Open-access Atitudes de colaboração interprofissional na assistência ao parto das gestantes classificadas como de alto risco obstétrico

Actitudes de colaboración interprofesional en la asistencia al parto de las gestantes clasificadas de alto riesgo obstétrico

Resumo

Objetivou-se compreender as atitudes de colaboração interprofissional na assistência ao parto das gestantes classificadas como de alto risco obstétrico. Pesquisa qualitativa, com 19 profissionais de saúde do centro obstétrico de um hospital universitário do Rio de Janeiro. Os dados foram coletados de fevereiro a abril de 2022, por meio de entrevista semiestruturada, e processados no Iramuteq. Classificação hierárquica descendente mostra que as atitudes de colaboração são mais frequentes entre profissionais da mesma categoria e as rotinas que vão ao encontro da colaboração interprofissional. Apesar de possuírem conhecimentos acerca das atitudes de colaboração, essas não se concretizam na assistência, haja vista as fragilidades identificadas nos quatro domínios da colaboração interprofissional: relacional, expressa nas relações hierarquizadas; processual, relativa aos problemas comunicacionais; organizacional, diante do não reconhecimento desse domínio pelos participantes; e contextual, manifestada na cooperação percebida apenas entre profissionais da mesma categoria.

Palavras-chave
Relações interprofissionais; Equipe de assistência ao paciente; Gravidez de alto risco; Maternidades; Parto


Abstract

The aim was to understand the attitudes of interprofessional collaboration in childbirth care for women with high-risk pregnancy. This is a qualitative study with 19 health professionals from the obstetric center of a university hospital in Rio de Janeiro. Data were collected from February to April 2022 through semi-structured interviews and processed in IRAMUTEQ. Descending hierarchical classification shows that collaborative attitudes are more frequent among professionals in the same category and routines that are in line with interprofessional collaboration. Despite having knowledge about collaborative attitudes, these do not materialize in care, given the weaknesses identified in the four domains of interprofessional collaboration: relational, expressed in hierarchical relationships; procedural, related to communication problems; organizational, given the lack of recognition of this domain by participants; and contextual, manifested in the cooperation perceived only among professionals in the same category.

Keywords
Interprofessional relations; Patient care team; Pregnancy; High-risk; Hospitals maternity; Parturition


Resumen

El objetivo es discutir los conflictos en los procesos de trabajo y salud-enfermedad relacionados con la estabilidad de empleo de los metalúrgicos con restricciones laborales en la región de Campinas, São Paulo, Brasil. La metodología, caracterizada como construcción compartida de conocimientos, incluyó la realización de entrevistas, análisis documental y observación participante, entre 2019-2022. Los resultados señalan las acciones empresariales para promover la descaracterización del nexo trabajo-enfermedad, impedir el acceso a la estabilidad y despedir a los obreros enfermos. Los trabajadores viven ese proceso de forma penosa, pero, con el apoyo sindical, desarrollan formas de resistencia con el objetivo de mantener la estabilidad y proteger la salud. El estudio brinda contribuciones para las políticas de salud y protección social al destacar la dimensión colectiva de la determinación de la salud-enfermedad laboral, además de la necesidad de movilizar a diferentes instituciones y agentes en la producción de conocimiento y acciones para la lucha por la salud.

Palabras clave
Salud del trabajador; Protección social en salud; Sindicatos; Condiciones de trabajo


Introdução

A colaboração interprofissional caracteriza-se por um modo de organização do trabalho em saúde em que diferentes categorias atuam conjuntamente em uma atividade comum ou em um projeto coletivo para o atendimento das necessidades e demandas de saúde de pessoas e comunidades. Nesse processo, os profissionais possuem papéis definidos e estabelecem relações de interdependência no ambiente laboral olhando para os problemas sob diferentes perspectivas, mas valorizando as distintas expertises e reconhecendo as contribuições que as diversas disciplinas agregam à integralidade da assistência1-4.

