados após a infecção(40).

Desse modo, a vacinação contra a COVID-19, além de atuar na diminuição da gravidade da doença e nas taxas de hospitalização, tem sido associada a uma considerável redução no desenvolvimento de sintomas da COVID Longa(40-41). Nessa perspectiva, é notória a importância da adesão à vacinação contra a COVID-19 uma vez que, sendo reconhecida, atua como instrumento de proteção para o desenvolvimento do longo curso da doença, visto que ainda não existem tratamentos amplamente eficazes tanto para a doença aguda como COVID Longa(22).

Por fim, é importante destacar que os cuidados à saúde direcionados às pessoas com COVID Longa podem estar comprometidos, especialmente em países de baixa e média renda, devido aos sistemas de saúde limitados e com poucos recursos, podendo se apresentar como uma grande demanda aos sistemas de saúde já sobrecarregados, exacerbando ainda mais as desigualdades em saúde(42).

Esta revisão de escopo contribui na identificação dos sintomas mais frequentes manifestados na COVID Longa, dentre eles fadiga, dispneia, alterações no olfato e paladar e distúrbios cognitivos relacionados à memória. Além disso, foi observada nos estudos selecionados uma maior prevalência de COVID Longa em pessoas correspondentes à faixa etária pertencente aos adultos e em ambos os sexos.

Constituem limitações do estudo a inclusão somente de estudos em português, inglês e espanhol, de artigos que se encontravam disponíveis em texto na íntegra, além das possibilidades contidas nas bases de indexação não incluídas nesta pesquisa.

Conclusão

O mapeamento da literatura evidenciou a diversidade de sintomas em pessoas que desenvolveram COVID Longa, sendo mais prevalentes em pessoas adultas, de ambos os sexos e com a presença de comorbidades. Devido à elevada carga de sintomas persistentes ocasionados após a infecção pelo SARS-CoV-2, a COVID Longa é um desafio para os serviços de saúde, principalmente no que tange à diversidade de manifestações sintomáticas. Tal situação implica em dificuldades para a qualidade de vida das pessoas acometidas pela COVID Longa.

Esta revisão encontrou importantes lacunas que podem influenciar na compreensão da COVID Longa, desse modo, recomenda-se realizar estudos futuros sobre a abordagem da gravidade e persistência dos sintomas apresentados na COVID Longa e sobre a relação da adesão ao esquema vacinal contra a COVID-19, interseccionados pelos aspectos de sexo, raça/etnia, grau de susceptibilidade nas diferentes faixas etárias, nível de escolaridade e renda, além das comorbidades mais recorrentes na população. O aprofundamento de estudos utilizando essas variáveis pode contribuir para a efetividade de estratégias de saúde pública para o diagnóstico e assistência às pessoas acometidas pela doença.

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  • *
    Apoio financeiro da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), processo nº 2022/10666-5, Brasil. O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Brasil (CAPES) - Código de Financiamento 001.
  • Como citar este artigo
    Prediger KM, Ribeiro AC, Uehara SCSA. Prevalent symptoms and characteristics of the Long COVID-19 population: a scoping review. Rev. Latino-Am. Enfermagem. 2025;33:e4479 [cited ano mês dia]. Available from: URL . https://doi.org/10.1590/1518-8345.7353.4479

Editado por

  • Editora Associada:
    Maria Lúcia Zanetti

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    03 Fev 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    15 Fev 2024
  • Aceito
    10 Out 2024
Creative Common - by 4.0
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