Do ponto de vista operacional, a colaboração interprofissional abarca quatro domínios: relacional, que abrange a hierarquia, as disputas e as relações entre os membros da equipe; processual, referente ao ambiente de trabalho e à disponibilidade de recursos para a cooperação; organizacional, expresso em princípios da gestão que impulsionam a colaboração e o compartilhamento dos objetivos assistenciais; e contextual, manifestado nos aspectos que interferem na cooperação entre os profissionais, como a cultura e as questões de gênero5. Nesse contexto, as atitudes de colaboração interprofissional perpassam pela comunicação clara, pelo respeito aos diferentes saberes e práticas, pelas demonstrações de empatia, confiança, civilidade, resiliência e eticidade, bem como pela partilha de responsabilidades e decisões6.

Contudo, assumir essas atitudes é desafiador para os gestores, que devem implementar arranjos organizacionais impulsionadores de uma cultura de comunicação e cooperação na equipe, envolvendo regras comuns e claras, sistemas de informação apropriados e disponibilização de tempo, espaço e recursos para problematizar coletivamente situações do cotidiano laboral. Por outro lado, os profissionais precisam romper as barreiras que os separam, se mostrarem receptivos para se familiarizar com a base de conhecimentos das diferentes profissões e negociar formas de trabalho para a produção do cuidado em saúde, sem fragmentações, hierarquias ou sobreposição de funções e tarefas7.

Nessa perspectiva, evidencia-se que, em muitas instituições de saúde, persistem estruturas organizacionais hierarquizadas em que os saberes e práticas médicas são mais valorizadas e se sobrepõem aos conhecimentos de outras profissões. Tal conjuntura pode ser percebida na obstetrícia brasileira, na qual as enfermeiras obstétricas se deparam com a hegemonia e a centralidade da categoria médica na assistência ao parto, culminando no uso excessivo de intervenções, muitas vezes desnecessárias e sem o devido consentimento da mulher, e na desvalorização do saber-fazer da enfermagem obstétrica8,9.

Por isso, a implementação da colaboração interprofissional nesse campo tem se deparado com barreiras relacionadas ao desconhecimento dos profissionais de saúde sobre as diferentes funções e responsabilidades dos membros da equipe; ao déficit de profissionais; ao pouco tempo disponível para o diálogo; à fragmentação do serviço; e às dificuldades para compartilhar informações7. No entanto, cabe ressaltar que as atitudes de colaboração interprofissional na assistência obstétrica se associam ao alcance de resultados maternos e perinatais favoráveis e à promoção do cuidado centrado na mulher, na humanização, na segurança e em experiências positivas com a gestação e o parto6,10.

Nesse sentido, compreende-se a relevância da efetivação desse modo de organização do trabalho em saúde na assistência às gestações classificadas como de alto risco, visto que 10% a 20% das gestantes podem apresentar intercorrências na gravidez e no parto, as quais demandam cuidados de diferentes categorias profissionais para o oferecimento de cuidados sensíveis e integrais, com vistas a manter o bem-estar materno e fetal, prevenir complicações e evitar desfechos obstétricos e neonatais desfavoráveis8,11.

Diante desses apontamentos e da lacuna na produção científica brasileira sobre a temática no campo obstétrico, esse estudo objetivou compreender as atitudes de colaboração interprofissional na assistência ao parto das gestantes classificadas como de alto risco obstétrico.

Metodologia

Trata-se de uma pesquisa qualitativa que seguiu as recomendações do checklist Consolidated criteria for Reporting Qualitative research (COREQ).

O cenário de estudo foi o centro obstétrico da maternidade de um hospital universitário do Rio de Janeiro, RJ, Brasil, referência no atendimento das mulheres classificadas como de alto risco obstétrico que necessitam de cuidados terciários, sendo um espaço de formação de profissionais de saúde e desenvolvimento de pesquisas científicas.

Os participantes da pesquisa foram 19 profissionais de saúde que atuam no referido setor. Como critérios de inclusão, considerou-se ser lotado no centro obstétrico e desenvolver atividades laborais no setor há, pelo menos, um ano, por compreender que esse é um período mínimo para a adaptação do trabalhador à dinâmica do serviço. Foram excluídos os profissionais afastados por licença ou em gozo de férias durante o período de coleta de dados, assim como os residentes e estudantes de qualquer curso e nível de formação, visto que esses agentes são transitórios na instituição.

A coleta de dados aconteceu no período de fevereiro a abril de 2022. Para a coleta dos dados, utilizou-se a técnica da entrevista individual, seguindo um roteiro semiestruturado dividido em duas partes: a primeira contendo perguntas para levantar dados de caracterização dos participantes (sexo, idade, categoria profissional, vínculo empregatício e tempos de atuação na obstetrícia, na assistência às gestações de alto risco e no setor); e a segunda composta por quatro questões abertas, como: “O que você entende por colaboração interprofissional? Quais atitudes colaborativas você identifica/percebe no seu ambiente de trabalho? Quais fatores influenciam essas atitudes? De que forma essas atitudes podem impactar o cuidado obstétrico às parturientes de alto risco?”.

A captação intencional dos profissionais aconteceu durante o turno de trabalho por meio da abordagem presencial para esclarecimentos sobre a pesquisa, seguida do convite para participação no estudo. Após a manifestação do interesse, foi agendada uma data para a realização da entrevista presencial, conforme a disponibilidade do participante.

Esse processo foi realizado por duas autoras, graduandas à época e previamente treinadas, que se revezaram na condução das entrevistas, as quais aconteceram na presença de uma delas e do profissional em uma sala do setor com a privacidade necessária e sem interferir na rotina assistencial. Com a autorização dos participantes, as entrevistas foram gravadas e, utilizando-se um aplicativo de gravador de áudio, tiveram a duração média de 25 minutos e posteriormente transcritas na íntegra. Esse material foi enviado aos participantes que validaram o conteúdo transcrito de suas entrevistas.

Cabe esclarecer que foi realizado um teste piloto, o qual indicou a adequação do instrumento e, por isso, a entrevista foi incluída no estudo. Ao longo da coleta dos dados, houve três perdas devido ao não agendamento da entrevista após algumas tentativas e a recusa de um profissional médico, com a justificativa de que somente o chefe do setor estaria apto a responder. Ainda, para o encerramento da coleta de dados, se utilizou a saturação temática indutiva quando os participantes não acrescentavam novas informações à pesquisa, o que foi identificado na décima sétima entrevista e confirmado com a realização de mais duas.

Os dados foram processados pelo Iramuteq® (Interface de R pour lês Analyses Multidimensionnelles de Textes et de Questionnaires - versão 0.7 alpha 2) e analisados pela Classificação Hierárquica Descendente (CHD) que, por meio de cálculos estatísticos, categoriza os Segmentos de Texto (ST) mediante os vocábulos presentes no corpus, separando-os com base na frequência (f) de suas formas reduzidas e nos valores de qui-quadrado (x2)12.

Assim, dos 19 textos processados pelo software, foram obtidos 217 ST de um total de 244, resultando no aproveitamento de 88,93%, superior à recomendação de retenção mínima de 75%12. Esse corpus foi dividido em quatro classes, de modo que a primeira partição gerou dois subcorpus que compuseram dois blocos temáticos, os quais foram interpretados e discutidos à luz da produção científica sobre as temáticas de colaboração interprofissional e assistência obstétrica, visto que o estudo não utilizou um referencial teórico específico.

O preparo do corpus, seu processamento no software e a análise da CHD foram desenvolvidas pelas duas autoras que conduziram as entrevistas e realizaram a transcrição do material, sendo essas etapas revisadas por outras duas autoras, docentes com Doutorado e experiência em pesquisas qualitativas.

O estudo foi conduzido de acordo com as diretrizes éticas, sendo aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa por meio do parecer número 5.222.054 de 3 de fevereiro de 2022. O TCLE foi obtido de todos os indivíduos envolvidos na pesquisa, com a garantia da participação voluntária e do anonimato, que foi preservado com o uso da letra E, relativa ao termo “entrevistado”, acompanhada de um algarismo que representa a ordem de realização da entrevista, do sexo do participante, da sua idade e, por fim, da categoria profissional.

Resultados

Participaram da pesquisa, 19 profissionais de saúde, os quais são sete enfermeiras, seis médicos e seis técnicas de enfermagem. A maioria é do sexo feminino (16) e possui mais de quarenta anos (16). Sobre o tempo de atuação em serviços obstétricos de alto risco, 12 participantes atuam entre um e 15 anos e sete desenvolvem atividades nesse âmbito assistencial por mais de 16 anos. No que se refere ao tempo de atuação no cenário do estudo, dez profissionais têm entre nove e 16 anos; seis, entre um e oito anos; e três, mais de 16 anos. Sobre o vínculo empregatício com a instituição do estudo, 15 são servidores públicos concursados e quatro participantes não especificaram o tipo de vinculação.

A análise da CHD deu origem a quatro classes que foram organizadas em dois blocos temáticos, conforme o dendograma representado na Figura 1, em que os valores do teste qui-quadrado (x2/ p<0,0001) mostram a força de associação dos léxicos com a classe.

Figura 1
Dendograma das repartições em classes e os léxicos mais significativos segundo a CHD. Rio de Janeiro, Brasil, 2022.

A primeira partição dividiu o corpus em dois blocos. O primeiro bloco gerou a classe 1, representada por 36,41% do material e composta por 79 ST, e a classe 4, com 22,12% e 48 ST. Concomitantemente, no segundo bloco, surgiram a classe 2, com 24,42% e 53 ST, e a classe 3, com 17,05% e 37 ST.

Com base nos conteúdos e léxicos de cada classe, o bloco temático 1, intitulado “A realidade da colaboração interprofissional na assistência ao parto das gestantes de alto risco obstétrico”, abarca as classes 1 e 4. Já o bloco temático 2, denominado de “Percepções da equipe de enfermagem e de medicina sobre colaboração interprofissional”, é composto pelas classes 2 e 3.

Classe 1 - Atitudes de colaboração interprofissional e suas barreiras no cotidiano do trabalho

Os ST revelam que as atitudes de colaboração são mais frequentes dentro da mesma categoria profissional, prevalecendo essa percepção entre as enfermeiras e técnicas de enfermagem, em consonância com o léxico mais representativo dessa classe (“enfermagem”, “mais”, “também”, “só”, “participar” e “medicar”).

No entanto, reconhecem que essas atitudes estão presentes na relação com alguns médicos, que são mais colaborativos, empáticos e ouvem outras opiniões, ao passo que, para esses profissionais, as atitudes de colaboração no cotidiano do trabalho se expressam na possibilidade de discordâncias acerca da atuação e na dinâmica do plantão noturno, em que eles se responsabilizam pelas urgências.

A enfermagem se ajuda. Os médicos, a gente vê que eles também se ajudam. Mas interprofissional é um pouco mais difícil!

(E7 *feminino *57 *técnica_de_enfermagem)

Bem mais específico entre a equipe de enfermagem mesmo! Acho que a formação pessoal, a criação da pessoa, o jeito da pessoa lidar com outras pessoas…

(E2 *feminino *36 *enfermagem)

Isso vai mais especificamente da relação médico-enfermagem. Por exemplo, durante o trabalho de parto, no qual um pode discordar do outro em relação à atuação naquele momento.

(E5 *masculino *52 *medicina)

À noite, a gente acaba ficando mais para urgências e acabo contando mais com o setor de enfermagem.

(E18 *masculino *45 *medicina)

Entre os médicos e a gente, tem alguns que são bem colaborativos e juntos com a enfermagem.

(E16 *feminino *45 *técnica_de_enfermagem)

Tem pessoas que são mais empáticas. Tem pessoas que não se importam em ouvir a opinião dos outros.

(E1 *feminino *38 *enfermagem)

Ao mesmo tempo, relatam atitudes, comportamentos e rotinas que vão ao encontro da colaboração interprofissional, a saber: problemas na comunicação; hierarquia; rotinas assistenciais sem papéis e responsabilidades definidas; e realização de discussões clínicas entre os médicos, sem a participação da enfermagem.

E também a formação profissional. A gente vê categorias que não sabem lidar com a equipe multiprofissional de forma coesa, coerente, equitativa…

(E2 *feminino *36 *enfermagem)

Só percebo mais ordens ou, então, delegando que essa função é sua, da enfermagem.

(E4 *feminino *50 *enfermagem)

A rotina do setor, que deveria ser mais específica quanto aos papéis de cada um e a chefia também.

(E4 *feminino *50 *enfermagem)

Não só de medicina, como a enfermagem! Se precisasse, psicólogo, fisioterapeuta… Todo mundo deveria participar de um round em prol do paciente. Para o melhor para o paciente!

(E15 *feminino *42 *técnica_de_enfermagem)

Classe 4 - Fatores associados às atitudes de colaboração interprofissional

Tendo em vista os léxicos mais significativos dessa classe (“coisa”, “aqui”, “estar”, “examinar”, “acontecer” e “estresse”), os ST mostram que, no cotidiano da assistência obstétrica de alto risco, os participantes percebem que as atitudes de colaboração interprofissional favorecem a identificação oportuna de erros e intercorrências. Porém, apontam a sobreposição de papéis como um fator gerador de estresse para as mulheres internadas.

Então, eu acho que é basicamente isso… Quando a enfermeira vem e fala: “acho que tem uma coisinha errada aqui!”.

(E17 *feminino *50 *medicina)

Eles escutam quando a gente informa que está acontecendo alguma coisa. Quando a gente não concorda com alguma metodologia que eles estão aplicando, pelo menos, os médicos daqui.

(E17 *feminino *50 *medicina)

Facilita também todo mundo ali junto porque todo mundo vai fazer praticamente a mesma coisa: você examina.

(E6 *feminino *40 *técnica_de_enfermagem)

Elas já são bastante mexidas porque, aqui, a gente tem residente, técnico, staff…

(E2 *feminino *36 *enfermagem)

Elas [pacientes] ficam mais em dúvida. Às vezes, as informações são desordenadas! Um fala uma coisa, depois, outro fala outra.

(E4 *feminino *50 *enfermagem)

Classe 2 - Conhecimentos sobre as atitudes de colaboração interprofissional

Os léxicos de maior associação com essa classe foram “trabalhar em conjunto”, “bem-estar”, “colaborar”, “assistência”, “bom” e “conjunto”, de modo que os ST mostram os conhecimentos dos participantes sobre as atitudes de colaboração interprofissional, as quais compreendem o compartilhamento dos cuidados e das decisões entre profissionais de diferentes categorias, em que os membros da equipe trabalham em conjunto tendo como objetivo comum o bem-estar da paciente. Nesse sentido, destacam que o profissionalismo, o respeito, a união, o bom relacionamento e o reconhecimento das funções de cada um são aspectos fundamentais.

O profissionalismo e o respeito pelo trabalho. Uma equipe que colabora, que quer trabalhar em conjunto e unida, é uma equipe que vai prestar um atendimento, provavelmente, melhor à gestante.

(E19 *feminino *54 *medicina)

Eu acho que é quando profissionais de várias áreas… Sejam atividades de ensino, atividades laborais… Optam por trabalhar em conjunto visando o bem-estar da sua clientela.

(E9 *feminino *53 *enfermagem)

O principal é o bom relacionamento das equipes profissionais. E o médico entender que as outras equipes são tão importantes nas suas funções quanto o médico no atendimento à paciente.

(E5 *masculino *52 *medicina)

Acho que, quando você tem uma equipe multiprofissional, o que você traça como objetivo, de conduta, o tratamento é compartilhado e todos os membros de cada equipe colaboram para que aquele objetivo seja atendido.

(E8 *feminino *50 *enfermagem)

Classe 3 - Compreensão acerca da colaboração interprofissional

Os léxicos mais expressivos dessa classe foram “colaboração”, “pensar”, “colega”, “dentro”, “entender” e “equipe”, revelando que os ST dos participantes mostram a compreensão deles sobre a colaboração interprofissional. Nessa perspectiva, apontam que se trata de profissionais da mesma área e de áreas diferentes que trabalham como uma equipe única, estabelecem relações de apoio e ajuda com empatia, e se comunicam para atingir um objetivo comum na assistência.

Eu entendo por colaboração quando a gente trabalha em um ambiente onde os colegas de trabalho, os profissionais da mesma área e de áreas diferentes se comunicam para atingir um objetivo comum.

(E13 *feminino *45 *enfermagem)

Eu entendo assim: ser uma equipe única, tentar ajudar um ao outro, sendo uma única equipe, pensando sempre no outro.

(E17 *feminino *50 *medicina)

Todo mundo pensar dentro da equipe que a causa final de tudo é a resolução, tanto da parte técnica quanto da parte humana da paciente.

(E18 *masculino *45 *medicina)

Discussão

Os resultados desse estudo mostram que os participantes compreendem a colaboração interprofissional como um modo de trabalho no qual profissionais de diferentes áreas trabalham em equipe e compartilham as decisões, tendo como objetivo comum o bem-estar das parturientes classificadas como de alto risco.

Essa compreensão está em consonância com o conceito de colaboração interprofissional, que perpassa pela relação empática, harmônica e de interdependência entre profissionais com formações distintas, os quais aprendem e atuam em conjunto, engajando-se em um processo de trabalho compartilhado na perspectiva da clínica ampliada. Para tanto, utilizam a cooperação, a comunicação e a negociação com compromisso, responsabilidade, confiança, diálogo, respeito e partilha de recursos, conhecimentos, experiências e poderes, com vistas ao alcance de objetivos coletivos1-3.

Assim, esse modo de organização da assistência transcende o trabalho em equipe, definido como a atuação de um pequeno grupo de profissionais que identificam as demandas de indivíduos e coletividades, agindo por meio de ações integradas dentro de um projeto assistencial singular. Ao mesmo tempo, também ultrapassa a noção de prática colaborativa, concebida como ações de saúde em que as competências de cada categoria profissional são sinergicamente colocadas em prática com parceria e responsabilidade coletiva, sem que haja competição entre as diferentes áreas3,6.

A dinâmica de trabalho colaborativo interprofissional possibilita uma visão complexa das situações a serem enfrentadas1,6, necessária ao atendimento às gestações de alto risco, visto que trata de condições decorrentes de intercorrências obstétricas e agravos à saúde, os quais podem resultar em desfechos maternos e neonatais desfavoráveis13.

Nesse contexto, que exige cuidados intensivos de diversos campos de conhecimento, a colaboração interprofissional emerge como um modo de reduzir o uso abusivo de opióides e assegurar o oferecimento de cuidados qualificados às mulheres, de acordo com um estudo realizado em um hospital dos Estados Unidos13. Outrossim, uma investigação em 61 unidades de saúde da Tanzânia verificou que a implementação da colaboração interprofissional foi eficaz para o manejo das situações hemorrágicas graves e de outras condições de risco à saúde materna e perinatal, favorecendo também a redução de custos e a satisfação das mulheres e suas famílias14.

Cabe apontar que a associação entre a colaboração interprofissional e o desenvolvimento de cuidados centrados na mulher se reverte em melhoria da qualidade da assistência e da capacidade de tomada de decisão, oportuniza a problematização do uso dos recursos disponíveis e da comunicação oral e escrita, estimula as competências dos profissionais e a adoção de práticas baseadas em evidências científicas13,15.

No cotidiano do trabalho em saúde sob perspectiva da colaboração interprofissional, destaca-se a essencialidade das atitudes de respeito por meio do reconhecimento dos papéis e das especificidades de cada categoria, o que perpassa pela compreensão de que a autonomia profissional é relativa diante da interdependência dos saberes e das práticas de cada área para a efetivação da integralidade do cuidado1,4.

Ainda que os participantes não tenham identificado o reconhecimento do trabalho do outro como uma atitude de colaboração interprofissional, eles compreendem a importância das relações simétricas de poder e do respeito mútuo como fatores facilitadores do trabalho colaborativo no cenário estudado, que propiciam a identificação de erros e intercorrências na assistência obstétrica, conforme evidenciado em outras pesquisas8,15,16.

Por outro lado, seus discursos revelam problemas de comunicação entre as equipes médica e de enfermagem, expressos na realização de discussões clínicas entre os médicos e sem a participação da enfermagem, bem como na existência de hierarquia entre as profissões e de rotinas assistenciais sem papéis ou responsabilidades claramente definidas. Essa configuração revela os fatores limitadores da colaboração interprofissional, os quais são ratificados pelo fato de as enfermeiras e técnicas de enfermagem reconhecerem que essas atitudes colaborativas são mais frequentes entre os profissionais da enfermagem e, com os médicos, dependem das características individuais de cada um, denotando que a colaboração interprofissional no cenário dessa pesquisa está muito mais no plano discursivo do que nas práticas concretas.

Esses achados se assemelham aos encontrados em investigações realizadas na Turquia, em Botsuana e na Holanda, que constataram um nível frágil de colaboração entre médicos e enfermeiras decorrente da falta de compreensão dos papéis e responsabilidades de cada um, da coordenação ineficaz de recursos, das disputas de poder e da liderança colaborativa deficiente17-19. Ademais, é comum as enfermeiras serem mais favoráveis às atitudes colaborativas, conforme encontrado em pesquisas realizadas em uma unidade básica de saúde no Brasil3 e em hospitais da Jordânia20, do Irã21,22, do Líbano2,23 e da Holanda19.

Corroborando, um estudo americano com residentes médicos encontrou que profissionais de especialidades mais focadas em procedimentos tinham menos atitudes colaborativas24. Ao mesmo tempo, verifica-se que a autonomia da enfermagem é mais frágil em unidades cirúrgicas e maternidades quando comparada com a atuação dessas profissionais em setores de enfermarias clínicas de um hospital da Arábia Saudita25.

Assim, evidencia-se que a implementação da colaboração interprofissional no âmbito da obstetrícia tem se mostrado desafiadora e se configurado como um fator estressante, inclusive para as parturientes. Dentre as principais limitações, destacam-se: o déficit de recursos humanos; o pouco tempo disponível para o diálogo; a fragmentação do serviço; e as dificuldades para compartilhar funções, responsabilidades e informações7, conforme relatado pelas enfermeiras e técnicas de enfermagem deste estudo.

Cabe ressaltar que a colaboração interprofissional se organiza em quatro domínios: relacional, processual, organizacional e contextual. O primeiro abrange as relações interprofissionais, perpassando pelo poder e pela hierarquia5, aspectos esses considerados como desafios pela equipe de enfermagem desta pesquisa, pois relatam que os médicos delegam e dão ordens aos outros membros da equipe.

O domínio processual trata da complexidade do ambiente laboral e das tarefas, suas interfaces com as práticas dos profissionais e o modo pelo qual elas afetam o trabalho em equipe5. Nessa perspectiva, evidencia-se a fragilidade desse domínio entre os participantes do estudo, os quais reconhecem a importância do ambiente colaborativo e do diálogo; no entanto, observa-se que a maioria dos entrevistados é composta por profissionais da enfermagem que identificam problemas na comunicação com a equipe médica, a qual não tem a mesma percepção, em consonância com os achados de outras pesquisas19,25.

No tocante ao domínio organizacional, que abarca a importância das estruturas organizacionais da instituição para impulsionar a pactuação de objetivos assistenciais comuns e a colaboração interprofissional5, nota-se que os participantes não as reconhecem como um fator influente nas atitudes colaborativas, visto que nenhum dos léxicos de destaque remete à gestão do serviço.

Já o domínio contextual envolve os aspectos culturais, políticos, sociais e econômicos que influenciam os comportamentos cooperativos entre os profissionais de saúde5. Nessa perspectiva e considerando que os resultados mostram o predomínio da cooperação entre os participantes da mesma categoria, infere-se que essa dimensão da colaboração interprofissional também se encontra fragilizada no cenário deste estudo, possivelmente por questões relacionadas à configuração histórica do campo obstétrico brasileiro como um local hierarquizado em que médicos, detentores de conhecimentos masculinos e biomédicos, e enfermeiras, com práticas humanizadas que valorizam os saberes femininos, travam lutas para impor a sua visão de mundo8,16.

Ao mesmo tempo, tem-se que o modelo de formação prevalente nas instituições de ensino superior reproduz a lógica individualista do trabalho em saúde, pois os profissionais se isolam em núcleos disciplinares, resultando em um processo de ensino e aprendizagem uniprofissional e fragmentado que não permite experiências formativas de colaboração interprofissional3,26.

Diante desses apontamentos, constatam-se fragilidades em todos os domínios da colaboração interprofissional, sendo necessária a realização de investigações com os gestores, a fim de explorar o envolvimento desses agentes no incentivo a mudanças na assistência obstétrica baseadas na interprofissionalidade.

Por outro lado, como um fator positivo que pode corroborar a efetivação da colaboração interprofissional na realidade assistencial do cenário desta pesquisa, ressalta-se o fato de os profissionais terem noções conceituais sobre esse modo de organização do trabalho em saúde, ainda que o reconhecimento dos entraves para a concretização das atitudes colaborativas no cotidiano da assistência ao parto das gestantes classificadas como de alto risco obstétrico seja mais evidente nos discursos da enfermagem.

Nesse sentido, pondera-se que a dinâmica das equipes estudadas se aproxima do trabalho em equipe, mas não agrega o atributo interprofissional das práticas colaborativas, pois os participantes carecem de relações de reconhecimento, reciprocidade, compartilhamento, interdependência e respeito mútuo. Tal constatação associada à ausência de protocolos institucionais revela os pontos críticos a serem abordados em atividades de Educação Permanente.

Assim, os achados deste estudo oferecem subsídios para problematizar a dinâmica de trabalho, com foco na falta de comunicação e nas relações hierarquizadas que foram os principais fatores limitadores da colaboração interprofissional identificados. Além disso, por se tratar de um hospital universitário, também despontam reflexões sobre a formação em saúde, a qual precisa avançar no sentido de incorporar experiências de interprofissionalidade nos processos de ensino e aprendizagem dos cursos de Graduação e Pós-Graduação, promovendo assim o desenvolvimento de atitudes de colaboração nos futuros profissionais das diferentes categorias.

Tendo em vista a lacuna na produção de conhecimentos acerca da colaboração interprofissional na assistência obstétrica brasileira, esta pesquisa possui caráter inovador e potencial para fortalecer a produção científica sobre a temática, sobretudo no campo da enfermagem.

Como limitações do estudo, destaca-se a sobrecarga de trabalho dos profissionais do centro obstétrico e a dificuldade de retorno dos médicos à captação inicial, como questões que interferiram na adesão da totalidade dos membros das equipes à pesquisa. Acrescenta-se também o fato de os resultados representarem um setor de um único hospital universitário, sendo necessária a realização de novos estudos sobre as atitudes de colaboração interprofissional entre profissionais da atenção obstétrica dos demais setores, de hospitais com diferentes perfis de atendimento e de outras localidades, a fim de retratar as potencialidades e os desafios do trabalho colaborativo, especialmente no âmbito do alto risco obstétrico, em que a atuação das diferentes categorias profissionais é fundamental.

Conclusão

As atitudes de colaboração interprofissional na assistência às gestantes e parturientes classificadas como de alto risco são mais frequentes entre a equipe de enfermagem e pontuais com os médicos, haja vista os problemas na comunicação, a hierarquia e as rotinas assistenciais sem papéis e responsabilidades definidas. Assim, os conhecimentos dos participantes mostram um cenário ideal, caso o trabalho se desenvolvesse na perspectiva da interprofissionalidade. Em contrapartida, as atitudes revelam um cenário real, com os desafios que interferem na concretização da colaboração interprofissional.

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Editado por

  • Editor
    Roseli Esquerdo Lopes
  • Editora associada
    Gustavo Antonio Raimondi

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    11 Ago 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    13 Nov 2024
  • Aceito
    14 Maio 2025
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